Wikilivros ptwikibooks https://pt.wikibooks.org/wiki/Wikilivros:P%C3%A1gina_principal MediaWiki 1.47.0-wmf.18 first-letter Multimédia Especial Discussão Utilizador Utilizador Discussão Wikilivros Wikilivros Discussão Ficheiro Ficheiro Discussão MediaWiki MediaWiki Discussão Predefinição Predefinição Discussão Ajuda Ajuda Discussão Categoria Categoria Discussão Tópico Tópico discussão Resumo Resumo discussão TimedText TimedText talk Módulo Módulo Discussão Evento Evento Discussão Topic Wikilivros:GUS2Wiki 4 98383 588751 588677 2026-09-03T04:42:50Z Alexis Jazz 57603 Updating gadget usage statistics from [[Special:GadgetUsage]] ([[phab:T121049]]) 588751 wikitext text/x-wiki {{#ifexist:Project:GUS2Wiki/top|{{/top}}|This page provides a historical record of [[Special:GadgetUsage]] through its page history. To get the data in CSV format, see wikitext. To customize this message or add categories, create [[/top]].}} Os seguintes dados estão na cache e foram atualizados pela última vez a 2026-09-01T09:19:53Z. {{PLURAL:5000|Está disponível na cache um máximo de um resultado|Estão disponíveis na cache um máximo de 5000 resultados}}. {| class="sortable wikitable" ! Gadget !! data-sort-type="number" | Número de utilizadores !! data-sort-type="number" | Utilizadores ativos |- |BookGadgetsLinks || 64 || 0 |- |BotExt || 131 || 0 |- |BuscAprim || 84 || 0 |- |BuscLivro || 63 || 0 |- |Dicas || 45 || 0 |- |HideWikitextEditButton || 7 || 0 |- |HistRes || 85 || 0 |- |HistoryNumDiff || 39 || 1 |- |InfoAdicional || 9 || 0 |- |LanguageConverter || 45 || 0 |- |LocSubs || 95 || 0 |- |Navigation popups || 63 || 1 |- |OldEdittools || 30 || 0 |- |ProgressLevel || 58 || 0 |- |TitulosSimples || 67 || 0 |- |UTCLiveClock || 70 || 0 |- |WikiMiniAtlas || 49 || 0 |- |ajaxPrev || 79 || 1 |- |exlinks || 49 || 0 |- |modrollback || 2 || 0 |- |purgetab || 62 || 0 |- |rev-e-avisos || 51 || 0 |- |rightsfilter || 40 || 0 |- |subpages || 1 || 0 |- |wikEd || 88 || 0 |} * [[Especial:GadgetUsage]] * [[m:Meta:GUS2Wiki/Script|GUS2Wiki]] <!-- data in CSV format: BookGadgetsLinks,64,0 BotExt,131,0 BuscAprim,84,0 BuscLivro,63,0 Dicas,45,0 HideWikitextEditButton,7,0 HistRes,85,0 HistoryNumDiff,39,1 InfoAdicional,9,0 LanguageConverter,45,0 LocSubs,95,0 Navigation popups,63,1 OldEdittools,30,0 ProgressLevel,58,0 TitulosSimples,67,0 UTCLiveClock,70,0 WikiMiniAtlas,49,0 ajaxPrev,79,1 exlinks,49,0 modrollback,2,0 purgetab,62,0 rev-e-avisos,51,0 rightsfilter,40,0 subpages,1,0 wikEd,88,0 --> 1ni1zibryadgqs1xz3y8zwvvh9eqhqv Doutrina da Fé/Capítulo I 0 131507 588741 2026-09-02T20:11:46Z Johny Antonio Zavalaga Villanueva 71561 Criei o capitulo 1 588741 wikitext text/x-wiki == A Fé é o Reconhecimento Interno do Vero == === Introdução === Este capítulo apresenta a compreensão da fé segundo a teologia de [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]], contrastando duas concepções fundamentais: a fé como aceitação cega de dogmas e a fé como reconhecimento interno da verdade espiritual. O texto examina como a fé genuína relaciona-se com o entendimento e a percepção espiritual, oferecendo uma perspectiva alternativa à compreensão religiosa convencional. '''Objetivos de aprendizagem:''' * Compreender a distinção entre fé cega (histórica) e fé espiritual (reconhecimento do vero) * Analisar a relação entre fé, verdade e entendimento na teologia swedenborgiana * Examinar o papel da iluminação divina na compreensão das verdades espirituais * Identificar as consequências históricas da separação entre fé e verdade --- === Contexto Teológico === A discussão sobre a natureza da fé constitui um tema central na teologia cristã. Swedenborg propõe uma reinterpretação dessa questão, argumentando que a compreensão contemporânea da fé como mera crença sem fundamento racional representa um desvio da verdadeira fé espiritual. Segundo sua perspectiva, a fé autêntica fundamenta-se no reconhecimento interior da verdade (''vero''), não em autoridade eclesiástica ou dogma imposto. --- === Conceitos-Chave e Terminologia === ; '''Vero''' : Termo técnico utilizado por Swedenborg para designar a verdade espiritual ou princípio espiritual verdadeiro. Distingue-se de "falso" (falsidade espiritual). ; '''Fé cega''' : Crença sem compreensão racional ou percepção interna; aceitação de dogmas unicamente pela autoridade eclesiástica. ; '''Fé histórica''' : Fé baseada em relatos ou ensinamentos transmitidos por outrem, sem verificação pessoal ou compreensão interior. ; '''Iluminação''' : Na teologia swedenborgiana, o processo pelo qual o entendimento humano é elevado à percepção das verdades espirituais mediante influência divina. ; '''Afeição do vero''' : Disposição interior ou inclinação espiritual em direção à verdade; estado de receptividade às verdades espirituais. ; '''Luz do céu''' : Expressão que designa a qualidade de compreensão ou iluminação que caracteriza a percepção espiritual, em contraste com a razão meramente natural. --- === Exposição do Texto === ==== 1. A Compreensão Contemporânea de Fé ==== De acordo com Swedenborg, a concepção moderna de fé reduz-se ao pensamento de que algo é verdadeiro porque a instituição eclesiástica o ensina, independentemente de ser evidente ao entendimento. O imperativo "Crê, e não duvida" exemplifica essa abordagem, que desestimula a investigação racional. Quando alguém questiona "Não compreendo isso", a resposta convencional é que justamente por não compreender deve-se crer—criando, assim, uma ''fé no desconhecido'', frequentemente designada como ''fé cega''.<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 1–50}}</ref> Swedenborg caracteriza essa modalidade como ''fé histórica'', pois constitui um ditame interno de alguém em outrem—ou seja, a aceitação de uma verdade relatada por terceiros, sem verificação pessoal. O autor afirma explicitamente que essa não é a fé espiritual genuína. ==== 2. A Fé Verdadeira como Reconhecimento do Vero ==== Em contraste, Swedenborg define a fé autêntica como o reconhecimento de que algo é verdadeiro porque é um ''vero''—uma verdade espiritual. Quem possui essa fé pensa e fala assim: "Isso é um vero, por isso o creio", estabelecendo uma relação indissociável entre fé e verdade. Nessa perspectiva, a fé não precede a compreensão, mas resulta dela: não se crê naquilo que não se compreende como verdadeiro, pois de outro modo poder-se-ia estar crendo em algo falso.<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 1–50}}</ref> ==== 3. A Compreensibilidade das Verdades Espirituais ==== Um argumento frequente na tradição religiosa é que as coisas espirituais ou teológicas não podem ser compreendidas porque são sobrenaturais. Swedenborg refuta essa posição, sustentando que as verdades espirituais podem ser compreendidas do mesmo modo que as verdades naturais. Ainda que não sejam compreendidas com clareza absoluta, caem na percepção—isto é, reconhecem-se como verdadeiras ou falsas quando ouvidas—especialmente naqueles que possuem afeição pela verdade. O autor apela à sua experiência pessoal, relatando que lhe foi concedido comunicar-se com pessoas de diversos níveis de instrução e compreensão, inclusive aquelas envolvidas em falsidades e males. Quando expostas aos arcanos (mistérios) da sabedoria espiritual, essas pessoas compreenderam e reconheceram as verdades apresentadas. Swedenborg atribui isso ao fato de que estavam "na luz do entendimento que existe em todo homem" e, simultaneamente, na percepção de sua própria inteligência. A razão pela qual as coisas espirituais podem ser compreendidas, segundo Swedenborg, é que o homem pode ser elevado à luz do céu quanto ao entendimento. Nessa luz, não aparecem senão coisas espirituais—os veros da fé—pois "a luz do céu é a luz espiritual".<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 1–50}}</ref> ==== 4. O Reconhecimento Interno e a Afeição pela Verdade ==== Swedenborg afirma que o reconhecimento interno do vero existe naqueles que estão na ''afeição espiritual do vero''—isto é, naqueles cuja disposição interior os inclina para a verdade. Os anjos, estando nessa afeição, rejeitam completamente o dogma de que o entendimento deve estar sob obediência da fé. Seu questionamento é direto: "O que é crer e não ver se é verdadeiro?" Eles recusam crer naquilo que não veem ser verdadeiro, exigindo que a verdade seja demonstrada para que possam vê-la. A sabedoria angélica, conforme Swedenborg, consiste unicamente em que veem e compreendem aquilo em que pensam—não há separação entre crença e compreensão. ==== 5. A Ideia Espiritual e a Iluminação ==== Swedenborg introduz o conceito de ''ideia espiritual''—um princípio do qual poucos têm conhecimento—que influi naqueles na afeição do vero, ditando-lhes interiormente se é verdadeiro ou falso aquilo que é lido ou ouvido. Aqueles que estão na iluminação divina ao ler a Palavra (Escritura Sagrada) encontram-se nessa ideia espiritual. Estar na iluminação, segundo o autor, não é outra coisa senão estar na percepção e no reconhecimento interno de que algo é verdadeiro. Swedenborg identifica esses indivíduos com os "ensinados de JEHOVAH" mencionados em Isaías 54:13 e João 6:45. Cita também a profecia de Jeremias sobre a nova aliança, na qual Deus promete escrever sua lei no coração dos homens, de modo que ninguém precisará ensinar ao outro, pois todos conhecerão a Deus diretamente (Jeremias 31:31–34).<ref>{{citar livro |título=Bíblia Sagrada |subtítulo=Isaías 54:13; João 6:45; Jeremias 31:31–34 |editora=Sociedade Bíblica do Brasil |ano=1993}}</ref> ==== 6. Identidade entre Fé e Verdade ==== Swedenborg conclui que fé e verdade são uma única coisa. Por essa razão, os antigos—que pela afeição estiveram mais no pensamento dos veros que os contemporâneos—utilizavam a palavra "verdade" em lugar de "fé". Na língua hebraica, verdade e fé são designadas pelo mesmo vocábulo: ''amuna'' ou ''amém'', refletindo essa unidade conceitual. ==== 7. O Contexto Evangélico e Apocalíptico ==== Swedenborg observa que o Senhor mencionou a fé nos Evangelhos e no Apocalipse porque os judeus não acreditavam ser verdade que Jesus era o Messias predito pelos profetas. Onde não se crê na verdade, aí se utiliza a palavra "fé". O autor nota, porém, uma distinção importante: ter fé e crer no Senhor é diferente de ter fé e crer em outrem—uma diferença que será explorada em seções posteriores. ==== 8. As Consequências Históricas da Separação entre Fé e Verdade ==== Swedenborg atribui a entrada da fé separada da verdade na Igreja cristã ao domínio papal. Segundo sua análise, a principal salvaguarda dessa estrutura religiosa era a ignorância da verdade (''vero''). Por essa razão, a leitura da Palavra foi proibida—pois, de outro modo, não poderiam ser adorados como deuses, nem seus santos serem invocados, tampouco poderiam introduzir ídolos (representações de cadáveres, ossos e sepulcros de supostos santos) para obtenção de lucro. Swedenborg conclui que a fé cega pode produzir "enormes falsidades".<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 1–50}}</ref> --- === Análise Teológica === A posição de Swedenborg sobre a fé representa uma crítica à dicotomia fé-razão que caracterizou parte da teologia medieval e reformada. Ao afirmar que a fé genuína é o reconhecimento da verdade, Swedenborg propõe uma integração entre entendimento e crença, rejeitando tanto o racionalismo puro quanto o fideísmo (crença sem fundamento racional). Sua ênfase na ''iluminação divina'' como condição para a compreensão das verdades espirituais situa-se dentro de uma tradição mística e contemplativa, mas com uma diferença significativa: para Swedenborg, essa iluminação não produz obscuridade ou paradoxo, mas clareza e compreensão racional elevada. A crítica ao domínio papal e à proibição da leitura da Escritura reflete as preocupações reformistas, mas com uma argumentação própria: não se trata apenas de acesso à Palavra, mas de capacidade de compreensão interior da verdade que a Palavra contém. --- === Questões de Estudo === 1. Qual é a diferença fundamental entre a "fé cega" e a "fé espiritual" segundo Swedenborg? 2. Como Swedenborg responde ao argumento de que as verdades espirituais não podem ser compreendidas? 3. O que significa "estar na afeição do vero"? Como isso se relaciona com a capacidade de reconhecer a verdade? 4. Qual é o significado da "ideia espiritual" e como ela funciona na iluminação? 5. Por que Swedenborg afirma que fé e verdade são "uma coisa só"? 6. Como a proibição da leitura da Escritura relaciona-se com a manutenção da "fé cega" na história da Igreja? --- === Leitura Complementar === * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''A Verdadeira Religião Cristã'' (''True Christian Religion'', 1771). Obra principal que desenvolve a doutrina da fé e sua relação com a verdade espiritual. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Doutrina da Escritura Sagrada'' (1763). Examina como a Palavra divina comunica verdades espirituais e como são compreendidas. * [[Doutrina da Correspondência]]. Conceito fundamental na teologia swedenborgiana que explica como as realidades espirituais correspondem às naturais. * [[Regeneração]]. Processo de transformação espiritual relacionado à abertura para a percepção das verdades divinas. --- == Referências == <references /> --- [[../|Retornar ao sumário]] kgv0a82ahn0yzxmxdqlmfsbarqbz5yg 588742 588741 2026-09-02T20:27:31Z Johny Antonio Zavalaga Villanueva 71561 capitulo 1 588742 wikitext text/x-wiki == A Fé é o Reconhecimento Interno do Vero == === Introdução === Este capítulo apresenta a compreensão da fé segundo a teologia de [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]], contrastando duas concepções fundamentais: a fé como aceitação cega de dogmas e a fé como reconhecimento interno da verdade espiritual. O texto examina como a fé genuína relaciona-se com o entendimento e a percepção espiritual, oferecendo uma perspectiva alternativa à compreensão religiosa convencional. A discussão estende-se às consequências históricas da separação entre fé e verdade, particularmente no contexto do catolicismo medieval e das reformas protestantes, e conclui com orientações práticas sobre como adquirir o reconhecimento interno da verdade. '''Objetivos de aprendizagem:''' * Compreender a distinção entre fé cega (histórica) e fé espiritual (reconhecimento do vero) * Analisar a relação entre fé, verdade e entendimento na teologia swedenborgiana * Examinar o papel da iluminação divina na compreensão das verdades espirituais * Identificar as consequências históricas da separação entre fé e verdade * Reconhecer a diferença entre reconhecimento interno e externo da verdade * Compreender as condições para adquirir a fé autêntica --- === Contexto Teológico === A discussão sobre a natureza da fé constitui um tema central na teologia cristã desde os primeiros séculos. Swedenborg propõe uma reinterpretação dessa questão, argumentando que a compreensão contemporânea da fé como mera crença sem fundamento racional representa um desvio da verdadeira fé espiritual. Segundo sua perspectiva, a fé autêntica fundamenta-se no reconhecimento interior da verdade (''vero''), não em autoridade eclesiástica ou dogma imposto. A crítica de Swedenborg estende-se tanto ao catolicismo romano quanto às igrejas reformadas, ambas acusadas de manter a "fé cega" mediante a separação entre fé e caridade ou fé e verdade. --- === Conceitos-Chave e Terminologia === ; '''Vero''' : Termo técnico utilizado por Swedenborg para designar a verdade espiritual ou princípio espiritual verdadeiro. Distingue-se de "falso" (falsidade espiritual). Na língua hebraica, corresponde ao vocábulo ''amuna'' ou ''amém''. ; '''Fé cega''' : Crença sem compreensão racional ou percepção interna; aceitação de dogmas unicamente pela autoridade eclesiástica. Também designada como "fé no desconhecido". ; '''Fé histórica''' : Fé baseada em relatos ou ensinamentos transmitidos por outrem, sem verificação pessoal ou compreensão interior. Constitui um ditame interno de alguém em outrem. ; '''Iluminação''' : Na teologia swedenborgiana, o processo pelo qual o entendimento humano é elevado à percepção das verdades espirituais mediante influência divina. Equivale a estar na percepção e no reconhecimento interno da verdade. ; '''Afeição do vero''' : Disposição interior ou inclinação espiritual em direção à verdade; estado de receptividade às verdades espirituais. Condição necessária para o reconhecimento interno. ; '''Luz do céu''' : Expressão que designa a qualidade de compreensão ou iluminação que caracteriza a percepção espiritual, em contraste com a razão meramente natural. É a "luz espiritual". ; '''Reconhecimento interno''' : Percepção direta e compreensão da verdade no âmago do ser; distingue-se do reconhecimento externo (mera aceitação intelectual sem compreensão interior). ; '''Reconhecimento externo''' : Aceitação intelectual de uma proposição sem compreensão interior; pode ser confirmação de verdades ou de falsidades. ; '''Persuasão''' : Estado mental resultante da confirmação repetida de uma crença, seja verdadeira ou falsa. Difere do reconhecimento interno por não envolver compreensão genuína. --- === Exposição do Texto === ==== 1. A Compreensão Contemporânea de Fé ==== De acordo com Swedenborg, a concepção moderna de fé reduz-se ao pensamento de que algo é verdadeiro porque a instituição eclesiástica o ensina, independentemente de ser evidente ao entendimento. O imperativo "Crê, e não duvida" exemplifica essa abordagem, que desestimula a investigação racional. Quando alguém questiona "Não compreendo isso", a resposta convencional é que justamente por não compreender deve-se crer—criando, assim, uma ''fé no desconhecido'', frequentemente designada como ''fé cega''.<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 1–12}}</ref> Swedenborg caracteriza essa modalidade como ''fé histórica'', pois constitui um ditame interno de alguém em outrem—ou seja, a aceitação de uma verdade relatada por terceiros, sem verificação pessoal. O autor afirma explicitamente que essa não é a fé espiritual genuína. ==== 2. A Fé Verdadeira como Reconhecimento do Vero ==== Em contraste, Swedenborg define a fé autêntica como o reconhecimento de que algo é verdadeiro porque é um ''vero''—uma verdade espiritual. Quem possui essa fé pensa e fala assim: "Isso é um vero, por isso o creio", estabelecendo uma relação indissociável entre fé e verdade. Nessa perspectiva, a fé não precede a compreensão, mas resulta dela: não se crê naquilo que não se compreende como verdadeiro, pois de outro modo poder-se-ia estar crendo em algo falso.<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 1–12}}</ref> ==== 3. A Compreensibilidade das Verdades Espirituais ==== Um argumento frequente na tradição religiosa é que as coisas espirituais ou teológicas não podem ser compreendidas porque são sobrenaturais. Swedenborg refuta essa posição, sustentando que as verdades espirituais podem ser compreendidas do mesmo modo que as verdades naturais. Ainda que não sejam compreendidas com clareza absoluta, caem na percepção—isto é, reconhecem-se como verdadeiras ou falsas quando ouvidas—especialmente naqueles que possuem afeição pela verdade. O autor apela à sua experiência pessoal, relatando que lhe foi concedido comunicar-se com pessoas de diversos níveis de instrução e compreensão, inclusive aquelas envolvidas em falsidades e males. Quando expostas aos arcanos (mistérios) da sabedoria espiritual, essas pessoas compreenderam e reconheceram as verdades apresentadas. Swedenborg atribui isso ao fato de que estavam "na luz do entendimento que existe em todo homem" e, simultaneamente, na percepção de sua própria inteligência. A razão pela qual as coisas espirituais podem ser compreendidas, segundo Swedenborg, é que o homem pode ser elevado à luz do céu quanto ao entendimento. Nessa luz, não aparecem senão coisas espirituais—os veros da fé—pois "a luz do céu é a luz espiritual".<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 1–12}}</ref> ==== 4. O Reconhecimento Interno e a Afeição pela Verdade ==== Swedenborg afirma que o reconhecimento interno do vero existe naqueles que estão na ''afeição espiritual do vero''—isto é, naqueles cuja disposição interior os inclina para a verdade. Os anjos, estando nessa afeição, rejeitam completamente o dogma de que o entendimento deve estar sob obediência da fé. Seu questionamento é direto: "O que é crer e não ver se é verdadeiro?" Eles recusam crer naquilo que não veem ser verdadeiro, exigindo que a verdade seja demonstrada para que possam vê-la. A sabedoria angélica, conforme Swedenborg, consiste unicamente em que veem e compreendem aquilo em que pensam—não há separação entre crença e compreensão. ==== 5. A Ideia Espiritual e a Iluminação ==== Swedenborg introduz o conceito de ''ideia espiritual''—um princípio do qual poucos têm conhecimento—que influi naqueles na afeição do vero, ditando-lhes interiormente se é verdadeiro ou falso aquilo que é lido ou ouvido. Aqueles que estão na iluminação divina ao ler a Palavra (Escritura Sagrada) encontram-se nessa ideia espiritual. Estar na iluminação, segundo o autor, não é outra coisa senão estar na percepção e no reconhecimento interno de que algo é verdadeiro. Swedenborg identifica esses indivíduos com os "ensinados de JEHOVAH" mencionados em Isaías 54:13 e João 6:45. Cita também a profecia de Jeremias sobre a nova aliança, na qual Deus promete escrever sua lei no coração dos homens, de modo que ninguém precisará ensinar ao outro, pois todos conhecerão a Deus diretamente (Jeremias 31:31–34).<ref>{{citar livro |título=Bíblia Sagrada |subtítulo=Isaías 54:13; João 6:45; Jeremias 31:31–34 |editora=Sociedade Bíblica do Brasil |ano=1993}}</ref> ==== 6. Identidade entre Fé e Verdade ==== Swedenborg conclui que fé e verdade são uma única coisa. Por essa razão, os antigos—que pela afeição estiveram mais no pensamento dos veros que os contemporâneos—utilizavam a palavra "verdade" em lugar de "fé". Na língua hebraica, verdade e fé são designadas pelo mesmo vocábulo: ''amuna'' ou ''amém'', refletindo essa unidade conceitual. ==== 7. O Contexto Evangélico e Apocalíptico ==== Swedenborg observa que o Senhor mencionou a fé nos Evangelhos e no Apocalipse porque os judeus não acreditavam ser verdade que Jesus era o Messias predito pelos profetas. Onde não se crê na verdade, aí se utiliza a palavra "fé". O autor nota, porém, uma distinção importante: ter fé e crer no Senhor é diferente de ter fé e crer em outrem—uma diferença que será explorada em seções posteriores. ==== 8. As Consequências Históricas da Separação entre Fé e Verdade ==== Swedenborg atribui a entrada da fé separada da verdade na Igreja cristã ao domínio papal. Segundo sua análise, a principal salvaguarda dessa estrutura religiosa era a ignorância da verdade (''vero''). Por essa razão, a leitura da Palavra foi proibida—pois, de outro modo, não poderiam ser adorados como deuses, nem seus santos serem invocados, tampouco poderiam introduzir ídolos (representações de cadáveres, ossos e sepulcros de supostos santos) para obtenção de lucro. Swedenborg conclui que a fé cega pode produzir "enormes falsidades".<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 1–12}}</ref> ==== 9. A Fé Cega nas Igrejas Reformadas ==== Swedenborg estende sua crítica também às igrejas reformadas, afirmando que a fé cega permaneceu nelas pelo fato de terem separado a caridade da fé. Segundo sua perspectiva, aqueles que separam a caridade da fé não podem deixar de estar na ignorância do vero e de chamar de fé ao pensamento que foi assim separado do reconhecimento interno de que algo é verdadeiro. Neles, a ignorância funciona como salvaguarda do dogma: enquanto a ignorância reina com a persuasão de que as coisas teológicas são transcendentais, podem falar sem serem contraditados, crer que aquelas coisas são verdadeiras e que eles mesmos as entendem. ==== 10. A Bem-aventurança dos que Creem sem Ver ==== Swedenborg comenta a passagem evangélica em que o Senhor diz a Tomé: "Porque Me viste, Tomé, creste. Bem-aventurados os que não viram e creram" (João 20:29). O autor esclarece que isso não se refere à fé separada do reconhecimento interno do vero, mas, sim, que são bem-aventurados aqueles que não viram o Senhor com os olhos, como Tomé, e, todavia, creram que Ele é. Com efeito, isso está na luz da verdade oriunda da Palavra.<ref>{{citar livro |título=Bíblia Sagrada |subtítulo=João 20:29 |editora=Sociedade Bíblica do Brasil |ano=1993}}</ref> ==== 11. Reconhecimento Interno versus Externo ==== Visto que o reconhecimento interno da verdade é a fé, e a fé e a verdade são uma só coisa, segue-se que o reconhecimento externo sem o interno não é fé e tampouco é fé a persuasão do falso. O reconhecimento externo sem o interno é a fé no desconhecido, e a fé no desconhecido é somente uma ciência pertencente à memória, que, se confirmada, torna-se persuasão. Swedenborg distingue entre dois processos mentais: * '''Reconhecimento externo sem interno:''' Aceitação intelectual de uma proposição sem compreensão genuína. É mera ciência memorizada que, se confirmada repetidamente, transforma-se em persuasão. * '''Persuasão:''' Estado mental resultante da confirmação de uma crença. Aqueles nessa condição pensam que algo é vero porque alguém assim o disse, ou pensam que é um vero pela confirmação. Swedenborg observa que o falso pode ser confirmado igualmente ao vero e, às vezes, mais firmemente. A confirmação não garante a verdade; apenas reforça a crença. Por pensar que algo é vero pela confirmação entende-se pensar que o que foi dito por outrem é um vero e não examinar isso antes, mas somente confirmá-lo. ==== 12. O Caminho para Adquirir o Reconhecimento Interno ==== Swedenborg conclui com uma orientação prática: se alguém pensar consigo mesmo ou disser a outro que não pode ter o reconhecimento interno da verdade que é a fé, Swedenborg responde: "Foge dos males como pecados, vai ao Senhor e terás o quanto desejares". O autor remete a leitores interessados à ''Doutrina de Vida para a Nova Jerusalém'', onde se demonstra: * Que aquele que foge dos males como pecados está no Senhor (n. 18–31) * Que esse ame o vero e o veja (n. 32–41) * Que esse tenha a fé (n. 42–52) Assim, a aquisição da fé genuína está condicionada a uma transformação moral e espiritual prévia: o afastamento do mal e a busca do Senhor. --- === Análise Teológica === A posição de Swedenborg sobre a fé representa uma crítica à dicotomia fé-razão que caracterizou parte da teologia medieval e reformada. Ao afirmar que a fé genuína é o reconhecimento da verdade, Swedenborg propõe uma integração entre entendimento e crença, rejeitando tanto o racionalismo puro quanto o fideísmo (crença sem fundamento racional). Sua ênfase na ''iluminação divina'' como condição para a compreensão das verdades espirituais situa-se dentro de uma tradição mística e contemplativa, mas com uma diferença significativa: para Swedenborg, essa iluminação não produz obscuridade ou paradoxo, mas clareza e compreensão racional elevada. A crítica ao domínio papal e à proibição da leitura da Escritura reflete as preocupações reformistas, mas com uma argumentação própria: não se trata apenas de acesso à Palavra, mas de capacidade de compreensão interior da verdade que a Palavra contém. Igualmente significativa é a extensão da crítica às igrejas protestantes, particularmente pela separação entre fé e caridade. Swedenborg sugere que ambas as tradições—católica e protestante—mantiveram estruturas de ignorância que servem à manutenção do poder institucional. A distinção entre reconhecimento interno e externo oferece uma base teórica para compreender por que a mera instrução doutrinária é insuficiente para a fé autêntica: é necessário um processo de iluminação e transformação espiritual que transcenda a memorização e a confirmação intelectual. --- === Questões de Estudo === 1. Qual é a diferença fundamental entre a "fé cega" e a "fé espiritual" segundo Swedenborg? 2. Como Swedenborg responde ao argumento de que as verdades espirituais não podem ser compreendidas? 3. O que significa "estar na afeição do vero"? Como isso se relaciona com a capacidade de reconhecer a verdade? 4. Qual é o significado da "ideia espiritual" e como ela funciona na iluminação? 5. Por que Swedenborg afirma que fé e verdade são "uma coisa só"? 6. Como a proibição da leitura da Escritura relaciona-se com a manutenção da "fé cega" na história da Igreja? 7. Qual é a diferença entre reconhecimento externo e reconhecimento interno da verdade? 8. Como a persuasão difere do reconhecimento interno? Por que o falso pode ser confirmado tão firmemente quanto o vero? 9. Qual é a condição prévia para adquirir o reconhecimento interno da verdade, segundo Swedenborg? 10. Como a separação entre fé e caridade contribui para a manutenção da ignorância nas igrejas reformadas? --- === Leitura Complementar === * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''A Verdadeira Religião Cristã'' (''True Christian Religion'', 1771). Obra principal que desenvolve a doutrina da fé e sua relação com a verdade espiritual. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Doutrina da Escritura Sagrada'' (1763). Examina como a Palavra divina comunica verdades espirituais e como são compreendidas. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Doutrina de Vida para a Nova Jerusalém'' (1763). Apresenta a relação entre vida moral, fé e compreensão espiritual. * [[Doutrina da Correspondência]]. Conceito fundamental na teologia swedenborgiana que explica como as realidades espirituais correspondem às naturais. * [[Regeneração]]. Processo de transformação espiritual relacionado à abertura para a percepção das verdades divinas. --- == Referências == <references /> --- [[../|Retornar ao sumário]] == Referências == <references /> --- [[../|Retornar ao sumário]] 4w2yahvo7m1vkh668rh1cz9uq8nordm Doutrina da Fé/Capítulo II 0 131508 588743 2026-09-02T20:32:54Z Johny Antonio Zavalaga Villanueva 71561 Criei o capitulo 2 588743 wikitext text/x-wiki == O Reconhecimento Interno do Vero Existe Apenas na Caridade == === Introdução === Este capítulo examina a relação indissociável entre fé e caridade segundo a teologia de [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. Enquanto o capítulo anterior estabeleceu que a fé é o reconhecimento interno da verdade espiritual, este capítulo demonstra que tal reconhecimento não pode existir isolado da caridade. Swedenborg apresenta a caridade como a afeição do bem e do uso, mostrando como fé e caridade operam em conjunto através de uma progressão lógica e orgânica, análoga aos processos vitais do corpo humano. A discussão estende-se à natureza do próximo (aquele que é objeto da caridade), distinguindo entre o sentido natural e o sentido espiritual, e conclui com a afirmação de que a fé salvífica—aquela que conduz à salvação—existe apenas naqueles que vivem na caridade. '''Objetivos de aprendizagem:''' * Compreender a relação entre caridade e fé na teologia swedenborgiana * Analisar a progressão da caridade desde sua origem até sua manifestação em ações * Examinar a analogia entre vontade-entendimento e caridade-fé * Reconhecer a correspondência entre processos corporais (coração-pulmão) e processos espirituais (caridade-fé) * Distinguir entre o próximo no sentido natural e no sentido espiritual * Diferenciar entre amor egoísta e caridade genuína * Compreender como a caridade é a condição necessária para a fé salvífica --- === Contexto Teológico === A separação entre fé e caridade constitui um dos problemas fundamentais que Swedenborg identifica na teologia cristã moderna, particularmente nas tradições protestantes. Enquanto a tradição medieval enfatizava as obras (caridade), a Reforma protestante enfatizou a fé, frequentemente em detrimento da caridade. Swedenborg propõe uma síntese: fé e caridade são inseparáveis e complementares, cada uma necessária para a existência da outra. Esta perspectiva tem implicações profundas para a soteriologia (doutrina da salvação): não é suficiente ter fé intelectual; é necessário viver na caridade—no amor pelo próximo e no serviço ao bem. --- === Conceitos-Chave e Terminologia === ; '''Caridade''' : Na teologia swedenborgiana, a afeição do bem e do uso; o amor pelo próximo manifestado em ações benéficas. Em sua origem, é a afeição do bem; em sua manifestação final, é a ação do amor. ; '''Bem''' : Aquilo que é útil, benéfico ou que produz utilidade. Na teologia de Swedenborg, o bem é inseparável do uso (utilidade prática). ; '''Uso''' : A aplicação prática do bem; a ação benéfica concretizada. O uso é o fim último da progressão da caridade. ; '''Afeição''' : Inclinação, disposição ou tendência interior do ser; o aspecto emocional e volitivo da experiência humana. ; '''Vontade''' : A faculdade da alma que deseja, ama e afeta; sede da afeição e do amor. Corresponde à caridade. ; '''Entendimento''' : A faculdade da alma que pensa, compreende e reconhece; sede do pensamento e da percepção. Corresponde à fé. ; '''Progressão''' : Desenvolvimento ordenado e sequencial de uma realidade desde sua origem até sua manifestação final. No caso da caridade, a progressão vai da afeição do bem até a ação do uso. ; '''Próximo''' : No sentido natural, o ser humano individual ou coletivo. No sentido espiritual, o bem ou o uso presente em cada pessoa. ; '''Conjunção''' : União ou ligação íntima entre realidades distintas. Na teologia swedenborgiana, a conjunção entre Deus e o homem ocorre através da caridade e da fé. ; '''Correspondência''' : Relação de similitude e conexão entre realidades espirituais e naturais. Por exemplo, o coração corresponde à caridade e o pulmão corresponde à fé. ; '''Fé salvífica''' : A fé que conduz à salvação; aquela que existe apenas na caridade e que produz transformação espiritual genuína. --- === Exposição do Texto === ==== 1. A Caridade como Afeição do Bem ==== Swedenborg inicia definindo a caridade em sua origem: é a afeição do bem. Como o bem ama o vero (a verdade), essa afeição do bem produz a afeição do vero e, por conseguinte, o reconhecimento do vero que é a fé. Assim estabelece-se uma progressão: da afeição do bem, passa-se à afeição do vero (mediante a fé), e desta retorna-se à caridade como ação.<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 13–24}}</ref> Swedenborg sintetiza essa progressão: "O fim é a ação". Portanto, a caridade progride desde sua origem (afeição do bem) através da fé (reconhecimento do vero) até seu fim (ação do amor). Fica evidente, assim, que o amor (afeição do bem) produz a fé (reconhecimento do vero) e que, por meio desta, produz a caridade (ação do amor). ==== 2. O Bem como Uso ==== Para maior clareza, Swedenborg reformula: o bem não é outra coisa senão o uso (utilidade prática). Portanto, a caridade em sua origem é a afeição do uso. Como o uso ama os meios (as verdades que o realizam), produz a afeição dos meios, de que vem o conhecimento destes e, por conseguinte, a afeição do uso existe e se torna caridade. A progressão permanece a mesma, mas agora expressa em termos de uso e meios. ==== 3. Analogia com a Vontade e o Entendimento ==== Swedenborg estabelece uma analogia fundamental: a progressão da caridade e da fé é exatamente como a progressão de todas as coisas da vontade, por meio do entendimento, nas ações do corpo. A vontade nada produz sem o entendimento, nem o entendimento produz coisa alguma de si sem a vontade. Ambos agem em conjunto para que algo exista. O autor convida o leitor a examinar: "Examina tu se podes pensar, se removeres do pensamento a afeição que é de algum amor." Ou inversamente: "Se da afeição removeres o pensamento, podes ser afetado por alguma coisa?" A conclusão é que afeição e pensamento, vontade e entendimento, são inseparáveis em qualquer ação significativa. Da mesma forma, caridade e fé operam conjuntamente: a afeição (caridade) nada produz por si mesma senão por meio do pensamento (fé), e vice-versa.<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 13–24}}</ref> ==== 4. A Analogia da Árvore ==== Swedenborg ilustra essa progressão através de uma comparação com a árvore. A árvore, em sua origem, é a semente que contém o esforço de produzir fruto. Esse esforço, estimulado pelo calor, primeiro produz a raiz; por ela, a vara ou caule com ramos e folhas e, finalmente, o fruto. O esforço de frutificar permanece perpétuo em toda a progressão até que o fruto exista. A aplicação é a seguinte: * A árvore = o homem * O esforço de produzir = a vontade no entendimento * A vara, caule, ramos e folhas = os meios pelos quais o homem age, chamados "veros da fé" * Os frutos = os usos no homem (onde a vontade se manifesta) Swedenborg conclui: "A vontade de produzir usos por meio do entendimento é perpétua em toda progressão até que exista." Isto é, assim como a árvore mantém seu esforço de frutificar desde a semente até o fruto, o homem mantém sua vontade de produzir usos por meio do entendimento em toda a progressão espiritual. ==== 5. Caridade e Fé como Meios e Fim ==== A partir dessa análise, torna-se evidente que a caridade, enquanto afeição do bem ou uso, produz a fé como meio pelo qual exista. Consequentemente, caridade e fé, na operação do uso, agem em conjunto. Também é evidente que a fé não produz por si mesma o bem ou o uso, mas pela caridade, pois a fé é a caridade nos meios. Swedenborg rejeita uma falácia comum: dizer que a fé produz o bem como a árvore produz o fruto. A árvore não é a fé; a árvore é o homem. A fé é, na analogia, como os ramos e folhas (os meios), não como a árvore inteira. ==== 6. Caridade e Fé como Essência e Forma ==== Swedenborg apresenta múltiplas analogias para expressar a unidade de caridade e fé: * '''Vontade e entendimento:''' A caridade pertence à vontade; a fé pertence ao entendimento. * '''Afeição e pensamento:''' A afeição pertence à vontade; o pensamento ao entendimento. * '''Bem e vero:''' O bem pertence à afeição (vontade); o vero pertence ao pensamento (entendimento). * '''Essência e forma:''' A essência da fé é a caridade; a forma da caridade é a fé. Dessa última analogia, conclui-se: "A fé sem a caridade é como a forma sem a essência, que não é coisa alguma; e a caridade sem a fé é como a essência sem a forma, que também não é coisa alguma."<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 13–24}}</ref> ==== 7. A Correspondência Fisiológica: Coração e Pulmão ==== Swedenborg estabelece uma correspondência notável entre processos espirituais e corporais. A caridade e a fé no homem são absolutamente como os movimentos do coração (sístole e diástole) e o movimento do pulmão (respiração). Existe uma correspondência plenária entre esses movimentos e a vontade-entendimento do homem, portanto, com a caridade-fé. Por essa razão, na Palavra (Escritura Sagrada): * A vontade e sua afeição são entendidos por "coração" * O entendimento e seu pensamento são entendidos por "alma" e também "espírito" Assim, "entregar a alma" significa quando ela não mais anima o corpo, e "entregar o espírito" significa não mais respirar. Swedenborg conclui: "Não pode haver fé sem caridade nem caridade sem fé." A fé sem caridade é como a respiração pulmonar sem o coração—impossível em ser vivo algum, mas possível apenas num autômato (máquina sem vida). A caridade sem fé é como o coração sem o pulmão—do que não se sente o que é vivo. Portanto, a caridade opera o uso por meio da fé, assim como o coração produz a ação por meio do pulmão. A semelhança é tão profunda que, no mundo espiritual, cada um é conhecido pela sua respiração (fé) e pelo batimento de seu coração (caridade). Os anjos e espíritos vivem, igualmente aos homens, pelo coração e pela respiração, sentindo, pensando, agindo e falando semelhantemente aos homens no mundo.<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 13–24}}</ref> ==== 8. O Próximo no Sentido Natural e Espiritual ==== Swedenborg passa a definir o próximo, objeto da caridade. No sentido natural, o próximo é o homem no coletivo e no individual: * No coletivo: a igreja, a pátria e a sociedade * No individual: o concidadão, chamado "irmão" e "amigo" na Palavra Porém, no sentido espiritual, o próximo é o bem. Como o uso é o bem, o próximo no sentido espiritual é o uso. Swedenborg argumenta que ninguém ama o homem apenas pela pessoa em si, mas pelo que está nele, pela sua qualidade. Essa qualidade que é amada é o uso e se chama bem; assim, esse é o próximo espiritual. Como a Palavra é espiritual em seu seio, amar o próximo significa amar o bem ou o uso presente nele—este é o sentido espiritual de amar o próximo. ==== 9. Duas Formas de Amar o Próximo ==== Swedenborg distingue entre duas formas de amar o próximo: * '''Amor egoísta:''' Amar o próximo pelo bem ou uso nele para consigo (para próprio benefício). O mau também pode amar desta forma. * '''Caridade genuína:''' Amar o próximo pelo bem ou uso em si, para com o próximo (pelo bem do outro). Somente o bom pode amar desta forma, pois ama o bem pelo bem ou ama o uso pela afeição do uso. Swedenborg ilustra essa diferença com o ensinamento do Senhor em Mateus 5:42–47. Muitos dizem: "Amo aquele porque me ama e me faz bem", mas amar alguém apenas por causa de si não é amá-lo interiormente a não ser que se esteja no bem e, por este, se ame o seu rplbal5cdl551h1zmhay6499v898w20 Doutrina da Fé/Capítulo III 0 131509 588744 2026-09-02T20:38:14Z Johny Antonio Zavalaga Villanueva 71561 criei o capitulo 3 588744 wikitext text/x-wiki == Os Conhecimentos do Vero e do Bem como Despensa da Fé == === Introdução === Este capítulo examina a relação entre conhecimento e fé segundo a teologia de [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. Enquanto os capítulos anteriores estabeleceram que a fé é o reconhecimento interno da verdade e que existe apenas na caridade, este capítulo aborda uma questão prática: qual é o papel dos conhecimentos do vero (verdade espiritual) e do bem adquiridos antes de a caridade estar plenamente desenvolvida? Swedenborg argumenta que tais conhecimentos funcionam como uma "despensa" ou "armazém"—um repositório do qual a fé genuína pode ser formada, mas apenas quando a caridade está presente. O capítulo também descreve os dois estados espirituais do homem: a reforma (quando a fé parece estar em primeiro lugar) e a regeneração (quando a caridade assume o primado). '''Objetivos de aprendizagem:''' * Compreender a função dos conhecimentos do vero e do bem na formação da fé * Distinguir entre conhecimentos que são mera informação e conhecimentos que se tornam fé * Analisar a progressão natural do homem no mundo e sua relação com a progressão espiritual * Examinar os dois estados espirituais: reforma e regeneração * Reconhecer a diferença entre conhecimentos adquiridos antes da caridade e após a caridade * Compreender como a caridade vivifica os conhecimentos, transformando-os em fé genuína * Entender a correspondência entre a vivificação do homem e a vegetação da árvore --- === Contexto Teológico === A questão do papel do conhecimento na fé é central para a teologia cristã. A tradição escolástica medieval enfatizava que a fé é um conhecimento (''fides quaerens intellectum''—fé buscando compreensão). A Reforma protestante, particularmente Calvino, enfatizava que o conhecimento de Deus precede a fé, mas que a fé genuína envolve mais que mero conhecimento intelectual. Swedenborg oferece uma perspectiva distintiva: o conhecimento é necessário, mas não suficiente. Os conhecimentos do vero e do bem são como sementes que precisam ser plantadas em solo fértil (a caridade) para germinar e produzir a fé genuína. Sem esse solo, permanecem inertes na memória. --- === Conceitos-Chave e Terminologia === ; '''Despensa''' : Armazém ou repositório; no contexto teológico, o conjunto de conhecimentos armazenados na memória que podem ser utilizados para formar a fé quando a caridade está presente. ; '''Conhecimentos do vero''' : Informações sobre as verdades espirituais adquiridas através da Palavra, da doutrina da igreja ou de pregações; ainda não são fé, mas podem tornar-se fé. ; '''Conhecimentos do bem''' : Informações sobre o bem ou a ação benéfica; ainda não são caridade, mas podem tornar-se caridade. ; '''Fé da caridade''' : A fé genuína que existe apenas quando a caridade está presente; é o reconhecimento interno da verdade vivificado pela afeição do bem. ; '''Reforma''' : Primeiro estado espiritual no qual o homem adquire conhecimentos do vero e do bem e parece estar em fé, mas a caridade ainda não está plenamente desenvolvida. A fé parece estar em primeiro lugar. ; '''Regeneração''' : Segundo estado espiritual no qual a caridade está plenamente desenvolvida e vivifica os conhecimentos, transformando-os em fé genuína. A caridade está em primeiro lugar. ; '''Mente natural''' : Faculdade do entendimento orientada para o mundo; onde se armazenam os conhecimentos naturais e espirituais. ; '''Mente espiritual''' : Faculdade do entendimento orientada para o céu; onde se formam as verdades espirituais genuínas quando a caridade está presente. ; '''Calor espiritual''' : A influência da caridade (amor divino) que vivifica os conhecimentos, transformando-os em verdades vivas e operantes. ; '''Vivificação''' : Processo pelo qual os conhecimentos inertes se tornam vivos e operantes através da influência da caridade. ; '''Uso''' : A aplicação prática do bem; o fim ou propósito para o qual algo é direcionado. --- === Exposição do Texto === ==== 1. A Afeição de Saber desde a Infância ==== Swedenborg inicia observando que desde a primeira infância o homem tem afeição de saber (desejo de conhecer). Por essa afeição, aprende muitas coisas que lhe serão de uso e muitas que não terão uso. Quando cresce e se aplica a algum negócio, adquire os conhecimentos pertencentes àquele negócio; isso se torna uso para ele, pelo que é afetado.<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 25–33}}</ref> Assim começa a afeição do uso que produz a afeição dos meios pelos quais se chega ao negócio (que é o uso). Essa progressão existe em cada um no mundo, pois para cada um existe um negócio pelo qual avança do uso que é o fim, através dos meios, até o uso mesmo que é o efeito. Porém, como esse uso com seus meios é para a vida no mundo, sua afeição é natural. ==== 2. A Necessidade de Conhecimentos para a Vida Eterna ==== Como, porém, todo homem tem em vista não só os usos para a vida no mundo, mas também deve ter em vista os usos para a vida no céu (pois virá a essa vida após a morte e nela viverá eternamente), cada um, desde a infância, adquire para si conhecimentos do vero e do bem pela Palavra, pela doutrina da igreja ou pelas pregações, que serão para aquela vida. Deposita-os na memória natural em maior ou menor quantidade segundo a afeição inata de saber, que é aumentada por vários estímulos. ==== 3. Os Conhecimentos como Despensa ==== Mas todos esses conhecimentos, quaisquer que sejam e quantos sejam, são somente uma despensa de que a fé da caridade pode ser formada. Essa fé não é formada senão na medida em que se foge dos males como pecados. Se alguém foge dos males como pecados, então esses conhecimentos se tornam da fé que tem em si a vida espiritual. Se, porém, não foge dos males como pecados, esses conhecimentos não são mais do que conhecimentos e não se tornam da fé que tem em si alguma vida espiritual.<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 25–33}}</ref> A metáfora da despensa é crucial: os conhecimentos são como alimentos armazenados que não alimentam a menos que sejam consumidos. A caridade é a condição que transforma conhecimentos inertes em fé viva. ==== 4. A Necessidade da Despensa ==== Essa despensa é de máxima necessidade, porque sem ela a fé não pode ser formada. Os conhecimentos do vero e do bem entram e fazem a fé. Se forem nulos, a fé não existe. Fé inteiramente vácua e vazia não existe. Se os conhecimentos forem poucos, a fé se torna pequena e indigente; se forem muitos, a fé se enriquece e se completa segundo a quantidade. Portanto, embora os conhecimentos por si só não constituam fé, são absolutamente necessários para que a fé possa existir. A qualidade e quantidade dos conhecimentos determinam a qualidade e quantidade da fé que pode ser formada. ==== 5. Conhecimentos Genuínos versus Falsos ==== Deve-se saber, porém, que os conhecimentos do vero e do bem genuíno não fazem a fé por si mesmos; e tampouco a fazem, absolutamente, os conhecimentos do falso, porque a fé é a verdade (como foi dito anteriormente) e a falsidade, por ser oposta à verdade, destrói a fé. Tampouco a caridade existe onde há meras falsidades, porque caridade e fé fazem um, assim como o bem e o vero fazem um. Assim, segue-se também que nulos conhecimentos do vero e bem genuínos fazem a fé nula; poucos conhecimentos fazem alguma fé, e muitos, uma fé iluminada segundo a plenitude. Qual é, no homem, a fé proveniente da caridade, tal é sua inteligência. ==== 6. Aqueles que Têm Caridade sem Conhecimentos Explícitos ==== Também existem muitos que não têm reconhecimento interno do vero e, todavia, têm a fé da caridade. São aqueles que na vida tiveram em vista o Senhor e pela religião evitaram os males, porém foram impedidos de pensar nos veros pelos cuidados no mundo, bem como pela ausência do vero nos instrutores. Contudo, interiormente ou em seu espírito, estão no reconhecimento do vero, porque estão em sua afeição. Por isso, após a morte, quando se tornam espíritos e são instruídos pelos anjos, reconhecem os veros e os recebem com alegria. Mas é diferente com aqueles que em vida não tiveram em vista o Senhor e não evitaram os males pela religião. Esses não estão interiormente, ou em seu espírito, em afeição alguma do vero e, por isso, em reconhecimento algum do vero. Esses, por conseguinte, após a morte, quando se tornam espíritos e são instruídos pelos anjos, não querem reconhecer os veros e, por isso, não os recebem, porque o mal da vida odeia interiormente os veros, mas o bem da vida os ama interiormente. Essa passagem é significativa: demonstra que a afeição (disposição interior) é mais importante que o conhecimento explícito. Aquele que tem afeição pelo bem, mesmo sem conhecimentos formais, pode receber a verdade após a morte; aquele que tem afeição pelo mal, mesmo com muitos conhecimentos, rejeitará a verdade. ==== 7. Conhecimentos Que Parecem Ser Fé, Mas Não São ==== Os conhecimentos do vero e do bem que precedem a fé parecem para alguns que são da fé, todavia não o são. O fato de acharem e dizerem que crêem nem por isso faz com que creiam. Tampouco pertencem à fé, pois são apenas do pensamento de que são assim, mas não do reconhecimento interno de que são verdades. A fé de que são verdades, quando não se sabe se são, é uma espécie de persuasão removida do reconhecimento interno. Swedenborg distingue entre: * '''Pensamento de que algo é assim:''' Mera opinião ou crença intelectual sem fundamento interior * '''Reconhecimento interno de que é verdade:''' Compreensão genuína enraizada na afeição ==== 8. A Transformação dos Conhecimentos em Fé ==== Mas, tão logo a caridade é implantada, então esses conhecimentos se tornam da fé, porém não além da medida em que a caridade está presente. No primeiro estado, antes de a caridade ser percebida, parece-lhes que a fé está em primeiro lugar e a caridade em segundo. Mas, no segundo estado, quando a caridade é percebida, a fé passa para o segundo lugar e a caridade para o primeiro. O primeiro estado se chama reforma e o segundo estado se chama regeneração. Quando o homem está no segundo estado (regeneração), então a sabedoria aumenta nele dia a dia, e dia a dia o bem multiplica os veros e os frutifica. ==== 9. O Homem Regenerado como Árvore Frutífera ==== O homem é, então, como a árvore, que dá fruto e no fruto põe a semente, dos quais nascem novas árvores e, finalmente, o horto. Torna-se, então, verdadeiramente homem e, depois da morte, anjo, cuja caridade faz a vida e cuja fé faz a forma, bela segundo a sua qualidade. Mas, então, a fé não se chama mais fé, mas inteligência. Por aí se pode ver que tudo o que é da fé provém da caridade e nada de si mesmo. Vê-se, também, que então a caridade produz a fé e não a fé a caridade. ==== 10. A Metáfora da Despensa Concluída ==== Os conhecimentos do vero que precedem são absolutamente como uma despensa no armazém, que não nutre o homem a não ser que tenha apetite e dali tome o grão. A metáfora é completa: assim como um armazém cheio de grão não alimenta quem não tem fome e não vai buscar o alimento, os conhecimentos armazenados não formam fé a menos que a caridade (o "apetite" espiritual) os busque e os vivifique. ==== 11. A Abertura da Mente Espiritual ==== Também se dirá de que maneira a fé se forma pela caridade. Existe em cada homem uma mente natural e uma mente espiritual; a mente natural é para o mundo e a mente espiritual é para o céu. O homem está em uma e outra quanto ao entendimento, mas não quanto à vontade antes de fugir dos males como pecados e lhes ter aversão. Quando, porém, faz isso, sua mente espiritual é então aberta também para a vontade. Sendo aberta, dali influi na mente natural o calor espiritual do céu, calor esse que em sua essência é a caridade, e vivifica os conhecimentos do vero e do bem que se acham ali e dos quais se forma a fé.<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 25–33}}</ref> Swedenborg introduz aqui o conceito de duas mentes: a natural (para o mundo) e a espiritual (para o céu). Antes de fugir dos males, a mente espiritual está aberta apenas quanto ao entendimento, não quanto à vontade. Quando o homem foge dos males, a vontade espiritual se abre, permitindo que o calor espiritual (caridade) desça e vivifique os conhecimentos. ==== 12. A Correspondência com a Árvore ==== Isso sucede também como com a árvore, que não recebe vida vegetativa alguma antes de o calor influir do sol e conjuntar-se com a luz, como ocorre na estação da primavera. Existe, também, um paralelismo pleno entre a vivificação do homem e a vegetação da árvore, pelo fato de esta se fazer pelo calor do mundo e aquela pelo calor do céu. Também por isso o Senhor comparou tantas vezes o homem à árvore. A correspondência é profunda: assim como a árvore permanece dormente no inverno até que o calor do sol a vivifique na primavera, o homem permanece espiritualmente adormecido até que o calor da caridade o vivifique. ==== 13. Conclusão: Conhecimentos como Despensa ==== Por esses poucos exemplos pode-se ver que os conhecimentos do vero e do bem não são da fé antes de o homem estar na caridade, mas que são a despensa de que a fé da caridade pode ser formada. Os conhecimentos se tornam veros no regenerado, assim como os conhecimentos do bem, pois o conhecimento do bem está no entendimento, mas a afeição do bem está na vontade; chama-se vero àquilo que está no entendimento e bem àquilo que está na vontade.<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 25–33}}</ref> --- === Análise Teológica === A posição de Swedenborg sobre a relação entre conhecimento e fé oferece uma síntese sofisticada entre tradições teológicas distintas. Contra o intelectualismo escolástico, que reduzia a fé a um conhecimento asssentido, Swedenborg afirma que o conhecimento é necessário mas não suficiente. Contra o fideísmo, que rejeitava o conhecimento em favor de uma fé cega, Swedenborg afirma que o conhecimento é absolutamente necessário como matéria-prima da fé. A distinção entre reforma e regeneração é particularmente significativa. A reforma é o estado em que o homem adquire conhecimentos e parece estar em fé, mas a caridade ainda não está plenamente desenvolvida. A regeneração é o estado em que a caridade está plenamente desenvolvida e transforma os conhecimentos em verdades vivas. Isso oferece uma base teórica para compreender por que muitas pessoas podem parecer ter fé (na reforma) mas não possuem verdadeira fé (na regeneração). A metáfora da despensa é particularmente poderosa. Ela sugere que os conhecimentos não são inúteis, mas também não são suficientes. Precisam ser "consumidos" pela caridade para se tornarem nutritivos. Isso tem implicações práticas: a educação religiosa é necessária, mas não é garantia de fé genuína. A transformação moral (fuga dos males) é o que transforma conhecimentos em fé. A correspondência entre a vivificação do homem e a vegetação da árvore aprofunda essa compreensão. Assim como a árvore não pode crescer sem o calor do sol, o homem não pode desenvolver fé genuína sem o calor da caridade. Ambos os processos seguem leis naturais que refletem princípios espirituais mais profundos. A observação sobre aqueles que têm caridade sem conhecimentos explícitos é importante: demonstra que a afeição é mais fundamental que o conhecimento. Isso sugere uma hierarquia: afeição > conhecimento, não o contrário. O homem de boa vontade, mesmo sem instrução formal, pode receber a verdade; o homem de má vontade, mesmo altamente instruído, a rejeitará. --- === Questões de Estudo === 1. O que Swedenborg entende por "despensa" em relação aos conhecimentos do vero e do bem? 2. Como a afeição de saber desde a infância se relaciona com a aquisição de conhecimentos para a vida eterna? 3. Qual é a diferença entre conhecimentos que são mera informação e conhecimentos que se tornam fé? 4. Por que Swedenborg afirma que a fé não pode ser "inteiramente vácua e vazia"? 5. Como os conhecimentos do falso diferem dos conhecimentos do vero em relação à formação da fé? 6. Qual é a situação daqueles que têm caridade sem conhecimentos explícitos do vero? Como eles recebem a verdade após a morte? 7. Qual é a diferença entre o "pensamento de que algo é assim" e o "reconhecimento interno de que é verdade"? 8. Como Swedenborg distingue entre os estados de reforma e regeneração? 9. O que significa dizer que "a fé não se chama mais fé, mas inteligência" no estado de regeneração? 10. Como a metáfora da árvore ilustra a relação entre conhecimento, caridade e fé? 11. Qual é a correspondência entre a vivificação do homem e a vegetação da árvore? 12. Por que Swedenborg afirma que "tudo o que é da fé provém da caridade e nada de si mesmo"? --- === Leitura Complementar === * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''A Verdadeira Religião Cristã'' (''True Christian Religion'', 1771). Obra principal que desenvolve a doutrina da relação entre conhecimento, fé e caridade. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Doutrina de Vida para a Nova Jerusalém'' (1763). Apresenta em detalhe como a caridade e a fé se desenvolvem e transformam na vida espiritual. * [[Doutrina da Correspondência]]. Conceito fundamental que explica como realidades espirituais correspondem a realidades naturais (como a vivificação do homem corresponde à vegetação da árvore). * [[Regeneração]]. Processo de transformação espiritual que envolve a passagem de reforma para regeneração. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Arcanos Celestes (Arcana Coelestia)'' (1749–1756). Oferece comentários detalhados sobre a natureza do conhecimento espiritual. --- == Referências == <references /> --- [[../Capítulo_02|← Capítulo anterior]] | [[../Capítulo_04|Próximo capítulo →]] [[../|Retornar ao sumário]] 8ao6v0sm4ll9qoz2zrqkb24lzs2bct0 Doutrina da Fé/Capítulo IV 0 131510 588745 2026-09-02T20:44:37Z Johny Antonio Zavalaga Villanueva 71561 Criei o capitulo IV 588745 wikitext text/x-wiki == A Fé Cristã na Forma Universal == === Introdução === Este capítulo apresenta a compreensão de [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]] sobre a fé cristã em sua forma universal, contrastando-a com a fé cristã moderna (particularmente a protestante). Swedenborg oferece uma definição clara da fé cristã genuína e, em seguida, analisa criticamente a fé moderna, demonstrando como ela se separou da caridade e se tornou uma doutrina abstrata e ineficaz. O capítulo conclui com um diálogo entre um anjo e dois cristãos reformados—um que possui fé separada da caridade e outro que possui fé unida à caridade—ilustrando concretamente as consequências espirituais de cada posição. '''Objetivos de aprendizagem:''' * Compreender a definição da fé cristã genuína segundo Swedenborg * Analisar os universais da fé cristã tanto do lado de Deus quanto do lado do homem * Examinar criticamente a fé cristã moderna e suas pressuposições teológicas * Reconhecer as consequências da separação entre fé e caridade * Compreender como a fé genuína envolve tanto crença quanto ação * Diferenciar entre fé separada da caridade e fé unida à caridade através de exemplos práticos --- === Contexto Teológico === A questão da natureza da fé cristã e sua relação com a salvação é central na teologia cristã desde os primeiros séculos. A Reforma protestante, particularmente Lutero, enfatizou "sola fide" (apenas fé), em reação ao que via como um excesso de ênfase nas obras pela Igreja Católica. Porém, Swedenborg argumenta que a Reforma protestante, ao separar completamente a fé das obras (caridade), criou uma doutrina que é teologicamente incoerente e espiritualmente ineficaz. A fé cristã genuína, segundo Swedenborg, deve incluir tanto a crença correta (fé) quanto a ação benéfica (caridade). Ambas são necessárias e inseparáveis. --- === Conceitos-Chave e Terminologia === ; '''Fé cristã na forma universal''' : A definição essencial e abrangente da fé cristã que deve estar presente em todas as suas manifestações particulares. Inclui tanto verdades sobre o Senhor quanto verdades sobre o homem. ; '''Universais da fé''' : Os princípios fundamentais que devem estar presentes em toda fé cristã genuína. Swedenborg identifica vários universais tanto do lado de Deus quanto do lado do homem. ; '''Senhor de eternidade''' : Expressão que designa Deus em sua natureza eterna e infinita; identificado com JEHOVAH no Antigo Testamento e com Jesus Cristo no Novo Testamento. ; '''Subjugar os infernos''' : Ação pela qual o Senhor dominou e colocou sob sua obediência os espíritos malignos e os infernos, restaurando a ordem espiritual. ; '''Glorificar o Humano''' : Processo pelo qual o Senhor elevou e uniu sua natureza humana (tomada no mundo) à sua natureza divina, tornando-se completamente divino. ; '''Conjunção''' : União íntima entre o Senhor e o homem através da fé e da caridade; é a base da salvação. ; '''Reparação''' : Na teologia moderna protestante, o ato pelo qual Cristo fez satisfação pela culpa da humanidade; Swedenborg rejeita essa compreensão em favor de "subjugação dos infernos" e "glorificação do Humano". ; '''Imputação do mérito''' : Na teologia protestante, a atribuição forense do mérito de Cristo aos crentes através da fé; Swedenborg critica essa doutrina como mecanicista e não-transformadora. ; '''Fé separada da caridade''' : Crença religiosa que não está unida à ação benéfica; fé que não produz transformação moral nem ação caritativa. ; '''Fé não separada da caridade''' : Crença religiosa que está unida à ação benéfica; fé que produz transformação moral e ação caritativa. ; '''Justificação''' : Na teologia protestante, a declaração forense de que o pecador é justo aos olhos de Deus através da fé em Cristo; Swedenborg oferece uma compreensão diferente baseada na regeneração. ; '''Espírito Santo''' : Na teologia cristã, a terceira pessoa da Trindade; Swedenborg compreende o Espírito Santo como a operação do Senhor divino no homem. --- === Exposição do Texto === ==== 1. A Fé Cristã Genuína na Forma Universal ==== Swedenborg apresenta a fé cristã genuína em sua forma universal como segue: "Que o Senhor de eternidade, que é JEHOVAH, veio ao mundo para subjugar os infernos e glorificar Seu Humano; sem isso, nenhum dos mortais poderia ser salvo; e são salvos os que crêem n'Ele".<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 34–43}}</ref> Essa definição é chamada "universal" porque contém o universal da fé—aquilo que deve estar presente em todas e cada uma das manifestações particulares da fé cristã. ==== 2. Os Universais da Fé do Lado de Deus ==== Swedenborg enumera os universais da fé cristã do lado de Deus (verdades sobre o Senhor): * '''Unidade de Deus com Trindade:''' Deus é Um em pessoa e em essência em que há a Trindade, e o Senhor é esse Deus. * '''Necessidade da Encarnação:''' Nenhum dos mortais poderia ser salvo se o Senhor não viesse ao mundo. * '''Subjugação dos Infernos:''' O Senhor veio ao mundo para remover o inferno do homem, e o removeu por meio de combates contra ele e por vitórias sobre ele; assim o subjugou e o reduziu à ordem e sob Sua obediência. * '''Glorificação do Humano:''' O Senhor veio ao mundo para que o Humano tomado no mundo fosse glorificado, isto é, unido ao Divino de que procedeu. Assim, mantém o inferno em ordem, subjugado a Si e sob Sua obediência na eternidade. * '''Necessidade das Tentações:''' Uma vez que uma e outra coisa não poderiam ter sido feitas senão por meio de tentações até a última delas—e a última delas foi a paixão da cruz—por isso Ele as suportou. Swedenborg observa que esses são os universais da fé cristã a respeito do Senhor. ==== 3. O Universal da Fé do Lado do Homem ==== O universal da fé cristã da parte do homem é que ele creia no Senhor, pois por crer n'Ele faz-se uma conjunção com Ele, pela qual há salvação. Crer n'Ele é ter certeza que Ele salva. E como só pode ter certeza aquele que vive no bem, por isso, por crer n'Ele também se entende viver no bem. Esse ponto é crucial: a fé genuína não é meramente intelectual, mas envolve a conjunção com o Senhor através da crença e da ação (viver no bem). ==== 4. Referência a Obras Anteriores ==== Swedenborg observa que desses dois universais da fé cristã já se tratou em particular: do primeiro (que se refere ao Senhor), na ''Doutrina da Nova Jerusalém sobre o Senhor''; e do outro (que se refere ao homem), na ''Doutrina de Vida para a Nova Jerusalém''. Por isso não é necessário estender-se mais sobre isso neste ponto. ==== 5. A Fé Cristã Moderna na Forma Universal ==== Em contraste com a fé cristã genuína, Swedenborg apresenta a fé cristã moderna (particularmente protestante) em sua forma universal: "Que Deus Pai enviou Seu Filho para fazer reparação pelo gênero humano e que, por causa desse mérito do Filho, Ele tem misericórdia e salva os que nisso crêem (ou, de acordo com outros, os que nisso crêem e, ao mesmo tempo, praticam os bens)".<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 34–43}}</ref> Swedenborg nota que essa definição moderna é fundamentalmente diferente da genuína. Ela enfatiza a "reparação" (satisfação forense) e a "imputação do mérito" em lugar da "subjugação dos infernos" e da "glorificação do Humano". ==== 6. As Pressuposições da Fé Moderna Analisadas ==== Para que se veja mais claramente a qualidade dessa fé moderna, Swedenborg enumera as várias coisas que essa fé afirma: '''(i.) Dois Deuses:''' Afirma Deus Pai e Deus Filho como dois, um e outro de eternidade. '''(ii.) Reparação pela Vontade do Pai:''' Afirma que Deus Filho veio ao mundo pela vontade do Pai para fazer reparação pelo gênero humano que, de outro modo, pereceria de morte eterna pela justiça Divina (também chamada vindicativa). '''(iii.) Reparação pelos Meios:''' Afirma a reparação pelo Filho por meio do cumprimento da Lei e da paixão da cruz. '''(iv.) Misericórdia Condicionada:''' Afirma a misericórdia do Pai por causa dessa reparação do Filho. '''(v.) Imputação do Mérito:''' Afirma a imputação do mérito do Filho para com aqueles que nisso crêem. '''(vi.) Instantaneidade da Salvação:''' Afirma que isso é instantâneo e, por isso, se não antes, mesmo na última hora da morte. '''(vii.) Tentação e Liberação:''' Afirma alguma coisa de tentação e, assim, de liberação por essa fé. '''(viii.) Certeza e Confiança:''' Afirma nessas, principalmente, a certeza e a confiança. '''(ix.) Justificação e Graça:''' Afirma nessas, principalmente, a justificação e a plenária graça do Pai por causa do Filho, a remissão de todos os pecadores e, assim, a salvação. '''(x.) Operação do Espírito Santo:''' Os mais cultos afirmam nisso um esforço para o bem que opera ocultamente e move a vontade não manifestamente. Outros afirmam uma operação manifesta, uns e outros pelo Espírito Santo. '''(xi.) Omissão das Obras:''' A maioria dos que se confirmam nisso—que ninguém pode fazer por si o bem que é bem a não ser que seja meritório, e que não estão sob o jugo da lei—omitem o bem e não pensam sobre o mal e o bem da vida. Com efeito, esses dizem em si mesmos que o bem não salva nem o mal condena, porque a fé sozinha faz todas as coisas. '''(xii.) Entendimento sob Obediência:''' Em geral, afirma estar o entendimento sob a obediência dessa fé, chamando de fé o que não é compreendido. Swedenborg observa que essas pressuposições revelam os problemas fundamentais da fé moderna: ela é dualista (dois deuses), mecanicista (imputação forense), instantânea (sem transformação gradual), e anti-intelectual (entendimento sob obediência). ==== 7. A Avaliação Crítica ==== Swedenborg afirma que é dispensável esclarecer e considerar uma a uma se essas coisas são verdades. São claramente evidentes pelo que acima foi dito nesta obra e, principalmente, pelo que foi demonstrado e ao mesmo tempo racionalmente confirmado na ''Doutrina da Nova Jerusalém sobre o Senhor'' e na ''Doutrina de Vida para a Nova Jerusalém''. Swedenborg confia que suas obras anteriores já demonstraram a falsidade das pressuposições da fé moderna e a verdade da fé cristã genuína. ==== 8. O Diálogo com o Anjo: Introdução ==== Para que se veja qual é a fé separada da caridade e qual é a fé não separada dela, Swedenborg comunica o que ouviu de um anjo do céu. O anjo disse que falou com muitos reformados e ouviu a respeito da qualidade de sua fé. Referiu o que falou com um que estava na fé separada da caridade, com outro que estava na fé não separada, e o que ouviu deles. Swedenborg apresenta essas conversas como ilustrações concretas das consequências espirituais de cada posição teológica. ==== 9. O Diálogo com o Reformado na Fé Separada da Caridade ==== O anjo disse que, ao falar com o que estava na fé separada da caridade, falou-lhe assim: '''Anjo:''' "Amigo, quem és tu?" '''Reformado:''' "Sou um cristão reformado". '''Anjo:''' "Qual é tua doutrina e, por conseguinte, tua religião?" '''Reformado:''' "É a fé". '''Anjo:''' "Qual é tua fé?" '''Reformado:''' "Minha fé é que Deus Pai enviou o Filho para fazer reparação pelo gênero humano e para que fossem salvos os que assim cressem". '''Anjo:''' "Que mais sabes sobre a salvação?" '''Reformado:''' "A salvação é por essa fé somente". '''Anjo:''' "Que sabes sobre a redenção?" '''Reformado:''' "Ela se fez pela paixão da cruz e o mérito do Filho é imputado por meio dessa fé". '''Anjo:''' "Diz o que sabes sobre o amor e a caridade". '''Reformado:''' "São essa fé". '''Anjo:''' "Diz o que sabes sobre as boas obras". '''Reformado:''' "São essa fé". '''Anjo:''' "Diz o que pensas sobre todos os preceitos na Palavra". '''Reformado:''' "Estão nessa fé". '''Anjo:''' "Logo, nada fazes?" '''Reformado:''' "Que farei? Não posso fazer por mim mesmo o bem que é bem". '''Anjo:''' "Não podes ter fé por ti mesmo?" '''Reformado:''' "Não posso". '''Anjo:''' "De que modo, então, podes ter fé?" '''Reformado:''' "Sobre isso não indago. Tenho fé". '''Anjo:''' "Decerto sabes mais alguma coisa sobre a salvação?" '''Reformado:''' "Que há, além disso, visto que a salvação é por essa fé só?" O anjo então disse: "Respondes como alguém que toca um só tom na flauta; não ouço a não ser a fé. Se a conheces e nada mais além disso, nada sabes. Vai e vê teus amigos". E saiu e os encontrou no deserto, onde não havia relva. Perguntou-lhes por que era assim; disseram que era porque neles nada havia da igreja. Essa passagem é particularmente significativa: o reformado reduz toda a religião cristã a um único ponto (a fé), não consegue responder perguntas sobre caridade, obras ou preceitos, e quando questionado sobre sua própria capacidade de ter fé, não consegue responder racionalmente. O resultado é que ele e seus amigos se encontram num deserto espiritual. ==== 10. O Diálogo com o Reformado na Fé Não Separada da Caridade ==== Em contraste, o anjo assim falou com o que estava na fé não separada da caridade: '''Anjo:''' "Amigo, quem és?" '''Reformado:''' "Sou um cristão reformado". '''Anjo:''' "Qual é tua doutrina e, assim, tua religião?" '''Reformado:''' "Fé e caridade". '''Anjo:''' "Essas coisas são duas?" '''Reformado:''' "Não podem ser separadas". '''Anjo:''' "Que é a fé?" '''Reformado:''' "Crer no que a Palavra ensina". '''Anjo:''' "O que é a caridade?" '''Reformado:''' "Fazer o que a Palavra ensina". '''Anjo:''' "Acaso somente creste nelas ou também as fizeste?" '''Reformado:''' "Também as fiz". O anjo do céu então o contemplou e disse: "Meu amigo, vem comigo e habita conosco". Esse diálogo é o oposto do anterior: o reformado compreende que fé e caridade são inseparáveis, pode articular ambas, e demonstra que não apenas crê, mas também age. O resultado é que ele é convidado a habitar com os anjos no céu. ==== 11. O Contraste Conclusivo ==== O contraste entre os dois diálogos é cristalino: * O primeiro reformado reduz tudo à fé, não consegue responder sobre caridade ou obras, não consegue explicar sua própria fé, e termina num deserto espiritual. * O segundo reformado une fé e caridade, pode articular ambas, demonstra que age conforme sua fé, e é convidado a habitar no céu. A conclusão é inescapável: a fé separada da caridade é espiritualmente estéril e leva ao deserto; a fé unida à caridade é espiritualmente frutífera e leva ao céu. --- === Análise Teológica === A crítica de Swedenborg à fé cristã moderna é profunda e sistemática. Ele identifica vários problemas fundamentais: '''1. Dualismo:''' A fé moderna afirma "Deus Pai" e "Deus Filho" como dois, um e outro de eternidade. Isso contradiz a doutrina cristã clássica da Trindade, que afirma um único Deus em três pessoas. Swedenborg argumenta que isso leva a uma compreensão incoerente da natureza divina. '''2. Mecanicismo:''' A doutrina da imputação do mérito trata a salvação como um processo legal e mecânico, não como uma transformação viva. O mérito de Cristo é "imputado" aos crentes como se fosse transferido legalmente, sem qualquer transformação interior. '''3. Instantaneidade:''' A fé moderna afirma que a salvação é instantânea, "mesmo na última hora da morte". Isso contradiz a compreensão bíblica de que a salvação é um processo de transformação e regeneração que ocorre ao longo da vida. '''4. Separação entre Fé e Obras:''' A fé moderna separa completamente a fé das obras, afirmando que "a fé sozinha faz todas as coisas". Isso contradiz a Epístola de Tiago (2:26) que afirma que "a fé sem obras é morta". '''5. Anti-intelectualismo:''' A fé moderna coloca o entendimento "sob a obediência da fé", chamando de fé o que não é compreendido. Isso contradiz a compreensão bíblica de que devemos amar a Deus "com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente" (Mateus 22:37). Em contraste, a fé cristã genuína segundo Swedenborg: * Afirma um único Deus (Trindade em unidade) * Compreende a salvação como subjugação dos infernos e glorificação do Humano (não como imputação forense) * Compreende a salvação como um processo de transformação e regeneração * Une fé e caridade (crença e ação) * Integra o entendimento com a fé Os diálogos com o anjo ilustram concretamente essas diferenças teológicas. O primeiro reformado, preso à fé separada da caridade, não consegue articular sua religião além de um único ponto, não consegue explicar sua própria fé, e termina num deserto espiritual. O segundo reformado, que une fé e caridade, pode articular sua religião de forma coerente, demonstra que age conforme sua fé, e é convidado a habitar no céu. --- === Questões de Estudo === 1. Qual é a definição da fé cristã genuína segundo Swedenborg? Como ela difere da fé cristã moderna? 2. Quais são os universais da fé cristã do lado de Deus? Por que cada um é importante? 3. Qual é o universal da fé cristã do lado do homem? Como ele se relaciona com a caridade? 4. Qual é a diferença entre "subjugar os infernos" e "fazer reparação"? Por que essa distinção é importante? 5. O que significa "glorificar o Humano"? Como isso se relaciona com a salvação? 6. Qual é a doutrina da imputação do mérito? Por que Swedenborg a critica? 7. Como a fé moderna separa a fé das obras? Quais são as consequências dessa separação? 8. Por que Swedenborg afirma que a fé moderna coloca o entendimento "sob a obediência da fé"? O que isso significa? 9. Qual é o significado do primeiro diálogo entre o anjo e o reformado na fé separada da caridade? 10. Qual é o significado do segundo diálogo entre o anjo e o reformado na fé não separada da caridade? 11. Como os dois diálogos ilustram as consequências espirituais de cada posição teológica? 12. Por que o primeiro reformado se encontra num "deserto" enquanto o segundo é convidado a "habitar" no céu? --- === Leitura Complementar === * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''A Verdadeira Religião Cristã'' (''True Christian Religion'', 1771). Obra principal que desenvolve a crítica à fé moderna e a apresentação da fé cristã genuína. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Doutrina da Nova Jerusalém sobre o Senhor'' (1763). Apresenta em detalhe a compreensão swedenborgiana do Senhor, sua encarnação, subjugação dos infernos e glorificação do Humano. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Doutrina de Vida para a Nova Jerusalém'' (1763). Apresenta a compreensão swedenborgiana da fé e da caridade do lado do homem. * [[Doutrina da Correspondência]]. Conceito fundamental que explica como realidades espirituais correspondem a realidades naturais. * [[Regeneração]]. Processo de transformação espiritual que envolve a união de fé e caridade. --- == Referências == <references /> --- [[../Capítulo_03|← Capítulo anterior]] | [[../Capítulo_05|Próximo capítulo →]] [[../|Retornar ao sumário]] osl3skdg3408hnqgoftqzldilv6h7iy Doutrina da Fé/Capítulo V 0 131511 588746 2026-09-02T20:49:56Z Johny Antonio Zavalaga Villanueva 71561 Criei o capitulo V 588746 wikitext text/x-wiki == Qual é a Fé Separada da Caridade == === Introdução === Este capítulo apresenta uma crítica radical de [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]] à doutrina protestante da justificação pela fé, particularmente a forma como ela foi desenvolvida e compreendida na teologia moderna. Swedenborg expõe a fé separada da caridade "em sua nudez"—isto é, em sua forma lógica e consequente—revelando as contradições internas e as implicações absurdas dessa posição teológica. O capítulo argumenta que a fé separada da caridade repousa sobre pressuposições que contradizem a natureza divina (Deus como amor e misericórdia) e que só podem ser mantidas através do fechamento da razão e do entendimento. Swedenborg utiliza linguagem forte e metáforas vívidas para demonstrar como essa fé cega leva a absurdos teológicos e práticos. '''Objetivos de aprendizagem:''' * Compreender a crítica de Swedenborg à doutrina protestante da justificação pela fé * Analisar as contradições internas da fé separada da caridade * Examinar como a fé cega repousa sobre o fechamento do entendimento * Reconhecer as implicações lógicas da fé separada da caridade * Compreender a relação entre razão iluminada e verdade teológica * Analisar como a fé cega leva a práticas religiosas absurdas * Entender por que os anjos não podem comunicar-se com aqueles na fé cega --- === Contexto Teológico === A doutrina protestante da justificação pela fé, desenvolvida por Martinho Lutero e João Calvino, enfatizava que a salvação vem unicamente pela fé em Cristo, não pelas obras. Essa doutrina foi uma reação contra o que os reformadores viam como o excesso de ênfase nas obras e na autoridade eclesiástica na Igreja Católica. Porém, Swedenborg argumenta que a Reforma protestante, ao separar completamente a fé das obras (caridade), criou uma doutrina que é teologicamente incoerente e que repousa sobre pressuposições que contradizem a natureza divina. Sua crítica não é apenas teológica, mas também racional: ele apela à razão iluminada para demonstrar os absurdos dessa posição. --- === Conceitos-Chave e Terminologia === ; '''Fé separada da caridade''' : Crença religiosa que não está unida à ação benéfica; fé que não produz transformação moral nem ação caritativa. Caracteriza-se por ser puramente intelectual ou nominal. ; '''Nudez''' : Apresentação clara e sem disfarce; exposição das pressuposições e consequências lógicas de uma doutrina sem sofisticação retórica. ; '''Justiça vindicativa''' : Na teologia protestante, a justiça punitiva de Deus que exige vingança pelos pecados; Swedenborg critica essa compreensão como incompatível com a natureza divina. ; '''Imputação do mérito''' : Na teologia protestante, a atribuição forense do mérito de Cristo aos crentes; Swedenborg critica essa doutrina como mecanicista e logicamente absurda. ; '''Fé cega''' : Crença que não se baseia na compreensão racional; fé que repousa sobre o fechamento do entendimento e a aceitação de proposições contraditórias. ; '''Razão iluminada''' : A capacidade racional do homem quando aberta à verdade; distingue-se da razão meramente natural que pode ser enganada ou fechada. ; '''Entendimento''' : A faculdade da alma que compreende e discerne a verdade; quando fechado pela religião, torna-se incapaz de reconhecer contradições. ; '''Paradoxo''' : Proposição que parece contraditória ou absurda à razão; Swedenborg identifica vários paradoxos na fé separada da caridade. ; '''Essência divina''' : A natureza fundamental de Deus; Swedenborg afirma que Deus é essencialmente Amor e Misericórdia, não ira e vingança. ; '''Templo''' : Lugar de culto; Swedenborg utiliza a metáfora de um templo sem janelas para descrever a religião baseada na fé cega. ; '''Linguagem dos anjos''' : A forma de comunicação espiritual dos anjos; Swedenborg afirma que os anjos não podem falar com aqueles cuja razão foi fechada pela fé cega. --- === Exposição do Texto === ==== 1. A Fé Separada da Caridade em Sua Nudez ==== Para que se veja qual é a fé separada da caridade, Swedenborg apresenta-a em sua nudez—isto é, em sua forma lógica e sem disfarce retórico. Consiste nisso:<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 44–48}}</ref> "Que Deus Pai, irado contra o gênero humano, rejeitara-o de Si e, pela justiça, determinou fazer vingança com a eterna condenação deles. E disse ao Filho: 'Desce, cumpre a Lei e toma sobre Ti a condenação a eles destinada. Então, talvez, terei misericórdia'. Por isso o Filho desceu, cumpriu a Lei, deixou-Se suspender numa cruz e ser cruelmente morto. Feito isso, retornou ao Pai e disse: 'Tomei sobre Mim a condenação do gênero humano. Agora tem misericórdia', intercedendo por eles. Mas recebeu a resposta: 'Por eles, não posso. Mas como Te vi sobre a cruz e vi o Teu sangue, faço-Me misericordioso. Todavia, não os desculparei, mas imputar-lhes-ei o Teu mérito. Não, porém, a outros senão aqueles que reconhecem isso. Essa será a fé pela qual podem ser salvos'." Swedenborg apresenta essa narrativa como a forma lógica e consequente da fé separada da caridade. Ela revela as pressuposições subjacentes: (1) Deus Pai é irado e vindicativo; (2) Deus Filho deve apaziguar a ira do Pai através de seu sofrimento; (3) O mérito de Cristo é imputado aos crentes através da fé; (4) A salvação é instantânea e não requer transformação moral. ==== 2. Os Paradoxos Contra a Essência Divina ==== Swedenborg então questiona: "Quem é que, tendo uma razão iluminada, não vê nela paradoxos que são contra a essência divina?"<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 44–48}}</ref> Swedenborg enumera vários paradoxos: '''Paradoxo 1: Deus como Ira e Vingança''' – Como pode Deus, que é o Amor mesmo e a Misericórdia mesma, condenar os homens por ira e, assim, por vingança, e execrá-los ao inferno? Isso contradiz a essência divina, que é essencialmente amor. '''Paradoxo 2: Misericórdia Através da Condenação''' – Como pode Deus ser levado à misericórdia por meio da condenação imposta ao Filho e pela visão de Sua paixão sobre a cruz e de Seu sangue? Isso sugere que Deus é movido pela compaixão pelo sofrimento, não pela justiça ou amor. '''Paradoxo 3: Dois Deuses Iguais''' – Como pode Deus dizer a um Deus igual: "Não os desculpo, mas imputo-lhes o Teu mérito"? Isso pressupõe dois deuses distintos, contradizendo a doutrina cristã clássica da Trindade. '''Paradoxo 4: Salvação Sem Transformação''' – Como pode Deus dizer: "Agora, vivam como viverem, basta que creiam para que sejam salvos"? Isso separa completamente a salvação da transformação moral. Swedenborg conclui: "Quem, tendo a razão iluminada, não vê que Deus não pode dizer a um Deus igual: 'Não os desculpo, mas imputo-lhes o Teu mérito'? E também: 'Agora, vivam como viverem, basta que creiam para que sejam salvos', além de muitas outras coisas." ==== 3. O Fechamento do Entendimento ==== Swedenborg então explica por que essas contradições não são vistas: "Mas a razão de essas coisas não serem vistas é porque induziram uma fé cega e, por ela, fecharam os olhos e taparam os ouvidos."<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 44–48}}</ref> Swedenborg utiliza a metáfora de "fechar os olhos e tapar os ouvidos" para descrever o fechamento do entendimento. Ele explica: "Fecha-lhes os olhos e tapa-lhes os ouvidos, isto é, faze com que não pensem por algum entendimento, e dize o que quiseres àqueles em que há imprimida alguma ideia de vida eterna, e eles crerão." A lógica é clara: se você fechar o entendimento das pessoas, elas crerão em qualquer coisa, por mais absurda que seja. Swedenborg oferece exemplos: * "Mesmo se lhes disseres que Deus pode irar-Se e desejar vingança" * "Que Deus pode levar alguém à condenação eterna" * "Que Deus quer ser levado a ter misericórdia por meio do sangue do Filho" * "Que isso impute e atribua como mérito ao homem, como se fosse dele" * "Ou salvar só pelo pensamento" * "Que um Deus possa estipular essas coisas com outro Deus de uma única essência e impô-las" Mas então Swedenborg oferece o antídoto: "Mas abre os olhos e destapa os ouvidos, isto é, pensa sobre isso pelo entendimento, e verás a discordância dessas coisas com a verdade mesma." A abertura do entendimento revela imediatamente as contradições. A razão iluminada não pode aceitar essas proposições. ==== 4. A Extensão da Crítica a Outras Doutrinas ==== Swedenborg estende sua crítica a outras doutrinas que também repousam sobre o fechamento do entendimento. Ele pergunta: "Fecha-lhes os olhos, tapa-lhes os ouvidos e faze com que não pensem por algum entendimento. Acaso não podes induzir a fé em que Deus deu todo o Seu poder ao homem para que este esteja em lugar de Deus nas terras?" Swedenborg oferece exemplos de doutrinas absurdas que podem ser induzidas quando o entendimento está fechado: * "Acaso não podes induzir a fé em que homens mortos podem ser invocados?" * "Que diante de suas imagens as cabeças devem ser descobertas e os joelhos dobrados?" * "Que seus cadáveres, seus ossos e seus sepulcros são santos e devem ser venerados?" Mas novamente: "Mas, se abrires os olhos e destapares os ouvidos, isto é, se pensares sobre essas coisas por algum entendimento, acaso não verás absurdos que a razão humana deve abominar?" A crítica de Swedenborg não é apenas à fé protestante, mas a qualquer religião que repousa sobre o fechamento do entendimento. Ele identifica um padrão: quando o entendimento está fechado, qualquer absurdo pode ser aceito como verdade religiosa. ==== 5. A Metáfora do Templo Sem Janelas ==== Swedenborg conclui com uma metáfora poderosa: "Quando essas e outras coisas semelhantes são recebidas por um homem cujo entendimento foi fechado pela religião, acaso o templo em que presta culto não pode ser comparado a antros ou cavernas sob a terra, onde não se sabe o que são as coisas que se vêem? Sua religião não pode ser comparada à habitação numa casa em que não há janelas, e a voz do culto a seu som, e não à sua linguagem?" A metáfora é profunda: o homem cuja razão foi fechada pela religião habita num templo sem janelas—um lugar de escuridão onde não se pode ver claramente. Sua religião é como uma casa sem janelas, onde a voz do culto é apenas som, não linguagem significativa. ==== 6. A Incomunicabilidade com os Anjos ==== Swedenborg conclui com uma observação sobre as consequências espirituais: "Com tais homens os anjos do céu não podem falar, porque um não entende a linguagem do outro." Essa observação é significativa: os anjos, que habitam a luz da verdade e da razão iluminada, não podem comunicar-se com aqueles cuja razão foi fechada pela fé cega. Não há linguagem comum entre eles. Os anjos falam a linguagem da razão iluminada e da verdade; aqueles na fé cega falam apenas a linguagem do dogma e da crença cega. --- === Análise Teológica === A crítica de Swedenborg à fé separada da caridade é sistemática e racional. Ele não apela a autoridade ou tradição, mas à razão iluminada. Sua estratégia é expor a fé separada da caridade em sua forma lógica e consequente, revelando as contradições internas que se tornam aparentes quando o entendimento está aberto. '''1. A Crítica à Natureza Divina:''' Swedenborg argumenta que a fé separada da caridade pressupõe uma compreensão de Deus que é incompatível com a essência divina. Se Deus é essencialmente Amor e Misericórdia (como afirma a tradição cristã), então não pode ser irado, vindicativo ou desejoso de vingança. A fé que pressupõe um Deus irado contradiz a essência divina. '''2. A Crítica à Lógica:''' Swedenborg apela à razão para demonstrar que as pressuposições da fé separada da caridade são logicamente absurdas. Como pode Deus ser levado à misericórdia pelo sofrimento de seu Filho? Como pode um Deus dizer a outro Deus igual que não desculpa os pecadores, mas imputa o mérito de outro? Essas proposições violam os princípios básicos da lógica. '''3. A Crítica ao Fechamento do Entendimento:''' Swedenborg identifica o mecanismo pelo qual a fé separada da caridade é mantida: o fechamento do entendimento. Quando a razão está fechada, qualquer absurdo pode ser aceito como verdade. Mas quando a razão está aberta, as contradições se tornam imediatamente aparentes. '''4. A Crítica à Prática Religiosa:''' Swedenborg estende sua crítica a práticas religiosas que repousam sobre o fechamento do entendimento, como a invocação de santos mortos, a veneração de relíquias, etc. Essas práticas são absurdas quando examinadas pela razão iluminada. '''5. A Crítica à Incomunicabilidade:''' Swedenborg observa que a fé cega cria uma incomunicabilidade entre aqueles que a possuem e os anjos do céu. Os anjos falam a linguagem da razão iluminada; aqueles na fé cega falam apenas a linguagem do dogma. Não há linguagem comum. A crítica de Swedenborg é particularmente significativa porque não é meramente teológica, mas racional. Ele apela à razão iluminada, não à autoridade eclesiástica ou à tradição. Isso coloca sua crítica numa base mais fundamental: a verdade deve ser racionalmente coerente. --- === Questões de Estudo === 1. Como Swedenborg apresenta a fé separada da caridade "em sua nudez"? Por que essa apresentação é importante? 2. Quais são os paradoxos que Swedenborg identifica na fé separada da caridade? Por que ele os chama de paradoxos? 3. Como a fé separada da caridade pressupõe uma compreensão de Deus que contradiz a essência divina? 4. O que Swedenborg quer dizer com "fechar os olhos e tapar os ouvidos"? Como isso se relaciona com a fé cega? 5. Por que Swedenborg afirma que "quem, tendo a razão iluminada, não vê" os paradoxos da fé separada da caridade? 6. Como a abertura do entendimento revela as contradições da fé separada da caridade? 7. Quais são os exemplos de doutrinas absurdas que Swedenborg oferece como resultado do fechamento do entendimento? 8. O que significa a metáfora do "templo sem janelas"? Como ela descreve a religião baseada na fé cega? 9. Por que os anjos não podem falar com aqueles cuja razão foi fechada pela fé cega? 10. Como a crítica de Swedenborg à fé separada da caridade é diferente de outras críticas porque apela à razão iluminada? 11. Qual é a relação entre a fé separada da caridade e a prática de veneração de santos mortos e relíquias? 12. Como a fé separada da caridade cria uma incomunicabilidade espiritual? --- === Leitura Complementar === * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''A Verdadeira Religião Cristã'' (''True Christian Religion'', 1771). Obra principal que desenvolve a crítica à fé separada da caridade e a apresentação da fé genuína. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Doutrina da Nova Jerusalém sobre o Senhor'' (1763). Apresenta a compreensão swedenborgiana do Senhor e sua natureza divina. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Doutrina de Vida para a Nova Jerusalém'' (1763). Apresenta a compreensão swedenborgiana da fé e da caridade genuínas. * [[Regeneração]]. Processo de transformação espiritual que envolve a abertura do entendimento e a união de fé e caridade. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Céu e Inferno'' (1758). Descreve como aqueles na fé cega experimentam a vida após a morte. --- == Referências == <references /> --- [[../Capítulo_04|← Capítulo anterior]] | [[../Capítulo_06|Próximo capítulo →]] [[../|Retornar ao sumário]] neh8qe8e66ns8mghu3mptz8gjhw1mtw Doutrina da Fé/Capítulo VI 0 131512 588747 2026-09-02T20:54:28Z Johny Antonio Zavalaga Villanueva 71561 criei o capitulo VI 588747 wikitext text/x-wiki == Os Filisteus como Representação da Fé Separada da Caridade == === Introdução === Este capítulo apresenta a interpretação de [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]] sobre o simbolismo bíblico dos filisteus. Segundo sua hermenêutica, os nomes das nações, povos, pessoas e lugares mencionados na Palavra (Escritura Sagrada) representam realidades espirituais e doutrinárias. Swedenborg argumenta que os filisteus, na Palavra, representam especificamente aqueles que estão na fé separada da caridade. O capítulo examina as várias representações e significados simbólicos associados aos filisteus: suas guerras com Israel, seu ídolo Dagon, as pragas que os acometeram, e o gigante Golias. Cada um desses elementos, segundo Swedenborg, comunica verdades espirituais sobre a natureza e as consequências da fé separada da caridade. '''Objetivos de aprendizagem:''' * Compreender o método hermenêutico de Swedenborg baseado na correspondência e no sentido espiritual * Analisar as duas formas de degeneração religiosa: adulteração do bem e falsificação da verdade * Reconhecer a distinção entre Babilônia (adulteração do bem) e Filístia (falsificação da verdade) * Examinar os significados simbólicos dos filisteus na Palavra * Compreender o significado da circuncisão e do "prepúcio" como símbolos espirituais * Analisar as representações específicas: Dagon, hemorróidas, ratos, Golias * Interpretar as passagens proféticas sobre os filisteus em Jeremias e Isaías --- === Contexto Teológico === A hermenêutica de Swedenborg baseia-se na doutrina da correspondência, que afirma que as realidades naturais e históricas mencionadas na Escritura correspondem a realidades espirituais. Essa abordagem não é nova—tem raízes na tradição alegórica cristã—mas Swedenborg a desenvolve de forma sistemática e abrangente. Swedenborg argumenta que a Palavra (Escritura Sagrada) opera em múltiplos níveis: o nível literal (histórico) e o nível espiritual (doutrinal). O nível literal é verdadeiro historicamente, mas também comunica verdades espirituais através de correspondências. Assim, os filisteus foram um povo histórico real, mas também representam, no sentido espiritual, aqueles que estão na fé separada da caridade. --- === Conceitos-Chave e Terminologia === ; '''Correspondência''' : Relação de similitude e conexão entre realidades naturais e espirituais; princípio hermenêutico fundamental em Swedenborg segundo o qual as coisas naturais mencionadas na Palavra correspondem a coisas espirituais. ; '''Sentido espiritual''' : O significado interior e espiritual da Palavra, em contraste com o sentido literal ou histórico; comunica verdades sobre a igreja, a fé e a salvação. ; '''Palavra''' : A Escritura Sagrada (Bíblia); considerada por Swedenborg como tendo múltiplos níveis de significado, do literal ao espiritual. ; '''Israel e Judá''' : Representações da igreja e de seus estados; Israel representa a fé, Judá representa a caridade. ; '''Babilônia''' : Na Palavra, representa a religiosidade que adultera o bem da igreja através do amor de dominar; origem no poder eclesiástico corrupto. ; '''Filístia''' : Na Palavra, representa a religiosidade que falsifica os veros (verdades) da igreja através do orgulho da própria inteligência; origem no racionalismo corrupto. ; '''Fé separada da caridade''' : Crença religiosa que não está unida à ação benéfica; caracterizada pelo orgulho intelectual e pela falta de transformação moral. ; '''Circuncisão''' : Símbolo da purificação dos males do amor meramente natural; representa a entrada na caridade e no amor espiritual. ; '''Prepúcio''' : Símbolo do amor meramente natural não purificado; representa a ausência de caridade e a permanência no estado natural. ; '''Prepuciado''' : Aquele que não está circuncidado; representa aquele que não está na caridade, mas apenas na fé separada. ; '''Dagon''' : Ídolo dos filisteus; representa a religião que é aparentemente espiritual na fé, mas meramente natural na prática (por ser sem caridade). ; '''Hemorróidas''' : Praga que acometeu os filisteus; representa os amores impuros que resultam da fé separada da caridade. ; '''Ratos''' : Praga que infestou os filisteus; representa a devastação da igreja pelas falsificações da verdade. ; '''Golias''' : Gigante filisteu morto por David; representa o orgulho da própria inteligência que é derrotado pela verdade simples (David). ; '''Águas do norte''' : Nas profecias sobre os filisteus; representam os falsos oriundos do inferno que inundam e devastam a igreja. --- === Exposição do Texto === ==== 1. O Método Hermenêutico de Swedenborg ==== Swedenborg inicia explicando seu método hermenêutico: "Na Palavra, por todos os nomes das nações e dos povos, como também das pessoas e dos lugares, são significadas coisas da igreja."<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 49–54}}</ref> Swedenborg estabelece uma hierarquia de representações: * '''A Igreja Mesma:''' Representada por Israel e Judá, porque foi instituída com eles * '''Religiosidades Concordantes:''' Representadas pelas nações boas à volta de Israel * '''Religiosidades Discordantes:''' Representadas pelas nações más à volta de Israel ==== 2. As Duas Formas de Degeneração Religiosa ==== Swedenborg identifica duas religiosidades más pelas quais toda igreja se degenera no decorrer do tempo: '''Primeira Forma: Adulteração do Bem''' – "A religiosidade que adultera o bem da igreja tem sua origem no amor de dominar". Essa religiosidade é representada, na Palavra, por Babilônia. '''Segunda Forma: Falsificação da Verdade''' – "A outra religiosidade, que falsifica os veros da igreja, tem sua origem no orgulho da própria inteligência". Essa religiosidade é representada, na Palavra, pelos filisteus. Swedenborg observa: "Sabe-se quem são os da Babilônia hoje, mas não se sabe quem são os da Filístia. Da Filístia são os que estão na fé e não na caridade." Essa distinção é crucial: Babilônia representa o poder eclesiástico corrupto que busca dominar; Filístia representa o racionalismo corrupto que busca falsificar a verdade através do orgulho intelectual. ==== 3. Os Filisteus como Representação da Fé Separada da Caridade ==== Swedenborg afirma que "os da Filístia sejam os que estão na fé e não na caridade" e oferece evidência: "pode-se ver pelas várias coisas que se dizem sobre eles na Palavra, entendida no sentido espiritual, tanto por suas altercações com os servos de Abrahão e de Isaque (de que se trata no Gênesis, 21 e 26) quanto por suas guerras com os filhos de Israel (de que se trata no livro dos Juízes e nos livros de Samuel e Reis)."<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 49–54}}</ref> Swedenborg explica: "Porque todas as guerras descritas na Palavra envolvem e significam, no sentido espiritual, guerras espirituais. E como essa religiosidade, que é a fé separada da caridade, quer continuamente invadir a igreja, por isso os filisteus permaneceram na terra de Canaan e repetidamente infestaram os filhos de Israel." As guerras entre filisteus e israelitas representam, espiritualmente, o conflito contínuo entre a fé separada da caridade e a verdadeira religião. ==== 4. Os Filisteus como "Prepuciados" ==== Swedenborg explica por que os filisteus foram chamados "prepuciados": "Visto que os filisteus representavam aqueles que estão na fé separada da caridade, por isso foram chamados 'prepuciados'."<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 49–54}}</ref> Swedenborg define: "Por 'prepuciados' se entendem os que estão sem amor espiritual e, assim, somente no amor natural. O amor espiritual é a caridade." A razão da terminologia é: "A razão de eles serem referidos como 'prepuciados' é porque pelos 'circuncisos' se entendem os que estão no amor espiritual." Assim, a circuncisão representa a purificação do amor meramente natural e a entrada na caridade (amor espiritual). Os filisteus, sendo "prepuciados", representam aqueles que não foram purificados do amor meramente natural e, portanto, não estão na caridade. ==== 5. Os Significados Simbólicos dos Filisteus ==== Swedenborg oferece interpretações específicas dos elementos associados aos filisteus: '''Dagon, o Ídolo:''' "Dagon, o ídolo deles, era como um homem na parte superior e, na inferior, como um peixe, pelo que era representada a sua religião, que era, quanto à fé, como se fosse espiritual, mas, por não ter caridade, era meramente natural." A representação é simbólica: a parte superior (homem) representa a fé que parece espiritual; a parte inferior (peixe) representa a natureza meramente natural (pois peixes vivem na água, que representa o natural). '''Hemorróidas:''' "Pelas hemorróidas de que foram feridos eram significados os seus amores impuros." As hemorróidas representam os amores impuros que resultam da fé separada da caridade—pois sem caridade (amor pelo bem), os amores naturais se corrompem em amores impuros. '''Ratos:''' "Pelos ratos de que foram infestados era significada a devastação da igreja pelas falsificações do vero." Os ratos representam as falsificações da verdade que destroem a igreja, assim como ratos destroem as colheitas. '''Golias:''' "Por Golias morto por David foi representado o seu orgulho da própria inteligência." Golias, o gigante filisteu, representa o orgulho intelectual que é derrotado por David (que representa a verdade simples e direta). ==== 6. As Profecias sobre os Filisteus em Jeremias ==== Swedenborg cita Jeremias 47:1, 2, 4 como evidência profética: "Contra os filisteus... Eis águas que sobem do norte que se tornam um rio inundante, e inundará a terra e a sua plenitude, a cidade e os habitantes nela, para que os homens clamem, e todo habitante da terra lamentará... JEHOVAH vastará os filisteus". Swedenborg interpreta: * '''"Águas que sobem do norte"''' = "os falsos oriundos do inferno" * '''"Que se tornarão um rio inundante e inundarão a terra e a sua plenitude"''' = "a devastação, por essas coisas, de todas as coisas da igreja" * '''"A cidade e os habitantes nela"''' = "a devastação de todas as coisas de sua doutrina" * '''"Para que os homens clamem, e todo habitante da terra lamentará"''' = "a falta de todo vero e bem na igreja" * '''"JEHOVAH vastará os filisteus"''' = "a destruição deles" A profecia descreve como os falsos (oriundos do inferno) inundam e destroem a igreja, levando à falta de verdade e bem. ==== 7. A Profecia sobre os Filisteus em Isaías ==== Swedenborg cita Isaías 14:29: "Não te alegres, tu, toda Filístia... que esteja quebrada a vara do que te fere, pois da raiz da serpente sairá um basilisco cujo fruto será uma serpente ardente, voadora". Swedenborg interpreta: * '''"Não te alegres, tu, toda a Filístia"''' = "que não se alegrem por estarem na fé separada da caridade, em que ainda permanecem" * '''"Pois da raiz da serpente sairá um basilisco"''' = "que do orgulho da própria inteligência vem a destruição de todo vero com eles" * '''"Cujo fruto é uma serpente ardente, voadora"''' = "os raciocínios pelos falsos do mal contra os veros e bens da igreja" A profecia adverte contra o orgulho intelectual que gera falsificações da verdade. ==== 8. A Circuncisão como Símbolo de Purificação ==== Swedenborg oferece evidência bíblica de que a circuncisão representa a purificação dos males: "Circuncidai o vosso coração e removei os prepúcios de vosso coração... para que não saia... Minha ira... por causa da malícia de vossas obras" (Jeremias 4:4).<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 49–54}}</ref> Swedenborg conclui: "'Circuncidar o coração' ou 'prepúcio do coração' é purificar-se dos males." Por conseguinte: "Assim, ao contrário, por 'incircunciso' ou 'prepuciado' se entende aquele que não é purificado do mal do amor meramente natural, por conseguinte, que não está na caridade." Swedenborg oferece mais evidência bíblica: * "Nenhum prepuciado de coração, nem prepuciado da carne entrará no santuário" (Ezequiel 44:9) * "Nenhum prepuciado comerá a páscoa" (Êxodo 12:48) * "E que esse era condenado" (Ezequiel 28:10; 31:18; 32:19) Essas passagens demonstram que aquele que não está circuncidado (não purificado dos males) não pode entrar no santuário (não pode estar na verdadeira religião) nem participar da páscoa (não pode participar da salvação). --- === Análise Teológica === A interpretação de Swedenborg dos filisteus como representação da fé separada da caridade é coerente com sua hermenêutica geral. Ele identifica um padrão: a fé separada da caridade é caracterizada por: '''1. Falsificação da Verdade:''' A fé separada da caridade não busca a verdade genuína, mas a falsifica através do orgulho intelectual. Isso é representado pelos filisteus que continuamente invadem Israel. '''2. Falta de Transformação Moral:''' A fé separada da caridade não produz transformação moral (purificação do mal). Isso é representado pelos filisteus como "prepuciados"—não purificados. '''3. Aparência Espiritual com Natureza Meramente Natural:''' A fé separada da caridade parece espiritual (fé em Deus) mas é meramente natural (sem caridade). Isso é representado por Dagon, que é homem na parte superior (aparência espiritual) mas peixe na inferior (natureza natural). '''4. Amores Impuros:''' A fé separada da caridade leva a amores impuros (hemorróidas), pois sem caridade os amores naturais se corrompem. '''5. Devastação da Igreja:''' A fé separada da caridade devastada a igreja através da falsificação da verdade (ratos que destroem). '''6. Orgulho Intelectual:''' A fé separada da caridade é caracterizada pelo orgulho intelectual (Golias) que é derrotado pela verdade simples (David). A interpretação de Swedenborg oferece uma compreensão profunda de como a fé separada da caridade não é meramente um erro teológico, mas uma condição espiritual que tem consequências práticas e morais. A fé cega não apenas falsifica a verdade, mas também corrompe o amor e impede a transformação moral. --- === Questões de Estudo === 1. Qual é o método hermenêutico de Swedenborg baseado na correspondência? 2. Por que Swedenborg afirma que os nomes das nações, povos, pessoas e lugares na Palavra representam coisas da igreja? 3. Qual é a diferença entre Babilônia e Filístia como representações de religiosidades más? 4. Como as guerras entre filisteus e israelitas representam, espiritualmente, o conflito entre fé separada da caridade e verdadeira religião? 5. Por que os filisteus foram chamados "prepuciados"? O que isso significa espiritualmente? 6. Qual é o significado simbólico de Dagon, o ídolo dos filisteus? 7. O que representam as hemorróidas e os ratos que acometeram os filisteus? 8. Como Golias representa o orgulho da própria inteligência? 9. Qual é o significado das "águas que sobem do norte" na profecia de Jeremias sobre os filisteus? 10. Como a profecia de Isaías 14:29 descreve as consequências do orgulho intelectual? 11. Qual é o significado espiritual da circuncisão e do "prepúcio"? 12. Como as passagens sobre "nenhum prepuciado" entrando no santuário ou comendo a páscoa se relacionam com a fé separada da caridade? --- === Leitura Complementar === * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''A Verdadeira Religião Cristã'' (''True Christian Religion'', 1771). Obra principal que desenvolve a hermenêutica baseada na correspondência. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Arcanos Celestes (Arcana Coelestia)'' (1749–1756). Comentário detalhado sobre o Gênesis e o Êxodo que oferece interpretações espirituais de nomes, lugares e eventos. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Doutrina da Escritura Sagrada'' (1763). Apresenta os princípios da hermenêutica swedenborgiana. * [[Doutrina da Correspondência]]. Conceito fundamental que explica como realidades naturais correspondem a realidades espirituais. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Céu e Inferno'' (1758). Descreve a realidade espiritual que está por trás das representações na Palavra. --- == Referências == <references /> --- [[../Capítulo_05|← Capítulo anterior]] | [[../Capítulo_07|Próximo capítulo →]] [[../|Retornar ao sumário]] 2zly1qz60520tx4xlm82cv76shtj3t1 Doutrina da Fé/Capítulo VII 0 131513 588748 2026-09-02T20:58:40Z Johny Antonio Zavalaga Villanueva 71561 Criei o capitulo VII 588748 wikitext text/x-wiki == O Dragão no Apocalipse como Representação da Fé Separada da Caridade == === Introdução === Este capítulo apresenta a interpretação de [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]] sobre o simbolismo do dragão no Livro do Apocalipse. Swedenborg argumenta que o dragão, junto com suas duas bestas (a besta que sai do mar e a besta que sobe da terra), representa a religiosidade da fé separada da caridade no contexto da Igreja Cristã nos últimos tempos. O capítulo oferece uma interpretação detalhada de Apocalipse 12, onde o dragão persegue a mulher (representando a Igreja) e sua descendência. Swedenborg também menciona Apocalipse 13, que trata das duas bestas do dragão. A interpretação de Swedenborg baseia-se em sua hermenêutica de correspondência, segundo a qual os símbolos no Apocalipse correspondem a realidades espirituais e doutrinárias. '''Objetivos de aprendizagem:''' * Compreender a representação simbólica do dragão como fé separada da caridade * Analisar a estrutura do Apocalipse segundo Swedenborg (Babilônia e Filístia) * Examinar a visão de Swedenborg do dragão no mundo espiritual * Interpretar os símbolos em Apocalipse 12 (mulher, dragão, guerra celestial) * Compreender o significado das duas bestas do dragão em Apocalipse 13 * Analisar o significado do número 666 como representação de toda verdade falsificada * Reconhecer como a fé separada da caridade persegue a verdadeira Igreja --- === Contexto Teológico === O Livro do Apocalipse tem sido interpretado de formas diversas ao longo da história cristã. Swedenborg oferece uma interpretação que se baseia em sua hermenêutica de correspondência e em suas experiências no mundo espiritual. Ele afirma que o sentido espiritual do Apocalipse não foi aberto até seus tempos, razão pela qual o livro permaneceu obscuro e mal compreendido. Swedenborg situa o Apocalipse no contexto de sua análise das duas formas de degeneração religiosa: Babilônia (adulteração do bem através do amor de dominar) e Filístia (falsificação da verdade através do orgulho intelectual). O Apocalipse, segundo Swedenborg, trata de ambas, mas com ênfase particular na Filístia, representada pelo dragão e suas bestas. --- === Conceitos-Chave e Terminologia === ; '''Dragão''' : No Apocalipse, representa a religiosidade da fé separada da caridade; caracteriza-se pelo orgulho intelectual e pela falsificação da verdade. ; '''Dragonistas''' : Termo utilizado pelos anjos do céu para designar aqueles que estão na fé separada da caridade; aparecem no mundo espiritual como dragões devido à correspondência entre espiritual e natural. ; '''Mulher''' : No Apocalipse 12, representa a Igreja verdadeira; está envolta pelo sol (amor divino) e tem a lua sob seus pés (fé natural). ; '''Filho macho''' : No Apocalipse 12, representa a doutrina da Igreja verdadeira; será alimentado com vara de ferro (poder da verdade). ; '''Sete cabeças''' : Do dragão; representam o falso entendimento da Palavra. ; '''Dez chifres''' : Do dragão; representam o poder advindo da recepção por muitos. ; '''Sete diademas''' : Sobre as cabeças do dragão; representam os veros da Palavra falsificados. ; '''Cauda do dragão''' : Representa aqueles que falsificaram todos os veros da Palavra; arrastou a terça parte das estrelas do céu (todos os conhecimentos da verdade). ; '''Estrelas do céu''' : Representam os conhecimentos do vero (verdade). ; '''Besta que sai do mar''' : Primeira besta do dragão; representa a fé separada da caridade quanto à sua confirmação pelo homem natural. ; '''Besta que sobe da terra''' : Segunda besta do dragão; representa a fé separada da caridade quanto à sua confirmação pela Palavra (falsificações da verdade). ; '''Número 666''' : Número da segunda besta; representa todo vero da Palavra falsificado; é "número de homem" (própria inteligência). ; '''Guerra no céu''' : Representa a dissensão e peleja entre aqueles na fé separada da caridade e aqueles na doutrina verdadeira da Igreja. ; '''Miguel e seus anjos''' : Representam aqueles que estão na verdadeira doutrina da Igreja e lutam contra o dragão. --- === Exposição do Texto === ==== 1. A Estrutura do Apocalipse segundo Swedenborg ==== Swedenborg inicia recordando que toda Igreja, no decorrer do tempo, desvia-se para duas religiosidades más e gerais: uma pelo amor de dominar (Babilônia) e outra pelo orgulho da própria inteligência (Filístia). Como o Apocalipse trata do estado da Igreja Cristã, principalmente como ela é no fim, trata dessas duas religiosidades más, em geral e em particular.<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 55–60}}</ref> Swedenborg oferece a seguinte estrutura: * '''Babilônia:''' Descrita nos capítulos 17, 18 e 19 como "a meretriz que se assenta sobre a besta escarlate" * '''Filístia:''' Descrita nos capítulos 12 e 13 como "o dragão", "a besta que sai do mar" e "a besta que sobe da terra" Swedenborg observa: "Que essa religiosidade seja entendida pelo 'dragão e suas duas bestas', até hoje não se pôde saber. A razão é que o sentido espiritual da Palavra não foi aberto antes e, assim, o Apocalipse não foi entendido, principalmente porque essa religiosidade sobre a fé separada da caridade no mundo cristão prevaleceu tanto que ninguém pode ver isso." ==== 2. A Visão de Swedenborg do Dragão no Mundo Espiritual ==== Swedenborg afirma que não apenas lhe foi dito do céu que a fé separada da caridade é representada pelo dragão, mas também lhe foi mostrado no mundo dos espíritos: "Vi aqueles que estão na fé separada da caridade num ajuntamento como um grande dragão tendo uma comprida cauda voltada para o céu. E vi outros, separados, que eram, em aparência, tais como dragões, porque naquele mundo as aparências vêm da correspondência dos espirituais com os naturais."<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 55–60}}</ref> Swedenborg explica a estrutura do dragão: * '''Cabeça:''' Constituída por alguns dos que estão na fé separada da caridade * '''Corpo:''' Constituído por outros * '''Cauda:''' Constituída por aqueles que falsificaram todos os veros da Palavra Swedenborg observa: "Os que constituem a sua cauda são os que falsificaram todos os veros da Palavra, pelo que se diz a respeito do dragão, no Apocalipse, que sua cauda arrastou a terça parte das estrelas do céu. Pelas 'estrelas do céu' são significados os conhecimentos do vero, e, por 'terça parte', todos." ==== 3. A Estrutura de Apocalipse 12 ==== Swedenborg oferece uma interpretação detalhada de Apocalipse 12:1-17, que descreve a mulher, o dragão e a guerra celestial. A passagem é longa e complexa, mas Swedenborg oferece interpretações para cada elemento: '''A Mulher Envolta pelo Sol (Ap. 12:1):''' * "Uma mulher envolta pelo sol, e a lua sob os seus pés" = A Igreja que, pelo Senhor, está no amor e na fé * "E sobre a sua cabeça uma coroa de doze estrelas" = A sabedoria e a inteligência com eles, pelos Divinos veros '''A Gravidez e o Parto (Ap. 12:2):''' * "E estando grávida, gritava com dores de parto, atormentada para dar à luz" = A doutrina nascente; a resistência por aqueles que estão na fé separada da caridade '''O Dragão Vermelho (Ap. 12:3):''' * "E eis um grande dragão vermelho" = A fé separada da caridade; "vermelho" significa o amor meramente natural * "Tendo sete cabeças" = O falso entendimento da Palavra * "E dez chifres" = O poder advindo da recepção por muitos * "E sobre suas cabeças sete diademas" = Os veros da Palavra falsificados '''A Cauda do Dragão (Ap. 12:4):''' * "E sua cauda arrastou a terça parte das estrelas do céu, e as lançou à terra" = A destruição de todos os conhecimentos do vero '''O Dragão Esperando o Filho (Ap. 12:4):''' * "E o dragão parou diante da mulher que estava para dar à luz, para que, depois que ela desse à luz, lhe devorasse o filho" = O seu ódio e sua disposição de destruir a doutrina da Igreja em seu nascimento '''O Filho Macho (Ap. 12:5):''' * "E deu à luz um filho macho" = A doutrina * "Que apascentará todas as nações com vara de ferro" = Que convencerá pelo poder do vero natural proveniente do espiritual * "E o filho foi arrebatado para Deus e o Seu trono" = A sua proteção pelo Senhor desde o céu '''A Mulher no Deserto (Ap. 12:6):''' * "E [a mulher] fugiu para o deserto" = A Igreja entre poucos * "Onde tem um lugar preparado por Deus" = O seu estado enquanto se provê que esteja entre muitos * "Para que a alimentassem por mil duzentos e sessenta dias" = Até que cresça ao seu estado '''A Guerra no Céu (Ap. 12:7-9):''' * "E houve uma guerra no céu, Miguel e seus anjos pelejaram contra o dragão, e o dragão pelejou, e os seus anjos" = A dissensão e a peleja daqueles que estão na fé separada da caridade contra aqueles que estão na doutrina da Igreja, a respeito do Senhor e da vida de caridade * "E não prevaleceram" = Sucumbiram * "E não se achou mais o lugar deles no céu" = A sua expulsão '''A Perseguição da Mulher (Ap. 12:13-17):''' * "Quando o dragão viu que foi lançado à terra, perseguiu a mulher que deu à luz o macho" = A infestação da Igreja por aqueles que estão na fé separada da caridade, por causa de sua doutrina * "E foram dadas à mulher asas de grande águia, para que voasse ao deserto, ao seu lugar" = A circunspecção enquanto ainda estiver entre poucos * "Onde seria alimentada por um tempo, e tempos, e metade de um tempo, fora da face da serpente" = Enquanto cresce ao seu estado * "E, após a mulher, a serpente lançou de sua boca água como um rio, para que ela fosse tragada pelo rio" = Os raciocínios deles em abundância, pelos falsos, para destruir a Igreja * "E a terra ajudou a mulher, e abriu a terra a sua boca, e engoliu o rio que o dragão lançou de sua boca" = Os raciocínios, por serem dos falsos, por si mesmos cairiam * "E irou-se o dragão contra a mulher, e foi fazer guerra aos restos de sua semente" = Seu persistente ódio * "Os que observam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus Cristo" = Contra aqueles que vivem a vida de caridade e crêem no Senhor ==== 4. As Duas Bestas do Dragão em Apocalipse 13 ==== Swedenborg menciona que Apocalipse 13 trata das duas bestas do dragão: uma que sai do mar e outra que sobe da terra. Swedenborg oferece interpretações breves: '''Primeira Besta (Ap. 13:1-10):''' Representa a fé separada da caridade quanto à sua confirmação pelo homem natural. '''Segunda Besta (Ap. 13:11-18):''' Representa a fé separada da caridade quanto à sua confirmação pela Palavra (que também são falsificações do vero). Swedenborg observa que deixa de explicar essas bestas em detalhe porque "contêm as suas argumentações e seria prolixo expô-las". ==== 5. O Número 666 ==== Swedenborg oferece uma interpretação do versículo final de Apocalipse 13: "Quem tem inteligência calcule o número da besta, porque é número de homem, e seu número é seiscentos e sessenta e seis" (Ap. 13:18). Swedenborg interpreta: * '''"Quem tem inteligência calcule o número da besta"''' = Os que estão na iluminação investiguem como é a confirmação dessa fé pela Palavra * '''"Porque é número de homem"''' = É da própria inteligência * '''"E seu número é seiscentos e sessenta e seis"''' = Todo vero da Palavra falsificado O número 666, segundo Swedenborg, representa a totalidade da verdade falsificada—não através de um cálculo numérico específico, mas através da correspondência entre números e significados espirituais. --- === Análise Teológica === A interpretação de Swedenborg do dragão no Apocalipse oferece uma compreensão coerente do livro em relação a sua análise geral da fé separada da caridade. Vários pontos são significativos: '''1. A Estrutura Dupla do Apocalipse:''' Swedenborg identifica duas formas de degeneração religiosa (Babilônia e Filístia) e mostra como ambas são tratadas no Apocalipse. Isso oferece uma chave interpretativa para compreender a estrutura geral do livro. '''2. A Correspondência entre Espiritual e Natural:''' A visão de Swedenborg do dragão no mundo espiritual—onde aqueles na fé separada da caridade aparecem como dragões—baseia-se em sua doutrina de correspondência. As aparências no mundo espiritual correspondem às realidades espirituais. '''3. A Mulher como Igreja Verdadeira:''' A interpretação da mulher como a Igreja verdadeira oferece um contraste claro com o dragão. Enquanto a mulher está envolta pelo sol (amor divino) e tem a lua sob seus pés (fé natural), o dragão é vermelho (amor meramente natural) e falsifica a verdade. '''4. A Perseguição Contínua:''' A descrição da perseguição da mulher pelo dragão reflete a realidade histórica da Igreja: a fé separada da caridade continuamente tenta invadir e destruir a verdadeira Igreja. Mas a mulher é protegida e alimentada no deserto. '''5. A Derrota do Dragão:''' Embora o dragão seja poderoso e persiga a mulher, ele é eventualmente derrotado. Miguel e seus anjos (representando a verdadeira doutrina) prevalecem contra o dragão. Isso oferece esperança: a verdade, no final, triunfa sobre a falsidade. '''6. O Número 666:''' A interpretação do número 666 como representação de toda verdade falsificada oferece uma chave para compreender a segunda besta. Não é um número misterioso ou mágico, mas um símbolo de falsificação total. --- === Questões de Estudo === 1. Como Swedenborg estrutura o Apocalipse em relação às duas formas de degeneração religiosa (Babilônia e Filístia)? 2. Por que, segundo Swedenborg, o sentido do dragão no Apocalipse permaneceu oculto até seus tempos? 3. Qual é a visão de Swedenborg do dragão no mundo espiritual? Como os "dragonistas" aparecem? 4. Como a estrutura do dragão (cabeça, corpo, cauda) corresponde a diferentes graus de falsificação da verdade? 5. O que representa a mulher em Apocalipse 12? Como ela se relaciona com o dragão? 6. Qual é o significado do "filho macho" que a mulher dá à luz? 7. O que significa que a cauda do dragão "arrastou a terça parte das estrelas do céu"? 8. Como a "guerra no céu" representa a dissensão entre a fé separada da caridade e a verdadeira doutrina? 9. O que representa a mulher fugindo para o deserto e sendo alimentada por "mil duzentos e sessenta dias"? 10. Qual é a diferença entre a primeira besta (que sai do mar) e a segunda besta (que sobe da terra)? 11. O que significa que a segunda besta tem o número 666? 12. Como a interpretação de Swedenborg do dragão oferece esperança sobre o triunfo final da verdade? --- === Leitura Complementar === * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''A Verdadeira Religião Cristã'' (''True Christian Religion'', 1771). Obra principal que desenvolve a interpretação do Apocalipse. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Apocalipse Revelado'' (''Apocalypse Revealed'', 1766). Comentário detalhado e versículo por versículo do Livro do Apocalipse. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Doutrina da Escritura Sagrada'' (1763). Apresenta os princípios da hermenêutica swedenborgiana. * [[Doutrina da Correspondência]]. Conceito fundamental que explica como realidades naturais correspondem a realidades espirituais. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Céu e Inferno'' (1758). Descreve a realidade espiritual que está por trás das representações no Apocalipse. --- == Referências == <references /> --- [[../Capítulo_06|← Capítulo anterior]] | [[../Capítulo_08|Próximo capítulo →]] [[../|Retornar ao sumário]] j32wuif7b4pf7hoyuem6uqg9q65dpxz Doutrina da Fé/Capítulo VIII 0 131514 588749 2026-09-02T21:03:10Z Johny Antonio Zavalaga Villanueva 71561 Criei o capitulo VIII 588749 wikitext text/x-wiki == Os Bodes como Representação da Fé Separada da Caridade == === Introdução === Este capítulo apresenta a interpretação de [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]] sobre o simbolismo dos bodes na Escritura Sagrada. Swedenborg argumenta que os bodes, em contraste com os carneiros e ovelhas, representam aqueles que estão na fé separada da caridade. O capítulo examina essa representação em três contextos principais: a visão de Daniel 8 (o combate entre o carneiro e o bode), o julgamento final em Mateus 25 (a separação entre ovelhas e bodes), e as experiências de Swedenborg no mundo espiritual. O capítulo oferece uma hermenêutica coerente que conecta as experiências espirituais de Swedenborg com as narrativas bíblicas, demonstrando como os símbolos animais na Escritura correspondem a realidades espirituais e estados doutrinários. '''Objetivos de aprendizagem:''' * Compreender a representação simbólica de carneiros/ovelhas como caridade e bodes como fé separada da caridade * Analisar a experiência de Swedenborg no mundo espiritual onde viu bodes e ovelhas em combate * Examinar a visão de Daniel 8 e sua interpretação como predição dos estados futuros da Igreja * Interpretar o julgamento final em Mateus 25 como separação entre aqueles na caridade e aqueles na fé separada * Compreender como o julgamento final foi executado sobre aqueles no mundo dos espíritos * Analisar o significado dos símbolos em Daniel 8 (carneiro, bode, chifres) * Reconhecer a omissão da caridade como marca distintiva dos bodes em Mateus 25 --- === Contexto Teológico === A interpretação de Swedenborg dos bodes baseia-se em sua hermenêutica de correspondência, que afirma que os animais mencionados na Escritura correspondem a realidades espirituais. Os carneiros e ovelhas, pastoreados pelo Senhor (o Pastor), representam aqueles na caridade. Os bodes, em contraste, representam aqueles que não estão na caridade. Swedenborg oferece uma interpretação sistemática que conecta a visão de Daniel 8 (que trata de eventos históricos no nível literal) com eventos espirituais no nível interior. A visão de Daniel prediz não apenas eventos históricos, mas também os estados futuros da Igreja—particularmente o conflito entre a fé verdadeira (carneiro) e a fé separada da caridade (bode). --- === Conceitos-Chave e Terminologia === ; '''Carneiro''' : Na Palavra, representa aqueles que estão na caridade; símbolo de liderança e força espiritual. ; '''Ovelha''' : Na Palavra, representa aqueles que estão na caridade; símbolo de mansidão e obediência ao Pastor (Senhor). ; '''Bode''' : Na Palavra, representa aqueles que estão na fé separada da caridade; símbolo de rebeldia e falta de caridade. ; '''Aprisco''' : O rebanho do Senhor; representa a Igreja como um todo. ; '''Rebanho''' : O conjunto de ovelhas; representa os membros da Igreja que estão na caridade. ; '''Pastor''' : Título do Senhor; representa Sua liderança e cuidado pela Igreja. ; '''Correspondência''' : Relação de similitude entre realidades naturais e espirituais; princípio hermenêutico fundamental. ; '''Mundo dos espíritos''' : Região intermediária entre o céu e o inferno; para onde vão todos os homens logo após a morte. ; '''Juízo final''' : Julgamento divino executado sobre aqueles no mundo dos espíritos que estavam em estados mistos (morais externamente, mas não espirituais internamente). ; '''Fé oriunda da caridade''' : Fé que procede da caridade; fé verdadeira que produz transformação moral. ; '''Fé separada da caridade''' : Fé que não está unida à caridade; fé que não produz transformação moral. ; '''Chifres''' : Na visão de Daniel, representam poder e inteligência; o chifre do bode representa a própria inteligência. ; '''Sacrifício contínuo''' : No templo, representa o culto contínuo ao Senhor; sua remoção significa a destruição do culto verdadeiro. ; '''Santuário''' : O lugar sagrado do templo; representa a Igreja verdadeira. ; '''Véspera e manhã''' : Na profecia de Daniel, representam o fim de um estado da Igreja e o início de um novo. --- === Exposição do Texto === ==== 1. A Distinção entre Carneiros/Ovelhas e Bodes ==== Swedenborg inicia estabelecendo a distinção fundamental: "Que pelo 'bode' em Daniel (cap. 8) e pelos 'bodes' em Mateus (cap. 25) se entendam aqueles que estão na fé separada da caridade, pode-se ver pelo fato de estarem ali em oposição aos 'carneiros' e 'ovelhas'."<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 61–68}}</ref> Swedenborg explica o significado dos carneiros e ovelhas: "Pelo 'carneiro' e pela 'ovelha' se entendem os que estão na caridade, pois na Palavra o Senhor é chamado Pastor, e a igreja, aprisco. Os homens da igreja no geral são chamados rebanho e no particular, ovelhas." A conclusão é clara: "E como 'ovelhas' são os que estão na caridade, por isso 'bodes' são os que não estão na caridade." ==== 2. O Método de Demonstração ==== Swedenborg oferece um método sistemático para demonstrar que os bodes representam aqueles na fé separada da caridade. Ele afirma que demonstrará isso através de quatro linhas de evidência: * (i.) Pela experiência no mundo espiritual * (ii.) Pelo juízo final, sobre o qual se efetuou * (iii.) Pela descrição do combate entre o carneiro e o bode em Daniel * (iv.) Pela omissão da caridade por eles, do que se trata em Mateus ==== 3. A Experiência no Mundo Espiritual ==== Swedenborg oferece uma descrição detalhada do mundo espiritual e como as coisas que se veem ali são correspondências das afeições dos espíritos. Ele explica que no mundo espiritual existem casas, palácios, paraísos, hortos, campos e rebanhos—tudo correspondendo às afeições dos habitantes. Swedenborg descreve: "Vêem-se ali, muitas vezes, ovelhas e bodes, e também combates entre eles, semelhantes ao combate que é descrito em Daniel (cap. 8). Vi bodes com chifres voltados para frente e para trás, e vi-os irrompendo com furor sobre as ovelhas. Vi bodes, com dois chifres, que feriam com veemência as ovelhas."<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 61–68}}</ref> Swedenborg relata: "E quando observei para ver o que eram, vi algumas pessoas que entre si disputavam sobre a caridade e a fé, do que se tornou evidente que a fé separada da caridade era o que aparecia como bodes, e a caridade proveniente da fé era o que aparecia como ovelhas." Swedenborg conclui: "Como vi essas coisas muitas vezes, foi-me dado saber com certeza que aqueles que estão na fé separada da caridade são entendidos, na Palavra, pelos 'bodes'." ==== 4. O Juízo Final ==== Swedenborg oferece uma análise do juízo final, afirmando que não foi executado sobre todos, mas apenas sobre aqueles em um estado específico. Ele explica: "O juízo final não se efetuou sobre outros senão aqueles que nos externos eram morais mas, nos internos, não eram espirituais ou eram pouco espirituais."<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 61–68}}</ref> Swedenborg distingue três grupos: * '''Aqueles nos infernos:''' Foram lançados ao inferno bem antes do juízo, pois estavam nos males tanto externamente quanto internamente. * '''Aqueles no céu:''' Foram elevados ao céu bem antes do juízo final, pois eram espirituais tanto externamente quanto internamente. * '''Aqueles no mundo dos espíritos:''' Foram julgados no juízo final, pois estavam em um estado intermediário. Swedenborg relata: "Dentre esses, foram lançados ao inferno os que ali então se achavam na fé separada da caridade não somente pela doutrina, mas também pela vida. Mas aqueles que estavam na fé, só, quanto à doutrina, porém na caridade quanto à vida, foram elevados ao céu." Swedenborg conclui: "Por aí tornou-se-me evidente que esses e não outros foram referidos pelo Senhor como 'bodes' e 'ovelhas' (Mateus 25), onde falou do juízo final." ==== 5. A Visão de Daniel 8 ==== Swedenborg oferece uma interpretação detalhada da visão de Daniel 8, que descreve um combate entre um carneiro e um bode. A visão é longa e complexa, mas Swedenborg oferece interpretações para cada elemento: '''O Carneiro (Dn. 8:3-4):''' * "Um carneiro que tinha dois chifres altos, porém o mais alto subindo depois" = Aqueles que estão na fé oriunda da caridade * "O chifre feria para o ocidente, norte e sul" = A dissipação do mal e do falso * "Se engrandecia" = O aumento '''O Bode (Dn. 8:5-7):''' * "Um bode vindo do ocidente sobre as faces de toda a terra" = Os que estão na fé separada da caridade e a invasão da Igreja por eles * "O ocidente" = O mal do homem natural * "Tinha um chifre entre os olhos" = A própria inteligência * "Correu contra o carneiro no furor de sua força" = Que veementemente atacou a caridade e sua fé * "Quebrou seus dois chifres, lançando-o por terra e o pisoteando" = Que dispersou completamente a caridade e a fé '''O Chifre Pequeno (Dn. 8:9-12):''' * "O chifre grande do bode foi quebrado" = A não aparência de que é pela própria inteligência * "Em seu lugar subiram quatro chifres" = As aplicações do sentido da letra da Palavra para confirmação * "De um deles saiu um chifre muito pequeno" = A argumentação de que ninguém pode cumprir a lei e fazer o bem por si mesmo * "Cresceu para o sul, para o oriente e para a [terra] formosa" = A insurreição por aí contra todas as coisas da Igreja * "Até o exército dos céus, e arrastou [alguns] do exército e [algumas] das estrelas, e os pisoteou" = A destruição de todos os conhecimentos do bem e do vero '''A Destruição do Culto (Dn. 8:11-12):''' * "Se exaltou até contra o Príncipe do exército" = Que assim foram arruinadas todas as coisas do culto ao Senhor * "Tirou d'Ele o sacrifício contínuo e o habitáculo do Seu santuário" = E de Sua Igreja * "Lançou por terra a verdade" = Os veros da Palavra foram falsificados '''A Restauração (Dn. 8:14):''' * "Pela 'véspera e manhã, quando o Santo será justificado'" = O fim dessa Igreja e o princípio de uma nova ==== 6. O Julgamento Final em Mateus 25 ==== Swedenborg oferece uma interpretação de Mateus 25:31-46, onde o Senhor separa as ovelhas dos bodes no julgamento final. Swedenborg afirma: "Que pelos 'bodes' e 'ovelhas' em Mateus (cap. 25:31-46) sejam entendidas as mesmas coisas que pelo 'bode' e pelo 'carneiro' em Daniel, é evidente pelo fato de que às ovelhas foram enumeradas obras de caridade e foi dito que elas as fizeram, enquanto aos bodes foram enumeradas as mesmas obras de caridade e dito que eles não as fizeram, razão pela qual foram condenados."<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 61–68}}</ref> Swedenborg oferece uma observação importante: "Porque a omissão das obras está naqueles que estão na fé separada da caridade, pela negação de que haja nelas alguma coisa da salvação e da Igreja; e quando a caridade, que consiste em obras, é assim removida, a fé também cai, porquanto a fé provém da caridade; e quando não há caridade, há a condenação." Swedenborg nota: "Se todos os males fossem aí entendidos pelos 'bodes', teriam sido enumeradas não as obras de caridade que não fizeram, mas os males que fizeram." ==== 7. Outras Referências aos Bodes na Escritura ==== Swedenborg oferece outras referências bíblicas que confirmam o significado dos bodes: '''Zacarias 10:3:''' "Sobre os pastores se acendeu Minha ira, e sobre os bodes visitarei" – Os bodes representam aqueles que não estão na caridade. '''Ezequiel 34:17-22:''' "Eis que Eu julgo entre rebanho e rebanho, entre carneiros e entre bodes. Acaso é pouco para vós pastar os bons pastos, também pisar os restantes dos pastos com vossos pés?... Com vossos chifres tendes ferido todas as ovelhas enfermas, até que as dispersais; por isso salvarei a Minha grei, para que não mais sirvam de presa." Essas passagens confirmam que os bodes representam aqueles que prejudicam as ovelhas (aqueles na caridade) e que serão julgados pelo Senhor. --- === Análise Teológica === A interpretação de Swedenborg dos bodes oferece uma compreensão coerente de vários textos bíblicos que tratam da separação entre ovelhas e bodes. Vários pontos são significativos: '''1. A Correspondência Consistente:''' Swedenborg demonstra que a representação dos bodes como aqueles na fé separada da caridade é consistente em múltiplos textos: Daniel 8, Mateus 25, Zacarias 10 e Ezequiel 34. Essa consistência oferece evidência de que a interpretação é correta. '''2. A Experiência Espiritual:''' A visão de Swedenborg no mundo espiritual, onde viu bodes e ovelhas em combate, oferece evidência empírica de que essa representação é real. Os bodes não são meramente símbolos literários, mas correspondem a realidades espirituais vividas. '''3. A Predição Profética:''' A visão de Daniel 8 não é meramente uma descrição de eventos históricos (o conflito entre a Pérsia e a Grécia), mas uma predição dos estados futuros da Igreja. O conflito entre o carneiro e o bode representa o conflito contínuo entre a fé verdadeira (unida à caridade) e a fé separada da caridade. '''4. O Julgamento Final:''' A interpretação de Mateus 25 oferece uma compreensão clara do critério do julgamento final: não é a fé intelectual, mas a caridade manifestada em obras. Os bodes são condenados não por seus males, mas pela omissão da caridade. '''5. A Omissão como Marca Distintiva:''' Swedenborg oferece uma observação importante: a marca distintiva dos bodes em Mateus 25 é a omissão da caridade, não a prática do mal. Isso reflete a natureza da fé separada da caridade: não é necessariamente malévola, mas é indiferente à caridade. --- === Questões de Estudo === 1. Como Swedenborg distingue entre carneiros/ovelhas e bodes na Palavra? 2. Por que o Senhor é chamado Pastor e a Igreja é chamada aprisco? 3. Qual é a experiência de Swedenborg no mundo espiritual em relação aos bodes e ovelhas? 4. Como Swedenborg sabe que os bodes representam aqueles na fé separada da caridade? 5. Qual é a estrutura do juízo final segundo Swedenborg? Por que foi executado apenas sobre alguns? 6. Qual é a diferença entre aqueles lançados ao inferno bem antes do juízo e aqueles julgados no juízo final? 7. Como a visão de Daniel 8 prediz os estados futuros da Igreja? 8. O que representa o carneiro em Daniel 8? O que representa o bode? 9. Qual é o significado dos chifres do carneiro e do bode em Daniel 8? 10. O que representa o "chifre pequeno" que cresce em Daniel 8? 11. Como Mateus 25 oferece evidência de que os bodes representam aqueles na fé separada da caridade? 12. Por que Swedenborg afirma que a omissão da caridade, não a prática do mal, é a marca distintiva dos bodes? --- === Leitura Complementar === * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''A Verdadeira Religião Cristã'' (''True Christian Religion'', 1771). Obra principal que desenvolve a interpretação dos bodes. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Arcanos Celestes (Arcana Coelestia)'' (1749–1756). Comentário detalhado sobre o Gênesis e o Êxodo que oferece interpretações espirituais de símbolos animais. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Doutrina da Escritura Sagrada'' (1763). Apresenta os princípios da hermenêutica swedenborgiana. * [[Doutrina da Correspondência]]. Conceito fundamental que explica como realidades naturais correspondem a realidades espirituais. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Céu e Inferno'' (1758). Descreve a realidade espiritual do mundo dos espíritos onde Swedenborg viu os bodes e ovelhas. --- == Referências == <references /> --- [[../Capítulo_07|← Capítulo anterior]] | [[../Capítulo_09|Próximo capítulo →]] [[../|Retornar ao sumário]] a81bzantajavryzuy5yta4135i23k41 Doutrina da Fé/Capítulo IX 0 131515 588750 2026-09-02T21:07:57Z Johny Antonio Zavalaga Villanueva 71561 Criei e terminei o capitulo IX 588750 wikitext text/x-wiki == A Fé Separada da Caridade como Destruição da Igreja == === Introdução === Este capítulo apresenta a conclusão crítica de [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]] sobre as consequências da fé separada da caridade: ela destrói a Igreja e tudo o que lhe pertence. Swedenborg argumenta que a fé separada da caridade é uma "fé nula" porque a caridade é a vida, a alma e a essência da fé. Sem a caridade, a fé não possui substância espiritual. O capítulo oferece uma narrativa dramática de um diálogo no mundo espiritual entre bodes (aqueles na fé separada da caridade) e ovelhas (aqueles na caridade), onde os bodes são questionados sobre suas verdades e revelam que não possuem nenhuma compreensão genuína do amor, da caridade, do bem, do pecado, da penitência, da regeneração ou de outras realidades espirituais fundamentais. '''Objetivos de aprendizagem:''' * Compreender por que Swedenborg afirma que a fé separada da caridade é uma "fé nula" * Analisar a relação entre caridade e fé segundo Swedenborg * Examinar o diálogo no mundo espiritual entre bodes e ovelhas * Compreender por que aqueles na fé separada da caridade não conseguem responder sobre realidades espirituais * Analisar a razão pela qual os falsos aparecem como veros para aqueles na fé cega * Reconhecer a separação entre fé cega e entendimento iluminado * Distinguir entre aqueles que apenas creem na doutrina e aqueles que vivem a caridade --- === Contexto Teológico === Swedenborg conclui sua análise da fé separada da caridade com uma afirmação radical: essa fé é nula porque não possui substância espiritual. A caridade não é meramente um complemento à fé, mas sua essência. Sem a caridade, a fé é como um corpo sem alma—aparentemente presente, mas espiritualmente morto. Essa conclusão baseia-se na compreensão swedenborgiana de que toda realidade espiritual é viva e dinâmica. A fé verdadeira é viva porque está unida à caridade, que é o amor pelo bem. A fé separada da caridade é morta porque não possui essa vida interior. --- === Conceitos-Chave e Terminologia === ; '''Fé nula''' : Fé que não possui substância espiritual; fé que não produz efeitos reais na vida espiritual porque está separada da caridade. ; '''Vida da fé''' : A caridade; aquilo que anima e vivifica a fé, tornando-a real e eficaz. ; '''Alma da fé''' : A caridade; aquilo que confere identidade e propósito à fé. ; '''Essência da fé''' : A caridade; aquilo que constitui a natureza fundamental da fé verdadeira. ; '''Igreja nula''' : Uma Igreja que não possui vida espiritual genuína; uma Igreja onde a caridade foi removida. ; '''Fé cega''' : Crença que não se baseia na compreensão racional; fé que repousa sobre o fechamento do entendimento. ; '''Falsos''' : Proposições ou crenças que são contrárias à verdade; falsificações da verdade. ; '''Veros''' : Verdades espirituais; realidades que correspondem à natureza divina e à vontade de Deus. ; '''Entendimento iluminado''' : A faculdade racional quando aberta à verdade; capacidade de discernir entre verdade e falsidade. ; '''Amor''' : Na teologia swedenborgiana, a realidade fundamental; aquilo que move toda ação e pensamento. ; '''Caridade''' : O amor pelo bem; o amor manifestado em ação benéfica. ; '''Bem''' : Ação ou intenção que beneficia o próximo; manifestação prática do amor. ; '''Pecado''' : Transgressão da lei divina; recusa em amar o bem e praticar a caridade. ; '''Penitência''' : Arrependimento genuíno; mudança de vida que envolve o abandono do mal. ; '''Remissão dos pecados''' : Libertação do poder do pecado; transformação que ocorre através da regeneração. ; '''Regeneração''' : Processo de transformação espiritual; nascimento de novo através da caridade e da fé. ; '''Homem espiritual''' : Aquele que está na caridade e na fé verdadeira; aquele que foi regenerado. ; '''Redenção''' : Libertação do poder do mal; ato pelo qual o Senhor restaura a possibilidade de salvação. ; '''Unidade de Deus''' : Doutrina de que Deus é um em pessoa e essência; rejeição do dualismo teológico. --- === Exposição do Texto === ==== 1. A Fé Separada da Caridade é Uma Fé Nula ==== Swedenborg inicia com uma afirmação radical: "A fé separada da caridade é uma fé nula, porquanto a caridade é a vida da fé, é sua alma e é sua essência."<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 69–72}}</ref> Swedenborg oferece três razões pelas quais a caridade é essencial à fé: * '''Vida da fé:''' A caridade é aquilo que anima e vivifica a fé, tornando-a real e eficaz * '''Alma da fé:''' A caridade é aquilo que confere identidade e propósito à fé * '''Essência da fé:''' A caridade é aquilo que constitui a natureza fundamental da fé verdadeira Swedenborg conclui: "E onde a fé é nula, por ser nula a caridade, aí a Igreja é nula." Swedenborg oferece uma citação bíblica que apoia essa conclusão: "Quando o Filho do homem vier, acaso achará fé sobre a terra?" (Lucas 18:8). Essa pergunta do Senhor, segundo Swedenborg, refere-se precisamente à fé separada da caridade—uma fé que não é verdadeira fé porque não possui vida, alma ou essência. ==== 2. O Diálogo no Mundo Espiritual ==== Swedenborg relata uma experiência no mundo espiritual onde bodes e ovelhas debateram sobre a verdade da fé separada da caridade. Swedenborg afirma: "Ouvi, algumas vezes, bodes e ovelhas falarem sobre isso: se os que se tinham confirmado na fé separada da caridade tinham alguma verdade; e como disseram que tinham muitas, a disputa foi posta em exame."<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 69–72}}</ref> Os bodes afirmavam que tinham muitas verdades, mas quando questionados, revelaram sua falta de compreensão. ==== 3. As Interrogações e Respostas ==== Swedenborg descreve uma série de perguntas feitas aos bodes sobre realidades espirituais fundamentais: '''Pergunta 1: Amor, Caridade e Bem''' * Pergunta: "Sabem o que é o amor, o que é a caridade e o que é o bem?" * Resposta: Não puderam responder, pois essas eram as coisas que tinham separado '''Pergunta 2: Pecado, Penitência e Remissão''' * Pergunta: "O que é pecado, o que é penitência e o que é remissão dos pecados?" * Resposta: "Os que são justificados pela fé têm os seus pecados remidos a ponto de não mais aparecerem" * Avaliação: "Essas coisas não são verdade" '''Pergunta 3: Regeneração''' * Pergunta: "O que é regeneração?" * Resposta: "Ou é o batismo ou é a remissão dos pecados pela fé" * Avaliação: "Isso não é verdade" '''Pergunta 4: Homem Espiritual''' * Pergunta: "O que é o homem espiritual?" * Resposta: "É aquele que foi justificado pela fé de nossa confissão" * Avaliação: "Isso não era verdade" '''Perguntas Adicionais: Redenção, União do Pai e Senhor, Unidade de Deus''' * Resposta: "Responderam coisas que não eram verdades" Swedenborg conclui: "Depois das interrogações e respostas a disputa veio ao juízo, a saber, que aqueles que se tinham confirmado na fé separada da caridade não têm verdade alguma." ==== 4. Por Que Não Conseguem Reconhecer a Falsidade ==== Swedenborg oferece uma explicação importante sobre por que aqueles na fé separada da caridade não conseguem reconhecer a falsidade de suas crenças no mundo natural: "Que isso seja assim, eles não o podem crer no mundo, porque aqueles que estão nos falsos não vêem outra coisa senão que os falsos são veros, e que saber muitas coisas que são de sua fé não é tão importante."<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 69–72}}</ref> Swedenborg identifica a causa: "A sua fé é separada do entendimento, porque é uma fé cega e, por isso, não investigam." Swedenborg oferece uma observação importante: "E sobre isso não se pode inquirir senão pela Palavra, por meio da iluminação do entendimento. Por isso os veros que estão ali são convertidos em falsos; pensa-se na fé onde vêem amor, penitência, remissão dos pecados e muitas coisas que devem pertencer aos atos." A explicação é clara: quando o entendimento está fechado, os veros (verdades) são convertidos em falsos (falsidades). O que deveria ser compreendido como amor, penitência, remissão e ação benéfica é reinterpretado como fé intelectual. ==== 5. A Distinção Final ==== Swedenborg oferece uma distinção importante no final do capítulo: "Mas, na verdade, esses são os que se confirmaram somente na fé, doutrina e vida, mas não aqueles que, ainda que tenham ouvido e crido que a fé, só, salva, ainda assim fugiram dos males como pecados."<ref>{{citar livro |sobrenome=Swedenborg |nome=Emanuel |título=A Verdadeira Religião Cristã (True Christian Religion) |ano=1771 |editora=Swedenborg Foundation |url=https://swedenborg.com/product/true-christian-religion/ |acessodata=2026-09-02 |páginas=n. 69–72}}</ref> Swedenborg distingue entre dois grupos: * '''Aqueles condenados:''' Os que se confirmaram na fé separada da caridade tanto na doutrina quanto na vida * '''Aqueles salvos:''' Os que, embora tenham ouvido que a fé sozinha salva, ainda assim fugiram dos males como pecados A distinção é crucial: não é a doutrina que se ouve, mas a vida que se vive. Aqueles que, apesar de ouvir a doutrina da fé separada da caridade, ainda assim vivem a caridade e fogem do mal, são salvos. Aqueles que tanto creem quanto vivem a fé separada da caridade são condenados. --- === Análise Teológica === A conclusão de Swedenborg sobre a fé separada da caridade oferece uma síntese de sua crítica ao longo deste trabalho. Vários pontos são significativos: '''1. A Nulidade Espiritual:''' Swedenborg afirma que a fé separada da caridade é uma "fé nula"—não porque não existe, mas porque não possui substância espiritual. É como um corpo sem alma: aparentemente presente, mas espiritualmente morto. '''2. A Caridade como Essência:''' Swedenborg identifica a caridade não como um complemento opcional à fé, mas como sua essência. Sem a caridade, a fé não é fé verdadeira, mas apenas uma crença intelectual vazia. '''3. A Destruição da Igreja:''' Quando a caridade é removida da fé, a Igreja também é destruída. A Igreja não é meramente uma instituição, mas um corpo vivo de pessoas unidas pela caridade. Sem a caridade, não há Igreja verdadeira. '''4. A Cegueira Espiritual:''' Aqueles na fé separada da caridade não conseguem reconhecer a falsidade de suas crenças porque seu entendimento está fechado. Os falsos aparecem como veros porque não há luz para discernir a diferença. '''5. A Importância da Vida:''' A distinção final de Swedenborg é crucial: não é a doutrina que se ouve, mas a vida que se vive. Aqueles que vivem a caridade, apesar de ouvir doutrinas falsas, são salvos. Aqueles que vivem a fé separada da caridade, mesmo que a creiam sinceramente, são condenados. '''6. A Iluminação do Entendimento:''' Swedenborg oferece esperança: através da iluminação do entendimento pela Palavra, é possível converter os falsos em veros. A salvação não é impossível, mas requer a abertura do entendimento e a prática da caridade. --- === Questões de Estudo === 1. Por que Swedenborg afirma que a fé separada da caridade é uma "fé nula"? 2. Como a caridade é a "vida", a "alma" e a "essência" da fé? 3. O que significa que "onde a fé é nula, aí a Igreja é nula"? 4. Qual é o significado da pergunta do Senhor: "Quando o Filho do homem vier, acaso achará fé sobre a terra?"? 5. Qual foi o resultado do diálogo entre bodes e ovelhas no mundo espiritual? 6. Por que os bodes não conseguiram responder sobre amor, caridade e bem? 7. Qual é a diferença entre as respostas dos bodes sobre remissão de pecados e a verdade sobre remissão? 8. Por que os bodes não conseguem reconhecer a falsidade de suas crenças no mundo natural? 9. Como a fé separada do entendimento se torna uma "fé cega"? 10. O que significa que "os veros que estão ali são convertidos em falsos"? 11. Qual é a distinção final que Swedenborg oferece entre aqueles condenados e aqueles salvos? 12. Como é possível ser salvo mesmo ouvindo a doutrina da fé separada da caridade? --- === Leitura Complementar === * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''A Verdadeira Religião Cristã'' (''True Christian Religion'', 1771). Obra principal que desenvolve a crítica à fé separada da caridade. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Doutrina de Vida para a Nova Jerusalém'' (1763). Apresenta a compreensão swedenborgiana da caridade e de como viver a vida espiritual. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Céu e Inferno'' (1758). Descreve a realidade espiritual do mundo dos espíritos onde ocorrem esses diálogos. * [[Regeneração]]. Processo de transformação espiritual que envolve a abertura do entendimento e a prática da caridade. * [[w:Emanuel Swedenborg|Emanuel Swedenborg]]. ''Doutrina da Escritura Sagrada'' (1763). Apresenta os princípios da hermenêutica swedenborgiana que permitem a iluminação do entendimento. --- == Referências == <references /> --- [[../Capítulo_08|← Capítulo anterior]] | [[../Capítulo_10|Próximo capítulo →]] [[../|Retornar ao sumário]] 74jfkc1254vuegxkce7oj6rfk397yce