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<noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />{{c|— 235 —}}</noinclude><section begin="105"/>femeas tem um bolso na barriga em que trazem sete e oito
filhos, até que são criados, que tantos parem.
Aos ratos das casas chamam os indios saviá, onde se criam
infinidade d’elles, os quaes são muito damninhos, e de dia
andam pelo mato, e de noite vem-se meter nas casas.
<section end="105"/>
<section begin="106"/>{{c|{{sc2|CAPITULO CVI.}}{{Tratado descriptivo do Brasil em 1587 (1879) ref|390|180}}}}
{{c|''Que trata dos cágados da Bahia.''}}
Em qualquer parte dos matos da Bahia se acham muitos
cágados, que se criam pelos pés das arvores, sem irem á
agua, a que os indios chamam jabuty; ha uns que são
muito maiores que os de Hespanha, mais altos e de mais
carne, e tem as conchas lavradas em compartimentos oitavados
de muito notavel feitio; os lavores dos compartimentos
são pretos, e o meio de cada um é branco e almecegado.
Estes cágados tem as mãos, pés, pernas, pescoço e
cabeça, cheios de verrugas tamanhas, como chicharos,
muito vermelhas, e agudas nas pontas; estes põem infinidade
de ovos, de que nascem em terra humida, onde criam
debaixo de arvoredo; mantem-se de frutas, que caem pelo
chão; e metidos em casa comem tudo quanto acham pelo
chão; cuja carne é muito gorda, saborosa e sadia para
doentes.
Ha outros cágados, que tambem se criam no mato, sem
irem á agua, a que os indios chamam jabutiapeba; os quaes
tem os mesmos lavores nas conchas, mas são muito amassados,
e tem as costas muito chas, e não tem verrugas; tem
pouca carne e mui saborosa: criam e mantem-se pela ordem
dos de cima.
Ha outras castas de cágados da feição dos de Hespanha,
a que os indios chamam {{errata|jabutemirim|jabutímerim}}, que se criam e andam
sempre na agua, que tambem são mui saborosos e medicinaes;
e dos que se criam na agua ha muitas castas de diversas
feições, que tem as mesmas manhas, e natureza, mas
mui differentes na grandura. E pareceu-me decente arrumar
n’este capitulo os cágados por serem animaes que se
criam na terra, e se mantem de frutas d’ella.
{{nop}}
<section end="106"/><noinclude>{{smallrefs|group="errata"}}</noinclude>
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Em Tradução:Повести покойного Ивана Петровича Белкина (Пушкин)/Барышня-крестьянка
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Thaissom
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Adição do quinto parágrafo e tradução de suas notas
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wikitext
text/x-wiki
{{em tradução}}
<div style="border: 1px solid #dfdfdf; background-color: #f8f9fa; padding: 12px; margin-bottom: 20px; border-radius: 4px; box-shadow: 0 1px 3px rgba(0,0,0,0.05); font-size: 95%;">
<div style="font-size: 130%; font-weight: bold; margin-bottom: 6px; text-align: center;">
[[s:ru:Повести покойного Ивана Петровича Белкина (Пушкин)/Барышня-крестьянка|Novelas do falecido Ivan Pietrôvitch Biêlkin<ref>Transcrição e Grafia: Nesta tradução de '''Alhexandr Púchkin''', os nomes de personagens e lugares não foram traduzidos, mas adaptados graficamente para o português. O objetivo é aproximar o leitor da verdadeira pronúncia russa, contornando as ambiguidades das habituais normas baseadas no inglês ou no francês. Já os cargos e títulos históricos da época foram traduzidos integralmente por seus equivalentes em nossa língua.
Os critérios práticos adotados para garantir essa sonoridade nativa são:
* '''Ortografia Nativa:''' Uso do '''C''' antes de A, O, U (em vez de ''K''), substituição sistemática do '''Y''' pelo '''I''' por ser a vogal natural da nossa língua, e rejeição do dígrafo '''QU''' devido à sua ambiguidade sonora (ex: ''Aculina'', ''Cúrotchkina'').
* '''Consoantes sem Estrangeirismos:''' Emprego de '''X''' para o som de /ks/ (como em ''táxi'') e do dígrafo '''CH''' para o som de /ch/ (como em ''chave''), evitando as construções não nativas ''ks'', ''cs'' ou ''sh'' (ex: ''Alhexandr'', ''Púchkin'').
* '''L Suave Espelhado:''' Representação do "л" palatalizado russo (<tt>[lʲ]</tt>) por meio de '''LH''' ou '''LHI''' diante de vogais suaves, mimetizando a fonética orgânica da nossa língua (ex: ''Saviêlhiev'', ''Alhexiêievski'').
* '''Acentuação Restritiva:''' O uso de acentos gráficos (agudo ou circunflexo) ocorre '''apenas''' quando estritamente necessário pelas leis da língua portuguesa para garantir que o estresse caia na sílaba correta (ex: ''Púchkin'', ''Pietrôvitch''; mas sem acento em ''Alhexandr'').</ref> (Púchkin) / A Senhorita-Camponesa]]
</div>
<div style="text-align: center; margin-bottom: 10px; color: #54595d;">
Por '''[[Autor:Alexandre Pushkin|Alhexandr Sierguiêievitch Púchkin]]''' (1831) — Traduzido por '''[[Usuário:Thaissom|Thaissom Schultz Conter]]'''
</div>
<hr style="border: 0; border-top: 1px solid #dfdfdf; margin: 8px 0;" />
<div style="font-size: 90%; color: #333; line-height: 1.5em;">
'''Notas de tradução:''' Tradução em andamento baseada no texto original russo da FEB ENI "Púchkin" (citado de: Púchkin, A. S. Coleção completa das composições: em 10 volumes — Leningrado: Naúca, 1978. — Volume 6. Prosa ficcional. — P. 99-115.). Texto original com acentos disponível em: [[s:ru:Повести покойного Ивана Петровича Белкина (Пушкин, текст с ударениями)/Барышня-крестьянка|Барышня-крестьянка]].
</div>
</div>
== Epígrafe ==
<div style="text-indent: 1.5em;">
<span style="color: red;">Во все́х ты, Ду́шенька, наря́дах хороша́. — Богдано́вич.</span>
</div>
<div style="text-indent: 1.5em;">
Em todas vestimentas, tu, minh’alma<ref>No original, utiliza-se o termo ''Dúchenhca'' (Душенька), diminutivo afetivo de ''duchá'' (душа, "alma"). Trata-se de um vocativo carinhoso e romântico usado para se referir a alguém querido. A escolha por "minh'alma" em português é a tradução ideal por preservar a raiz semântica do metalínguo original e manter o mesmo teor lírico.</ref>, vês-te bonita. — Bogdanôvitch.
</div>
== Parágrafo 1 ==
<div style="text-indent: 1.5em;">
<span style="color: red;">В одной из отдаленных наших губерний находилось имение Ивана Петровича Берестова. В молодости своей служил он в гвардии, вышел в отставку в начале 1797 года, уехал в свою деревню и с тех пор он оттуда не выезжал. Он был женат на бедной дворянке, которая умерла в родах, в то время, как он находился в отъезжем поле. Хозяйственные упражнения скоро его утешили. Он выстроил дом по собственному плану, завел у себя суконную фабрику, утроил доходы и стал почитать себя умнейшим человеком во всем околодке, в чем и не прекословили ему соседи, приезжавшие к нему гостить с своими семействами и собаками. В будни ходил он в плисовой куртке, по праздникам надевал сертук из сукна домашней работы; сам записывал расход, и ничего не читал, кроме Сенатских Ведомостей. Вообще его любили, хотя и почитали гордым. Не ладил с ним один Григорий Иванович Муромский, ближайший его сосед. Этот был настоящий русский барин. Промотав в Москве большую часть имения своего, и на ту пору овдовев, уехал он в последнюю свою деревню, где продолжал проказничать, но уже в новом роде. Развел он английский сад, на который тратил почти все остальные доходы. Конюхи его были одеты английскими жокеями. У дочери его была мадам англичанка. Поля свои обрабатывал он по английской методе:</span>
</div>
<div style="text-indent: 1.5em;">
Em uma das nossas afastadas províncias encontrava-se a casa-grande<ref>O termo original ''imiênie'' (имение) designa a propriedade rural de um nobre na Rússia imperial, englobando as terras e a residência senhorial. A opção por "casa-grande" constitui uma adaptação cultural que traduz, no contexto lusófono, o mesmo centro de autoridade econômica, social e patriarcal representado pela propriedade russa da época.</ref> de Ivan Pietrôvitch Biêriestov. Em sua juventude, ele serviu na Guarda, abdicou do cargo no começo do ano de 1797, partiu para sua aldeia e, desde então, de lá não saiu. Ele foi casado com uma pobre fidalga, a qual morreu em meio ao parto enquanto ele caçava em um campo remoto<ref>A expressão original ''otiêzjieie polhe'' (отъезжее поле) era um termo técnico da nobreza russa do século XIX para designar terras e bosques distantes da propriedade senhorial, destinados exclusivamente a longas expedições de caça com matilhas e cavalos. A tradução contextual "caçava em um campo remoto" preserva tanto o isolamento geográfico do local quanto a natureza da atividade realizada pelo personagem.</ref>. As atividades de gestão doméstica logo consolaram-no. Ele ergueu uma casa por seu próprio plano, estabeleceu nas suas terras uma fábrica de lã batida, triplicou suas rendas e passou a considerar-se a pessoa mais esperta de toda a redondeza, no que, de fato, não o contradiziam os vizinhos, que chegaram de visita com suas famílias e cachorros. Nos dias úteis, andava em um casaco de veludilho; nos feriados, vestia uma sobrecasaca de lã batida caseira; ele mesmo registrava os gastos, e não havia lido nada, a não ser o Boletim do Senado. Em geral, amavam-no, ainda que o consideravam orgulhoso. Não se entrosava com ele somente Grigóri Ivánovitch Múromski, seu vizinho mais próximo. Este era um autêntico grão-senhor<ref>O termo original ''bárin'' (барин) designa o nobre fidalgo e proprietário de terras na Rússia imperial. A tradução por "grão-senhor" foi adotada por evocar com precisão o caráter aristocrático, a opulência e a soberania social dessa figura histórica, evitando termos genéricos como "senhor" ou "patrão".</ref> russo. Tendo esbanjado, em Moscou, a maior parte de seus bens e, nessa altura, tornado-se viúvo, partiu ele para a última aldeia sua, onde seguiu travesseando, mas já de nova forma. Plantou ele um jardim inglês, no qual gastou quase todas suas rendas restantes. Seus cocheiros ficavam vestidos de jóqueis ingleses. Sua filha tinha uma governanta inglesa. Seus campos, cultivava ao método inglês:</div>
== Parágrafo 2 ==
<div style="text-align: center;">
<span style="color: red;">[[s:ru:Сатира_первая_(Шаховской)|Но на чужой манер хлеб русский не родится,]]</span>
</div>
<div style="text-indent: 1.5em;">
<span style="color: red;">и не смотря на значительное уменьшение расходов, доходы Григорья Ивановича не прибавлялись; он и в деревне находил способ входить в новые долги; со всем тем почитался человеком не глупым, ибо первый из помещиков своей губернии догадался заложить имение в Опекунской Совет: оборот, казавшийся в то время чрезвычайно сложным и смелым. Из людей, осуждавших его, Берестов отзывался строже всех. Ненависть к нововведениям была отличительная черта его характера. Он не мог равнодушно говорить об англомании своего соседа, и поминутно находил случай его критиковать. Показывал ли гостю свои владения, в ответ на похвалы его хозяйственным распоряжениям: «Да-с!» говорил он с лукавой усмешкою; «у меня не то, что у соседа Григорья Ивановича. Куда нам по-английски разоряться! Были бы мы по-русски хоть сыты». Сии и подобные шутки, по усердию соседей, доводимы были до сведения Григорья Ивановича с дополнением и объяснениями. Англоман выносил критику столь же нетерпеливо, как и наши журналисты. Он бесился и прозвал своего зоила медведем и провинциалом.</span>
</div>
<div style="text-align: center;">[[s:ru:Сатира_первая_(Шаховской)|Mas, à moda alheia, trigo russo não nasce,]]
</div>
<div style="text-indent: 1.5em;">
e, apesar da significativa queda das despesas, as rendas de Grigóri Ivánovitch não subiam; ele, ainda na aldeia, encontrava meios de contrair novas dívidas; com tudo isso, era considerado um homem nada tolo, porquanto foi o primeiro dos proprietários de terra da sua província a ter a astúcia de hipotecar sua propriedade no Conselho de Tutela: reviravolta que parecia, naquele tempo, extremamente complexa e ousada. Das pessoas que o condenavam, Biêriestov se exprimia da forma mais severa de todas. O ódio às inovações era um traço distintivo de seu caráter. Ele não conseguia falar indiferentemente sobre a anglomania do seu vizinho e a cada minuto encontrava uma oportunidade para criticá-lo. Caso mostrasse à visita suas posses, em resposta aos louvores por sua gestão administrativa: "Sim, senhor!", dizia ele com um sorriso astuto; "eu não tenho o que o vizinho Grigóri Ivánovitch tem. Quem somos nós para falirmos à moda inglesa! Ao menos se estivéssemos saciados à russa". Estas e outras piadas similares, graças ao empenho dos vizinhos, eram entregues ao conhecimento de Grigóri Ivánovitch com complemento e explicações. O anglomaníaco tolerava a crítica tão impacientemente quanto os nossos jornalistas. Ele endemoniava-se<ref>O verbo original ''biecítsa'' (беситься) deriva etimologicamente do substantivo ''biês'' (бес, "demônio" ou "espírito maligno"). Embora usado habitualmente como sinônimo de "enfurecer-se", a opção por "endemoniava-se" resgata a raiz filológica do termo russo, enriquecendo o texto literário ao evocar uma fúria cega e de proporções desmedidas.</ref> e chamava seu detrator de urso e provinciano.
</div>
== Parágrafo 3==
<div style="text-indent: 1.5em;">
<span style="color: red;">Таковы были сношения между сими двумя владельцами, как сын Берестова приехал к нему в деревню. Он был воспитан в *** университете и намеревался вступить в военную службу, но отец на то не соглашался. К статской службе молодой человек чувствовал себя совершенно неспособным. Они друг другу не уступали, и молодой Алексей стал жить покамест барином, отпустив усы на всякий случай<ref>Вариант автографа содержит пояснение: «в надежде будущего гусарства».</ref>.</span>
</div>
<div style="text-indent: 1.5em;">
Assim eram as relações entre estes dois proprietários, no momento em que o filho de Biêriestov chegou à sua aldeia. Ele fora educado na universidade *** e pretendia ingressar no serviço militar, mas seu pai com isso não concordava. Para o serviço civil, o moço se sentia completamente incapaz. Eles não cediam um ao outro, e o jovem Alexei passou a viver, por ora, como fidalgo, tendo deixado seu bigode crescer por via das dúvidas<ref>A variante do autógrafo contém o esclarecimento: "na esperança de um futuro posto nos hussardos.</ref>.</div>
== Parágrafo 4 ==
<div style="text-indent: 1.5em;">
<span style="color: red;">Алексей был, в самом деле, молодец. Право было бы жаль, если бы его стройного стана никогда не стягивал военный мундир, и если бы он, вместо того, чтобы рисоваться на коне, провел свою молодость согнувшись над канцелярскими бумагами. Смотря, как он на охоте скакал всегда первый, не разбирая дороги, соседи говорили согласно, что из него никогда не выйдет путного столоначальника. Барышни поглядывали на него, а иные и заглядывались; но Алексей мало ими занимался, а они причиной его нечувствительности полагали любовную связь. В самом деле, ходил по рукам список с адреса одного из его писем: ''Акулине Петровне Курочкиной, в Москве, напротив Алексеевского монастыря, в доме медника Савельева, а вас покорнейше прошу доставить письмо сие А. Н. Р.''</span>
</div>
<div style="text-indent: 1.5em;">
Alexei era, de fato, um mancebo heroico. Realmente seria uma pena se seu esbelto porte nunca fosse cingido por uma farda militar de gala, e se ele, ao invés de se exibir a cavalo, passasse sua juventude debruçado sobre papéis de escritório. Vendo como na caça ele sempre galopava primeiro, sem decifrar os caminhos, os vizinhos falavam com unanimidade que dele nunca se faria um chefe de seção competente. As nobres moças lhe lançavam olhares de relance, e algumas ainda se perdiam nele; mas Alexei pouco lhes dava atenção, e elas atribuíam o motivo de sua insensibilidade a um caso amoroso. De fato, corria de mão em mão uma cópia do endereço de uma de suas cartas: ''Aculina Pietrovna Cúrotchkina, em Moscou, em frente ao mosteiro Alhexiêievski, na casa do caldeireiro Saviêlhiev, e a Vossa Mercê, peço humildemente que entregue esta carta a A. N. R.''</div>
== Parágrafo 5 ==
<div style="text-indent: 1.5em;">
<span style="color: red;">Те из моих читателей, которые не живали в деревнях, не могут себе вообразить, что за прелесть эти уездные барышни! Воспитанные на чистом воздухе, в тени своих садовых яблонь, они знание света и жизни почерпают из книжек. Уединение, свобода и чтение рано в них развивают чувства и страсти, неизвестные рассеянным нашим красавицам. Для барышни звон колокольчика есть уже приключение, поездка в ближний город полагается эпохою в жизни, и посещение гостя оставляет долгое, иногда и вечное воспоминание. Конечно всякому вольно смеяться над некоторыми их странностями; но шутки поверхностного наблюдателя не могут уничтожить их существенных достоинств, из коих главное, ''особенность характера, самобытность'' ({{lang|fr|individualité}}), без чего, по мнению Жан-Поля, не существует и человеческого величия<ref>Имеется в виду суждение [[s:ru:Жан Поль|Жан Поля Рихтера]] из книги «[[s:ru:Мысли Жан-Поля, извлеченные из всех его сочинений (Жан Поль)|Мысли Жан-Поля, извлеченные из всех его сочинений]]» (Париж, 1829): «Уважайте индивидуальность в человеке, она является корнем всего положительного». Книга была подарена Пушкину Юрием Никитичем Бартеневым 31 августа 1830 года, накануне отъезда в Болдино.</ref>. В столицах женщины получают может быть, лучшее образование; но навык света скоро сглаживает характер и делает души столь же однообразными, как и головные уборы. Сие да будет сказано не в суд, и не во осуждение, однако ж {{lang|la|Nota nostra manet}}<ref>{{lang|la|Nota nostra manet}} — наше замечание остается в силе.</ref>, как пишет один старинный комментатор.</span>
</div>
<div style="text-indent: 1.5em;">
Aqueles meus leitores que não habitaram as aldeias não são capazes de visualizar o charme que são essas senhoritas distritais! Educadas ao ar livre, à sombra de suas macieiras, extraem seu conhecimento de mundo e vida dos livros. O isolamento, a liberdade e a leitura cedo nelas acendem sentimentos e paixões, desconhecidos a nossas dispersas beldades. Para as senhoritas, o tintilar de uma sineta já é uma aventura, uma viagem à cidade próxima marca uma época na vida e a visita de um convidado deixa uma memória longa, às vezes até eterna. É claro, qualquer um pode rir de algumas de suas esquisitices; mas as piadas de um observador superficial não conseguem anular suas virtudes essenciais, dentre as quais a principal: ''a singularidade do caráter, a individualidade'' ({{lang|fr|individualité}}), sem a qual, de acordo com Jean Paul, não existe sequer a grandeza humana<ref>Tem-se em mente o julgamento de [https://pt.wikipedia.org/wiki/Jean_Paul Jean Paul Richter] do livro "Pensamentos de Jean Paul, extraídos de todas as suas obras" (Paris, 1829): "Respeitai a individualidade na pessoa, ela é a raiz de tudo que é positivo". O livro foi presenteado a Púchkin por Iúri Nikítitch Bartiêniev em 31 de agosto do ano de 1830, na véspera da sua partida para Bôldino.</ref>. Nas capitais, as mulheres recebem, talvez, uma educação melhor; mas a prática da alta sociedade logo uniformiza o caráter e deixa as almas tão invariáveis quanto os adornos de cabeça. Diga-se isto não para julgamento nem para condenação, todavia {{lang|la|Nota nostra manet}}<ref>{{lang|la|Nota nostra manet}} — nossa observação se mantém.</ref>, como escreve </div>
== Notas ==
<references />
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Página:Da Terra á Lua.pdf/210
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Erick Soares3
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/* !Páginas revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: cto de mʼo perguntares fico quasi seguro de que nunca o has de vir a comprehender! — Vae sempre dizendo, estimavel companheiro. — Pois ouve lá; é minha opinião que devemos sempre attender um pouco á arte em tudo quanto fazemos. Conheces acaso uma comedia india intitulada o ''Carro do menino?'' — Nem de nome, respondeu Barbicane. — Tambem não admira, proseguiu Miguel Ardan. Sabe pois, que nʼessa comedia ha um ladrão que na occasião em q...
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rh||DA TERRA Á LUA|211|borda_inferior=sim}}</noinclude>cto de mʼo perguntares fico quasi seguro de que nunca o has de vir a comprehender!
— Vae sempre dizendo, estimavel companheiro.
— Pois ouve lá; é minha opinião que devemos sempre attender um pouco á arte em tudo quanto fazemos. Conheces acaso uma comedia india intitulada o ''Carro do menino?''
— Nem de nome, respondeu Barbicane.
— Tambem não admira, proseguiu Miguel Ardan. Sabe pois, que nʼessa comedia ha um ladrão que na occasião em que está para furar a parede de uma casa, cogita se ha de dar ao buraco a fórma de lyra, de flor, de ave ou de amphora?
Ora responde lá, amigo Barbicane, se nʼaquella epocha fosses membro do jury, condemnavas o tal ladrão?
— Sem hesitar, respondeu o presidente do Gun-Club, e com a circumstancia aggravante do arrombamento.
— Pois eu cá absolvia-o, amigo Barbicane! E aqui está a rasão porque tu nunca me has de comprehender!
— Nem trato dʼisso, meu valente artista.
— Pelo menos, proseguiu Ardan, já que o exterior do nosso ''wagon-projectil'' fica áquem dos meus desejos, hão de me dar licença que o mobile a meu geito e com todo o luxo que quadra a embaixadores da Terra!
— Lá a esse respeito, meu caro Miguel, respondeu Barbicane, farás o que te dictar a phantasia, deixar-te-hemos fazer o que melhor te aprouver.»
O presidente do Gun-Club porém, antes de passar ao agradavel, cuidára do util, e conseguira fazer applicar os meios por elle inventados para diminuir os effeitos da repercussão, com perfeita intelligencia.
Tinha Barbicane pensado, e com rasão, que nenhuma especie de molas teria força bastante para amortecer o choque, e no decurso dʼaquelle famoso passeio da matta de Skersnaw, conseguíra<noinclude></noinclude>
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Página:Da Terra á Lua.pdf/211
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Erick Soares3
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/* !Páginas revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: resolver aquella grande difficuldade por uma fórma engenhosa. Á agua é que elle contava ser devedor de tão assignalado serviço. Eis por que maneira: Encher-se-ia o projectil, até a altura de tres pés, de uma camada de agua destinada a aguentar um disco de madeira perfeitamente estanque que escorregasse com attrito pelas paredes internas do projectil. Em cima dʼaquella especie de jangada é que haviam de ir collocados os viajantes. A massa...
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rh|212|VIAGENS MARAVILHOSAS|borda_inferior=sim}}</noinclude>resolver aquella grande difficuldade por uma fórma engenhosa. Á agua é que elle contava ser devedor de tão assignalado serviço. Eis por que maneira:
Encher-se-ia o projectil, até a altura de tres pés, de uma camada de agua destinada a aguentar um disco de madeira perfeitamente estanque que escorregasse com attrito pelas paredes internas do projectil.
Em cima dʼaquella especie de jangada é que haviam de ir collocados os viajantes. A massa liquida havia de ser dividida por tabiques horisontaes que o choque á partida espedaçaria successivamente. Nʼesse mesmo momento todos os lençoes de agua, desde o debaixo até ao de cima, saíndo por tubos de despejo para a parte superior do projectil, fariam almofada; não podendo o disco, aliás guarnecido como era de possantes chapuzes, ir de encontro á culatra do projectil senão depois de terem sido successivamente esmagados os differentes tabiques. Por certo que os viajantes sempre haviam de soffrer violenta repercussão depois da saída completa da massa liquida, mas o primeiro choque havia de ser quasi completamente amortecido por aquella mola de grande potencia. Verdade é, que tres pés de altura de agua nʼuma área de cincoenta e quatro pés quadrados haviam de pesar perto de onze mil e quinhentas libras; mas a força elastica dos gazes accumulados dentro da Columbiada na opinião de Barbicane, havia de ser bastante para vencer mais aquelle augmento de peso; demais o choque havia de expellir aquella agua toda em menos de um segundo, e o projectil de prompto retomaria o peso normal.
Era isto o que o presidente do Gun-Club imaginára, esta a maneira por que pensava ter resolvido o importante problema do amortecimento da repercussão do tiro.
De mais a mais, aquelle trabalho fôra comprehendido com perfeita intelligencia pelos engenheiros da casa Breadwill, e tambem maravilhosamente executado. Produzido o effeito desejado, e ex-<noinclude></noinclude>
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Página:Da Terra á Lua.pdf/212
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Erick Soares3
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/* !Páginas revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: pellida a totalidade da agua, podiam os viajantes, desembaraçar-se com facilidade dos tabiques espedaçados, e desarmar o disco movel que os aguentára no momento da partida. As paredes superiores do projectil, essas eram cobertas de um acolchoado expesso de couro, assente sobre espiraes do mais fino aço, tão flexiveis como molas de relogio. Os tubos de esgoto escondidos por debaixo do acolchoado nem deixavam suspeitar que existiam. Tinham...
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rh||DA TERRA Á LUA|213|borda_inferior=sim}}</noinclude>pellida a totalidade da agua, podiam os viajantes, desembaraçar-se com facilidade dos tabiques espedaçados, e desarmar o disco movel que os aguentára no momento da partida.
As paredes superiores do projectil, essas eram cobertas de um acolchoado expesso de couro, assente sobre espiraes do mais fino aço, tão flexiveis como molas de relogio. Os tubos de esgoto escondidos por debaixo do acolchoado nem deixavam suspeitar que existiam.
Tinham-se portanto tomado por aquella fórma todas as precauções imaginaveis para amortecer o primeiro choque, e, segundo dizia Ardan, quem ainda assim se deixasse esmagar, é porque era «de má raça.»
Media o projectil, pela parte de fóra, doze pés de altura sobre nove de largura.
E, para que não excedesse o peso calculado, tinham-lhe diminuido um pouco a espessura das paredes, e reforçado a culatra que tinha de aguentar toda a violencia dos gazes desenvolvidos pela deflagração do pyroxylo.
Assim succede geralmente com as bombas e obuzes cylindro-conicos, cuja maior espessura é sempre na culatra.
A entrada para aquella torre de metal era por uma estreita abertura reservada nas paredes do cone, similhante aos «buracos de homem» que têem as caldeiras a vapor, e que fechava hermeticamente por meio de uma chapa de aluminium, apertada da parte de dentro por possantes parafusos de pressão. Podiam portanto os viajantes saír á vontade da sua movel prisão, logoque lograssem chegar ao astro das noites.
Mas o caso não estava só em ir, estava tambem em ir vendo pelo caminho. Nada mais facil. Por debaixo do acolchoado das paredes estavam quatro vigias com vidros lenticulares de grande espessura, duas abertas na parede circular do projectil, uma no fundo e outra no chapéu conico. Teriam portanto os viajantes toda<noinclude></noinclude>
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Hino do município de General Maynard
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OCTAVIO EDNO MUNIZ VIEIRA
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Fundação Biblioteca Nacional - Escritório de Direitos Autorais - Nº Registro: 939.616 Livro: 1.834 Folha: 338
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wikitext
text/x-wiki
<ref>HINO DO MUNICÍPIO DE GENERAL MAYNARD
LETRA E MÚSICA: MAESTRO OCTÁVIO EDNO</ref>
'''I - ESTROFE'''
Terra de sol, de gente forte,
marcada na história do teu chão;
das trilhas dos tropeiros, nasce a sorte,
Marcação que virou minha paixão.
Do engenho à fé, o povo ergue o canto,
na lida, no trabalho e na oração;
és orgulho em cada gesto e encanto,
és General Maynard, nossa nação.
'''Refrão'''
Avante, Mainardense, ergue a bandeira,
que o passado é flor que faz o hoje brotar;
fé no Cruzeiro, em festa verdadeira,
São João Batista a nos abençoar.
Nos tiros de alegria dos bacamarteiros,
ecoam memórias do nosso lugar;
teu povo é luz, guerreiro e verdadeiro,
por este chão — '''O meu General Maynard!'''
'''II- ESTROFE'''
Nasceu cidade por lei e esperança,
em vinte e um de novembro, a virada;
homem de honra deu ao nome herança,
Augusto Maynard — voz lembrada.
Cana, coco e gente que não se rende,
pequeno em área — gigante no olhar;
teu povo é força que o tempo entende,
e eterniza o nome '''General Maynard.'''
'''Refrão Final'''
Avante, Mainardense, ergue a bandeira,
que o passado é flor que faz o hoje brotar;
fé no Cruzeiro, em festa verdadeira,
São João Batista a nos abençoar.
Nos tiros de alegria dos bacamarteiros,
ecoam memórias do nosso lugar;
teu povo é luz, guerreiro e verdadeiro,
por este chão — '''O meu General Maynard!'''
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OCTAVIO EDNO MUNIZ VIEIRA
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text/x-wiki
<ref>LETRA E MÚSICA: MAESTRO OCTÁVIO EDNO</ref>
'''I - ESTROFE'''
Terra de sol, de gente forte,
marcada na história do teu chão;
das trilhas dos tropeiros, nasce a sorte,
Marcação que virou minha paixão.
Do engenho à fé, o povo ergue o canto,
na lida, no trabalho e na oração;
és orgulho em cada gesto e encanto,
és General Maynard, nossa nação.
'''Refrão'''
Avante, Mainardense, ergue a bandeira,
que o passado é flor que faz o hoje brotar;
fé no Cruzeiro, em festa verdadeira,
São João Batista a nos abençoar.
Nos tiros de alegria dos bacamarteiros,
ecoam memórias do nosso lugar;
teu povo é luz, guerreiro e verdadeiro,
por este chão — '''O meu General Maynard!'''
'''II- ESTROFE'''
Nasceu cidade por lei e esperança,
em vinte e um de novembro, a virada;
homem de honra deu ao nome herança,
Augusto Maynard — voz lembrada.
Cana, coco e gente que não se rende,
pequeno em área — gigante no olhar;
teu povo é força que o tempo entende,
e eterniza o nome '''General Maynard.'''
'''Refrão Final'''
Avante, Mainardense, ergue a bandeira,
que o passado é flor que faz o hoje brotar;
fé no Cruzeiro, em festa verdadeira,
São João Batista a nos abençoar.
Nos tiros de alegria dos bacamarteiros,
ecoam memórias do nosso lugar;
teu povo é luz, guerreiro e verdadeiro,
por este chão — '''O meu General Maynard!'''
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OCTAVIO EDNO MUNIZ VIEIRA
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<ref>'''LETRA E MÚSICA: MAESTRO OCTÁVIO EDNO'''</ref>
'''I - ESTROFE'''
Terra de sol, de gente forte,
marcada na história do teu chão;
das trilhas dos tropeiros, nasce a sorte,
Marcação que virou minha paixão.
Do engenho à fé, o povo ergue o canto,
na lida, no trabalho e na oração;
és orgulho em cada gesto e encanto,
és General Maynard, nossa nação.
'''Refrão'''
Avante, Mainardense, ergue a bandeira,
que o passado é flor que faz o hoje brotar;
fé no Cruzeiro, em festa verdadeira,
São João Batista a nos abençoar.
Nos tiros de alegria dos bacamarteiros,
ecoam memórias do nosso lugar;
teu povo é luz, guerreiro e verdadeiro,
por este chão — '''O meu General Maynard!'''
'''II- ESTROFE'''
Nasceu cidade por lei e esperança,
em vinte e um de novembro, a virada;
homem de honra deu ao nome herança,
Augusto Maynard — voz lembrada.
Cana, coco e gente que não se rende,
pequeno em área — gigante no olhar;
teu povo é força que o tempo entende,
e eterniza o nome '''General Maynard.'''
'''Refrão Final'''
Avante, Mainardense, ergue a bandeira,
que o passado é flor que faz o hoje brotar;
fé no Cruzeiro, em festa verdadeira,
São João Batista a nos abençoar.
Nos tiros de alegria dos bacamarteiros,
ecoam memórias do nosso lugar;
teu povo é luz, guerreiro e verdadeiro,
por este chão — '''O meu General Maynard!'''
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OCTAVIO EDNO MUNIZ VIEIRA
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{{hino
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|letra por= Octavio Edno Muniz Vieira
|melodia por= Maestro Octavio Edno
|Criado no dia 21-11-2025
}}
Terra de sol, de gente forte,
marcada na história do teu chão;
das trilhas dos tropeiros, nasce a sorte,
Marcação que virou minha paixão.
Do engenho à fé, o povo ergue o canto,
na lida, no trabalho e na oração;
és orgulho em cada gesto e encanto,
és General Maynard, nossa nação.
'''Refrão'''
Avante, Mainardense, ergue a bandeira,
que o passado é flor que faz o hoje brotar;
fé no Cruzeiro, em festa verdadeira,
São João Batista a nos abençoar.
Nos tiros de alegria dos bacamarteiros,
ecoam memórias do nosso lugar;
teu povo é luz, guerreiro e verdadeiro,
por este chão — '''O meu General Maynard!'''
'''II- ESTROFE'''
Nasceu cidade por lei e esperança,
em vinte e um de novembro, a virada;
homem de honra deu ao nome herança,
Augusto Maynard — voz lembrada.
Cana, coco e gente que não se rende,
pequeno em área — gigante no olhar;
teu povo é força que o tempo entende,
e eterniza o nome '''General Maynard.'''
'''Refrão Final'''
Avante, Mainardense, ergue a bandeira,
que o passado é flor que faz o hoje brotar;
fé no Cruzeiro, em festa verdadeira,
São João Batista a nos abençoar.
Nos tiros de alegria dos bacamarteiros,
ecoam memórias do nosso lugar;
teu povo é luz, guerreiro e verdadeiro,
por este chão — '''O meu General Maynard!'''
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OCTAVIO EDNO MUNIZ VIEIRA
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Terra de sol, de gente forte,
marcada na história do teu chão;
das trilhas dos tropeiros, nasce a sorte,
Marcação que virou minha paixão.
Do engenho à fé, o povo ergue o canto,
na lida, no trabalho e na oração;
és orgulho em cada gesto e encanto,
és General Maynard, nossa nação.
Avante, Mainardense, ergue a bandeira,
que o passado é flor que faz o hoje brotar;
fé no Cruzeiro, em festa verdadeira,
São João Batista a nos abençoar.
Nos tiros de alegria dos bacamarteiros,
ecoam memórias do nosso lugar;
teu povo é luz, guerreiro e verdadeiro,
por este chão — '''O meu General Maynard!'''
Nasceu cidade por lei e esperança,
em vinte e um de novembro, a virada;
homem de honra deu ao nome herança,
Augusto Maynard — voz lembrada.
Cana, coco e gente que não se rende,
pequeno em área — gigante no olhar;
teu povo é força que o tempo entende,
e eterniza o nome '''General Maynard.'''
Avante, Mainardense, ergue a bandeira,
que o passado é flor que faz o hoje brotar;
fé no Cruzeiro, em festa verdadeira,
São João Batista a nos abençoar.
Nos tiros de alegria dos bacamarteiros,
ecoam memórias do nosso lugar;
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por este chão — '''O meu General Maynard!'''
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<poem>
;I - Estrofe
Terra de sol, de gente forte,
marcada na história do teu chão;
das trilhas dos tropeiros, nasce a sorte,
Marcação que virou minha paixão.
Do engenho à fé, o povo ergue o canto,
na lida, no trabalho e na oração;
és orgulho em cada gesto e encanto,
és General Maynard, nossa nação.
;CORO
Avante, Mainardense, ergue a bandeira,
que o passado é flor que faz o hoje brotar;
fé no Cruzeiro, em festa verdadeira,
São João Batista a nos abençoar.
Nos tiros de alegria dos bacamarteiros,
ecoam memórias do nosso lugar;
teu povo é luz, guerreiro e verdadeiro,
por este chão — '''O meu General Maynard!'''
;II - Estrofe
Nasceu cidade por lei e esperança,
em vinte e um de novembro, a virada;
homem de honra deu ao nome herança,
Augusto Maynard — voz lembrada.
Cana, coco e gente que não se rende,
pequeno em área — gigante no olhar;
teu povo é força que o tempo entende,
e eterniza o nome '''General Maynard.'''
;CORO
Avante, Mainardense, ergue a bandeira,
que o passado é flor que faz o hoje brotar;
fé no Cruzeiro, em festa verdadeira,
São João Batista a nos abençoar.
Nos tiros de alegria dos bacamarteiros,
ecoam memórias do nosso lugar;
teu povo é luz, guerreiro e verdadeiro,
por este chão — '''O meu General Maynard!'''
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OCTAVIO EDNO MUNIZ VIEIRA
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|letra por= Octavio Edno Muniz Vieira
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|notas=Registro na Biblioteca Nacional Escritório de Direitos Autorais, Registro Nº: 939.616 Livro: 1.834 Folha: 338, em 15 de dezembro de 2025.
}}
<poem>
;I - Estrofe
Terra de sol, de gente forte,
marcada na história do teu chão;
das trilhas dos tropeiros, nasce a sorte,
Marcação que virou minha paixão.
Do engenho à fé, o povo ergue o canto,
na lida, no trabalho e na oração;
és orgulho em cada gesto e encanto,
és General Maynard, nossa nação.
;CORO
Avante, Mainardense, ergue a bandeira,
que o passado é flor que faz o hoje brotar;
fé no Cruzeiro, em festa verdadeira,
São João Batista a nos abençoar.
Nos tiros de alegria dos bacamarteiros,
ecoam memórias do nosso lugar;
teu povo é luz, guerreiro e verdadeiro,
por este chão — '''O meu General Maynard!'''
;II - Estrofe
Nasceu cidade por lei e esperança,
em vinte e um de novembro, a virada;
homem de honra deu ao nome herança,
Augusto Maynard — voz lembrada.
Cana, coco e gente que não se rende,
pequeno em área — gigante no olhar;
teu povo é força que o tempo entende,
e eterniza o nome '''General Maynard.'''
;CORO
Avante, Mainardense, ergue a bandeira,
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Nos tiros de alegria dos bacamarteiros,
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Avante, Mainardense, ergue a bandeira,
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Nos tiros de alegria dos bacamarteiros,
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;II - Estrofe
Nasceu cidade por lei e esperança,
em vinte e um de novembro, a virada;
homem de honra deu ao nome herança,
Augusto Maynard — voz lembrada.
Cana, coco e gente que não se rende,
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Avante, Mainardense, ergue a bandeira,
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*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 1. Rumo ao ideal|Capítulo 1. Rumo ao ideal]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 2. Harmonia universal|Capítulo 2. Harmonia universal]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 3. Conservação do princípio vital|Capítulo 3. Conservação do princípio vital]]
*[[Obra de Tchoang-tzu/Capítulo 4. O mundo dos homens|Capítulo 4. O mundo dos homens]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 5. Ação perfeita|Capítulo 5. Ação perfeita]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 6. O Princípio, primeiro mestre|Capítulo 6. O Princípio, primeiro mestre]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 7. Governo dos príncipes|Capítulo 7. Governo dos príncipes]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 8. Pés palmados|Capítulo 8. Pés palmados]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 9. Cavalos adestrados|Capítulo 9. Cavalos adestrados]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 10. Pequenos e grandes ladrões|Capítulo 10. Pequenos e grandes ladrões]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 11. Política verdadeira e falsa|Capítulo 11. Política verdadeira e falsa]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 12. Céu e terra|Capítulo 12. Céu e terra]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 13. Influência do céu|Capítulo 13. Influência do céu]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 14. Evolução natural|Capítulo 14. Evolução natural]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 15. Sabedoria e endurecimento|Capítulo 15. Sabedoria e endurecimento]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 16. Natureza e convenção|Capítulo 16. Natureza e convenção]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 17. A cheia de outono|Capítulo 17. A cheia de outono]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 18. Alegria perfeita|Capítulo 18. Alegria perfeita]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 19. Sentido da vida|Capítulo 19. Sentido da vida]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 20. Obscuridade deliberada|Capítulo 20. Obscuridade deliberada]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 21. Ação transcendente|Capítulo 21. Ação transcendente]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 22. Conhecimento do Princípio|Capítulo 22. Conhecimento do Princípio]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 23. Retorno à natureza|Capítulo 23. Retorno à natureza]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 24. Simplicidade|Capítulo 24. Simplicidade]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 25. Verdade|Capítulo 25. Verdade]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 26. Fatalidade|Capítulo 26. Fatalidade]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 27. Verbo e palavras|Capítulo 27. Verbo e palavras]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 28. Independência|Capítulo 28. Independência]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 29. Políticos|Capítulo 29. Políticos]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 30. Espadachins|Capítulo 30. Espadachins]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 31. O velho pescador|Capítulo 31. O velho pescador]]
*[[Obra de Tchoang-tzeu/Capítulo 32. Sabedoria|Capítulo 32. Sabedoria]]
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| title = Chuang Tzŭ
| author = Zhuang Zi
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| wikipedia = Zhuangzi (book)
| notes = The '''''Zhuangzi''''' (or '''''Chuang Tzŭ'''''; Chinese: {{lang|zh|莊子}}) is a work from China in the late 3rd century BC. It contains stories and anecdotes that exemplify the carefree nature of the ideal Daoist sage. Named for its traditional author, "Master Zhuang", the Zhuangzi is one of the two foundational texts of Daoism, along with the Laozi (Dao De Jing). {{WP link|Zhuangzi (book)}}
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 1. Rumo ao ideal
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CAPÍTULO I.
Bem-aventurança Transcendental.
Argumento: —Espaço infinito —Tempo infinito —Relatividade das grandezas, física e moral —A grandeza absoluta —Utilidade como teste de valor —A utilidade do inútil.
No oceano do norte, existe um peixe, chamado Leviatã, com muitos milhares de li de tamanho. Este Leviatã transforma-se num pássaro, chamado Rukh, cujas costas têm muitos milhares de li de largura. Com um esforço poderoso, ele eleva-se, e as suas asas obscurecem o céu como nuvens.
No equinócio, esta ave prepara-se para partir em direção ao oceano do Sul, o Lago Celestial. E no Registo das Maravilhas, lê-se que, quando o Rukh voa para sul, a água é atingida por uma área de três mil li em redor, enquanto a própria ave ascende a uma altura de noventa mil li, num voo que dura seis meses.
Assim são as partículas num raio de sol soprado por Deus. Quer o azul do céu seja a sua cor real, ou apenas o resultado da distância infinita, o efeito para o pássaro que olha para baixo seria exactamente o mesmo que para os grãos de poeira.
A distância é relativa. O rukh a uma altitude de 90.000 li (três li por milha) não passa de um grão de pó num raio de sol a poucos metros do solo.
Se não houver profundidade suficiente, a água não suportará grandes embarcações. Coloque uma chávena cheia num pequeno orifício, e uma semente de mostarda servirá de barco. Tente fazer flutuar a chávena, e ficará presa, devido à desproporção entre a água e o recipiente.
O mesmo acontece com o ar. Se não houver profundidade suficiente, não consegue sustentar grandes aves. E para este pássaro, é necessária uma profundidade de noventa mil li; e depois, sem nada além do céu limpo lá em cima, e sem qualquer obstáculo no caminho, inicia a sua viagem para sul.
Uma cigarra riu-se e disse a uma jovem pomba: "Ora, quando voo com toda a minha força, mal consigo ir de árvore em árvore. E às vezes nem chego ao cimo, caindo a meio do caminho. De que serve, então, subir noventa mil li para ir para sul?"
Quem vai a Mang-ts'ang,
uma curta distância para o interior,
levando consigo três refeições, regressa com a barriga tão cheia como quando partiu. Mas quem viaja cem li precisa de moer farinha suficiente para uma pernoita. E quem viaja mil li precisa de se abastecer de provisões para três meses. Estas duas criaturinhas — o que deveriam saber? O conhecimento limitado não tem a abrangência do conhecimento alargado, tal como um ano curto não tem a duração de um ano longo.
Como podemos saber isso? O cogumelo da manhã não conhece a alternância do dia e da noite. A crisálida não conhece a alternância da primavera e do outono. Os seus anos são curtos.
Mas no Estado de Chu existe uma tartaruga cuja primavera e outono duram quinhentos anos cada. E antigamente havia uma grande árvore cuja primavera e outono duravam oito mil anos cada. No entanto, P'êng Tsu
O Matusalém da China. A sua idade não é consensual entre os escritores chineses, mas o cálculo mais conservador dá-lhe uma vida de oitocentos anos.
é ainda, infelizmente, objecto de inveja para todos.
Foi sobre este mesmo assunto que o Imperador Tang
a.C. 1766.
Disse a Chi: — "No árido norte existe um grande mar, o Lago Celestial. Nele há um peixe, com vários milhares de li de largura, e não sei quantos de comprimento. Chama-se Leviatã. Há também um pássaro, chamado Rukh, com dorso como o Monte Tai,
a montanha mais famosa da China, situada na província de Shandong.
e asas como nuvens a cruzar o céu. Durante um tufão, sobe a uma altura de noventa mil li, para além das nuvens e da atmosfera, com apenas o céu limpo por cima. E depois dirige o seu voo para o pólo sul.
"Uma codorniz riu-se e disse: Diz-me, o que será que esta criatura pretende fazer? Subo apenas alguns metros no ar e volto a aterrar depois de voar entre os juncos. É o máximo que consigo fazer." Ora, para onde será que esta criatura vai?
A repetição desta história, juntamente com a citação do Registo das Maravilhas, confere um ar de autenticidade à ilustração de Chuang Tzŭ, que o leitor poderia supor ser da sua própria invenção.
Esta é, de facto, a diferença entre o pequeno e o grande. Considere-se, por exemplo, um homem que ocupa um cargo pequeno com mérito, ou que é um exemplo de virtude na sua vizinhança, ou que influencia o seu príncipe a governar o Estado correctamente — a sua opinião sobre si próprio será muito semelhante à daquela codorniz. O filósofo Yung ri-se de tal pessoa. Mesmo que o mundo inteiro o bajulasse, ele não se deixaria afetar, e mesmo que o mundo inteiro o criticasse, não perderia a fé em si próprio. Pois Yung consegue distinguir entre o intrínseco e o extrínseco, entre a honra e a vergonha — e tais homens são raros na sua geração. Mas nem ele se estabeleceu.
Para além dos limites de um mundo externo. As suas realizações são, afinal, apenas terrenas, terrenas.
Ali Era Lieh Tzŭ outra vez.
Uma personagem sobre a qual nada se sabe realmente. Os maiores especialistas acreditam que terá sido uma criação do próprio Chuang Tzŭ. Isto, porém, não impediu que algum erudito empreendedor, provavelmente da dinastia Han, descobrisse um tratado que ainda hoje é atribuído a Lieh Tzŭ.
Podia cavalgar o vento e viajar para onde quisesse, permanecendo ausente até quinze dias. Entre os mortais que alcançam a felicidade, um homem destes é raro. Contudo, embora Lieh Tzŭ pudesse dispensar a caminhada, ele ainda dependia de algo.
Ou seja, do vento.
Mas se tivesse sido conduzido pela eterna harmonia do Céu e da Terra, guiado pelos elementos como a sua equipa enquanto deambulava pelos reinos da Eternidade, de que teria, então, de depender?
Isto é, alimentado pelas doutrinas da inacção, da continuidade da vida e da morte, etc., que serão abordadas em capítulos posteriores.
Assim se diz: "O homem perfeito ignora-se a si mesmo; o homem divino ignora a acção; o verdadeiro sábio ignora a reputação."
A sua bem-aventurança — pois os três são um só — transcende tudo o que o jogral contou. As existências materiais dissipam-se no ar; as alegrias e as tristezas mundanas cessam para aquele que assim alcança o gozo eterno de uma paz transcendental.
O Imperador Yao
2356 a.C. O seu reinado, juntamente com o de Shun, que lhe sucedeu, pode ser considerado a Idade de Ouro da história da China. Veja p. 8.
Desejava abdicar em favor de Hsü Yu,
Um digno eremita.
dizendo: "Se, quando o sol e a lua brilham, persistes em acender um archote, não estás a desperdiçar o fogo? Se, no auge da estação das chuvas, continuas a regar a terra, não estás a desperdiçar trabalho? Agora, senhor, toma as rédeas do governo e o império estará em paz. Sou apenas um cadáver, consciente da minha própria deficiência. Imploro-te que ascenda ao trono."
"Desde que o senhor assumiu a administração", respondeu Hsü Yu, "o império tem gozado de tranquilidade. Supondo, portanto, que eu assumisse o seu lugar agora, ganharia alguma reputação com isso? Além disso, a reputação é apenas a sombra da realidade; e devo preocupar-me com a sombra? O chapim, construindo o seu ninho na floresta imponente, ocupa apenas um ramo. A anta sacia a sua sede no rio, mas bebe apenas o suficiente para encher a barriga. A reputação pertence ao senhor: o império não precisa de mim. Se um cozinheiro não consegue preparar os seus sacrifícios funerários, o rapaz que se faz passar pelo cadáver não pode pisar os vinhos e as carnes e fazê-lo por ele."
Isto ilustra a rejeição da reputação pelo verdadeiro Sábio. Ver capítulo VII.
Chien Wu disse a Lien Shu:
Ambos personagens fictícios.
"Ouvi Chieh Yü proferir algo injustificadamente extravagante e sem qualquer lógica.
Tratava-se de um indivíduo chamado Lu T'ung, que fingia loucura para escapar a uma carreira oficial. Para a sua entrevista com Confúcio, ver o capítulo iv, ad fin.
Fiquei extremamente surpreendido com o que ele disse, pois pareceu-me tão vasto como a Via Láctea, embora muito improvável e distante da experiência dos mortais."
"O que foi?", perguntou Lien Shu.
"O que foi?" "Ele declarou", respondeu Chien Wu, "que na montanha Miao-ku-shê
O que é tão fabuloso como a história.
Vive um homem divino cuja carne é como o gelo ou a neve, cujo comportamento é o de uma virgem, que não come frutos da terra, mas vive de ar e de orvalho, e que, cavalgando nuvens com dragões voadores como seu séquito, vagueia para além dos limites da mortalidade. Este ser é absolutamente inerte. Contudo, ele afasta a corrupção de todas as coisas e faz com que as colheitas prosperem. Ora, eu considero isso um absurdo e não acredito nisso."
"Bem", respondeu Lien Shu, "não se pede a opinião de um cego sobre um quadro, nem se convida um surdo para um concerto. E a cegueira e a surdez não são apenas físicas. Existe cegueira e surdez da mente, doenças das quais temo que se sofra. A boa influência deste homem perpassa toda a criação. No entanto, porque uma geração insignificante clama por reformas, quer-se condescendendo aos pormenores de um império!
Sem se aperceber que o maior contém o mais pequeno.
"As existências objetivas não o podem prejudicar. Numa inundação que chegasse ao céu, ele não se afogaria. Numa seca, mesmo que os metais se liquefassem e as montanhas fossem queimadas, ele não sentiria calor. A partir do seu próprio pó e peneiras, poderia moldar dois homens como Yao e Shun." E fá-lo-ia ocupar-se com objetivos!
Ilustrando a inação do homem divino.
Um homem do Estado Song levou alguns gorros de sacrifício para o Estado Yueh, para vender. Mas os homens de Yueh costumavam cortar o cabelo e pintar o corpo, pelo que não tinham qualquer utilidade para tais coisas. E assim, quando o Imperador Yao, governante de tudo o que estava debaixo do céu e pacificador de tudo o que estava nas margens do oceano, visitou os quatro sábios da montanha Miao-ku-shê, ao regressar à sua capital em Fen-yang, o império já não existia para ele.
Isto ilustra a rejeição do eu pelo homem perfeito. Yao teve os olhos abertos para a futilidade e inutilidade de todas as posses mortais. Deixou, portanto, de pensar em si mesmo e, consequentemente, no império.
Hui Tzŭ
Um célebre escolástico, contemporâneo e antagonista de Chuang Tzŭ. Para uma descrição das suas teorias, ver o capítulo XXXIII.
Disse a Chuang Tzŭ: "O Príncipe de Wei deu-me uma semente de uma cabaça grande. Plantei-a e deu um fruto do tamanho de uma medida de cinco alqueires. Ora, se eu a tivesse usado para conter líquidos, teria sido demasiado pesada para levantar; e se a tivesse cortado ao meio para fazer conchas, as conchas não seriam adequadas para tal fim. Era inutilmente grande, por isso parti-a."
"Senhor", respondeu Chuang Tzŭ, "foi o senhor que não soube usar coisas grandes. Havia um homem da dinastia Song que tinha uma receita de pomada para mãos gretadas, pois a sua família lavava seda há gerações. Bem, um forasteiro que ouvira falar dela veio e ofereceu-lhe 100 onças de prata pela receita; então, reuniu os seus clãs e disse: 'Nunca ganhamos muito dinheiro a lavar seda. Agora, podemos fazer 100 onças num só dia. Deixe a receita com o forasteiro.'
"Então, o forasteiro recebeu-a e foi informar o Príncipe de Wu, que estava em guerra com o Estado de Yüeh. Consequentemente, o Príncipe utilizou-a numa batalha naval travada no início do Inverno contra o Estado de Yüeh, resultando na derrota total deste último.
Sofreram com mãos rachadas, enquanto os seus rivais do Estado de Wu estavam protegidos pela sua pomada patenteada.
O forasteiro foi recompensado com território e um título." Assim, embora a eficácia da pomada para curar as mãos gretadas fosse a mesma em ambos os casos, a sua aplicação era diferente. Aqui, garantia um título; ali, a capacidade de lavar a seda.
"Ora, quanto à sua cabaça de cinco alqueires, porque é que não fez um barco com ela e navegou pelos rios e lagos? Não poderia então queixar-se de que não comporta nada! Mas receio que seja um tanto ingénuo por dentro."
Gostei. Isto, claro, é um escárnio. Hui Tzŭ não conseguia ver que a grandeza de uma coisa depende da grandeza da sua aplicação.
Hui Tzŭ disse a Chuang Tzŭ: "Senhor, tenho uma árvore grande, de uma espécie inútil. O seu tronco é tão irregular e cheio de nós que não se pode medir para fazer tábuas; enquanto os seus ramos são tão retorcidos que não permitem qualquer subdivisão geométrica. Ela fica à beira da estrada, mas nenhum carpinteiro quer sequer olhar para ela. E as suas palavras, senhor, são como esta árvore: grandes e inúteis, não servem para nada."
"Senhor", respondeu Chuang Tzŭ, "nunca viu um gato selvagem, agachado à espera da sua presa? Para a direita e para a esquerda, salta de galho em galho, alto e baixo, até que, por acaso, fica preso numa armadilha ou morre num laço. Por outro lado, está o iaque, com o seu corpo enorme. É suficientemente grande em todos os sentidos, mas não consegue apanhar ratos.
A adaptabilidade de uma coisa é muitas vezes a sua ruína. A incapacidade do iaque para apanhar ratos salva-o da armadilha que é fatal para o gato selvagem.
"Ora, se tem uma árvore grande e não sabe o que fazer com ela, porque não plantá-la no domínio da não existência,
Para além dos limites do nosso mundo externo. Referindo-se às condições de abstração mental em que apenas se encontra a verdadeira felicidade.
Para onde te poderias dirigir, para a inação ao teu lado, para o repouso feliz sob a tua sombra?" "Porque é que o horizonte me prende, com a minha alegria e tristeza nesse centro?" — Emerson.
Aí estaria a salvo do machado e de qualquer outro dano; pois, não sendo útil a ninguém, estaria isento de qualquer mal.
Ilustrando a vantagem de ser inútil. Aquilo que é pequeno e útil demonstra-se, assim, inferior àquilo que é grande e inútil.
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 2. Harmonia universal
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CAPÍTULO II.
A Identidade dos Contrários.
Argumento:—Os contrários brotam da nossa individualidade subjectiva—Identidade do subjectivo e do objectivo—O centro onde todas as distinções se fundem num Um—Como atingir este ponto—O discurso como obstáculo—O estado negativo—Luz na escuridão—Ilustrações.
TZŬ CH'I de Nan-kuo estava sentado, encostado a uma mesa. Olhando para o céu, suspirou e desapareceu, como se a alma e o corpo se tivessem separado.
Yen Ch'êng Tzŭ Yu, que estava ao seu lado, exclamou: "Em que estás a pensar para que o teu corpo se torne assim como madeira seca, a tua mente como cinzas mortas? Certamente que o homem agora encostado à mesa não é o mesmo que estava aqui há pouco."
"Meu amigo", respondeu Tzŭ Ch'i, "a sua pergunta é pertinente. Hoje enterrei-me... Compreende? ... Ah! Talvez conheça apenas a música do Homem, e não a da Terra. Ou mesmo que tenha ouvido a música da Terra, não tenha ouvido a música do Céu."
"Por favor, explique", disse Tzŭ Yu.
"O sopro do universo", continuou Tzŭ Ch'i, "chama-se vento. Por vezes, está inactivo. Mas quando activo, cada abertura ressoa com a rajada. Nunca ouviu o seu rugido crescente?
"Cavernas e vales nas colinas e florestas, ocos em árvores enormes com muitos palmos de circunferência;—estes são como narinas, como bocas, como orelhas, como soquetes de vigas, como cálices, como morteiros, como valas, como pântanos." E o vento passa por elas, farejando, ressonando, cantando, suspirando, bufando, ronronando, assobiando, zumbindo, ora agudo estridente, ora grave e profundo, ora suave, ora forte; até que, com uma pausa, o silêncio reina supremo. Nunca testemunhou entre as árvores uma perturbação como esta?"
"Bem, então", indagou Tzŭ Yu, "uma vez que a música da terra não consiste em mais do que buracos, e a música do homem em flautas e tubos, em que consiste a música do Céu?"
"O efeito do vento sobre estas várias aberturas", respondeu Tzŭ Ch'i, "não é uniforme. Mas o que dá a cada uma a individualidade, a todas a potencialidade do som?"
"O efeito do vento sobre estas várias aberturas", respondeu Tzŭ Ch'i, "não é uniforme. Mas o que dá a cada uma a individualidade, a todas a potencialidade do som?" "O grande conhecimento abrange o todo:
Vê simultaneamente "o lado superior e o inferior da medalha de Júpiter".
O pequeno conhecimento, apenas uma parte. A grande fala é universal:
O discurso, segundo o ideal de Chuang Tzŭ, abrange sempre todo o assunto em questão, não deixando espaço para o antagonismo entre o positivo e o negativo.
A pequena fala é particular.
"Pois, quer a mente esteja adormecida, quer o corpo esteja desperto, estamos sujeitos a perturbações mentais diárias — indecisão, falta de discernimento, ocultação, medo angustiante e terror paralisante. Agora, como um dardo, a mente lança-se, árbitra do certo e do errado.
Assim, reconhecendo os contrários.
Agora, como pacto solene, mantém-se firme, guardiã dos direitos assegurados.
Aderindo a uma opinião formada.
Depois, como sob a peste do Outono e do Inverno, vem a decadência gradual, um desaparecimento, como o fluxo da água, para nunca mais voltar." Finalmente, o bloqueio, quando tudo está obstruído como um ralo velho — a mente debilitada que nunca mais verá a luz.
"A alegria e a raiva, a tristeza e a felicidade, a cautela e o remorso, atingem-nos alternadamente, com estados de espírito sempre mutáveis. Surgem como música do vazio, como cogumelos da humidade. O dia e a noite alternam dentro de nós, mas não sabemos de onde brotam. Poderemos então esperar, num instante, apontar o dedo à sua causa?
"Não fosse por estas emoções, eu não existiria. Não fosse por mim, elas não teriam lugar. Até aqui podemos ir; mas não sabemos o que as desencadeia. Parece ser uma alma; mas falta a chave para a sua existência. Que tal Poder opere é bastante plausível, embora não possamos ver a sua forma. Tem funções sem forma.
Como veremos mais adiante, Chuang Tzŭ concebe a alma como uma emanação de Deus, que transita entre esta Terra e a Terra através dos portais da Vida e da Morte.
" "Considere o corpo humano com todas as suas múltiplas divisões. Qual a parte dele que o homem ama mais? Não a preza igualmente, ou tem alguma preferência? Todas não o servem de igual forma? E estes servos governam-se a si próprios, ou estão subdivididos em governantes e súbditos? Certamente existe alguma alma que os governa a todos.
Mas, quer saibamos ou não quais são as funções dessa alma, isso pouco importa para a própria alma. Pois, tendo vindo à existência com este meu corpo mortal, com o esgotamento deste corpo mortal, também o seu propósito se esgotará. Ser atormentado pelo desgaste da vida e passar por ela rapidamente, sem possibilidade de interromper o próprio curso — não é isso realmente lamentável? Trabalhar sem cessar e, então, sem viver para desfrutar do fruto, exausto, partir subitamente, sem saber para onde — não será isto uma justa causa de tristeza?
" "Que vantagem há naquilo a que os homens chamam não morrer? O corpo decompõe-se e a mente vai com ele. Esta é a nossa verdadeira causa de tristeza. Será que o mundo é assim tão insensível ao ponto de não ver isto? Ou será que só eu sou insensível, e os outros não?
"Se quisermos ser
Guiados pelos critérios da nossa própria mente, quem estará sem guia?
A mente deve ser uma tábua rasa, livre de todos os juízos ou opiniões próprias sobre o mundo externo, e pronta apenas a aceitar as coisas como elas são, e não como parecem ser.
Que necessidade há de saber sobre as alternâncias da paixão,
Como descrito acima.
quando a mente assim se permite espaço? — na verdade, até as mentes dos tolos! Enquanto que, para uma mente sem critério,
Como deveria ser.
admitir a ideia de contrários é como dizer: "Fui hoje a Yueh e cheguei lá ontem".
Um dos paradoxos de Hui Tzŭ. Veja o capítulo 33.
Ou, como colocar lugar nenhum algures — topografia que até o Grande Yueh
O famoso engenheiro da antiguidade (2205 a.C.), que drenou o império de uma vasta massa de água e organizou a sua subdivisão em nove províncias.
Não conseguiria compreender; quanto mais eu?
"A fala não é mera respiração. Diferencia-se pelo significado. Retire isso, e não poderá dizer se é fala ou não. Consegue sequer distingui-la do chilrear dos passarinhos jovens?
"Mas como pode o Tao estar tão obscurecido ao ponto de falarmos dele como verdadeiro e falso? E como pode o discurso estar tão obscurecido ao ponto de admitir a ideia de contrários? Como pode o Tao desaparecer e, ainda assim, não permanecer?
Sendo omnipresente.
Como pode a fala existir e, ainda assim, ser impossível?
Ver p. 13.
"O Tao é obscurecido pela nossa falta de compreensão. A fala é obscurecida pelo verniz deste mundo.
Ou seja, pelos significados unilaterais atribuídos às palavras e às frases.
Daí as afirmações e negações das escolas confucionista e mihista.
Mih Tzu foi um filósofo do século IV a.C., que propôs várias teorias vigorosamente atacadas pelos confucionistas sob a liderança de Mêncio. Ouviremos falar mais dele mais à frente.
Cada um negando o que o outro afirmava e afirmando o que o outro negava. Mas aquele que quiser conciliar o afirmativo com o negativo e o negativo com o afirmativo,
A "união das impossibilidades", que Emerson atribui apenas a Platão,
deve fazê-lo à luz da natureza.
Ou seja, não ter critérios mentais estabelecidos e, assim, ver todas as coisas como UMA SÓ.
"Não há nada que não seja objetivo; não há nada que não seja subjetivo. Mas é impossível partir do objetivo." Só a partir do conhecimento subjetivo é possível proceder ao conhecimento objetivo. Por isso foi dito:
Por Hui Tzŭ:
'O objetivo emana do subjetivo; o subjetivo é uma consequência do objetivo. Esta é a Teoria da Alternância.' Contudo, quando um nasce, o outro morre. Quando um é possível, o outro é impossível. Quando um é afirmativo, o outro é negativo. Sendo assim, o verdadeiro sábio rejeita todas as distinções entre isto e aquilo. Refugia-se em Deus e coloca-se em relação subjetiva com todas as coisas.
Foi com este propósito que Tzŭ Ch'i "se enterrou".
"E uma vez que o subjetivo é também objetivo, e o objetivo também é subjetivo, e como os contrários sob cada um estão indistinguivelmente misturados, não se nos torna impossível dizer se o subjetivo e o objetivo existem realmente?
O que é positivo sob um será negativo sob o outro. Contudo, como o subjetivo e o objetivo são realmente um só, os seus positivos e negativos também devem ser um só.
É como se os víssemos através de uma espécie de pseudoscópio mental, pelo qual cada um pareceria ser o outro.
Quando o subjetivo e o objetivo estão ambos sem os seus correlatos, este é o próprio eixo do Tao. E quando este eixo passa pelo centro no qual todos os Infinitos convergem, o positivo e o negativo misturam-se num Um infinito. Por isso se diz que não há nada como a luz da natureza.
Provavelmente uma alusão a Lao Tzu: "Use a luz que está dentro de si para voltar à sua clareza natural de visão." Seríamos então capazes de ver as coisas na sua verdadeira luz." Ver Tao Te Ching, capítulo lii, e Os Restos Mortais de Lao Tzu, p. 34.
"Usar um dedo como ilustração de um dedo que não é um dedo não é tão bom como usar algo que não é um dedo. Usar um cavalo como ilustração de um cavalo que não é um cavalo não é tão bom como usar algo que não é um cavalo.
"Assim também com o universo e tudo o que nele existe. Estas coisas são apenas dedos e cavalos neste sentido. O possível é possível; o impossível é impossível. O Tao opera, e os resultados seguem-se. As coisas recebem nomes e são o que são. Conseguem-no pela sua afinidade natural com o que são e pelo seu antagonismo natural com o que não são. Pois todas as coisas têm as suas próprias constituições e potencialidades particulares. Nada pode existir sem elas.
Estas últimas frases são repetidas no capítulo xxvii, ad init.
"Nunca podemos conhecer nada além dos fenómenos. As coisas são o que são, e as suas consequências serão o que serão." — J. S. Mill.
"Portanto, do ponto de vista do Tao, uma viga e um pilar são idênticos.
A horizontal com
a vertical.
Assim como a fealdade e a beleza, a grandeza, a maldade, a perversidade e a estranheza. A separação é o mesmo que a construção: a construção é o mesmo que a destruição. Nada está sujeito à construção ou à destruição, pois estas condições estão reunidas num Só.
"Só os verdadeiramente inteligentes compreendem este princípio da identidade de todas as coisas. Não vêem as coisas como apreendidas por si mesmas, subjectivamente; mas colocam-se na posição das coisas vistas.
Evitando os canais falaciosos dos sentidos.
E, vendo-as assim, são capazes de as compreender, aliás, de as dominar; e aquele que as pode dominar está próximo. Assim, colocar-se em relação subjetiva com o externo, sem consciência da sua objetividade, é o Tao. Mas desgastar o intelecto numa obstinada adesão à individualidade das coisas, sem reconhecer o facto de que todas as coisas são Uma, é o que chamamos os Três da Manhã."
"O que é o Três da Manhã?", perguntou Tzŭ Yu. "Um tratador de macacos", respondeu Tzŭ Ch'i, "disse, a propósito da ração de castanhas, que cada macaco deveria receber três de manhã e quatro à noite. Mas os macacos ficaram muito zangados com isso, pelo que o tratador disse que poderiam receber quatro de manhã e três à noite, com o que todos ficaram muito satisfeitos. O número exato de castanhas manteve-se o mesmo, mas houve uma adaptação aos gostos e desgostos dos envolvidos. Tal é o princípio de se colocar em relação subjetiva com o externo.
"Portanto, o verdadeiro Sábio, embora considere os contrários como idênticos, adapta-se às leis do Céu. A isto se chama seguir dois caminhos ao mesmo tempo.
Assim, é impedido de tentar atravessar paredes, etc., como os taoístas posteriores afirmaram ser capazes de fazer, é claro, com o objectivo de enganar o público e enriquecer-se. "Deus", diz Locke, "quando cria o profeta, não desfaz o homem." Assim, Carlyle, no seu ensaio sobre Novalis: — "Para um transcendentalista, a matéria tem existência, mas apenas como um fenómeno... É uma mera relação, ou melhor, o resultado de uma relação entre as nossas almas vivas e a grande Causa Primeira."
"O conhecimento dos homens da antiguidade tinha um limite. Remontava a um período em que a matéria não existia. Este era o ponto extremo que o seu conhecimento atingia.
"O segundo período foi o da matéria, mas da matéria incondicionada.
Pelo tempo ou pelo espaço. "O ser, em si mesmo", diz Herbert Spencer, "fora de relação, é impensável." Princípios de Psicologia, iii, p. 258.
"A terceira época viu a matéria condicionada, mas os contrários eram ainda desconhecidos. Quando estes apareceram, o Tao começou a decair. E com o declínio do Tao, surgiu o enviesamento individual.
"Seriam, então, estes estados de queda e de ascensão existências reais?" Certamente, são como a ascensão e queda da música de Chao Wên — as consequências da sua execução.
Chao Wên tocava guitarra. Shih K'uang empunhava o bastão.
Para marcar o tempo.
Hui Tzŭ argumentou. Nisto, estes três homens destacaram-se, e na prática destas artes passaram as suas vidas.
"Como os pontos de vista particulares de Hui Tzŭ eram muito diferentes dos do mundo em geral, ele estava correspondentemente ansioso por iluminar as pessoas. Mas não as iluminou como deveria ter feito,
pelo cultivo e manifestação passiva da sua própria luz interior.
e, consequentemente, terminou na obscuridade do 'duro e branco'."
Hui Tzŭ considerava as abstracções como a dureza e a brancura como existências separadas, das quais a mente só podia ter consciência separadamente, uma de cada vez.
Posteriormente, o seu filho procurou nas suas obras alguma pista, mas nunca conseguiu estabelecer o princípio. E, de facto, se tal princípio pudesse ser estabelecido, então até eu estaria estabelecido; mas, se não, então nem eu nem nada no universo estaria estabelecido!
"Portanto, o que o verdadeiro Sábio almeja é a luz que surge das trevas. Ele não vê as coisas como as percebe subjetivamente, mas coloca-se na posição das coisas que vê. A isto se chama usar a luz."
"Portanto, o que o verdadeiro Sábio procura é a luz que surge das trevas. Ele não vê as coisas como as percebe subjetivamente, mas coloca-se na posição das coisas que vê. A isto se chama usar a luz." "Resta, no entanto, a Fala. Deve ela ser incluída em alguma das categorias dos contrários, ou não? Independentemente de ser incluída ou não, ela pertencerá, em qualquer caso, a uma ou outra, e será como se tivesse uma existência objetiva. De qualquer modo, eu gostaria de ouvir alguma fala que não pertença a nenhuma das duas categorias.
Dispostos os contrários, resta o veículo Fala, isto é, os termos reais em que se afirma que os contrários deixaram de existir.
"Se houve um início, então houve um tempo antes desse início. E um tempo antes do tempo que foi anterior ao tempo desse início.
"Se existe, deve ter havido não existência. E se houve um tempo em que nada existia, então deve ter havido um tempo antes desse — quando nem sequer o nada existia. De repente, quando o nada passou a existir, seria possível dizer se pertencia à categoria dos contrários?"
da existência ou da não existência? Mesmo as próprias palavras que acabo de proferir — não consigo dizer se foram realmente proferidas ou não.
Isto é, as palavras no texto, negando a existência de contrários.
"Não há nada sob o dossel do céu maior do que a ponta de uma espiga de Outono. Uma vasta montanha é uma coisa pequena. Nem há idade maior do que a de uma criança interrompida na infância. O próprio P'êng Tsu morreu jovem. O universo e eu viemos juntos à existência; e eu, e tudo o que nele existe, somos Um.
"Se então todas as coisas são Uma, que espaço há para a Fala? Por outro lado, já que posso proferir estas palavras, como pode a Fala não existir?
" "Se de facto existe, temos Um e Fala = dois; e dois e um = três. A partir desse ponto, mesmo os melhores matemáticos falharão em alcançar:
Tão.
Quanto mais falharão as pessoas comuns?
Portanto, se do nada se pode proceder a algo e, subsequentemente, alcançar três, segue-se que seria ainda mais fácil se se começasse a partir de algo. Para evitar tal progressão, deve colocar-se em relação subjetiva com o externo."
"" "Antes de existirem condições, existia o Tao. Antes de existirem definições, existia o discurso. Subjetivamente, temos consciência de certas delimitações que são:
Direita e Esquerda
Relação e Obrigação
Divisão e Discriminação
Emulação e Contenda
Estas são chamadas de Oito Predicáveis.
Não, claro, no sentido estritamente lógico.
Para o verdadeiro Sábio, para além dos limites de um mundo externo, elas existem, mas não são reconhecidas. Pelo verdadeiro Sábio, dentro dos limites de um mundo externo, são reconhecidas, mas não são atribuídas. E assim, no que diz respeito à sabedoria dos antigos, tal como está incorporada no cânone da Primavera e do Outono,
a história de Confúcio sobre o seu Estado natal. Agora um dos livros canónicos da China.
o verdadeiro Sábio atribui, mas não justifica através de argumentos. E assim, classificando, não classifica; argumentando, ele não argumenta."
"Como é possível?", perguntou Tzŭ Yu.
" "O verdadeiro Sábio", respondeu Tzŭ Ch'i, "guarda o seu conhecimento dentro de si, enquanto os homens, em geral, expõem o seu em argumentos, a fim de se convencerem uns aos outros. E, por isso, diz-se que em argumentos ele não se manifesta.
Outros tentam estabelecer a sua própria visão subjetiva. O verdadeiro Sábio permanece passivo, visando apenas a aniquilação dos contrários.
"O Tao perfeito não se declara. Nem o argumento perfeito se exprime por palavras. Nem a caridade perfeita se mostra em actos. Nem a honestidade perfeita é absolutamente incorruptível. Nem a coragem perfeita é absolutamente inabalável.
" "Pois o Tao que resplandece não é o Tao. O discurso que argumenta não atinge o seu objetivo. A caridade que tem pontos fixos perde o seu alcance. A honestidade que é absoluta carece de credibilidade. A coragem que é absoluta falha o seu alvo. Estes cinco são, por assim dizer, redondos, com uma forte tendência para a quadritude. Portanto, o conhecimento que se detém naquilo que desconhece é o conhecimento supremo.
"Quem conhece o argumento que pode ser argumentado sem palavras? — o Tao que não se declara como Tao? Aquele que o conhece pode ser considerado de Deus. Ser capaz de jorrar sem encher e jorrar sem esvaziar, ignorando o poder pelo qual tais resultados são alcançados — isso é considerado Luz."
Antigamente, o Imperador Yao disse a Shun: "Eu esmagaria os Tsungs, os Kueis e os Hsu-aos. Desde que assumi o trono, tenho tido esse desejo." "O que acha?"
"Estes três Estados", respondeu Shun, "são lugares insignificantes e remotos. Porque é que não se consegue livrar deste desejo? Houve uma altura em que dez sóis surgiram juntos e iluminaram todas as coisas." "Quanto mais, então, a virtude deveria superar os sóis?"
Ilustrando o uso da "luz". Em vez de força ativa, substitua-a pela influência passiva, mas irresistível, da virtude completa. O sol fez com que o viajante tirasse o manto quando o vento norte apenas conseguiu fazê-lo apertá-lo ainda mais em torno do corpo.
Yeh Ch'üeh perguntou a Wang I,
um discípulo e tutor de tempos remotos. Diz-se que era um dos quatro Sábios da montanha Miao-ku-shê mencionada no capítulo i.
dizendo: "Sabes com certeza que todas as coisas são subjetivamente iguais?"
"Como posso saber?", respondeu Wang I. "Sabe o que não sabe?"
"Como posso saber?", respondeu Yeh Ch'üeh. "Mas então não se pode saber nada?"
"Como posso saber?", disse Wang I. "No entanto, tentarei dizer-lhe. Como pode ser conhecido que aquilo a que chamo saber não é realmente não saber, e que aquilo a que chamo não saber não é realmente saber?" Agora pergunto-vos: se um homem dorme num local húmido, tem lombalgias e morre. Mas e uma enguia? E viver no cimo de uma árvore é precário e desgastante para os nervos; mas e os macacos? Entre o homem, a enguia e o macaco, qual o habitat mais adequado, sem dúvida? Os seres humanos alimentam-se de carne, os veados de erva, as centopeias de cobras, as corujas e os corvos de ratos. Destes quatro, qual tem o sabor mais adequado, sem dúvida? O macaco.
Acasalamentos entre macacos, entre veados e corças; enguias com peixes, enquanto os homens admiram Mao Ch'iang e Li Chi,
belezas dos séculos V e VII a.C., respetivamente. Os comentadores parecem não ter notado o evidente anacronismo aqui envolvido.
À sua vista, os peixes mergulham nas profundezas da água, os pássaros voam alto no céu e os veados fogem apressadamente.
Por vergonha da sua própria inferioridade.
Mas quem poderá dizer qual é o padrão de beleza correto? Na minha opinião, o padrão da virtude humana, e do positivo e do negativo, está tão obscurecido que é impossível conhecê-lo como tal.
"Se você, então", perguntou Yeh Ch'üeh, "não sabe o que lhe faz mal, o Homem Perfeito também desconhece isso?"
"O Homem Perfeito", respondeu Wang I, "é um ser espiritual. Mesmo que o próprio oceano estivesse em chamas, não sentiria calor. Mesmo que a Via Láctea estivesse gelada, não sentiria frio." Mesmo que as montanhas fossem fendidas por trovões e o grande abismo se agitasse com a tempestade, ele não tremeria. Nesse caso, ele ascenderia sobre as nuvens do céu e, conduzindo o sol e a lua à sua frente, ultrapassaria os limites deste mundo exterior, onde a morte e a vida já não têm poder sobre o homem; quanto menos o que lhe é prejudicial?
Chü Ch'iao dirigiu-se a Chang Wu Tzŭ
Um discípulo e tutor da antiguidade.
Assim: — "Ouvi Confúcio dizer: 'O verdadeiro sábio não se preocupa com os assuntos mundanos. Não procura o ganho nem evita a injúria. Não pede nada aos homens. Adere, sem questionar, ao Tao. Sem falar, pode falar; e pode falar e, no entanto, não dizer nada. E assim vagueia para além dos limites deste mundo empoeirado.' Estas", acrescentou Confúcio, 'são palavras vãs'.
Han Fei Tzŭ diz-nos que Lao Tzŭ, cujas doutrinas Confúcio parece estar aqui a ridicularizar, disse exactamente o contrário disto; saber: "O verdadeiro Sábio antecipa-se aos assuntos mundanos", isto é, "toma o tempo de mão beijada". Nenhuma destas afirmações, porém, aparece no Tao Te Ching. Ver Os Restos Mortais de Lao Tzŭ, p. 44.
Ora, para mim, são a personificação hábil do Tao. Qual é a sua opinião, senhor?"
"Pontos sobre os quais o Imperador Amarelo duvidava", respondeu Chang Wu Tzŭ, "como poderia Confúcio saber?"
Lao Tzŭ e o Imperador Amarelo sempre foram confundidos na mente dos escritores taoístas, embora separados por um abismo de cerca de dois mil anos. Confúcio está aqui evidentemente a tratar das doutrinas reais de Lao Tzŭ.
Está a ir rápido demais. Vê o seu ovo e espera ouvi-lo cantar. Olha para a sua besta e espera ter um pato assado à sua frente. Direi algumas palavras ao acaso, e tu ouves ao acaso.
"Como é que o Sábio se senta junto ao sol e à lua e segura o universo nas suas mãos? Ele funde tudo num todo harmonioso, rejeitando a confusão do "isto" e do "aquilo". Hierarquia e precedência, que o vulgar valoriza, o Sábio ignora estoicamente. As revoluções de dez mil anos deixam a sua Unidade intacta. O próprio universo pode desaparecer, mas continuará a prosperar.
"Como sei que o amor à vida não é, afinal, uma ilusão? Como sei que aquele que teme a morte não é como uma criança que se perdeu e não consegue encontrar o caminho para casa?
" "A senhora Li Chi era filha de Ai Fêng.
Um chefe de fronteira.
Quando o Duque de Chin a recebeu pela primeira vez, ela chorou até que o decote do seu vestido ficou encharcado de lágrimas. Mas quando chegou à residência real, viveu com o Duque e comeu comida farta, arrependeu-se de ter chorado. Como sei então que os mortos não se arrependem de se terem agarrado à vida?
"Aqueles que sonham com o banquete, despertam para o lamento e a tristeza. Aqueles que sonham com o lamento e a tristeza despertam para se juntarem à caçada. Enquanto sonham, não sabem que estão a sonhar. Alguns chegam a interpretar o próprio sonho que estão a ter; e só quando despertam é que se apercebem que foi um sonho. Com o tempo chega o Grande Despertar, e então descobrimos que esta vida é realmente um grande sonho. Os tolos pensam que estão despertos agora e iludem-se pensando que sabem se príncipes ou camponeses. Isto é um paradoxo. Amanhã poderá surgir um sábio para o explicar; mas esse amanhã não chegará antes de dez mil gerações.
"Supondo que eu e tu discutimos. Se me venceres a mim, e não eu a ti, estarás necessariamente certo e eu errado? Ou se eu te vencer a ti, e não tu a mim, estarei necessariamente certo e tu errado? Ou estaremos ambos parcialmente certos e parcialmente errados? Ou estaremos ambos totalmente certos e totalmente errados? Eu e tu não podemos saber isso e, consequentemente, o mundo permanecerá na ignorância da verdade.
"Quem devo empregar como árbitro entre nós? Se empregar alguém que concorde consigo, essa pessoa ficará do seu lado. Como poderá tal pessoa arbitrar entre nós? Se empregar alguém que concorde comigo, essa pessoa ficará do meu lado. Como poderá tal pessoa arbitrar entre nós? E se eu empregar alguém que discorde ou concorde com ambos, essa pessoa ficará igual a nós."
Todos somos incapazes de decidir entre nós. Uma vez que tu, eu e o homem não podemos decidir, não devemos depender de Outro?
De Deus, em cuja infinitude todos os contrários se fundem indistinguivelmente num Uno.
Tal dependência é como se não fosse dependência. Somos abraçados na unidade aniquiladora de Deus. Há perfeita adaptação a qualquer eventualidade; e assim completamos o tempo que nos foi concedido.
"Mas o que significa ser abraçado na unidade aniquiladora de Deus? É isto. Com referência ao positivo e ao negativo, ao que é assim e ao que não é assim — se o positivo é realmente positivo, deve necessariamente ser diferente do seu negativo: não há espaço para discussão. E se o que é assim realmente é assim, deve necessariamente ser diferente do que não é assim: não há espaço para discussão.
"Não se preocupem com o tempo, nem com o certo e o errado". Mas, passando para o reino do Infinito, encontre aí o seu repouso final."
O nosso refúgio está somente em Deus, o Absoluto Infinito. Os contrários não podem deixar de existir, mas devem existir independentemente uns dos outros, sem antagonismo. Tal condição encontra-se apenas na unidade abrangente de Deus, na qual todas as distinções entre positivo e negativo, certo e errado, isto e aquilo, são obliteradas e fundidas num Único.
Herbert Spencer afirma: "A antítese de sujeito e objecto, que nunca pode ser transcendida enquanto durar a consciência, torna impossível todo o conhecimento da Realidade Última na qual sujeito e objecto estão unidos." Princípios de Psicologia, i. p. 272.
A Penumbra disse à Umbra: "Num instante moves-te; no outro, estás em repouso. Num instante sentas-te; no outro, levantas-te. Porquê esta instabilidade de propósito?" "Dependo", respondeu a Umbra, "de algo que me faz agir como ajo; e que algo depende, por sua vez, de outra coisa que o faz agir como age. A minha dependência é como a das escamas de uma cobra ou das asas de uma cigarra.
Que não se movem por conta própria.
Como posso saber porque faço uma coisa ou porque não faço outra?
Mostrando como dois ou mais podem ser fenómenos de um só.
Uma vez, eu, Chuang Tzŭ, sonhei que era uma borboleta, a voar de um lado para o outro, para todos os efeitos, uma borboleta. Eu estava consciente apenas de seguir os meus devaneios como uma borboleta e inconsciente da minha individualidade como homem. De repente, acordei e lá estava eu, eu próprio novamente. Agora não sei se era então um homem a sonhar que era uma borboleta, ou se agora sou uma borboleta a sonhar que sou um homem. Entre um homem e uma borboleta existe necessariamente uma barreira. A transição é designada por metempsicose.
Mostrando como alguém pode parecer ser qualquer um dos dois.
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 3. Conservação do princípio vital
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2026-06-29T16:54:30Z
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CAPÍTULO III.
Nutrição da Alma.
Argumento:—A vida é demasiado curta—A sabedoria inatingível—Adaptação às circunstâncias—Liberdade primordial—A morte como libertação—A alma imortal.
A minha vida tem um limite, mas o meu conhecimento é ilimitado. Impulsionar o limitado em busca do ilimitado é fatal; e o conhecimento daqueles que o fazem perde-se irremediavelmente.
Ao esforçar-se pelos outros, evite a fama. Ao esforçar-se por si, evite a desgraça. Siga um caminho do meio. Assim, manterá um corpo são e uma mente sã, cumprirá os seus deveres e aproveitará ao máximo o tempo que lhe foi destinado.
O cozinheiro do Príncipe Hui estava a cortar um boi. Cada golpe da sua mão, cada movimento dos seus ombros, cada pisada do seu pé, cada estocada do seu joelho, cada assobio de carne rasgada, cada estalido do cutelo, tudo estava em perfeita harmonia — rítmico como a dança do Bosque de Amoreiras, simultâneo como os acordes do Ching Shou.
Os comentadores divergem nas suas identificações destas antigas peças.
"Muito bem!" exclamou o Príncipe. "Demonstra verdadeira habilidade."
"Majestade", respondeu o cozinheiro; "Sempre me dediquei ao Tao. É melhor do que a habilidade. Quando comecei a desossar bois, via apenas bois inteiros à minha frente. Ao fim de três anos de prática, já não via animais inteiros.
Ou seja, via-os, por assim dizer, por partes.
E agora trabalho com a mente e não com os olhos. Quando os meus sentidos me dizem para parar, mas a minha mente me impele a continuar, recorro a princípios eternos. Sigo as aberturas ou cavidades que possam existir, de acordo com a constituição natural do animal. Não tento cortar as articulações, muito menos os ossos grandes.
Para um curioso paralelismo, veja-se o Fedro de Platão, 265.
"Um bom cozinheiro muda o seu cutelo uma vez por ano, porque corta. Um cozinheiro comum, uma vez por mês, porque pica. Mas tenho este cutelo há dezanove anos e, embora tenha desossado milhares de bois, a sua lâmina está como nova, como se tivesse acabado de sair da pedra de amolar." Pois nas juntas existem sempre interstícios, e como a lâmina de um cutelo não tem espessura, basta inserir o que também não tem espessura em tal interstício.
Estas palavras ajudam a elucidar uma passagem bastante confusa do capítulo XLIII do Tao Te Ching. Ver Os Restos de Lao Tzu, p. 30.
Por este meio, o interstício será alargado e a lâmina encontrará bastante espaço. É assim que conservo o meu cutelo há dezanove anos como se tivesse acabado de sair da pedra de amolar.
"No entanto, quando me deparo com uma parte dura onde a lâmina encontra dificuldade, sou extremamente cauteloso. Fixo o meu olhar nela. Seguro a minha mão e aplico a lâmina suavemente, até que, com um 'hwah', a parte ceda como terra desfazendo-se no chão. Então, pego no meu cutelo, levanto-me, olho em redor e paro, até que, com um ar de triunfo, limpo o meu cutelo e guardo-o cuidadosamente."
"Bravo!" exclamou o Príncipe. "Com as palavras desta cozinheira, aprendi a cuidar da minha vida."
Referindo-se àquilo que dá sentido à vida, ou seja, à alma.
Quando Hsien, da família Kung-wên, viu um certo oficial, ficou horrorizado e disse: "Quem é este homem? Como é que perdeu um pé? É obra de Deus ou do homem?".
"Ora, é claro", continuou Hsien, "é obra de Deus, e não do homem. Quando Deus trouxe este homem ao mundo, quis que ele fosse diferente dos outros homens. Os homens têm sempre dois pés. Daqui se depreende que foi Deus, e não o homem, que o fez como ele é.
Foi por vontade de Deus que assumiu o cargo com vista à sua ascensão pessoal. O facto de se ter metido em problemas e sofrido o castigo comum da perda dos pés, não pode, portanto, ser atribuído ao homem."
"É claro que foi Deus, e não o homem, que o fez assim.
Foi por vontade de Deus que assumiu o cargo com vista à sua ascensão pessoal. Que se tenha metido em problemas e sofrido o castigo comum da perda dos pés, não pode, por isso, ser atribuído ao homem." "Ora, as aves selvagens recebem uma bicada a cada dez passos, uma bebida a cada cem. Contudo, não querem ser alimentadas numa gaiola. Pois, embora assim pudessem comandar a comida, não seriam livres."
E se o nosso amigo acima tivesse permanecido fora da gaiola oficial, ainda assim teria sido independente como as aves do céu.
Quando Lao Tzu morreu, Ch'in Shih foi prestar-lhe homenagem. Soltou três gritos e partiu.
Um discípulo perguntou-lhe: "Não eras amigo do nosso Mestre?".
"Era", respondeu Ch'in Shih.
"E, sendo assim, consideras isso uma expressão suficiente de pesar pela sua perda?", acrescentou o discípulo.
"Considero que sim", disse Ch'in Shih. "Eu acreditava que ele era o homem dos homens, mas agora sei que não era. Quando fui prestar a minha homenagem, encontrei idosos a chorar como se fossem pelos seus filhos, jovens a lamentar-se como se fossem pelas suas mães. E para que ele tivesse conquistado o afeto destas pessoas desta forma, também deve ter proferido palavras que não deveriam ter sido ditas e derramado lágrimas que não deveriam ter sido derramadas, violando assim princípios eternos, aumentando a soma das emoções humanas e esquecendo a fonte da qual a sua própria vida foi recebida. Os antigos chamavam a estas emoções grilhões da mortalidade. O Mestre veio porque era a sua hora de nascer; partiu porque era a sua hora de morrer.
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 4. O mundo dos homens
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CAPÍTULO IV.
O Homem Entre Homens.
Argumento: — O homem deve adaptar-se ao seu meio mortal — A sua virtude deve ser passiva, não activa — Deve sê-lo em vez de fazer — Os talentos são um obstáculo — Mas da pequena inutilidade alcança-se grande utilidade.
YEN HUI foi despedir-se de Confúcio.
Um discípulo do Sábio. Também conhecido por Tzŭ Yüan.
"Para onde vai?" perguntou o Mestre.
"Vou para o Estado de Wei", foi a resposta.
"E o que pretende fazer lá?" continuou Confúcio.
"Ouvi dizer", respondeu Yen Hui, "que o Príncipe de Wei é de idade avançada, mas de temperamento incontrolável. Ele age como se o Estado não tivesse qualquer importância e recusa-se a ver os seus próprios defeitos. Consequentemente, o povo perece; e os seus cadáveres jazem como mato num pântano. Estão numa situação desesperada. E ouvi o senhor dizer que, se um Estado é bem governado, pode ser negligenciado; mas que, se for mal governado, devemos visitá-lo.
No Lun Yu, Confúcio diz exatamente o contrário disto.
A ciência da medicina abrange muitas doenças diferentes. Gostaria de testar os meus conhecimentos nesse sentido, para que talvez possa fazer algum bem a este Estado."
"Ai de mim!" Confúcio exclamou: "Só conseguirá atrair o mal sobre si. Pois o Tao não deve ser distribuído. Se o for, perderá a sua unidade. Se perder a sua unidade, será incerto; e assim causará perturbação mental — da qual não há escapatória.
"Os sábios da antiguidade obtiveram primeiro o Tao para si e depois obtiveram-no para os outros. Antes de o possuir, que tempo tem para se preocupar com as ações dos homens perversos? Além disso, sabe o que resulta a Virtude e onde termina a Sabedoria? A Virtude resulta no desejo de fama; a Sabedoria termina em contendas. Na luta pela fama, os homens destroem-se mutuamente, enquanto a sua sabedoria apenas provoca rivalidade. Ambas são instrumentos nefastos e não devem ser usadas de forma imprudente."
" Além disso, aqueles que, antes de influenciarem com a sua própria virtude sólida e sinceridade irrepreensível, e antes de conquistarem o coração com o exemplo do seu próprio desdém pelo nome e pela fama, vão pregar a caridade e o dever para com o próximo a homens perversos, só fazem com que esses homens os odeiem por causa da sua própria bondade. Tais pessoas são chamadas de faladores maldosos. E aqueles que falam mal dos outros correm o risco de serem mal falados também. Esse, infelizmente, será o seu fim.
Por outro lado, se o Príncipe ama o bem e odeia o mal, que objetivo terá em convidá-lo a mudar os seus caminhos? Antes mesmo de abrir a boca para pregar, o próprio Príncipe já terá aproveitado a oportunidade para lhe arrebatar a vitória. O seu olhar desviar-se-á, a sua expressão apagar-se-á, as suas palavras ficarão presas, o seu rosto mudará e o seu coração morrerá por dentro. Será como se tentasse apagar o fogo com fogo e água com água, o que é popularmente conhecido como "deitar óleo para as chamas". E se começar com concessões, estas não terão fim. Ignore este sábio conselho e será vítima deste homem violento.
"Antigamente, Xieh assassinou Kuan Lung Fêng, e Chou matou o Príncipe Pi Kan. As suas vítimas eram homens que cultivavam a virtude para garantir o bem-estar do povo. Mas, ao fazê-lo, ofenderam os seus superiores; e, por isso, por causa dessa mesma cultura moral, os seus superiores livraram-se deles para proteger as suas próprias reputações.
Chieh e Chou são os dois tiranos típicos da história chinesa.
"Antigamente, Yao atacou os reinos de Ts'ung-chih e Hsü-ao, e Yü atacou o reino de Yu-hu. Casas foram devastadas e famílias destruídas pelo massacre dos habitantes. Mesmo assim, lutaram sem cessar e procuraram a vitória até ao fim. Estes são exemplos conhecidos por todos." Ora, se os sábios da antiguidade falharam nos seus esforços contra este amor pela fama, este desejo de vitória, será que tu o conseguirás? Mas é claro que tem um plano. Diga-me qual é."
"Seriedade de carácter", respondeu Yen Hui, "e impassibilidade; energia e foco absoluto, será isso suficiente?"
"Infelizmente!", disse Confúcio, "isso não funcionará. Se fingir ser perfeito e se intrometer, o humor do príncipe ficará em dúvida. Normalmente, ele não se opõe, e por isso passou a sentir prazer em espezinhar os sentimentos alheios. E se ele falhou na prática de virtudes rotineiras, espera que ele se adapte facilmente às mais elevadas? Pode insistir, mas sem resultado. Exteriormente, terá razão, mas interiormente estará errado." Como o farás então corrigir os seus caminhos?
"Exatamente assim", respondeu Yen Hui. "Sou interiormente direito e exteriormente torto, completo segundo os modelos da antiguidade.
"Aquele que é reto interiormente é um servo de Deus. E aquele que é servo de Deus sabe que o Filho do Céu
O Imperador.
e ele próprio são igualmente filhos de Deus. Deverá, então, tal pessoa preocupar-se se o homem o visita com o mal ou com o bem? O homem, de facto, considera-o como uma criança; e isso é ser servo de Deus.
(1) As crianças estão sempre isentas. — Este é o primeiro elemento de um argumento tríplice.
"Aquele que é (1) O indivíduo, aparentemente desonesto, é um servo do homem. Curva-se, ajoelha-se, junta as mãos; este é o cerimonial de um ministro. O que todos os homens fazem, não ousaria eu fazer? O que todos os homens fazem, ninguém me censurará por o fazer. Isto é ser servo do homem.
(2) O indivíduo não é punido pelas faltas da comunidade.
"Aquele que se completa segundo os modelos da antiguidade é um servo dos Sábios da antiguidade. Embora eu profira palavras de advertência e o repreenda, são os Sábios da antiguidade que falam, e não eu. Assim, a minha retidão não me trará problemas, o servo dos Sábios da antiguidade. — Isso basta?"
(3) A responsabilidade recai, não sobre o porta-voz, mas sobre os autores das doutrinas enunciadas.
"Ai de mim!" Confúcio respondeu: "Não. Os seus planos são muitos e carecem de prudência. Contudo, a sua firmeza protegê-lo-á do mal; mas é tudo. Não o influenciará ao ponto de ele parecer seguir os ditames do seu próprio coração."
"Então", disse Yen Hui, "estou sem recursos e atrevo-me a pedir um método."
Confúcio disse: "JEJUM... Deixa-me explicar. Tens um método, mas é difícil de praticar. Aqueles que são fáceis não vêm de Deus."
"Bem", respondeu Yen Hui, "a minha família é pobre e há muitos meses que não provámos vinho nem carne. Não será isto jejum?"
"O jejum da observância religiosa, sim", respondeu Confúcio, "mas não o jejum do coração".
"E posso perguntar", disse Yen Hui, "em que consiste o jejum do coração?"
"Cultivar a unidade", respondeu Confúcio.
Faça da mente um ser indivisível, sem divisões.
"Não ouves com os ouvidos, mas com a mente; não com a mente, mas com a tua alma.
O fluido vital que permeia todo o seu ser; na verdade, "com todo o seu ser".
Mas deixe que a audição cesse nos ouvidos. Deixe que o funcionamento da mente cesse em si mesma. Então a alma tornar-se-á uma existência negativa, passivamente receptiva às influências externas. Numa tal existência negativa, só o Tao pode permanecer. E esse estado negativo é o jejum do coração."
"Então", disse Yen Hui, "a razão pela qual não consegui utilizar este método é a minha própria individualidade. Se conseguisse utilizá-lo, a minha individualidade teria desaparecido. É isso que quer dizer com estado negativo?"
"Exatamente", respondeu o Mestre. "Deixe-me dizer-lhe. Se conseguir entrar no domínio deste homem sem ofender o seu amor-próprio, alegre se ele o ouvir, passivo se não; sem ciência, sem drogas, simplesmente vivendo ali num estado de completa indiferença, estará perto do sucesso. É fácil parar de andar: o problema é andar sem tocar no chão. Como agente do homem, é fácil enganar; mas não como agente de Deus. Já ouviu falar de criaturas aladas a voar. Nunca ouviu falar de voar sem asas. Já ouviu falar de homens com sabedoria.
Sabedoria de Deus, sem a sabedoria do homem.
"Olhe para aquela janela. Através dela, um quarto vazio ilumina-se com a paisagem; mas a paisagem termina lá fora. Se assim não fosse, teríamos um exemplo de estar parado e fugir ao mesmo tempo.
Um quarto vazio conteria algo — um paradoxo como o do texto.
" "Neste sentido, pode usar os ouvidos e os olhos para comunicar internamente, mas exclua toda a sabedoria da mente.
Que os canais dos seus sentidos sejam para a sua mente o que uma janela é para um quarto vazio.
E ali, onde o sobrenatural
Algo que é e, ao mesmo tempo, não é, como a paisagem vista num quarto, mas não presente nele.
Pode encontrar abrigo, não deveria o homem encontrar também abrigo? Este é o método para regenerar toda a criação.
Através da virtude passiva, não ativa.
Foi o instrumento que Yu e Shun empregaram. Foi o segredo do sucesso de Fu Xi e Chi Chuan. Não deveria, então, ser adoptado pela humanidade em geral?"
Que necessita muito mais de regeneração do que figuras tão ilustres como estes antigos Imperadores.
Tzu Kao, Duque de Shê,
Um distrito do Estado de Chu.
Prestes a partir em missão para o Estado de Ch'i, Confúcio perguntou: "A missão para a qual o meu soberano me envia é da maior importância. Certamente serei recebido com todo o respeito devido, mas eles não demonstrarão o mesmo interesse que eu. E como uma pessoa comum não pode ser pressionada, muito menos um príncipe, estou bastante alarmado."
"Ora, o senhor disse-me que, em todos os empreendimentos, grandes ou pequenos, só o Tao conduz a um desfecho feliz. Caso contrário, em caso de fracasso, teme-se o castigo externo, e em caso de sucesso, o castigo interno; enquanto a isenção, tanto em caso de sucesso como de fracasso, cabe apenas àqueles que possuem a virtude necessária.
Ou seja, aqueles para quem o resultado, no que diz respeito à sua própria recompensa ou punição, é uma questão de completa indiferença.
O termo virtude, aqui como em qualquer outro lugar, salvo indicação em contrário, deve ser entendido no sentido de exemplificação do Tao."
"O senhor disse-me que, em todos os casos, em todas as situações, deve ser entendido como a personificação do Tao." "Bem, eu não sou delicado com a minha comida; nem Sinto sempre vontade de me refrescar quando estou com calor. No entanto, esta manhã recebi as minhas ordens e esta noite tenho bebido água gelada. Tenho muito calor por dentro. Ainda antes de começar a trabalhar, já estou a sofrer castigos internos; e se não for bem sucedido, sofrerei certamente castigos externos. Assim, recebo ambos os castigos, o que é realmente mais do que posso suportar. Por favor, diga-me o que devo fazer."
"Há duas fontes de segurança", respondeu Confúcio. "Uma é o Destino; a outra é o Dever. O amor de uma criança pelos seus pais é o destino. É inseparável da vida da criança. A lealdade de um súbdito para com o seu soberano é o dever. Sob o dossel do céu não há lugar para onde possa escapar. Estas duas fontes de segurança podem ser explicadas da seguinte forma: servir os pais sem ter em conta o lugar, mas apenas o serviço, é o cume da piedade filial. Servir o príncipe sem ter em conta o acto, mas apenas o serviço, é a perfeição da lealdade de um súbdito." Servir o próprio coração de modo a não permitir nem a alegria nem a tristeza, mas cultivar a resignação ao inevitável — eis o ápice da Virtude.
"Ora, um ministro encontra-se muitas vezes em circunstâncias sobre as quais não tem qualquer controlo. Mas se simplesmente se limita ao seu trabalho e se torna completamente alheio a si próprio, que tempo lhe resta para amar a vida ou odiar a morte? E assim pode ir em segurança.
"Mas ainda tenho mais para lhe dizer. Toda a comunicação, se pessoal, deve ser caracterizada pela sinceridade. Se à distância, deve ser conduzida em termos leais. Estes termos terão de ser transmitidos por alguém. Ora, a transmissão de mensagens de boa ou má vontade é a coisa mais difícil que existe. As mensagens de boa vontade serão certamente exageradas com frases bonitas; mensagens de má vontade, com frases ásperas. Em ambos os casos, o resultado é o exagero e, consequentemente, a incapacidade de transmitir convicção, pela qual o enviado sofre. Portanto, foi dito no Fa-yen,
Nome de um livro antigo. Limite-se a simples afirmações de factos, desprovidas de qualquer expressão supérflua de sentimento, e o seu risco será diminuto.
"Nas provas de habilidade, a princípio tudo é amizade; mas, por fim, tudo se transforma em antagonismo. A habilidade é levada ao extremo. Assim, em ocasiões festivas, a bebida, que a princípio é bastante ordeira, degenera em tumulto e desordem. A festividade é levada ao extremo. Na verdade, o mesmo acontece com todas as coisas: começam com boa fé e terminam com desprezo. De pequenos começos vêm grandes fins.
"A fala é como o vento para as ondas. A ação está sujeita a divergir do seu verdadeiro objetivo. Pelo vento, as ondas são facilmente agitadas. Divergir do verdadeiro objetivo está repleto de perigos. Assim, sentimentos de raiva surgem sem causa. Seguem-se palavras enganadoras e argumentos desonestos, como os gritos selvagens e aleatórios de um animal à beira da morte. Ambos os lados cedem à paixão. Pois, quando uma das partes encurrala demasiado a outra, a resistência será sempre provocada sem motivo aparente." E se a causa não for aparente, quanto menos o será o efeito final?
"Portanto, diz-se no Fa-yen: 'Não se desvie nem ultrapasse as suas instruções'.
"Ultrapassar as suas instruções" significa, literalmente, "insistir num acordo".
Ultrapassar o limite é ir ao excesso.
"Desviar-se das instruções ou ultrapassá-las pode comprometer a negociação. Para ser bem-sucedido, um acordo precisa de ser duradouro. É tarde demais para mudar um mau acordo uma vez assinado.
"Portanto, deixe-se levar sem medo, sem procurar refúgio em qualquer alternativa para se proteger de danos de qualquer lado. Isso é o máximo que pode fazer. Que necessidade de considerar as suas obrigações? Melhor deixar tudo ao Destino, por mais difícil que isso possa ser."
É muito estranho que esta exposição da doutrina da inacção laissez-aller do Tao seja atribuída a Confúcio, que, desta forma, acaba por ser utilizado para desacreditar os seus próprios ensinamentos. Os comentadores, porém, não vêem nada de anómalo na posição aqui atribuída ao Sábio.
Yen Ho
Um filósofo do Estado de Lu estava prestes a tornar-se tutor do filho mais velho do Príncipe Ling do Estado de Wei. Assim, observou a Chü Poh Yü,
Primeiro-Ministro do Estado de Wei:
"Eis um homem cuja disposição é naturalmente de ordem inferior. Deixá-lo seguir o seu próprio caminho sem princípios é pôr o Estado em perigo. Tentar contê-lo é pôr em perigo a sua própria segurança. Tem inteligência suficiente para ver os defeitos nos outros, mas não os seus. Consequentemente, estou sem saber o que fazer."
"Uma boa pergunta, de facto", respondeu Chü Poh Yü. "Deve ter cuidado e começar pela sua própria reforma. Exteriormente, pode adaptar-se, mas interiormente deve manter-se à altura do seu próprio padrão. Há dois pontos a evitar. Não deve deixar que a adaptação exterior penetre no seu interior, nem que o padrão interior se manifeste no exterior. No primeiro caso, cairá, será obliterado, entrará em colapso, ficará prostrado. No segundo caso, será uma alma."E um nome, um papão, uma coisa estranha. Se ele quiser fazer de criança, banque-o também. Se ele deixar de lado todo o sentido de decoro, faça o mesmo. Até onde ele for, vá você também. Assim, alcançá-lo-á sem o ofender.
"Não conhece a história do louva-a-deus? Na sua fúria, estendeu os braços para impedir a passagem de uma carruagem, sem se aperceber que isso estava para além da sua força, tão admirável era a sua energia! Seja cauteloso. Se ofende sempre os outros com a sua superioridade, provavelmente sairá mal.
"Não sabe que aqueles que criam tigres não se atrevem a dar-lhes animais vivos como alimento, por medo de despertar a sua fúria ao matar a presa? E que não lhes são dados animais inteiros, por medo de despertar a fúria dos tigres ao despedaçá-los? Os períodos de fome e saciedade são cuidadosamente observados para evitar tais explosões. O tigre é de uma espécie diferente do homem; Mas este último é também controlável se bem gerido, incontrolável se levado à fúria.
"Aqueles que gostam de cavalos rodeiam-nos de várias comodidades. Por vezes, os mosquitos ou as moscas incomodam-nos; e depois, inesperadamente para o animal, um tratador espanta-os, resultando no cavalo partir o freio e ferir a cabeça e o peito. A intenção é boa, mas falta um cuidado real com o cavalo. É preciso estar atento a isso."
Certo artesão viajava para o Estado de Ch'i. Ao chegar a Ch'ü-yüan, viu uma árvore li sagrada,
uma espécie de carvalho sem valor.
Suficientemente grande para esconder um boi atrás de si, com cem palmos de circunferência, elevando-se dez côvados acima do cimo da colina e transportando atrás de si muitos ramos, dezenas dos mais pequenos dos quais do tamanho de barcos. Multidões observavam-na, mas o nosso artesão não prestou atenção e seguiu o seu caminho sem sequer olhar para trás. O seu aprendiz, porém, contemplou a madeira até se fartar, e quando alcançou o seu amo, disse: "Desde que comecei a manejar um machado ao seu serviço, nunca vi uma peça de madeira tão esplêndida como esta. Como é que o senhor não se deu ao trabalho de parar para a admirar?".
"Não vale a pena falar sobre ela", respondeu o mestre. "Não serve para nada. Se fizesse um barco com ela, afundaria. Um caixão, apodreceria. Móveis, logo se quebrariam. Uma porta, embaçaria. Uma coluna, seria corroída por vermes. É madeira sem qualidade e inútil. Foi por isso que chegou a essa idade."
"Foi por isso que chegou a essa idade". Quando o arte as suas próprias vidas. Não conseguem cumprir o tempo de vida que lhes está destinado, mas perecem prematuramente a meio da sua carreira por estarem envolvidas com o mundo que as rodeia. imprestável." "Cujos perigos ainda não foram ultrapassados, uma pessoa digna de falar de uma árvore inútil?"
Quando o nosso artesão acordou e contou o seu sonho, o seu aprendiz disse: "Se a árvore visava a inutilidade, como é que se tornou uma árvore sagrada?"
O que, claro, pode ser considerado útil.
"Não fale sobre o que não compreende", respondeu o seu mestre. "Isto serviu apenas para escapar aos ataques dos seus inimigos. Se não se tivesse tornado sagrada, quantos teriam desejado derrubá-la! Os meios de segurança adoptados eram diferentes dos meios comuns,
para atingir o objetivo, de certo modo extraordinário, da inutilidade.
e testá-los com cânones comuns é estar muito longe do alvo."
Tzŭ Ch'i de Nan-poh
Diz-se ser o mesmo indivíduo mencionado no início do capítulo ii.
Estava a viajar pela montanha Shang quando viu uma grande árvore que o surpreendeu muito. Mil carroças poderiam ter encontrado abrigo sob a sua sombra. "Que árvore é esta?" exclamou Tzŭ Ch'i. "Deve ter certamente uma madeira excepcionalmente boa." Depois, olhando para cima, viu que os seus ramos eram demasiado tortos para servirem de vigas; enquanto que, quanto ao tronco, viu que a sua fibra irregular o tornava inútil para os caixões. Provou uma folha, mas ela arrancou-lhe a pele dos lábios; e o seu odor era tão forte que deixaria um homem como que embriagado durante três dias seguidos.
"Ah!" disse Tzŭ Ch'i. "Esta árvore não serve para nada, e foi assim que atingiu este tamanho. Um homem sábio faria bem em seguir o seu exemplo."
E assim escapar ao perigo que o rodeava.
No Estado de Sung, existe um lugar chamado Ching-shih, onde prosperam a faia, o cedro e a amoreira. As madeiras com cerca de um palmo de circunferência são cortadas para jaulas de macacos. As de dois ou três palmos são cortadas para as traves de belas casas. As de sete ou oito palmos são cortadas para as paredes maciças dos caixões dos ricos.
Até hoje, as melhores madeiras ainda estão reservadas para as "tábuas da velhice".
Assim, não cumprem o tempo de vida que lhes está destinado, mas perecem em plena atividade sob o machado. Tal é o infortúnio que alcança o valor.
Para os sacrifícios ao Deus do Rio, não eram permitidos touros de faces brancas, nem porcos de focinhos grandes, nem homens com hemorróidas. Este tinha sido revelado aos adivinhos, e estas características eram, consequentemente, consideradas de mau agoiro. Os sábios, porém, consideravam-nas extremamente auspiciosas.
Os leitores de Dom Juan recordarão como o imediato do mestre tinha razões para partilhar desta opinião. Havia um corcunda chamado Su. O seu queixo tocava o umbigo. Os seus ombros eram mais altos que a cabeça. O seu coque apontava para o céu. As suas vísceras estavam invertidas. As suas nádegas ficavam onde deveriam estar as costelas. Trabalhando como alfaiate ou lavador de roupa, conseguia facilmente ganhar a vida. Peneirando arroz, conseguia o suficiente para sustentar uma família de dez pessoas.
Em todas estas ocupações, um homem curvar-se-ia necessariamente.
Quando chegaram as ordens para o alistamento militar, o corcunda manteve-se indiferente no meio da multidão. Da mesma forma, em matéria de obras públicas, a sua deformidade protegia-o de ser contratado.
Por outro lado, quando se tratava de doações de cereais, o corcunda recebia até três chung,
uma antiga medida de capacidade incerta.
e de lenha, dez feixes. E se a deformidade física era suficiente para preservar o seu corpo até ao fim que lhe fora destinado, quanto mais a deformidade moral e mental não lhe serviria! Um desvio moral e mental seria ainda mais propenso a condenar um homem à negligência dos seus semelhantes, tão essencial para o nosso verdadeiro bem-estar.
Quando Confúcio estava no Estado de Chu, o excêntrico Chieh Yu passou à sua porta, dizendo: «Ó fénix, ó fénix, como caiu a tua virtude! —
Por ter surgido fora de tempo.
Incapaz de esperar pelos anos vindouros ou de regressar ao passado.
Quando poderias ser, ou poderias ter sido, úteis. A ideia transmitida é que o confucionismo era inadequado para a sua época. Ver Lun-yu, cap. XVIII.
Se o Tao prevalecer na Terra, os profetas cumprirão a sua missão. Se o Tao não prevalecer, apenas se preservarão. No presente, apenas escaparão.
"As honras deste mundo são leves como penas, contudo ninguém as avalia pelo seu verdadeiro valor." As desgraças desta vida são tão pesadas como a própria terra, e ninguém consegue escapar-lhes. Chega, chega de procurar influência pela virtude. Cuidado, cuidado, avancem com cautela! Ó fetos, ó fetos, não firam os meus passos! Que os meus pés não se magoem na minha tortuosa jornada! As colinas sofrem por causa das árvores que produzem. A gordura queima pela sua própria combustibilidade. As caneleiras fornecem alimento; portanto, são cortadas. A árvore de laca é abatida para ser utilizada. Todos os homens conhecem a utilidade das coisas úteis; mas não conhecem a utilidade das coisas inúteis.
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 5. Ação perfeita
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CAPÍTULO V.
A Evidência da Virtude Completa.
Argumento: — Correspondência entre a virtude interior e a influência exterior — O homem virtuoso despreza as aparências — A posse da virtude provoca o esquecimento da forma exterior — Negligência do humano — Cultivo do divino.
No Estado de Lu, havia um homem chamado Wang T'ai, que tinha os dedos dos pés cortados. Os seus discípulos eram tão numerosos como os de Confúcio.
Ch'ang Chi
Um destes.
— Perguntou Confúcio, dizendo: — Este Wang Tai foi mutilado, mas mesmo assim partilha consigo, senhor, os ensinamentos do Estado de Lu. Ele não prega nem debate; contudo, aqueles que vão ter com ele de mãos vazias saem cheios. Deve ensinar a doutrina que não encontra expressão nas palavras;
A doutrina do Tao. Estas palavras aparecem nos capítulos ii e xliii do Tao Te Ching. Ver Os Restos Mortais de Lao Tzu, p. 7.
E embora a sua forma seja imperfeita, a sua mente é talvez completa. Que tipo de homem é este?
— É um profeta — respondeu Confúcio —, cuja instrução demorei a procurar. Irei aprender com ele. E se eu, porque não aqueles que não são iguais a mim? E levarei comigo não só o Estado de Lu, mas o mundo inteiro.
"O sujeito foi mutilado", disse Chang Chi, "e, no entanto, chamam-lhe Mestre. Deve ser muito diferente dos homens comuns. Mas como é que ele usa a mente nesse sentido?"
"A Vida e a Morte são omnipotentes", respondeu Confúcio, "mas não a podem afectar.
A mente, ou alma, é imortal. Ver o capítulo iii.
O céu e a terra podem ruir, mas isso permanecerá. Se se verificar que este é perfeito, não partilhará o destino de todas as coisas. Pode provocar alterações noutras coisas, preservando a sua própria constituição intacta."
"Como assim?", perguntou Chang Chi.
"A vida e a morte são omnipotentes", respondeu Confúcio, "mas não a podem afectar. A alma é imortal. Ver capítulo iii.
O céu e a terra podem ruir, mas isso permanecerá. Se se verificar que este é perfeito, não partilhará o destino de todas as coisas. Pode provocar alterações noutras coisas, preservando a sua própria constituição intacta."
"Como assim?", perguntou Chang Chi. "Do ponto de vista da diferença", respondeu Confúcio, "distinguimos entre o fígado e a vesícula biliar, entre o Estado Ch'u e o Estado Yüeh. Do ponto de vista da igualdade, todas as coisas são uma só. Tal é a posição de Wang T'ai. Ele não se preocupa com o que lhe chega pelos sentidos da audição e da visão, mas dirige toda a sua mente para o próprio ápice da virtude. Ele contempla todas as coisas como se fossem uma só, sem observar as suas discrepâncias. E assim, a discrepância dos seus dedos dos pés é para ele como seria a perda de tanta lama."
"Ele dedica-se, de facto, a si próprio", disse Ch'ang Chi, "e usa a sua sabedoria para aperfeiçoar a sua mente, até que esta se torne perfeita. Mas como é que então as pessoas o idolatram tanto?"
Sendo a sua virtude inteiramente, por assim dizer, de ordem egoísta.
"Um homem", respondeu Confúcio, "não procura ver-se na água corrente, mas na água parada. Pois só aquilo que é imóvel pode infundir quietude nos outros.
"A graça da terra só chegou aos pinheiros e aos cedros; — no Inverno e no Verão, são verdes. A graça de Deus só atingiu Yao e Shun; — os primeiros e mais importantes de toda a criação. Felizmente, foram capazes de regular as suas próprias vidas e, assim, regular as vidas de toda a humanidade."
"" "Ao nutrir a coragem física, o sentimento de medo pode ser eliminado a tal ponto que um homem, sozinho, enfrentará um exército inteiro. E se tal resultado pode ser alcançado na busca da fama, quanto mais por aquele que estende o seu domínio sobre o céu e a terra e influencia todas as coisas; e que, habitando os limites de um corpo com os seus canais de visão e audição, leva o seu conhecimento a compreender que todas as coisas são uma, e que a sua alma perdura para sempre! Além disso, ele aguarda a sua hora marcada, e os homens acorrem a ele por vontade própria.
O facto de os homens se reunirem à sua volta desta forma é o sinal exterior ou a evidência da sua completa virtude interior.
Shên T'u Chia teve os dedos dos pés cortados. Posteriormente, estudou com Poh Hun Wu Jen ao mesmo tempo que Tzŭ Chan do Estado Chêng. Este disse-lhe: "Quando eu partir primeiro, fica um pouco. Quando tu partires primeiro, eu ficarei."
Tzŭ Ch’an foi um ministro exemplar do século VI a.C. Sob a sua liderança, o povo do Estado Chêng tornou-se tão virtuoso que as portas não eram trancadas à noite, nem ninguém recolhia objetos perdidos na rua. Dificilmente se envergonharia de andar com um criminoso mutilado.
No dia seguinte, quando estavam novamente juntos na sala de palestras, Tzŭ Ch'an disse: "Quando eu sair primeiro, fique um pouco. Quando sair primeiro, eu ficarei. Estou prestes a ir. Ficará ou não? Percebo que não demonstra respeito por um Ministro de Estado. Talvez se considere meu igual?".
"Meu Deus!" Shên T'u Chia respondeu: "Não sabia que tínhamos um Ministro de Estado na turma. Talvez pense que, por ser um, deve ter precedência sobre os outros. Ora, ouvi dizer que se um espelho for perfeitamente brilhante, o pó e a sujidade não se acumularão nele. E se se acumularem, é porque o espelho não era brilhante. Quem convive durante muito tempo com os sábios será irrepreensível. Ora, você tem-se aperfeiçoado aos pés do nosso Mestre, e ainda assim profere palavras como estas. A falha não está em você?"
" "É um bom sujeito, sem dúvida", retorquiu Tzŭ Ch'an, "emulará a virtude de Yao a seguir. A julgar por si, diria que já tem trabalho suficiente para cuidar das suas próprias deficiências!"
Um olhar trocista sobre a falta de dedos nos pés.
"Aqueles que disfarçam as suas falhas", disse Shên T'u Chia, "para não perderem os dedos dos pés, são muitos. Aqueles que não disfarçam as suas falhas e, portanto, não as mantêm, são poucos. Reconhecer o inevitável e aceitar silenciosamente o Destino é a conquista exclusiva do homem virtuoso. Aquele que se colocasse na frente do alvo quando Hou I
Um ditado chinês.
estivesse a disparar, seria atingido. Se não fosse atingido, seria o destino. Muitos dos que têm dedos nos pés riem-se de mim por não os ter. Isso costumava irritar-me. Mas, desde que estudei com o nosso Mestre, deixei de me preocupar com isso." Pode ser que o nosso Mestre me tenha conseguido purificar até agora. De qualquer modo, estive com ele durante dezanove anos sem me aperceber da perda dos meus dedos. Agora, tu e eu estamos a estudar o interno. Não estarias, então, a cometer uma falta ao arrastar-me de volta para o externo?
Nesse momento, Tzŭ Ch’an começou a ficar inquieta e, mudando de expressão, implorou a Shên T’u Chia que não dissesse mais nada.
Havia um homem do Estado de Lu que tinha sido mutilado — Shu Shan Sem-Dedos. Veio caminhando sobre os calcanhares para ver Confúcio; mas Confúcio disse: "Não te cuidaste e, por isso, atraíste essa desgraça sobre ti. De que serve vires ter comigo agora?".
"Na minha ignorância", respondeu Sem-Dedos, "dei um jeito descuidado ao meu corpo e perdi os dedos. Mas venho com algo mais precioso do que os dedos, que agora procuro preservar." Não há homem que não esteja coberto pelo Céu; não há homem que não seja sustentado pela Terra; e eu pensava que o senhor seria como o Céu e a Terra. Mal esperava ouvir estas palavras do senhor."
"Peço desculpa", disse Confúcio. "Por favor, entre e vamos conversar." Mas o Sem-Dedos saiu.
"Aí está!", disse Confúcio aos seus discípulos. "Há um criminoso sem dedos que procura aprender para expiar os seus erros passados. E se ele, quanto mais aqueles que não têm erros pelos quais expiar?"
Sem-Dedos foi ter com Lao Tzu e disse-lhe: "Confúcio é um sábio ou não? Como é que tem tantos discípulos?". Ambiciona ser um dialético subtil, sem saber que tal reputação é considerada pelos verdadeiros sábios como as amarras de um criminoso.
"Porque é que não o encontra com a continuidade da vida e da morte, a identidade do poder e do não poder?", respondeu Lao Tzu, "e assim o liberta desses grilhões?"
"Ele já foi castigado por Deus", respondeu No-toes. "Seria impossível libertá-lo".
Um escárnio para Confúcio. O próprio No-toes só tinha sido castigado pelos homens.
O duque Ai do Estado de Lu disse a Confúcio: "No Estado de Wei existe um leproso chamado Ai T'ai T'o. Os homens que vivem com ele gostam dele e não fazem qualquer esforço para se livrarem dele. Das mulheres que o viram, muitas disseram aos seus pais: 'Em vez de ser esposa de outro homem, prefiro ser sua concubina.'"
"Já foi castigado por Deus. Em vez de ser mulher de outro homem, prefiro ser sua concubina." "Nunca prega às pessoas, mas coloca-se no lugar delas. Não possui qualquer poder para proteger o corpo dos homens. Não tem à sua disposição cargos para lhes agradar o coração. É, em certa medida, repugnante. Simpatiza, mas não instrui. O seu conhecimento limita-se ao seu próprio Estado. Mesmo assim, homens e mulheres reúnem-se à sua volta.
"Então, pensando que ele devia ser diferente dos homens comuns, mandei chamá-lo e constatei que, de facto, era, em certa medida, repugnante. Contudo, não haviam se passado muitos meses quando a minha atenção se voltou para a sua conduta. Não havia passado um ano quando passei a confiar plenamente nele; e como o meu Estado precisava de um Primeiro-Ministro, ofereci-lhe o cargo. Ele aceitou-o com mau humor, como se preferisse recusá-lo. Talvez não me considerasse suficientemente bom para ele! De qualquer modo, ele aceitou; mas, em pouco tempo, deixou-me e foi-se embora." Lamentei-o como por um amigo perdido, como se não houvesse mais ninguém com quem me pudesse alegrar. Que tipo de homem é este?
"Quando estava em missão no Estado de Chu", respondeu Confúcio, "vi uma ninhada de leitões a mamar na mãe morta. Passado um bocado, olharam para ela, e depois todos abandonaram o corpo e foram-se embora. Pois a mãe já não os olhava, nem parecia ser da mesma espécie. O que eles amavam era a mãe; não o corpo que a continha, mas aquilo que fazia do corpo o que era.
"Quando um homem é morto em batalha, as suas armas não são enterradas com ele.
Ele já não tem utilidade para armas.
Um homem que teve os dedos dos pés cortados não dá valor a um presente de botas. Em cada caso, a função destas coisas perde-se.
" As concubinas do Filho do Céu não cortam as unhas nem furam as orelhas.
Por medo de se magoarem.
Aquele que tem uma filha em idade de casar afasta-a dos trabalhos servis. Preservar a sua beleza já é ocupação suficiente para ela. Quanto mais para um homem de virtude perfeita?
Que deveria preocupar-se apenas com para o interno.
"Ora Ai T'ai To não diz nada e inspira confiança. Não faz nada e é procurado. Leva um homem a oferecer-lhe o governo do seu próprio Estado, e o único receio é que ele recuse. Verdadeiramente, os seus talentos são perfeitos e a sua virtude, sem aparência exterior!"
"O que quer dizer com os seus talentos serem perfeitos?", perguntou o Duque.
"O que quer dizer com os seus talentos serem perfeitos?" "Vida e Morte", respondeu Confúcio, "a existência e a não existência, o sucesso e o fracasso, a pobreza e a riqueza, a virtude e o vício, a boa e a má reputação, a fome e a sede, o calor e o frio — tudo isto gira na roda mutável do Destino. De dia e de noite, sucedem-se uns aos outros, e ninguém pode dizer onde cada um começa. Por isso, não se pode permitir que perturbem a harmonia do organismo, nem que entrem no domínio da alma. Nade, porém, com a corrente, para não ofender os outros. Faça-o dia após dia, sem interrupção, e viver em paz com a humanidade. Assim, estará preparado para todas as contingências e poderá dizer-se que os seus talentos são perfeitos."
"E a virtude sem forma exterior; que é isso?"
" "A um nível de água", disse Confúcio, "a água encontra-se em perfeito estado de repouso. Que este seja o seu modelo. A água permanece tranquila no seu interior e não transborda. É do cultivo desta harmonia que surge a virtude. E se a virtude não se manifestar exteriormente, o homem não poderá manter-se distante dela."
A humanidade será regenerada através deste, da mesma forma que a homogeneidade é conferida às superfícies pela água, embora esta permaneça sempre confinada e não transborde.
Alguns dias depois, o Duque Ai disse a Min Tzŭ:
Um dos discípulos de Confúcio.
Dizendo: "Quando assumi as rédeas do governo pela primeira vez, pensei que, ao cuidar da vida do meu povo, tinha cumprido todo o meu dever como governante. Mas agora que ouvi o que é um homem perfeito, temo que não tenha tido sucesso, mas antes usado o meu corpo insensatamente e causado destruição ao meu Estado. Confúcio e eu não somos príncipe e ministro, mas meramente amigos que se preocupam com o bem-estar moral um do outro."
Um certo corcunda, chamado Wu Ch'un, cujos calcanhares não tocavam no chão, chamava a atenção do Duque Ling de Wei. O Duque gostava muito dele; e, quanto aos homens bem feitos, achava que os seus pescoços eram demasiado curtos.
Um outro homem, com um bócio do tamanho de um grande jarro, chamava a atenção do Duque Huan de Ch'i. O Duque gostava muito dele; e, quanto aos homens bem feitos, achava que os seus pescoços eram demasiado finos.
Assim, a virtude deve prevalecer e a forma exterior ser esquecida. Mas a humanidade não esquece o que deve ser esquecido, esquecendo-se do que não deve ser esquecido. Isto sim é esquecimento! E assim, para os verdadeiramente sábios, a sabedoria é uma maldição, a sinceridade como cola, a virtude apenas um meio de aquisição e a habilidade não é mais do que uma capacidade comercial. Pois os verdadeiramente sábios não fazem planos e, por isso, não precisam de sabedoria. Não separam e, portanto, não precisam de cola. Não querem nada e, por isso, não precisam de virtude. Não vendem nada e, por isso, não lhes falta capacidade comercial. Estas quatro qualidades são-lhes concedidas por Deus e servem como alimento celestial. E aqueles que se alimentam do divino têm pouca necessidade do humano. Vestem a forma dos homens, sem paixões humanas. Por vestirem a forma dos homens, convivem com os homens. Por não terem paixões humanas, o positivo e o negativo não encontram lugar neles. Infinitesimal é aquilo que os torna homens: infinitamente grande é aquilo que os torna divinos!
Hui Tzŭ disse a Chuang Tzŭ: "Há, então, homens que não têm paixões?" Chuang Tzu respondeu: "Certamente."
"Mas se um homem não tem paixões", argumentou Hui Tzu, "o que faz dele um homem?"
"O Tao", respondeu Chuang Tzu, "dá-lhe a sua expressão, e Deus dá-lhe a sua forma. Como não seria um homem?"
"Se então é um homem", disse Hui Tzu, "como pode ser sem paixões?"
"O que quer dizer com paixões", respondeu Chuang Tzu, "não é o que eu quero dizer. Por um homem sem paixões, refiro-me àquele que não permite que o bem e o mal perturbem a sua economia interna, mas antes se entrega ao que acontece, como algo natural, e não contribui para o aumento da sua mortalidade."
O jogo da paixão tenderia a criar condições que de outra forma não existiriam.
"Mas de onde obterá o homem o seu corpo", perguntou Hui Tzu, "se não há nada a acrescentar ao aumento da mortalidade?"
É claro que isto é uma provocação. Hui Tzŭ utiliza propositadamente as palavras de Chuang Tzŭ em duplo sentido.
"O Tao dá-lhe a expressão", disse Chuang Tzŭ, "e Deus dá-lhe a forma. Não permite que o bem e o mal perturbem a sua economia interna. Mas agora está a dedicar a sua inteligência às coisas externas e a desgastar as suas faculdades mentais. Encosta-se a uma árvore e murmura, ou debruça-se sobre uma mesa com os olhos semicerrados.
Deus deu-lhe uma aparência agradável,
mas o seu único pensamento é o duro e o branco."
Chang Tzŭ transforma a sua última frase em versos maus, para inverter ainda mais a situação contra Hui Tzŭ, cujas teorias paradoxais nunca se cansa de utilizar. 28
d de ridicularizar. Ver capítulo ii.
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 6. O Princípio, primeiro mestre
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CAPÍTULO VI.
O Grande Supremo.
Argumento:—O humano e o divino—Os homens puros da antiguidade—As suas qualificações—A sua auto-abstração—Todas as coisas como uma só—O conhecido e o desconhecido—A vida como dádiva—A morte como transição—A vida eterna aberta a todos—O caminho para lá—Ilustrações.
Aquele que conhece o que Deus é e o que o Homem é, alcançou a plenitude. Conhecendo o que é Deus, sabe que ele próprio procedeu de Deus. Conhecendo o que é o Homem, repousa no conhecimento do conhecido, aguardando o conhecimento do desconhecido. Cumprir o tempo que lhe está destinado e não perecer a meio do caminho — eis a plenitude do conhecimento.
Deus é um princípio que existe em virtude da sua própria intrínseca e opera espontaneamente, sem auto-manifestação.
É no humano que o divino encontra expressão. O homem emana de Deus e, por isso, deveria ser na Terra, nesta nossa breve vida, aquilo que Deus é para toda a eternidade no universo.
Aqui, porém, reside uma falha. O conhecimento depende da realização. E como esta realização é incerta, como podemos saber que o meu divino não é realmente humano, e o meu humano, realmente divino?
Só quando a morte levanta o véu é que podemos verdadeiramente saber que esta vida é limitada em cada extremidade por uma imortalidade à qual a alma finalmente regressa.
"O Céu esconde de todas as criaturas o livro do Destino,
todos, excepto a página prescrita, o seu estado presente."
Precisamos de homens puros, e só assim poderemos ter conhecimento puro.
"Puro" deve ser entendido no sentido de transcendente.
Mas o que é um homem puro? — Os homens puros da antiguidade agiam sem cálculos, não procurando garantir resultados. Eles não faziam planos. Portanto, se falhassem, não tinham motivo para arrependimento; se tivessem sucesso, não tinham motivo para congratulação. E assim podiam escalar alturas sem medo; entrar na água sem se molhar; fogo, sem sentir calor. Até que ponto a sua sabedoria avançara em direção ao Tao.
"O espírito do mundo é um bom nadador, e as tempestades e as ondas não o podem afogar". — Emerson.
Os homens puros da antiguidade dormiam sem sonhos e acordavam sem ansiedade. Comiam sem discriminação, respirando profundamente. Pois os homens puros extraem o ar das suas profundezas mais extremas; os vulgares, apenas das suas gargantas.
"Profundezas mais extremas" é literalmente "calcanhares", mas todos os melhores comentadores interpretam a frase como significando que os homens puros respiram com todo o seu ser, e não superficialmente, apenas pela garganta.
Esta passagem é provavelmente responsável pelo truque de inspirar profundamente o ar da manhã, praticado (não sem fundamento científico) pelos seguidores do taoísmo deturpado dos tempos modernos. Outros truques para prolongar a vida, como engolir saliva três vezes a cada duas horas, etc., são mais passíveis de críticas. Veja o Tai Chi Chuan.
Das coisas tortuosas, as palavras são vomitadas como vómito. Se as paixões dos homens são profundas, a sua divindade é superficial.
Os homens puros da antiguidade não sabiam o que era amar a vida nem odiar a morte. Não se alegravam com o nascimento, nem se esforçavam por adiar a dissolução. Vêm depressa e vão depressa; nada mais. Não se esqueciam de onde tinham surgido, nem procuravam apressar o seu regresso para lá. Desempenhavam alegremente os seus papéis designados, aguardando pacientemente o fim. É a isto que se chama não desviar o coração do Tao,
Admitindo a manifestação da paixão no sentido condenado no capítulo V, que impediria a mente de repousar tranquilamente no conhecimento do conhecido.
Nem permitir que o humano procure complementar o divino.
Mas esperar pacientemente pelo conhecimento do desconhecido.
E é isto que se entende por um homem puro.
Tais homens são absolutamente livres na mente; em comportamento, graves; em expressão, alegres. Se faz um frio de rachar, parece-lhes Outono; se faz um calor abrasador, primavera. As suas paixões manifestam-se como as quatro estações.
Cada uma no seu tempo determinado.
Estão em harmonia com toda a criação, e ninguém conhece os seus limites.
Estas últimas palavras constam do Tao Te Ching, capítulo 18. Ver Os Restos Mortais de Lao Tzu, p. 40. Também, com uma variação, no capítulo 22 desta obra.
Assim, um homem perfeito pode destruir um reino e, ainda assim, não perder o coração do povo, enquanto os benefícios que transmite a dez mil gerações não provêm do amor ao próximo.
Tudo o que ele faz é espontâneo e, por isso, natural e, por isso, correto.
Aquele que se deleita com o homem não é ele próprio um homem perfeito. A sua afeição não é verdadeira caridade.
A caridade é o amor universal por toda a criação, que não admite manifestações particulares.
Dependendo da oportunidade, ele não tem verdadeiro valor.
O verdadeiro valor é independente das circunstâncias. É uma qualidade que opera inconscientemente para o bem e não necessita de oportunidade para se manifestar.
Aquele que não conhece o bem e o mal não é um homem superior.
O bem, para praticar; o mal, para evitar.
Aquele que desconsidera a sua reputação não é o que um homem deve ser.
Como uma mera unidade social.
Aquele que não é completamente alheio à sua própria reputação. A existência nunca poderá governar os homens.
Assim, Hu Pu Hsieh, Wu Kuang, Poh I, Shu Ch’i, Chi Tzŭ Hsü Yü, Chi T’o e Shên T’u Ti foram servos de governantes e cumpriram ordens alheias, não as suas próprias.
Uma lista de figuras ilustres da Antiguidade cujas carreiras foram mais ou menos mal sucedidas. Pouco se sabe sobre o primeiro e o segundo, exceto que as orelhas deste último mediam 18 centímetros.
O terceiro e o quarto eram irmãos e representam exemplos de pureza moral. Cada um recusou o trono do seu Estado, por considerar o irmão mais merecedor. Por fim, morreram de fome nas montanhas, preferindo não se submeter à mudança da dinastia imperial. Mais se ouvirá falar destes dois mais à frente.
O quinto cobriu todo o corpo com laca, para que ninguém se aproximasse dele. Do sexto, nada se sabe; e do sétimo, apenas que amarrou uma pedra ao pescoço e atirou-se a um rio. Veja os Fragmentos no final das obras de Shih Tzŭ.
Os homens puros da antiguidade cumpriam o seu dever para com os seus vizinhos, mas não se associavam a eles.
Entre eles, mas não lhes pertencendo.
Comportavam-se como se lhes faltasse alguma coisa, mas sem bajular os outros. De forma naturalmente retangular, não eram inflexíveis. Manifestavam a sua independência sem ir a extremos. Pareciam sorrir como se estivessem satisfeitos, quando a expressão era apenas uma resposta natural.
Como é exigido pelas necessidades da sociedade.
A sua aparência exterior derivava o seu fascínio da bondade que transportavam no seu interior. Pareciam pertencer ao mundo que os rodeava, enquanto ultrapassavam orgulhosamente os seus limites. Pareciam desejar o silêncio, quando na verdade tinham dispensado a linguagem.
Veja o capítulo V.
Viam nas leis penais um tronco;
Uma base natural de governo;
nas cerimónias sociais, asas;
Para auxiliar o progresso do homem pela vida.
na sabedoria, um acessório útil; Na moralidade, um guia. Para estes, as leis penais significavam uma administração misericordiosa; as cerimónias sociais, um passaporte para o mundo; a sabedoria, uma desculpa para fazer o que não podiam evitar; e a moralidade, trilhar o caminho como os outros.
Em vez de vaguear aleatoriamente pelo país. Numa época tão remota, a uniformidade era uma característica do povo chinês?
E assim todos os homens os elogiavam pelas vidas dignas que levavam.
Pois aquilo que lhes importava podia ser reduzido a uma coisa, e aquilo que não lhes importava também a uma. O que era um era um, e o que não era um também era um. Naquilo que era um, eram de Deus; naquilo que não era um, eram do Homem. E assim, entre o humano e o divino, não surgia qualquer conflito. Isto era ser um homem puro.
A vida e a morte pertencem ao Destino. A sua sequência, tal como o dia e a noite, é de Deus, para além da interferência do homem, uma lei inevitável.
Um homem vê Deus como vê o seu pai e ama-o na mesma medida. Não deveria ele, então, amar aquilo que é maior do que Deus?
Sc. Tão.
Um homem considera um governante dos homens como alguém superior a si próprio, por quem sacrificaria a sua própria vida. Não deveria ele, então, fazer o mesmo pelo Soberano Supremo da Criação?
Sc. Tao, o Princípio omnipresente e omnipotente que investe até Deus do poder e dos atributos da divindade.
O estudante cuidadoso do Taoísmo puro descobrirá, contudo, que a distinção entre Tao e Deus é, por vezes, tão subtil que escapa completamente à sua inteligência.
Quando o lago seca e os peixes são deixados em terra seca, humedecê-los com o hálito ou molhá-los com saliva não se compara a deixá-los, em primeiro lugar, nos seus rios e lagos natais. E melhor do que louvar Yao e culpar Chieh seria deixar ambos e dedicar-se ao desenvolvimento do Tao.
O Tao dá-me esta forma, este trabalho na vida adulta, este repouso na velhice, este descanso na morte. E certamente que aquele que é um árbitro tão benevolente da minha vida é o melhor árbitro da minha morte.
Um barco pode ser escondido num riacho ou num pântano, suficientemente seguro.
O texto traz "ou uma montanha num pântano", o que, tendo em conta o contexto, me parece absurdo. No entanto, todos os comentadores se esforçam por explicar a dificuldade, em vez de fazerem a óbvia mudança de "montanha" para "barco", mudança a que as formas dos dois caracteres chineses se prestam facilmente. Em mais de dois mil anos de actividade literária, parece que raramente ocorreu aos chineses que um texto receptivo pudesse conter um erro de copista.
Mas à meia-noite, um homem forte pode vir e levar o barco às costas. Os de visão turva não se apercebem de que, por mais que se escondam as coisas, pequenas dentro de grandes, haverá sempre a possibilidade de as perder.
O barco é uma figura de retórica da nossa mortalidade, que não pode ser escondida da decadência.
Mas se esconder o universo inteiro dentro do universo inteiro, não haverá mais nenhum lugar onde se possa perder. As leis da matéria assim o determinam.
Ter atingido a forma humana deve ser sempre motivo de alegria. E depois, passar por inúmeras transições, tendo apenas o infinito como perspectiva — o que... A incomparável felicidade é esta! Por isso, os verdadeiramente sábios regozijam-se naquilo que nunca se perde, mas perdura para sempre.
A alma, que, como Tao, é proporcional apenas ao tempo e ao espaço.
Pois, se podemos aceitar a morte prematura, a velhice, um princípio e um fim,
como inseparáveis do Destino, é já um passo na direção certa.
Porque não aceitar aquilo que informa toda a criação e é a Causa Última de todos os fenómenos?
A longa cadeia de causas próximas atinge o propósito no Tao. Temos aqui a resposta completa a questões como a proposta à Umbra pela Penumbra no final do capítulo ii.
O Tao tem as suas leis e as suas provas. É desprovido tanto de ação como de forma. Pode ser transmitido, mas não pode ser recebido.
De modo que o receptor pode dizer que o possui.
Pode ser obtido, mas não pode ser visto. Antes de existir o céu e a terra, existia o Tao. Existe imutável desde sempre. Os seres espirituais extraíram dele a sua espiritualidade, enquanto o universo se tornou naquilo que podemos ver agora. Para o Tao, o zénite não é alto, nem o nadir é baixo; nenhum ponto no tempo é passado, nem envelheceu com o passar das eras.
Para o infinito, todos os termos e condições são relativos.
Hsi Wei obteve o Tao e, assim, estabeleceu o universo em ordem.
Um lendário governante de remota antiguidade. O sentido em que estabeleceu o universo em ordem não foi transmitido de forma autêntica.
Fu Hsi obteve-o e foi capaz de estabelecer princípios eternos.
O primeiro na lista oficial de soberanos chineses (2852 a.C.). Diz-se que este monarca inventou a arte da escrita e ensinou o seu povo a cozinhar.
A Ursa Maior obteve-o e nunca se desviou do seu rumo. O sol e a lua obtiveram-no e nunca mais cessaram de girar. Kan Pi obteve-o e estabeleceu as montanhas Kun-lun. A divindade das montanhas sagradas aqui mencionadas.
P'ing I obteve-a e reina sobre os rios. Chien Wu obteve-a e reside no Monte T'ai.
Veja o capítulo i.
O Imperador Amarelo obteve-a e ascendeu aos céus sobre as nuvens.
O mais famoso dos lendários governantes da China (2697 a.C.). Diz-se, entre outras coisas, que inventou os veículos com rodas e, de um modo geral, deu início à civilização do seu povo. Alguns ditos de Lao Tzu foram-lhe atribuídos; e alguns consideram-no o primeiro promulgador do Tao.
Chuan Hsu obteve-a e reside no Palácio Negro.
Um governante lendário (2513 a.C.), sobre cujo Palácio Negro nada se sabe.
Yü Ch'iang obteve-a e estabeleceu-se no Pólo Norte.
Como seu génio regente.
Hsi Wang Mu obteve-o e estabeleceu-se em Shao Kuang; desde quando, ninguém sabe; até quando, também ninguém sabe.
Uma senhora — ou um lugar, pois os relatos variam — em torno de cujo nome se reuniram inúmeras lendas.
P'êng Tsu obteve-o e viveu desde a época de Shun até à época dos Cinco Príncipes.
De 2255 ao século VII a.C. Ver capítulo i.
Fu Yüeh obteve-o e, como Ministro de Wu Ting,
um monarca da dinastia Yin, em 1324 a.C.,
conseguiu o império sob o seu controlo. E agora, conduzido por uma constelação e puxado por outra, foi inscrito entre as estrelas do céu.
Nan Po Tzŭ K'uei
Provavelmente o indivíduo mencionado nos capítulos ii e iv.
disse a Nü Yü,
Segundo uma fonte, trata-se de uma mulher.
"O senhor é velho, e, no entanto, a sua expressão é como a de uma criança. Como é possível?"
Nü Yü respondeu: "Aprendi o Tao."
"Será que conseguiria alcançar o Tao estudando-o?", perguntou o outro.
"Não temo", disse Nü Yü. "Você não é esse tipo de homem. Existiu Pu Liang I. Ele tinha todas as qualidades de um sábio, mas não o Tao. Eu, por outro lado, possuía o Tao, embora não tivesse nenhuma das qualidades. Mas imagina que, por muito que eu desejasse, seria capaz de lhe ensinar o Tao para que se tornasse um sábio perfeito? Se assim fosse, ensinar o Tao a alguém que possui as qualidades de um sábio seria uma tarefa fácil. Não, senhor. Transmiti-o como se estivesse a reter o conhecimento; e em três dias, para ele, esse estado sublunar deixou de existir.
Com todas as suas insignificantes distinções de soberano e súbdito, superior e inferior, bom e mau, etc.
Quando ele atingiu esse estado, retive-o novamente; e em mais sete dias, para ele, o mundo externo deixou de existir. E assim novamente durante mais nove dias, quando se tornou inconsciente da sua própria existência. Ele primeiro se tornou eterizado, depois possuiu sabedoria perfeita, em seguida, ficou sem passado nem presente e, finalmente, foi capaz de entrar naquele lugar onde a vida e a morte não existem." Mais ainda, onde matar não tira a vida, nem prolongá-la aumenta a duração da existência.
No Tao, a vida e a morte são Uma.
Neste estado, está sempre em harmonia com as exigências do seu meio;
Literalmente, não há sentido em que ele não esteja a acompanhar ou a encontrar, a destruir ou a construir. Ou seja, apesar da sua condição espiritual acima descrita, ele pode ainda adaptar-se naturalmente à vida entre os seus semelhantes. O retiro de um eremita não é de modo algum necessário para a perfeição do homem puro. E isto é ser maltratado, mas não magoado. E aquele que pode ser assim maltratado, mas não ferido, está a caminho da perfeição."
"E como conseguiu tudo isso?" perguntou Nan Po Tzŭ K'uei.
"Aprendi com os livros", respondeu Nü Yü; "e os livros aprenderam com o conhecimento, e o conhecimento com a investigação, e a investigação com a coordenação,
Do olho e da mente.
" e coordenação a partir da aplicação, e aplicação a partir do desejo de conhecer, e desejo de conhecer a partir do desconhecido, e o desconhecido a partir do grande vazio, e o grande vazio a partir do infinito!
Quatro homens conversavam quando foi sugerida a seguinte resolução: — "Quem conseguir fazer da Inação a cabeça, da Vida a espinha dorsal e da Morte a cauda da sua existência, esse homem será admitido como nosso amigo." Os quatro entreolharam-se e sorriram; e, aceitando tacitamente as condições, tornaram-se imediatamente amigos.
Com o tempo, um deles, chamado Tzŭ Yü, adoeceu, e outro, Tzŭ Ssŭ, foi visitá-lo. "Verdadeiramente Deus é grande!", disse o doente. "Veja como ele me curvou. As minhas costas estão tão arqueadas que as minhas vísceras estão no topo do meu corpo. As minhas bochechas estão à altura do meu umbigo. Os meus ombros estão mais altos do que o meu pescoço. O meu cabelo cresce em direção ao céu. Toda a economia do meu organismo está desordenada." "Contudo, o meu equilíbrio mental não foi perturbado". Dito isto, arrastou-se penosamente até um poço, de onde se pôde ver, e continuou: "Ai de mim, que Deus me tenha feito assim!".
"Está com medo?", perguntou Tzŭ Ssŭ.
"Não estou", respondeu Tzŭ Yü. "O que tenho a temer? Em breve estarei decomposto. O meu ombro esquerdo transformar-se-á num galo, e anunciarei a chegada da manhã. O meu ombro direito transformar-se-á numa besta, e poderei obter pato assado. As minhas nádegas transformar-se-ão em rodas; e com a minha alma como cavalo, poderei cavalgar na minha própria carruagem. Obtive a vida porque era a minha hora: agora estou a despedir-me dela de acordo com a mesma lei. Contente com a sequência natural destes estados, a alegria e tristeza não me tocam. Estou simplesmente, como diziam os antigos, suspenso no ar, incapaz de me libertar, preso às amarras da existência material." Mas o homem sempre se submeteu a Deus: por que razão, então, hei-de ter medo?
"O que vem de Deus para nós, regressa de nós para Deus". — Platão.
Com o tempo, outro dos quatro, chamado Tzŭ Lai, adoeceu e ficou ofegante, enquanto a sua família chorava em redor. O quarto amigo, Tzŭ Li, foi vê-lo. "Sai daqui!" gritou para a mulher e para os filhos; "vão-se embora! Vocês atrapalham a decomposição dele." Então, encostando-se à porta, disse: "Verdadeiramente, Deus é grande! Imagino o que fará de ti agora. Imagino para onde serás enviado. Achas que te transformará em fígado de rato?
Os chineses acreditam que um rato não tem fígado.
Ou nos ombros de uma cobra?"
"Um filho", respondeu Tzŭ Lai, "deve ir para onde os pais o mandarem. A natureza não é mais do que os pais de um homem."
O termo "Natureza" representa aqui o Yin e o Yang, os Princípios Positivo e Negativo da cosmogonia chinesa, cuja interacção dá origem ao universo visível.
Se ela me ordenar que morra rapidamente, e eu recusar, serei um filho ingrato. Ela não me pode fazer mal algum. O Tao dá-me esta forma, este trabalho árduo na vida adulta, este repouso na velhice, este descanso na morte. E certamente que aquele que é um árbitro tão benevolente da minha vida é o melhor árbitro da minha morte.
"Suponha-se que o metal fervente num cadinho borbulhava e dizia: 'Faz de mim uma Excalibur'; creio que o fundidor rejeitaria este metal por o considerar estranho. E se um pecador como eu dissesse a Deus: 'Faz de mim um homem, faz de mim um homem'; creio que ele também me rejeitaria por ser estranho. O universo é o cadinho, e Deus é o fundidor. Irei aonde quer que me enviarem, para despertar inconsciente do passado, como um homem desperta de um sono sem sonhos.
Tzŭ Sang Hu, Mêng Tzŭ Fan e Tzŭ Ch'in Chang conversavam quando lhe perguntaram: "Quem pode ser e, no entanto, não ser?
Implicando a ausência de toda a consciência.
Quem pode fazer e, mesmo assim, não fazer?
Em virtude da inação.
Quem pode ascender aos céus e, deambulando pelas nuvens, ultrapassar os limites do espaço, alheio à existência, para sempre e sempre sem fim?"
Os três entreolharam-se e sorriram; e como nenhum deles tinha qualquer receio, tornaram-se amigos.
Pouco depois, Tzŭ Sang Hu faleceu; então, Confúcio enviou Tzŭ Kung
Um dos seus principais discípulos.
para participar no luto. Mas Tzŭ Kung descobriu que um deles tinha composto uma canção que o outro acompanhava ao alaúde,
na verdade, uma espécie de zitha, tocada com dois martelos.
como segue:
Ah! Voltarás para nós, Sang Hu?
Ah! Voltarás para nós, Sang Hu?
Já regressaste ao teu Deus,
enquanto nós ainda aqui permanecermos como homens — ai de nós!
Tzŭ Kung entrou apressadamente e disse: "Como podes cantar ao lado de um cadáver? Isto é decoro?".
Os dois homens entreolharam-se e riram, dizendo: "O que é que este homem sabe de decoro, afinal?"
Não a aparência externa do corpo, mas a aparência interna do coração.
Tzŭ Kung voltou e contou a Confúcio, perguntando-lhe: "Que tipo de homens são estes? O seu objectivo é o nada e a separação dos seus corpos físicos.
Vários comentadores apresentam diferentes interpretações desta frase — a maioria forçada.
Podem sentar-se perto de um cadáver e ainda assim cantar, impassíveis. Não há classe para tais pessoas. O que são?"
"Estes homens", respondeu Confúcio, "viajam para além das regras da vida. Eu viajo dentro delas. Consequentemente, os nossos caminhos não se cruzam; e eu estava errado ao enviá-los para lamentar. Eles consideram-se um com Deus, não reconhecendo distinções entre o humano e o divino. Encaram a vida como um enorme tumor do qual a morte os liberta. Mesmo assim, não sabem onde estavam antes do nascimento, nem onde estarão depois da morte. Embora admitam diferentes elementos, baseiam-se na unidade de todas as coisas. Ignoram as suas paixões. Não dão importância aos seus ouvidos e olhos.
"Mas se é assim", disse Tzŭ Kung, "porque nos devemos cingir às regras?"
"O Céu condenou-me a isso", respondeu Confúcio. "Contudo, talvez tu e eu possamos escapar a isso."
"Por que método?", perguntou Tzŭ Kung.
"Os peixes", respondeu Confúcio, "nascem na água. O homem nasce no Tao. Se os peixes encontram lagoas para viver, prosperam. Se o homem encontra o Tao para viver, pode viver em paz.
Sem se preocupar com as formalidades deste mundo.
Daí o ditado: 'Tudo o que um peixe quer é água; tudo o que um homem quer é o Tao.'"
É claro que, através de um golpe literário, Confúcio é aqui e noutros lugares apresentado como o patrocinador do Tao da escola rival.
"Posso perguntar", disse Tzŭ Kung, "sobre os homens divinos?"
"Os homens divinos", respondeu Confúcio, "são divinos para o homem, mas comuns para Deus. Daí o dito de que o ser mais humilde no céu seria o melhor na terra; e o melhor na terra, o mais humilde no céu."
"O homem é uma espécie de minúsculo paraíso. Deus é o grande homem". — Swedenborg.
Yen Hui disse a Confúcio: "Quando a mãe de Meng Sun Ts'ai morreu, ele chorou, mas sem soluçar;
aquilo que os chineses consideram a prova da verdadeira tristeza.
Lamentou-se, mas a sua tristeza não era sincera; vestiu luto, mas sem uivar. No entanto, embora lhe faltem estes três aspetos, é considerado o melhor enlutado do Estado de Lu. Certamente, isto é apenas o nome, não a realidade. Estou perplexo com isto."
"Mêng Sun", disse Confúcio, "fez tudo o que era necessário. Avançou em direcção à sabedoria.
Em direção ao Tao, onde não há choro nem ranger de dentes.
Ele não podia fazer menos;
do que lamentar exteriormente, por medo de infringir a etiqueta social, em harmonia, senão em conformidade, com que o verdadeiro Sábio conduz a sua vida.
enquanto, na verdade, fazia menos o tempo todo.
Como se vê pela ausência daqueles sinais que comprovam a tristeza interior.
"Mêng Sun não sabe de onde viemos nem para onde vamos. Não sabe se o fim chegará mais cedo ou mais tarde. Passando para a vida como homem, aguarda silenciosamente a sua passagem para o desconhecido. O que devem os mortos saber dos vivos, ou os vivos saber dos mortos? Até eu e tu podemos estar num sonho do qual ainda não despertámos.
" "Por outro lado, adapta-se fisicamente,
à cerimónia do corpo.
enquanto evita ferir o seu eu superior.
mantendo a sua alma livre da perturbação da paixão.
Considera um moribundo simplesmente como alguém que está a regressar a casa. Vê outros a chorar e, naturalmente, chora também.
Além disso, a personalidade de um homem é algo de que ele tem consciência subjetiva. É-lhe impossível dizer se é realmente aquilo de que tem consciência. Sonha que é um pássaro e voa para o céu. Sonha que é um peixe e mergulha nas profundezas do oceano. E não se pode dizer se o homem que está a falar agora está acordado ou a sonhar.
" "Uma sensação prazerosa precede o sorriso que evoca. O sorriso em si não depende de um lembrete.
E assim foi a expressão exterior de tristeza de Meng Sun — espontânea, em harmonia com o ambiente que a rodeava.
Resigne-se,
Ao seu ambiente mortal.
Inconsciente de todas as mudanças,
Da vida para a morte, etc.
e entrará no puro, no divino, no Uno."
Eu, Erh Tzŭ, fui ver Hsü Yu. Este perguntou-lhe: "Como é que Yao o beneficiou?"
"Ele ordenou-me", respondeu o primeiro, "praticar a caridade, cumprir o meu dever e distinguir claramente entre o certo e o errado."
"Então, o que é que queres aqui?", disse Hsü Yu. "Se Yao já o marcou com caridade e dever, e lhe cortou o nariz com o certo e o errado, o que faz nesta vizinhança desregrada, sem se importar com ninguém e de cabeça para baixo?"
De Tão.
"No entanto", respondeu I Erh Tzŭ, "eu deveria..." "Gostaria de estar nos seus limites".
"Se um homem perdeu a visão", retorquiu Hsü Yu, "é-lhe impossível apreciar a beleza. Um homem com uma película sobre os olhos não consegue distinguir uma túnica sacrificial azul de uma amarela."
"O desprezo de Wu Chuang pela sua beleza", respondeu I Erh Tzŭ, "o desprezo de Chu Liang pela sua força, o abandono da sabedoria pelo Imperador Amarelo — tudo isto foi o resultado de um processo de lixagem e martelagem. E como sabe se Deus não me livraria das minhas marcas, dar-me-ia um novo nariz e tornar-me-ia apto para ser seu discípulo?"
"Ah!" respondeu Hsü Yu, "isso não pode ser conhecido. Mas vou dar-lhe um esboço. O Mestre a quem sirvo ampara todas as coisas e não considera isso um dever. Continua as suas bênçãos por inúmeras gerações e não considera isso caridade. Remontando à mais remota antiguidade, não se considera velho." Cobrindo o céu, sustentando a terra e moldando as diversas formas das coisas, não se considera hábil. É a ele que deve procurar."
E ele é o Tao.
"Estou a progredir", observou Yen Hui a Confúcio.
O mais famoso de todos os discípulos de Confúcio, admitido por este último como tendo atingido a perfeição.
"Como assim?", perguntou Confúcio.
"Livrai-me da caridade e do dever", respondeu Yen Hui.
"Muito bem", respondeu Confúcio, "mas não perfeito."
No outro dia, Yen Hui encontrou Confúcio e disse-lhe: "Estou a progredir."
"Como assim?", perguntou Confúcio.
"Livra-me das cerimónias e da música", respondeu Yen Hui.
"Muito bem", disse Confúcio, "mas não perfeito".
Numa terceira ocasião, Yen Hui encontrou Confúcio e disse-lhe: "Estou a progredir."
"Como assim?", perguntou o Sábio.
"Livra-me de tudo", respondeu Yen Hui.
"Livra-te de tudo!", disse Confúcio. ansiosamente. "O que quer dizer com isso?"
"Libertei-me do meu corpo", respondeu Yen Hui. "Descartei as minhas faculdades de raciocínio. E, ao livrar-me do corpo e da mente, tornei-me Uno com o Infinito. É isso que quero dizer com livrar-me de tudo."
"Se se tornou Um", exclamou Confúcio, "não pode haver espaço para preconceitos. Se transcendeu para o espaço, é, de facto, sem princípio nem fim." E se realmente alcançaste isso, confio que me será permitido seguir os teus passos."
Tzŭ Yü e Tzŭ Sang eram amigos. Certa vez, depois de dez dias de chuva, Tzŭ Yü disse: "Tzŭ Sang está gravemente doente." Assim, preparou comida e foi visitá-lo.
De acordo com as exigências da mortalidade. Não se sabe ao certo como é que Tzŭ Yü soube que o seu amigo estava doente. Um comentador tentou explicar com base no magnetismo animal, crença em que os chineses acreditam há séculos.
Ao chegar à porta, ouviu algo entre o canto e o lamento, acompanhado de música, como se segue:
"Ó pai! Ó mãe! Ó Céu! Ó Homem!"
Estas palavras pareciam ser proferidas com grande esforço; então, Tzŭ Yü entrou e perguntou o que significava tudo aquilo.
"Tentei imaginar quem me poderia ter levado a esse extremo", respondeu Tzŭ Sang, "mas não consegui adivinhar." Os meus pais dificilmente desejariam que eu fosse pobre. O Céu acolhe a todos por igual. A Terra sustenta a todos por igual. Como poderiam tornar-me particularmente pobre? Procurava descobrir quem era o culpado, mas sem sucesso. Certamente, então, fui levado a este extremo pelo Destino.
"A palavra Destino exprime o sentimento da humanidade em todas as épocas: que as leis do mundo nem sempre nos favorecem, mas muitas vezes nos ferem e nos esmagam." — Emerson.
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 7. Governo dos príncipes
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CAPÍTULO VII.
Como Governar.
Argumento:—Os príncipes devem reinar, não governar—Os governantes encontram os seus padrões de justiça em si mesmos—Assim, coagiram o seu povo a obedecer a leis artificiais, em vez de os deixar obedecer às leis naturais—Através da ação, não conquistam nada—Através da inação, não há nada que não conseguissem—Os indivíduos pensam que sabem o que o império quer—Na realidade, é o próprio império que sabe melhor—Ilustrações.
YEH CH'ÜEH fez a Wang I
Ver capítulo ii.
quatro perguntas, a nenhuma das quais conseguiu responder. Com isto, o primeiro ficou muito contente,
Pois agora descobriu que a ignorância é o verdadeiro conhecimento:—explicação que adoto apenas por falta de melhor.
e foi e contou a P'u I Tzŭ.
De quem nada de definitivo se sabe.
"Acabou de descobrir isso?" disse P'u I Tzŭ. "O Imperador Shun não se comparava a Tai Huang.
Um governante lendário. Para Shun, ver capítulo i.
Shun era totalmente dedicado à caridade no seu zelo pela humanidade; mas, embora tenha tido sucesso no governo, ele próprio nunca se elevou acima do nível da artificialidade. Já Tai Huang era pacífico quando dormia e inativo quando acordado. Ora, considerava-se um cavalo; ora, um boi.
Tão eficazmente tinha fechado todos os canais que conduziam à consciência de si mesmo.
A sua sabedoria era substancial e acima de qualquer suspeita. A sua virtude era genuína. E, no entanto, nunca se rebaixou ao nível da artificialidade."
Foi um monarca segundo o modelo do Tao.
Ao encontrar Chien Wu com o excêntrico Chieh Yu, este perguntou: "O que é que Jih Chung Shih lhe ensinou?".
Do último, nada se sabe. Os dois primeiros já foram referidos nos capítulos i e vi.
" "Ensinou-me", respondeu Chien Wu, "sobre as leis e regulamentos que os príncipes criam, e que, segundo ele, ninguém ousaria ignorar e desobedecer."
"Esse é um falso ensinamento", respondeu Chieh Yü. "Tentar governar a humanidade desta forma é como tentar atravessar o mar a pé, abrir caminho num rio ou fazer voar um mosquito com uma montanha!
"O governo do homem verdadeiramente sábio não se preocupa com os factores externos. Em primeiro lugar, aperfeiçoa-se e, em virtude disso, consegue realizar o que deseja.
Passivamente, sem qualquer esforço.
"O pássaro voa alto para evitar armadilhas e dardos. O rato escava abaixo da colina para evitar ser queimado ou expulso do ninho. A sua inteligência é inferior à destas duas criaturas?"
"Que sejas incapaz de conceber meios de evitar as restrições artificiais dos príncipes. Melhor do que forçar a bondade é deixar que os homens sejam bons por si mesmos."
"O governo do homem verdadeiramente sábio não consegue conceber meios de evitar as restrições artificiais dos príncipes. Melhor do que coagir à bondade é deixar que os homens sejam bons por si mesmos." T'ien Kên
De quem nada se sabe.
Viajava a sul da montanha Yin. Ao chegar ao rio Liao, encontrou um certo Sábio a quem disse: "Quem me dera perguntar pelo governo do império."
"Vá-se embora!" exclamou o Sábio. "És um sujeito insignificante, e a tua pergunta é inoportuna. Deus acaba de me transformar num homem. Isso basta-me. Impulsionado por asas ligeiras, posso voar para além dos pontos cardeais, até à terra do nada, no domínio do vazio. E tu vens perturbar-me com o governo do império!"
Mas T'ien Kên perguntou uma segunda vez, e o Sábio respondeu: "Resolva a sua energia mental em abstracção, a sua energia física em inacção. Permita-se entrar na ordem natural dos fenómenos, sem admitir o elemento do ego, e o império será governado."
Em virtude das leis naturais que conduzem, sem interferência humana, ao fim desejado.
Yang Tzŭ Chü foi visitar Lao Tzŭ e disse: "Suponha que um homem era ardente e corajoso, conhecedor da ordem e dos princípios das coisas, e incansável na busca do Tao — seria ele considerado um governante sábio?"
"Do ponto de vista de um homem verdadeiramente sábio", respondeu Lao Tzŭ, "tal pessoa seria um mero artesão, desgastando o corpo e a mente de igual forma. O tigre e o leopardo sofrem com a beleza das suas peles. A astúcia do macaco, a docilidade do boi, ambos os conduzem à ruína. Não é por tais razões que um governante pode ser considerado sábio."
"Mas em que consiste, então", exclamou Yang Tzŭ Chü, "o governo de um homem sábio?"
" "A bondade de um governante sábio", respondeu Lao Tzu, "abrange todo o império, embora ele próprio pareça não a reconhecer. Influencia toda a criação, mas ninguém tem consciência disso. Manifesta-se sob inúmeras formas, trazendo alegria a todas as coisas. Baseia-se no que não tem fundamento e viaja pelos reinos do Nada."
A operação de um verdadeiro governo é invisível aos olhos do homem.
No Estado de Chêng, existia um mago maravilhoso chamado Chi Han. Sabia tudo sobre nascimento e morte, ganho e perda, infortúnio e felicidade, vida longa e vida curta — prevendo os acontecimentos com precisão sobrenatural. O povo de Chêng costumava fugir quando ele se aproximava; mas Lieh Tzu
Veja o cap. i.
foi vê-lo e ficou tão fascinado que, ao regressar, disse a Hu Tzu,
que parece ter sido o seu tutor.
"Eu costumava considerar o seu Tao perfeito. Agora sei algo "Ainda mais perfeito."
"Até agora", respondeu Hu Tzŭ, "só lhe ensinei os ornamentos, não o essencial, do Tao; e mesmo assim pensa que sabe tudo sobre ele. Sem galos no seu galinheiro, que tipo de ovos põem as galinhas? Se continuar a tentar impor o Tao goela abaixo das pessoas, estará apenas a expor-se. Traga o seu amigo consigo e deixe-me mostrar-me a ele."
Então, no dia seguinte, Lieh Tzŭ foi com Chi Han ver Hu Tzŭ e, quando saíram, Chi Han disse: "Ai de mim! O seu amo está condenado. Ele não pode viver. Mal lhe dou dez dias. Estou espantado com ele. Ele não passa de cinzas húmidas."
E não pode queimar por muito mais tempo.
Lieh Tzŭ entrou e chorou amargamente, e contou a Hu Tzŭ; mas este disse: "Mostrei-me-lhe agora mesmo como a terra nos mostra a sua forma exterior, imóvel e parada, enquanto a produção continua o tempo todo." Apenas o impedi de ver a minha energia reprimida
Do Tão.
dentro. Traga-o de volta."
No dia seguinte, a entrevista decorreu como anteriormente; mas, ao saírem, Chi Han disse a Lieh Tzŭ: "É uma sorte para o teu mestre ter-me encontrado. Ele está melhor. Vai recuperar. Vi que ele tinha poder de recuperação."
Lieh Tzŭ entrou e contou a Hu Tzŭ; ao que este respondeu: "Mostrei-me a ele agora mesmo como o céu se mostra em toda a sua grandeza impassível, deixando um pouco de energia escorrer dos meus calcanhares. Assim, ele pôde detectar que eu tinha alguma. Traga-o aqui novamente."
No dia seguinte, teve lugar uma terceira entrevista e, ao saírem, Chi Han disse a Lieh Tzŭ: "O teu mestre nunca é o mesmo de um dia para o outro. Não consigo dizer nada pela tua fisionomia." Faça com que tenha um funcionamento regular, e depois eu vou examiná-lo novamente."
Ao repetir isto a Hu Tzŭ como antes, este disse: "Acabei de me mostrar a ele num estado de equilíbrio harmonioso. Onde a baleia se diverte, é o abismo. Onde a água está em repouso, é o abismo. Onde a água está em movimento, é o abismo. O abismo tem nove nomes." "Estes são três deles."
Aludindo às três fases do Tao, manifestadas nas três entrevistas acima descritas, sendo o Tao o abismo.
No dia seguinte, os dois foram mais uma vez ver Hu Tzŭ; mas Chi Han não conseguiu ficar quieto e, na sua confusão, virou-se e fugiu.
"Sigam-no!" gritou Hu Tzŭ; então Lieh Tzŭ correu atrás dele, mas não conseguiu alcançá-lo, pelo que voltou e disse a Hu Tzŭ que o fugitivo tinha desaparecido.
"Mostrei-me a ele há pouco", disse Hu Tzŭ, "como o Tao que apareceu antes de o tempo existir. Eu era para ele como um grande vazio, existindo por si só. Ele não sabia quem eu era. O seu rosto fechou-se. Ele ficou confuso." E assim fugiu."
Perante isto, Lieh Tzŭ convenceu-se de que ainda não tinha adquirido qualquer conhecimento verdadeiro e pôs-se imediatamente a trabalhar arduamente, passando três anos sem sair de casa. Ajudava a esposa a preparar o jantar de família e alimentava os porcos como se fossem seres humanos. Descartou o artificial e voltou ao natural. Tornou-se apenas uma forma. No meio da confusão.
Deste mundo material.
Ele não se confundiu. E assim continuou até ao fim.
Pela inação, a fama chega, pois os espíritos dos mortos chegam ao rapaz que personifica o cadáver.
Veja o capítulo i. Nos antigos ritos funerários da China, um rapaz era obrigado a sentar-se sem fala e imóvel como um cadáver, pela razão explicada no texto.
Através da inação, pode-se tornar o centro do pensamento, o foco da responsabilidade, o árbitro da sabedoria. É necessário ter plena consideração pelos outros, mantendo-se imperturbável. Deve haver uma completa obediência aos princípios divinos, sem qualquer manifestação dos mesmos.
Non mihi res, sed me rebus, subjungere conar.
Tudo isto pode ser resumido numa única palavra: passividade. Pois o homem perfeito emprega a sua mente como um espelho. Ela não apreende nada; não rejeita nada. Recebe, mas não retém. E assim pode triunfar sobre a matéria, sem se prejudicar.
Sem o desgaste sofrido por aqueles que deixam as suas atividades correrem soltas.
O governante do mar do Sul chamava-se Shu. O governante do mar do norte chamava-se Hu. O governante da zona central chamava-se Hun Tun.
Este termo é geralmente utilizado para denotar a condição da matéria antes da separação e subdivisão nos fenómenos do universo visível.
Shu e Hu encontravam-se frequentemente no território de Hun Tun e, sendo sempre bem tratados por ele, decidiram retribuir a sua bondade.
Disseram: "Todos os homens têm sete orifícios — para ver, ouvir, comer e respirar. Só Hun Tun não tem nenhum." "Vamos furar alguns buracos para ele".
Assim, todos os dias perfuravam um buraco; mas, ao sétimo dia, Hun Tun morreu:
Ilustrando os perigos da ação. "O império", diz Lao Tzu, "é uma confiança divina e não pode ser governado. Quem governa, arruína. Quem detém pela força, perde."
"As ações dos homens", diz Emerson, "são demasiado fortes para eles".
Com este capítulo, Chuang Tzu completa o esboço do seu sistema. Os restantes capítulos são complementares aos sete anteriores ou ensaios independentes sobre assuntos relacionados.
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 8. Pés palmados
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2026-06-29T17:08:26Z
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[[Ajuda:SEA|←]] nova página: CAPÍTULO VIII. Dedos dos Pés Unidos. Argumento: — As virtudes devem ser naturais, e não artificiais; passivas, não ativas. [Os capítulos VIII a XIII, inclusive, são ilustrativos ou suplementares ao capítulo VII.] Dedos dos pés unidos e dedos extra nas mãos são um acréscimo à natureza, embora, funcionalmente falando, supérfluos. Os wens e os tumores são um acréscimo à forma corporal, embora, no que diz respeito à natureza, supérfluos. E...
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CAPÍTULO VIII.
Dedos dos Pés Unidos.
Argumento: — As virtudes devem ser naturais, e não artificiais; passivas, não ativas.
[Os capítulos VIII a XIII, inclusive, são ilustrativos ou suplementares ao capítulo VII.]
Dedos dos pés unidos e dedos extra nas mãos são um acréscimo à natureza, embora, funcionalmente falando, supérfluos. Os wens e os tumores são um acréscimo à forma corporal, embora, no que diz respeito à natureza, supérfluos. E, de forma semelhante, incluir a caridade e o dever para com o próximo entre as funções do organismo humano não é o verdadeiro Tao.
Todo este capítulo é uma violenta diatribe contra as principais doutrinas do confucionismo.
Pois, tal como os dedos dos pés unidos são apenas pedaços de carne inúteis, e os dedos extra, apenas excrescências inúteis, quaisquer acrescentos artificiais à nossa economia interna são apenas complementos prejudiciais à verdadeira caridade e ao dever para com o próximo,
que são o resultado do Tao.
e, além disso, prejudicam o uso correto da inteligência.
As pessoas com uma visão extremamente apurada confundem-se com as cinco cores, exageram o valor das tonalidades e das distinções entre verdes e amarelos para as vestes sacrificiais. Um exemplo disso era Li Chu.
Conseguia ver a ponta de um alfinete a uma distância de 1.000 li. Mencius menciona-o.
As pessoas com audição extremamente apurada confundem-se com as cinco notas musicais, exageram as diferenças tónicas dos seis diapasões e os diversos timbres de metal, pedra, seda e bambu, do Huang-chung e do Ta-lü. Um exemplo disso era Shih K'uang.
O músico cego mencionado no capítulo ii. O Huang-chung e o Ta-lü eram dois dos doze tubos de bambu, ou diapasões, nos quais se baseava a música chinesa antiga. Seis eram do sexo masculino ou positivos e seis do sexo feminino ou negativos. Por isso, são coletivamente mencionados como seis.
As pessoas que se agarram à caridade obrigam-se a exibir esta virtude para obter reputação e desfrutar dos aplausos do mundo por algo que não tem qualquer importância. Tais pessoas foram Tsêng e Shih.
Tsêng Shên, um famoso discípulo de Confúcio, e Shih Yu, ambos notáveis pelos seus elevados caracteres morais.
As pessoas que refinam os seus argumentos apenas acumulam teias ou emaranham cordas nas suas divagações sobre o duro e o branco, o semelhante e o diferente, desgastando-se com meros termos inúteis. Tais pessoas foram Yang e Mih.
Yang Chu, um filósofo do século IV a.C., cujo sistema "egoísta" foi condenado por Mêncio; e Mih Tzǔ, já referido no capítulo ii.
Portanto, toda a adição ou desvio da natureza não contribui para a perfeição suprema de tudo.
Que está no Tao.
Aquele que procura alcançar tal perfeição nunca perde de vista as condições naturais da sua existência. Para ele, o unido não se une, nem o separado se separa, nem o longo se excede, nem o curto se falta. Pois assim como as pernas de um pato, embora curtas, não podem ser alongadas sem causar dor ao pato, e as pernas de um grou, embora longas, não podem ser encurtadas sem causar sofrimento ao grou, também o que é longo na natureza moral do homem não pode ser cortado, nem o que é curto alongado. Assim, evita-se toda a tristeza.
A caridade intencional e o dever intencional para com o próximo não estão certamente incluídos na nossa natureza moral. No entanto, quanta tristeza acarretam! Separe os dedos dos pés unidos e uivará; morda o dedo extra e gritará. Num caso há excesso, no outro, falta; mas a tristeza é a mesma. E os caridosos da época lamentam-se pelos males da época, enquanto os não caridosos ignoram as condições naturais das coisas na sua ganância pela posição e pela riqueza. Certamente, então, a caridade intencional e o dever para com o próximo não estão incluídos na nossa natureza moral. No entanto, desde a época das Três Dinastias, quanta discussão se tem feito em torno deles!
Aqueles que não conseguem criar algo perfeito sem arco, linha, compasso e esquadro, prejudicam a constituição natural das coisas. Aqueles que precisam de cordas para atar e cola para unir interferem com as funções naturais das coisas. E aqueles que procuram satisfazer a mente humana com cerimónias, música e pregações de caridade e dever para com o próximo, destroem, assim, a essência intrínseca das coisas.
Pois esta essência intrínseca existe, neste sentido: — As coisas curvas não precisam de arcos; as coisas direitas não precisam de linhas; as coisas redondas não precisam de compassos; as coisas retangulares não precisam de esquadros; as coisas que se juntam não precisam de cola; as coisas que se mantêm unidas não precisam de cordas. E, tal como todas as coisas são produzidas, e ninguém pode dizer como são produzidas, também todas as coisas possuem as suas próprias qualidades intrínsecas, e ninguém pode dizer como as possuem. Desde tempos imemoriais, sempre assim foi, sem variação. Por que razão, então, a caridade e o dever para com o próximo devem ser, por assim dizer, impostos e introduzidos no domínio do Tag, para gerar dúvidas entre a humanidade?
As dúvidas menores alteram as regras da vida; dúvidas maiores alteram a natureza do homem.
Como sabemos isso? Pelo facto de, desde o tempo em que Shun pediu caridade,
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 9. Cavalos adestrados
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2026-06-29T17:09:00Z
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[[Ajuda:SEA|←]] nova página: CAPÍTULO IX. Cascos de Cavalos. Argumento: —Superioridade do natural sobre o artificial —Aplicação deste princípio ao governo. Os cavalos têm cascos para os transportar sobre a geada e a neve; pelos para os proteger do vento e do frio. Comem erva, bebem água e levantam os cascos sobre o champanhe. Essa é a verdadeira natureza dos cavalos. As habitações palacianas não lhes servem de nada. Um dia, Poh Loh Um Rarey chinês, de carácter algo l...
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CAPÍTULO IX.
Cascos de Cavalos.
Argumento: —Superioridade do natural sobre o artificial —Aplicação deste princípio ao governo.
Os cavalos têm cascos para os transportar sobre a geada e a neve; pelos para os proteger do vento e do frio. Comem erva, bebem água e levantam os cascos sobre o champanhe. Essa é a verdadeira natureza dos cavalos. As habitações palacianas não lhes servem de nada.
Um dia, Poh Loh
Um Rarey chinês, de carácter algo lendário.
Apareceu, dizendo: "Percebo de maneio de cavalos."
Então, marcou-os a ferro, tosquiou-os, aparou-lhes os cascos, colocou-lhes cabrestos, amarrou-os pela cabeça e acorrentou-os pelos pés, e dispôs-os em estábulos, com o resultado de que dois ou três em cada dez morriam. Então, manteve-os famintos e sedentos, fazendo-os trotar e galopar, escovando-os e aparando-os, com a miséria da rédea com borlas à frente e o medo do chicote com nós atrás, até que mais de metade deles estivesse morta.
O oleiro diz: "Posso fazer o que quiser com o barro. Se quiser redondo, uso o compasso; se for rectangular, o esquadro."
O carpinteiro diz: "Posso fazer o que quiser com a madeira. Se quiser curvado, uso o arco; se for direito, a linha."
Mas com que fundamento podemos pensar que a natureza do barro e da madeira exige esta aplicação de compasso e esquadro, de arco e linha? Ainda assim, todas as épocas exaltam Poh Loh pela sua habilidade em lidar com cavalos, e oleiros e carpinteiros pela sua habilidade com o barro e a madeira. Aqueles que governam o império cometem o mesmo erro.
Ora, eu considero o governo do império de um ponto de vista bastante diferente.
O povo possui certos instintos naturais: tecer e vestir-se, cultivar a terra e alimentar-se. Estes instintos são comuns a toda a humanidade e todos concordam com eles. Tais instintos são designados por "dádivas divinas".
Assim, nos dias em que os instintos naturais prevaleciam, os homens moviam-se calmamente e contemplavam o mundo com atenção. Naquele tempo, não havia estradas sobre montanhas, nem barcos, nem pontes sobre a água. Todas as coisas eram produzidas, cada uma para a sua própria esfera. Pássaros e animais multiplicavam-se; árvores e arbustos cresciam. Os pássaros podiam ser guiados pela mão; era possível subir e espreitar o ninho do corvo. Pois então o homem habitava com os pássaros e os animais, e toda a criação era uma só. Não havia distinção entre homens bons e maus. Sendo todos igualmente desprovidos de conhecimento, a sua virtude não se podia desviar. Sendo todos igualmente desprovidos de desejos malignos, encontravam-se num estado de integridade natural, a perfeição da existência humana.
Mas quando os Sábios apareceram, fazendo tropeçar as pessoas na caridade e impondo-lhes o dever para com o próximo, a dúvida encontrou o seu caminho para o mundo. E então, com o seu entusiasmo pela música e a sua preocupação excessiva com as cerimónias, o império dividiu-se internamente.
A música e as cerimónias são fatores importantes no sistema de governo confucionista.
Se a integridade natural das coisas fosse preservada, quem poderia fazer vasos de sacrifício? Se o jade branco fosse deixado intacto, quem poderia fazer as insígnias da corte? Se o Tao não fosse abandonado, quem poderia introduzir a caridade e o dever para com o próximo? Se os instintos naturais do homem fossem o seu guia, que necessidade haveria de música e de cerimónias? Se as cinco cores não fossem confundidas, quem praticaria a decoração? Se as cinco notas musicais não fossem confundidas, quem adotaria os seis diapasões?
Ver capítulos VIII e X.
A destruição da integridade natural das coisas, a fim de produzir artigos de vários tipos — eis a falha do artesão. Aniquilação do Tao para praticar a caridade e o dever para com o próximo — este é o erro do Sábio.
Os cavalos vivem em terra seca, comem erva e bebem água. Quando satisfeitos, esfregam os pescoços uns nos outros. Quando zangados, viram-se e dão coices uns aos outros. Até aqui, apenas as suas disposições naturais os levam mais longe. Mas, com freios e uma placa de metal na testa, aprendem a lançar olhares ferozes, a virar a cabeça para morder, a resistir, a tirar o freio da boca ou a colocar-lhe a rédea. E assim as suas naturezas se depravam — a culpa de Poh Loh.
Nos dias de Ho Hsü
Um governante lendário da antiguidade.
O povo não fazia nada em particular quando descansava e não ia a lado nenhum em particular quando se deslocava. Tendo comida, alegravam-se; com a barriga cheia, passeavam. Tais eram as capacidades do povo. Mas quando os Sábios vieram importuná-los com cerimónias e música para retificar a forma de governo, e lhes apresentaram a caridade e o dever para com o próximo a fim de satisfazer os seus corações, então o povo começou a desenvolver o gosto pelo conhecimento e a lutar entre si no seu desejo de ganho. Esse foi o erro dos Sábios.
A simplicidade do estilo e a inteligibilidade geral deste capítulo suscitaram dúvidas quanto à sua autenticidade. Mas, como Lin Hsi Chung observa com razão, o seu tom de compaixão em relação aos animais irracionais, apesar de uma proporção excessiva de palavras em relação ao pensamento, caracteriza-o como algo para além do alcance da arte do falsificador.
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 10. Pequenos e grandes ladrões
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2026-06-29T17:09:32Z
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CAPÍTULO X.
Abrindo Baús.
Argumento: — Todas as restrições são artificiais e, por isso, enganadoras — Só livrando-se de tais grilhões e regressando ao natural, o homem pode esperar alcançar a paz.
As precauções tomadas contra os ladrões que abrem baús, revistam malas ou saqueiam caixas registadoras consistem em prendê-los com cordas e trancá-los com ferrolhos e cadeados. É o que o mundo chama de astúcia.
Mas um ladrão forte vem e carrega a caixa registadora aos ombros, com a caixa e a bolsa também. E o seu único receio é que as cordas e os cadeados não sejam suficientemente fortes!
Portanto, aquilo a que o mundo chama astúcia não é mais do que auxílio dado ao ladrão forte.
E atrevo-me a afirmar que nada daquilo a que o mundo chama astúcia é senão útil aos ladrões fortes; e que nada daquilo a que o mundo chama sabedoria é senão uma protecção para os ladrões fortes.
Como pode ser demonstrado? — No Estado de Ch'i, um homem costumava ser capaz de ver de uma cidade para a outra e ouvir o ladrar e o cacarejar dos seus cães e galos.
Tão perto estavam. Esta frase foi
incorporada no capítulo 130 do Tao Te Ching. Ver Os Restos de Lao Tzu, p. 50.
A área coberta pelas redes de pescadores e caçadores de aves, e sulcada pelo arado, era um quadrado de dois mil e tal li.
Destes, três equivalem a uma milha, aproximadamente. Esta afirmação pretende transmitir uma ideia de prosperidade.
E dentro dos seus quatro limites, nenhum templo ou santuário era dedicado, nem um distrito ou aldeia era governado, senão de acordo com as regras estabelecidas pelos Sábios.
Contudo, numa manhã,
481 a.C.,
T'ien Ch'êng Tzu matou o Príncipe de Ch'i e roubou-lhe o reino. E não apenas o seu reino, mas também os segredos que recebera dos Sábios; de modo que, embora T’ien Ch’êng Tzŭ tivesse adquirido a reputação de ladrão, viveu tão confortavelmente como Yao ou Shun. Os pequenos Estados não se atreveram a culpá-lo, nem os grandes Estados a puni-lo; e assim, durante doze gerações, os seus descendentes governaram Ch'i.
Os comentadores não conseguiram explicar esta última frase. Com base num anacronismo evidente, alguns descartaram todo o capítulo como uma falsificação; mas o estilo geral da argumentação é contrário a esta visão.
Não será isso roubar o Estado de Ch'i e os segredos dos Sábios também, de forma a protegerem-se das consequências de tal roubo?
Isto equivale ao que já disse, ou seja, que nada do que o mundo considera grande inteligência é senão útil aos ladrões poderosos, e que nada do que o mundo chama grande sabedoria é senão uma protecção para os ladrões poderosos.
Vejamos outro exemplo. Antigamente, Lung Fêng foi decapitado, Pi Kan foi eviscerado, Chang Hung foi esquartejado e Tzŭ Hsü foi reduzido a carne picada.
Os dois primeiros já foram referidos no capítulo IV. Chang Hung era ministro do Príncipe Ling da dinastia Chou. Tzŭ Hsü era o nome do famoso Wu Yüan, primeiro-ministro do Estado de Chou, cujo cadáver terá sido cosido num saco e atirado para o rio perto de Soochow.
Todos os quatro eram sábios, mas a sua sabedoria não os preservou da morte.
Na verdade, ela acelerou os seus fins.
Um aprendiz do ladrão Chê perguntou-lhe: "Existe, então, o Tao no roubo?"
"Por favor, diga-me algo em que não haja Tao", respondeu Chê. "Há a sabedoria que permite localizar o saque. A coragem de entrar em primeiro lugar e o heroísmo de sair em último lugar. Há a astúcia de calcular o sucesso e a justiça na divisão igualitária do despojo. Nunca houve um grande ladrão que não possuísse estas cinco qualidades."
Assim, a doutrina dos Sábios é igualmente indispensável aos homens bons e a Chê. Mas os homens bons são raros e os maus, abundantes, de tal modo que o bem que os Sábios fazem ao mundo é pouco e o mal, grande.
Por isso, se diz: "Se os lábios se forem, os dentes ficarão frios". Foi a má qualidade do vinho de Lu que provocou o cerco de Han Tan.
O príncipe de Ch'u realizou uma assembleia, para a qual os príncipes de Lu e Chao levaram presentes de vinho. O de Lu era de fraca qualidade, enquanto o de Chao era rico e generoso. Porém, como o Mestre da Adega do príncipe de Ch'u não conseguiu subornar o príncipe de Chao com vinho, trocou maliciosamente os presentes; e o príncipe de Ch'u, descontente com o que considerou um insulto, logo de seguida pôs cerco a Han Tan, a principal cidade de Chao.
Foi o surgimento dos Sábios que provocou o surgimento dos grandes ladrões.
Expulsem os Sábios e deixem os ladrões em paz — só assim o império será governado. Assim como quando o riacho seca, o barranco desaparece, e quando a colina é nivelada, o abismo enche-se; assim também, quando os Sábios desaparecerem, não haverá mais ladrões, mas o império descansará em paz.
Por outro lado, a não ser que os Sábios desapareçam, os grandes ladrões também não desaparecerão; e mesmo que dupliquem o número de Sábios necessários para governar o império, mais do que duplicarão os lucros do Ladrão Chê.
Se bicadas e
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 11. Política verdadeira e falsa
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2026-06-29T17:10:06Z
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CAPÍTULO XI.
Sobre Deixar em Paz.
Argumento:—As condições naturais da nossa existência não requerem auxílios artificiais—Os males do governo—O fracasso da coerção—O Tao, o refúgio—A inação, o segredo—A ação da inação—Ilustrações.
Houve algo como deixar a humanidade em paz; nunca houve algo como governar a humanidade.
Com sucesso.
Deixar em paz surge do medo de que as disposições naturais dos homens sejam pervertidas e a sua virtude posta de lado. Mas se as suas disposições naturais não forem pervertidas nem a sua virtude posta de lado, que espaço restará ao governo?
Antigamente, quando Yao governava o império, fazia com que a felicidade prevalecesse em excesso na natureza humana; e, consequentemente, o povo não estava satisfeito. Quando Chieh
Veja p. 40.
governava o império, fazia com que a tristeza prevalecesse em excesso na natureza humana; e, consequentemente, o povo não estava contente. A insatisfação e o descontentamento são subversivos da virtude; E sem virtude, não existe estabilidade para um império.
Virtude, aqui no seu sentido comum.
Quando o homem se alegra intensamente, gravita em direção ao polo positivo. Quando se entristece profundamente, gravita em direção ao polo negativo.
Estes "polos" são os princípios masculino e feminino já referidos na pág. 82. Originalmente desenvolvidos a partir da Grande Mónada, tornaram-se os progenitores de toda a criação.
Se o equilíbrio entre o positivo e o negativo
Na natureza,
é perturbado, as quatro estações são interrompidas, o equilíbrio entre o calor e o frio é destruído e o próprio homem sofre fisicamente com isso.
Como os homens são levados a regozijar-se e a entristecer-se, e a deslocar o seu centro de gravidade, perdem a sua firmeza e fracassam no pensamento e na acção. E assim surgiu a ideia de superar os outros, seguindo-se o aparecimento de homens como o Ladrão Chê, Tsêng e Shih, resultando que o mundo inteiro não conseguia fornecer recompensas suficientes para o bem nem distribuir castigos suficientes para o mal entre a humanidade. E como este vasto mundo não é suficiente para satisfazer a procura de recompensas e punições; e como, desde a época das Três Dinastias
Os lendários imperadores Fu Hsi, Shên Nung e Huang Ti, ou o Imperador Amarelo, já referidos,
os homens não fizeram mais do que lutar por recompensas e castigos, — que tempo livre poderiam ter para se adaptarem às condições naturais da sua existência?
Além disso, o refinamento excessivo da visão leva à depravação das cores; o refinamento excessivo da audição leva à depravação do som; o refinamento excessivo da caridade conduz à confusão da virtude;
Aqui, novamente, a manifestação do Tao. Veja p. 45.
O refinamento excessivo do dever para com o próximo conduz à perversão dos princípios;
Os princípios eternos são do Tao e não do homem.
O refinamento excessivo do cerimonial leva ao afastamento do verdadeiro objetivo; o refinamento excessivo da música conduz à lascívia do pensamento; o refinamento excessivo da sabedoria leva à expansão da arte mecânica; e o refinamento excessivo da astúcia leva à expansão do vício.
Como foi mostrado no capítulo anterior.
Se as pessoas se adaptarem às condições naturais da existência, os oito princípios acima referidos
Visão, audição, caridade, dever para com o próximo, cerimonial, música, sabedoria e astúcia.
podem existir ou não; não importa. Mas se as pessoas não se adaptarem às condições naturais da existência, então estes oito princípios tornam-se obstáculos e sabotadores, e lançam o mundo na confusão.
Apesar disso, o mundo reverencia-os e valoriza-os, aumentando consideravelmente o número de erros humanos. E não como uma moda passageira, mas com admoestações nas palavras, com humildade nas prostrações e com o estímulo da música e do canto. O que me resta então?
Portanto, para o homem perfeito que é inevitavelmente chamado ao poder sobre os seus semelhantes, não há nada como a Inação.
Não está de acordo com o espírito do Tao que um homem deva esquivar-se às suas responsabilidades mortais. Pelo contrário, o Tao ensina-o a cumpri-las.
Através da inação, ele será capaz de se adaptar às condições naturais da existência. E assim é que aquele que respeita o Estado como a si mesmo é apto a sustentá-lo, e aquele que ama o Estado como a si mesmo é apto a governá-lo.
Esta última frase é atribuída por Huai Nan Tzŭ a Lao Tzŭ e foi incorporada no Tao Te Ching, capítulo XIII. É curioso que Chuang Tzŭ não tenha dito nada sobre a sua autoria, e talvez ainda mais curioso que Kuo Hsiang, o seu editor e comentador do século IV d.C., também não tenha dito nada sobre as afirmações de Lao Tzŭ ou do Tao Te Ching.
E se me puder abster de prejudicar a minha economia interna e de sobrecarregar os meus poderes de visão e audição, permanecendo sentado como um cadáver enquanto o meu poder dracónico se manifesta à minha volta, num profundo silêncio enquanto a minha voz trovejante ressoa, com os poderes celestiais a responder a cada fase da minha vontade, pois sob a influência conciliadora da inação todas as coisas amadurecem.
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 12. Céu e terra
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2026-06-29T17:11:34Z
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CAPÍTULO XII.
O Universo.
Argumento:—A preeminência do Tao—Todas as coisas por ele informadas—O verdadeiro Sábio por ele iluminado—Os seus atributos—A sua perfeição—Os sentidos do homem, a sua ruína—Ilustrações.
Por mais VASTO que seja o universo, os seus fenómenos são regulares. Incontáveis, embora os seus conteúdos, as leis que os regem são uniformes. Muitos, embora seus habitantes, o que os domina é a soberania. A soberania começa na virtude e termina em Deus. Por isso, é chamada de divina.
O termo aqui utilizado foi traduzido noutros lugares como "infinito".
Antigamente, o império estava sob a soberania da inação. Havia a virtude de Deus — nada mais.
Ou seja, naturalmente, o Tao. Por outras palavras, todas as coisas existiam nas suas próprias condições naturais.
Estando as palavras em conformidade com o Tao, a soberania do império era correta. Estando as delimitações em conformidade com o Tao, os deveres do príncipe e do súbdito eram claros. As capacidades dos governantes estavam em conformidade com o Tao, e o império governava. Como o ponto de vista estava sempre em consonância com o Tao, todas as coisas lhe respondiam.
Sob o reinado da inação, o natural prevalecia sobre o artificial. (1) O soberano não podia proferir ordens cruéis. (2) Soberano e súbdito desempenhavam cada um o seu papel designado. (3) Os homens certos estavam nos lugares certos. (4) Todas as coisas eram como eram, e não como o homem as desejava.
Assim, a virtude era o elo de ligação entre Deus e o homem, enquanto o Tao se espalhava por toda a criação. Os homens eram controlados pelas circunstâncias externas, aplicando as suas capacidades inatas ao desenvolvimento da vida civilizada. Esta capacidade estava ligada às circunstâncias da vida, e estas ao dever, e o dever à virtude, e a virtude ao Tao, e o Tao a Deus.
Por isso, foi dito: "Quanto àqueles que nutriram o antigo império, sem desejos para si mesmos, o império não passou necessidade. Eles nada fizeram, e todas as coisas seguiram o seu curso. Mantiveram um repouso digno, e o povo descansou em paz."
Não nos é dito quem proferiu estas palavras. Não estão no Tao Te Ching; e, no entanto, se Lao Tzu não as proferiu, é difícil dizer quem o fez.
Diz o Registo: "Convergindo para o Uno, todas as coisas podem ser realizadas. Pela virtude que é desprovida de intenção, até o sobrenatural pode ser subjugado."
Quanto mais o homem? Kuo Xiang diz que o Registo era o nome de uma obra atribuída a Lao Tzu.
O Mestre disse: "O Tao abrange e sustenta todas as coisas" — tão vasta é a sua extensão. Cada homem deve preparar o seu coração de acordo com isso.
Este "Mestre" foi identificado tanto com Chuang Tzu como com Lao Tzu.
"Agir através da inação é Deus. Falar através da inação é Virtude. Amar os homens e cuidar das coisas é Caridade. Reconhecer o diferente como semelhante é amplitude de visão. Não fazer distinções é liberal. Possuir variedade é riqueza. E assim, apegar-se à virtude é força. Completar a virtude é estabelecimento. Seguir o Tao é estar preparado. E não ir contra a tendência natural das coisas é ser perfeito.
Aquele que compreende plenamente estes dez pontos, ao guardá-los no seu interior, expande o seu coração e, com essa expansão, traz para si toda a criação. Um homem assim enterrará ouro na encosta e lançará pérolas ao mar. Não lutará por riquezas, nem procurará a fama. Não se alegrará com a velhice, nem se lamentará com a morte prematura. Não encontrará prazer no sucesso, nem desgosto no fracasso. Não considerará um trono como ganho pessoal, nem o império do mundo como glória exclusiva." A sua glória reside em saber que todas as coisas são Uma, e que a vida e a morte são apenas fases da mesma existência!
"Que o homem aprenda que está aqui não para trabalhar, mas para ser trabalhado; e que, embora se abram abismos sob abismos, e opiniões se sucedam, todas estão, em última análise, contidas na Causa Eterna." Emerson.
O Mestre disse: "Quão profundo no seu repouso, quão infinito na sua pureza, é o Tao!"
"Se o metal e a pedra não tivessem Tao, não seriam capazes de emitir som. E tal como possuem a propriedade do som, mas não o emitem a não ser que sejam atingidos, certamente que o mesmo princípio se aplica a toda a criação.
Significando que toda a criação responde às influências adequadas, de acordo com o Tao, se apenas soubéssemos onde as procurar.
"O homem de virtude completa permanece passivamente indiferente ao que acontece à sua volta. Ele é como era originalmente por natureza, e o seu conhecimento estende-se ao sobrenatural. Assim, a sua virtude expande o seu coração, que se abre a todos os que vêm procurar refúgio nele." O seu coração não inicia o movimento, mas simplesmente responde a uma influência exercida.
"Sem o Tao, a forma não pode ser dotada de vida. Sem virtude, a vida não pode ser dotada de inteligência. Preservar a própria forma, viver a própria vida, estabelecer a própria virtude e realizar o Tao — não é isso a virtude completa?
"Surgindo espontaneamente, movendo-se sem premeditação, com todas as coisas a seguirem o seu rasto — assim é o homem de virtude completa!
"Ele consegue ver onde tudo está escuro. Ele consegue Ouça onde tudo reina a quietude. Na escuridão, só ele consegue ver a luz. Na quietude, só ele pode perceber a harmonia. Ele pode mergulhar nas profundezas do materialismo. E pode levantar voo às mais altas alturas da espiritualidade. Isto porque ele se encontra em perfeita harmonia com todas as coisas. Embora seja uma mera abstração, ele pode satisfazer as suas necessidades e, de tempos a tempos, recebê-los em repouso — os grandes, os pequenos, os longos, os curtos, para sempre sem fim.
Ele é, por assim dizer, uma lei de compensação de todas as coisas.
O Imperador Amarelo viajou para norte do Lago Vermelho e ascendeu às Montanhas K'un-lun. Ao regressar para sul, perdeu a sua pérola mágica.
A sua parte espiritual, a sua alma.
Empregou a Inteligência para a encontrar, mas sem sucesso. Empregou a Visão para a encontrar, mas sem sucesso. Empregou a Fala
Também explicada como "Força".
para a encontrar, mas sem sucesso. Finalmente, empregou o Nada, e o Nada encontrou-a.
Não empregou o Nada para a encontrar. Ele apenas empregou o Nada.
"Que estranho", disse o Imperador, "que o Nada tenha sido capaz de a encontrar!".
O conhecimento, a visão e a fala tendem a obscurecer
em vez de iluminar a natureza espiritual do homem. Só num estado de negação se pode encontrar a verdadeira espiritualidade.
Yao O tutor de Xü Yu era Hsü. O tutor deste era Yeh Ch’üeh, e o tutor de Yeh Ch’üeh era Wang I, cujo tutor era Pei I.
Yao perguntou a Xü Yu: "Yeh Ch'üeh importa-se de ser imperador? Vou pedir a Wang I que o pergunte."
"Ai de mim!" exclamou Xü Yu, "isso seria muito mau para o império. Yeh Ch'üeh é um homem inteligente e capaz. É, por natureza, melhor do que a maioria dos homens, mas procura alcançar o divino por meios humanos. Esforça-se por não fazer o mal; mas ignora a fonte de onde brota o mal. Imperador, ora! Serve-se do artificial e negligencia o natural. Falta-lhe unidade em si mesmo. Venera a inteligência e está sempre em estado de agitação. É escravo das circunstâncias e das coisas. Para onde quer que olhe, o ambiente à sua volta responde.
"Ai de mim!" exclamou Xü Yu, "isso seria muito mau para o império. Yeh Ch'üeh é um homem inteligente e capaz. É superior à maioria dos homens, mas procura o divino por meios humanos. Esforça-se por não fazer o mal, mas ignora a origem do mal. Imperador, de facto! Serve-se do artificial e negligencia o natural. Falta-lhe unidade em si mesmo. Venera a inteligência e está sempre em estado de agitação. É escravo das circunstâncias e das coisas. Para onde quer que olhe, o ambiente à sua volta responde. Ele próprio responde ao ambiente que o rodeia." Ele não é ainda uma abstracção, guiado pelo Tao.
Está sempre a passar por modificações e carece de fixidez. Como poderia alguém assim ser adequado para imperador? Ainda assim, cada clã tem o seu ancião. Pode ser o líder de um clã, mas não o líder de líderes. Um capitão que teve sucesso na supressão de rebeliões, como ministro, é uma desgraça; como soberano, um ladrão.
Yao foi visitar Hua. O guarda fronteiriço de Hua disse: "Há! Um sábio. Os meus melhores cumprimentos, senhor. Desejo-lhe uma longa vida."
"Não!" respondeu Yao.
"Desejo-lhe muita riqueza", continuou o guarda fronteiriço.
"Não!" respondeu Yao.
"E muitos filhos", acrescentou.
"Não!" respondeu Yao.
"Longa vida, muita riqueza e muitos filhos", exclamou o guarda, "é isto que todos os homens desejam". "Como é que só tu não os queres?"
"Muitos filhos", respondeu Yao, "trazem muitas preocupações. Muito dinheiro significa muitos problemas. Uma vida longa envolve muita coisa desagradável de se suportar. Estes três dons não contribuem para o crescimento da virtude; por isso, recusei-os."
"A princípio, considerei-o um sábio", disse o carcereiro, "mas agora vejo que é apenas um homem. Deus, ao enviar o homem ao mundo, dá a cada um a sua função própria. Se tiver muitos filhos e der a cada um a sua função própria, que motivo terá para se preocupar?
"E da mesma forma, se tiver riquezas e permitir que os outros as partilhem, que problemas terá?"
" "O verdadeiro Sábio habita como a codorniz
Ao acaso.
e alimenta-se como uma cria.
Que depende dos pais.
Viaja como o pássaro, sem deixar rasto. Se existe Tao no império, ele e todas as coisas estão em harmonia. Se não houver Tao, cultiva a virtude no retiro. Após mil anos neste mundo cansativo, ascende aos céus e, cavalgando sobre as nuvens brancas, entra no reino de Deus, onde os três males não chegam e onde repousa seguro na eternidade. O que há para suportar nisto?"
Então o guarda fronteiriço partiu, e Yao seguiu-o, dizendo: "Posso perguntar——", ao que o guarda respondeu apenas: "Vai-te embora!".
O estilo do episódio acima difere o suficiente do padrão de Chuang Tzŭ para tornar a sua autoria duvidosa.
Quando Yao era imperador, Poh Ch’êng Tzŭ Kao
Lao Tzŭ, numa encarnação anterior. Veja-se o Kuang Ch'êng Tzŭ da pág. 125.
era um dos seus vassalos. Mas quando Yao entregou o império a Shun, e Shun ao Grande Yü, Poh Ch’êng Tzŭ Kao renunciou ao seu feudo e dedicou-se à agricultura.
O Grande Yü, ao visitá-lo, encontrou-o a trabalhar nos campos; então, aproximou-se humildemente, dizendo: "Quando Yao era imperador, o senhor era um vassalo; mas quando Yao entregou o império a Shun, e Shun a mim, o senhor renunciou ao seu feudo e dedicou-se à agricultura. Posso saber o motivo disso?"
"Quando Yao governava o império", disse Tzŭ Kao, "o povo esforçava-se sem recompensa e comportava-se bem sem castigo. Mas agora vocês recompensam-nos e castigam-nos, e mesmo assim não são bons. A partir deste ponto, a virtude declinará, a reO fogo da força começará, e os problemas das eras futuras revelarão a sua origem. Sumam daqui! "Não interrompa o meu trabalho." E continuou a lavrar tranquilamente como antes.
O episódio acima é inequivocamente falso.
No princípio do princípio, nem o Nada existia. Depois veio o período do Sem Nome.
"O Sem Nome", diz o Tao Te Ching, cap. i, "foi o princípio do céu e da terra". Ver também cap. ii, ante.
Quando surgiu o Uno, existia o Uno, mas era informe. Quando as coisas obtiveram aquilo pelo qual surgiram, isso foi chamado a sua virtude.
Ou seja, aquilo em virtude do qual são o que são. Veja p. 45.
Aquilo que era informe, mas dividido.
Isto é, alocado.
embora sem interstício,
Ininterrupto em continuidade.
foi chamado de destino.
Depois veio o movimento que deu vida, e as coisas produzidas de acordo com os princípios da vida adquiriram aquilo a que se chama forma. Quando a forma envolve a parte espiritual, cada uma com as suas próprias características, Essa é a sua natureza. Ao cultivarmos esta natureza, somos reconduzidos à virtude; e se esta for aperfeiçoada, tornamo-nos como todas as coisas eram no princípio. Tornámo-nos incondicionados, e o incondicionado é grandioso. Assim como os pássaros juntam os bicos para chilrear,
Inconscientemente.
e os bicos para chilrear devem ser unidos — estar assim unido ao universo sem ter mais consciência disso do que um idiota, isso é a virtude divina, isso é a consonância com a eterna adequação das coisas.
Confúcio perguntou a Lao Tzu: "Há pessoas que cultivam o Tao segundo regras fixas de possível e impossível, adequado e inadequado, assim como os escolásticos falam em separar dureza de brancura como se estas pudessem ser penduradas em ganchos diferentes.
Veja p. 22.
Poderiam tais pessoas ser chamadas de sábios?"
"Isso", respondeu Lao Tzu, "é apenas a habilidade do artesão, desgastando o corpo e a alma de igual forma." Os poderes do cão de caça envolvem-no em problemas;
É mantido pelo homem em vez de ser livre.
A astúcia do macaco fá-lo descer da montanha.
Para as mãos do homem.
Ch'iu, o que quero dizer não consegue compreender, nem consegue expressar por palavras.
Ch'iu era o nome pessoal de Confúcio. Nunca é pronunciado pelo confucionista, sendo o termo "um certo indivíduo" geralmente utilizado em seu lugar. Também não é escrito, exceto com a omissão de algum traço, o que altera a sua forma.
Os que têm cabeça e pés, mas não têm mente nem ouvidos, são muitos. Aqueles que têm um corpo sem corpo ou aparência de um, e, no entanto, estão lá — não são ninguém. O movimento e o repouso, a vida e a morte, a ascensão e a queda, não estão à mercê do homem. O cultivo do eu está nas suas próprias mãos. Ser inconsciente das existências objetivas e de Deus é ser inconsciente da própria personalidade. E aquele que desconhece a sua própria personalidade, combina em si o humano e o divino."
Chiang Lü Mien foi visitar Chi Ch'ê,
dois personagens obscuros.
e disse: "O Príncipe de Lu implorou-me que o instruísse, mas recusei. Contudo, ele não aceitou uma recusa, pelo que fui obrigado a fazê-lo. Não sei se estava correto na minha doutrina ou não. Por favor, observe o que eu disse. Eu disse-lhe para ser decoroso e económico; para promover o espírito público e a lealdade, e para não ter parcialidades. Então, disse eu, ninguém ousaria opor-se a ele."
Chi Ch'ê riu-se baixinho e disse: "Os seus comentários sobre as virtudes dos príncipes podem ser comparados ao louva-a-deus que estende as antenas e tenta parar uma carruagem — improvável de atingir o objectivo proposto."
Ver capítulo iv, onde é utilizada a mesma figura.
Além disso, estaria a colocar-se na posição de um homem que constrói uma torre imponente e exibe os seus valiosos bens para que todos os seus vizinhos os venham admirar.
Atrair pessoas por meios que não se coadunam com o Tao.
"Ai de mim! Receio ser apenas um tolo", respondeu Chiang Lü Mien. "Contudo, ficaria feliz por ser instruído por si no caminho correto a seguir."
"O governo do Sábio perfeito", explicou Chi Ch'ê, "consiste em influenciar os corações das pessoas para que completem a sua educação, reformem os seus costumes, subjuguem a mente rebelde e se esforcem, todos juntos, pelo bem comum. Esta influência opera de acordo com a disposição natural das pessoas, que, por isso, desconhecem a sua actuação. Aquele que pode agir assim não tem de se humilhar perante os ensinamentos de Yao e Shun." Ele faz com que os desejos do povo coincidam com a virtude, e os seus corações encontram repouso nisso."
Quando Tzŭ Kung
Ver o capítulo VI.
foi para sul, para o Estado de Ch'u, no seu regresso ao Estado de Chin, passou por Han-yin. Aí, viu um velho ocupado a cavar uma vala para ligar a sua horta a um poço. Tinha na mão um cântaro, com o qual trazia água e a despejava na vala — um trabalho árduo com pouco resultado.
"Se tivesse aqui uma máquina", exclamou Tzŭ Kung, "num dia poderia irrigar cem vezes a sua área actual. O trabalho necessário é..." "Uma ninharia comparada com o trabalho realizado. Não gostaria de ter uma?"
"O que é isto?" perguntou o jardineiro.
"É um aparelho feito de madeira", respondeu Tzŭ Kung, "pesado atrás e leve à frente. Puxa a água como se faz com as mãos, mas num fluxo constante. Chama-se limpador de poços."
Ainda usado em toda a China.
Nisto, o jardineiro corou e disse: "Ouvi do meu amo que aqueles que possuem ferramentas engenhosas são engenhosos nos seus negócios, e que aqueles que são engenhosos nos seus negócios têm engenho no coração, e que aqueles que têm engenho no coração não podem ser puros e incorruptos, e que aqueles que não são puros e incorruptos são inquietos de espírito, e que aqueles que são inquietos de espírito não são veículos adequados para o Tao. Não é que eu desconheça estas coisas." "Eu teria vergonha de os usar."
Perante isto, Tzŭ Kung ficou muito envergonhado e não disse nada. Então o jardineiro perguntou-lhe quem era, ao que Tzŭ Kung respondeu que era um discípulo de Confúcio.
"Não é alguém que procura ampliar o seu conhecimento com o objectivo de se tornar um Sábio; que fala com arrogância para se colocar acima dos outros; que toca numa tonalidade que ninguém consegue alcançar para espalhar a sua reputação? Em vez disso, abandone o ego e livre-se das amarras da carne — e estará perto. Mas se não conseguir governar-se a si próprio, que tempo terá para governar o império? Vá-se embora!" "Não interrompa o meu trabalho."
Tzŭ Kung mudou de cor e afastou-se furtivamente, nada satisfeito com a rejeição; e só depois de percorrer cerca de trinta li recuperou o seu aspecto habitual.
"O que fez aquele homem que encontrámos?", perguntou um discípulo, "para que mudasse de cor e demorasse tanto tempo a voltar ao normal?"
"Eu costumava pensar que só existia um homem em todo o mundo", respondeu Tzŭ Kung.
Referindo-se a Confúcio.
"Eu não sabia que existia também este homem. Ouvi o Mestre dizer que a prova de um plano é a sua praticidade, e que o sucesso deve ser certo. O mínimo de esforço com o máximo de sucesso — esse é o caminho do Sábio."
O absurdo de atribuir tais doutrinas a Confúcio será evidente para qualquer estudioso dos restos mortais do Sábio.
"Não é assim com este tipo de homem. Procurando o Tao, aperfeiçoa a sua virtude. Ao aperfeiçoar a sua virtude, aperfeiçoa o seu corpo, e ao aperfeiçoar o seu corpo, aperfeiçoa a sua parte espiritual. E a perfeição da parte espiritual é o Tao do Sábio. Ao vir à vida, é como um dos homens, sem saber para onde está destinado. Quão completa é a sua pureza? Sucesso, lucro, habilidade — nada disto tem lugar no seu coração. Tal homem, se não o deseja, não se move; se não o age.
Lembrando-nos do filósofo Yung do capítulo i.
O elogio e a crítica do mundo não o beneficiam nem o prejudicam. Pode ser chamado um homem de virtude perfeita. Quanto a mim, sou apenas uma mera criatura de impulsos."
Depois voltou a Lu para contar a Confúcio. Mas Confúcio disse: "Aquele sujeito finge conhecer a ciência do antemundano. Sabe alguma coisa, mas não muito. O seu governo é interno, não externo. O que há de maravilhoso num homem que, pela clareza da inteligência, se torna puro, pela inacção regressa à sua integridade original, e com a sua natureza e a sua parte espiritual envoltas num corpo, atravessa este nosso mundo comum? Além disso, para si e para mim, a ciência do antemundano não vale a pena conhecer."
É apenas o presente que interessa ao homem.
Esta última é uma afirmação que bem poderia ter saído dos lábios de Confúcio. Mas todo o episódio é claramente uma interpolação de tempos posteriores.
Enquanto Chun Mang partia para leste, em direção ao oceano, encontrou Yuan Feng na costa do mar oriental.
Estes nomes são provavelmente alegóricos, mas é difícil dizer exatamente em que sentido.
"Para onde vais?", exclamou este último.
"Vou para o oceano", respondeu Chun Mang.
"O que vais fazer lá?", perguntou Yüan Fêng.
"O oceano", disse Chun Mang, "é algo que não se pode encher despejando água, nem esvaziar tirando água. Estou simplesmente numa viagem."
Não se pode fazer nada com o infinito.
"Mas certamente que tem intenções em relação ao povo de sobrancelhas direitas? ... Venha, diga-me como é que o Sábio governa."
O povo de sobrancelhas direitas, ou melhor, de olhos horizontais, é descrito por um comentador como sendo "selvagens".
"Ah, o governo do Sábio", respondeu Chun Mang. "Os funcionários limitam-se às suas funções. A capacidade garante emprego. A voz do povo é ouvida e as ações são tomadas em conformidade. As palavras e os atos dos homens são assuntos internos deles, e assim o império está em paz. Um aceno ou um chamamento, e o povo reúne-se de todos os lados. É assim que o Sábio governa."
"Fale-me do homem de virtude perfeita", disse Yüan Fêng.
"O homem de virtude perfeita", respondeu Chun Mang, " Em repouso, não tem pensamentos; em ação, nenhuma ansiedade. Não reconhece o certo nem o errado, o bom nem o mau. Nos Quatro Mares, quando todos lucram, esse é o seu prazer; quando todos partilham, esse é o seu repouso. Os homens agarram-se a ele como crianças que perderam as suas mães; reúnem-se à sua volta como viajantes que se perderam. Tem riquezas de sobra, mas não sabe de onde vêm. Tem comida e bebida em abundância, mas não sabe quem as fornece. Tal é um homem virtuoso."
"E agora", disse Yüan Fêng, "fale-me do homem divino."
"O homem divino", respondeu Chun Mang, "cavalga sobre a glória do céu, onde a sua forma já não pode ser discernida. A isto se chama absorção na luz. Ele cumpre o seu destino. Age de acordo com a sua natureza. É um com Deus e com o homem. Para ele, todos os assuntos deixam de existir e todas as coisas regressam ao seu estado original." "Isto chama-se envolvimento na escuridão."
Mên Wu Kuei e Ch'ih Chang Man Chi observavam as tropas de Wu Wang.
O famoso fundador da dinastia Chou, 1169-1116 a.C.
"Ele não se compara ao Grande Yu", disse este último; e, consequentemente, "estamos envolvidos em todos estes problemas."
"Posso perguntar", respondeu Mên Wu Kuei, "se o império estava sob um governo adequado quando o Grande Yu começou a governá-lo, ou se teve primeiro de conter a desordem para depois assumir o governo?"
"Se todo o império estivesse sob um governo adequado", disse o outro, "o que teria de fazer o Grande Yu? Era como um bálsamo para uma ferida. Só os calvos usam perucas; só os doentes precisam de médicos. E o Sábio cora quando um filho filial, com olhar ansioso, administra remédios para curar o seu amado pai.
Porque, para precisar de medicamentos, o pai precisa primeiro de ter estado doente; E isso, do ponto de vista chinês, é claramente culpa do filho.
"Na Idade de Ouro, os homens bons não eram valorizados; a habilidade não era evidente. Os governantes eram meros faróis, enquanto o povo era livre como um cervo selvagem. Eram íntegros sem se preocuparem com o dever para com o próximo. Amavam-se uns aos outros sem se preocuparem com a caridade. Eram verdadeiros sem se preocuparem com a lealdade. Eram honestos sem se preocuparem com a boa-fé. Agiam livremente em tudo sem reconhecerem obrigações para com ninguém. Assim, os seus feitos não deixaram rasto; assuntos não foram transmitidos à posteridade."
Rousseau, em Do Contrato Social, descreve assim a sociedade como seria se cada homem fosse um verdadeiro cristão: —"Chacun remplirait son devoir; "O povo seria submetido às leis, os chefes seriam justos e moderados, os magistrados íntegros e incorruptíveis, os soldados honrariam a morte, não haveria vaidade nem luxo."
"Um filho filial não agrada aos pais. Um ministro leal não bajula o príncipe. Este é o ápice da piedade e da lealdade filial. Concordar com tudo o que um pai ou um príncipe diz, e elogiar tudo o que um pai ou um príncipe faz, é o que o mundo chama de conduta não filial e desleal, embora aparentemente desconheça que o princípio é de aplicação universal. Pois, embora um homem concorde com tudo o que o mundo diz e elogie tudo o que o mundo faz, ele não é tachado de bajulador; do que se pode inferir que o mundo é mais severo do que um pai e mais digno de respeito do que um príncipe!"
" "Se disser a um homem que é um bajulador, ele não vai gostar. Se lhe disser que é um adulador, ele ficará zangado. No entanto, ele é eternamente ambos. Mas toda esta farsa e fingimento é o que o mundo aprecia e, consequentemente, as pessoas não se castigam umas às outras por fazerem o que elas próprias fazem. Um homem arrumar as suas roupas, ou fazer uma exibição, ou adequar a sua expressão para obter as boas graças do mundo, e ainda assim não se chamar adulador; identificar-se em todos os sentidos com o ‘sim’ e o ‘não’ dos seus semelhantes, e ainda assim não se considerar um deles — isso é o cúmulo da insensatez.
Um homem que sabe que é tolo não é um grande tolo. Um homem que reconhece o seu erro não está num grande erro. Um grande erro nunca poderá ser corrigido; um grande insensato nunca recupera a lucidez. Se três homens estiverem a viajar e um deles cometer um erro, ainda poderão chegar ao seu destino, pois o erro é minoritário." Mas se dois deles cometerem um erro, então não terão sucesso, pois o erro está na maioria. E agora, como o mundo inteiro está em erro, eu, embora conheça o caminho verdadeiro, infelizmente sou incapaz de guiar.
"A música grandiosa não agrada aos ouvidos vulgares. Dai-lhes o Chê-yang ou o Huang-hua,
o "Não para José" e "Sally, Vem" da China antiga.
e darão gargalhadas. Da mesma forma, as grandes verdades não conquistam o coração das massas. E, como as grandes verdades não encontram expressão, prevalecem os lugares-comuns. Dois instrumentos de barro abafarão o som de um de metal; e o resultado não será melodioso.
"E agora, como o mundo inteiro está em erro, eu, embora conheça o caminho verdadeiro, como posso guiar? Se eu sei que não posso ter sucesso e ainda assim tento forçar o sucesso, isso seria apenas mais uma fonte de erro. Melhor, então, desistir e..." Não lute mais. Mas se eu não lutar, quem lutará?
"Um homem feio que tenha um filho nascido a meio da noite correrá com uma luz, temendo que a criança seja como ele".
"Uma árvore velha é cortada para fazer vasos de sacrifício, que são depois ornamentados com cores. O cepo permanece numa vala. Os vasos de sacrifício e o cepo na vala são tratados de forma muito diferente em relação à honra e à desonra; igualmente, no que diz respeito à destruição da natureza original da madeira. Da mesma forma, os actos do Ladrão Chê e de Tsêng e Shih são muito diferentes; mas a perda da natureza original é, em cada caso, a mesma."
"Um homem feio que tenha um filho a meio da noite correrá para acender uma luz, com medo de que a criança seja como ele." "As causas desta perda são cinco: as cinco cores confundem os olhos, impedindo-os de ver com clareza; os cinco sons confundem os ouvidos, impedindo-os de ouvir com precisão; os cinco aromas confundem o nariz e obstruem o olfacto; os cinco sabores enjoam o paladar e prejudicam o paladar; e, por fim, os gostos e os desgostos obscurecem a compreensão e provocam a dispersão da natureza original.
Estes cinco são os flagelos da vida; contudo, Yang Chu e Mih consideravam-nos o summum bonum.
Como a conquista do Tao. Para Yang Chu e Mih Tzŭ, ver capítulos ii e viii.
Não são o meu summum bonum. Pois se os homens acorrentados desta forma podem ser considerados como tendo atingido o summum bonum, então os pombos e as corujas em gaiolas também podem ser considerados como tendo atingido o summum bonum!
" "Além disso, encher o interior de gostos e desgostos, sons e cores; envolver o exterior com gorros de pele, chapéus de penas, o uso de tabletes ou cintos — cheio de lixo por dentro, enquanto envolto em magnificência por fora — e ainda falar de ter alcançado o summum bonum; então o prisioneiro com os braços amarrados atrás das costas e os dedos no espremedor, o tigre ou o leopardo que acaba de ser colocado numa jaula, pode justamente considerar que também alcançou o summum bonum!"
"L'homme", diz Rousseau (op. cit.), "est né libre, et partout il est dans les fers."
Este capítulo, tal como está, não é claramente da autoria de Chuang Tzŭ. Um crítico aponta, com razão, a falta de sequência lógica na organização dos argumentos e das ilustrações. Outro, embora admita um refinamento geral do estilo, chama a atenção para uma superficialidade de pensamento perceptível em certas partes. "No entanto", acrescenta, "apenas aqueles que comem e dormem com os seus Chuang Tzŭs seriam capazes de detetar isto."
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 13. Influência do céu
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CAPÍTULO XIII.
O Tao de Deus.
Argumento:—O Tao é o repouso—O repouso, o segredo do universo—
Cultivo do essencial—Negligência do acidental—A sequência do Tao—Espontaneidade da verdadeira virtude—O Tao é incondicionado—O Tao
não pode ser transmitido—Ilustrações.
O Tao de Deus opera incessantemente; e todas as coisas são produzidas. O Tao do soberano opera incessantemente; e o império se reúne à sua volta. O Tao do Sábio opera incessantemente; e todos os que se encontram dentro dos limites do oceano circundante reconhecem o seu domínio. Aquele que apreende Deus, que está em relação com o Sábio e que reconhece a virtude radiosa do soberano, — as suas ações serão para ele inconscientes, as ações do repouso.
Com ele, tudo será inação, pela qual todas as coisas serão realizadas.
O repouso do Sábio não é aquilo a que o mundo chama repouso. O seu repouso é o resultado da sua atitude mental. Toda a criação não podia perturbar o seu equilíbrio: daí o seu repouso.
Quando a água está parada, é como um espelho, refletindo a barba e as sobrancelhas. Revela a precisão do nível da água, e o filósofo toma-a como modelo. E se a água deriva a lucidez da quietude, quanto mais as faculdades da mente? A mente do Sábio, em repouso, torna-se o espelho do universo, o espelho de toda a criação.
Repouso, tranquilidade, quietude, inação — estes eram os níveis do universo, a perfeição suprema do Tao.
Nos primórdios do Tempo, antes de a matéria assumir forma, era através destes níveis que o espiritual se ajustava.
Por isso, governantes sábios e Sábios repousam neles. Repousando neles, alcançam o incondicionado, do qual surge o condicionado; e com o condicionado vem a ordem.
Referindo-se às leis que são indissociáveis das existências concretas.
Novamente, do incondicionado vem o repouso, e do repouso vem o movimento.
Uma vez estabelecido o repouso interior, o movimento exterior surge como consequência natural, sem prejuízo para o organismo.
E do movimento vem a realização. Além disso, do repouso vem a inação, e da inação vem a potencialidade da ação.
Quando a inação é atingida, a ação surge espontânea e inconscientemente no organismo.
E a inação é felicidade; e onde há felicidade, nenhuma preocupação pode permanecer, e a vida é longa.
Repouso, tranquilidade, quietude, inação — estas eram a fonte de todas as coisas. A devida percepção disto foi o segredo do sucesso de Yao como governante e do sucesso de Shun como seu ministro. A devida percepção disto constitui a virtude dos soberanos no trono, o Tao do Sábio inspirado e do Rei sem coroa em baixo. Mantenha-se fiel a isso na sua vida privada, e os habitantes letrados do mar e do vale reconhecerão o seu poder. Mantenha-se fiel a isso ao apresentar-se para pacificar um mundo conturbado, e o seu mérito será grande, o seu nome ilustre e o império unido num só. No seu repouso, será sábio; nos seus movimentos, poderoso. Pela inação, ganhará honra; e, ao limitar-se ao puro e simples, impedirá que o mundo inteiro lute consigo por ostentação.
Para compreender plenamente o esquema do universo.
Literalmente: "a virtude do céu e da terra", significando a sua inacção, pela qual todas as coisas são levadas à maturidade.
A isto se chama o grande segredo de estar em harmonia com Deus, através do qual o império é administrado de modo a que o resultado seja a harmonia com o homem. Estar em harmonia com o homem é a felicidade humana; estar em harmonia com Deus é a felicidade de Deus.
Chuang Tzŭ disse: "Ó meu exemplo! Tu que destróis todas as coisas e não consideras isso crueldade; tu que beneficias todo o tempo e não consideras isso caridade; tu que és mais antigo que a antiguidade e não consideras isso idade; tu que sustentas o universo, moldando as muitas formas nele contidas, e não consideras isso habilidade;—esta é a felicidade de Deus!"
Por isso, foi dito: "Aqueles que gozam da felicidade de Deus, ao nascerem no mundo, estão apenas a cumprir as suas funções divinas; quando morrem, apenas sofrem uma mudança física. Em repouso, exercem a influência do Negativo; em movimento, exercem o poder do Positivo."
Ver acima, capítulos VI e XI.
Assim, aqueles que gozam da felicidade de Deus não têm queixa contra Deus, nem rancor contra o homem. Nada de material os prejudica; nada de espiritual os castiga. Assim foi dito: "O seu movimento é o do céu;
um movimento de revolução incessante, sem princípio nem fim.
O seu repouso é o da terra. O equilíbrio mental confere-lhes o império do mundo. Os espíritos malignos não os atormentam externamente; os demónios não os perturbam internamente. O equilíbrio mental confere-lhes a soberania sobre toda a criação." O que significa que, em repouso, se estendem a todo o universo e estão em relação com toda a criação — esta é a felicidade de Deus. Isto permite à mente do Sábio abarcar todo o império.
Pois a virtude do governante sábio é modelada segundo o universo, é guiada pelo Tao e está sempre ocupada na inacção. Pela inação, ele gere. O império, e tem energia de sobra; mas, ao agir, descobre que a sua energia é insuficiente para a administração do império. Por isso, os homens da antiguidade davam grande importância à inação.
Mas se os governantes praticam a inacção e os governados também a praticam, os governados igualar-se-ão aos governantes e não serão como os seus súbditos. Por outro lado, se os governados praticam a acção e os governantes também a praticam, os governantes assimilar-se-ão aos governados e não serão como os seus senhores. Os governantes devem praticar a inação para administrar o império. Os governados devem praticar a ação para servir os interesses do império. Esta é uma lei imutável.
E uma sobre a qual os comentadores não pouparam esforços. No final do capítulo, o leitor poderá tirar as suas próprias conclusões.
Assim, os homens da antiguidade, embora o seu conhecimento não se estendesse a todo o universo, não se preocupavam com a mente. Embora os seus poderes intelectuais embelezassem toda a criação, não se alegravam. Embora as suas capacidades esgotassem tudo dentro dos limites do oceano, não agiram.
O céu não tem partos, contudo todas as coisas evoluíram. A Terra não conhece incrementos, contudo todas as coisas são alimentadas. O governante sábio pratica a inação, e o império aplaude-o. Por isso, foi dito: "Não há nada mais misterioso
Na sua ação.
do que o céu, nada mais rico do que a terra, nada maior do que o governante sábio." Por isso também se dizia: "A virtude do governante sábio torna-o igual ao céu e à terra." Conduzido pelo universo, com toda a criação como seu séquito, percorre a estrada da mortalidade.
O essencial está no governante; o acidental, no governado.
Literalmente, a "raiz" e a "ponta" do ramo, respectivamente.
A última ratio reside no príncipe; a representação é o dever do ministro.
O apelo às armas é a forma mais baixa de virtude. As recompensas e os castigos são a forma mais baixa de educação. As cerimónias e as leis são a forma mais baixa de governo. A música e as roupas finas são a forma mais baixa de felicidade. Chorar e lamentar são a forma mais baixa de tristeza. Estes cinco aspetos devem acompanhar os movimentos da mente.
Os antigos, com efeito, cultivavam o estudo dos acidentes, mas não permitiam que este precedesse o dos elementos essenciais. O príncipe precede, o ministro segue. O pai precede, o filho segue. O irmão mais velho precede, o mais novo segue-se. Os mais velhos precedem, os mais novos seguem. Os homens precedem, as mulheres seguem. Os maridos precedem, as esposas seguem. As distinções de posição e precedência fazem parte do esquema do universo, e o Sábio adopta-as em conformidade. Em termos de espiritualidade, o céu é honrado, a terra é humilde. A primavera e o verão precedem o outono e o inverno: tal é a ordem das estações. Na constante produção de todas as coisas, existem fases de existência. Existem os extremos da maturidade e da decadência, a maré perpétua da mudança. E se o céu e a terra, os mais divinos de todos, admitem posição e precedência, quanto mais o homem?
No templo ancestral, os pais estão acima de todos; Na corte, os mais honrados; na aldeia, os anciãos; nos assuntos a resolver, os mais fiáveis. Tal é a ordem que pertence ao Tao. Aquele que, ao considerar o Tao, despreza esta ordem, despreza o Tao; e aquele que, ao considerar o Tao, despreza o Tao, — de onde obterá o Tao?
Portanto, os da antiguidade que compreendiam o Tao, compreendiam primeiro Deus. O Tao vinha a seguir, e depois a caridade e o dever para com o próximo, e depois as funções da vida pública, e depois as formalidades e os nomes, e depois o emprego de acordo com a capacidade, e depois as distinções entre o bem e o mal, e depois a discriminação entre o certo e o errado, e depois as recompensas e os castigos. Assim, os sábios e os insensatos recebiam o que lhes era devido; os exaltados e os humildes ocupavam os seus lugares apropriados. E, sendo os virtuosos e os desprezíveis guiados pelos seus próprios instintos naturais, era necessário distinguir as capacidades e adoptar uma nomenclatura correspondente para servir o governante, nutrir os governados, administrar as coisas em geral e elevar-se a si mesmo. Onde o conhecimento e os planos são inúteis, deve-se recorrer ao natural. Esta é a paz perfeita, o auge do bom governo. Por isso, está escrito: "Onde há forma, há também um nome". Formas e nomes, de facto, os antigos possuíam, mas não lhes davam precedência.
Assim, os da antiguidade que consideravam o Tao, passaram
M 2 durante cinco fases antes de alcançar formas e nomes, e nove antes de se poderem discutir recompensas e castigos.
Como referido no parágrafo anterior.
Elevar-se por salto a formas e nomes é ignorar a sua origem; elevar-se por salto a recompensas e castigos é ignorar o seu início. Aqueles que invertem o processo de discussão do Tao, argumentando em sentido directamente contrário, são mais propensos a serem governados por outros do que a governá-los por si próprios.
Elevar-se per saltum às formas, aos nomes, às recompensas e aos castigos é compreender o Tao. A parte instrumental do governo, mas não a compreensão do grande princípio do governo.
Que é o Tao.
Isto significa ser útil na administração do império, mas não ser capaz de o gerir. Isto é ser um sciolista, um homem de visão tacanha.
As cerimónias e as leis eram de facto cultivadas pelos antigos; mas eram empregadas ao serviço dos governantes pelos governados. Os governantes não as empregavam como meio de nutrir os governados.
Desde o início deste capítulo, o argumento tem sido eminentemente insatisfatório.
Antigamente, Shun perguntou a Yao: "Como é que Vossa Majestade emprega as suas faculdades?" "Não sou arrogante para com os indefesos", respondeu Yao. "Não negligencio os pobres. Lamento pelos que morrem. Tenho pena do órfão. Simpatizo com a viúva. Além disso, nada."
"Bom, de facto!" exclamou Shun, "mas ainda não é grandioso."
"Como assim?" indagou Yao. "Sê passivo", disse Shun, "como a virtude de Deus. O sol e a lua brilham; as quatro estações sucedem-se; o dia e a noite alternam; as nuvens vêm e a chuva cai."
"Ai de mim!" exclamou Yao, "que confusão causei. Tu estás em harmonia com Deus; eu estou em harmonia com o homem."
Antigamente, o céu e a terra eram considerados grandiosos; e o Imperador Amarelo, Yao e Shun consideravam-nos perfeitos. Consequentemente, o que faziam aqueles que governavam o antigo império? Faziam o que o céu e a terra fazem; nada mais.
Quando Confúcio viajava para oeste para depositar as suas obras na biblioteca imperial da Casa de Chou, Tzŭ Lu
O mais popular de todos os discípulos de Confúcio. Nas marcantes palavras do Sr. Watters: "Ele estava igualmente pronto a argumentar, a lutar, a calar-se, a rezar pelo seu mestre e a morrer com ele. Por isso, é muito injusto da parte do Dr. Legge chamar-lhe uma espécie de Pedro, referindo-se, naturalmente, a Simão Pedro, um homem que não tinha fé, coragem e fidelidade, e que, além disso, amaldiçoava e praguejava." — Guia para as Tábuas num Templo Confucionista.
aconselhou-o, dizendo: "Ouvi dizer que um certo bibliotecário do departamento de Chêng, de nome Lao Tan,
Ou, como é geralmente designado nesta obra, Lao Tzu. 'Chêng' parece ter sido apenas um nome distintivo.
Demitiu-se e retirou-se para a vida privada. Agora que o senhor deseja depositar as suas obras, seria aconselhável ir entrevistá-lo."
"Certamente", disse Confúcio; e depois foi ver Lao Tzu. Este nem quis ouvir falar da proposta; Confúcio começou então a expor as doutrinas dos seus doze cânones, de modo a convencer Lao Tzu.
Estes doze foram enumerados de diversas formas, como (i) o Livro das Mutações, Partes I e II, com as Dez Asas; (ii) os Doze Duques da Primavera e do Outono, etc.
"Isto é tudo um absurdo!", exclamou Lao Tzu, interrompendo-o. "Diga-me quais são os seus critérios."
"A caridade", respondeu Confúcio, "e o dever para com o próximo."
"Diga-me, por favor", perguntou Lao Tzu, "isso faz parte da natureza original do homem?"
A questão de um sentido moral inato ocupou desde cedo a atenção dos pensadores chineses.
"Sim", respondeu Confúcio. "Sem caridade, o homem superior não poderia tornar-se naquilo que é. Sem o dever para com o próximo, não teria qualquer utilidade. Estes dois pertencem à natureza original de um homem puro. Que mais se quer?"
"Diz-me", disse Lao Tzu, "em que consiste a caridade e o dever para com o próximo?"
"Consistem", respondeu Confúcio, "na capacidade de se alegrar com todas as coisas; no amor universal, sem o elemento do ego. Estas são as características da caridade e do dever para com o próximo."
"Que coisa!" exclamou Lao Tzu. "O amor universal não se contradiz?
Se todos amam a todos, não pode haver amor, tal como o altruísmo absoluto só consegue o mesmo resultado que o egoísmo absoluto.
Não será a sua eliminação do eu uma manifestação positiva do eu?
Sobre o princípio de "Não lhe pregue a orelha à bomba".
Senhor, se quiserdes que o império não perca a sua fonte de sustento, existe o universo, cuja regularidade é incessante; há o sol e a lua, cujo brilho é incessante; há as estrelas, cujos agrupamentos nunca se alteram; há pássaros e animais, que se reúnem sem variar; há árvores e arbustos, que crescem para cima sem exceção. Seja como eles; siga o Tao; e será perfeito. Porquê, então, estas vãs lutas pela caridade e pelo dever para com o próximo, como se estivesse a tocar um tambor à procura de um fugitivo? Ai de mim! Senhor, o senhor trouxe muita confusão à mente do homem".
A metáfora do tambor volta a ocorrer no capítulo XIV.
Senhor, se quiser, a comparação com o tambor volta a ocorrer no capítulo XIV. Shih Ch'êng Ch'i
De quem nada se sabe.
visitou Lao Tzu e dirigiu-se a ele, dizendo: "Tendo ouvido, senhor, que o senhor era um sábio, deixei de lado qualquer preocupação com a distância para vir visitá-lo. Viajando por muitas etapas, as plantas dos meus pés engrossaram, mas não me atrevi a descansar. E agora vejo que o senhor não é um sábio. Enquanto os ratos se banqueteavam com as suas sobras, o senhor expulsou a sua irmã de casa. Isto não é caridade. Embora o senhor não tenha falta de comida, crua ou cozinhada, o senhor é avarento para além de todos os limites."
Perante isto, Lao Tzu permaneceu em silêncio e não respondeu; e No dia seguinte, Shih Ch'êng Ch'i voltou e disse: "Antes, fui rude consigo; agora, peço desculpa. Como é isso?".
"Não tenho a pretensão", respondeu Lao Tzu, "de possuir um conhecimento astuto nem uma sabedoria divina. Se ontem me tivesse chamado boi, eu consideraria-me um boi. Se me tivesse chamado cavalo, eu consideraria um cavalo.
Pois se os homens o classificam de acordo com a verdade, e você rejeita a classificação, apenas duplica a afronta. A minha humildade é humildade natural." "Não é humildade pela humildade."
Shih Ch'êng Ch'i afastou-se respeitosamente.
Sem deixar cair a sua sombra sobre Lao Tzŭ. Trazendo um pé para junto do outro, sem se atrever a deixá-lo passar como num passo comum.
Então, avançou de novo, também respeitosamente, e disse: "Posso perguntar-lhe sobre o cultivo pessoal?".
Lao Tzŭ disse: "O seu semblante é estranho. Os seus olhos são salientes. O seu queixo é pesado. Os seus lábios estão entreabertos. O seu comportamento é presunçoso. Parece um homem num cavalo amarrado.
O seu corpo está ali, a sua mente noutro lugar.
É demasiado confiante. Você é demasiado precipitado. Você sobrestima os seus próprios poderes. Homens assim não são de confiança. Aqueles que se encontram do lado errado de uma linha divisória são chamados de ladrões."
Lao Tzŭ disse: "O Tao não é demasiado pequeno para o maior, nem demasiado grande para o mais pequeno." Assim, todas as coisas estão contidas nele; vasta, de facto, a sua capacidade ilimitada, insondável a sua profundidade.
"Forma, virtude, caridade e dever para com o próximo, eis os acidentes do espiritual. A não ser que seja um homem perfeito, quem determinará o seu lugar? O mundo do homem perfeito não é tão vasto? E, no entanto, não é capaz de o envolver em problemas. Todos lutam pelo poder, mas ele não se junta a eles. Embora não descubra nada de falso, não é tentado a desviar-se. Apesar da mais absoluta autenticidade, ainda se limita ao essencial.
À raiz, não ao ramo.
"Assim, coloca-se fora do universo, para além de toda a criação, onde a sua alma está livre de preocupações. Apreendendo o Tao, está em harmonia com a virtude. Deixa em paz a caridade e o dever para com o próximo. Trata as cerimónias e a música como adventícias. E assim a mente do homem perfeito está em paz.
" "Os livros são aquilo que o mundo valoriza como representantes do Tao. Mas os livros são apenas palavras, e a parte valiosa das palavras é o pensamento nelas contido. Este pensamento tem uma certa inclinação que não pode ser transmitida por palavras, no entanto o mundo valoriza as palavras como sendo a essência dos livros. Mas, embora o mundo as valorize, não têm qualquer valor; pois o sentido em que o mundo as valoriza não é o sentido em que são valiosas.
"O que pode ser visto com os olhos é forma e cor; o que pode ser ouvido com os ouvidos é som e ruído. Mas, infelizmente, as pessoas desta geração pensam que forma, cor, som e ruído são meios pelos quais podem chegar a compreender a essência do Tao. Isso não é verdade." E como é que aqueles que sabem não falam, enquanto aqueles que falam não sabem, de onde deveria o mundo obter o seu conhecimento?
A primeira metade desta última frase foi inserida no capítulo 16 do Tao Te Ching. Ver Os Restos Mortais de Lao Tzu, pp. 7 e 38.
Duque Huan.
O famoso governante do Estado Ch'i. Floresceu no século VII a.C.
Certa vez, estava a ler no seu salão, quando um carpinteiro que trabalhava por baixo,
abaixo do estrado coberto, denominado "salão", que tem uma fachada aberta, à vista de todos, para que tal trabalho pudesse ser realizado,
largou o martelo e o cinzel e, subindo os degraus, disse: "Que palavras está Vossa Alteza a estudar?"
"Estou a estudar as palavras dos Sábios", respondeu o Duque.
"Os Sábios estão vivos?", perguntou o carpinteiro.
"Não", respondeu o Duque; "estão "Mortos."
"Então as palavras que Vossa Alteza está a estudar", respondeu o carpinteiro, "são apenas resquícios dos antigos."
"Como assim, senhor!", exclamou o Duque, "interferindo no que leio? Explique-se, ou morrerá."
"Permita-me dar um exemplo", disse o carpinteiro, "do meu próprio ofício. Ao fazer uma roda, se se trabalha demasiado devagar, não se consegue torná-la firme; se se trabalha demasiado depressa, os raios não encaixam. Não se deve ir nem demasiado devagar nem demasiado depressa. É preciso haver coordenação entre a mente e a mão. As palavras não conseguem explicar o que é, mas há uma arte misteriosa nisso. Não posso ensiná-la ao meu filho; nem ele pode aprendê-la comigo. Consequentemente, embora tenha setenta anos, ainda estou a fazer rodas na minha velhice." Se os antigos, juntamente com tudo o que não puderam transmitir, já morreram e se foram, então o que Vossa Alteza está a estudar deve ser o que resta."
Este episódio do fabricante de rodas encontra-se nas obras de Huai Nan Tzŭ, do século II a.C. Utilizou-o para ilustrar as palavras iniciais do Tao Te Ching; e em Os Restos de Lao Tzŭ, p. 6, afirma-se que o roubou a Chuang Tzŭ sem reconhecimento.
Quando esta afirmação foi feita, ainda não tinha chegado à conclusão, que agora me foi imposta, de que o capítulo acima não é da autoria de... f Chuang Tzŭ. Como observa um crítico, o estilo é geralmente admirável; mas não é o estilo de Chuang Tzŭ.
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 14. Evolução natural
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CAPÍTULO XIV.
O Céu Giratório.
Argumento:—A Causa Última—Integridade do Tao—Música e Tao—Fracasso do Confucionismo—Confúcio e Lao Tzu—Confúcio atinge o Tao—Ilustrações.
[Este capítulo é complementar do capítulo V.]
O céu gira; a terra permanece imóvel; o sol e a lua perseguem-se. Quem o causa? Quem o dirige? Quem tem tempo suficiente para garantir que tais movimentos se mantêm?
"Alguns pensam que existe um mecanismo que faz com que estes corpos se movam como se movem. Outros pensam que giram sem conseguir parar.
"As nuvens provocam a chuva; a chuva provoca as nuvens. De quem é esta benevolência? Quem tem tempo suficiente para garantir que tal resultado é alcançado?
" "O vento vem do norte. Sopra ora para leste, ora para oeste; e ora gira no alto. Quem o sopra? Quem tem tempo livre suficiente para o estar a agitar para lá e para cá? Gostaria de saber a causa de tudo isto."
Não nos é dito o nome de quem fez a pergunta.
Wu Han Chao
Um antigo sábio.
disse: "Vem cá, e eu dir-te-ei. Acima estão as Seis Influências
Os princípios do Yin e Yang, vento, chuva, escuridão e luz; como no capítulo xi.
Alguns comentadores lêem como os "Seis Pontos Cardinais", a saber: Norte, Este, Sul, Oeste, em cima e em baixo.
e as Cinco Virtudes.
Caridade, dever para com o próximo, ordem, sabedoria e verdade.
Se um governante se mantiver em harmonia com estas, o seu governo será bom; caso contrário, será mau. Seguindo os nove capítulos do livro Lo.
Contendo uma revelação mística de conhecimento sob a forma de um diagrama, supostamente entregue a um dos lendários governantes da China mais de 2000 anos antes da era cristã.
o seu governo será um sucesso e a sua virtude completa; zelará pelos interesses do seu povo, e todo o império lhe deverá gratidão. Isto é ser um governante eminente."
"Uma resposta muito indireta", diz Lin Hsi Chung, "a uma pergunta muito direta".
Tang, um alto funcionário da dinastia Song, perguntou a Chuang Tzŭ sobre a caridade. Chuang Tzŭ respondeu: "Os tigres e os lobos possuem-na."
"Como assim?", perguntou Tang.
"O amor natural entre pais e filhos", respondeu Chuang Tzŭ, "não é isso caridade?"
Tang indagou então sobre a caridade perfeita.
"A caridade perfeita", disse Chuang Tzŭ, "não admite o amor pelo indivíduo".
Abrange todos os homens igualmente. Amar uma pessoa implicaria, no mínimo, a possibilidade de odiar outra. Ver também a página 167, onde Lao Tzŭ refuta a doutrina do amor universal.
"Sem esse amor", respondeu Tang, "parece-me que não existiria afeição, e sem afeição não haveria piedade filial. A caridade perfeita não admite piedade filial?"
"Não", disse Chuang Tzŭ. "Caridade perfeita é o termo mais abrangente. Consequentemente, era desnecessário mencionar a piedade filial. Não que a piedade filial tenha sido omitida, mas simplesmente não foi especificada.
"Um homem que viaja para sul, até Ying,
capital do Estado de Ch'u,
não consegue ver o Monte Ming a norte. Por quê? Porque está muito longe.
" "Portanto, já se disse que é fácil ser respeitosamente filial, mas difícil ser carinhosamente filial.
O artificial é mais fácil que o natural.
Mas mesmo isto é mais fácil do que tornar-se inconsciente das próprias obrigações naturais, o que, por sua vez, é mais fácil do que fazer com que os outros se tornem inconscientes das suas operações.
Ou seja, ser filial sem que os outros se apercebam disso.
Da mesma forma, isto é mais fácil do que ficar completamente inconsciente do mundo, o que, mais uma vez, é mais fácil do que fazer com que o mundo se torne inconsciente da nossa influência sobre ele.
Tal é a caridade perfeita, que opera sem que a sua operação seja conhecida.
"A verdadeira virtude não faz nada, contudo, deixa Yao e Shun para trás. A sua boa influência estende-se por dez mil gerações, contudo, ninguém sabe que ela existe. Que adianta, então, ansiar por caridade e dever para com o próximo?
" "Piedade filial, amor fraterno, caridade, dever para com o próximo, lealdade, verdade, castidade e honestidade — todos estes são esforços estudados, destinados a auxiliar o desenvolvimento da virtude. São apenas partes de um todo.
"Portanto, foi dito: 'A honra perfeita inclui toda a honra que um país pode conceder. A riqueza perfeita inclui toda a riqueza que um país pode conceder. A ambição perfeita inclui toda a reputação que se possa desejar'. E, por analogia, o Tao não admite subdivisão."
Pei Mên Ch'êng;
De quem nada foi registado.
Disse ao Imperador Amarelo: "Quando Vossa Majestade tocou no Han-ch'ih
Nome de uma peça musical cujo significado se desconhece.
" Nas terras selvagens de Tung-t'ing, na primeira vez que a ouvi, senti medo; na segunda, fiquei espantado; e na última, fiquei confuso, sem palavras, extasiado.
"Não estás longe da verdade", respondeu o Imperador Amarelo. "Toquei como um homem, inspirado por Deus. A execução foi meticulosa, a expressão sublime.
"A música perfeita molda-se primeiro segundo um padrão humano; depois segue as linhas do divino; depois procede em harmonia com as cinco virtudes; Então, tudo se transforma em espontaneidade. As quatro estações fundem-se, e toda a criação entra em harmonia. À medida que as estações se sucedem, todas as coisas são produzidas. Ora plenitude, ora decadência, ora suave e estrondosa, ora clara, ora abafada, a harmonia do Yin e Yang. Como um relâmpago, o som que te despertou, como o mundo dos insetos é despertado.
Pelo hálito quente da primavera.
Seguido de um estrondo trovejante, sem fim e sem princípio, ora moribundo, ora vivendo, ora afundando, ora emergindo, sem cessar. E depois teve medo.
Quando voltei a tocar, era a harmonia do Yin e do Yang, iluminada pela glória do sol e da lua; ora interrompida, ora prolongada, ora suave, ora severa, num único e insondável volume sonoro. Preenchendo vales e desfiladeiros, tapando os ouvidos e dominando os sentidos, adaptando-se às capacidades das coisas — o som girava em todas as direções, com notas estridentes e claras. Os espíritos das trevas mantinham-se no seu domínio. O sol, a lua e as estrelas seguiam o seu curso pré-determinado. Quando a melodia se esgotava, eu parava; se a melodia não parava, eu continuava.
A música era naturalmente o que era, independentemente do músico.
Teria simpatizado, mas não poderia compreender. Teria olhado, mas não poderia ver. Teria perseguido, mas não poderia alcançar. Ficaste atordoado no meio do deserto, encostado a uma árvore, a trautear, com a visão cansada, as forças esgotadas para a perseguição, e assim incapaz de me alcançar. A sua postura Era apenas uma casca vazia. Estava completamente perdido e, por isso, maravilhado.
"Então, toquei sons que não produzem espanto, a lei melodiosa da espontaneidade, brotando como os incontáveis botões da natureza, em alegria múltipla, porém informe, como se derramada até a última gota, em um baixo profundo, porém silencioso. Começando do nada, a melodia repousava no vazio; alguns diriam morta, outros viva, outros real, outros ornamental, enquanto se espalhava por todos os lados em acordes jamais antecipados.
"O mundo maravilhado indaga sobre o Sábio. Ele relaciona-se com as suas variações e segue a mesma lei eterna.
"Quando nenhuma máquina é posta em movimento, e, no entanto, a instrumentação está completa, esta é a música de Deus. A mente desperta para o seu deleite sem esperar ser chamada. Consequentemente, Yu Piao elogiou-a, dizendo: 'Ouvindo, não se pode ouvir o seu som; olhando, não se pode ver a sua forma'.
Diz-se que Yu Piao foi um dos governantes pré-históricos da China." Os leitores do Tao Te Ching (cap. xiv) encontrarão aqui mais um prego no caixão desta fraude flagrante. Ver Os Restos Mortais de Lao Tzu, p. 14. Ver também o cap. xxii desta obra.
"Preenche o céu e a terra. Abranga os seis pontos cardeais." Agora desejava ouvi-la, mas não conseguia compreender a sua existência. E assim estava confuso.
"A minha música induziu primeiro o medo; e, como consequência, o respeito. Depois, acrescentei o espanto, pelo qual se isolou.
Da consciência do seu meio envolvente.
E, por fim, confusão; pois confusão significa ausência de sentido, e ausência de sentido significa Tao, e Tao significa absorção nele."
Quando Confúcio viajou para oeste, para o Estado de Wei, Yen Yuan
o "João" entre os discípulos de Confúcio. Terminou uma vida pura e gentil aos 32 anos, para indizível tristeza do Sábio.
perguntou Shih Chin,
Músico-chefe do Estado de Lu.
dizendo: "O que pensa do meu mestre?"
"Infelizmente!" respondeu Shih Chin, "ele não teve sucesso".
"Como assim?" indagou Yen Yüan.
"Antes de o cão de palha ser oferecido em sacrifício", respondeu Shih Chin, "é guardado numa caixa, envolto num pano bordado, e o adivinho jejua antes de o usar. Mas, uma vez oferecido, os transeuntes espezinham o seu corpo, e os apanhadores de lenha recolhem-no para queimar. Assim, se alguém o apanhar e, colocando-o novamente numa caixa e envolto num pano bordado, vigiar e dormir ao seu lado, não só sonhará, como também terá pesadelos.
A coisa é estranha. Daqui parece que o uso do cão de palha era para induzir sonhos sobre acontecimentos futuros.
"Ora, o seu Mestre tem tratado assim os antigos, que são como o cão que já foi oferecido em sacrifício. Ele faz com que os seus discípulos vigiem e durmam ao lado deles. Consequentemente, a sua árvore
sob a qual costumava ensinar
foi cortada em Song; não o querem em Wei; na verdade, as suas hipóteses entre os Shang e os Chous esgotaram-se." Não é este o sonho? E depois, estar rodeado pelos Ch'êns e pelos Ts'ais, sete dias sem comida, com a morte a enfrentá-lo de frente — não é este o pesadelo?
"Para viajar pela água, não há nada como um barco. Para viajar por terra, não há nada como uma carroça. Isto porque um barco move-se facilmente na água; mas se tentasse empurrá-lo em terra, nunca conseguiria fazê-lo andar.
Esteja em harmonia com o que o rodeia.
Agora, os tempos antigos e modernos podem ser comparados à água." e terra; Chou e Lu para o barco e para a carroça. Tentar que os costumes de Chou tenham sucesso em Lu é como empurrar um barco em terra: grande dificuldade e nenhum resultado, excepto certamente prejuízo para si próprio. O seu Mestre ainda não aprendeu a doutrina da não-angularidade, da auto-adaptação ao externo.
"Nunca viu uma pá de limpeza de poço? Puxa-a e ela desce. Solta-a e ela sobe. É o homem que puxa a pá de limpeza, e não a pá de limpeza que puxa o homem; de modo que, tanto ao descer como ao subir, não contraria os desejos do homem. E assim foi que as cerimónias, obrigações e leis dos Três Imperadores e Cinco Governantes não visavam a uniformidade de aplicação, mas o bom governo do império. As suas cerimónias, obrigações, leis, etc., eram como a cereja, a pera, a laranja e a toranja — todas diferentes no sabor, mas todas palatáveis.
Vista um macaco com as vestes de Zhou Kung,
Ver o capítulo IV.
e não ficará feliz até que sejam despedaçadas. E a diferença entre o passado e o presente é muito semelhante à diferença entre Zhou Kung e um macaco.
"Quando Hsi Shih
Uma famosa beleza da antiguidade.
Estava aflita, franzia as sobrancelhas. Uma mulher feia da aldeia, vendo como ela estava bonita, voltou para casa e, tendo-se esforçado por alcançar um melhor estado de espírito, franziu as sobrancelhas. O resultado foi que os ricos do lugar trancaram as suas portas e não saíram, enquanto os pobres pegaram nas suas mulheres e filhos e partiram para outro lugar. Aquela mulher viu a beleza das sobrancelhas franzidas, mas não viu onde residia essa beleza.
Na adequação ao indivíduo.
Ai de mim! O seu Mestre não é definitivamente um sucesso."
Confúcio viveu até aos cinquenta e um anos sem ter ouvido falar do Tao, altura em que foi para o sul, ter com P'ei, para ver Lao Tzu.
Lao Tzu disse: "Então o senhor veio, não foi? Ouvi dizer que o senhor é considerado um sábio no norte. O senhor já alcançou o Tao?"
"Ainda não", respondeu Confúcio. — Em que direção — perguntou Lao Tzu — a procurou?
— Procurei durante cinco anos — respondeu Confúcio — na ciência dos números, mas não obtive sucesso.
— E depois?... — continuou Lao Tzu.
— Então — disse Confúcio — passei doze anos a procurá-la na doutrina do Yin e do Yang, também sem sucesso.
— Exatamente — respondeu Lao Tzu. "Se o Tao pudesse ser apresentado, não haveria homem que não o apresentasse ao seu soberano ou aos seus pais. Se pudesse ser transmitido ou dado, não haveria homem que não o transmitisse ao seu irmão ou o desse ao seu filho. Mas isso é impossível, pela seguinte razão: a menos que haja uma dotação adequada no interior, o Tao não permanecerá. A menos que haja correcção exterior, o Tao não operará. Sendo o externo inadequado para a impressão do interno, o verdadeiro Sábio não procura imprimir. Sendo o interno inadequado para a recepção do externo, o verdadeiro Sábio não procura receber.
Não tentando nem ensinar nem aprender.
"A reputação é propriedade pública; não se pode apropriar dela em excesso. A caridade e o dever para com o próximo são como caravançarais estabelecidos por sábios governantes da antiguidade; pode-se parar lá uma noite, mas não por muito tempo, ou incorrerá em reprovação.
" "Os homens perfeitos da antiguidade trilhavam o caminho da caridade, detendo-se apenas uma noite para cumprir o seu dever para com o próximo, a caminho de deambular pelo espaço transcendental. Alimentando-se dos frutos da inatividade e estabelecendo-se no domínio da ausência de obrigações, gozavam da sua inação transcendental. O seu alimento estava sempre à mão; e, não tendo obrigações para com os outros, não impunham obrigações a ninguém. Os antigos chamavam a isto o sinal exterior visível de uma graça interior e espiritual.
Aqueles que fazem da riqueza o seu tudo, não suportam a perda de dinheiro. Aqueles que fazem da distinção o seu tudo, não suportam a perda da fama. Aqueles que ambicionam o poder não depositam a autoridade nas mãos dos outros. Ansiosos enquanto o possuem, angustiados se o perdem, mas nunca aprendendo com o passado e reconhecendo a insensatez da sua busca — tais homens são os amaldiçoados de Deus."
"Aqueles que o possuem não suportam a perda de dinheiro. Aqueles que o possuem não suportam a perda de fama. Aqueles que ambicionam o poder não o depositam nas mãos de outros. Ansiosos enquanto o possuem, angustiados se o perdem, mas jamais aprendendo com o passado e reconhecendo a insensatez da sua busca — tais homens são os amaldiçoados de Deus." "Ressentimento, gratidão, receber, dar, autocensura, instrução dos outros, poder sobre a vida e a morte — estes oito são os instrumentos do bem; mas só aquele que consegue adaptar-se às vicissitudes da fortuna, sem se deixar levar, é apto a usá-los. Tal pessoa é um homem íntegro entre os íntegros. E aquele cujo coração não está assim constituído — a porta da inteligência divina ainda não se lhe abriu."
Confúcio visitou Lao Tzu e falou sobre a caridade e o dever para com o próximo.
Lao Tzu disse: "A palha da joeira cegará os olhos de um homem, de tal modo que ele já não poderá distinguir os pontos cardeais. Os mosquitos manterão um homem acordado toda a noite com as suas picadas. E da mesma forma, esta conversa sobre caridade e dever para com o próximo quase me enlouquece. Senhor! Esforça-te por manter o mundo na sua simplicidade original. E como o O vento sopra onde quer, assim se estabelece a Virtude. Porquê tanta energia desmedida, como se procurasse um fugitivo com um grande tambor?
Ver p. 167.
"O ganso-das-neves é branco sem banho diário. O corvo é preto sem se pintar diariamente. A simplicidade original do preto e do branco é inegável. A perspectiva da fama e da reputação não merece ser ampliada. Quando o lago seca e os peixes são deixados em terra seca, humedecê-los com o hálito ou humedecê-los com um pouco de saliva não se compara a deixá-los, em primeiro lugar, nos seus rios e lagos nativos."
Repetido do cap. VI.
Quando regressou desta visita a Lao Tzu, Confúcio não falou durante três dias. Um discípulo perguntou-lhe: "Mestre, quando viu Lao Tzu, em que direcção o admoestou?"
"Eu vi um Dragão", respondeu Confúcio, "— um Dragão que, por convergência, revelou um corpo, por radiação tornou-se colorido e, cavalgando sobre as nuvens do céu, nutriu os dois Princípios da Criação. A minha boca ficou aberta: eu não conseguia fechá-la. Como então achas que eu iria admoestar Lao Tzu?"
Ao que Tzu Kung respondeu: "Ha! Então um homem pode permanecer imóvel como um cadáver, manifestando o seu poder de dragão em redor, a sua voz trovejante ouvida mesmo no meio de um profundo silêncio, os seus movimentos como os do universo? Eu também gostaria de ir vê-lo."
Mais uma repetição, desta vez do capítulo xi.
Assim, graças à sua ligação com Confúcio, Tzu Kung conseguiu uma entrevista. Lao Tzu recebeu-o com distância e dignidade, dizendo em voz baixa: "Sou velho, senhor. Que conselhos gostaria de me dar?"
"A administração dos Três Reis e dos Cinco Governantes", respondeu Tzŭ Kung, "não foi uniforme; mas a reputação deles foi idêntica. Como então, senhor, é que o senhor não os considera sábios?"
"Aproxima-te, meu filho", disse Lao Tzŭ. "O que quer dizer com 'não uniforme'?"
"Yao entregou o império a Shun", respondeu Tzŭ Kung; "e Shun a Yu. Yu empregou mão-de-obra, e Tang empregou tropas. Wên Wang seguiu Zhou Xin e não se atreveu a opor-se-lhe. Wu Wang opôs-se a ele e não o seguiu. Por isso, eu disse que não era uniforme."
"Aproxima-te, meu filho", disse Lao Tzŭ, "e eu falar-te-ei dos Três Reis e dos Cinco Governantes.
"A administração do Imperador Amarelo fez com que os afetos do povo fossem universais. Ninguém chorava a morte dos seus pais, e ninguém os criticava.
Todos se amavam igualmente."
"A administração do Imperador Amarelo fez com que os afetos do povo fossem universais. Ninguém chorava a morte dos seus pais, e ninguém os criticava.
Todos se amavam igualmente." "A administração de Yao desviou os afetos do povo para canais particulares. Se um homem matasse o assassino dos seus pais, ninguém o culpava.
O afeto filial começou a predominar.
A administração de Shun trouxe um espírito de rivalidade entre o povo. As crianças nasciam após os dez meses de gestação; aos cinco meses, já falavam; e antes dos três anos de idade,
incluindo a gestação,
já conseguiam distinguir uma pessoa de outra. E assim a morte precoce entrou no mundo.
Um verdadeiro anticlímax, irremediavelmente indigno tanto de Lao Tzu como de Chuang Tzu.
" "A administração de Yu provocou uma mudança nos corações do povo. O individualismo prevaleceu e a força passou a ser utilizada. Matar ladrões não era considerado um assassinato; e por todo o império as pessoas dividiram-se em classes. Houve grande alarme por todos os lados, e surgiram os confucionistas e os mihistas. Inicialmente, os relacionamentos foram devidamente respeitados; mas e as mulheres de hoje?
Significando que antigamente os homens não podiam casar antes dos trinta anos, as mulheres antes dos vinte, enquanto que agora o Estado está amaldiçoado com casamentos precoces. Ou, de acordo com a visão do Dr. Legge sobre uma famosa passagem do Livro dos Ritos, que antigamente era vergonhoso para homens e mulheres não se casarem aos trinta e vinte anos, respectivamente, enquanto agora o Estado está amaldiçoado com casamentos tardios.
"Deixe-me dizer-lhe. O governo dos Três Reis e dos Cinco Governantes era assim apenas no nome. Na realidade, era uma completa confusão." A sabedoria dos Três Reis Magos opunha-se ao brilho do sol e da lua em cima, destrutiva da energia da terra e da água em baixo, e subversiva da influência das quatro estações.
Mais repetição. Veja o capítulo X, no final.
Esta sabedoria é mais prejudicial do que a cauda de uma vespa, impedindo os próprios animais de se relacionarem adequadamente com as condições da sua existência — e, no entanto, autodenominam-se Sábios! Não é vergonhosa a sua falta de vergonha?
Com isto, Tzŭ Kung ficou desconfortável.
Todo o episódio acima pode ser descartado sem hesitação como uma falsificação frágil.
Confúcio disse a Lao Tzŭ: "Organizei os Seis Cânones da Poesia, da História, dos Ritos, da Música, das Mudanças e da Primavera e do Outono. Dediquei-lhes muito tempo e conheço bem o seu significado." Usei-as para admoestar setenta e dois governantes, através de discursos sobre a sabedoria de antigos soberanos e de ilustrações das vidas de Chou e Shao. Contudo, nenhum governante adoptou as minhas sugestões. Ai de mim, que o homem seja tão diferente. "Difícil de persuadir, e sabedoria tão difícil de ilustrar."
"É bom para o senhor", respondeu Lao Tzu, "que não tenha encontrado nenhum verdadeiro governante da humanidade. Os seus Seis Cânones são apenas as pegadas gastas de antigos sábios. E o que são pegadas? Ora, as palavras que o senhor agora profere são como pegadas. As pegadas são feitas pelo sapato: não são o sapato em si.
"Os gaviões-pescadores encaram-se com olhos imóveis, e as suas crias nascem. O macho de um certo insecto canta com o vento enquanto a fêmea canta contra ele, e a sua prole nasce. Há outro animal que, sendo hermafrodita, produz a sua própria prole. A natureza não pode ser mudada. O destino não pode ser alterado. O tempo não pode parar. O Tao não pode ser obstruído. Uma vez alcançado o Tao, não há nada que o senhor não possa realizar. Sem ele, não há nada que o senhor possa realizar."
Durante três meses após isto, Confúcio não saiu de casa. Então, visitou novamente Lao Tzu e disse: "Atingi a iluminação. As aves põem ovos, os peixes desovam, os insetos sofrem metamorfose e os mamíferos amamentam as suas crias.
Literalmente, ‘quando chega um irmão mais novo, o mais velho chora’ — de onde se pode inferir o significado na tradução.
Toda a frase significa que todo o desenvolvimento procede de acordo com leis fixas. É inútil tentar fazer qualquer coisa. A natureza é sempre auto-semelhante.
Há muito tempo que não sou iluminado. E aquele que não é iluminado, como poderá iluminar os outros?"
Lao Tzu disse: "Ch'iu, alcançaste a iluminação!"
"O estilo deste capítulo", diz Lin Hsi Chung, "coloca-o num lugar de destaque entre os ensaios 'externos' de Chuang Tzu. Mas a inserção deste diálogo entre Confúcio e Lao Tzu sobre a caridade e o dever para com o próximo é como tentar fazer um manto de zibelina com a cauda de um cão."
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 15. Sabedoria e endurecimento
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CAPÍTULO XV.
Presunção.
Argumento: — Aspirantes a sábios — A vaidade do esforço — O método do verdadeiro sábio — A passividade como chave — A alma e a mortalidade — A reabsorção no imortal.
A presunção e a segurança que levam os homens a abandonar a sociedade e a diferenciarem-se dos seus semelhantes, a entregarem-se a discursos arrogantes e a insultar os outros, não são mais do que uma sobrestimação pessoal, a afectação dos reclusos e daqueles que se afastaram do mundo e fecharam o coração às influências mundanas.
A pregação da caridade e do dever para com o próximo, da lealdade e da verdade, do respeito, da economia e da humildade — isto não passa de cultura moral, propagada por aspirantes a pacificadores e mestres da humanidade, e por eruditos nacionais e estrangeiros.
Pregação de serviços meritórios, de fama, de cerimónias entre soberano e ministro, de relações adequadas entre as classes alta e baixa — trata-se de mera governação, praticada por cortesãos ou patriotas que se esforçam por alargar as fronteiras do seu próprio Estado e engolir o território dos outros.
Viver em pântanos ou em ermos, e passar os dias a pescar — isto é mera inação, praticada por andarilhos que viraram as costas ao mundo e não têm nada melhor para fazer.
Exalar e inalar,
A teoria da "respiração". Ver capítulo VI, ad init.
Livrar-se do velho e assimilar o novo, esticar-se como um urso e esticar-se como um pássaro —
Como se supõe que estas criaturas fazem para obter ar de qualidade nos seus sistemas.
—isto não passa de valetudinarianismo, praticado pelos professores de higiene e por aqueles que tentam preservar o corpo até à idade de P'êng Tsu.
Veja o capítulo I.
Mas na auto-estima sem presunção, na cultura moral sem caridade e dever para com o próximo, no governo sem hierarquia e fama, no retiro sem solidão, na saúde sem higiene — aí temos o esquecimento absoluto aliado à posse de todas as coisas; uma calma infinita que se torna um objetivo a atingir por todos.
Tal é o Tao do universo, tal é a virtude do Sábio. Por isso se disse: "Na tranquilidade, na quietude, no incondicionado, na inacção, encontramos os níveis do universo, a própria constituição do Tao."
Quase literalmente do capítulo XIII, página 158, onde a passagem aparece como parte do próprio texto de Chuang Tzu, e não como uma citação de qualquer outro autor.
Por isso se diz: "O sábio é uma grandeza negativa e, consequentemente, encontra-se em estado de passividade. Sendo passivo, está em estado de repouso. E onde há passividade e repouso, a tristeza e a ansiedade não entram, e as influências negativas não se acumulam. Assim, a sua virtude é completa e a sua espiritualidade permanece intacta."
Por isso se diz: "O nascimento do Sábio é a vontade de Deus; a sua morte é apenas uma modificação da existência. Em repouso, ele partilha da passividade do Yin; em acção, da energia do Yang. Ele não tem nada a ver com a felicidade e, portanto, nada a ver com a desgraça.
Cada um procede do outro numa cadeia infinita.
Ele precisa de ser influenciado antes de responder. Precisa de ser incitado antes de se mover. Precisa de ser compelido antes de se levantar. Ignorando o futuro e o passado, resigna-se às leis de Deus.
E, por isso, nenhuma calamidade o atinge, nada o fere, nenhum homem se lhe opõe, nenhum espírito o castiga. Flutua pela vida para repousar na morte. Ele não tem ansiedades; não faz planos. A sua honra não o torna ilustre. A sua boa fé não lhe confere crédito.
Tudo pertence a Deus, como parte do grande plano.
" O seu sono é sem sonhos, o seu despertar sem dor. A sua espiritualidade é pura,
Sem desejos.
e a sua alma vigorosa. Assim, incondicionado e em repouso, participa da virtude de Deus.
Por isso, dizia-se: "A tristeza e a felicidade são as heresias
Influências malignas.
da virtude; a alegria e a raiva desviam-se do Tao; o amor e o ódio provocam a perda da virtude. O coração inconsciente da tristeza e da felicidade — eis a virtude perfeita. Um, sem mudança — eis o repouso perfeito. Sem qualquer obstrução — esta é a perfeição do incondicionado. Não ter relações com o mundo externo — eis a perfeição do estado negativo. Sem mácula de qualquer espécie — eis a perfeição da pureza."
Por isso, dizia-se: "Se o corpo trabalha sem descanso, morre. Se a mente está ocupada sem cessar, cansa-se; E, estando cansada, a sua força se esvai."
A água pura é, por natureza, límpida. Se intocada, é suave. Se represada, não fluirá, nem será clara. É um emblema da virtude de Deus. Por isso, foi dito: "Pura, sem mistura; uniforme, sem mudança; negativa, sem acção; movida, somente pela vontade de Deus; — tal seria a espiritualidade nutrida segundo o Tao."
Aqueles que possuem lâminas de Kan
O Estado de Wu.
ou Yüeh, guardam-nas cuidadosamente nas bainhas e não se atrevem a usá-las. Pois são extremamente preciosas. O espírito espalha-se por todos os lados: não há Ponto a que não chega, alcançando o céu em cima, abraçando a terra em baixo. Influenciando toda a criação, a sua forma não pode ser retratada. O seu nome é, então, De-Deus.
Tal é a existência espiritual do homem antes de nascer no mundo dos mortais.
O Tao do puro e do simples consiste em preservar a espiritualidade. Aquele que preserva a sua espiritualidade e não a perde, torna-se uno com essa espiritualidade. E através desta unidade, o espírito opera livremente e entra em devida relação com Deus.
Regressando, após a sua breve viagem na Terra, à eternidade de onde veio.
Um ditado popular diz: "As massas valorizam o dinheiro; os homens honestos, a fama; os homens virtuosos, a resolução; e os sábios, a alma."
Assim, o puro é aquilo em que nada há mistura; o simples é aquilo que não implica prejuízo para a espiritualidade. E aquele que consegue manter dentro de si o puro e o simples, esse é um homem divino.
Basta um pouco de perspicácia para relegar este capítulo para o limbo das falsificações. Lin Hsi Chung pensa que é provavelmente da autoria do artista desconhecido responsável pelo capítulo xiii.
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 16. Natureza e convenção
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2026-06-29T17:15:04Z
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CAPÍTULO XVI.
Exercício das Faculdades.
Argumento:—O Tao inatingível pelas artes mundanas—Atingido pelo repouso—A infância do mundo—O reinado da paz—O governo instala-se—O Tao declina—Os verdadeiros Sábios da antiguidade—A sua pureza de propósito.
Aqueles que exercem as suas faculdades em meros estudos mundanos, esperando assim regressar à sua condição original; e os que afundam as suas aspirações em pensamentos mundanos, esperando assim alcançar a iluminação;—estes são os insensatos da Terra.
Os antigos, ao cultivarem o Tao, geraram conhecimento a partir do repouso. Ao nascer, este conhecimento não era aplicado a qualquer fim; e assim se pode dizer que do conhecimento geraram o repouso. O conhecimento e o repouso, produzindo-se mutuamente, desenvolveram-se a harmonia e a ordem. A virtude é harmonia; o Tao é ordem.
A virtude abrange tudo — daí a caridade. O Tao, omnipresente, implica o dever para com o próximo. Do estabelecimento destes dois princípios surge a lealdade. De seguida, surge a música, uma expressão de pureza e verdade interior; seguida da cerimónia, ou sinceridade expressa em adornos. Se a música e a cerimónia forem mal regulamentadas, o império mergulha na confusão. E tentar corrigir os outros enquanto a própria virtude está obscurecida é impor à própria virtude uma tarefa para a qual ela é inadequada, resultando em sofrimento à constituição natural do objeto.
O homem primitivo gozava de uma perfeita tranquilidade ao longo da vida. Na sua época, os princípios Positivo e Negativo estavam pacificamente unidos; os seres espirituais não causavam problemas; as quatro estações seguiam a sua devida ordem; nada sofria danos; a morte era desconhecida; os homens possuíam conhecimento, mas não tinham ocasião de o usar. Isto pode ser chamado de perfeição da unidade.
Todas as coisas, todas as condições, eram Uma.
Nesse período, nunca nada foi criado como tal; mas tudo já era assim.
Com o tempo, a virtude foi decaindo. Sui Jen
O Prometeu da China.
e Fu Hsi
Ver cap. vi.
governaram o império. Ainda havia adaptação natural,
do homem ao seu meio ambiente.
mas a unidade tinha desaparecido.
A onda de coação instalara-se.
Um declínio ainda maior da virtude. Shen Nung
O inventor da agricultura.
e Huang Ti
O Imperador Amarelo. Ver cap. vi.
governaram o império. Havia paz, mas a adaptação natural tinha desaparecido.
Novamente, a virtude decaiu. Yao e Shun governaram o império. Foram introduzidos sistemas de governo e reforma moral. A integridade original do homem foi dispersa. A bondade desviou-o do Tao;
sem a bondade, o mal não poderia existir.
as suas ações colocavam a sua virtude em risco.
Por oposição à inação.
Assim, descartou o instinto natural e voltou-se para o intelecto. Mente contra mente, mas era impossível assim resolver o império. Depois, a arte e o conhecimento foram adicionados. Mas a arte obliterou a constituição original, e o conhecimento subjugou a mente; sobre isto, instalou-se a confusão, e o homem tornou-se incapaz de regressar aos seus instintos naturais, à condição em que existia inicialmente.
Assim, pode dizer-se que o mundo destrói o Tao, e que o Tao destrói o mundo. E, estando o mundo e o Tao a destruir-se mutuamente, como podem os homens do Tao elevar o mundo, e como pode o mundo elevar o Tao? O Tao não pode elevar o mundo; nem o mundo pode elevar o Tao. Embora os Sábios não devessem habitar montanhas e florestas, a sua virtude permaneceria ainda assim oculta; oculta, mas não por eles próprios.
Aqueles que antigamente eram chamados de eruditos reformados não eram homens que escondiam os seus corpos, reprimiam as suas palavras ou ocultavam a sua sabedoria. Acontece que a época não era adequada à sua missão. Se a época fosse adequada e a sua missão um sucesso sobre o império, eles simplesmente se apagariam na unidade que prevalecesse. Se a época fosse inadequada e a sua missão um fracasso, recorriam aos seus próprios recursos e esperavam. Assim se preserva a si próprio.
Aqueles antigos que se conservaram não ornamentaram o seu conhecimento com retórica. Não esgotaram o império com o seu conhecimento. Não esgotaram a virtude. Mantiveram-se quietos nas suas próprias esferas e regressaram aos seus instintos naturais. O que lhes restava fazer, então?
O Tao não se ocupa de pormenores. A virtude não se prende a trivialidades. As trivialidades prejudicam a virtude; detalhes prejudicam o Tao. Por isso se diz: "A auto-reforma é suficiente". Aquele cuja felicidade é completa alcançou o seu desejo.
Antigamente, alcançar o desejo não significava ocupar um cargo. Significava que nada mais se podia acrescentar à soma da felicidade. Mas agora significa ocupar um cargo, embora o cargo seja externo e não faça parte de si próprio. O que é fortuito, acontece. O que vem, não pode impedir; o que vai, não pode deter. Portanto, não encarar o cargo como a realização de um desejo, e não se tornar um bajulador por causa da pobreza, mas ser igualmente feliz em todas as circunstâncias — isso é estar livre de sofrimento.
Mas hoje em dia, tanto ter como não ter
cargo.
são causas de infelicidade. Daqui podemos inferir que nem a felicidade está isenta de sofrimento.
Uma redução ao absurdo.
Por isso, temos Já se disse: "Aqueles que sobrestimam o externo e perdem os seus instintos naturais na mundanidade — esses são os habitantes de um mundo de pernas para o ar."
Ficámos sem conhecer a autoria das numerosas citações neste capítulo e no anterior. Trata-se, no entanto, de um ponto de menor importância, dado que nenhum dos capítulos tem a mínima pretensão de ser considerado obra genuína de Chuang Tzŭ.
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 17. A cheia de outono
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CAPÍTULO XVII.
Inundações de Outono.
Argumento: — A grandeza e a pequenez são sempre relativas — O tempo e o espaço são infinitos — As dimensões abstractas não existem — A sua expressão é concreta — Os termos não são absolutos — Causas semelhantes produzem efeitos diferentes — Só no incondicionado pode existir o absoluto — O único absoluto é o Tao — Ilustrações.
[Este capítulo é um suplemento ao capítulo ii. É o mais popular de todos e valeu ao seu autor a alcunha de "Inundações de Outono".]
Era a época das cheias de Outono. Todos os riachos desaguavam no rio, que transbordava no seu curso turvo. As margens recuavam tanto umas das outras que era impossível distinguir uma vaca de um cavalo.
Então o Espírito do Rio riu de alegria por toda a beleza da terra estar reunida a si. Desceu com a corrente, viajou para leste, até alcançar o oceano. Aí, olhando para leste e não vendo limite para as suas ondas, a sua expressão alterou-se. E enquanto contemplava a imensidão, suspirou e disse ao Espírito do Oceano: "Um provérbio vulgar diz que quem ouviu apenas parte da verdade não se compara a ninguém. E esse sou eu.
"Antes, ouvia pessoas a menosprezar o conhecimento de Confúcio ou a subestimar o heroísmo de Poh I,
Ver o capítulo VI.
Eu não acreditava. Mas agora que vi a tua inexauribilidade — ai de mim, se não tivesse chegado à tua morada, teria sido para sempre motivo de chacota para aqueles que alcançaram a iluminação completa!"
O Espírito de um rio insignificante aprende que o murmúrio do seu riacho rústico mal se compara ao murmúrio do mundo.
Ao que o Espírito do Oceano respondeu: "Não se pode falar de oceano para um sapo-de-poço — criatura de uma esfera mais estreita. Não se pode falar de gelo para um inseto de verão — criatura de uma estação. Não se pode falar de Tao para um pedagogo: o seu alcance é muito limitado." Mas agora que emergiu da sua esfera limitada e contemplou o grande oceano, reconhece a sua própria insignificância, e posso falar-lhe de grandes princípios.
"Não há corpo d'água sob o céu maior que o oceano. Todos os rios desaguam nele incessantemente, e ele não transborda. É constantemente drenado, mas jamais se esvazia. A primavera e o outono não trazem mudanças; enchentes e secas são igualmente desconhecidas. E assim, ele é imensuravelmente superior a meros rios e córregos — embora eu não me atreva a me vangloriar disso, pois minha forma provém do universo, minha força vital do Yin e Yang. No universo, sou apenas como uma pequena pedra ou uma pequena árvore numa vasta montanha. E consciente, portanto, da minha própria insignificância, de que me posso vangloriar?
"Os Quatro Mares — não são para o universo como poças num pântano? O Império do Meio — não é para o oceano circundante como um grão de joio num celeiro?" De todas as miríades de coisas criadas, o homem é apenas uma. E de todos os que habitam a terra, vivem dos frutos da terra e se deslocam em carroças e barcos, um indivíduo é apenas um. Não é ele, comparado com toda a criação, como a ponta de um cabelo na pele de um cavalo?
"A sucessão dos Cinco Governantes, as contendas dos Reis Magos, as mágoas do filantropo, os trabalhos do administrador, são apenas isso e nada mais.
Ou seja, ambição.
Poh I recusou o trono por causa da fama. Confúcio discursou para obter reputação de erudito. Esta sobrestimação de si próprios da parte deles, não era muito semelhante à sua em relação à água?"
"Muito bem", respondeu o Espírito do Rio, "devo então considerar o universo como grande e a ponta de um cabelo como pequena?"
"De modo algum", disse o Espírito do Oceano. As dimensões são ilimitadas; o tempo é infinito. As condições não são invariáveis; os termos não são definitivos. Assim, o sábio contempla o espaço e não considera o pequeno como insignificante, nem o grande como excessivo; pois sabe que não há limite para a dimensão. Olha para o passado e não se entristece com o que está distante, nem se alegra com o que está próximo; pois sabe que o tempo é interminável.
O espaço infinito foi ilustrado por Locke por um centro a partir do qual se pode proceder indefinidamente em todas as direções. O tempo infinito, por um ponto numa linha a partir do qual se pode proceder para trás e para a frente indefinidamente.
Investiga a plenitude e a decadência e não se alegra se tiver sucesso, nem se lamenta se falhar; pois sabe que as condições não são invariáveis.
Plenitude e decadência são precursoras inevitáveis uma da outra.
Aquele que compreende claramente o esquema da existência não se alegra com a vida, nem se lamenta com a morte; pois sabe que os termos não são definitivos.
A vida e a morte são apenas elos num infinito. corrente.
"O que o homem sabe não se compara com o que desconhece. A extensão da sua existência não se compara com a extensão da sua não existência. Esforçar-se por esgotar o grande com o pequeno leva-o inevitavelmente à confusão, e ele não atinge o seu objectivo. Como poderia então alguém dizer que a ponta de um cabelo é o ápice da pequenez, ou que a ponta de um fio de cabelo é o ápice da insignificância, ou que a ponta de um fio de cabelo é o ápice da pequenez..."Será o universo o ápice da grandeza?"
Estes predicados são termos abstratos, que não são nomes de existências reais, mas de relações, estados ou condições de existências; não coisas, mas condições das coisas.
"Os dialécticos da actualidade", respondeu o Espírito do Rio, "todos dizem que o infinitesimalmente pequeno não tem forma e que o infinitesimalmente grande está para além de toda a medida. É assim mesmo?"
"Se considerarmos a grandeza em comparação com o que é pequeno", disse o Espírito do Oceano, "não há limite para ela; e se considerarmos a pequenez em comparação com o que é grande, ela escapa à nossa visão.
Isto é, se partirmos do concreto para o abstrato. Dada uma coisa grande ou pequena, não há limite para a pequenez ou grandeza com que cada uma pode ser comparada, respectivamente.
O infinitesimal é uma subdivisão do pequeno; o colossal é uma extensão do grande. Nesse sentido, os dois pertencem a categorias diferentes.
" "Tanto as coisas pequenas como as grandes devem possuir forma. A mente não consegue imaginar algo sem forma, nem conceber uma forma de dimensões ilimitadas. A grandeza de algo pode ser tema de discussão, ou a pequenez de algo pode ser mentalmente percebida. Mas aquilo que não pode ser tema de discussão nem mentalizado não pode ser nem grande nem pequeno.
Portanto, ao homem verdadeiramente grande, embora não prejudique os outros, não se atribui o mérito da caridade e da misericórdia.
Estas qualidades são-lhe naturais.
Não procura o ganho, mas não despreza os seus seguidores que o fazem. Não luta por riquezas, mas não se vangloria de as deixar em paz. Não pede ajuda a ninguém, mas não se vangloria da sua autossuficiência, nem despreza aqueles que procuram a ascensão social através dos amigos. Age de forma diferente da multidão vulgar, mas não se vangloria da sua excepcionalidade; e o facto de os outros agirem como a maioria não o despreza como hipócrita. As posições e os emolumentos do mundo não lhe são motivo de alegria; Os seus castigos e vergonha não são motivo de desgraça. Ele sabe que o positivo e o negativo não se distinguem.
O que é positivo em certas condições será negativo noutras. Estes termos são, na verdade, idênticos. Ver capítulo ii.
que grande e pequeno não podem ser definidos.
Eles são infinitos.
"Ouvi dizer que o homem do Tao não tem reputação; a virtude perfeita não adquire nada; o homem verdadeiramente grande ignora-se a si próprio; — este é o cume da autodisciplina."
A cláusula 2 da citação acima aparece com variações no capítulo XXXVIII do Tao Te Ching. As variações confirmam a correcção da tradução já apresentada em Os Restos Mortais de Lao Tzu, p. 26.º
"Mas como então", perguntou o Espírito do Rio, "determinar os extremos internos e externos do valor e da inutilidade, da grandeza e da pequenez?"
Sem qualquer padrão de medida.
"Do ponto de vista do Tao", respondeu o Espírito do Oceano, "não existem tais extremos de valor ou inutilidade. Os homens, individualmente, valorizam-se a si próprios e menosprezam os outros. O mundo, coletivamente, nega ao indivíduo o direito de se autoavaliar.
"Se dissermos que uma coisa é grande ou pequena porque é relativamente grande ou pequena, então não há nada em toda a criação que não seja grande, nada que não seja pequeno. Saber que o universo é como um grão de joio, e que a ponta de um cabelo é uma montanha — esta é a expressão da relatividade."
" "Se dissermos que algo existe ou não existe, em função da função que desempenha ou não, então não há nada que não exista, nada que exista. Saber que este e oeste são termos convertíveis e, ainda assim, necessários — trata-se do devido ajuste de funções.
Qualquer ponto dado é, naturalmente, este em relação a oeste, oeste em relação a este. Absolutamente, pode dizer-se que a sua localização ocidental não exclui a sua localização fácil; é, que não é nem leste nem oeste.
Se dissermos que algo é bom ou mau porque é bom ou mau aos nossos olhos, então não há nada que não seja bom, nada que não seja mau. Saber que Yao e Chieh eram ambos bons e ambos maus dos seus pontos de vista opostos — isso é a expressão de um padrão."
" "O antigo Yao abdicou a favor de Shun, e este governou. Kuei abdicou em favor de Chih, e este falhou.
Kuei era um príncipe do Estado de Yen, que foi enganado e levado a imitar o glorioso exemplo de Yao, abdicando em favor do seu ministro Chih. Três breves anos no poder mergulharam este último em todos os horrores de uma revolução generalizada.
Tang e Wu
Ver cap. xii.
Conquistaram o império lutando. Lutando, Poh Kung perdeu-o.
Um líder revolucionário que, com o fracasso do seu plano, pôs termo à própria vida por estrangulamento. Ver Tso Chuan, 16º ano do Duque Ai.
Daqui se pode constatar que a razão para abdicar ou lutar, para agir como Yao ou como Chieh, deve ser determinada de acordo com a oportunidade e não pode ser considerada uma constante.
"Um batalhão Um ng-ram pode derrubar uma parede, mas não consegue reparar a brecha.
Esta frase intrigou profundamente todos os comentadores.
Coisas diferentes são aplicadas de formas diferentes.
"Ch'ih-Chi e Hua Liu podiam percorrer 1.000 li num dia, mas para caçar ratos não se comparavam a um gato selvagem."
Dois dos oito famosos cavalos de Muh Wang, um governante semi-histórico da antiguidade.
Animais diferentes possuem aptidões diferentes.
"Uma coruja pode caçar pulgas à noite e ver a ponta de um cabelo, mas se sair durante o dia, os seus olhos ficam tão ofuscados que não consegue ver uma montanha. As diferentes criaturas são constituídas de diferentes maneiras."
"Uma coruja pode caçar pulgas à noite e ver a ponta de um cabelo, mas se sair durante o dia, os seus olhos ficam tão ofuscados que não consegue ver uma montanha. As diferentes criaturas são constituídas de diferentes maneiras." Assim, como já foi dito, aqueles que querem o direito sem o seu correlato, o erro; ou um bom governo sem o seu correlato, o mau governo, não compreendem os grandes princípios do universo nem as condições a que toda a criação está sujeita. Seria o mesmo que falar da existência do céu sem a da terra, ou do princípio negativo sem o positivo, o que é claramente absurdo. Tais pessoas, se não cedem à argumentação, devem ser tolas ou malcriadas.
Os governantes abdicaram sob diferentes circunstâncias, as dinastias foram continuadas sob diferentes circunstâncias. Aqueles que não escolheram um momento favorável e estavam em oposição à sua época foram chamados de usurpadores. Aqueles que escolheram o momento certo e estavam em harmonia com a sua época foram chamados de patriotas. Com suavidade e tranquilidade, meu amigo do rio; O que deves saber sobre o valor e a insignificância, sobre o grande e o pequeno?
Por isso, é totalmente desnecessário ensinar-te onde fixar os limites daquilo de que nada sabes.
"Nesse caso", respondeu o Espírito do Rio, "o que devo fazer e o que não devo fazer? Como devo organizar as minhas recusas e recebimentos, as minhas apropriações e as minhas demissões?"
"Do ponto de vista do Tao", disse o Espírito do Oceano, "o valor e a insignificância são como encostas e planícies.
Uma encosta hoje pode ser uma planície amanhã.
Considerar qualquer um deles como absolutamente tal seria uma grande ofensa ao Tao. Poucos e muitos são como dar e receber presentes. Não se deve considerá-los apenas numa perspectiva, ou haverá grande confusão para o Tao.
Seria injusto considerar apenas, do ponto de vista de quem recebe, a quantia dada. A intenção de quem dá também deve ser tida em conta.
Seja criterioso, como o governante de um Estado cuja administração é imparcial." Seja desapaixonado, como a divindade venerada cuja dispensação é imparcial. Seja expansivo, como os pontos cardeais, cuja imensidão não tem limites. Abrace toda a criação, e nada estará mais protegido do que outro. Este é o incondicionado. E onde todas as coisas são iguais, como podemos ter o longo e o curto?
"O Tao não tem princípio, não tem fim. Outras coisas nascem e morrem. São impermanentes; e ora para melhor, ora para pior, estão incessantemente a mudar de forma. Os anos passados não podem ser relembrados: o tempo não pode ser detido. A sucessão de estados é infinita; e todo o fim é seguido por um novo começo. Assim, pode dizer-se que o dever do homem para com o seu próximo está incorporado nos princípios eternos do universo.
Tudo o que ele tem de fazer é ser.
"A vida do homem passa como um cavalo a galope, mudando a cada curva, a cada hora. O que deve ele fazer, ou o que não deve fazer, senão deixar prosseguir a sua decomposição?
"Se é assim", retorquiu o Espírito do Rio, "qual é o valor do Tao?"
"Aqueles que compreendem o Tao", respondeu o Espírito do Oceano, "devem necessariamente apreender os princípios eternos acima mencionados e ter clareza quanto à sua aplicação. Consequentemente, não sofrem qualquer dano externo.
Nunca se opõem, mas deixam que as coisas sigam o seu curso."
"O que deve ele fazer, ou não fazer, senão deixar que tudo siga o seu curso?" "O homem de perfeita virtude não pode ser queimado pelo fogo, nem afogado na água, nem ferido pelo frio ou pelo sol, nem dilacerado por aves ou feras selvagens. Não que menospreze estas coisas, mas antes que discerne entre segurança e perigo. Feliz tanto em circunstâncias prósperas como adversas, cauteloso quanto ao que descarta e ao que aceita; nada lhe pode fazer mal.
Platão ensinava que era impossível escravizar um homem sábio, querendo dizer que este, em virtude da sua capacidade intelectual, se elevaria acima da mera servidão física. "Um homem sábio e justo", dizia ele, "poderia ser tão feliz em estado de escravidão como em estado de liberdade."
"Portanto, diz-se que o natural reside no interior, o artificial no exterior. A virtude reside no natural. O conhecimento da ação do natural e do artificial tem a sua raiz no natural, o seu desenvolvimento na virtude." E assim, quer em movimento, quer em repouso, quer em expansão ou em contracção, há sempre um regresso ao essencial e ao último."
Esses princípios eternos que incorporam todas as obrigações humanas.
"Como assim", perguntou o Espírito do Rio, "com o natural e o artificial?"
"Os cavalos e os bois", respondeu o Espírito do Oceano, "têm quatro patas. Isso é o natural. Põe uma rédea em..." Na cabeça de um cavalo, um fio no focinho de um boi — isto é o artificial.
"Portanto, já foi dito: não deixes que o artificial oblitere o natural; não deixes que a vontade oblitere o destino; não deixes que a virtude seja sacrificada à fama. Observa diligentemente estes preceitos sem falta, e assim regressarás ao divino."
Se o homem não se colocar em oposição a Deus, o resultado será o Tao.
A morsa inveja a centopeia;
As suas muitas pernas e andar ágil.
A centopeia inveja a serpente;
Que se move sem pernas.
A serpente inveja o vento;
Que se move muito mais rapidamente, mesmo sem corpo.
O vento inveja o olho;
Que viaja mesmo sem se mexer.
O olho inveja a mente;
Que pode compreender todo o universo, passado e presente.
A morsa disse à centopeia: "Eu salto numa perna só, mas não muito bem. Como é que te consegues virar com todas estas pernas que tens?".
"Morsa" é, obviamente, uma analogia. Mas, no caso da perna única, a descrição feita por um comentador da criatura mencionada no texto aplica-se com bastante precisão.
"Não me consigo virar com elas", respondeu a centopeia. "Nunca viu saliva? Quando é expelida, as gotas grandes têm o tamanho de pérolas, as pequenas parecem névoa. Caem indiscriminadamente no chão e não podem ser contadas. E é assim que o meu mecanismo funciona naturalmente, sem que eu tenha consciência disso."
A centopeia disse à cobra: "Com todas as minhas pernas, não me movo tão depressa como tu, que não tens nenhuma. Como é possível?".
"O mecanismo natural de alguém", respondeu a cobra, "não é algo que se possa mudar. Para que preciso de pernas?"
A serpente disse ao vento: "Consigo arrastar-me, mas tenho uma forma. Agora vens soprando forte do mar do norte para soprar forte até ao mar do sul, e parece não ter forma. Como é isso?".
"É verdade", respondeu o vento, "que sopro forte como dizes; mas qualquer um que possa apontar para mim ou dar-me pontapés, supera-me.
Pois eu não posso fazer tanto contra eles.
Por outro lado, posso partir árvores enormes e destruir grandes edifícios. Esse é o meu ponto forte. De todas as pequenas coisas em que não me destaco, crio uma grande em que me destaco. E a excelência nas grandes coisas é dada apenas aos Sábios."
Tudo tem as suas próprias qualificações naturais. O que é difícil para um é fácil para outro.
Não é dada qualquer ilustração do "olho" e da "mente". "É o retrato de meio corpo", diz Lin Hsi Chung, "de uma bela jovem";—o que é engenhoso, se não correcto.
"É o retrato de meio corpo", diz Lin Hsi Chung, "de uma bela jovem";—o que é engenhoso, se não correcto.
" Quando Confúcio visitou K'uang, os homens de Song rodearam-no de perto.
Isso é um erro. "K'uang" ficava no Estado de Wei, e foi pelos homens de Wei que Confúcio foi cercado.
Mesmo assim, continuou a tocar e a cantar ao som da sua guitarra sem parar.
"Como é possível, senhor?", perguntou Tzŭ Lu, "que o senhor esteja tão alegre?"
Veja p. 165. Tzŭ Lu terá sido o primeiro a estar alegre.
"Vem cá", respondeu Confúcio, "e eu dir-te-ei. Há muito tempo que luto contra o fracasso, mas em vão. O destino está contra mim. Há muito tempo que procuro o sucesso, mas em vão. A hora ainda não chegou.
"Nos dias de Yao e Shun, nenhum homem em todo o império era um fracasso, embora ninguém tivesse consciência do ganho". Nos tempos de Chieh e Chou, nenhum homem em todo o império obteve sucesso, embora ninguém se apercebesse desta perda. Os tempos e as circunstâncias adaptaram-se a isso.
"Viajar por água e não evitar as serpentes marinhas e os dragões — esta é a coragem do pescador. Viajar por terra e não evitar o rinoceronte e o tigre — esta é a coragem do caçador. Quando lâminas brilhantes se cruzam, encarar a morte como a vida — esta é a coragem do herói. Saber que o fracasso é o destino e que o sucesso é uma oportunidade, e manter-se destemido perante o grande perigo — esta é a coragem do Sábio. Yu! Descansa nisto. O meu destino está traçado."
Pouco depois, o capitão das tropas entrou e pediu desculpa, dizendo: "Pensámos que era Yang Hu; consequentemente, cercamo-lo. Descobrimos que cometemos um erro". Em seguida, pediu novamente desculpa e retirou-se.
" Yang Hu era "procurado" pelo povo de Wei, e parece que Confúcio, infelizmente, tinha feições semelhantes às suas. Mas todo o episódio é claramente uma interpolação de um falsificador.
Kung Sun Lung
Um filósofo do Estado de Chao, cujo tratado sobre o "duro e o branco", etc., se diz ainda existir. Ver capítulo ii.
disse a Mou de Wei: "Quando jovem, estudei o Tao dos antigos sábios. Quando cresci, sabia tudo sobre a prática da caridade e o dever para com o próximo, a identificação do semelhante e do diferente, a separação entre dureza e brancura, e sobre tornar o não tão assim, e o impossível, possível. Venci a sabedoria de todas as filosofias. Esgotei todos os argumentos que me foram apresentados. Pensei que de facto tinha alcançado o objectivo. Mas agora que ouvi Chuang Tzŭ, estou perplexo com a sua grandeza. Não sei se é na argumentação ou no conhecimento que não sou igual a ele." "Já não consigo abrir a boca. Posso pedir-lhe que me revele o segredo?"
Kung Tzŭ Mou inclinou-se sobre a mesa e suspirou. Então, olhou para o céu e, sorrindo, respondeu: "Nunca ouviste falar do sapo no poço velho? O sapo disse à tartaruga do mar oriental: 'Sou muito feliz! Salto para o parapeito ao redor do poço. Descanso na cavidade de um tijolo quebrado. Nadando, junto a água debaixo dos braços e fecho a boca. Mergulho na lama, enterrando os pés e os dedos; e nenhum dos berbigões, caranguejos ou girinos que vejo ao meu redor se compara a mim. [Imagine comparar a felicidade de um poço velho com toda a água do Oceano!] Porque é que o senhor não me vem visitar?'
Kung Tzŭ Mou inclinou-se sobre a mesa e suspirou. Então, olhou para o céu e respondeu sorrindo: 'O senhor não vem visitar-me?'" "A tartaruga do mar oriental ainda não tinha conseguido baixar a pata esquerda quando a direita já estava presa, por isso recuou e implorou desculpa. Descreveu então o mar, dizendo: 'Mil li não mediriam a sua largura, nem mil braças a sua profundidade. Nos dias da Grande Yu, ocorreram nove anos de cheias em dez; mas isso não aumentou o seu volume. Nos dias da Tang, ocorreram sete anos de seca em oito; mas isso não diminuiu a sua extensão. Não ser afectado pela duração do tempo, não ser afectado pelo volume de água — tal é a grande felicidade do mar oriental.»
Ser impermeável a influências externas.
"Com isto, o sapo-do-poço ficou consideravelmente surpreendido e não sabia o que dizer a seguir. E para aquele cujo conhecimento não atinge o domínio positivo-negativo,
Onde os contrários são idênticos.
" Tentar compreender Chuang Tzŭ é como um mosquito a tentar carregar uma montanha, ou uma formiga a nadar num rio — não podem ter sucesso. E para aquele cujo conhecimento não alcança o mais abstruso dos abstrusos, mas se baseia apenas em vitórias como as que enumeraste, não é ele como o sapo no poço?
"Chuang Tzŭ move-se nos reinos inferiores à medida que ascende aos céus superiores. Para ele, o norte e o sul não existem; os quatro pontos desapareceram; ele está imerso no insondável. Para ele, o leste e o oeste não existem. Começando pelo caos, ele regressou ao Tao; e, no entanto, pensas que vais examinar as suas doutrinas e confrontá-las com argumentos! Isto é como olhar para o céu através de um tubo, ou apontar para a terra com uma sovela — um resultado pequeno.
A área coberta pela ponta de uma sovela é infinitesimal.
"Nunca ouviste falar de como o jovem de Shouling foi estudar para Han-tan? Eles não aprenderam o que queriam em Han-tan e, além disso, esqueceram tudo o que sabiam antes, de tal modo que voltaram para casa em desgraça. E tu, se não te fores embora, esquecerás tudo o que sabes e, de caminho, perderás o teu tempo."
Kung Sun Lung ficou boquiaberto; a sua língua colou-se ao céu da boca; e ele afastou-se furtivamente.
Outro episódio espúrio, como é evidente pela sua fragilidade geral, sem mencionar as repetições de figuras e alusões retiradas de outros capítulos.
Chuang Tzŭ estava a pescar no rio P'u quando o príncipe de Ch'u enviou dois altos funcionários para lhe pedir que assumisse a administração do Estado de Ch'u.
Chuang Tzŭ continuou a pescar e, sem virar a cabeça, disse: "Ouvi dizer que em Ch'u existe uma tartaruga sagrada que está morta há cerca de três mil anos. E que o príncipe mantém esta tartaruga cuidadosamente guardada num baú no altar do seu templo ancestral." "E agora, esta tartaruga preferia estar morta e ter os seus restos mortais venerados, ou estar viva e a abanar a cauda na lama?"
"Preferia estar viva", responderam os dois oficiais, "e a abanar o rabo na lama."
"Vão-se embora!" gritou Chuang Tzŭ. "Eu também o vou abanar na lama."
Hui Tzŭ era primeiro-ministro do Estado de Liang. Chuang Tzŭ foi visitá-lo.
Alguém comentou: "Chuang Tzŭ chegou. Quer ser ministro no seu lugar."
Então Hui Tzŭ ficou com medo e procurou por todo o Estado
Com mandados judiciais.
durante três dias e três noites para o encontrar.
Então Chuang Tzŭ foi ter com Hui Tzŭ e disse-lhe: "No sul há um pássaro. É uma espécie de fénix. Conheces-lo? Ele partiu do mar do sul para voar até ao mar do norte." Exceto na árvore wu-t'ung,
Eleococca verrucosa. Williams.
ela não pousaria. Não comeria nada além do fruto do bambu, não beberia nada além da água mais pura da nascente. Uma coruja que tinha encontrado a carcaça podre de um rato, olhou para cima quando a fénix passou a voar e gritou.
Para a afugentar.
Não está a gritar comigo sobre o seu reino de Liang?
Chuang Tzŭ e Hui Tzŭ tinham caminhado até à ponte sobre o rio Hao, quando o primeiro observou: "Vejam como os peixinhos se estão a mover rapidamente!". "Esse é o prazer dos peixes".
"Tu, não sendo um peixe", disse Hui Tzŭ, "como podes saber em que consiste o prazer dos peixes?"
"E tu, não sendo eu", retorquiu Chuang Tzŭ, "como podes saber que eu não sei?"
"Se eu, não sendo tu, não posso saber o que sabes", insistiu Hui Tzŭ, "segue-se que tu, não sendo um peixe, não podes saber em que consiste o prazer dos peixes."
"Voltemos", disse Chuang Tzŭ, "ao seu..." Pergunta original. Perguntou-me como é que eu sabia em que consiste o prazer dos peixes. A sua própria pergunta mostra que sabia que eu sabia.
Pois perguntou-me como é que eu sabia.
Eu sabia por causa dos meus próprios sentimentos nesta ponte.
A partir dos meus próprios sentimentos acima da ponte, infiro os dos peixes abaixo.
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 18. Alegria perfeita
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CAPÍTULO XVIII.
Felicidade Perfeita.
Argumento:—A incerteza da felicidade humana—O que o mundo almeja é o bem-estar físico—Isto não é proveitoso nem para o corpo—A verdadeira felicidade só pode ser encontrada na inação—A inação é a regra do universo material—Aceitação de tudo o que o destino nos reserva—Ilustrações.
[Este capítulo é complementar do capítulo VI.]
Existe a felicidade perfeita na Terra, ou não? Há aqueles que conseguem desfrutar da vida, ou não? Se sim, o que fazem, o que influenciam, o que evitam, em que se apoiam, o que aceitam, o que rejeitam, o que apreciam e o que detestam?
O que o mundo estima compreende a riqueza, a posição social, a velhice e a bondade de coração. O que lhe dá prazer compreende o conforto, a comida abundante, as roupas finas, a beleza e a música. O que não estima compreende a pobreza, a falta de posição, a morte prematura e a má conduta. O que nos falta é conforto para o corpo, comida abundante para o paladar, roupa fina para vestir, beleza para os olhos e música para os ouvidos. Se não temos estas coisas, somos profundamente infelizes. Mas, do ponto de vista da nossa constituição física, isso é uma tolice.
Fisicamente, podemos, e a maioria de nós consegue, viver muito bem sem estes luxos.
Pessoas ricas que labutam incansavelmente, acumulando mais dinheiro do que aquele que podem utilizar — do ponto de vista da nossa constituição física, não será isto um exagero?
Funcionários de alto nível que transformam a noite em dia nos seus esforços para alcançar os melhores objetivos — do ponto de vista da nossa constituição física, não será isto um desvio?
O homem nasce para o sofrimento, e que miséria tem aquele cuja velhice, com as faculdades embotadas, significa apenas sofrimento prolongado! Do ponto de vista da nossa constituição física, trata-se de um grande equívoco.
Na opinião do mundo, os patriotas são reconhecidamente bons. Contudo, a sua bondade não lhes permite desfrutar a vida;
O patriotismo foi ilustrado na China por inúmeros feitos heróicos, sempre associados à morte do herói em questão.
E, por isso, não sei se a bondade deles é genuína ou não. Se o é, não lhes permite desfrutar da vida; se for, pelo menos permite-lhes fazer com que outros usufruam da sua.
Dizem que "se os seus conselhos leais não forem atendidos, retire-se silenciosamente, sem resistência". Assim, quando Tzŭ Hsü
O famoso Wu Yuan, do século VI a.C., cuja oposição ao seu soberano levou à sua própria desgraça e morte,
resistiu, o seu corpo físico pereceu; contudo, se não tivesse resistido, não teria alcançado tal renome. Existe, então, realmente algo como essa bondade, ou não?
Quanto ao que o mundo faz e à forma como as pessoas são felizes hoje em dia, não sei se essa felicidade é verdadeira ou não. A felicidade das pessoas comuns parece-me consistir em seguir servilmente a maioria, como se não o pudessem evitar. No entanto, todas dizem ser felizes.
"A média geral da humanidade não é apenas moderada em intelecto, mas também em inclinações: não possui gostos ou desejos suficientemente fortes para a inclinar a fazer algo invulgar." Ensaio sobre a Liberdade, de Mill.
Mas não consigo dizer se isso é felicidade ou se não é. Existe, afinal, algo como a felicidade?
Considero que o verdadeiro prazer consiste na inação, que o mundo considera uma grande dor. Assim se dizia: "A felicidade perfeita é a ausência de felicidade;
A inexistência de qualquer estado ou condição inclui necessariamente a inexistência do seu correlato. Se não temos felicidade, estamos imediatamente isentos da miséria; e tal estado negativo é um estado de "felicidade perfeita".
A notoriedade perfeita é a ausência de notoriedade."
Neste nosso mundo sublunar, é impossível atribuir positivo e negativo de forma absoluta. Contudo, na inacção, podem ser assim atribuídos. A felicidade perfeita e a preservação da vida só podem ser procuradas na inação.
Consideremos. O Céu nada faz; contudo, é puro. A Terra nada faz; contudo, goza de repouso. Da inação destes dois procedem todas as modificações das coisas. Quão vasta, quão infinita é a inação, e, no entanto, sem origem! Quão infinita, quão vasta, e, no entanto, sem forma!
A infinidade de coisas à nossa volta brota da inação. Por isso, já se disse: "O Céu e a Terra nada fazem, contudo, nada há que eles não realizem". Mas, entre os homens, quem pode alcançar a inação?
Lin Hsi Chung condena todo o exórdio acima como excessivamente rebuscado para Chuang Tzŭ, com o seu estilo rude e elíptico.
Quando a esposa de Chuang Tzŭ faleceu, Hui Tzŭ foi apresentar as condolências. Encontrou o viúvo sentado no chão, a cantar, com as pernas abertas num ângulo reto, e a bater o ritmo numa tigela.
"Viver com a esposa", exclamou Hui Tzŭ, "e ver o filho mais velho crescer e tornar-se um homem, e depois não derramar uma única lágrima sobre o corpo dela... isso já seria mau o suficiente. Mas bater numa tigela e cantar... certamente isso é demais."
"Nem pensar", respondeu Chuang Tzŭ. "Quando ela morreu, não pude deixar de me comover com a sua morte. Logo a seguir, porém..." Lembrei-me de que ela já existira num estado anterior ao nascimento, sem forma, nem sequer substância; que, enquanto nesta condição incondicionada, a substância foi acrescentada ao espírito; que essa substância assumiu então forma; e que o estádio seguinte foi o nascimento. E agora, em virtude de uma mudança posterior, está morta, passando de uma fase para outra como a sequência da primavera, verão, outono e inverno. E enquanto ela repousa assim adormecida na Eternidade, para mim, andar por aí a chorar e a lamentar-me seria declarar a minha ignorância destas leis naturais. Portanto, abstenho-me."
Um corcunda e um homem de uma perna só observavam os túmulos de heróis falecidos, nas montanhas K'un-lun, onde repousa o Imperador Amarelo. De repente, surgiram úlceras nos seus cotovelos esquerdos, de uma aparência muito repugnante.
"Detestas isto?", perguntou o corcunda.
"Eu não", respondeu o outro, "porque haveria de?" A vida é um empréstimo com o qual o mutuário apenas acrescenta mais pó e sujidade à soma total da existência. A vida e a morte são como o dia e a noite; e enquanto eu e tu contemplamos as provas da mortalidade à nossa volta, se essa mesma mortalidade me atinge, por que razão devo detestá-la?
Chuang Tzŭ viu um dia um crânio vazio, branqueado, mas ainda conservando a sua forma. Golpeando-o com o seu chicote de montaria, disse: "Foste tu outrora um cidadão ambicioso cujos anseios desmedidos te levaram a este ponto? — algum estadista que mergulhou o seu país na ruína e pereceu na luta? — algum miserável que deixou para trás um legado de vergonha? — algum mendigo que morreu nas dores da fome e do frio? Ou chegaste a este estado pelo curso natural da velhice?"
Quando acabou de falar, pegou no crânio e, colocando-o debaixo da cabeça como almofada, foi dormir. À noite, sonhou que o crânio lhe apareceu e disse: "Fala bem, senhor; Mas tudo o que dizes refere-se à vida dos mortais e aos seus problemas. Na morte não há nada disso. Gostaria de ouvir falar da morte?
Chuang Tzŭ, tendo respondido afirmativamente, o crânio começou: — "Na morte, não há soberano em cima nem súbdito em baixo. O funcionamento das quatro estações é desconhecido. As nossas existências são limitadas apenas pela eternidade." A felicidade de um rei entre os homens não pode superar a que nós desfrutamos."
Chuang Tzŭ, porém, não se deixou convencer e disse: "Se eu convencesse Deus a permitir que o teu corpo renascesse, e os teus ossos e carne se renovassem, para que pudesses regressar para junto dos teus pais, da tua mulher e dos amigos da tua juventude, aceitarias?".
Perante isto, o crânio arregalou os olhos, franziu o sobrolho e disse: "Como poderia eu rejeitar uma felicidade maior do que a de um rei e voltar a misturar-me com os trabalhos e os problemas da mortalidade?"
Lembrando-nos estranhamente Hamlet.
Quando Yen Yüan
Veja p. 179.
foi para leste, para o Estado de Ch'i, Confúcio ficou triste. Tzŭ Kung levantou-se e disse: "É, senhor, porque Hui
nome pessoal de Yen Yüan.
"Será que está triste por ter ido para leste, para Ch'i?"
"Uma boa pergunta", respondeu Confúcio. "Há um ditado de Kuan Chung
Primeiro-ministro do Duque Huan do Estado de Ch'i, século VII a.C.
que muito prezo: 'Os sacos pequenos não carregam coisas grandes; cordas curtas não atingem poços profundos.' Assim, o destino é um arranjo prévio, tal como a forma tem as suas limitações. De nenhum dos dois, para nenhum dos dois, não se pode tirar nem acrescentar. E temo que Hui, na sua visita ao príncipe de Ch'i, pregue o Tao de Yao e Shun, e se detenha nas palavras de Sui Jen e Shên Nung. O príncipe procurará então dentro de si, mas não encontrará. E não o encontrando, duvidará. E quando um homem duvida, mata.
Literalmente, "ele morrerá". Mas o verbo "morrer" é frequentemente utilizado no sentido de "fazer morrer"; E este parece ser o único sentido possível aqui.
Além disso, não ouviu falar daquela história antiga em que uma ave marinha aterrou nos arredores da capital de Lu, o príncipe foi recebê-la, ofereceu-lhe vinho no templo e mandou tocar o Chiu Shao
Música composta pelo lendário Imperador Shun.
para a entreter, e foi abatido um boi para a alimentar? Mas a ave ficou demasiado atordoada e tímida para comer ou beber o que quer que fosse; e em três dias estava morta. Isto foi tratar a ave como se fosse ela própria, e não como uma ave trataria outra ave. Se a tivesse tratado como uma ave trataria outra ave, tê-la-ia colocado a pousar numa floresta densa, a vaguear por uma planície, a nadar num rio ou lago, a alimentar-se de peixes, a voar em ordem e a aterrar tranquilamente. Quando a ave já estava aterrorizada com vozes humanas, imagine adicionar música! Toque o Hsien Ch'ih
Música do Imperador Amarelo.
ou o Chiu Shao nas selvas de Tung-t’ing, e os pássaros voarão para longe, as feras fugirão, E os peixes mergulharão lá em baixo. Mas os homens reunir-se-ão para ouvir.
Ver pág. 244.
"A água, que é vida para os peixes, é morte para o homem. Sendo constituídos de maneira diferente, os seus gostos e desgostos também são diferentes. Portanto, os sábios do passado não favoreciam a uniformidade de habilidade ou de ocupação. A reputação era proporcional..." com a realidade; os meios foram adaptados ao fim. A isto se chamou uma relação adequada com os outros, aliada à vantagem pessoal."
Várias frases do texto acima são claramente imitações de partes do capítulo ii. Todo o episódio é, sem dúvida, uma falsificação.
Lieh Tzŭ, em viagem, comia à beira da estrada quando viu um crânio antigo. Arrancando uma folha de erva, apontou para ele e disse: "Só tu e eu sabemos que não existe vida nem morte.
Literalmente, 'que nunca morreu nem viveu'."
Está realmente em paz? Ou estou mesmo feliz?
Quem pode dizer se aquilo a que chamamos morte não pode, afinal, ser vida, e a vida, morte?
"Certos germes, ao caírem na água, transformam-se em lentilha-d'água. Ao chegarem à junção da terra e da água, transformam-se em líquen. Espalhando-se pela margem, transformam-se na violeta-dente-de-cão. Ao atingirem solo fértil, transformam-se em wu-tsu, cuja raiz dá origem a larvas, enquanto as folhas se originam de borboletas, ou hsü. Estas se transformam em insetos, nascidos no canto da chaminé, que se parecem com esqueletos. O seu nome é ch'ü-to. Ao fim de mil dias, o ch'ü-to transforma-se num pássaro, chamado Kan-yü-ku, cuja saliva se transforma no ssŭ-mi. O ssŭ-mi transforma-se numa mosca-do-vinho, e esta provém de um i-lu. num bambu velho que há muito tempo não produz rebentos, produz o ch'ing-ning, que produz o leopardo, que produz o cavalo, que produz homem.
"Então o homem regressa ao grande Plano, de onde todas as coisas vêm e para onde todas as coisas regressam".
Tal é o ciclo eterno, marcado pelas etapas a que chamamos vida e morte.
Muitos dos nomes do parágrafo acima não foram identificados nem mesmo pelos comentadores chineses. Portanto, podem permanecer como estão.
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 19. Sentido da vida
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CAPÍTULO XIX.
O Segredo da Vida.
Argumento: — A alma vem de Deus — O corpo do homem é o seu veículo — A alma que vivifica o corpo é a vida — O cuidado com o interno e com o externo deve ser simultâneo — No devido alimento de ambos está o Tao.
[Este capítulo é complementar do capítulo iii.]
Aqueles que compreendem as condições da vida não dedicam atenção a coisas que a vida não pode realizar. Aqueles que compreendem as condições do destino não dedicam atenção a coisas sobre as quais o conhecimento não tem qualquer controlo.
Para o devido alimento dos nossos corpos físicos, são necessárias certas coisas. Contudo, onde tais coisas abundam, o corpo físico nem sempre é nutrido. Para a preservação da vida, é necessário que não haja abandono do corpo físico. Contudo, onde o corpo físico não é abandonado, a vida nem sempre permanece.
A vida vem e não pode ser recusada. Ela vai e não pode ser interrompida. Mas, infelizmente, o mundo pensa que nutrir o corpo é suficiente para manter a vida. E se, de facto, não for suficiente, o que deve então o mundo fazer? Embora não seja suficiente, ainda assim deve ser feito. Não pode ser descurado. Pois, se alguém negligencia o corpo físico, melhor será retirar-se imediatamente do mundo. Ao renunciar ao mundo, livra-se das preocupações mundanas. O resultado é um estado natural, equivalente a um renascimento. E aquele que renasce está próximo.
Do Tão.
Mas que incentivo há para renunciar aos assuntos dos homens, para se tornar indiferente à vida? — No primeiro caso, o corpo físico não sofre desgaste; no segundo, a vitalidade mantém-se intacta. E aquele cujo corpo físico é perfeito e cuja vitalidade está na sua pureza original, — esse é um com Deus.
Mens sana in corpore sano.
O céu e a terra são o pai e a mãe de todas as coisas. Quando se unem, o resultado é a forma. Quando se dispersam, a condição original é renovada.
Como no caso dos comuns mortais.
Mas se o corpo e a vitalidade forem ambos perfeitos, este estado é chamado apto para a translação.
No sentido bíblico, aplicado a Enoque.
Tal perfeição de vitalidade remonta ao ministro de Deus.
"Vitalidade" é a essência subtil, o princípio imaterial que informa e que, unido à matéria, manifesta o fenómeno da vida. O termo já apareceu no capítulo XI.
Lieh Tzu perguntou a Kuan Yin:
Um sábio que, segundo alguns, floresceu quinhentos ou seiscentos anos antes de Lieh Tzu; segundo outros, foi discípulo direto de Lao Tzu e a quem foi confiada a publicação do Tao Te Ching.
dizendo: "O homem perfeito pode atravessar corpos sólidos sem obstrução. Pode atravessar o fogo sem se queimar. Pode escalar as maiores alturas sem medo. Como é que ele consegue isso?"
"É porque ele está num estado de pureza absoluta", respondeu Kuan Yin. "Não é a astúcia que lhe permite ousar tais feitos. Sente-se, e eu dir-lho-ei.
"Tudo o que tem forma, som e cor pode ser classificado como a coisa suprema. O homem difere tanto dos demais e está acima de todas as coisas simplesmente porque estas são apenas o que aparentam ser, nada mais. Mas o homem pode alcançar a ausência de forma e vencer a morte. E com aquilo que possui o eterno, como podem se comparar as meras coisas?
"O homem pode repousar na perfeição eterna; pode permanecer no eterno; e vaguear do princípio ao fim de toda a criação. Pode reduzir a sua natureza a um estado de unidade; pode nutrir a sua força; pode harmonizar a sua virtude e, assim, unir-se a Deus. Então, quando a sua divindade estiver assim assegurada e o seu espírito cercado por todos os lados, como poderá algo encontrar passagem para dentro dele?
Ele está para além do alcance das existências objetivas.
"Um bêbado que cai de uma carroça, embora possa sofrer, não morre". Os seus ossos são iguais aos de qualquer outra pessoa; mas enfrenta o acidente de uma forma diferente. O seu espírito está em estado de segurança. Não tem consciência de estar na carroça, nem de ter caído dela. As ideias de vida, de morte, de medo, etc., não podem penetrar no seu peito; e assim não sofre com o contacto com as existências objetivas. E se tal segurança pode ser obtida do vinho, quanto mais de Deus. É em Deus que o Sábio procura refúgio, e assim fica livre de danos.
"Um vingador não quebra em dois a arma assassina; nem o homem mais rancoroso leva o seu ressentimento a uma telha que o tenha atingido na cabeça. E pela extensão deste princípio, o império estaria em paz; não haveria mais confusão da guerra, nem punição de morte.
"Não desenvolvam a vossa inteligência artificial, mas desenvolvam a inteligência que vem de Deus. Desta última resulta a virtude; daquela, a astúcia." E aqueles que não se esquivam do natural, nem se deleitam com o artificial, estão próximos da perfeição."
Quando Confúcio estava a caminho do Estado de Chu, chegou a uma floresta onde viu um corcunda a apanhar cigarras como se as capturasse com a mão.
Não deixa de ser uma delícia. do miúdo chinês para capturar a ruidosa "aparadora de tesouras" com a ajuda de um longo bambu com a ponta coberta de visco.
"Como és esperto!" exclamou Confúcio. "Tem algum jeito de fazer isso?"
"Caminho", ou seja, a via, é o significado primordial do Tao.
"Tenho um jeito", respondeu o corcunda. "No quinto e sexto ciclos lunares, pratico o equilíbrio de duas bolas, uma em cima da outra.
No topo da sua vara.
Se não caírem, não perco muitas cigarras. Quando consigo equilibrar três bolas, perco apenas uma em cada dez; e quando consigo equilibrar cinco, é como se pegasse nas cigarras com a mão. O meu corpo fica tão imóvel como o cepo de uma árvore; os meus braços, como ramos secos. O céu, a terra e toda a criação podem estar à minha volta, mas eu só estou consciente das asas da minha cigarra. Como é que eu não teria sucesso?"
Confúcio olhou para os seus discípulos e disse: "A determinação induz a concentração das faculdades. Tal é o segredo do sucesso deste corcunda."
Yen Yuan disse a Confúcio: "Quando atravessei a corredeira Shang-shên, o barqueiro manobrou a sua embarcação com uma habilidade maravilhosa. Perguntei-lhe se era possível aprender a remar. 'Sim', respondeu ele. 'A maneira daqueles que sabem como te manter à tona é mais parecida com a de te afundar. Eles remam como se o barco não existisse'.
"Perguntei o que significava, mas ele não me disse. Posso perguntar o seu significado?"
"Significa", respondeu Confúcio, "que tal homem é alheio à água que o rodeia. Encara a corrente como se fosse terra firme. Vê um naufrágio como um acidente de carroça comum. E se um homem pode ser imune a naufrágios e acidentes em geral, para onde não poderia ir confortavelmente?"
"Significa", respondeu Confúcio, "que um homem assim é alheio à água que o rodeia. Considera a corredeira como se fosse terra firme. Encara um naufrágio como um acidente de carroça comum. E se um homem pode ser imune aos naufrágios e aos acidentes em geral, para onde não poderia ir confortavelmente?" "Um homem que joga por fichas jogará bem. Se apostar o cinto,
onde guarda o seu dinheiro solto,
ficará nervoso; se apostar ouro amarelo, perderá a cabeça. A sua habilidade é a mesma em ambos os casos, mas distrai-se com o valor da sua aposta. E todo aquele que dá importância ao externo, torna-se internamente desprovido de recursos."
T'ien K'ai Chih teve uma audiência com o Duque Wei de Chou. O Duque perguntou-lhe: "Ouvi dizer que Chu Hsien está a estudar a arte da vida. Como é um companheiro dele, por favor, conte-me tudo o que sabe sobre isso."
"Eu apenas varro no seu portão exterior", respondeu T'ien K'ai Chih; "o que deveria eu saber sobre as pesquisas do meu Mestre?"
"Não seja tão modesto", disse o Duque. "Estou muito ansioso para ouvir sobre isso."
"T'ien K'ai Chih teve uma audiência com o Duque Wei de Chou. O Duque perguntou-lhe: "Ouvi dizer que Chu Hsien está a estudar a arte da vida. Como é um companheiro dele, por favor, conte-me tudo o que sabe sobre o assunto."
"Eu apenas varro no seu portão exterior", respondeu T'ien K'ai Chih; "o que deveria eu saber sobre as pesquisas do meu Mestre?"
"Não seja tão modesto", disse o Duque. "Estou muito ansioso para ouvir sobre isso." "Bem", respondeu T'ien, "ouvi o meu amo dizer que cuidar da vida é como cuidar de um rebanho de ovelhas. Fica-se de olho nas mais lentas e chicoteia-se."
"O que é que isto significa?", perguntou o Duque.
"No Estado de Lu", disse T'ien, "havia um homem chamado Shan Pao. Vivia nas montanhas e bebia água. Todos os interesses mundanos tinha-os posto de lado. E aos setenta anos, a sua tez era como a de uma criança. Infelizmente, um dia deparou-se com um tigre faminto que o matou e devorou.
"Havia também um homem chamado Chang I, que frequentava as casas dos ricos e dos pobres. Aos quarenta anos, foi acometido por alguma doença interna e morreu.
"Shan Pao cuidou do seu interior, e um tigre devorou o seu exterior. Chang I cuidou de si exteriormente, mas a doença atacou-o internamente. Estes dois indivíduos negligenciaram chicotear as mais lentas."
Não há registo específico dos notáveis acima referidos. Confúcio disse: "Nem pretendendo a obscuridade, nem procurando a proeminência, mas ocupando inconscientemente o feliz meio-termo — aquele que conseguir alcançar estes três alcançará uma fama incomparável."
"Nas regiões perigosas, onde um viajante em cada dez encontra a morte, pais, filhos e irmãos aconselham-se mutuamente a não viajar sem uma escolta adequada. Não é isso sabedoria? E onde os homens também correm grande perigo, nos momentos de paixão, na hora do banquete, não os advertir é, de facto, um erro."
As precauções físicas por si só não são suficientes. A natureza moral do homem exige igualmente uma vigilância e um cuidado constantes.
O Grande Augur, nas suas vestes cerimoniais, aproximou-se do matadouro e dirigiu-se aos porcos da seguinte forma:
"Como podem opor-se à morte? Engordá-los-ei durante três meses. Disciplinar-me-ei durante dez dias e jejuarei durante três. Espalharei erva fina e colocá-los-ei, sem vida, num prato sacrificial esculpido." "Não te satisfaz?"
Depois, falando do ponto de vista dos porcos, continuou: "Talvez seja melhor, afinal, viver de farelo e escapar à miséria..."
"Mas então", acrescentou, falando do seu próprio ponto de vista, "para desfrutar da honra em vida, seria necessário morrer de bom grado num escudo de guerra ou no cesto do carrasco."
Assim, rejeitou o ponto de vista dos porcos e adotou o seu próprio. Em que sentido, então, era diferente dos porcos?
Assim como um porco não pensa em mais nada senão em comer, o Grande Augúrio estava pronto a sacrificar tudo, a sua própria vida, por uma fama insignificante.
Quando o Duque Huan estava a caçar, com Kuan Chung como seu cocheiro, viu um bode expiatório. Segurando a mão de Kuan Chung, perguntou-lhe: "O que vês?".
"Não vejo nada", respondeu. Kuan Chung insistiu. Mas quando o Duque chegou a casa, ficou delirante e, durante muitos dias, não conseguiu sair.
Apareceu então um certo Huang Tzŭ Kao Ngao, do Estado Ch'i.
"Um sábio do Estado Ch'i" — como costumam dizer os comentadores, quando na realidade nada sabem sobre o indivíduo.
e disse: "Vossa Alteza autolesionou-se. Como poderia um papão feri-lo? Quando a força vital se dissipa na raiva e não é renovada, há uma deficiência. Quando a sua tendência é para cima, o resultado é inclinar os homens para a ira. Quando a sua tendência é para baixo, o resultado é a perda de memória. Quando permanece estagnada no meio do corpo, o resultado é a doença."
"Muito bem", disse o Duque, "mas existem coisas como bichos-papões?"
"Existem", respondeu Huang. "Há o espírito da lama Li; o espírito do fogo Kao; Lei T'ing, o espírito do caixote do lixo; P'ei O e Wa Lung, espíritos do nordeste; Yi Yang, do noroeste; Wang Hsiang, da água; Hsin, das colinas; K'uei, da montanha; Pang Huang, do pântano; Wei I, do pântano."
As indumentárias e a postura destes seres são descritas detalhadamente pelos comentadores.
"E como seria Wei I?", perguntou o Duque.
"Wei I", respondeu Huang, "é tão largo como uma roda de carroça e tão comprido como o eixo. Veste roupas roxas e um chapéu vermelho. É um ser senciente e, sempre que ouve o estrondo do trovão, levanta-se numa postura respeitosa. Aqueles que vêem este papão são como chefes entre os homens."
O Duque riu-se exultante e disse: "Exatamente o que vi!". Em seguida, vestiu-se e sentou-se. E antes que o dia terminasse, sem que se apercebesse, a sua doença tinha-o deixado.
O episódio acima ensina que os males que parecem vir do exterior, na realidade, têm a sua origem interna.
Chi Hsing Tzŭ estava a treinar galos de combate para o príncipe.
De Ch'i, diz um comentador.
Ao fim de dez dias, este perguntou se estavam prontos. "Ainda não", respondeu Chi; "estão na fase de procurar ferozmente um inimigo."
Passaram mais dez dias, e o príncipe fez uma nova pergunta. "Ainda não", respondeu Chi; "ainda estão agitados pelos sons e sombras de outros galos."
Passaram mais dez dias, e o príncipe perguntou novamente. "Ainda não", respondeu Chi; "a visão de um inimigo é ainda suficiente para os incitar à fúria."
Mas, dez dias depois, quando o príncipe perguntou de novo, Chi disse: "Servirão. Outros galos podem cantar, mas não lhes prestarão atenção. Ao vê-los, dir-se-ia que são de madeira. A sua virtude é completa. Os galos estranhos não ousarão enfrentá-los, mas fugirão."
Ilustrando o valor da concentração interna.
Confúcio observava a catarata em Lü-liang. Ela caía de uma altura de trinta jen,
1 jen = 7 pés chineses. O que os antigos chineses
{{{1}}}
e a sua espuma atingia quarenta li de distância. Nenhuma criatura escamosa ou com barbatanas conseguia entrar ali.
Referindo-se às corredeiras abaixo.
Contudo, Confúcio viu um velho entrar e, pensando que ele estivesse sofrendo de algum problema e desejando tirar a própria vida, ordenou a um discípulo que corresse pela margem para tentar salvá-lo. O velho emergiu a cerca de cem passos de distância e, com os cabelos esvoaçantes, caminhava cantando pela margem. Confúcio seguiu-o e disse: "Eu pensava, senhor, que o senhor era um espírito, mas agora vejo que é um homem. Por favor, diga-me, existe alguma maneira de lidar com a água dessa forma?"
"Não", respondeu o velho; "Não tenho como. Havia a minha condição original para começar; depois, o hábito que se tornou natureza; e, por fim, a aquiescência ao destino. Mergulhando com o remoinho, saio com o turbilhão. Adapto-me à água, não a água a mim. E assim consigo lidar com ela desta forma."
"O que quer dizer", indagou Confúcio, "com a sua condição original para começar, o hábito que se tornou natureza e a aquiescência ao destino?"
"" "Nasci", respondeu o velho, "em terra seca e adaptei-me à terra seca. Esta era a minha condição original. Crescendo na água, adaptei-me à água. Era isto que eu queria dizer com natureza.
O hábito é a segunda natureza.
E fazer como fiz sem ter consciência de qualquer esforço para o fazer, era isso que queria dizer com destino."
As existências objetivas não podem prejudicar aquele que deposita a sua confiança em Deus.
[Este episódio ocorre duas vezes, com diferenças textuais, nas obras de Lieh Tzŭ, caps. ii e viii.]
Ch'ing, o carpinteiro-chefe,
do Estado de Lu.
estava a esculpir madeira para fazer um suporte para pendurar instrumentos musicais. Quando terminou, a obra pareceu aos que a viram como se tivesse sido executada sobrenaturalmente. E o príncipe de Lu perguntou-lhe: "Que mistério há na sua arte?"
"Nenhum mistério, Vossa Alteza", respondeu Ch'ing; "E, no entanto, há algo.
"Quando estou prestes a tomar tal posição, protejo-me contra qualquer diminuição do meu poder vital. Primeiro, reduzo a minha mente à quietude absoluta. Três dias neste estado, e torno-me alheio a qualquer recompensa a obter. Cinco dias, e torno-me alheio a qualquer fama a adquirir. Sete dias, e perco a consciência dos meus quatro membros e da minha estrutura física. Depois, sem qualquer pensamento da Corte presente na minha mente, a minha capacidade concentra-se e todos os elementos perturbadores externos desaparecem. Entro em alguma floresta na montanha. Procuro uma árvore adequada. Contém a forma necessária, que é posteriormente elaborada. Vejo a árvore na minha mente e depois começo a trabalhar. Caso contrário, não há nada. Coloco a minha própria capacidade natural em relação com a da madeira. O que se suspeitava ser execução sobrenatural na minha obra devia-se unicamente a isto."
À obliteração do eu na causalidade infinita de Deus.
Tung Yeh Chi exibiu a sua habilidade como cocheiro perante o Duque Chuang.
"De Lu", diz um comentador. Mas outro salienta que Yen Ho (infra) é mencionado no capítulo iv como tutor do filho do Duque Ling de Wei, o que envolveria um anacronismo.
Dirigia-se para trás e para a frente em linhas que poderiam ter sido traçadas, contornando cada extremidade em curvas que poderiam ter sido descritas por um compasso.
O Duque, porém, disse que aquilo não passava de um ziguezaguear; e, ordenando-lhe que desse cem voltas e mais voltas, voltou para casa.
Yen Ho encontrou-o, entrou e disse ao Duque: "Os cavalos de Chi estão prestes a quebrar."
O Duque permaneceu em silêncio, sem responder; e em pouco tempo foi anunciado que os cavalos tinham de facto partido e que Chi tinha partido.
"Como poderia "Estás a dizer-me isso?", perguntou o Duque a Yen Ho.
"Porque", respondeu este, "Chi estava a tentar que os seus cavalos realizassem uma tarefa para a qual não eram capazes." Portanto, eu disse que eles iriam ruir."
Ilustrando a tensão que a mortalidade impõe diariamente aos corpos e às mentes de todos os homens.
Ch'ui, o artesão, conseguia desenhar círculos com a mão melhor do que com um compasso. Os seus dedos pareciam adaptar-se tão naturalmente àquilo em que trabalhava, que era desnecessário fixar a sua atenção. As suas faculdades mentais, assim, permaneciam UNAS e não sofriam qualquer obstáculo.
Estar inconsciente dos próprios pés implica que os sapatos são confortáveis. Estar inconsciente da cintura implica que o cinto é confortável. A inteligência, inconsciente do positivo e do negativo, implica que o coração está em paz. Nenhuma modificação interna, nenhuma submissão a influências externas,
Mas sempre seguindo um curso natural.
—isto é a tranquilidade em todas as condições. E aquele que, partindo da tranquilidade, nunca deixa de estar em paz, está inconsciente da tranquilidade da tranquilidade.
Tal é a condição de esquecimento necessária ao devido desenvolvimento da nossa espontaneidade natural.
Um certo Sun Hsiu foi a casa de Pien Ch'ing Tzŭ.
Ambos desconhecidos da fama.
E queixou-se, dizendo: "Em tempos de paz, não sou considerado desprovido de decoro. Em tempos de dificuldade, não sou considerado desprovido de coragem. No entanto, as minhas colheitas falham; e oficialmente, não sou um sucesso. Sou um pária na minha aldeia, um fora-da-lei no meu Estado. Como ofendi Deus para que Ele me castigasse com tal destino?"
"Não ouviste", respondeu Pien Tzŭ, "como se comporta o homem perfeito? É alheio à sua organização física. Está para além do alcance da visão e da audição. Move-se para além dos limites deste mundo poeirento, vagueando transcendentalmente no domínio do não-assunto. A isto se chama agir, mas não por autoconfiança, influenciar, mas não por autoridade.
Ou seja, agir não em consequência da autoconfiança, mas sem referência a ela; isto é, naturalmente. Influenciar, não por causa da autoridade, mas conquistando a autoridade por influência natural.
" Esta citação aparece, embora Chuang Tzŭ ou quem quer que seja o responsável por este episódio não o diga, nos capítulos x e li do Tao Te Ching.
"Mas tu, fazes ostentação do teu conhecimento para assustar os tolos. Cultivas-te em contraste com a degradação dos outros. E avanças com a mesma intensidade que o sol e a lua sob os teus braços.
Estas três últimas frases encontram-se textualmente no capítulo xx.
Considerando que tens um corpo inteiro num corpo inteiro, e não pereceste no meio da vida, mudo, cego ou paralítico, mas ocupas um lugar entre os homens — isto deveria ser suficiente para ti. Porquê blasfemas contra Deus? Vai-te embora!"
Sun Hsiu retirou-se, e Pien Tzŭ entrou e sentou-se. Pouco depois, olhou para o céu e suspirou; então, um discípulo perguntou-lhe o que tinha acontecido.
"Quando Hsiu esteve aqui há pouco", respondeu Pien Tzŭ, "falei-lhe da virtude do homem perfeito. Receio que se assuste e seja levado à dúvida."
"Não, senhor", respondeu o discípulo. "Se ele estivesse certo e o senhor errado, o erro nunca levará o certo à dúvida. Se, por outro lado, ele estivesse errado e o senhor certo, trouxe a dúvida consigo, e o senhor não é responsável por isso."
"Não é bem assim", disse Pien Tzŭ. "Antigamente, quando um pássaro aterrou nos arredores da capital de Lu, o príncipe ficou encantado e matou um boi para o alimentar e mandou tocar Chiu Shao para o entreter. O pássaro, porém, era tímido e atordoado e não se atrevia a comer nem a beber. Isto era tratar o pássaro como um pecado. como se fosse você mesmo. Mas para tratar um pássaro como um pássaro trataria outro pássaro, deve colocá-lo a dormir numa floresta densa, deixá-lo nadar num rio ou lago e alimentar-se à vontade na planície. Ora, Sun Hsiu é um homem de pouco entendimento; e para mim falar com ele sobre o homem perfeito é como pôr um rato a andar de carruagem ou uma banda a tocar para uma codorniz. Como é que ele não se assustaria?
O episódio acima já apareceu no capítulo XVIII, no final.
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 20. Obscuridade deliberada
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CAPÍTULO XX.
Árvores da Montanha.
Argumento:—As alternativas de utilidade e inutilidade—O Tao como terceiro elemento—O humano como obstáculo ao divino—Altruísmo—Adaptação—Destino—Ilustrações.
[Este capítulo é suplementar ao capítulo IV.]
CHUANG TZŬ viajava por uma montanha quando viu uma enorme árvore bem coberta de folhagem. Um lenhador tinha parado perto, sem se importar de a levar; e quando Chuang Tzŭ perguntou o motivo, disseram-lhe que não tinha qualquer utilidade.
"Esta árvore", exclamou Chuang Tzŭ, "por não servir para nada, consegue completar o seu período de vida."
Quando Chuang Tzŭ deixou a montanha, ficou hospedado em casa de um velho amigo. Este ficou encantado e ordenou a um criado que matasse um ganso e o cozinhasse.
"Qual devo matar?", perguntou o criado; "A que cacareja ou a que não cacareja?"
O seu mestre disse-lhe para matar aquela que não cacarejava. E, assim, no dia seguinte, um discípulo perguntou a Chuang Tzŭ: "Ontem, aquela árvore na montanha, por ser inútil, deveria completar o seu ciclo de vida. Mas agora, o ganso do nosso anfitrião, que também é inútil, precisa de morrer. Em qual dos lados do dilema se apoiará?"
"Descanso", respondeu Chuang Tzŭ com um sorriso, "a meio caminho entre os dois. Nesta posição, aparentando ser o que não sou, é impossível evitar os problemas da mortalidade;
O texto aqui é duvidoso, e os comentadores explicam-no de acordo com a fantasia de cada um. Quando um comentador chinês não compreende o seu texto, geralmente distorce-o. Ele nunca diz "não percebo". Só Chu Fu Tzŭ poderia atingir essa altura.
embora, se estivesse numa carruagem sobre o Tao e flutuasse muito acima da mortalidade, tal não seria assim. Sem elogios, sem críticas; grandes e pequenos; alterando-se com a mudança do tempo, mas sempre sem esforço especial; acima e abaixo; procurando a harmonia com o ambiente; alcançando a Causa Primeira da criação; influenciando todas as coisas e não sendo influenciado por nenhuma; — como poderiam então surgir tais problemas? Este era o método de Shên Nung e Huang Ti.
"Se tivesse chegado outro convidado", diz Lin Hsi Chung, "imagino que a hipótese até do ganso a cacarejar teria sido..." "Pequeno."
"Mas no meio das paixões e das relações mundanas do homem, não seria esse o caso. Pois onde há união, há também separação; onde há completude, há também destruição; onde há pureza, há também opressão; onde há honra, há também desprezo; onde há ação, há também desação; onde há abertura, há também dissimulação; e onde não há aparência, há também engano. Como pode então haver um ponto fixo? Ai de mim! Observem, meus discípulos, que tal ponto só pode ser encontrado no domínio do Tao."
I Lião
Um sábio do Estado de Ch'u.
de Shih-nan fez uma visita ao príncipe de Lu. Este tinha um semblante melancólico; então o filósofo de Shih-nan perguntou qual era a causa.
"Estudo as doutrinas dos antigos Sábios", respondeu o príncipe. "Dou continuidade ao trabalho dos meus antecessores. Respeito a religião." Honro o bem. Nunca relaxo nesses pontos; contudo, não posso evitar o infortúnio e, consequentemente, estou triste."
"O método de Vossa Alteza para evitar o infortúnio", disse o filósofo de Shih-nan, "é superficial. Uma bela raposa ou um leopardo listrado vivem numa floresta montanhosa, escondendo-se sob algum penhasco íngreme. Esse é o seu repouso. Saem à noite e recolhem-se durante o dia. Essa é a sua cautela. Mesmo sob o peso da fome e da sede, permanecem escondidos, dificilmente se aventurando a esgueirar-se secretamente até à margem do rio em busca de alimento. Essa é a sua resolução. Não obstante, não escapam ao infortúnio da rede e da armadilha. Mas que crime cometeram? É a sua pele que causa os seus problemas; e não é o Estado de Lu a pele de Vossa Alteza?
Tão.
"Em Nan-yüeh existe um distrito chamado Virtude Estabelecida. O seu povo é simples e honesto, altruísta e desprovido de paixões. Podem produzir, mas não podem conservar. Dão, mas não esperam nada em troca. Não se preocupam em cumprir obrigações. Não se preocupam em submeter-se à etiqueta.
A sua etiqueta é a natural das mentes bem reguladas.
As suas ações são totalmente descontroladas, contudo, trilham o caminho da sabedoria. A vida é para ser desfrutada; a morte, para ser sepultada. E para lá gostaria que Vossa Alteza seguisse, descartando o poder e deixando o mundo para trás, confiando apenas no Tao."
"A estrada é longa e perigosa", disse o príncipe. "Rios e montes a serem atravessados, e eu sem barco nem carro; — que farei então?"
"Sem amarras físicas e com a mente livre", respondeu o filósofo, "Vossa Alteza será a sua própria carruagem."
"Até ao limite do corpo e da mente livre", respondeu o filósofo, "Vossa Alteza será a sua própria carruagem." "Mas a estrada é longa e árida", argumentou o príncipe, "e desabitada."
Isto é um jogo de palavras com "onde a mortalidade não existe", referido acima.
Eu irei Não tenho a quem recorrer em busca de ajuda; e como é que, sem alimento, conseguirei lá chegar?"
"Diminua o gasto
De energia.
e reduza os desejos", respondeu o filósofo, "e mesmo sem provisões, haverá o suficiente. E depois, através do rio e do mar, Vossa Alteza viajará para o espaço ilimitado e sem fronteiras. Da fronteira, regressarão os que atuam como escolta; mas, a partir de então, Vossa Alteza viajará para longe.
"É o humano em nós mesmos que nos impede; e o humano nos outros que causa a nossa tristeza. O grande Yao não possuía esse elemento humano, nem o percebia nos outros. E eu gostaria que Vossa Alteza se livrasse desse obstáculo e dessa tristeza, e vagueasse com o Tao sozinho pelos reinos do Nada Infinito.
"Suponha que um barco está a atravessar um rio e outro barco vazio está prestes a colidir com ele. Mesmo um homem irritável não perderia a calma. Mas suponha que havia alguém no segundo barco. Então, o ocupante do primeiro barco gritava para ele se afastar. E se o outro não ouvisse à primeira, nem mesmo depois de ser chamado três vezes, haveria inevitavelmente insultos. No primeiro caso não havia raiva, no segundo, sim; porque no primeiro barco estava vazio e no segundo, ocupado. E assim é com o homem. Se pudesse vaguear pela vida vazio, quem seria capaz de o ferir?
Com a mente num estado negativo, fechada a todas as impressões transmitidas pelos sentidos exteriores,
Pei Kung Shê, ministro do Duque Ling de Wei, recolheu contribuições para a confeção de sinos. Um altar foi construído do lado de fora das portas da cidade;
para fins de sacrifício.
e em três meses, os sinos, superiores e inferiores, estavam todos instalados.
O carrilhão consistia numa estrutura com sinos que balançavam numa barra superior e inferior.
Quando Wang Tzŭ Ch'ing Chi
ministro da Casa governante de Chou,
os viu, perguntou: "Como é que, senhor, conseguiu isso?".
"No domínio de um só", respondeu Shê, "talvez não haja controlo. Ouvi dizer que o que é esculpido e polido regressa, no entanto, à sua condição natural. E assim, tive em conta a ignorância e a suspeita. Não demonstrei qualquer sentimento ao ser recebido ou dispensado." Não proibi a entrada a quem vinha, nem detive quem se ia embora. Não mostrei ressentimento para com os que não queriam vir, nem gratidão para com os que contribuíam. Cada um contribuiu com o que queria; E assim, na minha recolha diária de assinaturas, não foi causado qualquer prejuízo. — Quanto mais aqueles que trilham o grande caminho?
Se o meu sucesso se deveu ao princípio simples acima enunciado, que sucesso resultaria do Tao, que é a extensão infinita de tais princípios a todas as fases da existência!
A palavra chinesa aqui utilizada para "caminho", como sinónimo de Tao, estabelece o significado original deste último no sentido de "estrada". Assim, diz-se que Lao Tzu explicou que o Caminho que ensinava não era o caminho que se podia percorrer.
Quando Confúcio estava encurralado entre Ch'ên e Ts'ai, esteve sete dias sem comer.
O ministro Jen foi consolá-lo e disse-lhe: "O senhor esteve perto da morte, senhor."
"De facto, estive", respondeu Confúcio.
"O senhor teme a morte, senhor?", perguntou Jen.
"Temo", disse Confúcio.
"Então tentarei ensinar-lhe", disse Jen, "o caminho para não morrer."
"No mar oriental existem certas aves, chamadas i-êrh. Comportam-se de forma modesta e despretensiosa, como se não possuíssem qualquer habilidade. Voam simultaneamente: empoleiram-se em grupo. Ao avançar, nenhuma se esforça por ser a primeira; ao recuar, nenhuma se atreve a ser a última. Ao comer, nenhuma será a primeira a começar; considera-se apropriado aproveitar as sobras dos outros. Por isso, nas suas próprias fileiras, vivem em paz, e o mundo exterior é incapaz de lhes causar dano. E assim escapam aos problemas.
"As árvores direitas são as primeiras a serem derrubadas. Os poços de água doce são os que se esgotam mais rapidamente. E tu, ostentas o teu conhecimento para assustar os tolos. Cultiva-se em contraste com a degradação dos outros. E segue em frente com a mesma índole de quem tem o sol e a lua debaixo dos braços; consequentemente, não consegue evitar os problemas.
Veja p. 243.
"Antigamente, ouvi um homem muito sábio dizer: 'O autoelogio não é recomendação. No mérito alcançado há deterioração. Na fama alcançada há perda. Quem pode descartar tanto o mérito como a fama e tornar-se uno com o resto?' O Tao permeia todas as coisas, mas não é visto.
Esta é a 'virtude', a expressão do Tao.
'Move-se por todas as coisas, mas o seu lugar não é conhecido. Na sua pureza e constância, pode ser comparado ao desprovido de propósito. Permanecendo oculto, rejeitando o poder, não trabalha por mérito nem por fama. Assim, não censurando os outros, não é censurado por eles.»
"E se o homem perfeito não se preocupa com a fama, por que razão, senhor, há-de ter prazer nela?"
"Muito bem!" respondeu Confúcio; e despediu-se imediatamente dos seus amigos, dispensou os seus discípulos e retirou-se para o ermo, onde se vestiu com peles e sarja e se alimentou de bolotas e castanhas. Ele Passou entre os animais e as aves, e estes não lhe prestaram atenção. E se assim foi, quanto mais entre os homens?
Um episódio inquestionavelmente falso.
Confúcio perguntou a Tzŭ Sang Hu,
Ver o capítulo VI.
dizendo: "Fui expulso de Lu duas vezes. A minha árvore foi cortada em Sung. Fui proibido em Wei. Sou um falhado em Shang e Chou. Fui cercado entre Ch'ên e Ts'ai. E, para além de todos estes problemas, os meus amigos separaram-se de mim e os meus discípulos foram-se embora. Como é possível?".
Veja a pág. 180.
"Não ouviste", respondeu Sang Hu, "como, quando os homens de Kuo fugiram, um deles, chamado Lin Hui, descartou as insígnias mais valiosas e levou o seu filho às costas? Alguém sugeriu que ele era influenciado pelo valor da criança; porém, o valor da criança era pequeno. Ou pelo incómodo das insígnias; porém, o incómodo da criança seria muito maior. Por que razão, então, deixou para trás as insígnias e levou a criança?
"O próprio Lin Hui disse: 'As insígnias envolviam uma mera questão de dinheiro. A criança era de Deus'.
"E assim é que, em tempos de dificuldade e calamidade, as meras questões de dinheiro são negligenciadas, enquanto nos apegamos cada vez mais àquilo que vem de Deus. E entre negligenciar e apegar-se, a diferença é grande.
"A amizade do homem superior é negativa como a água. A amizade do homem comum é saborosa como o vinho. A do homem superior passa da negatividade ao afeto." A amizade do homem mesquinho passa de plena e saborosa a nada. A amizade do homem mesquinho começa sem motivo aparente e, da mesma forma, termina.
"Ouvi e obedeci", respondeu Confúcio; e voltou imediatamente para casa em silêncio, pôs fim aos estudos e pôs de lado os livros. Os seus discípulos já não o saudavam como mestre; mas o seu amor por eles aprofundava-se a cada dia.
Noutra ocasião, Sang Hu disse-lhe novamente: "Quando Shun estava prestes a morrer, ordenou ao Grande Yu o seguinte: — Tem cuidado. Age de acordo com o teu corpo físico. Fala de acordo com os teus sentimentos. Assim, não terás dificuldades com o primeiro nem sofrerás aborrecimentos com o segundo. E como, nestas condições, não necessitarás de qualquer tipo de adorno exterior, segue-se que, portanto, não necessitarás de nada."
Também um episódio de autoria duvidosa. Os comentadores, porém, nada têm a dizer contra a sua autenticidade.
Chuang Tzŭ vestiu roupas de algodão remendadas e, ajeitando o cinto e atando os sapatos,
para que não caíssem,
foi visitar o príncipe de Wei.
"Como o senhor parece miserável!" exclamou o príncipe.
"É pobreza, não miséria", respondeu Chuang Tzŭ. "Um homem que possui o Tao não pode ser miserável. Roupas esfarrapadas e botas velhas causam pobreza, não miséria. A minha é o que se chama estar em desarmonia com a idade.
"Vossa Alteza nunca viu um macaco trepador? Dê-lhe uma árvore grande e ele contorcer-se-á e rodopiar entre os ramos como se fosse o monarca de tudo o que contempla. Yi e Fêng Mêng
Um antigo arqueiro e seu aprendiz.
nunca conseguiram sequer vislumbrá-lo."
"Mas coloque-o num arbusto de espinhos, e ele mover-se-á audaciosamente, lançando olhares de soslaio, tremendo de medo. Não que os seus músculos relaxem perante a dificuldade, mas porque está em desvantagem em termos de posição e é incapaz de usar a sua capacidade. E como poderia alguém, vivendo sob soberanos tolos e ministros perversos, deixar de ser miserável, mesmo que não o desejasse?
"Foi em tais circunstâncias que Pi Kan foi estripado".
Ver o capítulo iv. O episódio acima é demais até para os críticos chineses e foi condenado por isso.
Quando Confúcio estava encurralado entre Ch’ên e Ts’ai e tinha passado sete dias sem comer, então, segurando na mão esquerda um pedaço de madeira seca e na mão direita um pau seco, cantou uma balada de Piao Shih.
Um antigo governante.
Tinha um instrumento, mas faltava-lhe a gama completa. Havia som, mas não melodia. O som da madeira acompanhado pela voz do homem. produziu um resultado severo, mas consentâneo com os sentimentos do seu público.
Yen Hui, que estava presente com uma atitude respeitosa, começou então a olhar em redor; e Confúcio, temendo ser levado pela exaltação à arrogância, ou pelo desejo de segurança à tristeza,
como resultado de ouvir a canção,
disse-lhe o seguinte:
"Hui! É fácil escapar à injúria de Deus; é difícil evitar os benefícios do homem. Não há princípio nem fim. O homem e Deus são um só. Quem estava a cantar há pouco?"
"Por favor, senhor, o que quer dizer", perguntou Yen Hui, "ao afirmar que é fácil escapar à injúria de Deus?"
"A fome, a sede, o frio e o calor", respondeu Confúcio, "são apenas grilhões no caminho da vida. Pertencem às leis naturais que governam o universo; e em obediência a elas sigo o meu curso predestinado." O súbdito não ousa desprezar os mandamentos do seu príncipe. E se este é o dever do homem para com o homem, quanto mais será o seu dever para com o próximo. "Deus?"
"Qual o significado de ser difícil evitar os benefícios do homem?", questionou Yen Hui.
"Se alguém começa", respondeu Confúcio, "adaptando-se ao ambiente, posição e poder vêm sem cessar. Tais vantagens são externas; não derivam de si mesmo. E a minha vida depende, em maior ou menor grau, do externo. O homem superior não as rouba; nem o homem bom as furta. Que me resta, então, senão aceitá-las como vêm?"
"Por isso, diz-se que nenhum pássaro é tão sábio como a andorinha. Se ela vê um lugar impróprio para habitar, não lhe lança um olhar; e mesmo que ali deixe cair alimento, ela o abandona e voa para longe. Ora, as andorinhas temem o homem. Contudo, habitam entre os homens. Porque ali encontram a sua morada natural."
Da mesma forma, o homem deve adaptar-se às condições que o rodeiam.
"E qual o significado", indagou Yen Hui, de não ter princípio nem fim?"
"O trabalho continua", respondeu Confúcio, "e ninguém conhece a causa. Como poderá então conhecer o fim ou o princípio? Não nos resta senão esperar."
"E o homem e Deus são Um", disse Yen Hui. "O que é que isso significa?"
"O facto de o homem ser", respondeu Confúcio, "é de Deus. O facto de Deus o ser também é de Deus. O facto de o homem não ser Deus é a sua natureza.
Ou seja, aquilo que o torna homem.
O Sábio aguarda silenciosamente a morte como o fim."
Que o unirá de novo a Deus.
Quando Chuang Tzŭ passeava pelo parque em Tiao-ling, viu um estranho pássaro que vinha do sul. As suas asas tinham mais de dois metros de envergadura. Os seus olhos tinham cerca de dois centímetros e meio de circunferência. E voou rente à cabeça de Chuang Tzŭ para aterrar num bosque de castanheiros.
"Que tipo de pássaro é este?", exclamou Chuang Tzŭ. "Com asas fortes, não voa para longe. Com olhos grandes, não vê."
Ou não teria voado tão perto.
Então, levantou as saias e caminhou em direção à ave com a sua besta, ansioso por disparar. Nesse instante, viu uma cigarra a divertir-se à sombra, alheia a tudo. E viu um louva-a-deus saltar e agarrá-la, esquecendo-se, no acto, do seu próprio corpo, que a estranha ave imediatamente atacou e fez a sua presa. E foi isso que fez com que a ave esquecesse a sua própria natureza.
E aproximar-se tanto do homem.
Este episódio foi amplamente popularizado no quotidiano chinês. Os seus detalhes foram expressos pictoricamente numa xilogravura de execução rudimentar, com a adição de um tigre prestes a atacar o homem e de um poço no qual ambos acabarão por cair. Uma legenda ao lado diz: "Tudo é o Destino!"
"Ai de mim!" Chuang Tzŭ exclamou com um suspiro: "Como as criaturas se ferem umas às outras! A perda segue-se à busca do ganho."
Aqueles que se aproveitam dos outros acabam por se tornar presas.
Então, largou o arco e voltou para casa, sendo expulso pelo guarda do parque, que queria saber o que ele fazia ali.
Durante três meses depois disso, Chuang Tzŭ não saiu de casa; e finalmente Lin Chü
Um discípulo.
perguntou-lhe: "Mestre, como é que não saiu durante tanto tempo?".
"Mantendo o meu corpo físico", respondeu Chuang Tzŭ, "perdi de vista o meu verdadeiro eu. Contemplando a água turva, perdi de vista o abismo cristalino. Além disso, aprendi com o Mestre o seguinte: 'Ao entrar no mundo, siga os seus costumes.'"
Este ditado é atribuído, em obras não canónicas, a Confúcio. Mas se alguém foi "Mestre" de Chuang Tzŭ, foi certamente Lao Tzŭ.
Agora, quando passei pelo parque em Tiao-ling, esqueci-me do meu verdadeiro eu. Aquele estranho pássaro que voou perto de mim em direção ao bosque de castanheiros esqueceu a sua natureza. O guarda do bosque de castanheiros tomou-me por um ladrão. Consequentemente, não saí de lá."
Quando Yang Tzŭ
Yang Chu. Veja o cap. viii.
foi para o Estado Song, passou uma noite numa estalagem.
O estalajadeiro tinha duas concubinas, uma bela e outra feia. Amava a última; odiava a primeira.
Yang Tzŭ perguntou como é que isso era possível; ao que um dos criados da estalagem respondeu: "A bela tem tanta consciência da sua beleza que ninguém a considera bela. A feia tem tanta consciência da sua fealdade que ninguém a considera feia."
"Prestem atenção, meus discípulos!", exclamou Yang Tzŭ. "Sede virtuosos, mas sem disso terdes consciência; e onde quer que forem, sereis amados".
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 21. Ação transcendente
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2026-06-29T17:21:00Z
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[[Ajuda:SEA|←]] nova página: CAPÍTULO XXI. Tien Tzŭ Fang. Argumento:—O Tao não pode ser transmitido por palavras—Não está à disposição do homem—Não consiste na moralidade formal—É um elemento inalienável da existência—Sem ele, a alma morre—Com ele, o homem é feliz e a sua imortalidade está segura—Ilustrações. [Este capítulo é suplementar ao capítulo VI.] Tien Tzŭ Fang estava a servir o Príncipe Wên de Wei. De quem era tutor. Não parava de elogia...
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CAPÍTULO XXI.
Tien Tzŭ Fang.
Argumento:—O Tao não pode ser transmitido por palavras—Não está à disposição do homem—Não consiste na moralidade formal—É um elemento inalienável da existência—Sem ele, a alma morre—Com ele, o homem é feliz e a sua imortalidade está segura—Ilustrações.
[Este capítulo é suplementar ao capítulo VI.]
Tien Tzŭ Fang estava a servir o Príncipe Wên de Wei.
De quem era tutor.
Não parava de elogiar Ch'i Kung, até que finalmente o Príncipe Wên perguntou: "Ch'i Kung é o teu tutor?"
"Não", respondeu Tzŭ Fang; "é apenas um vizinho. Discorre admiravelmente sobre o Tao. É por isso que o elogio."
"Então não tem tutor?", perguntou o Príncipe.
"Tenho", respondeu Tzŭ Fang.
"E quem seria ele?" disse o Príncipe Wên.
"Tung Kuo Shun Tzŭ", respondeu Tzŭ Fang.
"Então, como é que não o elogia?", perguntou o Príncipe.
"Ele é perfeito", respondeu Tzŭ Fang. "Na aparência, um homem; na realidade, Deus. Sem condicionamentos, mistura-se com os condicionados, para a sua própria glória ainda maior. Puro em si mesmo, ainda consegue tolerar os outros. Se os homens estão sem o Tao, com um simples olhar leva-os a perceber o erro e faz com que as suas intenções se dissipem. Como poderia eu elogiá-lo?"
Dito isto, Tzŭ Fang retirou-se, e o Príncipe permaneceu em silêncio durante o resto do dia. Por fim, chamou um oficial de serviço e disse: "Quão além de nós está o homem de virtude perfeita! Até então, eu considerava a discussão sobre santidade e sabedoria, e a prática da caridade e do dever para com o próximo, como o ponto máximo atingível. Mas agora que ouvi falar do tutor de Tzŭ Fang, o meu corpo está relaxado e não deseja movimento, a minha boca está fechada e não deseja falar. Tudo o que aprendi, na verdade, é mera vegetação rasteira. E o reino de Wei é a minha ruína.
O Tao não pode ser alcançado pelo trabalhador superficial, nem por aqueles que valorizam as distinções deste mundo.
Quando Wên Po Hsüeh Tzŭ
"Um sábio do sul", como dizem os comentadores, antecipando o "Reino do Meio" em baixo.
estava a caminho de Ch'i, fez uma paragem em Lu. Certo homem de Lu implorou por uma entrevista, mas Wên Po Hsüeh Tzŭ disse: "Não." Ouvi dizer que os cavalheiros do Império do Meio são especialistas em cerimónias e obrigações, mas não têm conhecimento sobre o coração humano. Não desejo vê-lo."
Então, seguiu para Ch'i; mas, mais uma vez, em Lu, a caminho de casa, o mesmo homem voltou a implorar por uma audiência.
"Quando aqui estive da última vez", exclamou Wên Po Hsüeh Tzŭ, "ele pediu para me ver, e agora volta a pedir. Certamente deve ter algo para comunicar."
Então, foi e recebeu o estranho, e ao regressar, soltou suspiros. No dia seguinte, voltou a recebê-lo e, mais uma vez, após a audiência, soltou suspiros. Então, o seu servo perguntou-lhe: "Como é que, sempre que recebes este estranho, suspiras depois?".
"Já lhe disse", respondeu Wên Po Hsüeh Tzŭ, "que o povo do Império do Meio é especialista em cerimónias e obrigações, mas carece de conhecimento sobre o coração humano." O homem que me visitou entrava e saía como se estivesse a seguir um compasso e um esquadro. O seu comportamento era ora o de um dragão, ora o de um tigre. Criticava-me como se fosse meu filho. Admoestava-me como se fosse meu pai. Por isso, soltei suspiros.
Quando Confúcio viu Wên Po Hsüeh Tzŭ, não proferiu uma palavra. Então Tzŭ Lu disse: "Mestre, há muito tempo que desejavas ver Wên Po Hsüeh Tzŭ. Como é que, ao vê-lo, não dizes uma palavra?"
"Com homens como este", respondeu Confúcio, "basta olhar, e o Tao fica." "Não há espaço para palavras".
Veja-se o capítulo V, ad init., sobre "a doutrina que não se exprime por palavras".
Yen Yuan
Consulte a página 179.
Confúcio perguntou: "Mestre, quando caminhas, eu caminho. Quando trotas, eu troto. Quando galopas, eu galopo. Mas quando ultrapassas os limites da mortalidade, só posso ficar a olhar para trás. Como é possível?".
"Explique-se", disse Confúcio.
"Quero dizer", continuou Yen Yuan, "que, enquanto falas, eu falo. Enquanto argumentas, eu argumento. Enquanto pregas o Tao, eu prego o Tao. E com 'quando ultrapassas os limites da mortalidade, só posso ficar a olhar para trás', quero dizer que, sem falar, fazes com que as pessoas acreditem em ti, sem te esforçares, fazes com que as pessoas te amem, sem artifícios, atrais as pessoas à tua volta." "Não consigo perceber como é possível."
"O que te impede de descobrir?", respondeu Confúcio. "Não há tristeza comparável à morte da mente. A morte do corpo é de importância secundária.
Cf. cap. ii: "O corpo decompõe-se, e a mente vai com ele. Esta é a nossa verdadeira causa de tristeza."
"O sol nasce a oriente e põe-se a ocidente. Não há lugar que não ilumine; e aqueles que têm olhos e pés dependem dele para os utilizar com sucesso. Quando ele surge, isto é existência; quando desaparece, isto é não existência.
"E todo o ser humano tem aquilo de que depende para a vida ou para a morte.
A mente, que surge com a vida..." e estabelece-se na morte.
Mas se eu, recebendo este corpo dotado de consciência, passar sem a devida modificação ao fim,
de modo que a mente pereça com o corpo.
dia e noite sujeito a um desgaste incessante como uma mera coisa, sem saber qual será o fim, e apesar deste corpo dotado de consciência,
que deveria ensinar uma lição mais elevada.
consciente apenas de que o destino não me pode salvar do inevitável cemitério, por isso estou a consumir a vida até que, na morte, é como se eu e tu tivéssemos apenas uma vez entrelaçado os braços para sermos finalmente separados para sempre! Não será isso, de facto, motivo de tristeza?
O motivo deste complexo parágrafo é idêntico ao do famoso ensaio do Sr. Mallock, "Vale a Pena Viver?".
"Agora fixas a tua atenção em algo em mim que, enquanto olhas, já desapareceu. Mesmo assim, procuras-lo como se ainda lá estivesses — como quem procura um cavalo numa feira.
Entretanto, o animal já foi vendido.
O que admiro em si é transitório. Mesmo assim, porquê entristecer-se? Embora o meu antigo eu esteja constantemente a desaparecer, permanece aquilo que não desaparece."
A mente, que se alimenta e prospera com a mudança.
Confúcio foi visitar Lao Tzu. Este acabara de lavar a cabeça e os cabelos pendiam-lhe pelas costas, secando. Parecia um corpo sem vida; então Confúcio esperou um pouco, mas finalmente aproximou-se e disse: "Os meus olhos enganam-me, ou é mesmo assim? O seu corpo, senhor, parece madeira seca, como se tivesse sido deixado sem aquilo que lhe dá a vida humana."
Chuang Tzŭ (?) está aqui a repetir-se:
"Eu estava a vaguear", respondeu Lao Tzŭ, "no não nascido."
Refletindo sobre o estado do homem antes do seu nascimento no mundo.
"O que é que isto significa?", perguntou Confúcio.
"A minha mente está aprisionada", respondeu Lao Tzŭ, "e não posso saber. A minha boca está fechada e não posso falar. Mas tentarei dizer-lhe o que é provavelmente a verdade.
"O princípio Negativo perfeito é majestosamente passivo. O princípio Positivo perfeito é poderosamente ativo. A passividade emana do céu; a atividade procede da terra. A interação dos dois resulta na harmonia pela qual todas as coisas são produzidas. Pode haver uma Causa Primeira, mas nunca vemos a sua forma. O seu relato preenche o espaço. Há escuridão e luz. Os dias vêm e os meses vão. O trabalho está constantemente a ser realizado, mas nunca testemunhamos a execução. A vida deve trazer-nos de algum lugar, e a morte deve trazer-nos de volta." O início e o fim sucedem-se incessantemente, e não podemos dizer quando é que a série se esgotará. Se isto não é obra de uma Causa Primeira, o que é então?
"Por favor, explique", disse Confúcio, "o que se ganha ao vaguear como disse."
"O resultado", respondeu Lao Tzu, "é a bondade perfeita e a felicidade perfeita. E aquele que as possui é um homem perfeito."
"E por que meios", indagou Confúcio, "se pode conseguir?"
"Os animais", disse Lao Tzu, "que comem erva não se importam com a mudança de pasto. As criaturas que vivem na água não se importam com a mudança de lagoa. Uma pequena mudança pode ser efetuada, desde que o essencial permaneça intacto."
"Os animais que comem erva não se importam com a mudança de pasto. As criaturas que vivem na água não se importam com a mudança de lagoa. Uma pequena mudança pode ser efetuada, desde que o essencial permaneça intacto." "A alegria, a raiva, a tristeza, a felicidade, não encontram lugar no peito deste homem; pois para ele toda a criação é Uma. E estando todas as coisas assim unidas numa só, o seu corpo e os seus membros são como o pó da terra, e a vida e a morte, o princípio e o fim, são como a noite e o dia, e não podem perturbar a sua paz. Quanto menos trivialidades como o ganho ou a perda, a desgraça ou a boa fortuna?
"Ele rejeita a posição social como se fosse mera lama. Pois sabe que, se um homem é de posição honrosa, a honra reside nele mesmo e não pode ser perdida por mudanças de condição, nem esgotada pelas inúmeras modificações da existência. Quem, então, pode entristecer o seu coração? Aqueles que praticam o Tao compreendem o segredo disso."
"Mestre", disse Confúcio, "a tua virtude iguala a do Céu e da Terra; contudo, ainda empregas preceitos perfeitos no cultivo do teu coração." Quem, de entre os sábios da antiguidade, poderia ter proferido tais palavras?
"Não", respondeu Lao Tzu. "A fluidez da água não é o resultado de qualquer esforço da água, mas antes a sua propriedade natural. E a virtude do homem perfeito é tal que, mesmo sem cultivo, nada pode escapar ao seu domínio. O céu é naturalmente alto, a terra é naturalmente sólida, o sol e a lua são naturalmente brilhantes. Será que cultivam estes atributos?"
Confúcio saiu e disse a Yen Hui: "Em termos de Tao, sou como um animálculo em vinagre". Se o Mestre não me tivesse aberto os olhos, eu não teria percebido a vastidão do universo.
Aquele que deseja concentrar-se na vida após a morte deve primeiro familiarizar-se com a vida antes do nascimento.
Quando Chuang Tzŭ estava numa entrevista com o Duque Ai de Lu,
que já tinha falecido há 120 anos,
este disse: "Temos muitos estudiosos em Lu, senhor, mas poucos da sua escola."
"Em Lu", respondeu Chuang Tzŭ, "há poucos estudiosos".
"Vejam quantos usam vestes de letrados", disse o Duque. "Como pode dizer que são poucos?"
"Estudiosos que usam chapéus redondos", disse o Duque. Chuang Tzŭ respondeu: "Conheçam as estações do Céu. Os sábios que usam sapatos quadrados conhecem a forma da Terra.
De acordo com a antiga cosmogonia chinesa, 'O Céu é redondo: a Terra é quadrada'.
E os sábios que se vestem com roupas largas estão prontos para decidir quaisquer questões que possam surgir. Mas os sábios que possuem o Tao não usam necessariamente vestes; nem o uso de vestes significa necessariamente que um sábio possui o Tao. Se Vossa Alteza não pensa assim, porque não emite uma ordem por todo o Império do Meio, fazendo da morte o castigo para todos os que usam vestes sem possuir o Tao?"
Então, o Duque Ai divulgou este decreto durante cinco dias, e o resultado foi que nenhum homem em Lu se atreveu a vestir vestes de sábio — com exceção de um velho que, assim vestido, se posicionou junto ao portão do Duque.
O meu editor Ming (um sacerdote) diz que este era o próprio Confúcio!
O Duque convocou-o à presença e fez-lhe muitas perguntas sobre política, tentando enredá-lo, mas em vão. Então Chuang Tzŭ disse: "Se há apenas um erudito em Lu, não é certamente muito."
É desnecessário, diz Lin Hsi Chung, recorrer a anacronismos quando se refere a autenticidade deste episódio.
A posição e o poder não o atraíam.
Século VII a.C. Esta história é mencionada por Mêncio.
Depois passou a cuidar do gado. O seu gado estava sempre gordo, o que fez com que o Duque Mu de Ch'in ignorasse a sua condição humilde e lhe confiasse a administração.
Shun não se preocupava com a vida nem com a morte. Era, portanto, capaz de influenciar os corações dos homens.
Os seus pais chegaram ao ponto de tentar matá-lo.
O Príncipe Yuan da Dinastia Song, desejando desenhar um mapa, viu os funcionários do departamento apresentarem-se e, depois de prestarem reverência, aguardarem a ordem. Mais de metade deles já lambia os pincéis e preparava a tinta.
Um deles chegou atrasado. Entrou sem pressa e, depois de prestar reverência, não esperou, regressando a casa.
O Príncipe enviou um homem para ver o que fazia. O homem despiu as roupas e agachou-se nu.
"Ele serve!", exclamou o Príncipe. "É um verdadeiro artista."
Os comentadores não extraem muito deste episódio. Lin Hsi Chung condena-o como uma falsificação.
Quando o Rei Wang estava numa visita de inspeção em Tsang, viu um velho a pescar. Mas a sua pesca não era pesca a sério, pois não pescava para apanhar peixe, mas sim para se divertir.
Portanto, do ponto de vista do Taoísmo, tinha mais hipóteses de sucesso.
Assim, Wên Wang desejava empregá-lo na administração do governo, mas temia que os seus próprios ministros, tios e irmãos se opusessem. Por outro lado, se deixasse partir o velho, não suportaria a ideia de o povo ser privado de tal influência.
Consequentemente, nessa mesma manhã, informou os seus ministros, dizendo: "Uma vez sonhei que um Sábio de pele negra e barba comprida, montado num cavalo bicolor com meias vermelhas de um lado, apareceu e me instruiu para colocar a administração nas mãos do velho senhor de Tsang, prometendo que o povo beneficiaria muito com isso".
Os ministros disseram imediatamente: "É uma ordem do pai de Vossa Alteza."
"Acho que sim", respondeu Wên Wang. "Mas vamos tentar através da adivinhação."
"É uma ordem do falecido pai de Vossa Alteza", disseram os ministros, "e não pode ser desobedecida. Qual a necessidade de adivinhação?"
Assim, o velho de Tsang foi recebido e encarregado da administração. Não alterou nenhum dos estatutos existentes. Não emitiu regulamentos injustos. E quando, passados três anos, Wên Wang fez outra inspecção, encontrou todas as organizações perigosas desmanteladas, os funcionários a cumprir o seu dever como era habitual, enquanto o uso de medidas de cereais era desconhecido dentro das quatro fronteiras do Estado. Havia, pois, unanimidade na voz pública, singularidade de propósito oficial e identidade de interesses para todos.
Então Wên Wang nomeou o velho Grande Tutor; e depois, de pé, com o rosto voltado para norte,
uma atitude de respeito. Voltar-se para sul era a posição convencional de um governante.
perguntou-lhe: "Pode tal governo ser estendido a todo o império?"
O velho de Tsang permaneceu em silêncio e não respondeu. Depois, retirou-se abruptamente e, ao anoitecer desse mesmo dia, desapareceu, para nunca mais se ouvir falar dele.
Yen Yüan disse a Confúcio: "Se Wên Wang não conseguiu fazê-lo por si próprio, como conseguiu fazê-lo através de um sonho?"
"Silêncio!" exclamou Confúcio: "Não lhe cabe criticar Wên Wang, que teve sucesso no cumprimento da sua missão. O sonho serviu apenas para satisfazer a mente vulgar."
Todo o episódio é, obviamente, falso.
Lieh Yü K'ou
Ou Lieh Tzŭ. Veja o capítulo i.
instruiu Po Hun Wu Jên
Veja o capítulo v.
no arco e flecha. Puxando o arco ao máximo, colocou um copo de água no cotovelo e começou a disparar. Mal uma flecha desaparecia de vista e outra já estava na corda, permanecendo o arqueiro imóvel como uma estátua.
"Mas isto é disparar em condições normais", exclamou Po Hun Wu Jên; "não é disparar em condições extremas." "Em condições extraordinárias. Agora, subirei consigo uma alta montanha e ficarei à beira de um precipício de mil pés de altura para ver como consegue disparar."
Então, Wu Jên subiu com Lieh Tzŭ uma alta montanha e ficou à beira de um precipício de mil pés de altura, aproximando-se de costas até que um quinto dos seus pés ultrapassasse o abismo, altura em que fez um gesto para que Lieh Tzŭ o acompanhasse. Mas este tinha caído prostrado no chão, com o suor a escorrer-lhe até aos calcanhares.
"O homem perfeito", disse Wu Jên, "alça voo até ao céu azul ou mergulha nas fontes amarelas,
nas regiões infernais.
ou voa para algum ponto extremo da bússola, sem alterar a expressão facial. Mas está aterrorizado e os seus olhos estão embaciados." "A sua economia interna é deficiente."
Você não tem Tao.
Chien Wu
Veja o capítulo i.
Disse a Sun Shu Ao,
Um famoso ministro do Estado de Chu.
"Senhor, o senhor foi nomeado três vezes sem demonstrar qualquer alegria e foi despedido três vezes sem demonstrar qualquer desgosto. No início, duvidei do senhor; mas agora noto que a sua respiração é perfeitamente regular. Como consegue controlar as suas emoções desta forma?"
"Não sou melhor do que as outras pessoas", respondeu Sun Shu Ao. "Considero o cargo, quando conquistado, como algo que não pode ser recusado; quando perdido, como algo que não pode ser mantido. Para mim, tanto a conquista como a perda estão fora de mim; e, por isso, não sinto desgosto. Em que é que sou melhor do que as outras pessoas?"
"Além disso, não tenho consciência de que o cargo esteja nas mãos de outros ou nas minhas. Se estiver nas mãos de outros, a minha personalidade desaparece; se estiver nas minhas, a deles. E no meio das preocupações com a deliberação e a investigação, que tempo livre resta para se preocupar com a hierarquia?"
Ao ouvir isto, Confúcio disse: "Os sábios perfeitos da antiguidade! — os homens astutos não os conseguiam derrotar; as mulheres belas não os conseguiam seduzir; os ladrões não os conseguiam roubar;
Permaneciam inabaláveis diante do perigo.
Fu Xi e o Imperador Amarelo não conseguiram fazer amizade com eles. A vida e a morte são grandes coisas; contudo, isso não lhes causava dor.
Isso levá-los-ia a sacrificar a verdade.
Quanto menos a hierarquia e o poder!
"As almas de tais homens atravessavam montanhas imensas como se não fossem nada; desciam ao abismo sem se molharem; ocupavam posições humildes sem desgosto. Preenchiam todo o universo; E quanto mais davam aos outros, mais tinham para si."
Estas últimas palavras encontram-se no capítulo 131 do Tao Te Ching. É, no mínimo, estranho encontrá-las aqui na boca de Confúcio sem qualquer indício da sua suposta origem taoista.
A explicação é que, quando este episódio foi escrito, o tratado fragmentado que é conhecido como Tao Te Ching ainda não tinha sido compilado.
O Príncipe de Chu estava sentado com o Príncipe de Fan. De repente, um dos oficiais de Chu disse: "Havia três indícios da destruição do Estado de Fan."
"A destruição do Estado de Fan", exclamou o Príncipe de Fan, "não foi suficiente para prejudicar a minha existência.
Que já estava, em virtude do Tao, fora do alcance das influências mundanas."
"A destruição do Estado de Fan", exclamou o Príncipe de Fan, "não foi suficiente para prejudicar a minha existência.
Que já estava, em virtude do Tao, fora do alcance das influências mundanas." E embora a destruição do Estado Fan não tenha sido suficiente para prejudicar a minha existência, a preservação do Estado Ch'u não será suficiente para preservar a sua.
Vocês estão sem Tao.
Deste ponto de vista, percebe-se que, enquanto nós, Fans, ainda não começámos a ser destruídos, vocês, Ch’us, ainda não começaram a existir.
Um bom exemplar de Fallacia Amphiboliœ.
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 22. Conhecimento do Princípio
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CAPÍTULO XXII.
O Conhecimento viaja para Norte.
Argumento:—Inação e Tao—O universo como nosso modelo—Espontaneidade como nossa palavra de ordem—Omnipresença e indivisibilidade do Tao—Atividade externa, passividade interna—O conhecimento do homem é finito—Ilustrações.
[Este capítulo é complementar do capítulo VI.]
Quando o Conhecimento viajou para norte, atravessando a Água Negra e a Montanha Escura e Íngreme, encontrou o Nada-Faz-Nada e perguntou-lhe o seguinte:
"Por favor, diga-me por que pensamentos, por que cogitações, o Tao pode ser conhecido? Repousando em quê, concordando com quê, o Tao pode ser alcançado? Seguindo o quê, procurando o quê, o Tao pode ser atingido?"
A estas três questões, o Nada-Faz-Nada não respondeu. Não que não quisesse responder, mas que não podia. Como o Conhecimento não obteve resposta, deu meia-volta e foi para o sul da Água Branca, subindo a Montanha Ku-chüeh, onde encontrou o Todo-em-Extremos e lhe fez as mesmas perguntas.
"Há!" exclamou o Todo-em-Extremos, "Eu sei. Vou dizer-lhe..."
Mas, quando estava prestes a falar, esqueceu-se do que queria dizer. Então, como o Conhecimento não obteve resposta, voltou ao palácio e perguntou ao Imperador Amarelo. Este respondeu: "Sem pensamentos, sem cogitações, o Tao pode ser conhecido. Repousando em nada, concordando com nada, o Tao pode ser alcançado. Seguindo nada, buscando nada, o Tao pode ser atingido."
Então o Conhecimento disse ao Imperador Amarelo: "Ora, tu e eu sabemos isso, mas aqueles dois não sabem. Quem tem razão?".
"Destes dois", respondeu o Imperador Amarelo, "O Não Fazer e o Não Dizer é genuinamente correcto, e o Extremismo Total está próximo. Tu e eu estamos completamente errados. Aqueles que o compreendem não falam dele, aqueles que falam dele não o compreendem."
Estas palavras constam do Tao Te Ching, cap. VI. Ver também acima, p. 170.
Por isso, o Sábio ensina uma doutrina que não encontra expressão nas palavras.
Ver acima, cap. V. Ver também Os Restos Mortais de Lao Tzu, p. 7.
O Tao não pode ser induzido. A Virtude não pode ser alcançada.
Virtude (Tê), aqui a exemplificação do Tao.
A caridade pode ser evocada. O dever para com o próximo pode ser mal dirigido. As cerimónias são meras farsas.
"Portanto, foi dito: 'Se o Tao perecer, então Tê perecerá.'" Se o Tao perecer, a caridade perecerá. Se a caridade perecer, o dever para com o próximo perecerá. Se o dever para com o próximo perecer, as cerimónias perecerão. As cerimónias são apenas um ornamento vistoso do Tao, enquanto são muitas vezes a fonte de problemas.
O excerto acima é do Tao Te Ching, capítulo 38. É interessante notar como o Imperador Amarelo aniquila o tempo citando uma obra escrita muitos séculos depois da sua época.
"Portanto, foi dito: 'Aqueles que praticam o Tao sofrem perdas diárias. Se essa perda persistir até que a inação se instale, então, por essa mesma inação, nada será impossível.'"
Também no Tao Te Ching, capítulo 48.
"Agora, já somos seres. E se desejarmos regressar à nossa condição original, quão difícil será!" É uma mudança de que apenas os maiores entre nós são capazes.
"A vida sucede à morte. A morte é o princípio da vida. Quem sabe quando se chega ao fim? A vida do homem resulta da convergência do fluido vital. A sua convergência é a vida; a sua dispersão, a morte. Se, portanto, a vida e a morte são apenas estados consecutivos, porque me hei-de queixar?
"Portanto, todas as coisas são Uma. O que adoramos é a animação. O que detestamos é a corrupção. Mas a corrupção, por sua vez, torna-se animação, e a animação, mais uma vez, torna-se corrupção.
"Portanto, foi dito: O mundo é permeado por um único fluido vital, e os Sábios, consequentemente, veneram Um."
"Tota formatio procedens ex nomine uno." Liber Jezirah, p. Bi. (Parisiis: G. Postello, 1552.)
Então o Conhecimento disse ao Imperador Amarelo: "Perguntei ao Nada-Faz-Nada-Diz, mas ele não me respondeu. Não que não quisesse; não podia." Perguntei então a Todos-em-extremos. Ele ia dizer-me, mas não disse. Não que não fosse dizer; mas, mesmo na altura em que o ia fazer, esqueceu-se do que queria dizer. Agora pergunto-lhe, e você diz-me. Como é que então está completamente errado?"
"Desses dois", respondeu o Imperador Amarelo, "o primeiro estava genuinamente certo, dado que não sabia. O segundo estava quase certo, dado que se esqueceu." Eu e você estamos completamente enganados, na medida em que sabemos.
O Tao é alcançado não pelo conhecimento, mas pela ausência de conhecimento.
Quando o Todo-em-Extremos ouviu isto, considerou que o Imperador Amarelo tinha falado bem.
"Falado com conhecimento" é a única forma de expressar o que aqui é um jogo de palavras forçado.
O universo é belíssimo, mas nada diz. As quatro estações obedecem a uma lei fixa, mas não são ouvidas. Toda a criação se baseia em princípios absolutos, mas nada se manifesta.
E o verdadeiro Sábio, fundamentando-se na beleza do universo, penetra nos princípios das coisas criadas. Daí o ditado de que o homem perfeito nada faz, o verdadeiro Sábio nada realiza, para além de contemplar o universo.
Na esperança de Alcançando, através da contemplação, uma espontaneidade semelhante.
Pois o intelecto do homem, por mais aguçado que seja, perante as inúmeras evoluções das coisas, o seu nascimento e morte, a sua forma quadrada e redonda, nunca poderá atingir a raiz. Aí está a criação, e aí sempre esteve.
Mas o segredo da vida permanece oculto.
Os seis pontos cardeais, que se estendem até ao infinito, estão sempre contidos no Tao. Uma espiga de Outono, em toda a sua pequenez, transporta em si o Tao. Não há nada na Terra que não surja e desça, mas nunca perece por completo.
Nihilo nil posse reverti.
O Yin e o Yang, e as quatro estações, mantêm a sua ordem própria. Aparentemente destruídos, mas realmente existentes; o material desaparece, o imaterial permanece; tal é a lei da criação, que transcende toda a compreensão. A isto se chama a raiz, de onde se pode vislumbrar Deus.
Deste ponto, sobre o qual o dedo do homem nunca poderá pousar, a sua mente poderá talvez entrever vagamente o funcionamento transcendente daquele Poder que rege toda a criação; — "desvendar aqueles recessos secretos onde a Natureza se senta junto ao fogo nas profundezas do seu laboratório." Swedenborg.
Yeh Ch'üeh perguntou a P'i I sobre o Tao.
Para o primeiro, ver capítulo ii. Do segundo, não há registo.
Este disse: "Mantém o teu corpo sob o controlo adequado, o teu olhar concentrado em Um, — e a paz de Deus descerá sobre ti. Retém o teu conhecimento e concentra os teus pensamentos em Um, — e o espírito santo habitará em ti. A virtude embelezar-te-á, o Tao estabelecer-te-á, sem rumo como um bezerro recém-nascido que não se importa com a forma como veio ao mundo."
Enquanto P'i I ainda falava, Yeh Ch'üeh adormeceu; Ao que o primeiro muito se alegrou e partiu cantando:
"Corpo como osso seco,
Mente como cinzas mortas;
Este é o verdadeiro conhecimento.
Não se esforçar para conhecer a origem.
Na escuridão, na obscuridade.
O desprovido de mente não pode planear;
Que tipo de homem é este?"
Os seus grilhões mortais tinham caído com a sua absorção no Tao.
Shun perguntou a Ch'êng,
O seu tutor.
Dizendo: "Pode-se obter o Tao a ponto de o possuir para si?"
"O seu próprio corpo", respondeu Ch'êng, "não lhe pertence. Como poderia o Tao ser?"
"Se o meu corpo", disse Shun, "não me pertence, de quem é?"
"É a imagem delegada de Deus", respondeu Ch'êng. "A sua vida não lhe pertence. É a harmonia delegada por Deus.
A afinidade do Yin e do Yang faz com que, nas devidas proporções, se combinem e produzam vida.
A sua individualidade não lhe pertence. É a adaptabilidade delegada por Deus.
Proporcionando a infinita variedade de formas com uma infinita variedade de cores.
A sua posteridade não lhe pertence. É a herança delegada por Deus.
Assim como Deus nos envia ao mundo, Ele deseja que 'cresçamos e nos multipliquemos'.
Move-se, mas não sabe como. Está em repouso, mas não sabe porquê. Experimenta, mas não conhece a causa. Estas são as operações das leis de Deus. Como obterá, então, o Tag para o ter para si?"
Cf. "Não sabeis vós que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo?", etc. I Coríntios 6. 19.
Confúcio disse a Lao Tzu: "Hoje tens tempo livre. Por favor, fala-me do Tao perfeito."
"Purifica o teu coração com o jejum e a disciplina", respondeu Lao Tzu. "Lave a sua alma até que fique branca como a neve. Descarte o seu conhecimento. O Tao é abstruso e difícil de discutir. Tentarei, no entanto, falar-lhe dos seus princípios básicos.
"A luz nasce das trevas. A classificação nasce da ausência de forma. A alma nasce do Tao. O corpo nasce da essência vital.
A existência surge da não existência."
Assim, todas as coisas se reproduzem segundo a sua espécie. Criaturas com nove canais de comunicação nascem do útero. Criaturas com oito nascem do ovo.
A natureza é sempre auto-semelhante.
Da sua chegada não há qualquer vestígio. Na sua partida não há destino. Sem portão de entrada, sem morada, passam por aqui e por ali, como se estivessem numa encruzilhada.
Aqueles que aqui entram tornam-se fortes fisicamente, subtis no pensamento e lúcidos na visão e na audição. Não sofrem fadiga mental, nem encontram resistência física.
O Céu não pode deixar de ser alto. A Terra não pode deixar de ser vasta. O Sol e a Lua não podem deixar de girar. Toda a criação não pode deixar de florescer. Fazê-lo é o seu Tao.
Mas não é através de estudos extensivos que isso pode ser conhecido, nem pela habilidade dialética que isso pode ser esclarecido. O verdadeiro Sábio não aceita nada disto. É na adição sem ganho, na diminuição sem perda, que o verdadeiro Sábio encontra a salvação.
"Insondável como o mar, que termina maravilhosamente apenas para recomeçar, permeando toda a criação sem se esgotar, o Tao do homem perfeito é espontâneo na sua operação. Que toda a criação possa ser permeada por ele sem se esgotar, é o seu Tao.
O Tao do Tao.
No Império do Meio, há homens que não reconhecem nem o positivo nem o negativo. Habitam entre o céu e a terra. Desempenham o seu papel de mortais e, depois, regressam à Causa.
Nessa perspectiva,
Da Causa, isto é, Deus, que é proporcional ao infinito.
A vida não é mais do que uma concentração do fluido vital, cujos termos de existência mais longos e mais curtos variam por um espaço imperceptível — insuficiente para a classificação de Yao e Chieh.
Como bom e mau. Ver o capítulo IV.
"Os frutos das árvores e das plantas exibem ordem nas suas variedades; e as relações do homem, embora mais difíceis de lidar, podem ainda ser reduzidas à ordem.
Estes foram classificados da seguinte forma:
1.º Soberano e Súbdito.
2.º Marido „ Esposa.
3.º Pai „ Filho.
4.º Irmão Mais Velho „ Irmão Mais Novo.
5.º Amigo „ Amigo.
O verdadeiro Sábio que se depara com estas relações não as viola. Nem se agarra a elas.
Adapta-se às exigências do seu ambiente.
A adaptação por arranjo é Tê. A adaptação espontânea é Tao, pela qual os soberanos prosperam e os príncipes triunfam.
"O homem atravessa esta vida sublunar como um cavalo branco atravessa uma fenda. Aqui num instante, ausente no seguinte. E não há ninguém que não esteja igualmente sujeito à entrada e saída da mortalidade. Uma modificação traz a vida; outra, e é a morte. Os seres vivos clamam; os seres humanos sofrem." A bainha do arco é retirada; o saco de roupa é deixado cair; e na confusão, a alma levanta voo, e o corpo segue-a, na grande viagem para casa!
"A realidade do informe, a irrealidade daquilo que tem forma — isso é conhecido por todos. Aqueles que estão no caminho da iluminação não se importam com essas coisas, mas as pessoas em geral as discutem. Iluminação implica ausência de discussão: discussão implica ausência de iluminação. Manifestado, o Tao não tem valor objetivo; portanto, o silêncio é melhor que a discussão. Não pode ser traduzido em palavras; melhor então não dizer nada. Isso chama-se grande iluminação."
Tung Kuo Tzŭ perguntou a Chuang Tzŭ: "A que é que chamas Tao — onde está?"
"Não há lugar nenhum", respondeu Chuang Tzŭ, "onde ele não esteja."
"Diz-me ao menos um lugar onde ele esteja", disse Tung Kuo Tzŭ.
"Está na formiga", respondeu Chuang Tzŭ. — Porquê tão baixo? — perguntou Tung Kuo Tzŭ.
— Está num monte de areia — disse Chuang Tzŭ.
— Mais baixo ainda — objectou Tung Kuo Tzŭ.
— Está num caco de cerâmica — disse Chuang Tzŭ.
— Pior ainda! — exclamou Tung Kuo Tzŭ.
— Está em excrementos — disse Chuang Tzŭ. E Tung Kuo Tzŭ não respondeu.
"Senhor", continuou Chuang Tzŭ, "a sua pergunta não toca no essencial. Quando Huo, inspetor de mercados, perguntou ao diretor-geral sobre a gordura dos porcos, o teste era sempre feito nas partes menos propensas a serem gordas. Por isso, não insista em nenhuma direção específica; pois nada escapa. Tal é o Tao perfeito; e tal é também o discurso ideal. Inteiro, inteiro, tudo, são três palavras que soam diferentes, mas significam a mesma coisa. O seu propósito é Um.
"Tenta alcançar comigo o palácio do Nada, e aí, no meio da identidade de todas as coisas, leva as tuas discussões ao infinito. Tenta praticar comigo a inação, onde podes repousar imóvel, sem preocupações, e ser feliz. Pois assim a minha mente torna-se uma abstração. Não vagueia, e ainda assim não tem consciência de estar em repouso. Vai e vem e não tem consciência das paragens. Para trás e para a frente sem ter consciência de qualquer objetivo. Para cima e para baixo nos reinos do Infinito, onde maior intelecto não conseguiria encontrar um fim.
" "Aquilo que faz com que as coisas sejam o que são, não se limita a tais coisas. Os limites das coisas são os seus próprios limites, na medida em que são coisas. Os limites do ilimitado, a ilimitabilidade do limitado — a estes se chama plenitude e vacuidade, renovação e decadência. O Tao causa plenitude e vacuidade, mas não é nenhuma das duas. Causa renovação e decadência, mas não é nenhuma das duas. Causa início e fim, mas não é nenhum dos dois. Causa acumulação e dispersão, mas não é nenhuma das duas."
O Ho Kan estudava com Shên Nung sob a tutela de Lao Lung Chi.
Não há registo do primeiro e do último. Shên Nung foi um imperador lendário que inventou a agricultura. Veja p. 196.
Shên Nung costumava permanecer recolhido, com a cabeça sobre a mesa, absorto em devaneios. Numa ocasião, O Ho Kan bateu à porta e, entrando, disse: "Lao Lung morreu!".
Nesse instante, Shên Nung, apoiando-se no seu cajado, levantou-se; E, atirando o seu bastão para o chão com estrondo, sorriu e disse: "Ó meu Mestre, tu sabias que eu era inútil e auto-suficiente, e abandonaste-me e morreste. Agora eu, não tendo mais espaço para as minhas vãs conversas, também morrerei."
Quando Yen Kang Tiao
"Um homem do Tao."
ouviu isto, disse: "Aqueles que exemplificam o Tao são procurados por todos os melhores homens do império. Ora, se alguém que não alcançou mais do Tao do que a décima milésima parte da ponta de uma espiga de outono, ainda é sábio o suficiente para se abster de vãs conversas e morrer, quanto mais aqueles que exemplificam o Tao? Aos olhos, é informe, e aos ouvidos, silencioso. Aqueles que o discutem, falam dele como 'o obscuro'. Mas o mero facto de discutir o Tao o torna não-Tão."
Dito isto, o Empíreo perguntou ao Sem Fim: "Conheces o Tao?"
"Não", respondeu. Sem Fim; então o Empíreo perguntou à Inação.
"Conheço o Tao", disse a Inação.
"Existe algum método", perguntou o Empíreo, "pelo qual conheça o Tao?"
"Existe", respondeu a Inação.
"Qual é?" perguntou o Empíreo.
"Eu sei", respondeu a Inação, "que o Tao pode honrar e desonrar, ligar e desligar. Esse é o método pelo qual conheço o Tao."
O Empíreo repetiu estas palavras ao Sem-Princípio e perguntou-lhe qual tinha razão: a ignorância do Sem-Fim ou o conhecimento da Inacção.
"Não saber", respondeu o Sem-Princípio, "é profundo. Saber é superficial. Não saber é interno. Saber é externo."
Nesse momento, o Empíreo interrompeu com um suspiro: "Então a ignorância é conhecimento, e o conhecimento é ignorância! Mas, por favor, de quem é o conhecimento de não saber?"
"O Tao", disse o Sem-Princípio, "não pode ser ouvido. Ouvido, não é Tao. Não pode ser visto. Visto, não é Tao. Não pode ser falado. Falado, não é Tao. Aquilo que dá forma às formas é, em si mesmo, informe; portanto, o Tao não pode ter um nome."
A forma precede o nome.
O Sem-Princípio continuou: "Aquele que responde a quem pergunta sobre o Tao, não conhece o Tao. Embora se possa ouvir falar do Tao, não se ouve realmente sobre o Tao. Não existe perguntar sobre o Tao. Não existe responder a tais perguntas. Fazer uma pergunta que não pode ser feita é vão. Responder a uma pergunta que não pode ser respondida é irreal. E aquele que assim encontra o vão com o irreal é aquele que não tem percepção física do universo, nem percepção mental da origem da existência — inadequado tanto para percorrer o pico de K'un-lun como para ascender ao Vazio Supremo."
Luz perguntou ao Nada, dizendo: "Existe, senhor, ou não existe?"
Mas, sem obter resposta à sua pergunta, Luz pôs-se a observar o aparecimento do Nada.
Oculto, vazio — todo o dia olhou, mas não o conseguiu ver; escutou, mas não o conseguiu ouvir; tentou alcançá-lo, mas não conseguiu agarrá-lo.
Ver Os Restos Mortais de Lao Tzu, p. 31.
"Bravo!" exclamou Luz. "Quem pode igualar isto? Eu posso chegar a ser o nada.
Escuridão.
Mas não consigo chegar à ausência do nada. Supondo que o Nada tem uma existência objetiva, como pode alcançar este estágio seguinte?"
O homem que forjava espadas para o Ministro da Guerra tinha oitenta anos. Mesmo assim, nunca cometeu o mínimo deslize no seu trabalho.
O Ministro da Guerra disse-lhe: "É a sua habilidade, senhor, ou tem algum método?"
Algum Tao? — no seu sentido original de modo de fazer as coisas.
"É concentração", respondeu o homem. "Aos vinte anos, dediquei-me a forjar espadas. Não me importava com mais nada. Se algo não fosse uma espada, eu não o notava. Aproveitava toda a energia que não utilizava noutras áreas para garantir maior eficiência na área necessária. E ainda mais daquilo que nunca é inútil:
Tão.
De modo que nada deixava de me auxiliar."
Jen Ch'iu perguntou a Confúcio: "Podemos saber sobre o tempo anterior à existência do universo?"
"Podemos", respondeu Confúcio. "O tempo era antigamente exatamente como é agora".
Perante esta resposta, Jen Ch'iu retirou-se. No dia seguinte, visitou novamente Confúcio e disse-lhe: "Ontem, quando lhe fiz esta pergunta e me respondeu, estava bastante esclarecido. Hoje estou confuso. Como é possível?".
"A sua clareza de ontem", respondeu Confúcio, "deve ter sido porque a minha resposta apelava directamente à sua inteligência natural." A sua confusão sobre o presente resulta da intrusão de algo para além da inteligência natural.
Passou da "simples apreensão" para o "julgamento".
Não há passado, nem presente, nem princípio, nem fim.
Hoje será o ontem de amanhã.
Ter posteridade antes de ter posteridade — será isso possível?
Jen Ch'iu não respondeu, e Confúcio prosseguiu: "Basta. Não respondas. Se a vida não desse origem à morte, e se a morte não pusesse fim à vida, certamente vida e morte não seriam mais correlatas, mas existiriam independentemente. O que existia antes do universo era o Tao. O Tao cria as coisas como elas são, mas não é uma coisa em si. Nada pode produzir o Tao; contudo, tudo contém o Tao em si e continua a produzi-lo incessantemente.
Na sua descendência.
E o amor infinito do Sábio pelo seu semelhante assenta no mesmo princípio."
Yen Yuan perguntou a Confúcio: "Mestre, ouvi o senhor declarar que não deve haver qualquer desejo de se conformar, nenhum esforço para se adaptar. Se assim é, como nos devemos entender?"
Atingir aquela condição que só é conseguida pela adaptação ao meio.
"Os homens de outrora", respondeu Confúcio, "praticavam a modificação física, mas não a moral.
Adaptavam-se às exigências da matéria, enquanto os seus corações permaneciam os mesmos.
Os homens de hoje praticam a modificação moral, e não a física.
Permitem que os seus corações sejam influenciados, enquanto resistem às exigências externas.
Que a sua modificação se estenda apenas ao externo. Internamente, seja constante, sem modificação.
"Como se deve modificar e como não se deve modificar?" Modificar? Como conciliar a divergência? — Não admitindo a divisão.
Ou seja, "sendo constante sem modificação", diz Lin Hsi Chung.
"Havia o jardim de Hsi Wei, o parque do Imperador Amarelo, o palácio de Shun, os salões de T'ang e Wu.
A alusão parece ser a escolas de aprendizagem, como o Bosque de Academus. Ver capítulos VI e XII.
Eram homens perfeitos; mas se tivessem sido ensinados por confucionistas e mihistas, ter-se-iam destruído mutuamente por causa de picuínhas escolásticas. Quanto mais os homens de hoje?
"O sábio perfeito, nas suas relações com o mundo externo, não prejudica nada. Nem nada o prejudica. E só aquele que é assim isento pode ser considerado capaz de se conformar e adaptar."
"O sábio perfeito, nas suas relações com o mundo externo, não causa dano a nada. Nem nada o prejudica. E só aquele que é assim isento pode ser considerado capaz de se conformar e adaptar." "Florestas nas montanhas e campos férteis enchem o meu coração de alegria. Mas antes que a alegria passe, a tristeza volta a atingir-me.
A familiaridade destrói o encanto.
A alegria e a tristeza vêm e vão, e sobre elas não tenho qualquer controlo.
«Ai de mim! A vida do homem é como uma paragem numa estalagem. Ele conhece o que está ao alcance da sua experiência. De resto, não conhece. Sabe que pode fazer o que pode fazer e que não pode fazer o que não pode fazer. Mas há sempre algo que não sabe e algo que não pode fazer; e lutar para que não seja assim — não é isso motivo de tristeza?
"A melhor linguagem é aquela que não é falada, a melhor forma de ação é aquela que não se manifesta em atos.
Depois, a conformidade e a adaptação não são necessárias.
Espalhe o seu conhecimento e verá que é superficial."
De forma alguma abrangerá a área do cognoscível. "Leia este capítulo", diz um crítico, "e o Tripitaka e o Mahâyâna revelar-se-ão diante de si como sob uma lâmina afiada."
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 23. Retorno à natureza
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2026-06-29T17:23:10Z
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CAPÍTULO XXIII.
Kêng Sang Ch’u.
Argumento:—O funcionamento do Tao não é visível—As esferas de acção variam—O Tao permanece o mesmo—A espontaneidade é essencial—O Tao pode ser dividido, mas permanece inteiro—É infinito como o Tempo e o Espaço—É incondicionado—O exterior e o interior—Ilustrações.
Entre os discípulos de Lao Tzu, encontrava-se um chamado Kêng Sang Ch’u. Só ele tinha alcançado o Tao do seu Mestre. Vivia no norte, nas montanhas Wei-lei. Dos seus assistentes, dispensava aqueles que eram sistematicamente inteligentes ou convencionalmente caridosos. Os inúteis permaneciam com ele; os incompetentes serviam-no. E em três anos, o distrito de Wei-lei foi grandemente beneficiado.
Um dos habitantes disse em conversa: "Quando o Sr. Kêng Sang chegou entre nós, não sabíamos o que pensar dele. Ora, não conseguiríamos falar o suficiente sobre ele num dia, e mesmo num ano ainda restaria algo por dizer. Certamente que ele deve ser um verdadeiro Sábio. Porque não rezar-lhe como aos espíritos e honrá-lo como um deus tutelar da terra?"
Ao ouvir isto, Kêng Sang Ch'u voltou o rosto para sul
Em direção à morada de Lao Tzu.
envergonhado, o que deixou os seus discípulos atónitos. Mas Kêng Sang disse: "Porque estão atónitos? A influência da primavera acelera a vida das plantas, e o outono leva-as à maturidade. Na ausência de qualquer agente, como é isto possível? É a operação do Tao.
"Ouvi dizer que o homem perfeito pode ser confinado como um cadáver num túmulo, e, no entanto, as pessoas tornar-se-ão desprovidas de artifícios e preocupações."
Tão poderosa será a sua influência.
Mas agora este pobre povo de Wei-lei deseja exaltar-me entre os seus sábios e bons. Certamente, então, não passo de um vaso raso; e por isso fui envergonhado pela doutrina de Lao Tzu."
Os discípulos disseram: "Não é assim. Numa vala de cinco metros, um peixe grande não tem espaço para se virar; mas é o lugar perfeito para uma enguia. Num pequeno monte de dois ou dois metros, uma grande fera não encontra abrigo, enquanto a raposa astuta ali encontra refúgio. Além disso, desde os tempos de Yao e Shun, sempre foi costume honrar os virtuosos, promover os capazes, dar precedência aos bons e úteis. Por que não, então, entre o povo de Wei-lei? Deixe-os fazer isso, Senhor."
"Vinde cá, meus filhos", disse Kêng Sang Ch'u. "Uma fera suficientemente grande para engolir uma carroça, se vaguear sozinha pelas colinas, não escapará à dor da armadilha." Um peixe suficientemente grande para engolir um barco, se encalhado na praia seca, tornar-se-á presa de formigas. Por isso, as aves e os animais adoram a altura, e os peixes e as tartarugas adoram a profundidade. E o homem que se preocupa consigo próprio esconde o seu corpo. Ele ama o oculto.
Há aqui um jogo de palavras.
"Quanto a Yao e Shun, que direito têm eles de serem louvados? As suas subtis distinções resumiam-se a abrir um buraco na parede para o tapar com sarças;
Teriam sido melhor se tivesse deixado a parede em paz.
A pentear cada fio de cabelo individualmente; a contar os grãos para um pudim de arroz! Como é que, em nome da bondade, beneficiaram a sua geração?
"Se os virtuosos forem honrados, a emulação virá. Se o conhecimento for fomentado, o resultado será o roubo.
As pessoas usarão o seu conhecimento umas contra as outras.
Estas coisas não servem para tornar as pessoas boas. A luta pela riqueza é tão severa. Os filhos assassinam os seus pais; Ministros e seus príncipes; os homens roubam em plena luz do dia e perfuram paredes ao meio-dia. Digo-vos que a raiz deste grande mal vem de Yao e Shun, e que os seus ramos se estenderão por mil eras. Daqui a mil eras, o homem alimentar-se-á do homem!"
Nan Yung Ch'u
Um discípulo.
Endireitando-se tristemente, disse: "Mas o que deve alguém da minha idade fazer para o conseguir?".
"Conserve a sua forma completa", disse Kêng Sang, "a sua vitalidade segura. Não deixe que os pensamentos ansiosos o perturbem. E depois, em três anos, poderá alcançá-lo."
"Não sei", disse Nan Yung, "se há alguma diferença na forma dos olhos; contudo, cegos não podem ver. Não sei se há alguma diferença na forma das orelhas; contudo, surdos não podem ouvir. Não sei se há alguma diferença na forma dos corações;
A sede do intelecto.
Contudo, tolos não podem usá-los para nenhum propósito." As formas são semelhantes; contudo, há algo que as diferencia. Uma terá sucesso, e a outra não. No entanto, dizes-me para preservar a minha forma completa, a minha vitalidade segura e não deixar que pensamentos ansiosos me perturbem. Mas até agora, só ouço o Tao com os meus ouvidos."
"Muito bem dito!" exclamou Kêng Sang; e depois acrescentou: "As pequenas vespas não conseguem transformar lagartas enormes.
Segundo as noções chinesas, a vespa não tem crias. Ela transforma uma pequena lagarta na descendência necessária.
As galinhas anãs não conseguem chocar os ovos dos gansos. As galinhas da Lu podem. Não que haja alguma diferença no poder de incubação das galinhas. Uma pode e a outra não, porque uma está naturalmente apta para trabalhar em grande escala, a outra em pequena. Os meus talentos são desta última ordem. Não posso transformá-lo. Porque não vai para sul e vê Lao Tzu?"
So Nan Yung Levou alguns mantimentos e, após sete dias de viagem, chegou à morada de Lao Tzu.
"Vieste de Kêng Sang Ch'u?" perguntou Lao Tzu.
"Vim", respondeu Nan Yung.
"Mas por que razão", disse Lao Tzu, "trouxe todas estas pessoas consigo?"
Referindo-se às perguntas que faria.
Nan Yung olhou para trás, alarmado, e Lao Tzu continuou: "Não percebes o que estou a dizer?"
Nan Yung baixou a cabeça, envergonhado, e depois, olhando para cima, disse com um suspiro: "Esqueci-me de como responder, por não ter tido tempo para perguntar o que queria."
Estava muito confuso com a pergunta de Lao Tzu, feita ainda antes de ele ter explicado a sua missão.
"O que quer dizer?" perguntou Lao Tzu.
"Se não sei", respondeu Nan Yung, "os homens chamam-me tolo. Se sei, prejudico-me a mim próprio. Se não sou caridoso, prejudico os outros. Se o sou, prejudico-me a mim próprio. Se não cumpro o meu dever para com o meu próximo, prejudico os outros. Se o cumpro, prejudico-me a mim próprio. O meu problema reside em não ver como escapar a estes três dilemas. Graças à minha ligação com Kêng Sang, atrevo-me pedir conselhos."
"Quando te vi", disse Lao Tzŭ, "soube num piscar de olhos o que havia de errado contigo. E agora o que dizes confirma a minha opinião. Estás confuso, como uma criança que perdeu os pais. Tentas desvendar o mar com uma vara. Estás perdido. Lutas para voltar ao teu estado natural, mas não consegues encontrar o caminho. Ai de mim! Ai de mim!"
Nan Yung implorou para que lhe fosse permitido ficar e pôs-se a trabalhar para cultivar o bem e eliminar o mal dentro de si. Ao fim de dez dias, com tristeza no coração, procurou novamente Lao Tzu.
"Purificaste-te completamente?", perguntou Lao Tzu. "Mas este olhar aflito... Ainda há algum mal que o obstrua."
"Se as perturbações forem externas,
é, sensuais.
Não as combata constantemente, mas feche os canais da mente. Se as perturbações forem internas, não se esforce por se opor a elas, mas feche toda a entrada externa.
E a mente recuperará.
Se as perturbações forem tanto internas como externas, então não conseguirá sequer agarrar-se ao Tao, quanto mais praticá-lo."
"Se um camponês está doente", disse Nan Yung, "e outro camponês vai vê-lo; e se o doente consegue dizer o que o aflige, então não está gravemente doente." No entanto, a minha busca pelo Tao é como engolir medicamentos que só agravam o mal.
Embora, na verdade, não esteja assim tão longe do Tao (isto é, da saúde), como demonstra a minha capacidade de descrever o meu problema, algo que um homem doente com alguma doença grave dificilmente consegue fazer.
Por isso, peço apenas a arte de preservar a vida.
"A arte de preservar a vida", respondeu Lao Tzu, "consiste em ser capaz de manter tudo num só,
é, corpo e alma. Veja-se o Tao Te Ching, capítulo X, onde esta ideia foi reproduzida.
Não perder nada, avaliar o bem e o mal sem adivinhação,
Saber que cada um está ligado ao outro.
Saber quando parar e quanto é suficiente, deixar os outros em paz e cuidar de si próprio, estar livre de preocupações e de conhecimento — ser, de facto, como uma criança. Uma criança chora todo o dia e não fica rouca, devido à perfeição da sua harmonia constitucional.
Também reproduzido no Tao Te Ching, cap. lv.
"Manterá o punho fechado durante todo o dia e não o abrirá, devido à concentração da sua virtude. Olhará fixamente durante todo o dia sem desviar o olhar, pois a sua visão não é atraída pelas coisas exteriores. Em movimento, não sabe para onde vai; em repouso, não tem consciência de estar a fazer nada; mas adapta-se inconscientemente às exigências do meio. Esta é a arte de preservar a vida."
"Então, é esta a virtude do homem perfeito?", exclamou Nan Yung.
"Não", disse Lao Tzu. "Estou, por assim dizer, apenas a quebrar o gelo.
"O homem perfeito partilha o alimento desta terra, mas a felicidade de Deus. Não incorre em problemas causados pelos homens ou pelas coisas. Não participa em censuras, conspirações ou bajulações. Livre de preocupações ele vem e inconsciente ele vai; esta é a arte de preservar a vida."
"Então, esta é a perfeição?", indagou Nan Yung. "Ainda não", disse Lao Tzu. "Perguntei-lhe especificamente se podia ser como uma criança. Uma criança age sem saber o que faz; move-se sem saber para onde. O seu corpo é como um ramo seco; o seu coração, como cinzas mortas. Assim, a boa e a má fortuna não encontram abrigo nela; e onde não há boa e má fortuna, como podem existir os problemas da mortalidade?
"Aqueles cujos corações estão em repouso emanam um brilho divino, pela luz do qual se vêem como realmente são. E só cultivando tal repouso é que o homem pode alcançar a constância.
"Os que são constantes são procurados pelos homens e auxiliados por Deus. Os que são procurados pelos homens são o povo de Deus; os que são auxiliados por Deus são os seus filhos escolhidos.
A essência de que os governantes são feitos.
"Estudar isto é estudar o que não pode ser aprendido. Praticar isto é praticar o que não pode ser realizado. Discutir isto é discutir o que nunca poderá ser provado. Que o conhecimento..." Pare no incognoscível. Isso é a perfeição. E para aqueles que não seguirem isto, Deus irá destruí-los!
"O conhecimento", diz Emerson no seu Montaigne, ou o Céptico, "é o saber que não podemos conhecer."
"Com tais defesas para o corpo, sempre preparado para o inesperado, respeitador dos direitos dos outros, — se então calamidades o atingirem, estas vêm de Deus, não do homem. Que elas não perturbem o que já conquistou. Que elas não penetrem na morada da alma. Pois aí reside a Vontade. E se a vontade não sabe o que querer, não poderá querer.
A incapacidade de exercer as funções da vontade é o Tao.
"Tudo o que não é dito com toda a sinceridade é dito erradamente. E não ser capaz de se livrar deste vício é apenas afundar-se mais na perdição."
"O que não for dito com toda a sinceridade, é dito erradamente. E não ser capaz de se livrar deste vício é apenas afundar-se mais na perdição." "Aqueles que praticam o mal à luz do dia, serão castigados pelos homens. Aqueles que praticam o mal em segredo, serão castigados por Deus. Quem teme tanto os homens como a Deus, é digno de caminhar sozinho.
O termo aqui utilizado para "Deus" refere-se estritamente aos "espíritos" que são os emissários vingadores da Divindade.
Aqueles que se dedicam ao interior,
ao autoaperfeiçoamento,
na prática não adquirem reputação. Aqueles que se dedicam ao exterior, procuram a preeminência entre os seus semelhantes. A prática sem reputação lança uma aura de superioridade sobre os mais humildes. Mas aquele que procura a preeminência entre os seus semelhantes é como um vendedor ambulante cuja fadiga todos percebem, embora ele próprio ostente uma aparência de alegria.
Aquele que tem simpatia natural pelo homem, a ele todos vêm. Mas aquele que se adapta à força, não tem espaço nem para si, muito menos para os outros. E aquele que não tem espaço para os outros, não tem laços. Para ele, tudo acaba."
"Não há arma tão mortífera como a vontade do homem. O Excalibur vem em segundo lugar. Não há bandido tão poderoso como a Natureza.
A interação dos princípios Positivo e Negativo produz o universo visível.
Em todo o universo, não há escapatória. Contudo, não é a Natureza que causa o dano. É o próprio coração do homem.
"O Tao informa as suas próprias subdivisões, os seus sucessos e os seus fracassos. O que se teme na subdivisão é a separação.
Da raiz do Tao.
O que se teme na separação é uma separação ainda maior.
De modo a que toda a ligação seja quebrada.
Assim, emanar sem retorno é o desenvolvimento do sobrenatural. Emanar e atingir a meta é a morte. Ser aniquilado e ainda assim existir é a convergência do sobrenatural em Uno. Fazer com que as coisas que têm forma pareçam, para todos os efeitos, informes — esta é a soma de todas as coisas.
O triunfo final do homem sobre a matéria.
" "O nascimento não é um começo; a morte não é um fim. Há existência sem limitações; há continuidade sem ponto de partida. A existência sem limitações é o Espaço. A continuidade sem ponto de partida é o Tempo. Há nascimento, há morte, há o surgir, há o entrar. Aquilo por onde se passa sem ver a sua forma, esse é o Portal de Deus.
O Portal de Deus é a Não-Existência. Todas as coisas surgiram da Não-Existência. A existência não podia fazer com que a existência se tornasse existência. Ela deve ter procededo da Não-Existência.
A ideia de existência, independentemente do seu correlato, não pode ser apreendida pelo intelecto humano.
E a Não-Existência e o Nada são Um.
Se todas as coisas surgiram da não-existência, poder-se-ia argumentar que a não-existência tinha uma existência objetiva. Mas a não-existência é nada, e o nada exclui a ideia de algo, tornando o nada subjetivo e o nada objetivo Uno.
Aqui reside a morada do Sábio." Aí, onde a questão da mortalidade partilha a fragilidade do informe.
"O conhecimento dos antigos atingiu o ponto mais alto — o tempo anterior a qualquer existência. Este é o ponto mais alto. É exaustivo. Não há como lhe acrescentar nada.
"O segundo melhor era o dos que tinham partido da existência. A vida era para eles uma desgraça. A morte era um regresso a casa. Já havia separação.
"O seguinte na escala dizia que no princípio não havia nada. Depois veio a vida, seguida rapidamente pela morte. Fizeram do Nada a cabeça, da Vida o tronco e da Morte a cauda da existência, reivindicando como amigos aqueles que sabiam que existência e não existência, vida e morte eram todas Uma.
"Estas três classes, embora diferentes, eram do mesmo clã; assim como Chao Ching, que herdou a fama, e Chia, que herdou o território.
O facto da herança era o mesmo, mas não a coisa herdada — por estes homens de Ch'u.
Existem várias interpretações para esta passagem. Não há dois comentadores que concordem.
" "A vida do homem é como a fuligem numa chaleira.
Ou seja, fumo concentrado.
No entanto, os homens falam do ponto de vista subjetivo. Mas este ponto de vista subjetivo não resistirá ao teste. É um nível de conhecimento que não podemos alcançar.
Os padrões individuais são falaciosos. O que é subjetivo de um ponto de vista é objetivo de outro.
"No sacrifício de Inverno, o bucho pode ser separado do grande dedo do pé; contudo, estes não podem ser separados.
Cada um transporta consigo as características do todo.
Aquele que observa uma casa, visita o salão ancestral e até as latrinas. Assim, cada ponto é o ponto de vista subjetivo.
Ou então não viu a casa, mas apenas uma parte. Onde está, então, o ponto de vista subjetivo da casa e, por analogia, do homem?
"Procuremos formular este ponto de vista subjetivo. Ele tem origem na vida e, tendo o conhecimento como seu tutor, deriva para a admissão do certo e do errado.
Em abstrato.
Mas o padrão de certo de cada um é o padrão, e os outros têm de se adaptar a ele. Os homens morrerão por isso. Estas pessoas consideram o útil como pertencente à sabedoria, o inútil como pertencente à insensatez; o sucesso na vida como honroso, o fracasso como desonroso.
Sem conhecer o valor do inútil, ou perceber que o que é assim num momento pode não o ser noutro.
O ponto de vista subjetivo é o da geração atual, que, tal como a cigarra e a pomba jovem, vê as coisas apenas do seu próprio ponto de vista.
Veja o capítulo i.
"Se um homem pisa o pé a um estranho na praça do mercado, desculpa-se por estar com pressa. Se um irmão mais velho o faz, desculpa-se com uma exclamação de simpatia." E se um pai assim agir, nada mais será feito.
A criança ser parte de si mesma.
"Portanto, já se disse: 'A polidez perfeita não é artificial;
Kuo Xiang diz que isso significa tratar os outros como a si próprio. Lin Xi Chung adopta a visão "natural" ou "espontânea", que é aqui adoptada.
O dever perfeito para com o próximo não é uma questão de cálculo; a sabedoria perfeita não requer pensamento; a caridade perfeita não reconhece laços; a confiança perfeita não exige promessas.'
"Descarte os estímulos do propósito. Liberte a mente das perturbações. Livre-se dos emaranhados da virtude. Elimine as obstruções ao Tao.
"Honras, riqueza, distinção, poder, fama, ganho — estes seis estimulam o propósito.
"Aparência, porte, beleza, argumentos, influência, opiniões — estes seis perturbam a mente.
Referindo-se, claro, à aparência, à carnificina, etc., dos outros.
" "Ódio, ambição, alegria, raiva, tristeza, prazer — estes seis estão enredados na virtude.
Rejeitar, adotar, receber, dar, conhecimento, habilidade — estes seis são obstruções ao Tao.
A chave para isso é a inação.
Se estes vinte e quatro não forem autorizados a descontrolar-se, então a mente será devidamente ordenada. E estando devidamente ordenada, estará em repouso. E estando em repouso, estará livre de percepção. E estando livre de percepção, estará incondicionada. E estando incondicionada, estará naquele estado de inação pelo qual nada é impossível de ser realizado.
Tao é o senhor soberano de Tê.
Tê é a "virtude" da espontaneidade.
A vida é a glorificadora de Tê.
Através da qual ele pode ser manifestado.
A natureza é a substância da vida.
O código de que a vida é a encarnação.
A operação desta natureza é a ação." A perversão desta ação é erro.
"As pessoas que sabem empregam a força física. As pessoas que sabem empregam o esforço mental. Mas o que as pessoas que sabem não sabem é ser como o olho.
Que vê sem olhar.
"A emoção espontânea é chamada virtude passiva. A emoção que não é provocada por fatores externos é chamada virtude ativa. Os nomes são antagónicos; mas, essencialmente, estão em harmonia.
Toda a "virtude" deve proceder do verdadeiro eu, isto é, de Deus.
" "Yi era hábil a acertar no alvo, mas estúpido a impedir que as pessoas o elogiassem por isso.
Veja o capítulo V.
O Sábio dedica-se ao natural e negligencia o artificial. Pois só o Homem Perfeito pode dedicar-se proveitosamente tanto ao natural como ao artificial. Os insetos influenciam os insetos;
para que os outros se tornem como eles.
porque os insetos são naturais. Quando o Homem Perfeito odeia o natural, é o artificialmente natural que odeia. Quanto mais a alternância entre a naturalidade e a artificialidade do homem?
"Se um pássaro cai nas mãos de Yi, Yi captura-o. Tal é a sua capacidade. E se o mundo fosse transformado numa gaiola, os pássaros não teriam para onde escapar. Assim foi que, pela culinária, Tang capturou I Yin, e com cinco peles de carneiro, o Duque Mu de Qing capturou Po Li Qing. Mas se estes príncipes não tivessem sido bem sucedidos na captura, nunca teriam capturado estes homens.
Ambas as histórias são apócrifas." I Yin foi o bem sucedido e famoso ministro do fundador da dinastia Shang. Para Poh Li Ch'i, ver p. 270.
"Um homem de uma perna só dispensa adornos, pois a sua aparência não é digna de elogios. Os criminosos condenados ascendem a grandes alturas sem medo, pois já não encaram a vida e a morte da mesma perspectiva. E aqueles que não se preocupam com as suas vestes morais
Virtudes artificiais.
e condição tornam-se alheios à sua própria personalidade; e, ao tornarem-se alheios à sua personalidade, tornam-se povo de Deus.
"Portanto, se os homens os reverenciam, não se alegram. Se os homens os insultam, não se irritam. Mas só aqueles que alcançaram a eterna harmonia de Deus são capazes disso.
"Se a sua raiva for externa, e não interna, será uma raiva que procede da ausência de raiva. Se as suas ações forem externas, e não internas, serão ações que procedem da inação."
"Se deseja alcançar a paz, suavize a sua natureza emocional. Se almeja a espiritualidade, cultive a adaptação da inteligência. Se deseja que as suas ações estejam de acordo com o que é certo, permita-se seguir os ditames da necessidade. Pois a necessidade é o Tao do Sábio."
Não faça nada além do que não pode deixar de fazer.
A autoria deste capítulo tem sido contestada. Lin Hsi Chung considera a questão de forma alguma resolvida.
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 24. Simplicidade
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[[Ajuda:SEA|←]] nova página: CAPÍTULO XXIV. Hsü Wu Kuei. Argumento:—O Tao é desprovido de paixão—Imoralidade da moral—Obstáculos à virtude natural—Os males da acção—Zelo excessivo—O exterior e visível—O interior e espiritual—Ilustrações. HSÜ WU KUEI, apresentado por Nü Shang, foi visitar Wu Hou de Wei. Um eremita, um ministro e um príncipe, respetivamente. O príncipe cumprimentou-o com simpatia e disse: "O senhor está a sofrer. Deve ter suportado gran...
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CAPÍTULO XXIV.
Hsü Wu Kuei.
Argumento:—O Tao é desprovido de paixão—Imoralidade da moral—Obstáculos à virtude natural—Os males da acção—Zelo excessivo—O exterior e visível—O interior e espiritual—Ilustrações.
HSÜ WU KUEI, apresentado por Nü Shang, foi visitar Wu Hou de Wei.
Um eremita, um ministro e um príncipe, respetivamente.
O príncipe cumprimentou-o com simpatia e disse: "O senhor está a sofrer. Deve ter suportado grandes dificuldades na sua vida nas montanhas para estar disposto a deixá-la e a visitar-me."
"Sou eu que devo ter compaixão de Vossa Alteza, e não Vossa Alteza de mim", respondeu Hsü Wu Kuei. "Se Vossa Alteza der livre curso às paixões e ceder ao amor e ao ódio, as condições naturais da sua existência sofrerão.
Internamente.
E se Vossa Alteza puser de lado as paixões e renunciar ao amor e ao ódio, os seus sentidos da visão e da audição sofrerão.
Externamente.
Sou eu que devo ter compaixão de Vossa Alteza, e não Vossa Alteza de mim."
O Príncipe ficou tão surpreendido que não conseguiu responder; e passado algum tempo, Hsü Wu Kuei continuou: "Tentarei explicar a Vossa Alteza como julgo os cães. Os de nível mais baixo comem até se fartarem e depois param, como um gato. Os de nível médio são como se estivessem a olhar fixamente para o sol. Os de nível mais elevado são como se tivessem renunciado à sua própria individualidade.
"Mas eu não julgo os cães da mesma forma que julgo os cavalos. Julgo os cavalos da seguinte forma: A sua rectidão
Na corrida.
deve ser a de uma linha reta. A sua curvatura deve ser a de um arco. A sua forma quadrada, a de um quadrado." A sua redondeza, a de um compasso.
Um comentador aplica tudo isto à forma dos animais.
Estes são os cavalos do Estado. Não se comparam aos cavalos do Império. Os cavalos do Império são esplêndidos. Movem-se como se estivessem ansiosos por seguir em frente, como se tivessem perdido o caminho, como se tivessem renunciado à sua própria individualidade. Assim, ultrapassam todos os concorrentes, sobre a poeira intocada, desaparecendo de vista!
O Príncipe ficou muito satisfeito e sorriu. Mas quando Hsü Wu Kuei saiu, Nü Shang perguntou-lhe: "O que tem dito a Sua Alteza? Sempre que me dirijo a ele, é ou num sentido pacífico, baseado nos Cânones da Poesia, da História, dos Ritos e da Música; ou num sentido beligerante, baseado na Lista Dourada ou nos Seis Planos de Batalha.
Antigos tratados militares.
Resolvi com grande sucesso inúmeros assuntos que me foram confiados, mas Sua Alteza nunca me concedeu um sorriso." "O que me teria dito para o deixar tão satisfeito assim?"
"Eu apenas lhe disse", respondeu Hsü Wu Kuei, "como julgava os cães e os cavalos."
"Só isso?", perguntou Nü Shang, incrédulo.
"Não ouviu falar", disse Hsü Wu Kuei, "do fora-da-lei de Yüeh? Depois de vários dias de ausência do seu Estado, ele ficou feliz por encontrar qualquer pessoa que conhecesse lá. Ao fim de um mês, ficou feliz por encontrar qualquer pessoa que tivesse visto lá. E depois de um ano, ficou feliz por encontrar qualquer pessoa que fosse minimamente parecida com os seus compatriotas. Não é este um caso em que a ausência dos seus semelhantes aumenta o desejo de estar com eles?"
"A ausência dos seus semelhantes aumenta o desejo de estar com eles?" "Assim, um homem que fugiu para o deserto, onde a erva-bispo sufoca o caminho da doninha e do arminho, ora avançando, ora parando, como se alegraria se o passo de um semelhante chegasse aos seus ouvidos. E quanto mais se alegraria se ouvisse a voz de um irmão, de um parente ao seu lado. Há muito tempo, creio eu, que Sua Alteza não ouve a voz de um homem puro ao seu lado!"
Hsü Wu Kuei foi visitar o Príncipe. Este disse: "Vivendo, senhor, nas montanhas, alimentando-se de frutos silvestres ou satisfazendo-se com alho-francês, há muito que me negligenciaste. Estás a ficar velho? Ou anseias por carne e vinho? Ou será que o meu Estado é tão bem governado?"
"Sou de nascimento humilde", respondeu Hsü Wu Kuei. "Não me atreveria a comer e a beber a carne e o vinho de Vossa Alteza. Vim demonstrar a minha solidariedade a Vossa Alteza."
"Sou de nascimento humilde", respondeu Hsü Wu Kuei. "Não me atreveria a comer e a beber a carne e o vinho de Vossa Alteza. Vim apresentar as condolências a Vossa Alteza." "O que quer dizer?" exclamou o Príncipe. "O que há para se compadecer?"
"Da alma e do corpo de Vossa Alteza", respondeu Hsü Wu Kuei.
"Por favor, explique", disse o Príncipe.
"Alimento é alimento", disse Hsü Wu Kuei.
Tanto para um camponês como para um príncipe.
"Estar numa posição elevada não torna alguém elevado, nem estar numa posição inferior o torna inferior. Vossa Alteza é o governante de um grande Estado e oprime toda a sua população para satisfazer os seus desejos sensuais. Mas a sua alma não participa nisso. A alma ama a harmonia e odeia a desordem. Pois a desordem é uma doença. Por isso, vim para me compadecer. Como é possível que só Vossa Alteza esteja a sofrer?"
"Há muito tempo que desejava vê-lo", respondeu o Príncipe. "Desejo amar o meu povo e, cultivando o dever para com o próximo, pôr fim à guerra. Será isso possível?"
"Não é", respondeu Hsü Wu Kuei. "O amor pelo povo é a raiz de todo o mal que o povo enfrenta. O cultivo do dever para com o próximo, visando pôr fim à guerra, é a origem de todos os conflitos. Se Vossa Alteza..."Partindo desta premissa, o resultado só pode ser desastroso.
Porquê tentar "fazer" alguma coisa?
"Tudo o que é feito para ser bom, acaba por se tornar mau.
O artificial é impermanente.
E embora Vossa Alteza deva fazer da caridade e do dever para com o próximo artigos espúrios. Pois a intenção interior manifestar-se-ia na exterior. A adoção de um padrão fixo
é, do padrão pessoal dos indivíduos. Ver pp. 305, 306.
levaria a complicações. E as revoluções internas levam a lutas externas. Certamente que Vossa Alteza não transformaria um recanto num campo de batalha, nem um santuário de oração num cenário de guerra!
Isto, claro, refere-se à mente.
"Não tenhas nada dentro de ti que obstrua a virtude. Não procures vencer os outros com astúcia, intriga ou guerra." Se eu massacrar uma nação inteira e anexar o território para alimentar as minhas paixões e a minha alma — independentemente da capacidade militar, onde reside a vitória?
"De que serve ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?"
"Se Vossa Alteza se abstiver, isso bastará. Cultive a sinceridade que reside no seu peito, para que seja sensível às condições do seu meio e não seja agressivo. Assim, o povo escapará à morte;
da opressão.
E para que serve, então, pôr fim à guerra?"
Quando o Imperador Amarelo foi visitar o Tao no Monte Chutz, Fang Ming era o seu cocheiro, Chang Yu sentava-se à sua direita, Chang Jo e Hsi P’êng eram os seus batedores, e K’un Hun e Hua Chi fechavam a retaguarda.
Os comentadores criticam duramente esta passagem.
Ao chegarem às terras selvagens de Hsiang-cheng,
O limite do conhecido.
Estes sete Sábios perderam-se e não havia ninguém a quem perguntar o caminho. De repente, encontraram um rapaz que pastoreava cavalos e perguntaram-lhe: "Conheces a Montanha Chü-tz'ŭ?"
"Conheço", respondeu o menino.
"E pode dizer-nos", continuaram os Sábios, "onde reside o Tao?"
"Posso", respondeu o menino.
"Este rapaz é estranho", exclamou o Imperador Amarelo. "Ele não só sabe onde fica a Montanha Chü-tz'ŭ, como também onde reside o Tao! Diga-me, por favor, como governaria o império?"
"Eu governaria o império", disse o rapaz, "da mesma forma que cuido dos meus cavalos. Que mais deveria eu fazer?
"Quando eu era menino e vivia dentro dos pontos cardeais,
Na Feira da Vaidade. A minha visão ficou turva. Um velho aconselhou-me a montar na carruagem do sol
é, da Inteligência.
e visitar as terras selvagens de Xianjiang. A minha visão está agora muito melhor, e continuo a viver sem os pontos cardeais. Devo governar o império da mesma forma. O que mais devo fazer?
"Claro", disse o Imperador Amarelo, "governar não é a sua especialidade. Mesmo assim, gostaria de saber o que faria."
O rapaz recusou-se a responder, mas, ao ser novamente insistente, exclamou: "Que diferença há entre governar o império e cuidar dos cavalos?" "Cuidado para que nenhum mal aconteça aos cavalos, é só isso!"
Em seguida, o Imperador prostrou-se diante do rapaz e, dirigindo-se-lhe como Mestre Divino, despediu-se.
Mestre Divino significa "inspirado por Deus". O termo utilizado é o mesmo que é empregado nos tempos modernos para o chefe ou Papa do taoísmo deturpado, frequentemente traduzido erradamente como "Mestre do Céu".
Se os conspiradores não têm nada que lhes cause ansiedade, não são felizes. Se os dialécticos não têm as suas premissas e conclusões, não são felizes. Se os críticos não têm em quem descarregar a sua raiva, não são felizes. Tais homens são escravos de existências objetivas.
Aqueles que atraem a simpatia do mundo fundam novas dinastias. Aqueles que conquistam o coração do povo alcançam altos cargos oficiais. Os fortes enfrentam dificuldades. Os corajosos enfrentam perigos. Os homens de armas deleitam-se na guerra. Os homens de paz não pensam em mais nada para além da reputação. Os homens da lei esforçam-se para aprimorar a administração. Os professores de cerimónia e música cultivam a etiqueta. Os moralistas dedicam-se a... As obrigações entre os homens.
Tire a agricultura ao agricultor e a sua classificação desaparece. Tire o comércio ao comerciante e a sua classificação desaparece. O trabalho diário é o estímulo do trabalhador manual. A habilidade do artesão é o seu orgulho. Se não se ganha dinheiro, o avarento fica triste. Se o seu poder encontra um travão, o arrogante lamenta-se. Os ambiciosos adoram a mudança.
Assim, os homens estão sempre a fazer alguma coisa; a inação é impossível para eles. Observam nisso a mesma regularidade das estações do ano, sempre imutáveis. Correm para a destruição, dissipando em todas as direcções as suas forças vitais, ai de nós!, para nunca mais regressarem.
Chuang Tzu disse: "Se os arqueiros que apontam para o nada e acertam em alguma coisa fossem considerados bons atiradores, todos no mundo seriam outro Yi."
Veja p. 308.
"Será possível?"
"Poderia", respondeu Hui Tzŭ.
"Se não houvesse um padrão geral de justiça no mundo", continuou Chuang Tzŭ, "mas cada homem tivesse o seu próprio, então todos...""Seria um Yao. Isso seria possível?"
"Poderia", respondeu Hui Tzŭ.
"Muito bem", disse Chuang Tzŭ. "Ora, existem os confucionistas, os mihistas, as escolas de Yang
Yang Chu. Veja o capítulo viii.
e Ping,
Kung Sun Lung. Veja o capítulo xvii.
fazendo consigo cinco no total. Qual delas está correta?
"Talvez seja um caso semelhante ao de Lu Chü?
De quem não há registo.
—Um discípulo disse-lhe: 'Mestre, alcancei o teu Tao. Posso viver sem fogo no inverno: posso fazer gelo no verão.'
"'Apenas se aproveita do calor latente e do frio latente', respondeu Lu Chü. 'Isto não é o que eu chamo de Tao. Vou demonstrar-lhe o que é o meu Tao.'
" "Depois afinou dois alaúdes e colocou um no salão e o outro na sala adjacente. E quando tocava a nota Kung num, soava a nota Kung no outro; quando tocava a nota Chio num, soava a nota Chio no outro. Isto porque ambos estavam afinados à mesma altura.
"Mas se ele alterasse o intervalo de uma corda, de modo a que esta já não mantivesse a sua posição na oitava, e depois a tocasse, o resultado era que todas as vinte e cinco cordas ressoavam juntas. Havia som como antes, mas a influência da nota fundamental tinha desaparecido. É este o seu caso?"
"Os confucionistas, os mihistas e os seguidores de Yang e Ping", respondeu Hui Tzŭ, "estão justamente a discutir este assunto comigo. Tentam sobrecarregar-me com argumentos ou calar-me com alarido. No entanto, não provaram que eu estava errado." Por que razão então deve fazer isso?"
"Um homem do Estado de Qing", respondeu Chuang Tzu, "enviou o seu filho para o Estado de Song, para ser porteiro, com o corpo mutilado.
Os porteiros, nos tempos antigos, por razões óbvias, tinham os pés amputados.
Mas um vaso, que ele muito prezava, manteve cuidadosamente embrulhado.
Assim, Hui Tzu sacrifica o maior pelo mais pequeno.
"Um homem do Estado de Qing", respondeu Chuang Tzu, "enviou o seu filho para o Estado de Song, para ser porteiro, com o corpo mutilado.
Assim, Hui Tzu sacrifica o maior pelo mais pequeno." "Aquele que procura uma criança perdida, mas não abandona a sua casa, corre o risco de a perder.
Assim, restrita às suas quatro escolas antagónicas, está a busca de Hui Tzŭ pelo Tao.
"Se um homem de Ch'u, enviado para ser porteiro, começasse, a meio da noite, quando não estivesse ninguém por perto, a lutar com o barqueiro, eu diria que, mesmo antes de o seu barco zarpar, já estaria em grandes apuros."
Um homem aleijado (Hui Tzŭ) deve evitar as brigas. A sua própria porção de Tao é insuficiente até para si próprio.
Chuang Tzŭ estava uma vez a participar num funeral, quando passou pelo túmulo de Hui Tzŭ. Voltando-se para os seus acompanhantes, disse: "Um homem de Ying
Capital do estado de Ch'u.
que tinha o nariz coberto por uma crosta dura, não mais grossa que a asa de uma mosca, mandou chamar um pedreiro para a retirar." O pedreiro manejava o seu machado com grande destreza enquanto o doente permanecia imóvel, deixando-o lascar a pedra. Quando toda a crosta foi retirada, verificou-se que o nariz estava intacto, pois o homem de Ying não tinha mexido um único músculo.
"Quando Yuan, príncipe de Song, soube disto, convocou o pedreiro e disse-lhe: 'Tenta fazer o mesmo por mim'.
"'Eu costumava ser capaz de fazer isso, Majestade', respondeu o pedreiro, 'mas o meu material já se perdeu há muito tempo'.
"E eu também, desde que ele faleceu, estou sem o meu material, sem ninguém com quem possa falar."
Um elogio generoso a um antigo adversário.
"Não havia ninguém", diz Lin Hsi Chung, "em toda a geração de Chuang Tzŭ que o pudesse compreender; e não há ninguém agora, nesta época, tal como não havia naquela época."
Estando Kuan Chung à beira da morte, o Duque Huan foi visitá-lo. Ver pág. 226.
"O senhor está doente, venerável senhor", disse o Duque, "muito doente. É melhor que diga a quem, caso o seu estado se agrave, devo confiar a administração do Estado."
"Quem deseja Vossa Alteza escolher?", perguntou Kuan Chung.
"Pao Yü serve?", perguntou o Duque.
Kuan Chung e Pao Yü são os "Damon e Pítias" da China.
"Não", disse Kuan Chung. "Ele é puro, incorruptível e bom. Não se associa com aqueles que não são como ele. E se uma vez ouviu falar de uma transgressão de alguém, jamais a esquece. Se o senhor o empregar na administração do império, ele entrará em conflito com o seu príncipe e com o povo. Não tardará muito para que ele e Vossa Alteza se desentendam."
"Então, quem podemos escolher?", perguntou o Duque.
"Pao Yü serve?" "Não há alternativa", respondeu Kuan Chung; "tem de ser Hsi P'êng. É um homem que esquece a autoridade dos que estão acima dele e faz com que os que estão abaixo dele esqueçam a sua. Envergonhado por não ser par do Imperador Amarelo,
em virtude,
entristece-se por aqueles que não são seus pares.
"Partilhar a própria virtude com os outros chama-se verdadeira sabedoria. Partilhar a própria riqueza com os outros é considerado meritório. Exibir um mérito superior não é o caminho para conquistar o coração dos homens. Exibir um mérito inferior é o caminho. Há coisas no Estado que ele não ouve; há coisas na família que ele não vê.
Ignorando propositadamente pequenas faltas.
Não há alternativa; tem de ser Hsi P'êng."
De quem os comentadores dãoSem mais avisos.
O príncipe de Wu apanhou um barco e foi até à Montanha dos Macacos, que subiu. Quando os macacos o viram, fugiram aterrorizados e esconderam-se na floresta densa. Um deles, porém, divertia-se despreocupadamente, como se quisesse exibir a sua habilidade ao príncipe. O príncipe disparou sobre ele; mas o macaco, com grande rapidez, agarrou a flecha com a mão. Então o príncipe ordenou aos seus guardas que tentassem, e o macaco acabou morto.
A habilidade do pobre macaco não lhe serviu de nada contra a chuva de flechas disparada pelos guardas. On peut être plus fin qu'un autre, mais on ne peut pas être plus fin que tous les autres.
Então o príncipe voltou-se para o seu amigo Yen Pu I e disse: "Aquele macaco exibiu a sua habilidade e destreza à minha frente. Por isso, chegou a este ponto. Cuidado! Não ostente a sua superioridade perante os outros."
Yen Pu regressou a casa e colocou-se sob a tutela de Tung Wu,
um professor de Tao.
com o objetivo de se livrar de tal arrogância. Pôs de lado tudo o que lhe dava prazer e evitou ganhar reputação. E em três anos, o seu elogio andava na boca de todos.
Tzŭ Chi de Nan-poh
Ver o capítulo iv.
estava sentado, encostado a uma mesa. Olhou para o céu e suspirou, momento em que Yen Ch'êng Tzŭ entrou e disse: "Como pode, senhor, uma pessoa tão importante como o senhor ter o corpo como madeira seca e a mente como cinzas mortas?"
Em vez de se esforçar pelo benefício da humanidade. O orador, diz um comentador, era "um discípulo".
"Eu costumava viver numa gruta nas montanhas", respondeu Tzŭ Chi. "Nessa época, T'ien Ho,
O famoso fundador da posterior Casa de Ch'i.
Por me ter visto uma vez, foi três vezes felicitado pelo povo de Ch'i. Ora, devo ter dado algum indício que o fez reconhecer-me.
Como um Sábio.
Devo tê-lo vendido para que ele o comprasse. Pois se eu não me tivesse manifestado, como é que ele me teria reconhecido? Se eu não o tivesse vendido, como poderia ele tê-lo comprado?
"Ai de mim! Lamento a autodestruição do homem.
À medida que a reputação vem, a realidade vai-se.
E então lamento por aquele que lamenta por outro. E então lamento por aquele que lamenta por aquele que lamenta por outro! E assim, a cada dia, afasto-me cada vez mais."
E torno-me como madeira seca, a minha alma absorvida pelo Tao.
Quando Confúcio foi ter com Chu, o príncipe recebeu-o num banquete. Sun Shu Ao levantou-se com um copo de vinho na mão, e I Liao de Shih-nan ofereceu uma libação, dizendo: "Em ocasiões como esta, os homens de outrora costumavam proferir alguma palavra."
"A minha", respondeu Confúcio, "é a doutrina das palavras silenciosas. Devo eu, que não pronuncio palavras, proferir agora?"
"Eu, Liao de Shih-nan, brinquei com a minha bola e a contenda entre duas famílias foi resolvida.
Um homem de grande força que se recusou a ajudar a resolver um diferendo de Estado. Era um grande jogador de bola — seja lá o que isso quer dizer.
Sun Shu Ao permaneceu em repouso, e os homens de Ying depuseram as armas.
Ninguém ousou atacá-los, tão grande era o prestígio do seu ministro.
Eu desejaria ter uma língua com um metro de comprimento!
Conseguir mais com as palavras do que estes dois conseguiram com a inação.
O deles era o Tao da inacção. O dele era o argumento do silêncio. Portanto, para Tê
A manifestação do Tao.
repousar no Tao indivisível,
pelo qual todas as coisas são Uma.
e para a fala se deter no incognoscível — isto é a perfeição.
"Com o Tao indivisível, Tê não pode ser coincidente.
Este último é multiforme.
Nenhum argumento pode demonstrar o incognoscível. A subdivisão em confucionistas e mihistas só agrava a confusão.
O mar não rejeita as correntes que nele fluem para leste. Portanto, é incomensuravelmente grande. O verdadeiro Sábio abarca o universo no seu seio. A sua boa influência beneficia todo o império, sem distinção de pessoas. Nascido sem posição social, morre sem títulos. Não se apropria do mérito pelas realidades.
Mas atribui tudo às circunstâncias.
Ele não estabelece um nome.
Pelo que fez.
Isto é ser um grande homem.
" "Um cão não é considerado um bom cão apenas por ladrar bem.
Ele também precisa de morder.
Um homem não é considerado um homem bom só por falar bem. Quanto menos no caso da grandeza? E se fazer grandes coisas não basta para garantir a grandeza, quanto menos garantirá a virtude?
"Em termos de grandeza, nada se compara ao universo. No entanto, o que procura o universo para ser grande?
"Aquele que compreende a grandeza neste sentido, não procura nada, não perde nada, não rejeita nada, nunca sofre danos exteriores. Refugia-se na sua própria inexauribilidade. Encontra segurança em estar em conformidade com a sua natureza. Esta é a essência da verdadeira grandeza."
Tzŭ Chi tinha oito filhos. Colocou-os diante de si e, chamando Chiu Fang Yin, disse-lhe: "Examina os meus filhos fisionomicamente e diz-me qual será o afortunado."
"K'un", respondeu Chiu Fang Yin, "será o afortunado".
"Em que sentido?" perguntou o pai, a beacom alegria.
"K'un", disse Chiu Fang Yin, "comerá à mesa de um príncipe e assim terminará os seus dias."
Neste momento, Tzŭ Chi desfez-se em lágrimas e disse: "O que é que o meu filho fez para merecer este destino?"
"Comer à mesa de um príncipe", respondeu Chiu Fang Yin, "beneficiará a família durante três gerações. Quanto mais o seu pai e a sua mãe! Mas, para o senhor, chorar é suficiente para afastar a sorte. A fortuna do filho é boa, mas a do pai é má."
"Yin", disse Tzŭ Chi, "gostaria de saber o que o senhor quer dizer ao chamar K'un de afortunado. O vinho e a carne agradam ao paladar, mas o senhor não diz como isso vai acontecer.
"Supondo que, para mim, não sendo pastor, nascesse um cordeiro no canto sudoeste do meu salão; ou que, para mim, não sendo desportista, nascessem codornizes no canto nordeste." Se não considerasse isso estranho, como lhe chamaria?
"Os meus filhos e eu apenas vagueamos pelo universo. Com eles, procuro as alegrias do céu; com eles, procuro os frutos da terra. Com eles, não me envolvo em negócios; com eles, não trama nada; com eles, não tento nada fora do comum. Com eles, apoio-me na verdade do universo e não me oponho às exigências do nosso ambiente. Com eles, adapto-me naturalmente; mas com eles, não me torno escravo das circunstâncias. E agora o mundo está a recompensar-me!
"Todo o efeito estranho deve ser precedido de alguma causa estranha. Ai de mim! Eu e os meus filhos não fizemos nada. Deve ser a vontade de Deus." Portanto, choro."
Pouco depois, quando K'un estava a caminho do Estado de Yen, foi capturado por bandidos. Vendê-lo como estava não seria fácil. Vendê-lo sem os pés seria muito mais fácil. Então, cortaram-lhe os pés e venderam-no ao Estado de Ch'i, onde se tornou porteiro do Duque Chü e teve carne ao jantar para o resto da vida.
Os comentadores fazem aqui um escândalo terrível.
Yeh Ch'üeh, ao encontrar Hsü Yu, perguntou-lhe: "Para onde vais?"
"Afasta-te de Yao!" respondeu este último.
"O que quer dizer?" perguntou Yeh Ch'üeh.
"Yao", disse Hsü Yu, "não pensa em mais nada para além da caridade. Temo que se torne motivo de chacota para o mundo e que, no futuro, os homens se canibalizarão uns aos outros."
Veja p. 296.
"Não há dificuldade em conquistar o povo. Ame-o e ele aproximar-se-á. Proporcione-lhe benefícios e ele elevar-se-á. Elogie-o e ele competirá entre si. Mas introduza algo de que ele não goste e ele afastar-se-á.
"O amor e o lucro nascem da caridade e do dever para com o próximo. Os que ignoram a caridade e o dever para com o próximo são poucos; os que lucram com eles são muitos.
"Pois a operação destas virtudes não é desinteressada. É como emprestar equipamento a um desportista.
Com o objetivo de partilhar o jogo.
Portanto, para um homem dogmatizar para o bem de todo o império é como dividir algo com um só golpe.
Sem ter em conta o método ou as exigências do caso em apreço.
"Yao sabe que os homens bons beneficiam o império. Mas não sabe que o prejudicam. Só aqueles que se encontram num nível superior ao dos homens bons o sabem.
" "Existem tolos; existem parasitas; existem entusiastas.
"Um homem que aprende com um único professor e depois parte exultante, satisfeito com as suas aquisições, embora ignorante de que houve um tempo em que nada existia — esse é um tolo.
"Os parasitas são como piolhos nas costas de um porco. Escolhem zonas calvas, que para eles são palácios e parques. As partes entre os dedos, as articulações, as patas e as nádegas são para eles tantos lugares confortáveis e convenientes para descansar. Não sabem que um dia o talhante arregaçará as mangas, espalhará palha e acenderá o fogo, e que perecerão chamuscados no porco. Colhem o que plantam. Isto é ser um parasita.
"Entre os entusiastas, Shun é um exemplo. A carne de carneiro não gosta de formigas; são as formigas que gostam da carne de carneiro. A carne de carneiro tem um cheiro desagradável; E Shun possui uma certa desleixo que atrai as pessoas. Por isso, após três mudanças de residência, quando chegou ao distrito de Teng, trouxe consigo cerca de cem mil famílias.
"Então Yao, ao ouvir falar da sua bondade, designou-o para uma região árida, confiando, como disse, que a chegada de Shun a enriqueceria. Quando Shun assumiu esse cargo, já era idoso e o seu intelecto estava debilitado; contudo, não parou de trabalhar nem se reformou. Era, de facto, um entusiasta.
"Assim, o homem espiritual não gosta de multidões. Pois onde há multidão, há diversidade, e onde há diversidade, não há vantagem. Por isso, não é nem demasiado íntimo, nem demasiado distante. Ele agarra-se à virtude e nutre um espírito de harmonia, a fim de estar em sintonia com os seus semelhantes. Isto é ser um homem divino.
" Deixe a sabedoria para as formigas. Procure o que os peixes desejam.
Ser deixado em paz na água.
Deixe a beleza para os carneiros. Use os olhos para contemplar, os ouvidos para escutar, a mente para refletir sobre o funcionamento interno dos mesmos.Para aquele que consegue fazer estas coisas, o seu nível será o de uma linha, as suas modificações ocorrerão no devido e apropriado tempo.
"Portanto, o homem divino confia no desenvolvimento natural dos acontecimentos. Não se esforça por introduzir o artificial no domínio do natural. Assim, a vida é um ganho e a morte uma perda, ou a morte é um ganho e a vida uma perda.
De acordo com as circunstâncias.
"Por exemplo, as drogas. São caracteristicamente venenosas. Tais são Chieh-Kêng, Chi-Yung e Shih-Ling. As circunstâncias, porém, fazem de cada uma delas um remédio soberano. A lista é inesgotável.
Chieh-Kêng é o Platycodon grandiflorum. É utilizado pelos médicos chineses como tónico, adstringente e vermífugo.
" "Quando Kou Chien acampou com três mil guerreiros armados em Kuei-ch'i,
Liderando os homens de Wu para atacar o Estado de Yüeh,
apenas Chung
Wên Chung, ministro de Yüeh,
percebeu que a derrota seria seguida de uma recuperação. Contudo, ele não podia prever o mal que se abateria sobre ele. Por isso, diz-se: 'Os olhos da coruja estão adaptados ao seu uso. A perna do grou tem o comprimento necessário. Seria desastroso encurtá-la.'
Esta ilustração foi utilizada no capítulo VIII, página 101.
"Assim, diz-se: 'O vento sopra e o rio sofre. O sol brilha e o rio sofre.' Mas, embora o vento e o sol interajam com o rio, este não sofre verdadeiramente com isso.
O Sábio tem também uma fonte da qual fornece o alimento da sua alma.
" "A relação entre a água e a terra é determinada. A relação entre o homem e a sua sombra é determinada. A relação entre coisa e coisa é determinada.
A relação entre o olho e a visão é perniciosa.
Porque é indeterminada.
A relação entre o ouvido e a audição é perniciosa. A relação entre mente e objeto é perniciosa. A relação entre todos os tipos de capacidade e o eu interior do homem é perniciosa. Se tal pernicioso não for corrigido, os desastres surgirão por todos os lados. A regressão é difícil de alcançar, e o sucesso tarda em chegar. No entanto, infelizmente, os homens consideram tais capacidades como posses valiosas.
A destruição dos Estados e o incessante massacre de seres humanos resultam da incapacidade de o examinar.
O pé pisa o chão ao caminhar; contudo, é o chão não pisado que constitui a boa caminhada. O conhecimento do homem é limitado; mas é naquilo em que não sabe que se apoia para expandir o seu conhecimento à compreensão de Deus.
" "O conhecimento do Grande Uno, do Grande Negativo, da Grande Nomenclatura, da Grande Uniformidade, do Grande Espaço, da Grande Verdade, da Grande Lei — eis a perfeição.
O Grande Um é omnipresente. O Grande Negativo é omnipotente. A Grande Nomenclatura é inclusiva. A Grande Uniformidade é assimilativa. O Grande Espaço é recetivo. A Grande Verdade é exigente. A Grande Lei é vinculativa.
O fim último é Deus. Ele manifesta-se nas leis da natureza. Ele é a fonte oculta. No princípio, Ele existia.
Possuía uma existência objetiva.
Esta, porém, é inexplicável. É incognoscível. Mas do incognoscível alcançamos o conhecido.
A investigação não deve ser limitada, nem ilimitada.
Deve ser empreendida na perspectiva do incondicionado.
Nesta vaga indefinição existe uma atualidade. O tempo não a altera." Não pode sofrer diminuição. Não podemos então chamar-lhe o nosso grande Guia?
"Porque não levar os nossos corações hesitantes a investigá-la? E depois, usando a certeza para dissipar a dúvida, regressar a um estado sem dúvida, no qual a dúvida está duplamente morta?"
A dúvida dissipada torna a convicção ainda mais firme.
Lin Hsi Chung diz que este ensaio começa com o subtil para terminar no abstruso. "A força da linguagem", acrescenta, "não pode ir mais longe!"
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 25. Verdade
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CAPÍTULO XXV.
Tsê Yang.
Argumento:—A influência da virtude oculta—O verdadeiro Sábio como quantidade negativa—O grande, o pequeno, o infinito—Crime e Capital—Governantes e os seus vícios—O que é a Sociedade? Predestinação ou Acaso?—Ilustrações.
Quando Tsê Yang visitou o Estado de Ch'u, I Chieh
Um oficial de Ch'u.
falou dele ao príncipe; mas este recusou uma audiência.
Após o regresso de I Chieh, Tsê Yang foi ter com Wang Kuo,
Um Sábio local.
e pediu-lhe que conseguisse uma entrevista com o príncipe.
"Não sou tão adequado para isso", respondeu Wang Kuo, "quanto Kung Yüeh Hsiu."
Um eremita.
"Que tipo de homem é ele?", perguntou Tsê Yang.
"No Inverno", disse Wang Kuo, "ele caça tartarugas no rio. No Verão, repousa em algum bosque da montanha. Se algum transeunte lhe perguntar, ele responde: 'Esta é a minha casa'. Onde eu, Chieh, não consegui, muito menos conseguirei. Não sou igual nem a ele.
"É um homem sem virtude, mas possuidor de conhecimento. Se não fosse um ar de arrogância, seria muito popular entre os seus superiores. Mas a ajuda sem virtude é um obstáculo. Pessoas a tremer de frio, a pedir roupa emprestada na primavera que se aproxima! Pessoas com calor, a recordar o frio intenso do inverno passado!
"O príncipe de Ch'u é digno e severo. Ao castigar, é implacável como um tigre. Só um homem demasiado experiente ou demasiado perfeito o poderia influenciar.
"O verdadeiro Sábio, quando na obscuridade, faz com que aqueles que o rodeiam esqueçam a sua pobreza. Quando no poder, faz com que os príncipes esqueçam os seus títulos e emolumentos, e se tornem como se fossem de posição inferior." Ele alegra-se imenso com toda a criação. Exulta ao ver o Tao difundido entre os seus semelhantes, sem sofrer qualquer perda para si próprio.
O Tao é uma constante. Pode ser partilhado, mas não pode ser dividido.
"Assim, embora silencioso, ele pode incutir paz; e pela sua simples presença fazer com que os homens se tratem como pai e filho. Do seu próprio regresso à passividade surge esta influência activa para o bem. Tão grande é a sua diferença de coração em relação aos homens comuns. Por isso eu disse: 'Esperem por Kung Yüeh Hsiu'."
"O verdadeiro Sábio está livre de todos os constrangimentos. Todas as coisas são para ele como Uma. Contudo, ele não sabe que isso é assim. É simplesmente a natureza. Em meio à ação, ele permanece o mesmo. Ele faz de Deus seu guia, e os homens o fazem o seu. Ele se entristece que a sabedoria leve apenas a uma curta distância e, às vezes, chegue a um impasse total."
"O verdadeiro Sábio está livre de todos os constrangimentos. Todas as coisas são para ele como Uma. Contudo, ele não sabe que isso é assim. É simplesmente a natureza. Em meio à ação, ele permanece o mesmo. Ele faz de Deus seu guia, e os homens o fazem o deles. Ele entristece que a sabedoria leve alguém apenas a uma curta distância e, às vezes, chegue a um impasse total." "Para uma mulher bela, a humanidade é o espelho no qual se vê. Se ninguém lhe disser que é bela, não saberá que o é. Mas, quer o saiba ou não, quer o ouça ou não, a sua alegria nunca cessará, nem a humanidade deixará de se deleitar com isso. É da natureza.
"O amor de um sábio pelos seus semelhantes também encontra expressão na humanidade. Se não lhe dissessem isso, ele não saberia que amava os seus semelhantes. Mas, quer o saiba ou não, quer o ouça ou não, o seu amor pelos seus semelhantes é infinito, e a humanidade nunca deixará de repousar nele.
"A velha pátria, o velho lar, alegram os olhos de um viajante. Mesmo que nove décimos dela sejam um deserto inóspito, os seus olhos ainda assim se alegrarão. Quanto mais vir e ouvir, de um estrado elevado suspenso no seu próprio meio!"
" A alegria do andarilho é como a da mente que regressa à consciência apenas de si mesma.
Jen Hsiang Shih alcançou o centro e atingiu a iluminação.
O centro onde convergem todas as Infinitudes. Veja p. 18.º Este indivíduo foi um governante lendário da antiguidade.
Não reconhecia princípio, fim, quantidade ou tempo. Modificando-se diariamente com o seu meio, como parte do Uno, não conhecia a modificação. Por que não repousar sobre isso?
Esforçar-se por seguir a Deus e não ter sucesso é demonstrar uma atividade fatal para si mesma. Como pode o sucesso ser alcançado desta forma?
O verdadeiro Sábio ignora Deus. Ele ignora o homem. Ele ignora um começo. Ele ignora a matéria. Move-se em harmonia com a sua geração e não sofre. Aceita as coisas como elas vêm e não se deixa abater. Como nos podemos tornar como ele?
T’ang nomeou o seu escudeiro, Mên Yin Têng Hêng, para ser o seu tutor, ouvindo os seus conselhos, mas sem se restringir a eles. Obteve o Tao para si e uma reputação para o seu tutor. Mas a reputação era uma violação de princípios e colocava-o no domínio das alternativas.
Em vez de Um. Nenhum comentador engenhoso conseguiu dar-lhe sentido.
Como tutor, Confúcio levou a preocupação e a ansiedade a um limite extremo.
Yung Ch'êng Shih
Tutor de Lao Tzu.
disse: "Tirai os dias e não haverá anos. Nem dentro, nem fora."
O príncipe Hui de Wei tinha feito um tratado com o príncipe Wei de Ch'i, que este último quebrou.
Então, o príncipe Hui ficou furioso e estava prestes a enviar um homem para o assassinar. Mas o Capitão-General soube disso e exclamou envergonhado: "Senhor, o senhor é governante de um poderoso Estado e, no entanto, procura a vingança de um homem comum. Dê-me duzentos mil guerreiros e eu farei o trabalho por si. Farei o seu povo prisioneiro." e levem os vossos bois e cavalos. Farei com que o calor da mente do príncipe se manifeste nas suas costas. Então, tomarei o seu país e ele fugirá. Aí, poderão torcê-lo à vontade."
Ao ouvir isto, Chi Tzŭ exclamou envergonhado: "Se estão a construir um muro de dez varas e, quando está quase terminado, o destroem, estão a infligir grande sofrimento aos operários."
Aludindo ao sistema de corveia para obras públicas. O orador era um oficial de Wei.
"Há sete anos que as tropas não são convocadas. Esta é, por assim dizer, a obra fundamental de Vossa Alteza. Não dêem ouvidos ao Capitão-General. É um sujeito malicioso."
Ao ouvir isto, Hua Tzŭ
também um oficial de Wei,
ficou muito indignado e disse: "Aquele que argumentou a favor da punição do Estado Ch'i era um sujeito malicioso." E aquele que argumentou contra a punição do Estado de Ch'i era um sujeito malicioso. E aquele que diz que qualquer um dos acima referidos é um sujeito malicioso, é ele próprio um sujeito malicioso."
"Onde encontrarei então o que fazer?", perguntou o príncipe.
"Só no Tao", disse Hua Tzŭ.
Ao ouvir isto, Hua Tzŭ apresentou Tai Chin Jen ao príncipe.
Um Sábio do Estado de Liang. Para Hua Tzŭ, ver p. 8.
"Existe uma criatura chamada caracol", disse Tai Chin Jen. "Vossa Alteza sabe do que falo?"
"Sei", respondeu o príncipe.
"Há um reino no seu chifre esquerdo", continuou Tai Chin Jen, "governado pela Agressão, e outro no seu chifre direito, governado pela Violência. Estes dois governantes estão constantemente a lutar por território." Em tais casos, milhares de cadáveres jazem por ali, e um dos lados persegue o outro durante quinze dias antes de regressar."
"Ufa!" exclamou o príncipe. "Certamente está a brincar."
"Majestade", respondeu Tai Chin Jen, "peço-lhe que considere isso como um facto. Vossa Alteza reconhece algum limite para o espaço?"
"Nenhum", disse o príncipe, "Ele é ilimitado".
"Quando, portanto", continuou Tai Chin Jen, "a mente desce da contemplação do espaço ilimitado para a contemplação de um reino com fronteiras fixas, deve esse reino parecer ter dimensões infinitesimalmente pequenas?"
"Claro", respondeu o príncipe.
"Bem, então", disse Tai Chin Jen, "num reino com fronteiras fixas
Referindo-nos ao então império Chou, existe o Estado de Wei. No Estado de Wei existe a cidade de Liang. Na cidade de Liang existe um príncipe." Em que difere aquele príncipe da Violência?
Na sua mesquinhez.
"Não há diferença", disse o príncipe.
Então Tai Chin Jen retirou-se, e o príncipe permaneceu num estado de perturbação mental, como se tivesse perdido alguma coisa.
Quando Tai Chin Jen se foi embora, Hui Tzŭ apresentou-se, e o príncipe disse: "O nosso amigo é verdadeiramente um grande homem. Os sábios não se comparam a ele."
"Se soprar por um tubo", respondeu Hui Tzŭ, "o resultado será uma nota musical. Se soprar pelo orifício do punho de uma espada, o resultado será simplesmente um 'sussurro'. Yao e Shun foram louvados pela humanidade; "Mas comparados com Tai Chi Jen, não passam de um sussurro."
Quando Confúcio foi a Chu, parou num restaurante no Monte I. O criado de um homem e da sua mulher que moravam ao lado subiu ao telhado da casa.
"O que é que ele está a fazer lá em cima?", perguntou Tzŭ Lu.
"É um Sábio", respondeu Confúcio, "disfarçado de servo. Mistura-se no povo.
Para se aproximar deles.
Apaga-se à beira do caminho. Fama, ele não tem; mas a sua perseverança é inesgotável. Embora a sua boca fale, o seu coração não fala. Virou as costas à humanidade, não se importando de permanecer entre eles. Afogou-se em terra seca. Acho que sou eu, o Liao de Shih-nan."
Veja p. 325.
Tzŭ Lu pediu autorização para ir chamá-lo; mas Confúcio impediu-o, dizendo: "Não." Ele sabe que eu sei quem ele é. Ele sabe que vim a Ch'u para o recomendar ao príncipe. E considera-me um bajulador. Nestas circunstâncias, se desprezaria ouvir as palavras de um bajulador, quanto mais desprezaria vê-lo em carne e osso! Como poderia mantê-lo?"
Tzŭ Lu foi ver, mas a casa estava vazia.
O guarda fronteiriço de Ch’ang-wu disse a Tzŭ Lao:
Ch'in Lao, ou Ch'in Chang, um discípulo de Confúcio.
"Um príncipe não deve ser negligente nos seus pormenores administrativos; nos seus pormenores executivos, não deve ser ineficiente. Antes, na minha aragem, eu era negligente, e os resultados também eram negligentes. Na minha sacha, eu era ineficiente, e os resultados também eram ineficientes. Aos poucos, mudei o meu sistema." Arei profundamente e capinei cuidadosamente, resultando numa excelente colheita, mais do que conseguiria colher num ano."
Chuang Tzŭ, ao ouvir isto, observou: "Os homens de hoje, na sua auto-regulação e auto-organização, são na sua maioria como o Guardião da Fronteira descreveu. Escondem a sua divindade. Abandonam as suas disposições naturais. Livram-se de todos os sentimentos. Separam-se das suas almas, levados pela moda do momento.
"Aqueles que carecem de rigor em relação às suas disposições naturais..." As partes permitem que uma tribo maléfica ocupe o seu lugar.
Os sentidos físicos.
Estes crescem vigorosamente como juncos e canas, a princípio de aparente valor para o corpo, mas depois destroem a disposição natural. Depois, irrompem, aleatoriamente, como feridas e úlceras que libertam humores reprimidos."
Poh Chü estava a estudar com Lao Tzu. "Vamos", disse ele, "e vagueiemos pelo mundo."
Um comentador diz que Poh Chü era um "criminoso", provavelmente pelos seus comentários de simpatia no contexto.
"Não", respondeu Lao Tzu, "o mundo é exactamente como o vê aqui."
Mas, como voltou a insistir, Lao Tzu disse: "Por onde iria para começar?"
"Eu começaria", respondeu Poh Chü, "por ir ao Estado de Ch'i. Aí, veria os cadáveres dos seus malfeitores. Empurrá-los-ia para os fazer levantar. Tiraria as minhas vestes e cobri-los-ia." Eu clamaria a Deus e lamentaria o seu destino, dizendo: — 'Ó senhores, ó senhores, houve problemas na Terra, e vocês foram os primeiros a cair neles!'
"Eu diria: 'Talvez vocês fossem ladrões, ou talvez assassinos?'... A honra e a desgraça foram estabelecidas, e o mal seguiu-se. A riqueza foi acumulada e as contendas começaram. Ora, o mal que foi estabelecido e as contendas que se acumularam, cansam incessantemente o corpo do homem e não lhe dão descanso. Que escapatória há disto?
Isto poderia muito bem ter saído de A Maldição do Capital (Aveling) ou de um dos discursos do Sr. Hyndman.
"Os governantes da antiguidade atribuíam todo o sucesso ao seu povo, atribuindo todo o fracasso a si próprios. Tudo o que era certo ia para o crédito do seu povo, tudo o que era errado atribuíam-no a si próprios. Por isso, se alguma coisa não fosse bem-sucedida, eles voltavam-se e culpavam-se a si próprios.
" "Não são assim os governantes de hoje. Escondem uma coisa e culpam aqueles que não a conseguem ver. Impõem tarefas perigosas e castigam aqueles que não se atrevem a realizá-las. Infligem fardos pesados e castigam aqueles que não os podem suportar. Ordenam longas marchas e matam aqueles que não as podem realizar.
E o povo, sentindo que os seus poderes são insuficientes, recorre à fraude. Pois, quando há tanta fraude por perto,
nos governantes.
como pode o povo ser diferente de fraudulento? Se a sua força for insuficiente, recorrerá à fraude. Se o seu conhecimento for insuficiente, recorrerá ao engano. Se os seus recursos forem insuficientes, roubará." E quem é realmente responsável por tais roubos e furtos?
Quando Chu Poh Yü
Ver pág. 49.
chegou aos sessenta anos, mudou de opinião. O que antes considerava certo, passou a considerar errado. Mas quem pode afirmar se o certo de hoje não é tão errado como o errado dos cinquenta e nove anos anteriores?
Ver pág. 365.
As coisas são produzidas à nossa volta, mas ninguém sabe a sua origem. Surgem, mas ninguém vê o portal. Todos os homens valorizam a parte do conhecimento que já conhecem. Não sabem como se socorrer do desconhecido para alcançar o conhecimento. Não será isso um equívoco?
Os homens valorizam os fenómenos de que os sentidos os tornam conscientes, mas não os fenómenos dos próprios sentidos.
Ai de mim! Ai de mim! A impossibilidade de escapar a este estado resulta naquilo que se conhece como afinidade electiva.
Adaptação ao adequado; ser como se é porque se está mais adaptado a isso do que a alguma coisa. à qual não se adapta. Veja-se o capítulo ii, onde esta ideia é abordada pela primeira vez.
Confúcio perguntou aos historiadores Ta Ta'ao, Poh Chang Ch'ien e Hsi Wei: "O duque Ling era apreciador de vinho e entregue aos prazeres, negligenciando a administração do seu Estado. Passava o tempo a caçar e não cultivava a boa vontade dos outros príncipes feudais. Como é que passou a ser chamado Ling?"
O nome Ling significa "conhecedor", o que pode ser interpretado de duas formas.
"Exatamente por esses motivos", respondeu Ta Ta'ao.
"O duque", disse Poh Chang Ch'ien, "tinha três esposas. Estava a tomar banho com elas quando Shih Ch'iu, convocado por Sua Alteza, entrou nos aposentos. Nesse momento, o duque cobriu-se a si próprio e às senhoras. Tão ultrajante se comportou, por um lado, e tão respeitoso foi para com um homem virtuoso." Por isso, foi chamado Ling."
"Quando o Duque morreu", disse Hsi Wei, "a adivinhação mostrou que seria um mau presságio enterrá-lo no antigo cemitério da família, mas auspicioso enterrá-lo em Sha-ch'iu. E ao cavar uma sepultura ali, a vários metros de profundidade, foi encontrado um caixão de pedra, o qual, depois de limpo, revelou a seguinte inscrição: — A posteridade não pode ser fiável. O Duque Ling tomará isto para o seu túmulo.
"Na verdade, o Duque Ling já se chamava Ling há muito tempo. O que é que estas duas pessoas deveriam saber sobre isso?"
Como evidenciado pela inscrição, o Duque já tinha sido assim nomeado há muito tempo, no Livro do Destino.
Shao Chih perguntou a T'ai Kung Tiao: "O que significa sociedade?"
O primeiro nome significa Pequeno Conhecimento. Do segundo personagem não há registo.
"Sociedade", respondeu T'ai Kung Tiao, "é um acordo de um certo grupo". Número de famílias e indivíduos que seguem determinados costumes. Os elementos discordantes unem-se para formar um todo harmonioso. Retire essa unidade e cada um terá uma individualidade separada.
"Aponte para qualquer uma das muitas partes de um cavalo, e aquilo não é um cavalo, embora o cavalo esteja à sua frente. É a combinação de todas as partes que faz o cavalo."
"Da mesma forma, uma montanha é alta por causa das suas partículas individuais. Um rio é grande por causa das suas gotas individuais. E é justo aquele que considera todas as partes do ponto de vista do todo."
"Assim, em relação às opiniões dos outros, mantém a sua própria opinião, mas não obstinadamente. Em relação às suas próprias opiniões, embora consciente da sua verdade, não despreza as opiniões dos outros."
"As quatro estações têm características diferentes, mas Deus não mostra preferência por nenhuma delas e, por isso, temos o ano completo."
"Com resultados que não poderiam ser alcançados de outra forma".
"As funções das várias classes de funcionários diferem; mas o soberano não mostra parcialidade e, por isso, o império é governado". Existem o civil e o militar; mas o homem verdadeiramente grandioso não demonstra preferência por nenhum dos dois, e, por isso, a sua eficácia é completa. Todas as coisas estão sob a ação de leis variáveis; mas o Tao não demonstra parcialidade e, por isso, não pode ser identificado.
Como parte inerente de algo.
Por não poder ser identificado, consequentemente não faz nada. E, não fazendo nada, todas as coisas podem ser feitas.
"As estações têm os seus inícios e os seus fins. As gerações mudam e mudam. A boa e a má fortuna alternam, trazendo a tristeza aqui, a felicidade ali.
Nunca eu, nunca ali, benigno.
Aquele que obstinadamente vê as coisas apenas do seu próprio ponto de vista, pode estar certo num caso e errado noutro. Assim como numa grande selva todos os tipos de arbustos são encontrados juntos; ou como numa montanha se vêem árvores e pedras misturadas indiscriminadamente — é assim que chamamos sociedade."
"Não seria apropriado então", perguntou Shao Chih, "se lhe chamássemos Tao?"
"Não seria apropriado", respondeu T'ai Kung Tiao. "Toda a criação é composta por mais de dez mil coisas. Falamos da criação como as Dez Mil Coisas simplesmente porque é um termo conveniente para expressar um grande número. Em termos de forma externa, o universo é vasto. Em termos de influência, os princípios Positivo e Negativo são poderosos. No entanto, o Tao engloba-os a todos. Por conveniência, o vínculo da sociedade é chamado de grande. Mas como pode aquilo que é assim condicionado
por ter um nome
ser comparado com o Tao? Há uma diferença tão grande entre eles como entre um cavalo e um cão."
"De onde, então", indagou Shao Chih, "vem a vitalidade de todas as coisas entre os quatro pontos cardeais, entre o céu em cima e a terra em baixo?"
"Os princípios Positivo e Negativo", respondeu T'ai Kung Tiao, "influenciam-se, actuam sobre si mesmos e regulam-se mutuamente. As quatro estações alternam-se, dão origem umas às outras e destroem-se. Daí o amor e o ódio, os caminhos rejeitados e os caminhos adoptados. Daí também a relação entre os sexos.
"Estados de perigo e segurança alternam-se. A boa e a má fortuna geram-se uma à outra. Lentidão e velocidade são mutuamente exclusivas. Acumulação e dispersão são correlatas. A realidade disto pode ser observada.
Há o nome e a encarnação.
A essência de cada um pode ser verificada. Existe um movimento regular para a frente, modificado pela deflexão numa curva. A exaustão leva à renovação. O fim introduz um novo começo. Esta é a lei das existências materiais. A força da linguagem, o alcance do conhecimento, não podem ultrapassar os limites de tais existências materiais. O discípulo do Tao abstém-se de bisbilhotar os estados anteriores ou posteriores. A especulação humana não chega a isso."
"Chi Chên", disse Shao Chih, "ensinou o Acaso; Chieh Tzŭ ensinava a Predestinação.
"Dois Sábios." Comentário.
"Nas especulações destas duas escolas, de que lado estava a verdade?"
"O galo canta", respondeu T'ai Kung Tiao, "e o cão ladra. Isso sabemos. Mas o mais sábio de nós não saberia dizer porque é que um canta e o outro ladra, nem adivinhar porque é que cantam ou ladram.
"Deixem-me explicar. O infinitamente pequeno é inapreciável; o infinitamente grande é incomensurável. O acaso e a predestinação devem referir-se ao condicionado. Consequentemente, ambos estão errados.
"A predestinação envolve uma existência real.
De um Deus.
O acaso implica uma ausência absoluta de qualquer princípio. Ter um nome e a sua materialização — isto é ter uma existência material. Não ter nome nem materialização — disso se pode falar e pensar; mas quanto mais se fala, mais se afasta da realidade.
" "A criatura por nascer não pode ser privada da vida.
Tão poderosa é a sua "vontade de viver".
Os mortos não podem ser rastreados. Do nascimento à morte é apenas um intervalo; contudo, o segredo permanece desconhecido. O acaso e a predestinação são apenas soluções a priori.
"Quando procuro um começo, encontro apenas o tempo infinito. Quando olho para o fim, vejo apenas o tempo infinito. A infinitude do tempo passado e futuro implica que não há fim." A descaroçagem está de acordo com as leis da existência material. A predestinação e o acaso dão-nos um começo, mas um começo compatível apenas com a existência da matéria.
E não com o tempo anterior à existência da matéria.
"O Tao não pode existir. Se existisse, não poderia não existir. O próprio nome Tao foi adoptado apenas por conveniência. A predestinação e o acaso limitam-se à existência material. Como podem influenciar o infinito?
"Se a linguagem fosse adequada, bastaria um dia para expor o Tao por completo. Como não é adequada, é necessário esse tempo para explicar a existência material. O Tao é algo que transcende a existência material. Não pode ser transmitido nem por palavras nem pelo silêncio. Neste estado que não é nem fala nem silêncio, a sua natureza transcendental pode ser apreendida."
"Com este ensaio na China", diz Lin Hsi Chung, "qual a necessidade de procurar livros budistas no Ocidente?"
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 26. Fatalidade
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2026-06-29T17:27:13Z
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CAPÍTULO XXVI.
Contingências.
Argumento: —O externo é incerto —O interno é o único inofensivo —A vida e a morte são externas —A única alma está sob o controlo do homem —A insensatez do mundanismo —Ilustrações.
As contingências são incertas. Daí a decapitação de Lung Feng, o estripamento de Pi Kan, o entusiasmo de Chi Tzu, a morte de Wu Lai, as fugas de Chieh e Zhou.
Ver pp. 40, 72. Wu Lai era um oficial intriguista que ocupava um cargo sob o comando do tirano Zhou Xin.
Nenhum soberano deixaria de ter ministros leais; contudo, a lealdade não inspira necessariamente confiança. Por isso Wu Yuan encontrou um túmulo no rio;
Ver p. 221.
e Ch'ang Hung pereceram em Shu, o seu sangue, depois de ter sido preservado durante três anos, transformando-se em jade verde.
Nenhum pai deixaria de ter filhos filiados; Contudo, a piedade filial não inspira necessariamente amor. Por isso, Hsiao Chi lamentou-se e Tsêng Shên entristeceu-se.
O primeiro, príncipe da Casa de Yin, foi expulso de casa pela madrasta. O segundo, um dos discípulos de Confúcio e um raro exemplo de piedade filial, lamentou-se porque a mãe era demasiado velha para lhe dar uma sova. Veja p. 100.
A madeira esfregada em madeira produz fogo. O metal exposto ao fogo liquefaz-se. Se os princípios Positivo e Negativo operam em desarmonia, o céu e a terra são gravemente perturbados. O trovão ribomba e, com a chuva, vem o relâmpago, queimando as altas acácias. Tem-se o receio de que o céu e a terra desabem sem deixar escapatória. Incapaz de se perder, o coração sente-se como se estivesse suspenso entre o céu e a terra.
Assim, na luta entre a paz e a inquietação, no atrito entre o bem e o mal, desenvolve-se muito fogo, consumindo a harmonia interior do homem. Mas a mente é incapaz de resistir ao fogo. Foi destruído, e com ele o Tao chegou ao fim.
Como a família de Chuang Tzŭ era pobre, foi pedir emprestado um pouco de milho ao príncipe de Chien-ho.
"Sim", disse o príncipe. "Estou quase a terminar de recolher os rendimentos do meu feudo e depois emprestar-lhe-ei trezentas onças de prata. Serve?"
Ao ouvir isto, Chuang Tzŭ ficou furioso e disse: "Ontem, enquanto caminhava, ouvi uma voz a chamar-me. Olhei para trás e, no sulco da carroça, vi um peixe-espinho.
"'E o que é que queres, peixe-espinho?', perguntei.
"'Sou um habitante do oceano oriental', respondeu o peixe-espinho. 'Por favor, senhor, um copo de água para salvar a minha vida'.
"'Sim', disse eu. 'Vou para o sul visitar os príncipes de Wu e Yüeh. Trarei um pouco do rio ocidental para si. Serve?'
" "Ao ouvir isto, o peixe-espinho ficou furioso e disse: 'Estou fora do meu elemento. Não tenho para onde ir. Um copo de água salvar-me-ia. Mas falar comigo assim... é melhor meter-me já numa peixaria.'"
O episódio acima é condenado por Lin Hsi Chung pela sua falta de estilo.
Jên Kung Tzŭ
Um jovem nobre do Estado Jen.
Pegou num anzol enorme numa linha grossa, que iscou com cinquenta bois. Agachou-se em Kuei-chi e lançou a linha no oceano oriental. Pescou todos os dias, mas durante um ano inteiro não apanhou nada. De seguida, surgiu um enorme peixe que engoliu o isco e, arrastando o anzol gigante, mergulhou. De um lado para o outro, debatia-se, erguendo a barbatana dorsal. As ondas brancas erguiam-se como montanhas. O grande abismo foi agitado. O barulho era como o de muitos demónios, aterrorizando as pessoas a quilómetros de distância.
Mas quando Jên Kung Tzŭ conseguiu o seu peixe, cortou-o e salgou-o. E de Chih-ho para o leste, e de Ts'ang-wu para o norte, ninguém deixou de se fartar daquele peixe. Mesmo entre as gerações seguintes, os boémios da época contavam a maravilhosa história.
Pegar numa cana e linha, ir a um lago e pescar peixinhos é muito diferente de pescar peixes grandes. E conseguir um pouco de dinheiro com uma pequena demonstração de habilidade é muito diferente de realmente abrir caminho até à liderança. Portanto, aqueles que não imitarem o exemplo de Jên Kung Tzŭ estarão muito longe de se tornarem líderes na sua geração.
Também falso.
Quando alguns confucionistas estavam a abrir uma sepultura de acordo com os seus Cânones de Poesia e Ritos, o mestre gritou: "O dia está a nascer. Como estão a correr com o trabalho?".
"Ainda não tirei a roupa de enterro", respondeu um aprendiz. "Há uma pérola na boca".
Ora, o Cânone da Poesia diz:
O milho mais verde
Cresce sobre os túmulos.
Em vida, não há caridade;
Na morte, não há pérola.
Assim, agarrando a testa do cadáver com uma mão e forçando o queixo para baixo com a outra, estes confucionistas procedem a bater-lhe nas faces com um martelo de metal, de modo a fazer com que as mandíbulas se abram suavemente e não danifiquem a pérola!
O excerto acima, considerado falso por Lin Hsi Chung, é dirigido aos confucionistas, que estão prontos a cometer qualquer ultraje contra o sentimento natural, desde que não haja violação dos detalhes do seu próprio sistema artificial.
Um discípulo de Lao Lai Tzu
Um sábio do Estado Chu.
Enquanto recolhia lenha, encontrou Confúcio por acaso. Ao regressar, disse: "Há ali um homem com um corpo comprido e curto Pernas caídas, ombros arredondados e orelhas caídas. Ele parece estar a sofrer pela humanidade. Não sei quem ele possa ser."
"É Confúcio!" exclamou Lao Lai Tzu. "Mandem-no vir aqui."
Quando Confúcio chegou, Lao Lai Tzu dirigiu-se-lhe da seguinte forma:
"Confúcio! Livre-se do seu dogmatismo e do seu conhecimento superficial, e será verdadeiramente um homem superior."
Confúcio inclinou-se e estava prestes a retirar-se, quando subitamente a sua expressão se alterou e perguntou: "Serei então capaz de entrar no Tao?"
"As feridas de uma geração serem demais", respondeu Lao Lai Tzu, "assumirias as dores de todos os tempos. Não estás cansado? As tuas forças são suficientes para a tarefa?"
"Usar a bondade como passaporte para influenciar através da gratificação alheia é uma vergonha eterna. No entanto, este é o caminho comum de todos: atrair as pessoas com a fama, prendê-las por laços de gratificação.
Melhor do que exaltar Yao e amaldiçoar Chieh é o esquecimento de ambos, guardando os elogios para si. Estas coisas reagem de forma prejudicial ao próprio indivíduo; a agitação do movimento resulta em desvio.
O verdadeiro Sábio é um agente passivo. Se obtém sucesso, sente simplesmente que lhe foi fornecida, sem qualquer esforço próprio, a energia necessária para tal."
O Príncipe Yuan da Dinastia Song sonhou certa noite que um homem de cabelo despenteado espreitava por uma porta lateral e dizia: "Vim das águas de Tsai-lu. Sou um mensageiro marítimo ligado ao bastão do Deus do Rio. Um pescador, chamado Yu Ch'ieh, capturou-me."
Ao acordar, o príncipe relatou o seu sonho aos adivinhos, que disseram: "Esta é uma tartaruga divina".
"Há algum pescador", perguntou o príncipe, "chamado Yü Ch'ieh?"
Ao saber que sim, o príncipe ordenou-lhe que comparecesse na corte; e no dia seguinte, Yü Ch'ieh foi recebido.
"Pescador", disse o príncipe, "o que pescaste?"
"Apanhei uma tartaruga branca", respondeu o pescador, "com um metro e meio de circunferência".
"Traga a sua tartaruga", disse o príncipe. Mas quando ela chegou, o príncipe não conseguia decidir se a matava ou se a mantinha viva. Assim, na dúvida, recorreu à adivinhação e recebeu a seguinte resposta:
"Mate a tartaruga para efeitos de adivinhação e terá boa sorte."
Então, a tartaruga foi sacrificada. Depois disso, de setenta e dois presságios tomados, nenhum se provou falso.
"Uma tartaruga divina", disse Confúcio, "pode aparecer ao príncipe Yuan num sonho, mas não pode escapar à rede de Yu Ch'ieh. A sua sabedoria pode render setenta e dois presságios perfeitos, mas não pode escapar à miséria de ser cortada em pedaços. Verdadeiramente, a sabedoria tem os seus limites; a espiritualidade, aquilo que não pode alcançar.
"Apesar da sabedoria suprema, existem inúmeras armadilhas a evitar. Se um peixe não tiver de temer as redes, haverá sempre pelicanos. Livre-se da sabedoria mesquinha e a grande sabedoria brilhará sobre si. Abandone a bondade e será naturalmente bom." Uma criança não aprende a falar porque é ensinada por professores da arte, mas sim porque vive entre pessoas que também sabem falar.
Hui Tzŭ disse a Chuang Tzŭ: "O seu tema, senhor, é o inútil."
"É preciso compreender o inútil", respondeu Chuang Tzŭ, "antes de poder discutir o útil.
"Por exemplo, a Terra tem proporções imensas, mas o homem usa dela apenas o que cabe na planta do seu pé. De vez em quando, levanta os dedos e desce dela até à Fonte Amarela. Será que tem mais alguma utilidade para ela?"
"Nenhum", respondeu Hui Tzŭ.
"E da mesma forma", respondeu Chuang Tzŭ, "pode demonstrar-se o uso do inútil.
"Se um homem pudesse transcender os limites do humano", disse Chuang Tzŭ, "não o faria? Incapaz de o fazer, como poderia ter sucesso?"
"Por exemplo, a Terra é imensa, mas o homem não a utiliza. "A determinação de se retirar, de renunciar ao mundo — que pena! — não é fruto da sabedoria perfeita nem da virtude imaculada. Perante os cataclismos que se aproximam, não recuam; nem se intimidam com a aproximação do fogo devorador. Embora existam distinções de classe entre altos e baixos, estas são apenas temporárias e, nas condições transformadas de uma nova esfera, tornam-se desconhecidas.
No estado transcendental.
"Por isso se diz: 'O homem perfeito não deixa rasto'.
"Por exemplo, glorificar o passado e condenar o presente sempre foi o caminho do erudito.
Laudator temporis acti.
Contudo, se Hsi Wei Shih e indivíduos desta classe
Sci. patriarcas.
foram trazidos de volta aos dias de hoje, qual deles não se adaptaria à época?
"Só o homem perfeito pode transcender os limites do humano sem se retirar do mundo, viver em harmonia com a humanidade sem sofrer qualquer dano." Ele nada aprende com os ensinamentos do mundo. Possui dentro de si aquilo que o torna independente dos outros.
"Se o olho estiver desobstruído, o resultado é a visão. Se o ouvido estiver desobstruído, o resultado é a audição. Se o nariz estiver desobstruído, o resultado é o olfato. Se a boca estiver desobstruída, o resultado é o paladar. Se a mente estiver desobstruída, o resultado é a sabedoria. Se a sabedoria estiver desobstruída, o resultado é Tê."
"Tao pode n Não se deve obstruir. Obstruir é estrangular. Isto afeta a base, e todos os males surgem.
"Todos os seres sencientes dependem da respiração. Se esta não lhes chega em quantidade suficiente, não é culpa de Deus. Deus providencia-a dia e noite sem cessar, mas o homem impede a passagem.
"O homem tem para si um domínio vasto. A sua mente pode vaguear até ao céu. Se não houver espaço na casa, a esposa e a sogra entram em conflito. Se a mente não pode vaguear até ao céu, as faculdades estarão em estado de antagonismo. Aqueles que desejam beneficiar a humanidade com florestas profundas ou montanhas imponentes simplesmente não são capazes de suportar a pressão sobre as suas naturezas superiores.
É por essa razão que se tornam eremitas.
" "A virtude mal administrada conduz à má reputação. A má reputação leva à notoriedade. A intriga gera confusão. O conhecimento gera contendas. A obstinação produz estupidez. Um governo organizado é para o bem comum de todos.
"As chuvas da Primavera chegam na época certa, e as plantas e os arbustos brotam da terra. A sacha e o cuidado não começam até que estas plantas e arbustos tenham atingido mais de metade do seu crescimento, e sem que se tenha consciência disso.
"O repouso dá saúde aos doentes. Esfregar as pálpebras remove as rugas da velhice. O silêncio dissipa as ansiedades. Estes remédios, porém, são recurso apenas daqueles que deles necessitam. Outros, livres de tais males, não lhes prestam atenção.
"Aquilo que o verdadeiro Sábio admira no império não exige a atenção do homem divino. Aquilo que o homem verdadeiramente virtuoso admira na sua própria esfera não exige a atenção do verdadeiro Sábio." Aquilo que o homem superior admira no seu Estado não merece a atenção do homem verdadeiramente virtuoso. A forma como o homem comum se adapta à sua época não merece a atenção do homem superior.
"O guardião do Portão de Yen.
Da capital do Estado Song.
Tendo-se maltratado severamente em consequência da morte dos seus pais, recebeu um alto cargo oficial.
Em recompensa pela sua piedade filial.
Os seus familiares, então, maltrataram-se, e cerca de metade deles morreu.
Na vã tentativa de obter recompensas semelhantes.
"Yao ofereceu o império a Hsü Yu, mas Hsü Yu fugiu. T'ang ofereceu-o a Wu Kuang, mas Wu Kuang recusou, furioso.
" Ver pp. 6, 72.
"Quando Chi T'o soube da fuga de Hsü Yu, levou consigo todos os seus discípulos e saltou para o rio K'uan;
como tributo à sua eminente virtude.
por isso, os vários príncipes feudais lamentaram-se durante três anos,
não renunciaram aos seus feudos por causa do seu exemplo.
e Shên T'u Ti mandou encher o rio.
temendo atos imprudentes semelhantes. Para nomes, ver pp. 6, 72.
"A razão de ser de uma armadilha para peixes é o peixe. Quando o peixe é apanhado, a armadilha pode ser ignorada. A razão de ser de uma armadilha para coelhos é o coelho. Quando o coelho é apanhado, a armadilha pode ser ignorada. A razão de ser da linguagem é uma ideia a ser expressa. Quando a ideia é expressa, a linguagem pode ser ignorada. Mas onde encontrarei um homem que ignore a linguagem, com quem eu possa conversar?"
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 27. Verbo e palavras
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2026-06-29T17:28:11Z
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CAPÍTULO XXVII.
Linguagem.
Argumento:—A fala, natural e artificial—A fala natural em harmonia com o divino—O destino—A causa última—A purificação da alma—Ilustrações.
Da linguagem colocada na boca de outras pessoas, nove décimos terão sucesso. Da linguagem baseada numa autoridade sólida, sete décimos. Mas a linguagem que flui constantemente, como de um cálice cheio, está em harmonia com Deus.
Os transbordamentos naturais do coração.
Quando a linguagem é colocada na boca de outras pessoas, procura-se apoio externo. Assim como um pai não negoceia o casamento do seu filho; pois qualquer elogio que pudesse oferecer não teria o mesmo valor que o elogio de um estranho. Portanto, a culpa não é minha, mas dos outros.
Que não acreditarão no orador original.
Ao que concorda com as nossas próprias opiniões, assentimos; ao que não concorda, discordamos. Consideramos correto o que concorda com a nossa própria opinião. Consideramos errado aquilo que diverge da nossa opinião. A linguagem baseada na autoridade substancial é utilizada para impedir qualquer argumento posterior. As autoridades são os nossos superiores, os nossos mais velhos em idade. Mas se lhes falta o conhecimento e a experiência necessários, sendo nossos superiores apenas em termos de idade, então não são nossos superiores. E se os homens não são superiores aos seus semelhantes, ninguém se preocupa com eles. E aqueles com quem ninguém se preocupa são simplesmente obsoletos.
A linguagem que flui constantemente, como de um cálice cheio, está em harmonia com Deus.
Abraçando o positivo e o negativo num só.
Porque se espalha por todo o lado, perdura para sempre. Sem linguagem, os contrários são idênticos. A identidade não é idêntica à sua expressão: a expressão não é idêntica à sua identidade. Portanto, já se disse: A linguagem não expressa em linguagem não é linguagem. Constantemente falada, é como se não fosse falada. Constantemente não falada, não é como se não fosse falada.
Do ponto de vista subjetivo, existem possibilidades e impossibilidades, adequaçãos e inadequações. Isto resulta da afinidade natural das coisas com aquilo que são e do seu antagonismo natural com aquilo que não são. Pois todas as coisas têm as suas próprias constituições e potencialidades particulares. Nada pode existir sem elas.
Ver p. 19.
Mas, para uma linguagem que flui constantemente, como de um cálice cheio, e está em harmonia com Deus, como se poderia alcançar a permanência?
Todas as coisas brotam de germes. Sob muitas formas diversas, estas coisas estão sempre a ser reproduzidas. Girando e girando, como uma roda, nenhuma parte da qual é mais o ponto de partida do que qualquer outra. A isto se chama equilíbrio de Deus. E aquele que segura a balança é Deus.
Aludindo à filosofia da identidade, que significa, nas palavras de Emerson, "que a natureza itera os seus meios perpetuamente em planos sucessivos... Toda a arte da planta é ainda repetir folha sobre folha sem fim."
Chuang Tzŭ disse a Hui Tzŭ: "Quando Confúcio fez sessenta anos, mudou de opinião. O que antes considerava certo, passou a considerar errado. Mas quem pode afirmar que o certo de hoje não é tão errado como o errado dos cinquenta e nove anos anteriores?"
Ver p. 345.
"Era um trabalhador perseverante", respondeu Hui Tzŭ, "e a sua sabedoria aumentava de dia para dia."
A sua conversão não foi um ato esporádico.
"Confúcio", respondeu Chuang Tzŭ, "descartou tanto a perseverança como a sabedoria, mas não tentou formular a doutrina por palavras. Disse: 'O homem recebeu os seus talentos de Deus, juntamente com uma alma para lhes dar vida. Deve falar de acordo com as leis estabelecidas. As suas palavras devem estar em harmonia com a ordem estabelecida. A vantagem pessoal e o dever para com o próximo estão diante de nós. Os gostos e os desgostos, certos e errados, são apenas como os homens escolhem chamar-lhes. Mas trazer submissão aos corações dos homens, para que não sejam obstinados, e assim firmar firmemente os alicerces do império — a isto, infelizmente, não alcancei.'"
"Com base no exposto", disse Lin Hsi Chung, "podemos ver que Hui Tzŭ, embora hábil em vencer debates, era inábil em conquistar corações."
Tseng Tzŭ ocupou o cargo por duas vezes. As suas emoções variaram em cada caso.
Ver pp. 100, 352.
"Enquanto os meus pais foram vivos", disse, "eu era feliz com um salário pequeno. Quando passei a ter um salário elevado, mas os meus pais já tinham falecido, fiquei triste."
Um discípulo disse a Confúcio: "Podemos chamar a Tsêng Tzŭ um homem sem preocupações?".
O dinheiro não era problema para ele.
"Ele tinha preocupações", respondeu Confúcio. "Pode um homem sem preocupações sentir tristeza? O seu pequeno salário e o seu elevado salário eram para ele como uma garça ou um mosquito que voa."
Yen Ch’êng Tzŭ Yu disse a Tung Kuo Tzŭ Chi,
Ver p. 324.
"Um ano após receber as suas instruções, tornei-me naturalmente simples. Após dois anos, consegui adaptar-me conforme necessário. Após três anos, compreendi. Após quatro anos, a minha inteligência desenvolveu-se. Após cinco anos, estava completa. Após seis anos, o espírito entrou em mim. Após sete, eu sabia..." Deus. Depois dos oito anos, a vida e a morte deixaram de existir para mim. Depois dos nove, a perfeição.
"A vida tem as suas distinções; mas na morte todos nos tornamos iguais. Que a morte tenha uma origem, mas que a vida não tenha origem — pode isto ser assim? O que determina a sua presença num lugar e a sua ausência noutro?
"O céu tem a sua ordem fixa.
Visível a todos.
A Terra revelou os seus segredos ao homem. Mas onde procurar a origem de mim?
"Sem conhecer o além, como podemos negar a operação do Destino? Sem saber o que precedeu o nascimento, como podemos afirmar a operação do Destino? Quando as coisas acontecem como devem, quem dirá que a ação não é sobrenatural? Quando as coisas acontecem de outra forma, quem dirá que é?"
" As várias Penumbras disseram à Umbra: "Antes olhavas para baixo, agora olhas para cima. Antes tinha o cabelo apanhado, agora está solto. Antes estava sentada, agora levantou-se. Antes movia-se, agora está parada. Como é possível?"
"Senhores", respondeu a Umbra, "a pergunta quase não vale a pena ser feita.
As causas últimas são incognoscíveis.
Eu faço essas coisas, mas não sei porquê. Sou como as escamas da cigarra, a carapaça do gafanhoto — aparentemente independente, mas não realmente. À luz do fogo ou à luz do dia, sou vista; na escuridão ou à noite, desapareço. E se dependo delas, quanto mais dependem de algo mais? Quando vêm, vou com elas. Quando se vão embora, eu vou com elas. Quando vivem, eu vivo com elas. Mas quem é que dá a vida, como poderemos descobrir?"
Repetido, com variações, do capítulo ii. Yang Tzŭ Chü
Ver pág. 100.
Seguiu para sul, até P’ei, e quando Lao Tzŭ viajava para oeste, em direcção a Ch’in, apressou-se a recebê-lo nos arredores da cidade. Ao chegar à ponte, encontrou Lao Tzŭ; e este, parado no meio da estrada, olhou para o céu e disse com um suspiro: "A princípio pensei que pudesse ser ensinado. Agora penso que não."
Yang Tzŭ Chü não respondeu, mas quando chegaram à estalagem, entregou a Lao Tzŭ água para lavar e enxaguar, bem como uma toalha e um pente. Em seguida, tirou as próprias botas do lado de fora da porta e, rastejando de joelhos até à presença do Mestre, disse: "Eu desejava pedir-lhe instrução, senhor, mas como o senhor estava viajando e não tinha tempo livre, não me atrevi. Agora o senhor tem tempo livre. Posso perguntar o motivo do que disse?"
Yang Tzŭ Chü não respondeu. "Tem um semblante arrogante", disse Lao Tzu. "Quem gostaria de conviver com um homem assim? Aquele que é verdadeiramente puro comporta-se como se estivesse impuro. Aquele que possui virtude em abundância comporta-se como se não lhe bastasse."
Estas duas últimas frases constam do Tao Te Ching, capítulo 41, e também das obras de Lieh Tzu, como parte do próprio texto do autor. Ver Os Restos Mortais de Lao Tzu, p. 29.
Yang Tzu Chü mudou de expressão ao ouvir isto e respondeu: "Ouvi e obedeço."
Ora, quando Yang Tzu Chü chegou à estalagem, os hóspedes saíram para o receber. O anfitrião arrumou o seu tapete, enquanto a dona da estalagem lhe ofereceu uma toalha e um pente. Os hóspedes cederam-lhe os melhores lugares, e aqueles que estavam a cozinhar deixaram-lhe o fogão livre. Mas quando voltou,
Após a sua entrevista com Lao Tzu.
Os outros visitantes lutavam para conseguir os melhores lugares.
Tão transformado estava o seu espírito.
Lin Hsi Chung considera que este capítulo deveria preceder imediatamente o que é agora o capítulo XXXII, do qual foi separado pela interpolação dos quatro capítulos seguintes, todos eles reconhecidamente espúrios.
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 28. Independência
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2026-06-29T17:29:18Z
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[[Ajuda:SEA|←]] nova página: CAPÍTULO XXVIII. Sobre o Declínio do Poder. [Espúrio.] YAO ofereceu a renúncia do império a Hsü Yu, mas este recusou. De seguida, ofereceu-o a Tzŭ Chou Chih Fu, que disse: "Não há objeção em tornar-me imperador. Mas, neste momento, estou a sofrer de uma doença incómoda e estou a tentar curá-la. Não tenho tempo livre para cuidar do império." Ora, o império é de primordial importância. Contudo, eis um homem que não permitiria que isso p...
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CAPÍTULO XXVIII.
Sobre o Declínio do Poder.
[Espúrio.]
YAO ofereceu a renúncia do império a Hsü Yu, mas este recusou.
De seguida, ofereceu-o a Tzŭ Chou Chih Fu, que disse: "Não há objeção em tornar-me imperador. Mas, neste momento, estou a sofrer de uma doença incómoda e estou a tentar curá-la. Não tenho tempo livre para cuidar do império."
Ora, o império é de primordial importância. Contudo, eis um homem que não permitiria que isso prejudicasse a sua hipótese de vida. Quanto menos permitiria que outras coisas o fizessem? No entanto, só aquele que não interfere no governo é digno de receber a confiança para governar o império.
As personagens que não foram anteriormente mencionadas podem ser consideradas alegóricas.
Shun ofereceu a renúncia do império a Tzŭ Chou Chih Poh. Este disse: "Neste momento, sofro de uma doença incómoda e estou empenhado em curá-la. Não tenho tempo livre para cuidar do império."
Ora, o império é uma grande responsabilidade; mas não sacrificar a própria vida por ele é precisamente onde o homem do Tao se diferencia do homem do mundo.
Shun ofereceu a Shan Chuan a renúncia ao império. Shan Chuan disse: "Sou uma unidade na soma do universo. No Inverno, visto roupas de pele. No Verão, visto roupas de palha. Na Primavera, aro e semeio, labutando com o meu corpo. No Outono, colho a colheita e dedico-me ao descanso e ao prazer. Ao amanhecer, vou trabalhar; ao pôr-do-sol, paro. Contente com o meu destino, sigo pela vida com o coração leve. Por que razão, então, me deveria preocupar com o império? Ah, senhor, o senhor não me conhece."
Assim, recusou e, posteriormente, escondeu-se nas montanhas, ninguém sabia onde.
Shun ofereceu o império a um amigo, um trabalhador de Shih Hu.
"Senhor", disse este último, "esforça-se demasiado. O principal é gerir as próprias forças";—querendo dizer que Shun ainda não tinha alcançado a verdadeira virtude.
Então, marido e mulher, levando consigo os seus ídolos domésticos e os seus filhos, partiram para o mar e nunca mais regressaram.
Quando T'ai Wang Shan Fu ocupava Pin, foi atacado por selvagens. Ofereceu-lhes peles e seda, mas eles recusaram. Ofereceu-lhes cães e cavalos, mas eles também recusaram. De seguida, ofereceu-lhes pérolas e jade, mas também recusaram. O que eles queriam era o território.
"Viver com um irmão mais velho", disse T'ai Wang Shan Fu,
dirigindo-se ao seu próprio povo.
"E matar o seu irmão mais novo; viver com o pai de um homem e matar o seu filho — isso eu não suportaria fazer. Virei-me para ficar aqui. Ser meus súbditos ou súbditos destes selvagens, qual é a diferença? Além disso, ouvi dizer que não devemos deixar que aquilo que se destina a nutrir a vida se torne prejudicial à vida."
Aludindo ao "território".
Então, pegou no seu cajado e partiu. O seu povo seguiu-o e fundou um novo Estado no sopé do Monte Chi.
Ora, T'ai Wang Shan Fu tinha, sem dúvida, o devido respeito pela vida. E aqueles que têm o devido respeito pela vida, se ricos e poderosos, não permitem que aquilo que deveria nutrir prejudique o corpo. Se pobres e humildes, não permitem que o ganho os envolva em desgaste físico.
Mas os homens da geração atual, que ocupam posições de poder e influência, têm medo de perder o que conquistaram. Assim que vêem uma hipótese de ganho, abandonam toda a preocupação com os seus corpos. Não será isso motivo de confusão?
Em três ocasiões sucessivas, o povo de Yüeh tinha executado o seu príncipe. Consequentemente, Shou, filho do último príncipe, ficou muito alarmado e fugiu para Tan Hsüeh, deixando o Estado de Yüeh sem governante.
Shou estava inicialmente desaparecido, mas foi finalmente localizado em Tan Hsüeh. Contudo, recusou-se a apresentar-se, então expulsaram-no com moxa. Prepararam-lhe uma carruagem real; e quando Shou agarrou a corda para subir para o carro, olhou para o céu e exclamou: "Oh! governando, governando, não me podiam ter poupado a isso?".
Não era que Shou se opusesse a ser príncipe. Opunha-se aos perigos associados a tais posições. Um príncipe era incapaz de sacrificar a sua vida pelo Estado, e precisamente por essa razão o povo de Yüeh queria capturá-lo.
Os Estados de Han e Wei lutavam para anexar o território um do outro quando Tzŭ Hua Tzŭ foi visitar o príncipe Chao Hsi. Encontrando-o muito abatido, Tzŭ Hua Tzŭ disse: "Suponha que os representantes dos vários Estados assinavam um acordo perante Vossa Alteza, segundo o qual, embora cortar a mão esquerda implicasse a perda da direita, e cortar a direita implicasse a perda da esquerda, quem cortasse qualquer uma delas se tornaria imperador de todos — Vossa Alteza cortaria?"
"Não cortaria", respondeu o príncipe.
"Muito bem", disse Tzŭ Hua Tzŭ. "É claro, portanto, que os dois braços valem mais do que o império. E o corpo vale mais do que os braços, enquanto o Estado de Han é infinitamente menos importante do que o império. Além disso, o que vocês estão a disputar é de i "Infinitamente menos importante do que o Estado de Han. Mesmo assim, Vossa Alteza está a desgastar-se de corpo e alma em medo e ansiedade, receosa de não o alcançar."
"Muito bem!" exclamou o príncipe. "Muitos aconselharam-me, mas nunca ouvi nada assim."
A partir disto, podemos inferir que Tzŭ Hua Tzŭ sabia a diferença entre o que era importante e o que não era.
O príncipe de Lu, ao saber que Yen Ho tinha alcançado o Tao, enviou mensageiros com presentes para estabelecer comunicação.
Yen Ho vivia numa choupana. Vestia roupas de palha grossa e ocupava-se a cuidar de bois.
Quando os mensageiros chegaram, Yen Ho saiu ao seu encontro; perguntaram então: "É aqui que vive Yen Ho?"
"Esta é a casa de Yen Ho", respondeu.
Os mensageiros trouxeram então os presentes; mas Yen Ho disse: "Receio que se tenham enganado." E como pode arranjar problemas, seria bom voltar e certificar-se."
Assim fizeram os mensageiros. Quando regressaram, porém, não encontraram qualquer vestígio de Yen Ho. É por isso que homens como Yen Ho detestam a riqueza e o poder.
Por isso, diz-se que a melhor parte do Tao serve para o autocultivo, o excedente para governar um Estado e a sobra para governar um império. Daqui podemos inferir que os grandes feitos dos reis e dos príncipes são apenas os restos do Sábio. Para preservar o corpo e nutrir a vitalidade, são inúteis. Contudo, os homens superiores de hoje põem os seus corpos em perigo e desperdiçam as suas vidas na sua ganância pelas coisas deste mundo. Não é lamentável?
O verdadeiro Sábio, em todas as suas ações, considera o porquê e o para quê. Mas há quem hoje em dia use a pérola do príncipe de Sui para disparar sobre um pássaro a mil metros de distância.
Uma jóia maravilhosamente brilhante, de uma "carruagem de dez" iluminadora. poder.
E o mundo, claro, ri-se deles. Por quê? Porque sacrificam o maior para obter o mais pequeno. Mas certamente que a vida é mais importante até do que a pérola do príncipe!
Lieh Tzŭ era pobre. O seu rosto demonstrava fome.
Um dia, um visitante mencionou-o a Tzŭ Yang,
Primeiro-Ministro.
de Chêng, dizendo: "Lieh Tzŭ é um erudito que atingiu o Tao. Vive no Estado de Vossa Excelência e, no entanto, é pobre. Pode dizer-se que Vossa Excelência não ama os eruditos?"
Então, Tzŭ Yang ordenou a Lieh Tzŭ que recebesse comida. Mas quando Lieh Tzŭ viu os mensageiros, inclinou-se duas vezes e recusou.
Quando os mensageiros partiram e Lieh Tzŭ entrou, a sua mulher olhou para ele e, batendo no peito, disse: "Ouvi dizer que a mulher e os filhos de um homem do Tao são felizes e alegres. Mas vejam como tenho fome." "Sua Excelência enviou-lhe comida, e você recusou-a. Não será isto desafiar a Providência?"
"Sua Excelência não me conhecia pessoalmente", respondeu Lieh Tzŭ com um sorriso. "Foi por causa do que outros disseram sobre mim que ele me enviou a comida. Se então as pessoas falassem mal de mim, ele também agiria em conformidade. Por essa razão, recusei a comida."
Posteriormente, houve problemas entre o povo de Cheng, e Tzŭ Yang foi morto.
Quando o Príncipe Chao do Estado de Ch'u perdeu o seu reino, foi seguido para o exílio pelo seu carniceiro, chamado Yüeh.
Ao ser restaurado, enquanto distribuía recompensas àqueles que lhe permaneciam fiéis, deparou-se com o nome de Yüeh.
Yuëh, no entanto, disse: "Quando o príncipe perdeu o seu reino, eu perdi o meu talho. Agora que o príncipe recuperou o seu reino, recuperei o meu talho. Recuperei o meu cargo e o meu salário." "Que necessidade de mais recompensa?"
Ao ouvir isto, o príncipe ordenou que lhe fosse dada a sua recompensa.
"Não foi por minha culpa", argumentou Yüeh, "que o príncipe perdeu o reino, e eu não deveria ter recebido o castigo. Nem foi por minha causa que ele o recuperou e, por isso, não posso aceitar a recompensa."
Quando o príncipe ouviu esta resposta, ordenou que Yüeh fosse trazido à sua presença. Mas Yüeh disse: "As leis do Estado Ch'u exigem que um súbdito tenha merecido excepcionalmente bem o favor do seu príncipe antes de ser admitido em audiência. Ora, a minha sabedoria foi insuficiente para preservar este reino, e a minha coragem, insuficiente para destruir os invasores. Quando os soldados Wu entraram em Ying, temi pela minha vida e fugi. Foi por isso que segui o príncipe." E se agora o príncipe deseja ignorar a lei e o costume e convocar-me para uma audiência, não é isso que considero um comportamento adequado da sua parte."
"Yüeh", disse o príncipe a Tzŭ Chi, o seu mestre de cavalos, "ocupa uma posição humilde; contudo, os seus princípios são dos mais elevados. Vá, nomeie-o San Ching."
"Estou ciente", respondeu Yüeh ao mestre de cavalos, "de que o cargo de San Ching é mais honroso do que o de talhante. E estou ciente de que a remuneração é mais elevada do que a que recebo atualmente. Ainda assim, como ambiciono a promoção e o salário, não posso permitir que o meu príncipe ganhe a reputação de ser imprudente no seu patrocínio. Devo recusar. Deixem-me voltar ao meu trabalho de talhante."
E manteve a sua recusa.
Yüan Hsien Yüan Hsien vivia em Lu, numa cabana de barro com um tecto de palha, uma porta minúscula e duas amoreiras como batentes. As janelas que iluminavam as suas duas divisões não eram maiores do que a boca de um jarro e estavam fechadas por um monte de roupa velha. A cabana tinha goteiras e era húmida; mesmo assim, Yüan Hsien estava ali sentado, gravemente, a tocar guitarra.
Tzŭ Kung chegou num belo carro, vestindo uma túnica branca forrada de púrpura; mas a capota do carro era demasiado grande para a rua.
Quando foi visitar Yüan Hsien, este veio à porta com um chapéu florido, os sapatos no calcanhar e apoiado num talo.
"Meu Deus!" exclamou Tzŭ Kung, "o que te aconteceu?"
"Tzŭ Kung!" "Ouvi dizer", respondeu Yuan Xien, "que quem não tem riquezas é chamado pobre, e que quem aprende sem poder praticar é considerado como tendo algum problema. Ora, eu sou apenas pobre; não tenho nenhum problema."
Tzu Kung ficou muito envergonhado com esta resposta; ao que Yuan Xien, sorrindo, continuou: "Tentar impor-me entre os homens; procurar a amizade através da lisonja mútua; aprender para o bem dos outros; ensinar para meu próprio benefício; usar a benevolência e o dever para com o próximo para fins malignos; ostentar com cavalos e carruagens — essas coisas não posso fazer."
Tzu vivia no Estado de Wei. O seu casaco acolchoado não tinha tecido por cima. O seu rosto era inchado e áspero. As suas mãos e pés eram duros como calos. Havia três dias que não havia fogo; não tinha roupa nova há dez anos. Se ajeitasse o chapéu, a borla soltar-se-ia. Se arregaçasse a manga, o seu cotovelo aparecia. Se ele puxasse o sapato para cima, o salto soltava-se. Mesmo assim, descuidadamente, cantava as Odes Sacrificiais de Shang, a sua voz enchendo todo o céu, como se fosse um instrumento de metal ou de pedra.
O Filho do Céu não conseguiu contratá-lo como ministro. Os príncipes feudais não conseguiram contratá-lo como amigo. Pois aquele que nutre o seu propósito torna-se alheio ao seu corpo. Aquele que nutre o seu corpo torna-se alheio ao ganho. E aquele que alcançou o Tao torna-se alheio à sua mente.
"Vem cá", disse Confúcio a Yen Hui. "A sua família é pobre e a sua posição humilde. Porque não entra para a vida pública?"
"Não desejo", respondeu Yen Hui. "Tenho cinquenta acres de terra para além dos muros da cidade, o suficiente para me abastecer de alimentos. Mais dez dentro dos muros fornecem-me roupa. O meu alaúde proporciona-me toda a diversão que desejo; e o estudo das suas doutrinas mantém-me bastante feliz. Não desejo entrar para a vida pública."
"Bravo! Muito bem dito!" exclamou Confúcio com o semblante radiante. "Já ouvi dizer que os contentes não se enredam na busca do ganho. Que os que realmente conquistaram não temem a possibilidade da perda. Que os que se dedicam ao cultivo do homem interior, mesmo sem ocupar posição alguma, não sentem vergonha. Assim tenho pregado há muito tempo. Só agora, depois de ter visto Yen Hui, me dou conta da veracidade destas palavras."
O Príncipe Mou de Chung-shan disse a Chan Tzŭ: "O meu corpo está no campo, mas o meu coração está na cidade. O que devo fazer?".
"Dê à vida a importância primordial", respondeu Chan Tzŭ, "e as vantagens mundanas deixarão de ter peso."
"Isso eu sei", respondeu o Príncipe; "mas não sou capaz de realizar tal tarefa."
"Se não for capaz disso", disse Chan Tzŭ, "então seria melhor seguir a sua inclinação natural. Não ser capaz de realizar uma tarefa e, ainda assim, obrigar-se a persistir nela — isso é o mesmo que acrescentar uma injustiça a outra. E aqueles que sofrem essa dupla injustiça não pertencem à classe dos longevos."
O príncipe Mou de Wei era herdeiro do trono de um grande Estado. Para ele, tornar-se um eremita entre as colinas era mais difícil do que para um erudito comum vestido de algodão. E embora não tivesse alcançado o Tao, pode dizer-se que estava a caminho.
Quando Confúcio ficou encurralado entre os Ch'êns e os Ts'ais, passou sete dias sem se alimentar devidamente. Comeu sopa de ervas, sem arroz. Parecia muito exausto, mas mesmo assim permaneceu sentado a tocar a sua guitarra e a cantar.
Yen Hui examinava as ervas, enquanto Tzŭ Lu e Tzŭ Kung conversavam. Um deles disse: "O nosso Mestre foi expulso de Lu duas vezes. Não o querem em Wei. A sua árvore foi cortada em Song. Ele meteu-se em problemas em Shang e Zhou. E agora está rodeado pelos Ch'ens e Ts'ais. Quem o matar será considerado inocente. Quem o fizer prisioneiro não poderá ser incomodado. Mesmo assim, ele continua a tocar e a cantar sem parar. Será isto o mais indicado para um homem superior fazer?"
Yen Hui não disse nada, mas entrou e contou a Confúcio, que largou a guitarra e disse com um suspiro alto: "Yu e Tz'ŭ são ignorantes.
Esses eram os seus nomes.
Chamem-nos para virem, e eu falarei com eles."
Quando entraram, Tz'ŭ Lu disse: "Parece que falhámos completamente."
"Como assim?", exclamou Confúcio. "O homem superior que alcança o Tao, alcança o sucesso. Se falhar..." Em Tao, falha. Agora eu, agarrando-me firmemente ao Tao da caridade e do dever para com o próximo, caí no meio dos problemas de uma era desordenada. Que fracasso há nisso?
"Portanto, pelo cultivo do homem interior, não há fracasso em Tao, e quando o perigo chega, não há perda de virtude. É o frio do Inverno, a geada, a neve, que revelam a exuberância do pinheiro e do abeto.
Ver Lun Yü, ix, 27.
Considero uma bênção estar assim situado."
Então, virou-se abruptamente e continuou a tocar e a cantar.
Nesse momento, Tzŭ Lu pegou rapidamente num escudo e começou a dançar ao som da música, enquanto Tzŭ Kung disse: "Não fazia ideia da altura do céu e da profundidade da terra".
Os antigos que alcançaram o Tao eram igualmente felizes tanto no sucesso como no fracasso. A sua felicidade não tinha nada a ver com o fracasso ou o sucesso. Uma vez atingido o Tao, o fracasso e o sucesso tornavam-se meros elos de uma corrente, como o frio, o calor, o vento e a chuva. Assim, Hsü Yu deleitava-se com Ying-yang, e Kung Poh encontrava a felicidade no cimo da colina.
Para onde se retirou após um reinado de 14 anos.
Shun ofereceu a renúncia do império ao seu amigo Pei Jen Wu Tsê.
"Que tipo estranho de homem que você é!" exclamou este último. "Vivendo nos campos arados, trocaste tal vida pelo trono de Yao. E como se isso não bastasse, tenta agora humilhar-me. Tenho vergonha de ti."
Em seguida, afogou-se nas águas de Ch'ing-ling.
"Mas e a preservação da vida?", perguntou Lin Hsi Chung com um sorriso irónico.
Quando T'ang estava prestes a atacar Chieh, foi consultar Pien Sui.
"Não é um assunto em que o possa ajudar", disse Pien Sui.
"Quem pode?", perguntou T'ang.
"Não sei", respondeu Pien Sui.
T'ang foi então consultar Wu Kuang.
"Não é um assunto em que o possa ajudar", disse este.
"Quem pode?", perguntou T'ang.
"Não sei", respondeu Wu Kuang.
"O que achas do I Yin?", perguntou T'ang.
"Obriga-se", disse Wu Kuang, "a tolerar a infâmia. Além disso, nada sei sobre ele".
Então T'ang levou I Yin para os seus conselhos. Atacaram Chieh e o derrotaram.
De seguida, T'ang ofereceu a renúncia do império a favor de Pien Sui. Mas Pien Sui recusou, dizendo: "Quando Vossa Majestade me consultou sobre o ataque a Chieh, considerou-me evidentemente um ladrão.
Quem roubaria território? Mas os homens do Tao não fazem guerras.
Agora que o derrotaste e ofereces a sua demissão em meu favor, consideras-me evidentemente cobiçoso. De facto, nasci numa época conturbada. Mas que um homem sem Tao me insulte assim duas vezes, é mais do que posso suportar."
Então, afogou-se no rio Chou.
Em seguida, Tang ofereceu a demissão a favor de Wu Kuang, dizendo: "O sábio planeia, o corajoso executa, o bom repousa em paz — tal era o Tao dos antigos. Por que razão, senhor, não deveria ocupar o trono?"
Mas Wu Kuang recusou, dizendo: "Depor um governante não é cumprir o dever para com o próximo. Matar o povo não é caridade. Que os outros sofram estas injustiças enquanto eu gozo dos lucros não é honesto. Ouvi dizer que não se deve aceitar um salário a não ser que seja ganho de forma justa; e que se o mundo estiver sem Tao, não se deve pisar o seu solo, muito menos governá-lo! Não posso mais suportá-lo."
Então, pegou numa pedra nas costas e saltou para o rio Lu.
Na ascensão da dinastia Chou, existiam dois eruditos, chamados Po I e Shu Ch'i, que viviam em Ku-tu.
Um deles disse ao outro: "Ouvi dizer que no oeste há homens que aparentemente possuem o Tao. Vamos vê-los."
Referindo-se aos homens de Chou.
Quando chegaram a Ch'i-yang, Wu Wang
O autor referia-se a Wên Wang, pai de Wu Wang.
Ao saberem da sua chegada, enviaram Shu Tan
Chou Kung.
para firmar um tratado com eles. Receberiam emolumentos de segundo grau e a patente de primeiro grau. O tratado seria selado com sangue e enterrado.
Ao dizer isto, os dois entreolharam-se e sorriram. "Ah!", disse um deles, "isso é realmente estranho. Não é o que chamamos Tao."
"Quando Shen Nung governava o império, adorava a Deus sem pedir qualquer recompensa. Por vezes, era a lei que impunha; outras vezes, era a sua influência pessoal que exercia. Era leal e fiel ao seu povo sem procurar nada em troca. Não construiu o seu sucesso sobre a ruína de outrem, nem ascendeu às alturas através da queda alheia, nem aproveitou oportunidades para garantir a sua própria vantagem.
" "Mas agora que os Chous, ao contemplarem as iniquidades dos Yins, assumiram o governo, temos intrigas nos altos escalões e subornos nos baixos escalões. As tropas são mobilizadas para proteger o prestígio. As vítimas são massacradas para demonstrar boa fé num tratado. Uma demonstração de virtude é feita para entreter as massas. As lutas e os massacres tornaram-se meios de ganho. A confusão foi simplesmente trocada pela desordem.
"Ouvi dizer que os homens de outrora, vivendo em tempos de paz, nunca se esquivaram aos seus deveres; mas a leveza..." Em tempos difíceis, nada os faria ficar. O império está agora nas trevas. A virtude dos Chous desvaneceu-se. Unificar o império sob o comando dos Chous seria para nós uma desgraça. Melhor fugir e manter as nossas ações puras."
Assim, estes dois filósofos dirigiram-se para norte, para o Monte Shou-yang, onde posteriormente morreram de inanição.
Homens como Poh I e Shu Ch'i, se lhes fossem concedidas riquezas e honras de tal forma que as pudessem aceitar, não recorreriam certamente a medidas tão heróicas, nem se contentariam em seguir os seus próprios caminhos sem deixar de prestar serviços à sua geração. Tal era a pureza destes dois eruditos.
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 29. Políticos
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CAPÍTULO XXIX.
Ladrão Chê.
[Falso.]
Confúcio era amigo de Liu Xi, cujo irmão mais novo era conhecido por "Ladrão Chê".
Isto é um anacronismo. Liu Xi (ou Hui) foi um virtuoso oficial do Estado de Lu. Prosperou cerca de 80 anos antes da época de Confúcio.
O Ladrão Chê tinha um bando de nove mil seguidores. Devastou todo o império, saqueando os nobres e invadindo casas. Roubava bois e cavalos. Roubava esposas e filhas. Os laços familiares não limitavam a sua ganância. Não tinha respeito pelos pais nem pelos irmãos. Negligenciava o culto aos seus antepassados. Por onde passava, os grandes Estados pegavam em armas, os pequenos procuravam refúgio. Todo o povo estava profundamente aflito.
"Um pai", disse Confúcio a Liu Xia Chi, "deve certamente ser capaz de admoestar o seu filho; um irmão mais velho, de ensinar o seu irmão mais novo. Se assim não for, perde-se o valor destas relações.
"Ora, o senhor é um dos sábios da época, enquanto o seu irmão mais novo é o Ladrão Chê, o flagelo do império. O senhor é incapaz de o ensinar, e eu envergonho-me de si. Permita-me ir falar com ele em seu nome."
"Quanto ao que diz sobre os pais e os irmãos mais velhos", respondeu Liu Xia Chi, "se o filho não ouve o pai, nem o irmão mais novo o mais velho, de que servem os seus argumentos?"
"O que diz o senhor sobre os pais e os irmãos mais velhos?", respondeu Liu Xia Chi, "se o filho não ouve o pai, nem o irmão mais novo o mais velho, de que servem os seus argumentos?" "Além disso, as paixões de Chê são como uma fonte borbulhante. Os seus pensamentos são como um turbilhão. É forte o suficiente para desafiar todos os inimigos. Pode argumentar até que o errado se torne certo. Se seguir as suas inclinações, ele ficará satisfeito. Se se opuser a elas, ele ficará furioso. Não hesita em usar linguagem ofensiva. Não se aproxime dele."
Confúcio não deu atenção a este conselho; mas, com Yen Hui como cocheiro e Tzŭ Kung à sua direita, partiu para ver o Ladrão Chê.
Este último tinha acabado de acampar a sul de T'ai-shan e estava a devorar um prato de fígado humano picado. Confúcio desceu da sua carruagem e, aproximando-se, dirigiu-se ao porteiro da seguinte forma:
"Sou Confúcio do Estado de Lu. Ouvi falar do carácter nobre do seu capitão."
De seguida, saudou respeitosamente o porteiro por duas vezes, e este entrou para anunciar a sua chegada.
Quando o ladrão Chê ouviu quem era, ficou furioso. Os seus olhos brilhavam como estrelas. Os seus cabelos levantaram-lhe o chapéu da cabeça enquanto gritava: "O quê?! Aquele patife astuto, Confúcio de Lu? Vá, diga-lhe, em meu nome, que não passa de um fala-barato. Que diz disparates sobre Wen Wang e Wu Wang. Que usa um chapéu extravagante, com uma tira de couro de boi morto. Que o que diz é, na sua maioria, arrogância. Que consome onde não planta e veste roupas que não tece. Que os seus lábios tagarelam e a sua língua parar.
Sc. Tão.
Que ele faz um grande alarido sobre a piedade filial e o amor fraterno, contentando-se em garantir algum feudo gordo ou cargo de poder. Diga-lhe que merece o pior, e que se não se afastar, o seu fígado estará no meu guisado matinal."
Mas Confúcio enviou outra mensagem, dizendo: "Sou amigo de Liu Xi. Estou ansioso por ver os atacadores dos sapatos do vosso capitão."
Outra interpretação é "aos pés do seu capitão, visíveis por baixo do biombo."
Quando o porteiro transmitiu esta segunda mensagem, o Ladrão Xi disse: "Tragam-no à minha presença!". Imediatamente, Confúcio entrou apressadamente e, evitando o lugar de honra, recuou e fez duas reverências.
O Ladrão Xi, furioso, abriu as pernas e, com a mão na espada, olhou furiosamente para Confúcio e, rugindo como uma tigresa com crias, disse: "Xi! Anda cá. Se o que disseres estiver de acordo com as minhas ideias, viverás. Caso contrário, morrerás."
"Ouvi dizer", respondeu Confúcio, "que o mundo contém três classes de virtude. Crescer alto, de uma beleza incomparável, e assim ser o ídolo de jovens e velhos, de nobres e humildes — esta é a classe mais elevada. Possuir sabedoria que abrange o universo e pode explicar todas as coisas — esta é a classe intermediária. Possuir coragem que resiste à prova e atrai seguidores — esta é a classe mais baixa.
"Ora, qualquer homem cuja virtude pertença a uma destas classes está apto a ocupar o lugar e o título de governante. Mas tu, Capitão, unes as três em ti mesmo. Tens dois metros e quarenta e oito de altura. A tua expressão é muito brilhante. Os teus lábios são vermelhos como o vermelho-vivo. Os teus dentes como uma fileira de conchas. A tua voz é como um belo sino; — no entanto, és conhecido como Ladrão Che. Capitão, coro por ti.
" "Capitão, se me ouvir, irei para sul até Wu e Yüeh, para norte até Ch'i e Lu, para leste até Sung e Wei, e para oeste até Chin e Ch'u. Mandarei construir para si uma grande muralha com muitos li de extensão, cercando aldeias com centenas de milhares de habitantes, sobre a qual o Estado "Tu serás o governante. As tuas relações com o império entrarão numa nova fase. Dispersarás os teus homens. Reunirás os teus irmãos à tua volta. Unir-te-ás ao culto dos teus antepassados. Tal é o comportamento do verdadeiro Sábio e do homem de talento, e tal é o que o mundo deseja."
"Ch'iu! Anda cá", gritou o Ladrão Chê, furioso. "Aqueles que são enganados por ofertas e corrigidos por palavras são as massas vulgares e estúpidas. A altura e a beleza que elogias em mim são legados de meus pais. Mesmo que não os tenhas elogiado, pensas que eu deveria ignorar a sua existência? Além disso, quem bajula na frente, fala mal nas costas. Agora, tudo o que tens dito sobre o grande Estado e sua numerosa população significa simplesmente enganar-me por meio de ofertas, como se eu fosse apenas mais um na multidão. E, claro, isso não duraria.
"Ch'iu! Anda cá!" "Não existe Estado maior que o império. Yao e Shun conquistaram-no, contudo os seus descendentes não possuem território suficiente nem para cravar a ponta de uma sovela. Tang e Wu Wang sentaram-se no trono imperial, mas a sua posteridade foi apagada da face da Terra.
Dificilmente na época de Chuang Tzŭ.
Não será isso devido à própria magnitude do prémio?
"Ouvi dizer também que, antigamente, os pássaros e os animais superavam em número o homem, e que este era obrigado a procurar segurança construindo a sua morada em árvores. Durante o dia, recolhia bolotas e castanhas. À noite, dormia num ramo. Daí o nome Construtores de Ninhos.
"Antigamente, as pessoas não sabiam fazer roupa. No Verão, recolhiam grandes quantidades de lenha e, no Inverno, aqueciam com o fogo. Daí o nome de Previdente.
"Nos dias de Shên Nung, deitavam-se sem se importar com o lugar e levantavam-se sem se importar para onde iriam." Um homem conhecia a sua mãe, mas não o seu pai. Vivia entre os cervos selvagens. Cultivava a terra para obter alimento. Tecia roupa para cobrir o corpo. Não tinha a mínima intenção de prejudicar os outros. Estes eram os gloriosos resultados de uma era de perfeita virtude.
"O Imperador Amarelo, contudo, não conseguiu alcançar essa virtude. Lutou com Ch'ih Yu em Chŏ-lu, e sangue correu por cem li. Depois vieram Yao e Shun com sua multidão de ministros. Em seguida, T'ang, que depôs seu soberano, e Wu Wang, que matou Chou. Depois disso, os fortes passaram a oprimir os fracos, os muitos a coagir os poucos. De facto, desde T'ang e Wu Wang, não tivemos nada além de perturbadores da paz.
"E agora vens pregar os antigos dogmas de Wên Wang e disseminar sofismas intermináveis, a fim de ensinar as gerações futuras." Veste roupas remendadas e um cinto apertado, fala grosso e age com falsidade para enganar os governantes da terra, enquanto você mesmo almeja a riqueza e o poder! És o maior ladrão que conheço; e se o mundo me chama Ladrão Chê, certamente deveria chamar-lhe Ladrão Ch'iu.
"Com palavras persuasivas, convenceste Tzŭ Lu a segui-lo. Fê-lo tirar o chapéu marcial,
com formato de crista de galo,
e desembainhar a sua espada longa, e sentar um discípulo a seus pés. E o mundo inteiro clamou que Confúcio podia travar a violência e prevenir o mal. Mais tarde, quando Tzŭ Lu desejou matar o príncipe de Wei, mas falhou, e foi ele próprio retalhado e exposto sobre o portão leste de Wei, isso aconteceu porque não o instruiu devidamente.
Veja-se o relato no Tso Chuan.
"Intitulas-te um homem talentoso e um Sábio, ora! Duas vezes foste expulso de Lu. Em Wei, foste tabu. Em Ch'i, falhaste. Estavas rodeado pelos Ch'êns e pelos Ts'ais. Na verdade, o império não te quer em lado nenhum. Foi o teu ensinamento que levou Tzŭ Lu ao seu trágico fim. Não consegues cuidar, em primeiro lugar, de ti próprio, nem, em segundo lugar, dos outros. Que valor pode ter a tua doutrina?
"Não há ninguém a quem a humanidade tenha concedido um lugar mais elevado do que ao Imperador Amarelo. Contudo, a sua virtude não era completa. Ele lutou em Chŏ-lu, e sangue correu por cem li. Yao não foi paternal.
Matou o seu filho mais velho.
Shun não foi filial.
Ele baniu o irmão mais novo da sua mãe.
O grande Yü era deficiente num aspecto.
Ele carecia de sentimentos naturais. Quando estava envolvido na sua grande obra de engenharia de drenagem do império, passou pela sua própria porta sem entrar para ver a sua família.
T'ang depôs o seu soberano. Wu Wang derrotou Chou. Wên Wang foi aprisionado em Yin Li.
"Ora, estes seis notáveis gozam de elevada reputação entre os homens. Contudo, uma investigação mais completa mostra que, em cada caso, o desejo de vantagem perturbou a sua pureza original e a forçou numa direção contrária. Daí a desfaçatez dos seus atos.
" "Entre aqueles a quem o mundo chama virtuosos estavam Poh I e Shu Ch'i. Recusaram a soberania de Ku-chu e morreram de fome no Monte Shou-yang, os seus corpos privados de enterramento.
Pao Chiao fez grande alarido de virtude e insultou o mundo em geral. Agarrou uma árvore e morreu.
Tzŭ Kung, um dos discípulos de Confúcio..." Diz-se que os discípulos repreenderam Pao Chiao com tanta veemência que este definhou e se tornou madeira morta.
"Shên T'u Ti, quando os seus conselhos foram ignorados, saltou para o rio com uma pedra às costas e tornou-se comida de peixe.
Veja p. 72.
"Chieh Tzŭ T'ui era verdadeiramente leal. Cortou um pedaço da sua própria coxa para alimentar Wen Wang. Depois, quando Wen Wang lhe virou as costas, recuou furioso e, agarrando-se a uma árvore, morreu queimado vivo.
Refugiou-se numa floresta, de onde Wen Wang, ansioso por recuperar o amigo, tentou expulsá-lo com fumo!
"Wei Shêng marcou um encontro com uma rapariga debaixo de uma ponte. A rapariga não apareceu e a água subiu. Mas Wei Shêng não desistiu. Agarrou-se a um contraforte e morreu.
"Estes quatro não diferiam em nada dos cães e porcos que vagueiam implorando para serem abatidos. Todos eles exageraram na reputação e desprezaram a morte. Não reflectiram sobre a sua natureza original e não procuraram preservar a vida até à velhice que lhes fora destinada.
"Entre os ministros a que o mundo chama leais, nenhum se compara a Wang Tzŭ, Pi Kan e Wu Tzŭ Hsü. Este último morreu afogado. Pi Kan foi estripado. Estes dois ilustres são aquilo a que os homens chamam ministros leais; no entanto, na verdade, o mundo inteiro se ri deles!
"Assim, desde os tempos mais antigos até Tzŭ Hsü e Pi Kan, não houve ninguém digno de honra. E quanto ao sermão que tu, Ch'iu, te propões pregar-me, se for sobre assuntos espirituais, não o compreenderei, e se for sobre assuntos humanos, não há mais nada a dizer. Já sei tudo.
" "Vou dizer-lhes algumas coisas. A cobiça dos olhos é pela beleza. A cobiça dos ouvidos é pela música. A cobiça do paladar é pelo sabor. A cobiça da ambição é pela gratificação. A idade máxima do homem é de cem anos. Uma idade mediana é de oitenta anos. A estimativa mínima é de sessenta anos. Descontando disto as horas de doença, morte, luto, tristeza e problemas, não restarão mais do que quatro ou cinco dias por mês em que um homem poderá abrir a boca para rir. O Céu e a Terra são eternos. Cedo ou tarde, todo o homem tem de morrer. Aquilo que tem um limite, comparado com aquilo que é eterno, é um mero lampejo, como a passagem de um cavalo veloz visto através de uma fresta. E aqueles que não conseguem satisfazer a sua ambição e viver até ao fim das suas vidas são homens que não alcançaram o Tao.
"Ch'iu! Todos os teus ensinamentos não me dizem nada. Vai-te embora! Volta para casa! Não digas mais nada! A tua doutrina é um jargão aleatório, cheio de falsidades e enganos." "Nunca poderá preservar a pureza original do homem. Porquê discutir mais sobre isso?"
Confúcio fez duas vénias e partiu apressadamente. Ao subir para a sua carruagem, deixou escapar as rédeas três vezes. Os seus olhos estavam tão turvos que não conseguia ver nada. O seu rosto estava pálido como cinzento. De cabeça baixa, agarrou-se à barra da carruagem, incapaz de expressar os seus sentimentos.
Ao chegar ao portão leste de Lu, encontrou Liu Xia Chi, que disse: "Não o vejo há alguns dias. Pelo aspecto da sua carruagem, diria que esteve a viajar. Imagino que agora tenha ido ver Chê."
Confúcio olhou para o céu e respondeu com um suspiro: "Sim, fui."
"E ele não o rejeitou", perguntou Liu Xia Chi, "como é que eu disse que faria?"
"Rejeitou", disse Confúcio. "Sou um homem que se cauterizou sem estar doente. Apressei-me a ajeitar a cabeça do tigre e a pentear-lhe a barba." "E quase caí na boca do tigre".
Tzŭ Chang perguntou a Man Kou Tê,
que significa "Cheio de Ilícitos".
dizendo: "Porque não praticais a virtude? Caso contrário, é impossível inspirar confiança. E sem confiança, não há posição. E sem posição, não há riqueza. Portanto, com vista à reputação ou à riqueza, o dever para com o próximo é a verdadeira chave.
Pois conduz à reputação, que era o que Tzŭ Chang desejava.
Se descartasse todos os pensamentos sobre reputação e riqueza e se dedicasse ao cultivo do coração, certamente não passaria um dia sem praticar as virtudes superiores."
"Aqueles que não têm vergonha", respondeu Man Kou Tê,
referindo-se a si próprio.
"enriquecem. Aqueles que inspiram confiança tornam-se notáveis."
Referindo-se a Tzŭ Chang.
A reputação e a riqueza são, em grande parte, conquistadas pela ausência de vergonha e pela confiança inspirada. Assim, com vista à reputação ou à riqueza, a confiança dos outros é a verdadeira chave.
Como meio de alcançar a riqueza, que era o que Man Kou Tê desejava.
Se descartássemos todos os pensamentos sobre reputação e riqueza, certamente que o homem virtuoso não teria outro alcance que não fosse ele próprio.
Além da sua própria natureza.
"Antigamente", disse Tzŭ Chang, "Chieh e Chou sentavam-se no trono imperial, e todo o império lhes pertencia. Contudo, se disséssemos hoje a um ladrão comum que as suas qualidades morais se assemelhavam às deles, ele ressentir-se-ia como um insulto. É por criaturas tão miseráveis que eles são desprezados."
"Confúcio e Mih Tzŭ, por outro lado, eram pobres e simples. Contudo, se disséssemos a um primeiro-ministro de hoje que as suas qualidades morais..." Se as coisas se assemelhassem às deles, ele encheria de orgulho e declararia que lhe estava a fazer um elogio exagerado. Tão verdadeiramente honrado é o homem de saber.
"Assim, o poder de um monarca não o torna necessariamente digno; nem a pobreza e uma posição inferior tornam necessariamente um homem indigno. Os dignos e os indignos diferenciam-se pela dignidade e indignidade dos seus atos."
"Um pequeno ladrão", respondeu Man Kou Tê, "é preso. Um grande bandido torna-se governante de um Estado. E entre os vassalos deste último, encontrar-se-ão homens virtuosos.
"Antigamente, o Duque Huan, chamado Hsiao Poh, matou o seu irmão mais velho e tomou a sua cunhada como esposa. Mesmo assim, Kuan Chung tornou-se o seu ministro."
"Aliás, o Duque Huan, chamado Hsiao Poh, matou o seu irmão mais velho e tomou a sua cunhada como esposa. Mesmo assim, Kuan Chung tornou-se o seu ministro." "T'ien Ch'êng Tzŭ matou o seu príncipe e tomou o reino. Mesmo assim, Confúcio aceitou o seu pagamento.
Veja p. 111.
"Condenar um homem em palavras e, na prática, aceitar o seu serviço — não demonstra isto a oposição direta entre prática e preceito?
"Por isso foi escrito: 'Quem é mau? Quem é bom? Aquele que triunfa é a cabeça. Aquele que não triunfa é a cauda.'"
"Mas se não pratica a virtude", disse Tzŭ Chang, "e não faz distinção entre parentes e amigos, não atribui deveres aos dignos e aos indignos, não dá precedência aos jovens e aos velhos, como então distinguir os Cinco Laços e as Seis Hierarquias?"
Os comentadores divergem quanto a estes Laços e Hierarquias. Um interpreta os primeiros como um calendário. Outro considera que se trata das cinco virtudes cardinais e das seis hierarquias da nobreza. Destes últimos, existem apenas cinco, mas acrescenta-se "soberano" para suprir a deficiência.
"Yao matou o seu filho mais velho", respondeu Man Kou Tê. "Shun baniu o irmão da mãe. Havia parentesco nisso?
"T'ang depôs Chieh. Wu Wang matou Chou. Era esse o dever do digno para com o indigno?
"Wang Chi era o herdeiro legítimo, mas Chow Kung matou o seu irmão mais velho. Era esta a precedência entre jovens e idosos?
"Os falsos princípios dos confucionistas, o amor universal dos mihistas — ajuda a distinguir os Cinco Laços e os Seis Graus?
"O senhor, senhor, está todo voltado para a reputação. Eu estou todo voltado para a riqueza. Quanto a qual a busca não está de acordo com os princípios nem em harmonia com o direito, consultemos a arbitragem de Wu Yoh."
"O homem mesquinho", disse Wu Yoh, "dedica-se à riqueza. O homem superior dedica-se à reputação. Os resultados morais são diferentes em cada caso. Mas se ambos deixassem de lado as suas actividades e se dedicassem a não fazer nada, os resultados seriam os mesmos.
"Por isso foi dito: 'Não sejas um homem mesquinho. Regressa ao teu eu natural. Não sejas um homem superior. Obedece às leis do céu'.
"Quanto ao reto e ao torto, veja-os do ponto de vista do infinito.
Todas as distinções se fundem.
Olhe à sua volta em todos os lados, até que o tempo o retire da cena.
"Quanto ao certo e ao errado, mantenha-se firme no seu círculo mágico,
no centro do qual convergem todos os positivos e negativos. Ver capítulo ii, página 18. E com mente independente, caminhe sempre no caminho do Tao.
" "Não se desvie do caminho da virtude; não pratique boas ações por conta própria, para que o seu trabalho não seja em vão. Não procure a riqueza; não almeje o sucesso, para que não abandone aquilo que o liga a Deus."
"Pi Kan foi eviscerado. Tzŭ Hsü teve os olhos arrancados."
Mais conhecido por Wu Yüan. Ver pág. 112. Expressou o desejo de ser enterrado na estrada para o Estado de Yüeh, para que pudesse testemunhar a derrota do Estado de Wu. Perante isto, o príncipe deste último Estado privou-o imediatamente da visão.
Tal era o destino da lealdade.
"Chih Kung testemunhou contra o seu pai. Wei Sheng morreu afogado. Tais são as desgraças dos fiéis."
"Pao Chiao secou onde estava. Shen Tzŭ não se justificou."
Não se defendeu da acusação de ter colocado veneno na comida do pai.
"" Tais são os males da honestidade.
"Confúcio não visitou a mãe.
Não há fundamento para esta afirmação.
K'uang Tzŭ não visitou o seu pai.
Por quem fora expulso de casa.
Tais são as provações que recaem sobre os rectos.
"Os exemplos acima foram-nos transmitidos desde a antiguidade e são discutidos nos tempos modernos. Mostram que os homens de saber enfatizaram os seus preceitos, pondo-os em prática; e que, consequentemente, pagaram o preço e caíram nestas calamidades."
Descontentamento perguntou a Complacência, dizendo: "Na verdade, não há ninguém que não almeje reputação ou riqueza. Se um homem é rico, outros o rodeiam. Estes, necessariamente, assumem uma posição subordinada e, consequentemente, o bajulam. E parece que tal subordinação e respeito constituem um caminho real para uma vida longa, conforto e felicidade em geral. Como é, então, que o senhor não se importa com essas coisas? Será que lhe falta inteligência?" Ou será que é fisicamente incapaz de competir e, por isso, opta por ser virtuoso, embora nunca consiga esquecer?"
"Tu e os teus amigos", respondeu a Complacência, "consideram todos os homens como..." Semelhantes porque por acaso nasceram na mesma época e no mesmo lugar que vocês. Vedes-nos como eruditos que se separaram da humanidade e rejeitaram o mundo, e que não têm qualquer princípio orientador para além de se debruçarem sobre os registos do passado e do presente, ou de se entregarem à logomaquia disto e daquilo.
"Se levássemos as vidas mundanas que vocês levam, seria à custa das próprias condições da existência. E certamente que assim estaríamos a vaguear longe do caminho real para a vida longa, o conforto e a felicidade plena. O desconforto da miséria, o conforto do bem-estar, não o atribuem ao corpo.
Mas a alguma causa exterior da qual o corpo se torna subjetivamente consciente.
A abjecção do terror, a euforia da alegria, não a atribuem à própria mente. Vocês sabem que estas coisas são assim, mas não sabem como são assim. Portanto, embora iguais ao Filho do Céu em poder, e com todo o império como sua propriedade pessoal, não estaríeis isentos de preocupações."
" "A riqueza", respondeu o Descontentamento, "é de suma importância para um homem. Permite-lhe fazer o bem e exercer poder a um ponto que o homem perfeito ou o verdadeiro Sábio nunca alcançariam. Pode pedir emprestada a coragem e a força de outros para se tornar formidável. Pode empregar a sabedoria e os conselhos dos outros para dar clareza às suas próprias deliberações. Pode valer-se da virtude alheia e fazê-la parecer sua. Sem possuir um trono, pode exercer a autoridade de um príncipe.
Além disso, os prazeres da música, da beleza, da boa comida e do poder não precisam de ser estudados para serem apreciados pela mente; nem o corpo precisa do exemplo dos outros para deles usufruir. Não precisamos de nenhum professor para nos dizer o que gostar ou não gostar, o que seguir ou evitar. Tal conhecimento é instintivo no homem." O mundo pode condenar esta visão, mas qual de nós está livre desta mácula?
"O sábio", respondeu a Complacência, "age para o bem comum, em cuja busca não ultrapassa os limites devidos. Portanto, se há o suficiente, não se esforça por mais. Não tem utilidade para mais e, consequentemente, não o procura. Mas se não há o suficiente, então procura mais. Esforça-se em todas as direções, mas não considera isso ganância. Se há excedente, recusa-o. Mesmo que recusasse todo o império, não o consideraria honestidade. Para ele, a honestidade e a ganância não são condições a que forçados pelas circunstâncias externas, mas características inatas ao indivíduo. Ele pode exercer o poder do Filho do Céu, mas não o empregará para a degradação dos outros. Mas um cálculo dos problemas e das ansiedades que deles decorrem leva-o a rejeitá-los por serem prejudiciais à sua natureza, e não por desejo de reputação.
"Quando Yao e Shun ocuparam o trono, havia paz. Não tentaram ser governantes benevolentes. Não causaram danos ao fazerem o bem.
Eram simplesmente naturais, e os bons resultados seguiram-se.
"Shan Chuan e Hsü Yu recusaram o trono oferecido. A sua recusa não foi vazia. Não queriam causar danos a si próprios.
"Em todos estes casos, cada indivíduo adotou o caminho proveitoso em detrimento do prejudicial. E o mundo chama-lhes virtuosos, adquirindo assim uma reputação que nunca almejaram."
"É necessário", argumentava o Descontentamento, "apegar-se à reputação. Se todos os prazeres forem negados ao corpo e as energias forem concentradas na saúde com vista ao prolongamento da vida, tal vida não seria mais do que a doença prolongada de um inválido crónico."
" "A felicidade", disse a Complacência, "encontra-se na satisfação. O excesso é sempre uma maldição, sobretudo a riqueza.
"Os ouvidos do homem rico zumbem com sons de música doce. O seu paladar está farto de carnes e vinhos requintados. Na busca do prazer, os negócios são esquecidos. Isto é confusão.
"Come e bebe em excesso, até que a sua respiração se torna a de alguém que carrega um fardo pesado ladeira acima. Isto é miséria.
"Cobiça dinheiro para se rodear de conforto. Cobiça poder para vencer os rivais. Mas as suas horas de tranquilidade são obscurecidas pela diabetes e pela hidropisia. Isto é doença.
"Mesmo quando, no seu desejo de riqueza, acumula uma enorme fortuna, continua e não consegue parar. Isto é vergonha.
"Sem ter utilidade para o dinheiro que acumulou, ainda o abraça e não suporta separar-se dele. O seu coração está inflamado, e procura sempre aumentar a pilha. Isto é infelicidade.
" Em casa, teme a praga do ladrão. Fora de casa, o perigo dos bandidos e dos salteadores. Por isso, mantém-se estritamente vigilante no seu interior, nunca se aventurando sozinho no exterior. Isto é medo.
Estas seis são as maiores maldições do mundo. Contudo, tal homem jamais pensa nelas, até que a hora da desgraça chegue. Depois, com as suas ambições satisfeitas e as suas forças naturais esgotadas, E não lhe restando senão riquezas, obteria de bom grado um único dia de paz, mas não pode.
"Portanto, se não há forma de gozar de reputação e não há forma de garantir riquezas, quão lamentável é que os homens atormentem as suas mentes e desgastem os seus corpos em tais buscas!"
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 30. Espadachins
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CAPÍTULO XXX.
Sobre Espadas.
[Falso.]
Antigamente, o Príncipe Wên de Chao era um grande apreciador de esgrima. Os espadachins enchiam os seus salões, em número de três mil ou mais. De dia e de noite, lutavam diante do príncipe. Ao longo de um ano, cerca de uma centena eram mortos ou feridos. Mesmo assim, o príncipe nunca se contentava.
Em três anos, o Estado começou a ruir e outros príncipes a cobiçar o seu poder. Perante isto, o Príncipe Herdeiro, Li, ficou perturbado e disse aos oficiais da sua casa: "Quem persuadir o príncipe a livrar-se destes espadachins, dar-lhe-ei mil onças de prata."
Ao que os seus oficiais responderam: "Chuang Tzŭ é o homem certo."
Então, o Príncipe Herdeiro enviou mensageiros a Chuang Tzŭ com mil onças de prata, que recusou, mas acompanhou os mensageiros de volta ao seu amo.
"O que é que Vossa Alteza me exige?", perguntou Chuang Tzŭ, "para que me conceda mil onças?"
"Ouvi dizer", respondeu o jovem príncipe, "que Vossa Alteza era um sábio famoso, e atrevi-me a enviar este dinheiro como presente aos seus criados.
Apenas uma formalidade.
Mas, como Vossa Alteza não o aceitou, que mais posso dizer?"
"Percebo", respondeu Chuang Tzŭ, "que Vossa Alteza deseja que eu cure o príncipe da sua peculiar fraqueza. Suponhamos que não tenho sucesso com o príncipe e, consequentemente, com Vossa Alteza, a pena de morte é o que me espera. De que me serviriam então as mil onças?"
"Por outro lado, se eu tiver sucesso com o príncipe e, consequentemente, com Vossa Alteza, todo o Estado de Chao contém tudo o que eu poderia obter, bastando para isso pedir."
"Saiba, porém", disse o jovem príncipe, "que o meu pai só aceita espadachins."
" "Bem", respondeu Chuang Tzŭ, "eu próprio sou um bom espadachim."
"Além disso", acrescentou o Príncipe Herdeiro, "os espadachins que ele está habituado a ver têm os cabelos despenteados a cair-lhes sobre as têmporas. Usam gorros caídos com borlas grossas e emaranhadas e casacos curtos. Lançam olhares fulminantes e falam num tom feroz. É disso que o meu pai gosta. Mas se o for ver vestido com as suas roupas comuns de erudito, o resultado será certamente desastroso."
"Eu habituar-me-ei à roupa", respondeu Chuang Tzŭ; e depois de praticar durante três dias, foi novamente ter com o jovem príncipe, que o acompanhou até à presença do pai.
Este desembainhou uma espada afiada e aguardou a aproximação de Chuang Tzŭ. Mas Chuang Tzŭ, ao entrar pela porta da sala de audiências, não se apressou, nem se prostrou diante do príncipe.
"Que me dizes", exclamou o príncipe, "para que tenhas obtido a tua apresentação por intermédio do Herdeiro Aparente?"
"Ouvi dizer", respondeu Chuang Tzŭ, "que Vossa Alteza aprecia a esgrima. Por isso, vim demonstrar a minha capacidade."
"O que sabes fazer nesta arte?", perguntou o príncipe.
"Se encontrasse um adversário", disse Chuang Tzŭ, "a cada dez passos, poderia avançar mil li sem ser detido."
"Bravo!", exclamou o príncipe. "Não há ninguém no império que te rivalize".
"Quando luto", continuou Chuang Tzŭ, "finjo ser fraco, mas desfero um ataque vigoroso. Sou o último a começar, mas o primeiro a chegar. Gostaria que Vossa Alteza me testasse."
"Descansa um pouco", respondeu o príncipe. "Fique aqui e aguarde ordens. Marcarei um dia para o senhor."
Então, o príncipe passou sete dias a testar os seus espadachins. Cerca de sessenta deles foram mortos ou feridos, mas por fim selecionou cinco ou seis e ordenou-lhes que comparecessem na sala de audiências com as suas espadas. De seguida, chamou Chuang Tzŭ e disse-lhe: "Agora vou ver de que vale a tua habilidade com a espada."
"Eu ansiava por isso", respondeu Chuang Tzŭ.
"Importa-lhe", perguntou o príncipe, "o comprimento da sua arma?"
"De modo algum", respondeu Chuang Tzŭ. "Tenho três espadas, das quais pedirei a Vossa Alteza que escolha uma. Em seguida, procederemos ao julgamento."
"Quais são as tuas três espadas?", indagou o príncipe.
"Há a espada do Filho do Céu", disse Chuang Tzŭ, "a espada dos Príncipes e a espada do Povo."
"O que é a espada do Filho do Céu?", perguntou o príncipe.
"A espada do Filho do Céu", disse Chuang Tzŭ, "a espada dos Príncipes e a espada do Povo."
"O que é a espada do Filho do Céu?", perguntou o príncipe. "A muralha de pedra de Yen-ch'i é a sua ponta", respondeu Chuang Tzŭ.
Alguns tomam "muralha de pedra" como nome de um lugar.
As montanhas de Ch'i são a sua orla. Chin e Wei são as suas costas. Chou e Sung são o seu cabo. Han e Wei são a sua bainha. Está envolta nas quatro hordas de bárbaros, envolvida pelas quatro estações, rodeada pelo grande oceano. É feita dos cinco elementos. É a árbitra do castigo e da recompensa. Opera sob a influência do Yin e do Yang. Na primavera e no verão, está em repouso. No outono e no inverno, move-se. Empurre-a, ela não avança. Levante-a, ela não sobe. Baixe-a, ela não desce. Rode-a, ela não muda de posição. Acima, ela fende as nuvens flutuantes; abaixo, corta a densidade da terra. Um único golpe desta lâmina, um "E os príncipes do império se submetem. Tal é a espada do Filho do Céu."
Ao dizer isto, o príncipe pareceu absorto nas suas reflexões. Então, perguntou: "E o que é a espada dos Príncipes?"
"Sábio e corajoso", respondeu Chuang Tzŭ, "são a sua ponta. Incorruptível é o seu fio. Virtuoso é o seu dorso. Leal é o seu punho. Heroico é a sua bainha. Pode empurrar esta espada, ela não avançará. Levante-a, ela não subirá. Baixe-a, ela não descerá. Rode-a, ela não mudará de posição. Acima, ela molda-se segundo o céu redondo, para manter a harmonia com o sol, a lua e as estrelas. Abaixo, ela molda-se segundo a terra quadrada, para manter a harmonia com as quatro estações. Adapta-se aos desejos do povo, para difundir a paz por todos os lados. Entre as fronteiras do Estado, não há um único que não se submeta e obedeça às ordens do seu príncipe. Tal é a espada dos Príncipes."
"E a espada do Povo?", indagou o príncipe.
"A espada do Povo", respondeu Chuang Tzŭ, "tem o cabelo despenteado a cair-lhe sobre as têmporas. Usa um chapéu caído com uma borla grossa e emaranhada, e um casaco curto. Fulmina com os olhos e fala num tom feroz. Quando entra em combate, em cima, corta a cabeça e o pescoço; em baixo, golpeia o fígado e os pulmões. Tal é a espada do Povo. É como um galo de combate. Um dia, a sua vida é precocemente interrompida, e ela deixa de ter qualquer utilidade para Estado.
"Ora, grande príncipe, o senhor detém o poder soberano, e, no entanto, dedica-se a esta espada do Povo. Estou verdadeiramente envergonhado por isso."
" De seguida, o príncipe conduziu Chuang Tzŭ até ao estrado, e os criados serviram a comida, tendo o rei assistido pessoalmente em três ocasiões.
De cada vez, o príncipe recebia o prato dos criados, entregava-o a Chuang Tzŭ e, de seguida, regressava ao seu lugar.
"Sente-se, grande príncipe", disse Chuang Tzŭ, "e acalme-se. Já disse tudo o que tinha a dizer sobre espadas."
Após isto, o príncipe não deixou o seu palácio durante três meses, enquanto os espadachins, submetendo-se à nova ordem, morreram nas suas próprias casas.
Um comentador afirma que "se suicidaram nas suas próprias residências". Mas, se assim foi, a influência de Chuang Tzŭ teve pouco valor prático para os espadachins. Podiam muito bem ter continuado a sua profissão de espadachim.
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 31. O velho pescador
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CAPÍTULO XXXI.
O Velho Pescador.
[Apócrifo.]
CONFUCIO, viajando pela Floresta Negra, descansou um pouco no Altar de Damasco. Os seus discípulos sentaram-se para ler os seus livros, e ele próprio tocou alaúde e cantou.
A meio da canção, um velho pescador saiu de um barco e caminhou na direção deles. A sua barba e sobrancelhas eram brancas como a neve. Os seus cabelos estavam soltos, e agitava as mangas compridas enquanto caminhava pela margem. Ao chegar a terra firme, parou e, com a mão esquerda no joelho e a direita na orelha, escutou.
Quando a canção terminou, acenou a Tzŭ Kung e Tzŭ Lu, que se aproximaram. Depois, apontando com o dedo, perguntou: "O que faz aquele homem aqui?".
"Ele é o Sábio de Lu", respondeu Tzŭ Lu.
"De que clã?", perguntou o velho.
"Da família K'ung", respondeu Tzŭ Lu.
"E qual é a sua ocupação?", perguntou o velho.
"Dedica-se", respondeu Tzŭ Lu, "à lealdade e à verdade. Pratica a caridade e o dever para com o próximo. Regula as cerimónias e a música. Distingue as relações entre os homens. É leal ao seu príncipe celestial, um reformador das massas. Assim, será de grande utilidade para todo o império. Essa é a sua ocupação."
"É governante de um Estado?", perguntou o velho.
"Não", disse Tzŭ Kung.
"Um ministro?", perguntou o velho.
"Não", disse Tzŭ Kung.
Então o velho riu-se e afastou-se, dizendo: "A caridade é caridade, mas temo que ele não escape ao desgaste da mente e às feridas do corpo que ameaçam a pureza original do homem. Quão longe, ai de mim, ele se desviou do verdadeiro caminho!".
Do Tão.
Tzŭ Kung voltou e contou a Confúcio, que, largando o seu alaúde, se levantou e disse: "Este homem é um Sábio!".
De seguida, seguiu o velho pela praia, alcançando-o no momento em que puxava o seu barco para dentro de água com o seu bastão. Ao aperceber-se de Confúcio, o velho virou-se para o receber, momento em que Confúcio recuou e se prostrou duas vezes antes de avançar.
"Que deseja, senhor?", perguntou o pescador.
"Agora mesmo, venerável senhor", respondeu Confúcio, "o senhor partiu sem terminar as suas observações. Na minha ignorância, não consigo compreender o que quer dizer. Por isso, vim na humilde esperança de ouvir algumas palavras com as quais se digne ajudar-me."
"Bem", disse o velho, "o senhor está certamente ansioso por aprender."
Perante isto, Confúcio prostrou-se duas vezes e, ao levantar-se, disse: "Sim, tenho sido estudante desde a minha juventude até agora, aos sessenta e nove anos de idade. Contudo, jamais ouvi a verdadeira doutrina, que agora estou pronto para receber sem preconceitos."
"Espécies semelhantes seguem semelhantes", respondeu o ancião. "Sons semelhantes respondem a semelhantes."
Veja p. 283 e a experiência dos dois alaúdes, p. 319.
Esta é uma lei da natureza. Com a sua permissão, aplicarei agora o que sei àquilo com que se ocupa: os assuntos dos homens.
"O Filho do Céu, os príncipes, os ministros e o povo — se estes quatro cumprirem as suas funções próprias, o resultado será um bom governo. Se abandonarem os seus lugares, o resultado será uma confusão indizível. Quando os funcionários se ocupam dos seus deveres e o povo dos seus afazeres, nenhum dos dois é prejudicado pelo outro."
"Terras áridas, telhados com goteiras, falta de alimentos e de roupa, incapacidade de pagar impostos, quezílias entre esposas e concubinas, falta de precedência entre jovens e idosos — tais são os sofrimentos do povo.
"Capacidade insuficiente para as funções, incapacidade para realizar o trabalho rotineiro, falta de honestidade e negligência entre os subordinados, falta de distinção e de oportunidades de promoção — tais são os sofrimentos dos ministros."
" "A Corte sem ministros leais e o Estado em rebelião, o artesão inábil e o tributo insatisfatório, as cobranças periódicas negligenciadas e o Filho do Céu descontente — tais são as aflições dos príncipes.
"Os dois grandes princípios da natureza agindo em desarmonia, o calor e o frio chegando em épocas irregulares, de tal modo que os homens e as coisas sofrem, os príncipes rebeldes e lutando entre si, levando à perdição do povo, a música e as cerimónias mal regulamentadas, a riqueza dissipada, as relações humanas desrespeitadas, as massas mergulhadas na imoralidade — tais são as aflições que cabem ao Filho do Céu.
"Mas agora o senhor, não ocupando nem a posição mais elevada de governante nem exercendo as funções subordinadas de ministro, assume a responsabilidade de regular a música e as cerimónias e de distinguir as relações humanas, a fim de reformar as massas. Não estará a ultrapassar os seus próprios limites?
"Além disso, os homens têm oito defeitos, e há quatro coisas que obstruem o negócio". Estes pontos devem ser investigados.
"Intrometer-se em assuntos que não lhe dizem respeito é ser intrometido".
"Forçar a entrada, mesmo que isso signifique negligenciar alguém, é ser atrevido".
"Adaptar os próprios pensamentos e manipular as próprias palavras é lisonja".
"Aplaudir alguém, certo ou errado, é lisonja".
"Gostar de dizer mal dos outros é calúnia."
"Romper amizades e laços é maldade".
"Elogiar falsamente as pessoas com um objetivo Prejudicá-los é malícia.
"Dar prontamente assentimento com o objetivo de satisfazer os desejos alheios, bons ou maus, é ser hipócrita."
"Estes oito defeitos levam o homem a confundir os outros e a causar prejuízo a si próprio. O homem superior não o terá como amigo; o príncipe iluminado não o empregará como ministro."
"Amar a condução dos grandes assuntos e introduzir mudanças na ordem estabelecida com o objetivo de ganhar reputação — isso é ambição."
"Esforçar-se por ter tudo nas suas próprias mãos e usurpar o que deveria estar à disposição dos outros — isso é ganância."
"Conhecer as próprias falhas, mas não as corrigir; aceitar admoestações, mas apenas afundar-se ainda mais — isso é obstinação."
"Tolerar aqueles que são como nós, mas, quanto aos diferentes, não lhes atribuir as virtudes que realmente possuem — isso é intolerância."
""Amar aqueles que são como nós, mas não reconhecer as virtudes que realmente possuem daqueles que são diferentes — isso é intolerância." "Estas são as quatro coisas que obstruem os negócios. E só aquele que consegue pôr de lado as oito mencionadas e abster-se das quatro está apto para receber instrução."
Ao dizer isto, Confúcio soltou um suspiro de angústia. Depois, depois de se prostrar duas vezes, levantou-se e disse: "Duas vezes fui expulso de Lu. Fui proibido em Wei. A minha árvore foi cortada em Sung. Fui cercado pelos Ch'êns e pelos Ts'ais. Não sei qual foi a minha culpa para ter sofrido estas quatro perseguições."
"Meu Deus!" disse o velho em tom irritado, "Como és lento a perceber as coisas.
"Havia um homem que tinha tanto medo da sua própria sombra e detestava tanto os seus próprios passos que decidiu fugir deles. Mas quanto mais levantava os pés, mais passos dava, e embora corresse muito, a sua sombra nunca o abandonava." Daqui, inferiu que tinha ido muito devagar e corrido o mais rápido que podia sem descansar, e a consequência foi que as suas forças se esgotaram e morreu. Não se apercebeu que, entrando na sombra, se teria livrado da sua sombra e que, permanecendo imóvel, teria silenciado os seus passos. Que tolo que ele era!
"Agora ocupa-se da caridade e do dever para com o próximo. Examina a distinção entre semelhante e diferente, as mudanças de movimento e de repouso, os cânones de dar e receber, as emoções de amor e ódio e a contenção da alegria e da raiva. No entanto, não pode evitar as calamidades de que fala.
"Cuide reverentemente do seu corpo. Preserve cuidadosamente a sua pureza natural. Deixe as questões externas para os outros. Assim, não se envolverá. Mas, como está, em vez de se aperfeiçoar, está a tentar melhorar os outros." "Certamente, isto diz respeito ao externo".
"Então, posso perguntar", disse Confúcio em tom de angústia, "qual é a pureza original?"
"A nossa pureza original", respondeu o pescador, "é a perfeição da verdade sem mácula. Sem ela, não podemos influenciar os outros. Por isso, aqueles que choram por obrigação, embora lamentem, não se entristecem. Aqueles que fingem raiva, embora violentos, não inspiram temor. Aqueles que fingem amizade, embora sorriam, não estão em sintonia."
"O verdadeiro luto manifesta-se em silêncio. A verdadeira raiva causa temor sem expressão. A verdadeira amizade é a união sem o auxílio de sorrisos. As nossas emoções dependem da pureza original interior; e, consequentemente, estimamo-la.
"Se aplicarmos isto aos assuntos humanos, então, ao servir os nossos pais, somos filiais; ao servir o nosso príncipe, somos leais; na hora do banquete, somos alegres; na hora do luto, somos tristes.
"O objectivo da lealdade é o serviço bem sucedido; de um banquete, a alegria; do luto, a tristeza; de servir os pais, satisfazendo os seus desejos. Se o serviço for cumprido, não importa que não reste qualquer vestígio.
Em nome de quem o realizou, os méritos são para o bem.
Se os pais forem satisfeitos, não importa como. Se um banquete resultar em alegria, os acessórios não têm qualquer importância. Se houver tristeza real no luto, não importa que cerimónias são empregues.
"O cerimonial é uma invenção do homem. A nossa pureza original é-nos dada por Deus. Ela é como é e não pode ser mudada. Por isso, o verdadeiro Sábio espelha-se em Deus e preza a sua pureza original. Ele é independente das exigências humanas. Os tolos, porém, invertem isso. Não se podem espelhar em Deus e precisam de recorrer ao homem. Não prezam a pureza original. Consequentemente, estão sempre a sofrer as vicissitudes da mortalidade e nunca a atingir o objetivo. Ai de vós, senhor, fostes desde cedo mergulhados no engano e desceste tarde a grande doutrina."
Confúcio, tendo-se prostrado duas vezes, levantou-se e disse:
"Foi uma dádiva divina encontrá-lo hoje, senhor. Permita-me acompanhá-lo como seu servo, para que possa beneficiar dos seus ensinamentos. Atrevo-me a perguntar onde reside, para que possa assumir as minhas responsabilidades e aprender a grande doutrina."
"Ouvi dizer", respondeu o velho, "que se um homem é um companheiro adequado, pode-se viajar com ele até às profundezas do Tao. Mas se não for um companheiro adequado e não conhecer o Tao, deve-se evitar a sua companhia, para que nenhum mal aconteça. Com licença, preciso de partir." De seguida, lançou-se ao mar e... desapareceu entre os juncos.
"Yen Yüan trouxe então o carro, e Tzŭ Lu ofereceu a corda a Confúcio. Mas este não lhe prestou atenção. Esperou até que as ondulações na água se acalmassem e o som da vara de remo se dissipasse, antes de se aventurar a subir.
Tzŭ Lu, que estava ao lado da carruagem, perguntou: "Mestre, estou ao seu serviço há muito tempo, mas nunca o vi tratar ninguém assim. Na presença de um governante de dez mil ou mil carruagens, nunca o vi ser tratado com outra coisa senão com grande respeito, enquanto o senhor ostentava um ar altivo. No entanto, diante deste velho pescador, apoiado na sua vara de remo, o senhor encolhe-se, curva-se e prostra-se duas vezes antes de responder. Não é demais? Os discípulos não sabem o que pensar disso." "Porquê este comportamento para com um velho pescador?"
"Yu!" exclamou Confúcio, apoiando-se na barra da carruagem; "é difícil compreender alguma coisa de si. Estudou durante muito tempo as cerimónias e o dever para com o próximo, mas ainda não conseguiu livrar-se da velha natureza má. Venha cá, e eu dir-lhe-ei.
"Encontrar um ancião sem respeito é falta de cerimónia. Ver um Sábio e não o honrar é falta de caridade para com o homem. A não ser que sejas caridoso para com o homem, não poderás humilhar-te perante um semelhante. E a não ser que o possas fazer honestamente, nunca alcançarás esse estado de pureza original; mas o corpo sofrerá constantemente. Ai de mim! Não há mal maior do que não ser caridoso para com o homem. No entanto, é nesta situação que te encontras, ó Yu.
"Além disso, o Tao é a fonte de toda a criação. Os homens possuem-no e vivem. Perdem-no e morrem. As ações que se lhe opõem fracassam; as que estão em conformidade com ele prosperam." Portanto, onde quer que o Tao esteja presente, aí reside a reverência do verdadeiro Sábio. E como se pode dizer que este velho pescador possui o Tao, ousaria eu não o respeitar?
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 32. Sabedoria
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2026-06-29T17:33:49Z
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[[Ajuda:SEA|←]] nova página: CAPÍTULO XXXII. Lieh Tzŭ. Argumento:—Manifestação exterior da graça interior—Os seus perigos—Auto-estima—Os seus erros—Insondabilidade do Tao—Artificialidade de Confúcio—Testes de virtude—Chuang Tzŭ recusa o cargo—A sua morte. QUANDO Lieh Tzŭ Lieh Yü K'ou, um nome bem conhecido em relação ao Tao. Mas é extremamente duvidoso que tal homem tenha realmente existido. O seu registo não é fornecido pelo historiador Ssŭ-ma Ch’i...
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CAPÍTULO XXXII.
Lieh Tzŭ.
Argumento:—Manifestação exterior da graça interior—Os seus perigos—Auto-estima—Os seus erros—Insondabilidade do Tao—Artificialidade de Confúcio—Testes de virtude—Chuang Tzŭ recusa o cargo—A sua morte.
QUANDO Lieh Tzŭ
Lieh Yü K'ou, um nome bem conhecido em relação ao Tao. Mas é extremamente duvidoso que tal homem tenha realmente existido. O seu registo não é fornecido pelo historiador Ssŭ-ma Ch’ien, e pode muito bem ter sido nada mais do que uma personagem alegórica criada por Chuang Tzŭ para fins de ilustração. No entanto, considerou-se necessário, sob a dinastia Han, fornecer as suas "Obras"; e o tratado assim fornecido ainda circula com o seu nome, embora geralmente considerado uma falsificação. Veja pp. 4, 5.
foi para Ch'i, a meio do caminho deu meia-volta e regressou. Ao encontrar-se com Poh Hun Wu Jen, este perguntou: "Como é que voltaste tão cedo?"
"Estava com medo", respondeu Lieh Tzŭ.
"Medo de quê?", perguntou Poh Hun Wu Jen.
"Em dez restaurantes em que comi", disse Lieh Tzŭ, "cinco não aceitaram pagamento".
"E o que há a temer nisso?", indagou Poh Hun Wu Jen.
"A verdade interior, não sendo devidamente assimilada", respondeu Lieh Tzŭ, "transmite um certo brilho exterior. E conquistar os corações dos homens pela força do exterior é induzir em si mesmo um desprezo pela autoridade e pela idade, o que é o prenúncio de problemas.
"Um dono de restaurante é alguém que vive da venda de sopa. Quando os seus lucros são contabilizados, o seu rendimento é diminuto e a sua influência, quase nula. Mas se um homem assim pode agir desta forma, quanto mais o governante de um grande Estado?" Com as forças físicas debilitadas pelas obrigações do cargo e as faculdades mentais esgotadas pelos pormenores da administração, confiar-me-ia o governo e estimular-me-ia com recompensas. "Era disso que eu tinha medo".
"As suas luzes interiores são boas", respondeu Poh Hun Wu Jen; "mas se permanecer imóvel neste ponto, o mundo ainda se reunirá à sua volta."
Contrário ao Tao.
Pouco depois, Poh Hun Wu Jen foi visitar Lieh Tzŭ, e eis que o seu pátio estava cheio de botas.
Dos visitantes que o vieram ouvir. Foram deixadas do lado de fora da porta, de acordo com um costume antigo mencionado no Livro dos Ritos. Veja p. 368.
Poh Hun Wu Jen ficou ali parado por um tempo, virado para norte, com a bochecha enrugada por apoiá-la no seu bastão. Depois, sem dizer uma palavra, partiu.
Ao ser anunciado isto a Lieh Tzŭ,
pelo servo encarregado de receber os convidados,
pegou nos sapatos e saiu a correr descalço.
Na sua pressa,
ao chegar ao portão exterior, gritou: "Mestre! Agora que chegou, não me dá remédio?
"Acabou!" exclamou Poh Hun Wu Jen. "Eu disse-lhe que o mundo se reuniria à sua volta. Não é que possa fazer com que as pessoas se reúnam à sua volta. Não pode impedi-las de o fazer. De que serviria a minha instrução? Exercendo uma influência indevida sobre os outros, acaba por ser influenciado por eles. Perturba a sua constituição natural e não serve para mais nada.
Nenhum dos seus companheiros
avisa-te disso.
As suas conversas insignificantes
São apenas veneno para um homem.
Não estão despertos, não estão atentos à situação.
Como é que um deles te poderia ajudar?
No original, estes versos rimam.
"Os astutos cansam-se, os sábios entristecem-se. Os que não têm capacidades não têm ambições. De barriga cheia, vagueiam felizes, como barcos à deriva, sem se importarem para onde vão."
Havia um homem do Estado de Chêng, chamado Huan. Prosseguiu os seus estudos num lugar chamado Ch'iu-shih. Passados apenas três anos, formou-se como confucionista; e como um rio que fertiliza as suas margens a uma distância de nove li, a sua boa influência atingiu três famílias.
A do seu pai, a da sua mãe e a da sua mulher.
Fez com que o seu irmão mais novo se graduasse como mihista. Mas, na questão do confucionismo versus mihismo,
A filosofia de Mih Tzŭ, que ensinava a doutrina do amor universal, etc. Veja pp. 17, 440.
o pai tomou o partido do mihismo, e ao fim de dez anos, Huan suicidou-se.
Então o pai sonhou que Huan lhe apareceu e disse: "Fui eu que fiz com que o teu filho se tornasse mihista. Porquê dar todo o crédito àquele que não passa de um fruto de pinheiro no Outono?".
São apresentadas várias interpretações desta comparação: nenhuma satisfatória. Por exemplo, (1) Como um cone seco. (2) Que outro plantou e cultivou.
Em boa verdade, Deus não recompensa o homem pelo que faz, mas pelo que é.
Isto é, pelo natural, não pelo artificial.
E foi nesse sentido que o irmão mais novo se tornou um Mihista.
Ele tinha essa inclinação natural.
Ao passo que um homem que considerasse as suas capacidades distintivas como fruto da sua própria criação, sem ter em conta os seus pais, seria como o homem de Ch'i que cavou um poço e depois quis afastar os outros dele.
Esquecendo-se de que Deus colocou a fonte ali em primeiro lugar.
Daí o ditado que diz que os homens de hoje são todos Huans.
Portanto, segue-se que os homens de verdadeira virtude são inconscientes nós da sua posse. Quanto mais então o homem do Tao? É a isto que os antigos chamavam escapar à vingança de Deus.
Que seria incorrida ao imitar a sua bondade.
O verdadeiro Sábio repousa naquilo que dá repouso, e não naquilo que não dá repouso. O mundo repousa naquilo que não dá repouso, e não naquilo que dá repouso.
O natural e o artificial.
Chuang Tzŭ disse: "Conhecer o Tao é fácil. A dificuldade reside na eliminação da fala. Conhecer o Tao sem fala pertence ao natural. Conhecer o Tao com fala pertence ao artificial. Os homens da antiguidade eram naturais, não artificiais."
"Chu P'ing Man gastou uma grande fortuna a aprender com Chih Li I como matar dragões.
Para adquirir o Tao. Não há registo das pessoas mencionadas.
Ao fim de três anos, era perfeito, mas não havia direção na qual pudesse demonstrar a sua capacidade.
" O Tao não pode ser posto em prática.
"O verdadeiro Sábio considera as certezas como incertezas; por isso, nunca se levanta em armas.
Em estado de perturbação mental.
Os homens em geral consideram as incertezas como certezas; portanto, estão constantemente em armas. O hábito das armas faz com que se recorra a elas a cada provocação; e confiar nas armas é perecer.
"A inteligência do homem medíocre não se eleva além de subornos e cartas de recomendação. A sua mente está obscurecida por trivialidades. Contudo, ele deseja penetrar o mistério do Tao e da criação, e ascender à participação no Uno. O resultado é que ele se confunde com o tempo e o espaço; e que, preso às existências objectivas, não consegue alcançar a compreensão daquela era anterior a tudo.
"Mas o homem perfeito — ele leva a sua mente de volta ao período anterior ao princípio. Contentando-se em repousar no esquecimento do lugar nenhum, desaparecendo como água corrente, ele funde-se nas profundezas claras do infinito.
"Ai de mim! O conhecimento do homem chega a um só cabelo, mas não a paz eterna."
Um homem do Estado de Song, chamado Ts'ao Shang, servia como agente político do príncipe de Song na corte do Estado de Qin. Quando lá chegou, tinha algumas carruagens; mas o príncipe de Qin ficou tão satisfeito com ele que lhe acrescentou mais cem.
Quando regressou a Song, visitou Chuang Tzŭ e disse-lhe: "Quanto a viver na pobreza numa choupana imunda, ganhando um escasso sustento a fazer sandálias, com o rosto enrugado e as orelhas amareladas, isso eu não conseguiria fazer. Entrevistar um governante poderoso, com uma comitiva de cem carruagens, isso é a minha especialidade."
"Quando o príncipe de Qin está doente", respondeu Chuang Tzŭ, "e chama o seu médico para rebentar um furúnculo ou limpar uma úlcera, este recebe uma carruagem. O homem que lhe lambe as hemorróidas recebe cinco." Quanto mais degradante for o trabalho, maior será o número de carruagens fornecidas. O senhor, deve ter estado a cuidar das suas pilhas de trabalho para receber tantas carruagens. Suma daqui!
"Não", disse Lin Hsi Chung, "da pena de Chuang Tzŭ."
O duque Ai de Lu perguntou a Yen Ho: "Se eu fizesse de Confúcio um pilar do meu reino, o Estado beneficiaria com isso?".
"Seria extremamente perigoso!" respondeu Yen Ho. "Confúcio é um homem de ostentação e de palavras enganadoras. Confunde o ramo com a raiz.
Acessórios com fundamentos.
Procura impressionar o povo com uma postura arrogante, cuja vacuidade não percebe. Se ele lhe agradar e o senhor lhe confiar o bem-estar do Estado, será apenas por engano que ele terá sucesso."
Esta passagem é interpretada de diversas formas.
"Levar as pessoas a abandonar a verdade e a estudar a falsidade não afeta tanto as pessoas de hoje como as das gerações futuras. Por isso, é melhor não ter Confúcio.
"A dificuldade de governar reside na incapacidade de praticar a abnegação. O homem não governa como Deus governa.
Independentemente de si próprio.
"Os comerciantes e negociantes estão completamente fora do alcance.
Do Tão.
Ou, se por acaso os trouxer para dentro dele, os seus direitos nunca são livremente reconhecidos.
"Os castigos externos são infligidos pelo metal e pela madeira. Os castigos internos são infligidos pela ansiedade e pelo remorso. Os tolos que incorrem em castigos externos são tratados com metal ou madeira. Aqueles que incorrem em castigos internos são devorados pelo conflito de emoções. Só o homem puro e perfeito pode conseguir evitar ambos."
Confúcio disse: "O coração do homem é mais perigoso do que as montanhas e os rios, mais difícil de compreender do que o próprio Céu. O Céu tem os seus períodos de primavera, verão, outono, inverno, dia e noite." O homem possui uma aparência impenetrável e os seus motivos são insondáveis. Assim, alguns homens aparentam estar a recuar quando, na verdade, estão a avançar. Outros possuem habilidades, mas parecem inúteis. Outros são complacentes, mas atingem os seus objetivos. Outros assumem uma posição firme, mas cedem. Outros vão devagar, mas progridem rapidamente.
"Aqueles que se lançam no dever para com o próximo como se o desejassem ardentemente, abandonam-no como se fosse algo irresistível. Assim, a lealdade do homem superior é testada ao empregá-lo à distância." O seu respeito, ao empregá-lo por perto. A sua habilidade, através de missões problemáticas. O seu conhecimento, através de perguntas inesperadas. A sua fiabilidade, pela especificação de prazos. A sua integridade, ao confiar-lhe dinheiro. A sua fidelidade, através de tarefas perigosas. O seu decoro, ao servi-lo com vinho. A sua moralidade, ao colocá-lo em ambientes desonrosos. Sob a aplicação destes nove testes, o homem inferior revela-se.
"Chêng K'ao Fu, ao receber a sua primeira nomeação, baixou a cabeça. Ao receber a segunda, arqueou as costas. Ao receber a terceira, prostrou-se com o rosto no chão, afastando-se pela berma do caminho.
Em vez de ficar no meio, como qualquer fanfarrão arrogante faria.
Quem não tentaria ser como ele?
"No entanto, os homens comuns, na sua primeira nomeação, tornam-se presunçosos. Na segunda, exibem-se nos seus carros. Na terceira, chamam os seus próprios pais pelo nome.
" Como deveríamos dizer, "pelos seus nomes cristãos". O termo "pais" inclui os tios.
Qual deles pode ser comparado ao antigo Hsü Yu?
"Não há nada mais fatal do que a virtude intencional, quando a mente se volta para fora.
A espontaneidade é a essência da verdadeira virtude.
Pois, ao voltar-se para o exterior, o poder da introspeção é destruído.
"Existem cinco fontes de dano à virtude.
Olhos, nariz, boca, ouvidos e pensamento.
Destas, aquela que visa a virtude é a principal. O que é visar a virtude? Porque é que um homem que visa a virtude pratica o que aprova e condena o que não pratica?
Compensações pelos pecados a que se sente inclinado
Condenando aqueles que não deseja condenar.
" "Existem oito causas de insucesso, três elementos certos de sucesso. Existem seis fontes de força e fraqueza.
Beleza, barba comprida, tamanho, altura, robustez, graciosidade, coragem, ousadia — estes oito atributos, em que os homens superam os seus semelhantes, são, por isso, passaportes para o fracasso.
Modéstia, submissão, humildade — estes três são caminhos seguros para o sucesso.
A sabedoria manifesta-se externamente.
Através da qual o interior sofre.
A coragem cria muitos inimigos. A caridade e o dever para com o próximo incorrem em muitas reprovações.
Três fontes de fraqueza.
Aquele que consegue penetrar no mistério da vida, todas as coisas são reveladas. Aquele que consegue avaliar a sabedoria no seu verdadeiro valor,
é, em nada.
é sábio. Aquele que compreende o Destino Maior, passa a fazer parte dele.
Do grande esquema do universo, visível e invisível.
Aquele que compreende o Destino Menor, resigna-se ao inevitável."
Referindo-se à vida tal como é normalmente vista pelos mortais. Três fontes de força.
Um homem que visitara o príncipe de Song e recebera dez carros de presente, vangloriava-se na presença de Chuang Tzŭ.
"Em Ho-Shang", disse este último, "havia um homem pobre que sustentava a sua família a entrançar juncos. Um dia, o seu filho mergulhou no rio e encontrou uma pérola que valia mil onças de prata. O pai ordenou-lhe que pegasse numa pedra e a partisse em pedaços, explicando que só poderia ter encontrado uma pérola assim mesmo no fundo do rio, debaixo do nariz do dragão, que devia estar a dormir. E disse que temia que, quando o dragão despertasse, o rapaz tivesse poucas hipóteses.
Se fosse encontrado com ela na sua posse.
"Ora, o Estado de Song é mais profundo do que um rio profundo, e o príncipe de Song é mais feroz do que um dragão. Para conseguires estas carruagens, deves tê-lo encontrado a dormir." E quando ele acordar, serás reduzido a pó."
Um príncipe, ao convidar Chuang Tzŭ para o servir, respondeu: "Senhor, já reparou num boi sacrificial? Está adornado com fitas e tem um aspecto sumptuoso. Mas, quando chega a hora de ser abatido para o templo, não trocaria de bom grado de lugar com algum bezerro negligenciado?".
Citado, com variantes, pelo historiador Ssŭ-ma Ch'ien, na sua biografia de Chuang Tzŭ. Veja a Introdução.
Quando Chuang Tzŭ estava prestes a morrer, os seus discípulos manifestaram o desejo de lhe proporcionar um esplêndido funeral. Mas Chuang Tzŭ disse: "Com o Céu e a Terra como meu caixão e casca; com o sol, a lua e as estrelas como minhas vestes funerárias; E com toda a criação para me escoltar até à sepultura, não estão prontos os meus apetrechos funerários?
E não teve ele grande honra?
A encosta para o seu sudário;
Para repousar em câmara ardente enquanto os anjos esperam,
Com estrelas como altas velas;
E os pinheiros escuros da rocha como plumas ondulantes,
Para ondular sobre o seu esquife,
E a própria mão de Deus naquela terra solitária,
Para o depositar na sepultura.
O Sepultamento de Moisés (Sra. Alexandre).
"Tememos", argumentaram os discípulos, "que o milhafre devore o corpo do nosso Mestre"; ao que Chuang Tzŭ respondeu: "Acima da terra, serei alimento para milhafres; em baixo, serei alimento para grilos-toupeira e formigas. Porquê roubar a um para alimentar o outro?"
Com isto pode-se comparar a resposta de Diógenes numa ocasião semelhante. Quando o velho cínico pediu para ser deixado insepulto, os seus amigos objectaram que seria devorado por cães e pássaros.
"Coloque o meu s "Aproximai-vos de mim", disse Diógenes, "para que eu vos possa espantar".
"Como é que vais conseguir isso?", perguntaram os amigos. "Não estará consciente."
"Então, que me importará ser dilacerado por feras?", exclamou Diógenes, "se não estiver consciente disso?"
"Se adotarem, como absoluto, um padrão de uniformidade que só o é relativamente, os vossos resultados não serão absolutamente uniformes. Se adotarem, como absoluto, um critério de justiça que só o é relativamente, os vossos resultados não serão absolutamente justos. Aqueles que confiam nos vossos sentidos tornam-se escravos de existências objetivas. Só aqueles que são guiados pelas vossas intuições encontram o verdadeiro padrão. Até aqui, os sentidos são menos fiáveis do que as intuições. No entanto, os tolos confiam nos saber o que é bom para a humanidade, com consequências nefastas!" mas resultados externos."
Tal como o texto original de Primavera e Outono termina com o aparecimento do ch’i lin (ou kilin) e a morte de Confúcio, os discípulos de Chuang Tzŭ concordaram que o texto original de Chuang Tzŭ chega a um final apropriado no leito de morte do seu grande Mestre.
O capítulo final é apenas um resumo de toda a obra, compilado pelos primeiros editores.
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Chuang Tzŭ (Giles)/Capítulo 33. Escolas diversas
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CAPÍTULO XXXIII.
O Império.
[Resumo dos primeiros editores.]
Existem muitos sistemas de governo. Cada homem considera o seu perfeito. Onde entra, então, aquilo a que os antigos chamavam o sistema do Tao? Não há lugar onde ele não entre.
Pode-se perguntar de onde vem a nossa espiritualidade, de onde vem a nossa intelectualidade. O verdadeiro Sábio nasce; o príncipe é feito. No entanto, todos procedem de um Uno original.
Aquele que não se separa da Fonte é um com Deus. Aquele que não se separa da essência é um homem espiritual. Aquele que não se separa da realidade é um homem perfeito. Aquele que faz de Deus a fonte, de Tê a raiz e do Tao o portal, adaptando-se passivamente às modificações do seu ambiente — esse é o verdadeiro Sábio.
Estas são apenas quatro denominações diferentes do homem ideal.
Aquele que pratica a caridade como uma bondade, o dever para com o próximo como um princípio, a cerimónia como uma conveniência, a música como um pacificador, e assim se torna compassivo e caridoso, — esse é um homem superior.
Aqui descemos para um nível inferior, embora ainda elevado. O "homem superior" é o homem ideal da ética confucionista. Nele, a divindade não encontra lugar.
Aquele que regula a sua conduta pela lei, que considera a fama um complemento exterior, que verifica as suas hipóteses, que baseia o seu juízo em provas — tais homens ocupam os primeiros, segundos, terceiros, quartos lugares, etc. É assim que os colaboradores se classificam. Num sentido estrito de dever, em dar importância primordial à alimentação e ao vestuário, em cuidar e nutrir os idosos, os fracos, os órfãos e as viúvas, todos exemplificam o princípio do verdadeiro governo.
Em parte, se não totalmente. Este é o nível morto da mortalidade comum, ainda dentro da operação do Tao.
Assim era abrangente a extensão do Tao entre os antigos.
Companheiro dos deuses, purificador do universo, nutre toda a criação, une o império, beneficia as massas. Iluminando o fundamental, está ligado ao acessório, atingindo todos os pontos cardeais e os extremos opostos de magnitude. De facto, não há lugar onde não esteja!
Como iluminou a política das eras passadas é evidenciado nos registos que os historiadores nos preservaram. A sua presença nos Cânones da Poesia, da História, dos Ritos e da Música foi esclarecida por muitos estudiosos de Chou e Lu. Informa o Cânone da Poesia com o seu vigor, o Cânone da História com a sua utilidade, o Cânone dos Ritos com a sua adaptabilidade, o Cânone da Música com a sua influência harmonizadora, o Cânone das Mudanças com os seus Princípios misteriosos e a Primavera e o Outono com as suas distinções. Espalhado por todo o mundo, centra-se no Império do Meio, e o conhecimento de todas as escolas presta uma constante homenagem ao seu poder. Mas quando o mundo está desorganizado, os verdadeiros Sábios não se manifestam, o Tao deixa de existir como Uno, e o mundo passa a reconhecer as idiossincrasias do indivíduo. Estas são como os sentidos da audição, visão, olfato e paladar — não comuns a todos os órgãos. Ou como a habilidade de vários artesãos — cada um excelente na sua área e cada um útil à sua maneira, mas não igualmente à disposição de todos.
Consequentemente, quando um mero especialista se apresenta e dogmatiza sobre a beleza do universo — os princípios que fundamentam toda a criação, a posição ocupada pelos antigos em relação à beleza do universo e os limites do sobrenatural — segue-se que o Tao da sabedoria interior e da força exterior fica obscurecido e impedido de se afirmar. Cada um, infelizmente, considera o caminho que prefere como o infalível. As várias escolas divergem para nunca mais se encontrarem; e a posteridade é impedida de contemplar a pureza original do universo e a grandeza dos antigos. Pois o sistema do Tao está disperso em fragmentos pela face da Terra.
Não cobiçar a fama póstuma, nem ambicionar deslumbrar o mundo, nem apresentar-se como um benfeitor da humanidade, mas ser um rigoroso autodisciplinador, tolerante com as falhas alheias — eis o Tao dos antigos.
Mih Tzŭ e Ch'in Hua Li
Um discípulo de Mih Tzŭ.
tornaram-se seguidores entusiastas do Tao, mas levaram o sistema longe demais, praticando em excesso. O primeiro escreveu um ensaio Contra a Música e outro intitulado Economia.
Encontrado na coleção que tem o nome de Mih Tzŭ.
Não deve haver canto em vida, nem luto após a morte. Ensinava o amor universal e a benevolência para com o próximo, sem contendas, sem censura. Adorava a aprendizagem, mas não para se diferenciar dos outros. Contudo, as suas opiniões não eram as dos antigos Sábios, cuja música e ritos ele deixou de lado.
O Imperador Amarelo legou-nos o Hsien-ch'ih. Yao legou-nos o Ta-chang. Shun, o Ta-shao. Yü, o Ta-hsia. T'ang, o Ta-hu. Wên Wang, o P'i-yung. Wu Wang e Chou Kung acrescentaram o Wu.
Composições musicais famosas.
O antigo cerimonial de luto era realizado de acordo com a posição social de cada um, e determinado proporcionalmente à sua hierarquia. Assim, o corpo do So O corpo de um ser celeste era sepultado num caixão de sete compartimentos. O de um príncipe feudal, num caixão de cinco compartimentos. O de um ministro, num caixão de três compartimentos. O de um indivíduo comum, num caixão de dois compartimentos. Mas agora Mih Tzŭ não permitiria o canto em vida, nem o luto após a morte, e um único caixão de apenas três polegadas de espessura como regra para todos!
Tais doutrinas não ilustram a sua teoria do amor universal;
Revelam uma falta de compaixão pelas fraquezas humanas.
A sua prática também não comprova o seu próprio respeito. Podem não ser suficientes para destruir completamente o seu sistema; embora seja irracional proibir o canto, o choro e a alegria no devido tempo.
Queria que os homens labutassem durante a vida e desprezassem a morte. Mas este ensinamento é muito pouco atraente. Condenaria a humanidade à tristeza e ao lamento. Seria praticamente impossível como sistema prático e, receio, não pode ser considerado o Tao do verdadeiro Sábio. Seria diametralmente oposto às paixões humanas e, como tal, não seria tolerado pelo mundo. O próprio Mih Tzŭ poderia ser capaz de o implementar, mas não o resto do mundo. E quando alguém se separa do resto do mundo, as suas hipóteses de desenvolver um Estado ideal tornam-se realmente pequenas.
Mih Tzŭ argumentou a favor do seu sistema da seguinte forma: — Antigamente, o grande Yu drenava a cheia e fazia com que os rios e ribeiros corressem pelas nove divisões do império e pelas partes adjacentes — trezentos grandes rios, três mil afluentes e inúmeros ribeiros. Com as suas próprias mãos, manejou o balde e a draga, de modo a reduzir a confusão à uniformidade.
Faça com que todos os ribeiros fluam para o mar.
até que os seus gémeos e canelas ficassem completamente sem pelos. O vento banhava-o, a chuva penteava-o; Mas demarcou as nações do mundo e foi, de facto, um Sábio. E porque ele se sacrificou assim pela comunidade, gerações de mihistas vindouros usariam também casacos curtos de sarja e sandálias de palha, e trabalhariam dia e noite sem parar, fazendo da automortificação o seu fim e objectivo, e diriam a si próprios: "Se não conseguirmos fazer isso, não seguimos o Tao de Yü e não somos dignos de sermos chamados de mihistas."
Os discípulos de Hsiang Li Ch'in,
Um professor de mihismo.
Os seguidores dos cinco príncipes, mihistas do sul, como K'u Huo, Chi Ch'ih e Têng Ling, — todos estes estudaram o cânone de Mih Tzŭ, mas as suas discordâncias e concordâncias não eram idênticas. Chamavam-se cismáticos e discutiam sobre o "duro e o branco", o "semelhante e diferente" e argumentavam sobre questões de "ímpar e par". Chü Tzŭ era o seu Sábio, e eles queriam canonizá-lo como santo, para que pudessem perpetuar os seus ensinamentos nas gerações futuras. Mesmo hoje, estas divergências não foram resolvidas.
Assim, vemos que Mih Tzŭ e Ch’in Hua Li, embora certos na teoria, estavam errados na prática. Teriam simplesmente ensinado a humanidade a competir entre si para ver quem conseguia arrancar mais pelos dos gémeos e das canelas. O mal deste sistema teria predominado sobre o bem. Não obstante, Mih Tzŭ era, sem dúvida, um homem bem-intencionado. Apesar do insucesso, com todas as suas influências negativas, manteve-se fiel ao seu texto. Ele pode ser chamado de génio.
Mas não de um verdadeiro Sábio.
Não se envolver com o mundano, não se entregar ao especioso, não ser demasiado ambicioso com o indivíduo, nem antagónico para com o público; Mas desejar a tranquilidade do mundo em geral, visando a prolongação da vida, não procurar mais do que o suficiente para as necessidades próprias e alheias, e, por meio desse caminho, purificar o coração — eis o Tao dos antigos.
Sung Hsing e Yin Wên tornaram-se seguidores entusiastas do Tao. Adotaram um chapéu, com a forma da Montanha Hua, como distintivo. Mantinham uma benevolência e discernimento para com todas as coisas. Falavam das qualidades passivas do coração como se fossem ativas; e declaravam que quem quer que pudesse trazer alegria à humanidade e paz dentro da cintura do oceano deveria ser escolhido para a governar.
Suportaram a infâmia sem se importarem com o insulto. Protegeram o povo da discórdia. Proibiram a agressão e fizeram com que as armas permanecessem sem uso. Salvaram a sua geração das guerras e levaram o seu sistema a todo o império, para alegria dos poderosos e para bem-estar dos humildes. Embora o mundo não os quisesse, eles perseveraram e não cederam. Por isso, dizia-se que, quando os ricos e os pobres se cansavam de os ver, intrometiam-se à força. Apesar de tudo isto, faziam muito pelos outros e muito pouco por si próprios.
"Deem-nos", disseram, "apenas cinco canecas de arroz, e será suficiente." O mestre não se conseguia fartar assim; mas os discípulos, embora famintos, não se esqueciam das exigências do mundo.
Isto não é explicado satisfatoriamente por nenhum comentador. Kuo Hsiang diz que estes dois homens consideravam o mundo o seu "mestre".
Dia e noite trabalhavam arduamente, dizendo: "Precisamos mesmo...?" Viver de verdade? Será que devemos imitar os chamados salvadores da humanidade?
"O homem superior", dizem, "não é um crítico. Não se apropria do mérito alheio. Considera aquele que não faz bem ao mundo como um sujeito desprezível. Vê a proibição das acções agressivas e o acto de deixar as armas sem uso como algo exterior; a diminuição e o controlo das nossas paixões, como algo interior." Em todas as questões, grandes ou pequenas, subtis ou grosseiras, é esse o ponto que ele atinge."
Ser altruísta e não pertencer a nenhum partido, não ser egoísta nas suas ações, mover-se sem estar preso a um caminho predeterminado, aceitar as coisas como elas vêm, não ter remorsos pelo passado, nem ansiedade pelo futuro, não ter parcialidades, mas estar em bons termos com todos — eis o Tao dos antigos.
P'êng Mêng, T'ien P'ien e Shên Tao tornaram-se seguidores entusiastas do Tao. O seu critério era a identidade de todas as coisas. "O céu", diziam eles, "pode cobrir-nos, mas não pode sustentar-nos. A terra pode sustentar-nos, mas não pode cobrir-nos. O Tao pode abranger todas as coisas, mas não pode lidar com particularidades."
Sabiam que na criação todas as coisas tinham as suas possibilidades e as suas impossibilidades. Por isso, diziam: "A seleção exclui a universalidade. O treino não alcançará todas as direções." Mas o Tao é abrangente."
Consequentemente, o Tao Shen descartou todo o conhecimento e o interesse próprio, tornando-se fatalista.
É quase tão difícil compreender o Tao sem fatalismo como a omnisciência de Deus sem a predestinação.
A passividade era o seu princípio orientador. "Pois", dizia ele, "só podemos saber que nada sabemos, e um pouco de conhecimento é uma coisa perigosa.
"Pegue em qualquer sujeito desprezível que troça da humanidade por valorizar a virtude, em qualquer vagabundo sem princípios que insulte os grandes Sábios do mundo, e submeta-o à tortura. Na sua agonia, sacrificará o positivo e o negativo de igual forma. Se conseguir libertar-se, não se preocupará mais com o conhecimento e a previsão. O passado e o futuro deixarão de existir para ele, na sua condição neutra.
"Mova-se quando empurrado, venha quando arrastado. Seja como um vendaval giratório, como uma pena ao vento, como uma mó girando. A mó, enquanto existência, é perfeitamente inofensiva." Em movimento ou em repouso, não faz mais do que o necessário e, por isso, não pode ser censurado.
"Porquê? Porque é simplesmente uma coisa inanimada. Não tem preocupações consigo mesma. Nunca se enreda nas amarras do conhecimento. Em movimento ou em repouso, é sempre governada por leis fixas e, portanto, nunca se torna passível de elogio. Daí se dizer: 'Seja como uma coisa inanimada e não haverá utilidade para os Sábios'.
"Pois um torrão de terra não pode existir sem o Tao," — ao que algum jovem atrevido cobriu o argumento com ridículo, gritando: "O Tao de Shen Tao não é para os vivos, mas para os mortos!"
O mesmo aconteceu com T'ien P'ien. Estudou com P'êng Meng; com o resultado de que não aprendeu nada.
O Tao não pode ser aprendido.
O tutor de P'êng Meng disse: "Aqueles antigos que conheciam o Tao, atingiram o ponto em que o positivo e o negativo deixaram de existir." Isso era tudo."
Ora, a inclinação destes homens é de oposição, o que é difícil de discutir. Agem de forma completamente diferente das outras pessoas, mas não podem escapar à imputação de propósito.
O que toma o lugar da espontaneidade.
Aquilo a que chamam Tao não é Tao; e o que eles predicam afirmativamente não pode escapar a ser negativo. O facto é que P'êng Mêng, T'ien P'ien e Shên Tao não conheciam o Tao. No entanto, todos tinham um certo conhecimento dele.
Fazer da raiz o essencial, considerar as existências objetivas como acidentais, encarar a acumulação como deficiência e aceitar mansamente as disposições da Providência — eis o Tao dos antigos.
Kuan Yin e Lao Tzu tornaram-se seguidores entusiastas do Tao.
Para Kuan Yin, ver p. 230.
Basearam o seu sistema no nada, tendo o Uno como critério. A sua expressão exterior era de gentileza e humildade. A sua crença interna estava na Irrealidade e em evitar causar danos a todas as coisas.
Kuan Yin disse: "Não adote uma posição absoluta. Deixe que as coisas exteriores cuidem de si. Em movimento, seja como a água. Em repouso, como um espelho.
Receptivo, mas não permanentemente.
Responda, como o eco.
Apenas quando chamado.
Seja subtil, como se não existisse. Permaneça imóvel, como se fosse puro. Considere a uniformidade como paz. Veja o ganho como uma perda. Não preceda os outros. Siga-os."
Lao Tzu disse: "Aquele que, consciente da sua força, se contenta em ser fraco, será o centro das atenções dos homens."
Esta frase é citada por Huai Nan Tzu como um dito de Lao Tzu e aparece no capítulo xxviii do Tao Te Ching. Ver Os Restos Mortais de Lao Tzu, p. 21.
"Aquele que, consciente da pureza, suporta a desgraça, será o centro das atenções da humanidade".
"Aquele que, enquanto outros se esforçam por ser o primeiro, se contenta com o lugar mais baixo, diz-se que aceita a afronta do mundo".
"Aquele que, enquanto outros lutam pelo substancial, se contenta com o insubstancial, nada acumula e, por isso, não tem nada". Abundância. Ali está ele, no meio da sua abundância, que lhe chega sem qualquer esforço. Nada faz e ri-se das artimanhas alheias.
"Aquele que, enquanto outros se esforçam pela felicidade, se contenta com a segurança, diz-se que procura evitar o mal".
Compare-se com o Tao Te Ching, capítulo XXII.
"Aquele que faz da profundidade a importância fundamental e da moderação a sua regra de vida, diz-se que esmaga o que é duro dentro de si e tempera o que é áspero".
"Ter uma ampla simpatia por toda a criação e não ser agressivo com o próximo — a isto se pode chamar perfeição."
Ó Kuan Yin! Ó Lao Tzu! Em verdade, vós fostes os verdadeiros Sábios da antiguidade.
"Estar em liberal simpatia com toda a criação e não ser agressivo com o próximo — a isto se pode chamar perfeição." Silêncio, ausência de forma, mudança, impermanência, ora vida, ora morte, céu e terra fundidos num só, a alma partindo, indo para um lugar desconhecido: de repente, ninguém sabe para onde, pois todas as coisas se sucedem, para nunca mais voltar; — eis o Tao dos antigos.
Chuang Tzu tornou-se um entusiasta seguidor do Tao. Em termos estranhos, com palavras ousadas e linguagem abrangente, dava livre curso aos seus pensamentos, sem seguir nenhuma escola específica ou se comprometer com qualquer linha particular.
Via o mundo tão mergulhado na corrupção que era impossível falar com seriedade. Por isso, empregava "palavras de cálice", que se aplicavam em várias direções; baseava as suas afirmações numa autoridade sólida para inspirar confiança; e colocava palavras na boca de outras pessoas para garantir amplitude.
Ver o capítulo xxvii ad init.
Em harmonia com o espírito do universo, estava em paz com toda a criação. Não julgava o certo e o errado da humanidade e, assim, viveu tranquilamente na sua geração. Embora o seu livro seja uma obra extraordinária, é plausível e inofensivo o suficiente. Apesar do seu estilo ser bastante irregular, é ao mesmo tempo engenhoso e atraente.
Como pensador, é infinitamente sugestivo. Acima, caminha com Deus. Em baixo, convive com aqueles que estão para além do alcance da vida e da morte, que negam um princípio e um fim. Em relação à raiz,
A origem de todas as coisas.
Fala em uma escala grandiosa e abrangente. Em relação ao Tao, estabelece uma harmonia entre o homem e os poderes superiores. No entanto, rende-se às modificações da existência e responde às exigências do meio. Os seus argumentos são inesgotáveis e nunca ilógicos. Ele é abrangente, misterioso e não deve ser totalmente explorado.
É impossível para um crítico europeu acreditar que Chuang Tzu tenha escrito os parágrafos acima. Ver post, p. 454.
Hui Tzŭ era um homem de muitas ideias. As suas obras encheriam cinco carroças. Mas as suas doutrinas são paradoxais e os seus termos são utilizados de forma ambígua.
Chama à grandeza infinita, para além da qual não há nada, o Maior. Chama à pequenez infinita, dentro da qual não há nada, o Menor.
Reconhecendo dois extremos absolutos.
Diz que aquilo que não tem dimensões mede mil li.
Com base no princípio de que os pontos matemáticos, embora sem dimensões, preenchem coletivamente o espaço.
Que o céu e a terra são igualmente baixos. Que a montanha e o pântano são igualmente planos.
Depende do ponto de vista.
Que o sol ao meio-dia é o sol poente.
Para as pessoas que vivem mais a leste.
Que quando um animal nasce, morre.
Quanto ao seu estado anterior, morre ao deixá-lo para um novo estado.
Que a semelhança de coisas parcialmente diferentes se chama semelhança menor de coisas diferentes. Que a semelhança de coisas totalmente diferentes se chama semelhança maior entre as diferentes. Que a sul não há limite, e ainda assim há um limite. Que se pode alcançar Yüeh hoje e já lá ter estado antes. Que anéis unidos podem ser separados. Que o centro do mundo fica a norte de Yen e a sul de Yüeh.
Está onde quer que o orador esteja. O espaço entre Yen e Yüeh é como se fosse zero comparado com o infinito.
Que ele ama toda a criação de igual forma, assim como o céu e a terra são imparciais para todos.
Ao cobrir e sustentar tudo.
Consequentemente, Hui Tzŭ foi considerado um grande filósofo e um dialético muito subtil; e tornou-se um favorito entre os outros dialécticos da época.
Disse que havia penas num ovo.
Porque numa galinha.
Que uma ave tinha três pés.
O terceiro sendo a vontade.
Que Ying era o mundo.
Pois não pode dizer que não é o mundo. Que um cão pode ser uma ovelha. Que uma égua pode pôr ovos. Que um prego tem cauda.
Sendo os nomes arbitrários em todos os casos.
Que o fogo não é quente.
É o homem que o sente quente.
Que as montanhas têm bocas.
Como evidenciado pelos ecos.
Que as rodas não pressionam o solo.
Tocando apenas num ponto.
Que o olho não vê.
É o homem.
Que o dedo não toca. Que o extremo não é o fim. Que uma tartaruga é mais comprida que uma cobra.
Porque vive mais tempo!
Que um esquadro de carpinteiro não é quadrado.
Como a pedra de afiar de Horácio, que afia outras coisas, "exsors ipsa secandi".
Que os compassos não fazem um círculo. É o desenhador.
Que um buraco redondo não circunda uma pega quadrada. Que a sombra de um pássaro em voo não se move. Que há um momento em que uma flecha que voa velozmente não está nem em movimento nem em repouso. Que um cão não é um cão de caça.
Duas coisas não podem ser idênticas a não ser que até os seus nomes sejam iguais.
Que um cavalo baio e uma vaca castanha são três.
Considerados separadamente, são dois. Considerados em conjunto, são um só. Um mais dois são três.
Que um cão branco é preto.
Se os seus olhos forem pretos. A parte representa o todo.
Que um poldro sem mãe nunca teve mãe.
Quando teve mãe, não era órfão.
Que se pegar num pau de trinta centímetros e todos os dias o cortar ao meio, nunca chegará ao fim dele.
Compare com "Aquiles e a Tartaruga" e os sofismas dos filósofos gregos.
E era sobre isso que os dialécticos discutiam com Hui Tzŭ, sem nunca chegarem a uma conclusão.
Huan T'uan e Kung Sun Lung pertenciam a esta classe. Com premissas falaciosas, manipulavam-nas e levavam-nas a conclusões falsas. Mas, embora vencessem a batalha verbal, não conseguiam convencer os seus adversários. As suas argumentações não passavam de armadilhas de sofistas.
Hui Tzŭ dedicava diariamente a sua inteligência a tais atividades, apresentando propositadamente alguma tese absurda para debater. Essa era a sua característica. Além disso, tinha um grande apreço pela sua própria sabedoria e costumava dizer: "O universo não me supera".
Hui Tzŭ ostentava a sua força, mas era desprovido de qualquer lógica. Um sujeito excêntrico do sul, chamado Huang Liao, perguntou porque é que o céu não caía e a terra não se afundava; e também, de onde vinha o vento, a chuva e o trovão.
Hui Tzŭ não hesitou em responder a estas questões, às quais respondeu sem hesitações. Estendeu-se em longas discussões sobre toda a criação e falou sem parar, embora para si próprio parecesse estar a dizer muito pouco. Complementou isto com afirmações extraordinárias, tendo como principal objetivo contradizer os outros e desejando alcançar a fama derrotando todos os que se lhe opunham. Assim, nunca foi popular. Moralmente, era fraco; fisicamente, violento. O seu caminho era obscuro e estreito.
Do ponto de vista do Tao do universo, o valor de Hui Tzŭ pode ser comparado aos esforços de um mosquito ou de um mutuca. De que era ele útil ao mundo? Como especialista, poderia ter tido sucesso. Mas permitir que se apresentasse como um expoente do Tao teria sido realmente perigoso.
Ele, no entanto, não se contentaria em ser um especialista. Precisava de percorrer insaciavelmente toda a criação, embora só tenha conseguido a reputação de sofista.
Ai dos talentos de Hui Tzŭ! É extravagantemente enérgico, e ainda assim não tem sucesso. Investiga toda a criação, mas não conclui no Tao. Faz barulho para abafar um eco. É como um homem que corre uma corrida com a sua própria sombra. Ai!
Quanto à autenticidade deste capítulo final, cada um pode formar a sua própria opinião. A questão foi acaloradamente debatida, e grandes nomes podiam ser mencionados de ambos os lados. Wang An Shih e Su Tung P'o acreditavam que poderia muito bem ter vindo das mãos de Chuang Tzŭ. Lin Hsi Chung discordava, e do seu lado estará provavelmente a maioria dos estudantes ocidentais.
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