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Suspiros poéticos e saudades (1865)/O Homem probo Evaristo Ferreira da Veiga
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{{c|I{{corr|,|.}}}}
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Aquelle moço que alli está parado na rua Nova do Conde esquina do Campo da Acclamação, ás dez horas da noite, não é nenhum ladrão, não é sequer um philosopho. Tem um ar mysterioso, é verdade; de quando em quando leva a mão ao peito, bate uma palmada na coxa, ou atira fóra um charuto apenas encetado. Philosopho ja se ve que não era. Ratoneiro tambem não; se algum sujeito acerta de passar pelo mesmo lado, o vulto affasta-se cauteloso, como se tivesse medo de ser conhecido.
De dez em dez minutos, sobe a rua até o lugar em que ella faz angulo com a rua do Areal, torna a descer dez minutos depois, para de novo subir e descer, descer e<noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="JppBr98" />{{rh|114|{{sc|historias da meia noite}}}}</noinclude>subir, sem outro resultado mais que augmentar cinco por cento a colera que lhe murmura no coração.
Quem o visse fazer éstas subidas e descidas, bater na perna, accender e apagar charutos, e não tivesse outra explicação, supporia plausivelmente que o homem estava doudo ou perto d’isso{{corr|,|.}} Não, senhor; Ernesto de tal (não estou autorisado para dizer o nome todo) anda simplesmente apaixonado por uma moça que mora n’aquella rua; está colerico porque ainda não conseguiu receber resposta da carta que lhe mandou n’essa manhã.
Convem dizer que dous dias antes tinha havido um pequeno arrufo. Ernesto quebrára o protesto de namorado que lhe fizera, de nunca mais escrever-lhe, mandando n’essa manhã uma epistola de quatro laudas incendiarias, com muitos signaes admirativos e varias liberdades de pontuação. A carta foi, mas a resposta não veiu.
De cada vez que o nosso namorado operava a descida ou subida da rua, parava defronte de uma casa assobradada, onde se dançava ao som de um piano. Era alli que morava a dama dos seus pensamentos. Mas parava debalde; nem ella apparecia á janella, nem a carta lhe chegava ás mãos.
Ernesto mordia então os beiços para não soltar um grito de desespêro e ia desafogar os seus furores na proxima esquina.
— Mas que explicação tem isto? dizia elle comsigo mesmo; porque razão não me atira ella o papel de cima<noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="JppBr98" />{{rh||{{sc|ernesto de tal}}|115}}</noinclude>da janella ? Não tem que ver; está toda entregue á dança, talvez ao namôro, não se lembra que eu estou aqui na rua, quando podia estar la…
N’este ponto calou-se o namorado, e em vez do gesto de desespêro que devia fazer, soltou apenas um longo e magoado suspiro. A explicação deste suspiro, inverosimil num homem que está rebentando de colera, é um tanto delicada para se dizer em letra redonda. Mas va la; ou não se ha de contar nada, ou se ha de dizer tudo.
Ernesto dava-se em casa do Sr. Vieira, tio de Rosina, que é o nome da namorada. La costumava ir com frequencia, e la mesmo é que se arrufou com ella dous dias antes d’este sabbado de outubro de 1850, em que se passa o acontecimento que estou narrando. Ora, porque razão não figura Ernesto entre os cavalheiros que estão dansando ou tomando cha? Na vespera de tarde o Sr. Vieira, encontrando-se com Ernesto, participou-lhe que dava no dia seguinte uma pequena partida para solemnisar não sei que acontecimento da familia.
— Resolvi isto hoje de manhã, concluiu elle; convidei pouca gente, mas espero que a festa esteja brilhante. Ta mandar-lhe agora um convite; mas creio que me dispensa ?…
— Sem dúvida, apressou-se a dizer Ernesto esfregando as mãos de contente.
— Não falte !
— Não senhor.
— Ah ! esquecia-me avisal-o de uma cousa, disse {{hífen|Vi|Vieira}}<noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="JppBr98" />{{rh|116|{{sc|historias da meia noite}}}}</noinclude>{{hífen-fim|eira|Vieira}} que ja havia dado alguns passos; como vae o subdelegado, que alêm d’isso é commendador, eu desejava que todos os meus convidados apparecessem de casaca. Sacrifique-se á casaca, sim ?
— Com muito gôsto, respondeu o outro ficando pallido como um defunto.
Pallido, porque ? Leitor, por mais ridicula e lastimosa que te pareça ésta declaração, não hesito de dizer-te que o nosso Ernesto não possuia uma so casaca nova nem velha. A exigencia de Vieira era absurda; mas não havia fugir-lhe: ou não ir, ou ir de casaca. Cumpria sahir a todo o custo desta gravissima situação. Tres alvitres se apresentaram ao espirito do atribulado moço: encommendar, por qualquer preço, uma casaca para a noite seguinte; compral-a a credito; pedil-a a um amigo.
Os dous primeiros alvitres foram despresados por impraticaveis; Ernesto não tinha dinheiro nem credito tão alto. Restava o terceiro. Fez Ernesto uma lista dos amigos e casacas provaveis, metteu-a na algibeira e sahiu em busca do vellocino.
A desgraça porêm que o perseguia fez com que o primeiro amigo tivesse de ir no dia seguinte a um casamento e o segundo a um baile; o terceiro tinha a casaca rôta, o quarto tinha a casaca emprestada, o quinto não emprestava a casaca, o sexto não tinha casaca. Recorreu ainda a mais dous amigos supplementares; mas um partíra na vespera para Iguassú e o outro estava {{hífen|destaca|destacado}}<noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="JppBr98" />{{rh||{{sc|ernesto de tal}}|117}}</noinclude>{{hífen-fim|do|destacado}} na fortaleza de S. João como alferes da guarda nacional.
Imagine-se o desespêro de Ernesto; mas admire-se tambem a requintada crueldade com que o destino tratava a este moço, que ao voltar para casa encontrou tres enterros, dous dos quaes com muitos carros, cujos occupantes iam todos de casaca. Era mister curvar a cabeça á fatalidade; Ernesto não insistiu. Mas como tomára a peito reconciliar-se com Rosina, escreveu-lhe a carta de que fallei acima e mandou-a levar pelo moleque da casa, dizendo-lhe que á noite lhe desse a resposta na esquina do Campo. Ja sabemos que tal resposta não veiu. Ernesto não comprehendia a causa do silêncio; muitos arrufos tivera com a moça, mas nenhum d’elles resistia á primeira carta nem durava mais de quarenta e oito horas.
Desenganado emfim de que a resposta viesse n’aquella noite, Ernesto dirigiu-se para casa com o desespêro no coração. Morava na rua da Misericordia. Quando la chegou estava cançado e abatido. Nem por isso dormiu logo. Despiu-se precipitadamente. Esteve a ponto de rasgar o collete, cuja fivella teimava em prender-se a um hotão da calça. Atirou com as botinas sôbre um aparador e quasi esmigalhou uma das jarras. Deu cêrca de sete ou oito murros na mesa; fumou dous charutos, descompoz o destino, a moça, a si mesmo, até que sôbre a madrugada pôde conciliar o somno.
Em quanto elle dorme indaguemos a causa do silêncio da namorada.
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File:Revista do Brasil, 1917, anno II, v V, n 17.pdf|link=Galeria:Revista do Brasil, 1917, anno II, v V, n 17.pdf|page=60|thumb|'''[[Revista do Brasil/Volume 5/Número 17/O Corvo|O Corvo]]'''
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{{c|{{x-larger|[[Autor:Evaristo da Veiga|EVARISTO FERREIRA DA VEIGA.]]}}}}
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:::{{Gcapitular|T|2em}}udo está profanado!
As vestes da virtude o vicio adornam;
Da lisonja nas aras arde o incenso
Que só devêra embalsamar o templo!
Murchas flores, que a fronte ao vicio ornaram,
Se atiram em despeito ao altar do Eterno.
:::Tudo está profanado!
Levanta a estupidez a hirsuta coma
}}<noinclude></noinclude>
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:::Coberta de poeira,
E a sacode no rosto da Sciencia,
Ou no alcáçar da lei se assenta ufana;
A Moral a seus pés serve de solio,
:::De cupola o capricho.
:::Tudo está profanado!
:::A cívica corôa
Dá-se á ambição, que sóbe intumecida
Como a onda do mar, e tudo alaga.
Exhauriram-se os nomes das virtudes,
E um só não ha que ao crime se não désse.
Os logares são premios da baixeza,
Da feia adulação, da vil intriga!
O hymno cantam da victoria; e a Patria
Geme afflicta co’ o peso da ignorancia
Dos homens, cuja estrella é o egoismo;
E até a lyra, para mór opprobrio,
:::Vendidos sons só verte!
:::Tudo está profanado!
Como posso louvar-te, illustre Veiga,
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Sanctuario da honra foragida?
Que nome te darei? que flor? que incenso?
Como o bronze que sôa em torre excelsa,
:::Chamando a Deos os homens,
Tu bradaste, prégaste o amor da Patria;
A teus brados os homens surdos foram,
:::E tu enrouqueceste.
:::Apostolo da ordem,
Cabiste, emfim cabiste! — Mas com gloria!
Cabiste, mas sem nódoa! Sim, cahiste!
Mas Socrates tambem soffrêo a morte!
Qual se vê nas cidades arrazadas,
O templo solitario, esparsos bustos,
Rotas columnas, capiteis dispersos,
Combros de terra, montes de ruínas;
E no meio, inda envolta de poeira,
Uma estatua, que o tempo respeitára,
E que os olhos attrai do peregrino;
Assim te eu vejo em pé! e assim um dia
A geração futura, pesquizando
No meio das reliquias desta idade
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<noinclude><pagequality level="3" user="Junglk" />{{rh||{{smaller|SUSPIROS POETICOS}}|253}}</noinclude>{{Ppoem|start=follow|end=close|
Alguma cousa inteira, pura e bella,
Sacudirá o pó, que hoje te lançam,
E dirá: Eis aqui um Homem probo.
:::Mas que digo? — Ainda vives!
Envenena-se a flor, si a serpe a morde,
E a virtude definha, conculcada!
Mas tu amas a Patria, como eu amo;
:::Amas com amor puro,
Sem mescla de interesse, como se ama
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| título = Póde ser util
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| título = Noventa annos e trinta e dous dentes
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| título = O leitor lobriga Magnon e os seus dous filhinhos
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rh||{{sc|á roda da lua}}|21|borda_inferior=sim}}</noinclude>certo habito dʼessa operação quotidiana. Friccionemos, Nicholl,
friccionemos com força.
E os dois cirurgiões improvisados tantas e tão boas fricções
lhe deram, que Barbicane recobrou o uso dos sentidos. Abriu
os olhos, levantou-se, agarrou na mão dos dois amigos e a primeira cousa que disse foi:
— Nicholl, estamos a andar?
Nicholl e Ardan olharam-se mutuamente. Nem tinham ainda
pensado no projectil. A primeira preoccupação dʼelles fòra pelos
viajantes, não pelo ''wagon''.
— É verdade, estaremos nós a andar? repetiu Miguel Ardan.
— Ou repousaremos socegadamente no solo da Florida? perguntou Nicholl.
— Ou no fundo do golfo do Mexico? acrescentou Miguel Ardan.
— Essa não está má! exclamou Barbicane.
A dupla hypothese suggerida pelos companheiros produziu
em Barbicane um effeito immediato. Voltou logo de todo a si.
Caso era que nʼaquelle momento nada se podia ajuizar definitivamente ácerea da situação da bala. A apparente immobilidade dʼesta, a falta de communicação com o exterior, não deixavam resolver o problema. Talvez que nʼaquelle momento o
projectil desenrolasse a sua trajectoria através do espaço. Talvez, depois de curta ascensão, tivesse caido em terra ou mesmo no golfo do Mexico, caso que a pouca largura da peninsula
floridense tornava possivel.
O caso era grave, o problema interessante. Força era resolvel-o depressa. Barbicane, sobreexcitado e triumphando pela
energia moral da fraqueza physica, levantou-se. Escutou.
No exterior reinava profundo silencio. Mas a espessura do
estofo basteado era bastante para interceptar todos os ruidos
da Terra. A temperatura dentro do projectil estava notavelmente
alta. O presidente tirou um thermometro da caixa em que se
continha, e consultou-o. O instrumento mareava quarenta e cinco graus centigrados.
— Sim, exclamou então, sim! vamos a andar! Este calor de<noinclude></noinclude>
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friccionemos com força.
E os dois cirurgiōes improvisados tantas e tāo boas fricçōes
lhe deram, que Barbicane recobrou o uso dos sentidos. Abriu
os olhos, levantou-se, agarrou na māo dos dois amigos e a primeira cousa que disse foi:
— Nicholl, estamos a andar?
Nicholl e Ardan olharam-se mutuamente. Nem tinham ainda
pensado no projectil. A primeira preoccupaçāo dʼelles fòra pelos
viajantes, nāo pelo ''wagon''.
— É verdade, estaremos nós a andar? repetiu Miguel Ardan.
— Ou repousaremos socegadamente no solo da Florida? perguntou Nicholl.
— Ou no fundo do golfo do Mexico? acrescentou Miguel Ardan.
— Essa nāo está má! exclamou Barbicane.
A dupla hypothese suggerida pelos companheiros produziu
em Barbicane um effeito immediato. Voltou logo de todo a si.
Caso era que nʼaquelle momento nada se podia ajuizar definitivamente ácerea da situaçāo da bala. A apparente immobilidade dʼesta, a falta de communicaçāo com o exterior, nāo deixavam resolver o problema. Talvez que nʼaquelle momento o
projectil desenrolasse a sua trajectoria através do espaço. Talvez, depois de curta ascensāo, tivesse caido em terra ou mesmo no golfo do Mexico, caso que a pouca largura da peninsula
floridense tornava possivel.
O caso era grave, o problema interessante. Força era resolvel-o depressa. Barbicane, sobreexcitado e triumphando pela
energia moral da fraqueza physica, levantou-se. Escutou.
No exterior reinava profundo silencio. Mas a espessura do
estofo basteado era bastante para interceptar todos os ruidos
da Terra. A temperatura dentro do projectil estava notavelmente
alta. O presidente tirou um thermometro da caixa em que se
continha, e consultou-o. O instrumento mareava quarenta e cinco graus centigrados.
— Sim, exclamou entāo, sim! vamos a andar! Este calor de<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rh|22|{{sc|viagens maravilhosas}}|borda_inferior=sim}}</noinclude>abafar filtra-se através das paredes do projectil! é resultado do
attrito das camadas atmosphericas. Em breve vae diminuir,
que já vogàmos no vacuo. Depois de estarmos quasi a suffocar
havemos de soffrer frios intensos.
— O que, perguntou Miguel Ardan, então, na tua opinião, Barbicane, estamos já fóra dos limites da atmosphera terrestre ?
— Sem duvida alguma, Miguel. Ouve-me. São dez horas e cincoenta e cinco minutos. Partimos ha oito minutos, pouco mais
ou menos. Ora, se a nossa velocidade inicial não decrescèra
com o attrito, ter-nos-iam bastado seis segundos para transpor
as dezeseis leguas de atmosphera que envolve o espheroide.
— É exacto, respondeu Nicholl, porém, em que proporções reputaes ter-se realisado esse decrescimento de velocidade, por
causa do attrito?
— Na proporção de uma para tres, Nicholl, respondeu Barbicane. É uma diminuição considravel, mas é exactamente o que
resulta dos meus calculos. Por consequencia, se tivemos uma
velocidade inicial de onze mil metros, á saida da atmosphera estaria essa velocidade reduzida a sete mil trezentos e trinta e
dois metros. Seja lá como for, o caso é que já transpozemos
esse intervallo, e....
— E que nʼesse caso, disse Miguel Ardan, o amigo Nicholl
perdeu mais duas apostas; quatro mil dollars por não ter rebentado a columbiada; cinco mil dollars, porque o projectil subiu
a mais de seis milhas de altura. Anda, Nicholl, vae pagando.
— Verifiquemos primeiro, respondeu o capitão, e depois pagaremos. É muito possivel que os raciocinios de Barbicane sejam exactos e que eu tenha perdido os meus nove mil dollars.
Mas occorre-me ao espirito uma hypothese nova que annullaria
o jogo.
— Qual é ella? perguntou com vivacidade Barbicane.
— É que, por uma rasão qualquer, não tenha pegado fogo na
polvora, e nós não tenhamos partido.
— Essa não é má, capitão, exclamou Miguel Ardan, a hypothese é digna da minha cabeça! Isso não é serio! Pois nós não
ficámos meio esmagados pelo abalo? Pois eu não te fiz voltar<noinclude></noinclude>
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que já vogàmos no vacuo. Depois de estarmos quasi a suffocar
havemos de soffrer frios intensos.
— O que, perguntou Miguel Ardan, entāo, na tua opiniāo, Barbicane, estamos já fóra dos limites da atmosphera terrestre ?
— Sem duvida alguma, Miguel. Ouve-me. Sāo dez horas e cincoenta e cinco minutos. Partimos ha oito minutos, pouco mais
ou menos. Ora, se a nossa velocidade inicial nāo decrescèra
com o attrito, ter-nos-iam bastado seis segundos para transpor
as dezeseis leguas de atmosphera que envolve o espheroide.
— É exacto, respondeu Nicholl, porém, em que proporçōes reputaes ter-se realisado esse decrescimento de velocidade, por
causa do attrito?
— Na proporçāo de uma para tres, Nicholl, respondeu Barbicane. É uma diminuiçāo considravel, mas é exactamente o que
resulta dos meus calculos. Por consequencia, se tivemos uma
velocidade inicial de onze mil metros, á saida da atmosphera estaria essa velocidade reduzida a sete mil trezentos e trinta e
dois metros. Seja lá como for, o caso é que já transpozemos
esse intervallo, e...
— E que nʼesse caso, disse Miguel Ardan, o amigo Nicholl
perdeu mais duas apostas; quatro mil dollars por nāo ter rebentado a columbiada; cinco mil dollars, porque o projectil subiu
a mais de seis milhas de altura. Anda, Nicholl, vae pagando.
— Verifiquemos primeiro, respondeu o capitāo, e depois pagaremos. É muito possivel que os raciocinios de Barbicane sejam exactos e que eu tenha perdido os meus nove mil dollars.
Mas occorre-me ao espirito uma hypothese nova que annullaria
o jogo.
— Qual é ella? perguntou com vivacidade Barbicane.
— É que, por uma rasāo qualquer, nāo tenha pegado fogo na
polvora, e nós nāo tenhamos partido.
— Essa nāo é má, capitāo, exclamou Miguel Ardan, a hypothese é digna da minha cabeça! Isso nāo é serio! Pois nós nāo
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{c|6}}}</noinclude>chechas era ter desejo de morde-las. O mais que dos
seus olhos se podia dizer era que deviam ser grandes,
e que tinham cilios magnificos. Ella dormia.
Dormia esse somno de absoluta confiança peculiar da
sua idade. Os braços das māes como que sāo feitos de
meiguisse; e as creanças nelles dormem profundamente.
Quanto á māe, tinha um ar mesquinho e triste. Trajava como uma costureira que se vai tornando camponeza. Era moça. Seria formosa? talvez; mas com aquelle trajo nāo o parecia. Os cabellos, dos quaes se lhe
via uma madeixa foura, pareciam mui bastos , mas estavam severamente cobertos com uma touca de freira,
feia, mui justa e atada no queixo. O riso mostra os lindos dentes de quem os tem ; mas ella nāo se ria. Os
olhos como que conservam vestigios de lagrimas. Estava palida; parecia muito cansada e um tanto adoentada; olhava para a filha adormecida nos seus braços
com esse ar peculiar de uma māe que amamentou o filho. Um grande lenço azul semelhante a esses com que
os invalidos se assoam, cobria-lhe desengraçadamente
o collo. Tinha as māos queimadas do sol e cheias de
manchas de sarda, o dedo indice callejado e picado da
agulha ; trajava manta de grossa lan escura, vestido de
rim e sapatos grossos. Era Fantina.
Era Fantina. Fora difficil reconhece-la. Todavia, examinando attentamente, via-se que era ainda formosa.
Na face direita tinha uma triste ruga, que se assemelhava a um principio de ironia. Quanto ao seu trajo, esse aerio trajo de musselina de fitas que parecia feito de
alegria, de folia de musica, cheiu de guisos e perfumado de lilazes, desapparecera como esses lindos caramélos que semelham diamantes scintilantes ao sol, derretem-se e deixam a arvore ennegrecida.
Dez mezes já eram decorridos depois da «boa peça.»
O que se teria passado durante esses dez mezes? O
leitor o adivinha.
Após o abandono, as mortificaçōes. Fantina perdera
logo de vista Favorita, Zephina e Dahlia ; o laço quebrado da parte dos homens nāo fora mais solido da parte das mulheres ; grande admiraçāo lhes houvera causado quem lhes dissesse quinze dias depois que ellas tinham sido amigas ; já nāo havia razāo para que o fossem. Fantina ficára só. Tendo partido o pae de sua<noinclude></noinclude>
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seus olhos se podia dizer era que deviam ser grandes,
e que tinham cilios magnificos. Ella dormia.
Dormia esse somno de absoluta confiança peculiar da
sua idade. Os braços das māes como que sāo feitos de
meiguisse; e as creanças nelles dormem profundamente.
Quanto á māe, tinha um ar mesquinho e triste. Trajava como uma costureira que se vai tornando camponeza. Era moça. Seria formosa? talvez; mas com aquelle trajo nāo o parecia. Os cabellos, dos quaes se lhe
via uma madeixa foura, pareciam mui bastos , mas estavam severamente cobertos com uma touca de freira,
feia, mui justa e atada no queixo. O riso mostra os lindos dentes de quem os tem ; mas ella nāo se ria. Os
olhos como que conservam vestigios de lagrimas. Estava palida; parecia muito cansada e um tanto adoentada; olhava para a filha adormecida nos seus braços
com esse ar peculiar de uma māe que amamentou o filho. Um grande lenço azul semelhante a esses com que
os invalidos se assoam, cobria-lhe desengraçadamente
o collo. Tinha as māos queimadas do sol e cheias de
manchas de sarda, o dedo indice callejado e picado da
agulha ; trajava manta de grossa lan escura, vestido de
rim e sapatos grossos. Era Fantina.
Era Fantina. Fora difficil reconhece-la. Todavia, examinando attentamente, via-se que era ainda formosa.
Na face direita tinha uma triste ruga, que se assemelhava a um principio de ironia. Quanto ao seu trajo, esse aerio trajo de musselina de fitas que parecia feito de
alegria, de folia de musica, cheiu de guisos e perfumado de lilazes, desapparecera como esses lindos caramélos que semelham diamantes scintilantes ao sol, derretem-se e deixam a arvore ennegrecida.
Dez mezes já eram decorridos depois da «boa peça.»
O que se teria passado durante esses dez mezes? O
leitor o adivinha.
Após o abandono, as mortificaçōes. Fantina perdera
logo de vista Favorita, Zephina e Dahlia ; o laço quebrado da parte dos homens nāo fora mais solido da parte das mulheres ; grande admiraçāo lhes houvera causado quem lhes dissesse quinze dias depois que ellas tinham sido amigas ; já nāo havia razāo para que o fossem. Fantina ficára só. Tendo partido o pae de sua<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{c|7}}</noinclude>filha—ah ! taes rompimentos sāo irrevogaveis,—achou-se absolutamente isolada, com o habito do trabalho de
menos e o gosto do prazer de mais. Levada pela convivencia com Tholomyés a desdenhar o modesto officio
que sabia, deixára de procurar os seus freguezes, e
estes por seu turno desappareceram. Achou-se sem
recurso algum. Fantina apenas sabia ler e nāo sabia escrever; quando menina, só lhe tinham ensinado a assignar o seu nome ; ella recorrera a um escriptor publico para escrever uma carta a Tholomyès, depois mandara-lhe segunda, terceira carta. Tholomyès a nenhuma respondèra. Um dia, Fantina ouviu umas comadres
dizerem olhando-lhe para a filha : Quem é que faz caso
de filhos desta qualidade? A gente encolhe os hombros
quando olha para elles!—Entāo lembrou-se de Tholomyès, que encolhia os hombros lendo as cartas em que
lhe fallava de sua filha e que nāo tomava ao serio aquelle
ente innocente, e o seu coraçāo começou de sentir por
esse homem um como que vago odio. Todavia, que
expediente poderia tomar? jà nāo sabia a quem dirigir-se. Ella commettera um erro ; mas, lembrado estará o
leitor, o pudor e a virtude eram como que inherentes á
sua natureza. Sentiu vagamente que estava prestes a
cahir na miseria e a resvalar para uma posiçāo infima.
Cumpria-lhe ter coragem ; teve-a, e conservou-se firme. Lembrou-se voltar para M.—sobre o M.—, sua
cidade natal. Alli talvez alguem a conhecesse e lhe désse
trabalho; sim, mas seria preciso encobrir a sua falta.
E ella entrevia confusamente a necessidade possivel de
uma separaçāo ainda mais dolorosa do que a primeira.
Encheu-se-lhe o coracāo de angustia, mas ella tomou
uma resoluçāo. Fantina, como se verá para diante, tinha a indomita energia da vida. Já havia renunciado
valorosamente aos seus enfeites, e vestira-se de brim,
reservando todas as suas sedas, todas as suas fitas, todas as suas rendas e todos os seus enfeites para a filha,
unica vaidade que lhe restava, mas esta santa. Vendeu
tado o que possuia, no que apurou duzentos francos;
paga as suas pequenas dividas, só lhe ficáram cerca de
oitenta. Com vinte e dous annos de idade, em uma
bella manhan de primavera, saia ella de Pariz, levando a
filhinha ás costas. Quem quer que as houvesse encontrado ter-se-hia compadecido dellas. Aquella mulher<noinclude></noinclude>
opaebccpaiw0bbsmwxqyd4hqncun7tx
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{c|8}}</noinclude>nāo tinha no mundo senāo aquella criança, e aquella
criança nāo tinha no mundo senāo aquella muller. Fantina amamentára sua filha; dahi lhe proviera um incommodo de peito e ella tossia um pouco.
Nāo tornaremos a fallar em Felix Tholomyès. Limitar-nos-hemos a dizer que dʼahi a vinte annos, no reinado de Luiz Philippe, era elle um gordo advogado de
provincia, influente e rico, eleitor prudente e jurado severissimo; sempre amigo do prazer.
Aʼ tardinha, depois de ter, para descansar, entrado
de espaço a espaço, mediante tres ou quatro soldos, nas
entāo chamadas pequenas carruagens dos arredores de
Pariz, Fantina achava-se em Montfermeil, na travessa
do Padeiro.
Ao passar pela porta da estalagem dos Thenardier,
as duas meninas, encantadas com a sua redouça monstro, como que a haviam deslumbrado, e ella parára diante daquella visāo de alegria.
Ha encantos. Aquellas duas meninas foram um encanto para essa māe.
Ella as contemplava profundamente commovida. A
presença dos anjos annuncia o paraiso. Pareceu-lhe ver
escripto na fachada daquella estalagem o mysterioso {{sc|Aqui}} da Providencia. As duas meninas eram evidentemente felizes! Ella as fitava, admirava-as por tal fórma enternecida que, no momento em que a māi tomava
folego entre dous versos da sua cançāo, nāo pode ter-se
que nāo lhe dissesse as palavras que o leitor acaba de
ler:
— A senhora tem duas filhinhas bem lindas.
As criaturas mais intrataveis abrandam-se quando lhes
festejam os filhos.
A māe levantou a cabeça e agradeceu , e mandou a
transeunte sentar-se no banco junto da porta, ficando ella
na soleira. As duas mulheres puzeram-se a conversar.
—Chamo-me Thenardier , disse a māe das duas meninas. Eu e meu marido somos donos desta estalagem.
Depois preoccupada com o seu romance, proseguiu
por entre dentes:
{{dhr}}
{{c|
<poem>
''Eʼ forçoso, pois sou cavalheiro,''
''Partir devo para a Palestina.''</poem>}}
{{dhr}}
Esta Thenardier era uma mulher ruiva, cheia de car-<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="1" user="Túllio F" />{{c|— 21 —}}</noinclude>fôra perder-se a memoria do lugar cm que se achára o primeiro
diamante.
Não é menos difficil dizer quem fora o primeiro descobridor, ou
antes o primeiro conhecedor dos diamantes entre nós. Uns querem
que fôra Bernardo da Fonseca Lobo, quem os descobrira e manifestára á corôa. Outra tradição diz que um frade, cujo nome
não se declara, tendo vindo a [[w:pt:Diamantina|Tijuco]] depois de ter estado em [[w:pt:Golconda|Golconda]], onde já se minerava o diamante, vendo os tentos de que
se servião os tijuquenses para marcar o jogo, conheceu que erão diamantes ; e que Bernardo, servindo-se d’esta descoberta partira para
Portugal a manifestal-a ao rei. Em remuneração d’este serviço foi
nomeado tabellião e capitão-mór da [[w:pt:Serro|villa do Principe]].
É certo, porém, que no anno de '''1729''' já os diamantes estavão
descobertos e erão explorados, com quanto ainda não fossem bem
conhecidos, como se collige das palavras com que começa a primeira portaria de [[w:pt:Lourenço de Almeida (governador de Pernambuco e Minas Gerais)|D. Lourenço de Almeida]], mandando suspender
todas as minerações de ouro nas terras diamantinas e annullando
as cartas de datas obtidas do guarda-mór. « Porquanto, diz a portaria, tenho noticia de que em vários rios o ribeiros da [[w:pt:Comarca do Serro Frio|comarca do Serro do Frio]] tem apparccido e vão apparecendo umas
pedrinhas brancas, ''que se entende'' ser diamantes, e muitas pessoas da comarca tem pedido ao guarda-mór cartas de datas nos
taes rios e ribeiros para tirarem ouro...... ; e porque tenho dado
conta a Sua Magestade do descobrimento d’estas pedras, ''remettendo-lhe as amostras'', o que também tem feito o dr. ouvidor-geral
da villa do Principe, Antonio Ferreira do Valle e Mello, e estamos esperando a resolução do dito senhor, para se dar á execução o que elle fôr servido ordenar, etc. »
Logo que a côrte poilugueza teve noticia do apparecimento dos
diamantes na comarca do Serro Frio, por carta régia de 9 de Fevereiro de '''1730''', ao mesmo tempo que se estranhava a D. Lourenço o ter sido tardio em fazer esta communicação a el-rei, foi
elle investido de poderes amplos e illimitados para regular o providenciar sobre este novo e importante ramo do rendimentos, que
em breve ia mais enriquecer a fazenda real. « O descobrimento do<noinclude></noinclude>
ees6rnfvgv4xa3fumy43a6b44h96s75
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<noinclude><pagequality level="1" user="Túllio F" />{{c|— 22 —}}</noinclude>diamante, topázios e pedras preciosas, que começou a effectuar-se
em '''1727''' e '''1728''', accrescentou o júbilo da côrte de [[w:pt:João V de Portugal|D. João V]],
e deu motivo a festas esplendidas que em [[w:pt:Lisboa|Lisboa]] e no reino todo
se celebrárão, e a ''[[w:pt:Te Deum|te deums]]'' e procissões innumeraveis que extasiárão o povo portuguez, por quadrarem á sua religiosidade. Para
[[w:pt:Roma|Roma]] remetteu o governo as primeiras amostras, que lhe forão
enviadas. Acções de graças solemnes se derão ao Todo Poderoso
na capital do mundo catholico. O santo papa e os cardeaes felicitárão ao rei de [[w:pt:Portugal|Portugal]]. Comprimentárão-o todos os monarchas da Europa. Não se occupárão os povos da terra com outro
objecto e noticia. Dir-se-ia que se descobrira cousa que devia
regenerar e felicitar o universo (*).
[[w:pt:Lourenço de Almeida (governador de Pernambuco e Minas Gerais)|D. Lourenço de Almeida]], usando dos poderes illimitados que
lhe forão conferidos para providenciar, como lhe parecesse justo,
sobre a mineração dos diamantes, que se acabavão de descobrir,
estabeleceu immediatamente o imposto da capitação de 5$000 por
cada um escravo, que fosse empregado n’esta mineração, em satisfação do quinto devido pela extracção das pedras preciosas,
como consta da portaria de 24 de Junho de '''1730'''; e organisou o primeiro regimento, que houve sobre os diamantes, datado de 26 do mesmo mez, do qual já ressumbra o despotismo
e tyrannia que em breve veremos pesar sobre os povos d’este
districto.
Em virtude d'este regimento o ouvidor-geral da [[w:pt:Serro|villa do Principe]], Antonio Ferreira do Valle e Mello, e seus successores, forão
nomeados superintendentes de todas as terras diamantinas da comarca. Forão annulladas as cartas de datas concedidas anteriorrnente pelo guarda-mór para a mineração do ouro, e o superintendente ficou autorisado a repartir novamente os rios e corregos
diamantinos pelos mineiros, que o requeressem, concedendo só
duas braças e meia para cada praça: antes, porém, de qualquer
medição devia o superintendente medir e tirar para o rei uma
(*) J. M. Pereira da Silva, ''Historia da fundação do Imperio Brasileiro.''<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="1" user="Túllio F" />{{c|— 23 —}}</noinclude>data de trinta braças no melhor lugar; ''ainda que'', diz o regimento, ''alguém ahi esteja minerando'', ''porque primeiro que tudo
está el-rei nosso senhor''. Tirada a data devia ser posta em
praça, para ser arrematada por quem mais offerccesse. O que fizesse novo ''descoberto'', tinha direito a uma data de trinta braças
no lugar, que escolhesse. Não podia haver lojas e vendas nas
lavras e ainda fora d’ellas na distancia de duas legoas; e nem
se podia comprar diamantes a escravos, sob pena de confisco de
todos os bens, sendo a terça parte dos bens confiscados para o
denunciante e o mais para a fazenda real. Recommendou-se muito
especialmente ao superintendente, que fizesse sahir para fora da
comarca todo o [[w:pt:Frade|frade]] que n'ella fosse encontrado. O odio, que o
governo votava aos frades, provinha principalmente de que estes
dizião aos povos que os quintos, que elles pagavão, erão ''tributos''
e não ''direitos reaes'', como o governo se expressava em seus
bandos.
Franqueadas por esta fórma as terras diamantinas, mediante a
capitação do 5$000 por cada trabalhador, immediatamente quasi
todos os mineiros abandonarão a extracção do ouro, em que até
então se occupavão, pela mais lucrativa dos diamantes. Grande
numero de habitantes da [[w:pt:Serro|villa do Principe]] e povoaçõos circumvisinhas, attrahidos pela nova mineração, vierão se estabelecer no
[[w:pt:Diamantina|Tijuco]] com suas famílias, e o arraial começou a estender-se subindo pela vertente, em que estava situado, até á raiz das ''Gupiaras'': assim se chama a parte mais elevada do flanco oriental
do morro de Santo Antonio.
Quando em Portugal chegou a noticia do ''descoberto'' diamantino do Serro Frio, cujas riquezas forão excessivamente exageradas, como sóe acontecer em taes oceasiões, bandos de aventureiros d’ali partirão em demanda de uma fortuna, que julgavão
certa e facil : d’ahi data a continuada arribação de portuguezes ao
nosso solo, que sempre tiverão mais facil entrada nas terras diamantinas, apezar das ordens terminantes, dadas posteriormente,
prohibindo o ingresso de toda e qualquer pessoa nas terras da
demarcação. As autoridades encarregadas da execução d’essas<noinclude></noinclude>
mnjbtj9uv9acgh1mopnugtp3780lsek
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<noinclude><pagequality level="1" user="Túllio F" />{{c|— 24 —}}</noinclude>ordens erão portuguezas e só as cumprião com severidade quando
se tratava dos que não erão seus patricios.
Estando ainda virgens as terras, que começavão a ser exploradas,
bem compensados forão os primeiros trabalhos dos mineiros, e
apparecêrão no mercado de Lisboa algumas partidas de diamantes.
Estas partidas excitárão a ambição da corte, que não podia ver
impassivel os vassallos da corôa explorarem um ramo de riquezas
sem que esta auferisse grandes vantagens para a fazenda. Forão
em consequencia desapprovadas as providencias dadas por [[w:pt:Lourenço de Almeida (governador de Pernambuco e Minas Gerais)|D. Lourenço de Almeida]] no bando de 26 de Junho de '''1730''', ''como brandas, inefficazes e não garantidoras dos interesses da fazenda real''.
Julgou-se modica a capitação que o governador impozera aos mi-
neiros para a exploração dos diamantes, e que se não tinha pre-
venido o contrabando com penas bem severas.
Em vista do que um decreto do rei, datado de 26 de Março de
de '''1731''', que encontramos inserto em um bando do governador, ordenou ao ouvidor da [[w:pt:Serro|villa do Principe]], que servia de superintendente,
que mandasse immediatamente despejar das lavras diamantinas toda
a pessoa de qualquer condição que fosse, que n'ellas minerasse,
embora ahi tivesse habitação e familia estabelecida, sob pena de
dez annos de degredo para [[w:pt:Angola|Angola]] e confisco de todos os bens
para a real fazenda, pena esta que devia ser imposta não só aos
que logo não obedecessem, como a quem tirasse ''ainda um só diamante'' depois da prohibição; que impedisse todas as lavras, á excepção das do ribeirão do Inferno e do [[w:pt:Rio Jequitinhonha|Jequitinhonha]], as quaes
serião divididas em lotes para serem postas em praça e arrematadas por quem mais offerecesse, não se devendo, porém, aceitar
lanço que fosse inferior a 60$000 annuaes por braça quadrada, e
que, se não concorresse lançador, se fizesse o lavor por conta da
corôa; finalmente que todos os negros, mulatos e mulatas forros,
que se encontrassem dentro da [[w:pt:Comarca do Serro Frio|comarca do Serro Frio]], fossem
logo d'ella despejados, sob pena, aos que não sahissem logo, de dous
mezes de radea, de duzentos açoutes e de degredo. A execução
d'esta ordem foi muito recommendada a todo official de ordenanças e especialmente ao capitão de dragões José de Moraes Cabral,<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Túllio F" />{{c|— 25 —}}</noinclude>que darião conta restricta da maneira porque a executassem; devendo o ouvidor ter sempre devassa aberta para syndicar a res-
peito.
Se bem recommendárão-se as disposições d'este decreto, melhor
se executárão, apezar da reclamação que fizera o ouvidor, mostrando os inconvenientes que deverião resultar de sua execução.
A mineração dos diamantes, principalmente n'aquelles lugares em que
não estava bem conhecida por falta da necessaria prática, não se po-
dia fazer sem a prévia exploração do terreno, não se encontrando
o diamante disseminado por toda a parte e em todas as camadas
do terreno, como erradamente se entendia em Lisboa; mas a exploração prévia era prohibida. A importancia de 60$000, preço minimo porque se deveria arrematar cada braça quadrada de terreno, era
exorbitante: hoje corresponderá ao décuplo pela alteração que tem
soffrido o valor da moeda. Assim aos pobres era impossivel a
mineração, por fallecerem-lhes meios para pagarem o arrendamento;
e os ricos não quizerão arriscar sua fortuna contando um lucro
precario e quasi certo o prejuizo.
As determinações do bando erão decisivas e não admittião demora, de fórma que quando se publicárão, uma consternação geral
espalhou-se por toda a população. Vivendo n'este canto remoto
da colonia, longe da acção do governo central, quasi desconhecidos e inapercebidos na vasta extensão das Minas, ainda não tinhão os habitantes do Tijuco experimentado os rigores do despotismo da metropole; sua existencia deslisára-se até então placida
e tranquilla, bem longe de pensarem nos males que a riqueza do
torrão, que habitavão, havia de trazer-lhes.
Em execução do bando forão todos os mineiros intimados para
despejarem suas lavras, mesmo as que se consideravão puramente
auriferas, porque as ordens régias não fazião distincção. Espalhárão-se patrulhas por todos os corregos, rios e terras diamantinas
afim de prevenir-se o contrabando e mineração clandestina. Abrirão-se as primeiras devassas, que os povos d'este lugar vião com
admiração. Milhares de individuos, que só vivião da mineração,
sem outro recurso de subsistencia, forão forçados a abandonar<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Túllio F" />{{c|— 26 —}}</noinclude>suas habitações e estabelecimentos e a salir para fóra do districto,
fugindo da miseria no lugar onde havião nascido, ou tinhão a
familia.
E não erão de estranhar tão violentas exacções por parte da
corte portugueza. Estavamos no reinado de [[w:pt:João V de Portugal|D. João V]] Principe
despotico, pusillanime<ref>que tem ânimo fraco; medroso, covarde</ref>, beato, dissoluto, licencioso, passava a vida
engolfado nos prazeres da sensualidade. Nem os tributos com que
em seu tempo se sobrecarregárão os povos, nem os galeões carregados de ouro, que do Brasil corria para Portugal, chegavão
para a sustentação do luxo de sua corte e para as compensações
supersticiosas, com que pretendia acalmar os remorsos de uma
consciencia relaxada; entretanto a agricultura em Portugal ia
em decadencia, o commercio e industria aniquilados, o reino debaixo do dominio dos inglezes pelo ignobil e funesto [[w:pt:Tratado de Methuen|tratado de
Metuen]], resultado de sua inepta administração, sem regras, sem
principios. A creação do [[w:pt:Patriarcado de Lisboa|patriarchado de Lisboa]] e a munificencia<ref>qualidade de quem é generoso</ref>
com que ornou sua capella custárão-lhe sommas fabulosas; só o
titulo que obteve da corte romana de [[w:pt:Sua Majestade Fidelíssima|rei fidelissimo]], e que transmittio a seus successores, custou-lhe quatrocentos e cincoenta
milhões de cruzados. D. João V, depois de haver despojado Portugal de sua representação nacional, entregado suas riquezas ao
estrangeiro, aniquilado a agricultura, as fabricas, o commercio,
o exercito, a marinha, morreu pobre e devorado de remorsos. No
seu cofre não se achou dinheiro para o enterro do rei mais rico
do seu tempo, e que na magnificencia do [[w:pt:Aqueduto das Águas Livres|aqueducto de Lisboa]] e do
[[w:pt:Palácio Nacional de Mafra|palacio de Mafra]] rivalisou com as grandezas de [[w:pt:Luís XIV de França|Luiz XIV]].
Tal era o grande monarcha que nos governava. A corte havia
lançado olhos ávidos para o ''descoberto'' diamantino, como para um
novo manancial de riquezas, que ia alimentar seu luxo e desregramentos, pouco lhe importando a condição do povo que o habitava: assim este nada favoravel devia esperar d'ali.
Reiteradas petições forão dirigidas pelos tijuqueuses ao governador da capitania, [[w:pt:Lourenço de Almeida (governador de Pernambuco e Minas Gerais)|D. Lourenço de Almeida]], para que este attendesse ao lastimoso estado em que vivião, privados da mineração
de suas lavras e baldos dos necessarios recursos para a {{começo de palavra hifenizada|subsisten-|subsistencia}}<noinclude>{{smallrefs}}</noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Túllio F" />{{c|— 27 —}}</noinclude>{{término de palavra hifenizada|cia|subsistencia}} . Em uma d'ellas, assignada pelas principaes pessoas do lugar,
se, compromettião a pagar a capitação de 15$000 se lhes fossem
novamente abertas as lavras diamantinas.
O governador, com quanto possuido n'esta occasião de boas intenções, não podia alterar as ordens de el-rei; tão clamorosa,
porém, era a desgraça do povo, principalmente da classe pobre,
que, tomando sobre si a responsabilidade do acto, por um bando de
22 de Abril de 1732 desimpedio novamente as lavras diamantinas,
mediante a capitação de 20$000. « Como tem sido grandes os clamores, reza o bando, que tem feito os mineiros, representando
sua perda e total ruina: me resolvo a tomar sobre mim interinamente e por um anno sómente, o consentir que se possa minerar diamantes em todos os rios e terras da comarca do Serro do
Frio, como até aqui se fez, pagando-se por cada praça 20$000
por anno, até que Sua Magestade anande o que for servido ».
Ordens as mais rigorosas forão dadas para que ninguem podesse minerar sem mostrar ter pago a capitação, sob pena de
confisco de todos os bens, e degredo por dez annos para Angola, devendo o ouvidor ter sempre uma devassa aberta para conhecer os contraventores, como sempre se recommendava quando
se estabelecia alguma disposição penal; « porque não é justo,
continúa o bando, que haja subnegados ao mesmo tempo que
eu tomo sobre mim o deixar de executar as ordens que tenho
de Sua Magestade, fazendo-me réo de culpa e merecedor de todo
o castigo, que o dito senhor fôr servido dar-me ».
Em virtude d'esta autorisação todos os mineiros, que se havião
retirado para fóra, voltarão à sua patria; mas ainda não vião
sua sorte segura, e receavão que a qualquer momento novas ordens mais restrictas viessem da côrte prohibindo ou onerando a
extracção dos diamantes.
Entretanto o governo da côrte mostava-se indeciso sobre as medidas, que cumpria tomar para tirar maior proveito do novo ''descoberto''. A extracção por conta da corôa já havia sido projectada,
quando os mineiros recusárão arrendar as terras diamantinas com
as condições onerosas, de que acabamos de tratar; mas então os<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Túllio F" />{{c|— 28 —}}</noinclude>grandes serviços erão pouco conhecidos, os mineiros não passavão
de faiscadores, e seus serviços do faisqueiras. Em taes circuinstancias um lavor em maior escala, não daria resultado satisfactorio, dependendo de um numeroso pessoal para administração, o
que não era facil obter-se.<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Túllio F" />{{c|— 28 —}}</noinclude>grandes serviços erão pouco conhecidos, os mineiros não passavão
de faiscadores<ref>garimpeiros artezanais</ref>, e seus serviços do faisqueiras. Em taes circuinstancias um lavor em maior escala, não daria resultado satisfactorio, dependendo de um numeroso pessoal para administração, o
que não era facil obter-se.<noinclude>{{smallrefs}}</noinclude>
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<noinclude><pagequality level="1" user="Túllio F" />{{c|— 28 —}}</noinclude>grandes serviços erão pouco conhecidos, os mineiros não passavão
de faiscadores<ref>garimpeiros artesanais</ref>, e seus serviços do faisqueiras. Em taes circuinstancias um lavor em maior escala, não daria resultado satisfactorio, dependendo de um numeroso pessoal para administração, o
que não era facil obter-se.<noinclude>{{smallrefs}}</noinclude>
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/* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: {{dhr}} {{T2||CAPITULO IV}} {{dhr}} <small>Commercio franco do diamante. — Conde das Galvêas, governador. — Eleva-se a capitação a 25$600; eleva-se mais a 40$000. — Bando de 2 de Dezembro de 1733. — Augmento de população, que exige novas providencias. — ''Intendencia dos diamantes''. — Raphael Pires Pardinho, primeiro intendente. — Demarcação das terras diamantinas.</small> Com o desimpedimento das lavras tornou-se franco no w:pt:Dia...
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<noinclude><pagequality level="1" user="Túllio F" /></noinclude>{{dhr}}
{{T2||CAPITULO IV}}
{{dhr}}
<small>Commercio franco do diamante. — Conde das Galvêas, governador. — Eleva-se a capitação a 25$600; eleva-se mais a 40$000. — Bando de 2 de Dezembro de 1733. — Augmento de população, que exige novas providencias. — ''Intendencia dos diamantes''. — Raphael Pires Pardinho, primeiro intendente. — Demarcação das terras diamantinas.</small>
Com o desimpedimento das lavras tornou-se franco no [[w:pt:Diamantina|Tijuco]]
commercio dos diamantes. Os mineiros os trocavão pelos generos
de que necessitavão, ou os vendião por ouro em pó ou em barras, que servião de moeda no paiz. Os compradores e alguns
mineiros mais abastados os remettião em partidas para serem
vendidos em Lisboa. Era ordinariamente com a sua remessa que
os negociantes saldavão suas contas na praça da Bahia, d'onde
vinhão os generos estrangeiros, que aqui se consmmião. Só era
prohibido comprar diamantes aos escravos, por ser-lhes inteiramente vedada a sua mineração por conta propria.
Para se evitar que os escravos vendessem diamantes, não se
permittião lojas nem vendas nas circumvisinhanças do Tijuco,
nem em suas entradas, e muito menos nas lavras diamantinas.
Dentro do arraial, de só erão permitidas, devião ter o mostrador á porta e sahido para a rua palmo e meio, e todo o negocio devia ser feito por cima d'elle à vista do publico; ao anoitecer devião-se fechar impreterivelmente, e não se podião abrir<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="1" user="Túllio F" />{{c|— 30 —}}</noinclude>senão depois da sahida do sol. Com quanto fosse franco o
comercio dos diamantes, não se podia fazel-o senão dentro do arraial, e se alguem era encontrado fóra comprando-os on vendendo-os ficava sujeito ás penas de prisão, confisco de todos os bens,
e degredo por seis annos para Angola. O ouvidor-geral estava
autorisado a mandar, sem formalidades, fazer prisões e dar buscas nas casas particulares para conhecer e punir os contraventores dos bandos<ref>decretos, leis</ref> e ordens régias.
O resto do governo de D. Lourenco de Almeida nada mais offerece de importante para a historia dos diamantes, á excepção
de processos e devassas que repetidas vezes se ordenavão contra
os chamados contrabandistas d'isso houve aqui em todos os tempos com mais ou menos severidade.
[[w:pt:André de Melo e Castro|André de Mello e Castro]], [[w:pt:Conde das Galveias|conde das Galvêas]] succedeu-lhe no
governo da capitania de Minas, e tomou posse a 10 de Setembro
de 1732. Durante o curto tempo de seu governo, continuou o
conde das Galvèas o mesmo systema de despotismo de seus antecessores. Gozavão os governadores de um poder quasi absoluto
para reger os negocios da capitania, estando só sujeitos ao governo central de Lisboa, e já vimos que este revestira o governador de Minas de poderes amplos e illimitados para regular todos os negocios relativos à extracção dos diamantes, e providenciar sobre os interesses da fazenda real.
Como as lavras davão diamantes bastantes, que compensavão as
despezas da capitação e da extracção com sobra a favor dos mineiros, entendeu o conde das Galvêas dever augmentar os interesses da fazenda real: assim elevou a capitação a 25$600 por
oito mezes. O praso da estabelecida por D. Lourenço de Almeida
expirava em 9 de Maio de 1733; a nova devia terminar-se em
fins de Dezembro, até que chegassem ordens da côrte, a quem
D. Lourenço de Almeida tinha communicado as medidas que tomára interinamente. Essas ordens erão esperadas ainda mais severas e onerosas. Estando a findar-se o anno de 1733, sem que a
corte ainda se resolvesse a tomar uma deliberação, o conde das
Galvèas, a quem parece que incommodava a prosperidade dos<noinclude>{{smallrefs}}</noinclude>
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<noinclude><pagequality level="1" user="Túllio F" />{{c|— 31 —}}</noinclude>mineiros de diamantes, estabeleceu nova capitação de 40$000 a
começar do 1º de Janeiro de 1734.
O bando de 2 de Dezembro de 1733 caracterisa bem os costumes do tempo. Nós o transcreveremos textualmente para não peder-se a graça do estylo e energia das expressões. É o seguinte:
« Devendo-se attender mais, que a nenhuma outra cousa, a
evitar pelos meios possiveis as offensas de Deos e com especialidade os peccados publicos, que com tanta soltura correm desenfreadamente no arraial do Tijuco, pelo grande numero de mulheres deshonestas, que habitão no mesmo arraial com vida tão
dissoluta e escandalosa, que não se contentando de andarem com
cadeiras e serpentinas acompanhadas de escravos, se atrevem
irreverentes a entrar na casa de Deos com vestidos ricos e pomposos, e totalmente alheios e improprios de sua condição; - E
não se podendo dissimular por todas as leis divinas e humanas,
sem um grave escrupulo de consciencia dos que governão, o castigo de gente tão abominavel, que se deve reputar como contagio
dos povos, e estrago dos bons costumes; Mando que toda a
mulher de qualquer estado e condição que seja, que viver escandalosamente, seja notificada, para que em oito dias saia para
fóra de toda a comarca do Serro do Frio; e quando o não execute
no dito termo, será presa e confiscada em tudo quanto se lhe
achar; e toda aquella pessoa, que por si ou por outrem, com
conselho, con obra, ou com diligencia alguma, intentar impedir
o que determino n'este bando, incorrerá na mesma pena e se re-
metterà presa para esta villa.
« E porque esta materia da uitima importancia por respeitar o serviço de Deos, e em que se interessa, mais que nenhum outro o real catholico animo de Sua Magestade, a dou por
mui recommendada a todos, a quem pertencer o conhecimento
d'ella, para que ponhão toda a maior vigilancia e cuidado para
sua inteira e fiel execução; e ao dr. ouvidor-geral da comarca
do Serro do Frio, e ao capitão dos dragões recommendo da parte
do mesmo Senhor fação observar inteiramente tudo o que n'este
se contém: — E para que chegue à noticia de todos, ordeno se {{começo de palavra hifenizada|pu-|publique}}<noinclude></noinclude>
md22h67rqdynbgwlteuh2k604vyi7zj
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<noinclude><pagequality level="1" user="Túllio F" />{{c|— 32 —}}</noinclude>{{término de palavra hifenizada|blique|publique}} ao som de caixas e se fixe nos lugares do costume. Villa Rica 2 de Dezembro de 1733. — Conde das Galvêas ».
O regimento de 27 de Junho de 1730, feito por D. Lourenço
de Almeida, já não era sufficiente para regular os negocios relativos aos diamantes. Era o ouvidor-geral da villa do Principe a
unica autoridade que d'elles tomava conhecimento, como superintendente sujeito ao governador da capitania. No anno de 1734 já
ao redor do Tijuco florecião importantes povoações, como o Rio
Manso, Penha, Arassuahy, Rio Preto, [[w:pt:Gouveia (Minas Gerais)|Govêa]], Curimatahy, Pouso
Alto, e outras de menor importancia; havia muita população esparsa nas fazendas de agricultura e criação, nos campos, nas
lavras auriferas e diamantinas. Este augmento de população, a
riqueza e importancia do paiz, devião necessariamente crear novas
relações entre os individuos e as autoridades, e exigião que no
Tijuco se estabeleresse a séde de una administração especial.
Negocios variados, questões muitas vezes complicadas, emergeneias de grande monta pedião medidas promptas e efficazes, para
o que era indispensavel a presença de uma antoridade no lugar que providenciasse e acudisse a tempo conforme a urgencia
do caso.
Apezar da severidade das penas impostas pelos bandos dos
governadores, e do rigor com que se procurava executal-as, davão-se repetidos exemplos de abusos, e muitos contraventores
conseguião a impunidade illudindo a vigilancia dos dragões, e
de outros agentes encarregados de sua execução. No Rio Manso
um individuo chegou a falsificar bilhetes de matricula de escravos, e os vendia pelo preço da capitação: foi preso, processado e
condemnado, mas evadio-se da cadea. No Arassuahy apprehendêrào-se preparativos para o estabelecimento de uma fabrica
clandestina de fundição de ouro: era uma especulação que offerecia grandes lucros, porque o ouro em pó vendia-se a 1$000
á oitava e reduzido à barra corria no commercio pelo valor de
1$400.
Com quanto o ouvidor tivesse obrigação de vir constantes vezes ao
arraial do Tijuco, e percorrer as povoações visinhas, abrindo {{começo de palavra hifenizada|de-|devassas}}<noinclude></noinclude>
ssyb0jl0cwwdx3vvnwz8l120k8galrk
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<noinclude><pagequality level="1" user="Túllio F" />{{c|— 33 —}}</noinclude>{{término de palavra hifenizada|vassas|devassas}}, instaurando processos, fiscalisando as minerações e syndicando dos provedores, que em sua ausencia servião como delegados, outros deveres de seu cargo exigião sua presença em
outros lugares da comarca; e assim sendo reconhecida a necessidade de uma administração especial no Tijuco, foi ella creada
no anno de 1734 com a denominação de ''Intendencia dos diamantes''. Foi nomeado primeiro intendente da nova administração
o dr. [[w:pt:Rafael Pardinho|Raphael Pires Pardinho]], que servia como desembargador
na [[w:pt:Casa da Suplicação|casa da Supplicação de Lisboa]]. Emquanto se não organisava
um outro regimento, ficou elle revestido das mesmas attri-
buições, com alçada no civel e no crime, que pertencião ao
ouvidor-geral como superintendente dos diamantes na fórma do
regimento de 1730 e mais bandos e ordens régias posteriores,
debaixo da jurisdicção e mando do governador da capitania. Foi
nomeado escrivão da intendencia Belchior Isidoro Barreto, fiscal
o capitão Sebastião de Oliveira, meirinho João Baptista Pereira,
e escrivão do meirinho Francisco Fernandes Moreira.
Até este anno de 1734 ainda não se achavão bem definidos
os limites do districto propriamente diamantino. Todos os alvarás, portarias, bandos e ordens, que se expedião sobre a nova
mineração só fallavão em «corregos e ribeiros d'onde se extrahem
diamantes na comarca do Serro do Frio ». Para obviar a incerteza e confusão dos direitos dos concessionarios de lavras auriferas, determinar a jurisdicção das autoridades que se creavão e
executar-se o novo regimento, foi [[w:pt:Gouveia (Minas Gerais)|Govêa]]
[[w:pt:Martinho de Mendonça de Pina e Proença|Martinho de Mendonça de Pina e Proença]] por ordem do rei encarregado de fazer a demarcação
das terras diamantinas. Martinho de Mendonça tambem viera de
Lisboa encarregado pelo governo de informar sobre o melhor
systema de arrecadação dos direitos do ouro, e de visitar as
casas de moeda, que já funccionavão. Os governadores receberão
ordem para darem-lhe todo o auxilio e credito de que precisasse
e patentearem-lhe nas secretarias todos os papeis mesmo os mais
reservados; ao governador do Rio de Janeiro se mandou que
pozesse à sua disposição uma embarcação em caso de urgencia
para levar sua correspondencia a Portugal.<noinclude></noinclude>
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