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<noinclude><pagequality level="3" user="JppBr98" />{{rh|102|{{sc|historia da meia noite}}|}}</noinclude>bonito, mas algumas senhoras affirmavam que apezar d’isso era mais perigoso que um lata de nitro-glycerina. Naturalmente não devia essa qualidade á graça da linguagem, pois fallava sibilando muito a letra ''s''; dizia sempre: Asss minhasss botasss…
Quando Porfirio acabou os comprimentos, disse-lhe o dono da casa :
— Ja sei que hoje temos cousa boa !
— Qual ! respondeu elle com uma modestia exemplar; quem ousará levantar a voz diante de illustrações ?
Porfirio disse éstas palavras pondo os quatro dedos da mão esquerda no bolso do collete, gesto que elle praticava por não saber onde havia de pôr aquelle fatal braço, obstaculo dos actores noveis.
— Mas porque veiu tarde ? perguntou D. Beatriz.
— Condemne-me, minha senhora, mas poupe-me a vergonha de explicar uma demora que não tem attenuante no codigo da amizade e da polidez.
José Lemos sorriu olhando para todos e como se d’estas palavras do tenente lhe resultasse alguma gloria para elle. Mas Justiniano Villela que, apezar dos pastelinhos, sentia-se impellido para a mesa, exclamou velhacamente:
— Felizmente chegou á hora de jantar !
— É verdade; vamos para a mesa, disse José Lemos dando o braço a D. Margarida e a D. Virginia. Seguiram-se os mais em procissão.
Não ha mais júbilo nos peregrinos da Meca do que<noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="JppBr98" />{{rh||{{sc|as bodas de luiz duarte}}|103}}</noinclude>houve nos convivas ao avistarem uma longa mesa, profusamente servida, alastrada de procelanas e cristaes, assados, doces e frutas. Sentaram-se em boa ordem. Durante alguns minutos houve aquelle silêncio que precede a batalha, e so no fim della, começou a geral conversação.
— Quem diria ha um anno, quando eu aqui apresentei o nosso Duarte que elle seria hoje noivo d’esta interessante D. Carlota ? disse o Dr. Valença limpando os labios com o guardanapo, e lançando um benevolo olhar para a noiva.
— É verdade ! disse Beatriz.
— Parece dedo da Providencia, opinou a mulher de Villela.
— Parece, e é, disse D. Beatriz.
— Se é o dedo da Providencia, acudiu o noivo, agradeço aos ceus o interesse que toma por mim.
Sorriu D. Carlota, e José Lemos achou o dito de bom gôsto e digno de um genro.
— Providencia ou acaso ? pesguntou o tenente. Eu sou mais pelo acaso.
— Vae mal, disse Villela que, pela primeira vez levantára a cabeça do prato; isso que o senhor chama acaso não é senão a Providencia. O casamento e a mortalha no ceu se talha.
— Ah! o senhor acredita nos proverbios ?
— É a sabedoria das nações, disse José Lemos.
— Não, insistiu o tenente Porfirio. Repare que para<noinclude>{{d|{{small|7}}{{gap}}}}
<references/></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="JppBr98" />{{rh|104|{{sc|historias da meia noite}}|}}</noinclude>cada proverbio affirmando uma cousa,{{corr|| }}ha outro proverbio affirmando a cousa contrária. Os proverbios mentem. Eu creio que foi simplesmente um felicissimo acaso, ou antes uma lei de attracção das almas que fez com que o Sr. Luiz Duarte se aproximasse da interessante filha do nosso amphytrião.
José Lemos ignorava até aquella data se era amphytrião; mas considerou que da parte de Porfirio não podia vir cousa má. Agradeceu sorrindo o que lhe pareceu comprimento, em quanto se servia da gelatina, que Justiniano Villela dizia estar excellente.
As moças conversavam baixinho e sorrindo; os noivos estavam embebidos com a troca de palavras amorosas, ao passo que Rodrigo palitava os dentes com tal ruido, que a mãe não pôde deixar de lhe lançar um d’esses olhares fulminantes que eram as suas melhores armas.
— Quer gelatina, Sr. Callisto? perguntou José Lemos com a colher no ar.
— Um pouco, disse o homem de cara amarella.
— A gelatina é excellente ! disse pela terceira vez o marido de D. Margarida, e tão envergonhada ficou a mulher com éstas palavras do homem que não pôde reter um gesto de desgôsto.
— Meus senhores, disse o padrinho, eu bebo aos noivos.
— Bravo ! disse uma voz.
— So isso ? perguntou Rodrigo; deseja-se uma saude historiada.
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<noinclude><pagequality level="3" user="JppBr98" />{{rh||{{sc|as bodas de luiz duarte}}|105}}</noinclude>— Mamãe ! eu quero gelatina! disse o menino Antonico.
— Eu não sei fazer discursos; bebo simplesmente á saude dos noivos.
Todos beberam à saude dos noivos.
— Quero gelatina ! insistiu o filho de José Lemos.
D. Beatriz sentiu impetos de Medea; o respeito aos convidados impediu que alli houvesse uma scena grave. A boa senhora limitou-se a dizer a um dos serventes:
— Leva isto a nhonhô…
O Antonico recebeu o prato, e entrou a comer como comem as crianças quando não tem vontade: levava uma colherada á boca e demorava-se tempo infinito rolando o conteúdo da colher entre a lingua e o paladar,{{corr|| }}ao passo que a colher, empurrada por um lado formava na bochecha direita uma pequena elevação. Ao mesmo tempo agitava o pequeno as pernas de maneira que batia alternadamente na cadeira e na mesa.
Emquanto se davam estes incidentes, em que ninguem realmente reparava, a conversa continuava seu caminho. O Dr. Valença discutia com uma senhora a excellencia do vinho Xerez, e Eduardo Valladares, recitava uma decima á moça que lhe ficava ao pe.
De repente levantou-se José Lemos.
— Sio ! sio ! sio ! gritaram todos impondo silêncio.
José Lemos pegou n’um copo e disse aos circumstantes:
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<noinclude><pagequality level="3" user="JppBr98" />{{rh|106|{{sc|historias da meia noite}}|}}</noinclude>— Não é, meus senhores, a vaidade de ser ouvido por tão notavel assemblea que me obriga a fallar. É um alto dever de cortezia, de amizade, de gratidão; um d’esses deveres que podem mais que todos os outros, dever santo, dever immortal.
A éstas palavras a assemblea seria cruel se não applaudisse. O applauso não atrapalhou o orador, pela simples razão de que elle sabia o discurso de cór.
— Sim, senhores. Curvo-me a esse dever, que é para mim a lei mais santa e imperiosa. Eu bebo aos meus amigos, a estes sectarios do coração, a éstas vestaes, tanto masculinas como femininas, do puro fogo da amizade ! Aos meus amigos ! á amizade !
A fallar verdade, o unico homem que percebeu a nullidade do discurso de José Lemos foi o Dr. Valença, que aliás não era aguia. Por isso mesmo levantou-se e fez um brinde aos talentos oratorios do amphytrião.
Seguiu-se a estes dous brindes o silêncio de uso, até que Rodrigo dirigindo-se ao tenente Porfirio perguntou-lhe se havia deixado a musa em casa.
— É verdade ! queremos ouvil-o, disse uma senhora; dizem que falla tão bem !
— Eu, minha senhora ? respondeu Porfirio com aquella modestia de um homem que se suppõe um S. João Boca de Ouro.
Distribuiu-se o champagne; e o tenente Porfirio levantou-se. Villela, que se achava um pouco distante, poz a mão em fórma de concha atraz da orelha direita,<noinclude>
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==Casas==
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==Fim==
* [[Arte da Lingua Brasilica]]
==Em progreſſo==
* [[Galeria:Chronica da Companhia de Jesu do estado do Brasil- e do que obrarão seus filhos nesta parte do Nouo Mundo. - Tomo primeiro da entrada da (IA chronicadacompan02vasc).pdf]]
* [[Galeria:História dos animais e árvores do Maranhão]]
* [[Galeria:Dialogos das grandezas do Brasil.pdf]]
* [[O Selvagem]]
* [[Tratado descritivo do Brasil em 1587]]
* [[História da Província Santa Cruz]]
* [[Tratados da terra e gente do Brasil]]
* [[Diálogos das grandezas do Brasil]]
==Um dia eu faſſo==
* [[Compendio de Botanica]]
* [[Diccionario portuguez, e brasiliano]]
* [[Epigrammas portuguezes]]
* [[Faróis (Cruz e Sousa)]]
* [[Raios de Extincta Luz]]
* [[Últimos Cantos]]
* [[As Victimas-Algozes]]
* [[As Minas de Salomão]]
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rh||DA TERRA Á LUA|225|borda_inferior=sim}}</noinclude>O Gun-Club, porém, visto ter empenho em que o telescopio assim como a Columbiada fossem assentes nos Estados da União, teve de se contentar com as montanhas Penhascosas, e mandou dirigir todo o material necessario para a cumiada de Longʼs Peak, no territorio do Missouri.
Nem a penna nem a palavra humana poderiam narrar as difficuldades de todos os generos que os engenheiros americanos tiveram de vencer, os prodigios de audacia e de habilidade que realisaram. Este trabalho foi um verdadeiro ''tour de force''. Foi necessario levantar pedras monstruosas, pesadissimas peças forjadas, pilastras de ingente peso, os pedaços enormes do cylindro, o objectivo, que só por si pesava trinta mil libras, e levantar tudo acima do limite das neves perpetuas, a mais de dez mil pés de altura, e isto depois de ter transposto planicies desertas, florestas impenetraveis, temerosos «saltos» em torrentes impetuosas, longe dos centros de população, em meio de regiões selvagens em que cada um dos pormenores da existencia se transformava em problema quasi insoluvel.
Apesar de tantos obstaculos o engenho dos americanos de tudo soube triumphar. Menos de um anno depois do começo dos trabalhos, pelos ultimos dias de setembro, o gigantesco reflector erguia nos ares o seu tubo de duzentos e vinte e quatro pés de comprido suspenso de um enorme andaime de ferro, manobrando com facilidade por meio de engenhosos machinismos em direcção a todos os pontos do céu, e podendo seguir os astros de um a outro extremo do horisonte no decurso da sua marcha através do espaço.
Custára este telescopio mais de quatrocentos mil dollars. A primeira vez que o dirigiram para a Lua, experimentaram os observadores uma sensação mixta de curiosidade e inquietação. Que iriam descobrir no campo dʼaquelle telescopio que amplificava na proporção de quarenta e oito mil para um as dimensões<noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rh|226|VIAGENS MARAVILHOSAS|borda_inferior=sim}}</noinclude><section begin="Cap. 24"/>dos objectos observados? Populações, rebanhos de animaes lunares, cidades, lagos, oceanos? Não, nada que á sciencia não fôra já conhecido: a natureza vulcanica da Lua verificou-se com absoluta precisão em todos os pontos do disco.
Entretanto o telescopio das montanhas Penhascosas, antes de servir ao Gun-Club, prestou immensos serviços á astronomia.
Graças ao poder de penetração de tal instrumento, sondaram-se até aos ultimos limites as profundezas do céu, poderam medir-se com rigor os diametros apparentes de muitas estrellas, e até M. Clarke, membro do pessoal technico de Cambridge, decompoz a ''crab nebula''<ref>Nebulosa que tem a fórma de um carangueijo.</ref> de Taurus, que o reflector de lord Rosse não lográra reduzir.
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<section end="Cap. 24"/>
<section begin="Cap. 25"/>{{t2|{{sc|{{lsp||ultimos pormenores}}}}|'''CAPITULO XXV'''}}
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Contava já vinte e dois dias o mez de novembro, e a partida suprema devia realisar-se dez dias depois. Faltava ainda conseguir feliz exito nʼuma unica operação, mas delicada, perigosa, que demandava infinitas precauções, e contra o bom resultado da qual ajustára o capitão Nicholl a sua terceira aposta.
Era o caso, carregar a Columbiada introduzindo-lhe as quatrocentas mil libras de algodão-polvora. Pensára Nicholl, e com justo fundamento talvez, que da manipulação de tão formidavel quantidade de pyroxylo haviam de provir graves catastrophes, e que, quando peior não succedesse, aquella massa eminentemente explosiva havia de inflammar-se por si mesma sob a pressão do projectil.
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rh||DA TERRA Á LUA|227|borda_inferior=sim}}</noinclude>Havia nʼisto serios perigos, que maiores se tornavam pela negligencia e leviandade habitual dos americanos. Haja vista o que succedeu durante a guerra federal: ninguem se incommodava a tirar o charuto da bôca para carregar uma bomba. Mas lá estava Barbicane, que tinha a peito chegar a bom resultado e não naufragar já dentro do porto; que escolheu por consequencia os melhores operarios, e que os fez trabalhar debaixo das suas proprias vistas, não os largando de olho um só momento, conseguindo assim á força de prudencia e de precaução, pôr a seu favor todas as probabilidades de bom exito.
Antes de tudo, teve Barbicane o maior cuidado em não mandar a carga inteira de uma vez para o recinto de Stoneʼs-Hill, senão a pouco e pouco e em caixotes perfeitamente fechados. As quatrocentas mil libras de pyroxylo foram depositadas em pacotes de quinhentas libras, dando assim para oitocentos grandes cartuchos fabricados com o maior esmero pelos mais habeis pyrotechnicos de Pensacola. Cada caixão tinha capacidade para dez cartuchos, e os caixões íam chegando uns após outros pela via ferrea de Tampa-Town; por esta fórma nunca havia a um tempo mais de cinco mil libras de pyroxylo dentro do recinto. Caixão que chegava era logo descarregado por operarios descalços, e cada cartucho transportado para o orificio da Columbiada para dentro da qual descia por meio de guindastes manobrados a braço.
Tinham-se posto de parte todas as machinas que trabalhavam a vapor, e apagado todos os fogos nʼum circuito de duas milhas de raio. Já era mais que bastante ter que preservar dos ardores do sol, mesmo em novembro, aquellas massas de algodão-polvora.
O trabalho, por este motivo, era de preferencia feito de noite ao clarão de uma luz produzida no vacuo por meio dos apparelhos de Ruhmkorff, que ministrava uma illuminação artificial que chegava ao fundo da Columbiada. Dentro do canhão ficavam os car-<noinclude></noinclude>
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