Wikisource ptwikisource https://pt.wikisource.org/wiki/Wikisource:P%C3%A1gina_principal MediaWiki 1.47.0-wmf.16 first-letter Multimédia Especial Discussão Utilizador Utilizador Discussão Wikisource Wikisource Discussão Ficheiro Ficheiro Discussão MediaWiki MediaWiki Discussão Predefinição Predefinição Discussão Ajuda Ajuda Discussão Categoria Categoria Discussão Portal Portal Discussão Autor Autor Discussão Galeria Galeria Discussão Página Página Discussão Em Tradução Discussão Em Tradução Anexo Anexo Discussão TimedText TimedText talk Módulo Módulo Discussão Translations Translations talk Evento Evento Discussão Autor:Florbela Espanca 102 13528 559754 555070 2026-08-20T20:14:04Z BlitzkriegBoop 37692 inserido projeto de transcrição para Charneca em Flor 559754 wikitext text/x-wiki {{Autor/v2 | InicialUltimoNome = E | nome = Flor Bela Lobo (nome de batismo) ou Flor Bela de Alma da Conceição (nome adotado posteriormente)<ref><http://purl.pt/272/2/i1_espolio.html>, Acessado em março de 2007.</ref> | nome completo = | nome nativo = | imagem = Espanca Florbela.jpg | imagem_tamanho = | legenda = | nacionalidade = | data_nascimento = {{dni|8|12|1894|si}} | data_morte = {{morte|8|12|1930|8|12|1894}} | género = | período = | temas = | abl = | Wikipedia = Florbela Espanca | Wikiquote = | MiscBio = Foi uma poetisa portuguesa. Precursora do movimento feminista em seu país, teve uma vida tumultuada, inquieta, transformando seus sofrimentos íntimos em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotização e feminilidade. {{Audível}} }}{{autora}} == Obras == ===Poesia === * [[O Livro D'Ele]], {{ano|1915}} {{Som}} * [[Livro das Mágoas]], {{ano|1919}} {{Som}} * [[Livro de Sóror Saudade]], {{ano|1923}} * {{livro digitalizado|Charneca em Flor|Charneca_em_Flor_-_Florbela_Espanca_-_1931.pdf|Charneca em Flor}}, {{ano|1931}} {{Som}} === Prosa === * [[As Máscaras do Destino]], {{ano|1931}} * [[Diário do Último Ano]], {{ano|1981}} * [[O Dominó Preto]], {{ano|1982}} === Coletânea === * [[Trocando Olhares]], {{ano|1994}} == Notas == <references /> {{autores}} {{controle de autoridade}} [[Categoria:Autores portugueses]] [[Categoria:Florbela Espanca| ]] [[Categoria:Autoras]] 7y5p0r2gnnavtyywvbv39w8hzxg5e73 Charneca em Flor (poema) 0 133318 559873 42475 2026-08-21T00:53:28Z BlitzkriegBoop 37692 Conteúdo substituído por redirecionamento para página com transclusão 559873 wikitext text/x-wiki #REDIRECT [[Charneca em Flor/Charneca em flor]] [[Categoria:Charneca em Flor]] 5pawm0nzx6e1vz4of5bmnwd5jpzqn92 Versos de orgulho 0 133319 559874 42476 2026-08-21T00:55:05Z BlitzkriegBoop 37692 Conteúdo substituído por redirecionamento para página com transclusão 559874 wikitext text/x-wiki #REDIRECT [[Charneca em Flor/Versos de orgulho]] [[Categoria:Charneca em Flor]] m3s2rqfb38ezus0ush3aqy27mv6uesn Predefinição:Novidades no acervo 10 140260 559676 559009 2026-08-20T14:52:47Z BlitzkriegBoop 37692 Henriqueta adicionada 559676 wikitext text/x-wiki <!-- Favor, não adicionar hinos. 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O falso luxo]] * [[Mulheres e creanças/Capítulo III|Capítulo III - A velhice das mulheres]] * [[Mulheres e creanças/Capítulo IV|Capítulo IV - A dissolução dos costumes e o casamento]] * [[Mulheres e creanças/Capítulo V|Capítulo V - As mães e as filhas]] * [[Mulheres e creanças/Capítulo VI|Capítulo VI - Leitura para nossas filhas]] * [[Mulheres e creanças/Capítulo VII|Capítulo VII - As dactas d'uma vida]] * [[Mulheres e creanças/Capítulo VIII|Capítulo VIII - Casamentos pobres e casamentos ricos]] * [[Mulheres e creanças/Capítulo IX|Capítulo IX - A uma noiva]] * [[Mulheres e creanças/Capítulo X|Capítulo X - O dever de ser bonita]] * [[Mulheres e creanças/Capítulo XI|Capítulo XI - O trabalho das mulheres]] * [[Mulheres e creanças/Capítulo XII|Capítulo XII - A toilette]] * [[Mulheres e creanças/Capítulo XIII|Capítulo XIII - Victoria Woodhall]] * [[Mulheres e creanças/Capítulo XIV|Capítulo XIV - Criados e amos]] * [[Mulheres e creanças/Capítulo XV|Capítulo XV - Creanças]] * [[Mulheres e creanças/Capítulo XVI|Capítulo XVI - Cartas de um marido]] * [[Mulheres e creanças/Capítulo XVII|Capítulo XVII - Confidencias maternaes]] |Epígrafe={{Página:Mulheres e creanças.djvu/5}} {{page break|label=}} {{Página:Mulheres e creanças.djvu/7}} {{page break|label=}} {{Página:Mulheres e creanças.djvu/8}} {{page break|label=}} {{Página:Mulheres e creanças.djvu/9}} {{page break|label=}} {{Página:Mulheres e creanças.djvu/10}} {{page break|label=}} {{Página:Mulheres e creanças.djvu/11}} {{page break|label=}} |Width= |Css= |Header= |Footer= |Modernização=N }} [[Categoria:Originais de edições impressas em 1880]] i7hxwdwlo1y9se5eun2d576szp7dttf Página:Mulheres e creanças.djvu/15 106 197009 559708 425310 2026-08-20T16:31:27Z BlitzkriegBoop 37692 /* Validada */ 559708 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="4" user="BlitzkriegBoop" />{{cabeçalho||MULHERES E CREANÇAS|9}}</noinclude>Concorrem ellas em grande parte para dar força ao impulso que contraria a marcha triumphante e apesar de tudo invencivel, que leva a civilisação no caminho da verdadeira luz. E concorrem por varias e complexas razões que devem analysar-se e depois combater-se. Ignorantes impoem resistencia inconsciente ás transformações continuas do progresso. Retrogradas por educação e por natureza, cada innovação se lhes affigura ou uma cousa inutil, ou uma cousa perigosa. Amesquinhadas pela profunda escuridão intellectual em que jazem immersas, em vez de auxiliarem o homem no cumprimento difficil do dever afastam-no pelo desdem, desanimam-no pela frivolidade, cançam-no com as exigencias loucas, gastam-lhe a força, o alento, as aspirações arrojadas e grandes na satisfação de desejos pueris, ou lhe destroem a dignidade e lhe annullam a energia obrigando-o a transigir com os desvairamentos d’uma imaginação doentia. Mas se as mulheres produzem este effeito funesto confesse-se para bem da justiça que aos homens se deve o atrazo intellectual em que todas nós estamos. Sentem elles, e a meu ver sentem muito bem, que para conservar este equilibrio necessario á manutenção da ordem na familia e na sociedade, cumpre que a<noinclude>{{D|2}}</noinclude> mefbbhhjd8jlzixts027bb1wvkngog8 Página:Mulheres e creanças.djvu/16 106 197010 559709 425311 2026-08-20T16:32:58Z BlitzkriegBoop 37692 /* Validada */ 559709 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="4" user="BlitzkriegBoop" />{{cabeçalho|10|MULHERES E CREANÇAS|}}</noinclude>mulher se não revolte contra a inferioridade a que fatalmente a condemnam as leis, e contra a dependencia a que a condemnam os costumes. Para alcançarem porém esta submissão voluntaria entenderam desde muito, que o melhor meio consistia em condensar as trevas da ignorancia e da superstição em torno d’aquella de quem são forçados a fazer a sua companheira na vida, o seu consolo nas horas da provação, a mãe de seus filhos, a carne da sua carne. Terrivel contradicção, systema absurdo que tem como resultado a lenta desorganisação da familia e que corrompendo a mulher atravez do homem, não póde deixar d’ir com o andar dos tempos corrompendo o homem atravez da mulher. D’um lado querem conservar-nos n’uma plana muito inferior á sua, como illustração, conhecimentos, intelligencia, isto para que nunca nos venha á idéa aspirar á perfeita igualdade dos direitos e dos privilegios; d’outro lado exigem de nós prodigios de virtude, de abnegação, de paciencia, de que só são capazes as almas bafejadas pelo sopro ideal da eterna Perfeição. A mulher precisa de ser moralmente mais forte do que o homem, para conseguir levar a cabo a tarefa relativamente superior que a natureza e a sociedade lhe impoem. {{NOP}}<noinclude></noinclude> n2hmotk3sg5q4t73yngfnnoy467cocm Página:Mulheres e creanças.djvu/17 106 197011 559710 425312 2026-08-20T16:34:02Z BlitzkriegBoop 37692 /* Validada */ 559710 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="4" user="BlitzkriegBoop" />{{cabeçalho||MULHERES E CREANÇAS|11}}</noinclude>No dia em que se assentar este ponto como verdade incontestavel, o mundo terá dado um dos seus passos mais gigantescos no caminho da felicidade. Educar a mulher eis o grande problema que resta ainda a resolver. Educar a mulher é arrancal-a na infancia ao seu berço fôfo e tepido de beijos, e leval-a por caminhos d’uma magestade austera que ella nunca trilhou. É preparal-a para a grande lucta moral que é a Vida, com os cuidados com que Sparta, a guerreira cidade antiga, preparava os seus filhos para as luctas do corpo, para as victorias da destreza physica. É associal-a pela comprehensão e pela sympathia a todos os trabalhos e investigações do homem moderno; é dar-lhe ao lado d’este um lugar honroso e definido, não egual pois que são diversas as attribuições de ambos, mas equivalente em direitos e em deveres. É fazer-lhe comprehender bem claro que as seducções do corpo — seu orgulho supremo e seu constante desvanecimento — quando não são reflexo da formosura e da robustez da alma, não passam d’um laço ignobil armado ao animal malefico e bravio que todo o homem encerra em si. Educar a mulher é leval-a a compenetrar-se do seu papel providencial na familia, e achal-o grande, util, elevado, digno de saciar as mais levantadas ambições,<noinclude>{{D|<nowiki>*</nowiki>}}</noinclude> 29ut5156wmmzq124uz1gdkdpv1b9pwn Galeria:Contos infantis em verso e prosa.pdf 104 215528 559694 558554 2026-08-20T15:54:12Z BlitzkriegBoop 37692 559694 proofread-index text/x-wiki {{:MediaWiki:Proofreadpage_index_template |Type=book |Título=[[Contos infantis em verso e prosa (1886)]] |Subtítulo= |Language=pt |Autor=[[Autor:Adelina Lopes Vieira|Adelina Lopes Vieira]]; [[Autor:Júlia Lopes de Almeida|Júlia Lopes de Almeida]] |Tradutor= |Editor= |Ilustrador= |Edição= |Volume= |Editora=Typographia Mattos Moreira |Gráfica= |Local=Lisboa |Ano=1886 |ISBN= |Fonte={{commons|Contos infantis em verso e prosa.pdf}} |Imagem= |Capa=9 |Progresso=C |Páginas=<pagelist 1to4=- 5=1;roman 6=- 7=1 7to16=roman 17=1 188to194=- /> |Tomos= |Volumes= |Notas= |Sumário={{Índice auxiliar|título=Sumário|comentário=(alternado nas últimas páginas)|largura=36em| {{ch|{{Xxxx-larger|{{uc|Indice}}}}}} {{dhr}} {{tabela|indentation=-1|largura=36em |título=[[Contos infantis em verso e prosa (1886)/Prologo|Prologo]] |página=V }} {{tabela|indentation=-1|largura=36em |título=[[Contos infantis em verso e prosa (1886)/Dedicatoria|Dedicatoria]] |página=1 }} {{dhr}} {{bloco centro|align=center| {{x-larger|{{uc|{{serifa|Contos infantis}}}}}} {{serifa|{{uc|'''em verso e prosa'''}}}} ''Por Adelina A. 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16 de novembro de 1894), foi uma poetisa, romancista e folclorista portuguesa. Publicou a sua obra sob os pseudónimos ''Uma Obscura Portuense'' e ''Mariposa'', bem como as iniciais ''D.M.P'' ou ''D.M.P.S.'' }}{{autora}} == Obras == ===Livros publicados=== * 1859 - ''Retalhos do mundo'' * 1863 ''- Rhadamanto'' ou ''A Mana do Conde'' * 1864 - ''Roberta ou A Força da Simpatia'' * 1866 - ''Maria Isabel'' * 1876 - {{livro digitalizado|Henriqueta|Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf}} ===Publicações em Periódicos=== * ''Tradições Populares do Minho'' ====Revista ''Iris''==== * ''Xácaras'' ** 1848 - ''A moura de Lissibone'' ** 1848 - ''O cavalleiro portuguez'' ** 1848 - ''Bernardo del Carpio'' ** 1848 - ''Mathilde'' * 1848 - ''Pépa'' * 1848 - ''O reflexo perdido - Ricardo e Margarida'' * 1848 - ''O passeio do cimeterio em vão'' ===={{livro digitalizado|A_Esperança_Vol._I|A_Esperanca_vol._1_(1865).pdf|''A Esperança''}}==== * [[A_Esperança_Vol._I/Maria_Isabel|''Maria Isabel'']] - 1865 {{autores}} {{controle de autoridade}} [[Categoria:Autores portugueses]] [[Categoria:Autoras]] 88x5hx8ccanyktsv8b299wate5oac31 559703 559702 2026-08-20T16:20:07Z BlitzkriegBoop 37692 Foi desfeita a revisão [[Special:Diff/559702|559702]] de [[Special:Contributions/BlitzkriegBoop|BlitzkriegBoop]] ([[User talk:BlitzkriegBoop|discussão]]) 559703 wikitext text/x-wiki {{Autor/v2 | InicialUltimoNome = S | nome = Maria Peregrina de Souza | nome completo = | nome nativo = | imagem = | imagem_tamanho = | legenda = | data_nascimento = {{dni|13|02|1809|si}} | nacionalidade = {{PRTn|a}} | data_morte = {{morte|16|11|1894|13|02|1809}} | género = | período = | temas = | abl = | Wikipedia = Maria Peregrina de Souza | Wikiquote = | Wikicommons = | MiscBio = '''Maria Peregrina de Souza''' (Porto, 13 de fevereiro de 1809 - 16 de novembro de 1894), foi uma poetisa, romancista e folclorista portuguesa. Publicou a sua obra sob os pseudónimos ''Uma Obscura Portuense'' e ''Mariposa'', bem como as iniciais ''D.M.P'' ou ''D.M.P.S.'' }}{{autora}} == Obras == ===Livros publicados=== * 1859 - ''Retalhos do mundo'' * 1863 ''- Rhadamanto'' ou ''A Mana do Conde'' * 1864 - ''Roberta ou A Força da Simpatia'' * 1866 - ''Maria Isabel'' * 1876 - {{livro digitalizado|Henriqueta|Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf}} ===Publicações em Periódicos=== * ''Tradições Populares do Minho'' ====Revista ''Iris''==== * ''Xácaras'' ** 1848 - ''A moura de Lissibone'' ** 1848 - ''O cavalleiro portuguez'' ** 1848 - ''Bernardo del Carpio'' ** 1848 - ''Mathilde'' * 1848 - ''Pépa'' * 1848 - ''O reflexo perdido - Ricardo e Margarida'' * 1848 - ''O passeio do cimeterio em vão'' ===={{livro digitalizado|A_Esperança_Vol._I|A_Esperanca_vol._1_(1865).pdf|''A Esperança''}}==== * [[A_Esperança_Vol._I/Maria_Isabel|''Maria Isabel'']] - 1865 {{autores}} {{controle de autoridade}} [[Categoria:Maria Peregrina de Souza| ]] [[Categoria:Autores portugueses]] [[Categoria:Autoras]] e5m11a7iu5z2qi6qqn7iqylks2j6cng Galeria:Maria Peregrina de Souza - 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{{ano|1896}} * ''Derradeiros versos'' - {{ano|1938}} * ''A história do bebé'' - {{ano|1941}} === Em periódicos (parcial) === ==== A imprensa: revista scientifica, literária e artística ==== * [[A Imprensa n.o 3/Os noivos|''Os Noivos'']], n.{{Sup|o}} 3, Novembro de 1885 ==== A illustração portugueza: semanario: revista litteraria e artistica ==== * ''Boiando...'', n.{{Sup|o}} 19, 31 de Dezembro de 1888 ==== Branco e Negro: semanario illustrado ==== * ''Libro Del Alma'', n.{{Sup|o}} 35, 29 Novembro de 1896 ==== Álbum das meninas ==== * ''Lês inspiratrices'' (poesia), n.{{Sup|o}} 11, 28 Fevereiro de 1899 ==== Elegancias ==== * ''A uma creança'', n.{{Sup|o}} 34, ano 3, Agosto de 1913 ==== Contemporânea ==== * ''Secção Feminina'', n.{{Sup|o}} Specimen, Maio de 1915 ==== O Dia ==== * ''Joias e Flores'' {{autores}} {{controle de autoridade}} [[Categoria:Albertina Paraíso| ]] [[Categoria:Autores portugueses]] [[Categoria:Autoras]] 407ajdgqxejm0ir7w9i31uk0ai6i4h5 Página:Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano, Tomo XI (1904).pdf/103 106 254252 559651 554381 2026-08-20T14:09:25Z Erick Soares3 19404 559651 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" /></noinclude>[[File:Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano, Tomo XI (1904) (page 103 crop).jpg|centro|400px]] {{t2|O ASSEDIO DO RECIFE}} {{dhr}} {{c|EM}} {{dhr}} {{t2|'''1821'''}} {{dhr}} {{rule|5em}} {{dhr}} {{c|( Impressões duma senhora ingleza )}} {{dhr|2}} {{rule|5em}} {{dhr}} Um dos episodios mais brilhantes da historia de Pernambuco, tão opulenta em fastos gloriosos, é sem duvida o nobre e fecundo movimento revolucionario que, rebentando em Goyanna em fins de Agosto de 1821, determinou dous mezes apóz a retirada do Governador Luiz do Rego Barreto, a quem desde 1817 a corte do Rio de Janeiro confiára os destinos da então provincia. Felippe Mena Callado da Fonseca, num opusculo hoje bastante escasso, pelo que brevemente será reeditado nestas paginas, historiou do lado dos insurgentes as curiosas peripecias daquelle drama politico-militar, cuja scena principal foi o assedio do Recife; Luiz do Rego, por sua vez, na ''Memoria''<noinclude>{{right|12}}</noinclude> dafjvvumja2oqupmu74tfl2bjlt0jpl Contos infantis em verso e prosa (1886)/A Leitura 0 255649 559726 558343 2026-08-20T17:33:40Z BlitzkriegBoop 37692 559726 wikitext text/x-wiki <pages index="Contos infantis em verso e prosa.pdf" from=19 to=20 header=1 contributor="Júlia Lopes de Almeida" /> [[Categoria:Contos infantis em verso e prosa| 03]] oldhkf6lvvl5c6wgmosh9iyc82eyiu0 Contos infantis em verso e prosa (1886)/O Heroe 0 255653 559727 558344 2026-08-20T17:34:10Z BlitzkriegBoop 37692 559727 wikitext text/x-wiki <pages index="Contos infantis em verso e prosa.pdf" from=21 to=23 header=1 contributor="Adelina Lopes Vieira" /> [[Categoria:Contos infantis em verso e prosa| 04]] 82sq22jpq2z5ul88yhgtcccbhyfp26y Contos infantis em verso e prosa (1886)/Biographia de uma aranha 0 255656 559743 558348 2026-08-20T17:40:26Z BlitzkriegBoop 37692 559743 wikitext text/x-wiki <pages index="Contos infantis em verso e prosa.pdf" from=59 to=60 header=1 contributor="Júlia Lopes de Almeida" /> [[Categoria:Contos infantis em verso e prosa| 19]] c9n74q9tvvw32ijpqn19xcug99sifyl Contos infantis em verso e prosa (1886)/O Passarinho 0 255660 559728 558358 2026-08-20T17:34:35Z BlitzkriegBoop 37692 559728 wikitext text/x-wiki <pages index="Contos infantis em verso e prosa.pdf" from=24 to=26 header=1 contributor="Júlia Lopes de Almeida" /> [[Categoria:Contos infantis em verso e prosa| 05]] 8n5joscq36kwtd4ps6l5n12n4nm8i8o Contos infantis em verso e prosa (1886)/Meiguice 0 255664 559729 558367 2026-08-20T17:35:04Z BlitzkriegBoop 37692 559729 wikitext text/x-wiki <pages index="Contos infantis em verso e prosa.pdf" from=27 to=29 header=1 contributor="Adelina Lopes Vieira" /> [[Categoria:Contos infantis em verso e prosa| 06]] bm8lkn5co8x8cu8ywmkqqcz7wgc1kiy Contos infantis em verso e prosa (1886)/O Remendo 0 255668 559730 558371 2026-08-20T17:35:24Z BlitzkriegBoop 37692 559730 wikitext text/x-wiki <pages index="Contos infantis em verso e prosa.pdf" from=30 to=32 header=1 contributor="|Júlia Lopes de Almeida" /> [[Categoria:Contos infantis em verso e prosa| 07]] 5w2k0gmx4mehoyzzwfwlegrk4k9d6pd 559731 559730 2026-08-20T17:35:38Z BlitzkriegBoop 37692 559731 wikitext text/x-wiki <pages index="Contos infantis em verso e prosa.pdf" from=30 to=32 header=1 contributor="Júlia Lopes de Almeida" /> [[Categoria:Contos infantis em verso e prosa| 07]] 1xubajnjx3491a5xx2qjcdlo92nwhty Contos infantis em verso e prosa (1886)/Vingança 0 255684 559732 558395 2026-08-20T17:36:10Z BlitzkriegBoop 37692 559732 wikitext text/x-wiki <pages index="Contos infantis em verso e prosa.pdf" include=33-34 fromsection="Vingança" tosection="Vingança" header=1 tradutor="[[Autor:Adelina Lopes Vieira|Adelina Lopes Vieira]]" contributor="Louis Ratisbonne"/> [[Categoria:Contos infantis em verso e prosa| 08]] t2or5ni198xk50e0yq1maviz3arla1i Contos infantis em verso e prosa (1886)/Muito Mais 0 255685 559733 558397 2026-08-20T17:36:36Z BlitzkriegBoop 37692 559733 wikitext text/x-wiki <pages index="Contos infantis em verso e prosa.pdf" include=34 fromsection="Muito mais" tosection="Muito mais" header=1 tradutor="[[Autor:Adelina Lopes Vieira|Adelina Lopes Vieira]]" contributor="Louis Ratisbonne" /> [[Categoria:Contos infantis em verso e prosa| 09]] 2njtpq66q7u2vi1quqh8syc2pv0wbrf Contos infantis em verso e prosa (1886)/Os sapatinhos azues 0 255689 559734 558401 2026-08-20T17:37:04Z BlitzkriegBoop 37692 559734 wikitext text/x-wiki <pages index="Contos infantis em verso e prosa.pdf" from=35 to=37 header=1 contributor="Júlia Lopes de Almeida" /> [[Categoria:Contos infantis em verso e prosa| 10]] l7vvrh7h9x7b5m5i7nq4tupv4ljf68t Contos infantis em verso e prosa (1886)/D. 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Texto fixado segundo a ortografia original de 1952. |} == Índice == === Volume I === ''Nota: Volume em fase de transcrição.'' * [[/Prefácio|Prefácio]] * [[/O Homem da moca|O Homem da moca]] * [[/História do careca|História do careca]] * [[/A Bela Felicidade|A Bela Felicidade]] * [[/O porqueiro|O porqueiro]] * [[/O coelho branco|O coelho branco]] * [[/Branca-Flor|Branca-Flor]] * [[/História do Príncipe encantado no palácio de ferro no reino da escuridão|História do Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão]] * [[/O corvo|O corvo]] * [[/O Príncipe Bezerro|O Príncipe Bezerro]] * [[/A Princesa da Áustria|A Princesa da Áustria]] * [[/História do Príncipe Luís|História do Príncipe Luís]] * [[/O Bicho-de-sete-cabeças|O Bicho-de-sete-cabeças]] * [[/História maravilhosa do Príncipe Urso Doce de Laranja|História maravilhosa do Príncipe Urso Doce de Laranja]] * [[/O homem de pedra|O homem de pedra]] * [[/A menina fadada|A menina fadada]] * [[/O esperto|O esperto]] * [[/Os dois almocreves|Os dois almocreves]] * [[/A mão de finado|A mão de finado]] * [[/O leão de ouro|O leão de ouro]] * [[/A Princesa Macaca|A Princesa Macaca]] * [[/O soldado|O soldado]] * [[/Os meninos da estrela de ouro na testa|Os meninos da estrela de ouro na testa]] * [[/O figuinho da figueira|O figuinho da figueira]] * [[/Os sapatinhos de cetim|Os sapatinhos de cetim]] * [[/O gosto dos gostos|O gosto dos gostos]] * [[/O bom serviço recompensado|O bom serviço recompensado]] * [[/História da Princesa adormecida ou das treze fadas|História da Princesa adormecida ou das treze fadas]] * [[/A menina curiosa ou a luta do bem e do mal|A menina curiosa ou a luta do bem e do mal]] === Volume II === ''Nota: Os contos do Volume II serão adicionados após a conclusão do Volume I.'' ---- {{PD-old-70}} [[Categoria:Ana de Castro Osório]] [[Categoria:1952]] [[Categoria:Contos portugueses]] 8uhpxhvxomgyvkpz5ump286xceoib4w Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O Homem da moca 0 255973 559682 559091 2026-08-20T15:20:29Z Mt516 43586 559682 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O Homem da moca | anterior = [[../Prefácio/]] | posterior = [[../História do careca/]] | notas = }} <big>'''O HOMEM DA MOCA'''</big> HAVIA numa terra, que não vem para aqui dizer o nome, um rapaz dotado duma força tal que nenhum homem se atrevia a lutar com ele. Mas, como era bom e alegre, todos o convidavam e lhe chamavam o Benvindo significando assim o prazer que sentiam com a sua companhia. Um dia aborreceu-se de viver ali e resolveu ir viajar. Mandou fazer uma grande moca de ferro e, encostando-se a ela, partiu sem destino, ao acaso da sua fantasia. Passou por um pinhal e viu um homem que arrancava grandes pinheiros com a maior facilidade e os atava em molho como se fossem ramos secos. O ''Homem da moca'' perguntou ao outro o que andava a fazer e, como lhe respondesse que andava ajuntar lenha para o seu lume e tencionava levar duma vez as árvores todas, ficou muito contente de encontrar um homem com tanta força e propôs-lhe serem companheiros, pagando-lhe ele soldada. O ''Arranca-pinheiros'' aceitou logo e, satisfeitos de serem dois valentes sem medo a coisa alguma, continuaram a jornada. Depois de muito caminharem e de verem inúmeras terras sem nunca encontrarem quem os vencesse, viram no meio dum campo um homem só com uma montanha às costas. Admirados, perguntaram: — Olá, tu que fazes aí? — Eu tenho muita força e para me entreter quero mudar esta montanha. — Deixa-te disso — acudiu ''O da moca'' — vem daí connosco ver terras, que eu pago-te soldada como pago a este. O ''Revolve-montes'' aceitou e lá. foram os três valentes correr mundo. Eram a admiração de toda a gente e muitos Reis e Imperadores os quiseram fazer generais dos seus exércitos. Mas o ''Homem da moca'' nada mais desejava do que ver terras, correr mundo e conhecer novas gentes. Assim foram andando até que uma noite acharam-se num descampado onde havia uma casa. Não vendo más nem boas, para ali se dirigiram e ficaram verdadeiramente espantados por encontrarem uma boa casa completamente abandonada. Benvindo, que não era homem para meias medidas, entrou por ali dentro, tomou posse de tudo e disse aos companheiros que era preciso fazer a ceia e então que fosse um deles ver se encontrava quem lhe desse ou vendesse coisa que pudessem comer. Saiu o ''Arranca-pinheiros'' e, como visse fogueiras na serra, discorreu que eram os pastores e foi comprar um carneiro e bom leite. Por conversa perguntou de quem era aquela grande casa e porque razão estava assim abandonada. Responderam-lhe os pastores: — A casa lá de baixo?! Ai senhor, Deus o livre de lá ficar! — Mas porquê, homenzinhos?! Digam sempre, que nós somos três companheiros invencíveis, sem medo a coisa alguma. — Pois os senhores serão muito valentes, ninguém diz menos disso (responderam os pastores), mas é que naquela casa anda o Diabo e quem lá ficar morre! — Vamos a ver se ele é mais forte do que nós! Foi ter com os companheiros e, contando oque lhe tinham dito os pastores, pediu a Benvindo que se fosse deitar mais o ''Revolve-montes'', que ele ficaria fazendo a ceia. Assim foi; os dois subiram para os quartos e o ''Arranca-pinheiros'' tratou de esfolar o carneiro e pô-lo a assar no espeto, ao mesmo tempo que deitava o leite num tacho para ferver. Estava nestes preparativos quando ouviu uns ''miaus'' terríveis. Voltou-se e deu de cara com um gatarrão, preto como o azeviche, que abria uma boca enorme miando desesperadamente. Era tão medonho o animal que o ''Arranca-pinheiros'', apesar da sua valentia, fugiu pela escada acima, chamando os companheiros. Entretanto foi o gato ao lume e levantou tal labareda que o carneiro ficou em carvão e o leite em fervura fugiu todo do tacho. Vieram os companheiros ver o gato famoso que havia afugentado o valente, mas nada encontraram. O ''Homem da moca'' muito zangado mandou pôr a ceia na mesa, mas a ceia era uma vez!, tiveram que se deitar sem ela. Ao outro dia quiseram os dois ir-se embora, mas ''O da moca'', tendo empenho de conhecer a coragem dos seus homens, resolveu ficar. Mandou outra vez comprar um carneiro e leite e nessa noite foi o ''Revolve-monte''s quem ficou a fazer a ceia. Mal o homem tinha posto tudo ao lume, ouvindo o sinistro miar do gato, largou barcos e redes e foi acorrer ter com os companheiros gritando que estava ali o Diabo com forma de gato, a deitar lume pelos olhos! Os outros desceram e não viram nada, mas, como na véspera, tiveram que ficar sem ceia — porque tudo estava reduzido a carvões. Na noite seguinte mandou ''O da moca'' deitar os dois e ficou ele a cozinhar a ceia, pondo ao pé de si a arma sua fiel companheira. Tinha já a ceia pronta e estava para chamar os outros dois, quando ouviu o gato a miar. Olhou para o lado, viu o bicho e disse-lhe: — Anda para cá com o teu ''renhau-nhau'', que eu te ensino! O gato, sem fazer caso, ia-se aproximando do lume; e o homem, sempre com olhos nele, pegou na moca e quando o viu ao alcance levantou-a ràpidamente e arrumou-lhe tamanha pancada que o bicho deu um berro medonho e desapareceu. — Então não te dizia eu que me havias de pagar!? Deixares-me duas noites sem ceia!? Ora toma lá para não seres esperto! — dizia ele todo contente. Chamou os companheiros para a ceia, e eles, que já o imaginavam cheio de susto, ficaram envergonhados de o verem a rir muito satisfeito da sua proeza. Cearam com todo o descanso e apetite, e depois disse ''O da moca'': — Agora vamos procurar o gato, que ele deve estar por aí escondido em algum canto. Respondeu o ''Arranca-pinheiros'': — Então como havemos de o encontrar? — Procurando-o, meu bruto! Pois tu não vês que deixou rastro de sangue? ''O da moca'', sempre na frente, foi seguindo e, depois de percorrerem lojas, subterrâneos e velhos casarões abandonados, chegaram a um pátio interior onde havia um poço. Terminava ali o rastro de sangue, que ainda se via na borda. — Bom! (disse Benvindo). Foi por aqui que ele se meteu, e nós vamos lá abaixo procurá-lo. — Como havemos nós de descer? — perguntaram os outros, sempre atrapalhados. — Isso já se arranja. Fiquem vocês aguardar a saída, que eu já volto. Foi à cozinha, onde tinha visto cordas e cestos, escolheu um com quatro asas e trouxe tudo para aborda do poço. Atou as cordas às quatro asas do cesto e fazendo entrar para dentro o ''Arranca-pinheiros'' deu-lhe uma campainha dizendo: Tu vais descer lá ao fundo e ver o que há para vires contar; levas esta campainha, se te vires aflito toca-a com força que nós içamos-te logo. O ''Arranca-pinheiros'' lá se meteu no cesto e os dois começaram a deixá-lo cair devagarinho. Estaria por aí a meio do poço, começou a tocar a campainha com tal fúria que os outros o subiram logo. Perguntou ''O da moca'': — Então para que tocaste? O que viste? — Ih, Jesus! eram tantos os mosquitos que não era possível romper. Até me iam abafando! — És um bruto que só tens força e não tens coragem nenhuma. Agora vai tu, ''Revolve-montes''. Meteu-se este no cesto e foi descendo, mas quando estaria a duas terças partes do caminho desanda a tocar numa tal fúria que não houve mais remédio senão tirá-lo. Chegou acima e disse o mesmo que tinha dito o ''Arranca-pinheiros''. ''O Homem da moca'' ficou tão zangado que ele próprio se meteu no cesto e recomendou que ouvindo tocar não o subissem porque isso apenas queria dizer que precisava descer mais depressa; que só içassem o cesto quando ele abanasse as cordas. Assim foi. A meio do poço, como eram tantos os mosquitos que já o atabafavam, começou a tocar e os de cima vá de largar corda. Foi um instante enquanto se viu com os pés no chão. Saiu do cesto e ficou maravilhado. Dos mosquitos nem sinal! E o fundo do poço não era mais que um palácio, todo de cristal, iluminado como se fosse dia. Começou a percorrer salas e quartos e por toda a parte as riquezas eram tais e tantas que ele se imaginava a sonhar. Assim andou, sem ver ninguém, até encontrar uma Velha que, admirada e compungida, lhe disse: — Que vens aqui fazer, desgraçado? Pois tu não sabes onde estás?! — Para o saber é que venho — respondeu ele arrogante — e se tu não mo dizes, com esta moca te esmago já. Porque é de saber que ele nunca largava a sua arma. A Velha, vendo-se perdida com semelhante ameaça, disse logo: — Espera lá, espera lá, que eu tudo te conto. Olha, naquele quarto está a filha mais velha dum grande Rei, guardada por um leão. Se ele te vê, devora-te. No segundo quarto está a segunda filha do mesmo Rei, guardada por uma serpente, a maior que existe no Mundo. Se lhe apareces, decerto que te engole. E no terceiro quarto está a terceira Princesa que, por ser a mais bela de todas, é guardada pelo próprio Diabo. — Hum! Pois a procurar esse ''figurão'' é que eu vim. Deixa, que ele já provou a minha moca; então vai renovar conhecimentos. — Não — disse a Velha — não fazes nada com isso. Visto que ele já sabe quanto pesa a tua bengala não há-de querer mais brincadeiras dessas. Naturalmente propõe-te um duelo à espada, e tu aceita logo; mas quando ele vier com as espadas, uma muito nova e brilhante, outra muito ferrugenta, escolhe tu esta que a outra é de vidro. — Tu estás a enganar-me? — Não estou, não; previno-te porque assim me vingo dele que me tem presa aqui desde a minha mocidade. Não digas que me viste, é só o que te peço. O rapaz dirigiu-se logo para a primeira porta, abriu-a e encontrou uma linda menina, sentada num banco de oiro, abanando-se com um leque de rendas preciosas. Quando ela o viu entrar, gritou-lhe: — Que vem aqui fazer, desgraçado?! Fuja, que é um leão o meu guarda; se o encontra, mata-o logo. — Pois, minha linda Princesa, eu é que venho para o matar a ele e então já daqui não saio. Mal isto disse, um rugido medonho fez tremer todo o palácio e o homem não teve senão tempo de se meter atrás da porta, enquanto a Princesa, estarrecida de susto, o encomendava a todos os Santos. Abriu-se a porta com formidável estrondo e o leão rugiu: — Aqui há humana criatura!... Mas nem a Princesa teve tempo de responder porque o ''Homem da moca'' descarregou tamanha pancada na cabeça do monstro que ele ficou logo morto. Depois agarrou na Princesa ao colo e foi a correr metê-la no cesto. Deu um grande puxão à corda, que começou logo a subir, e disse à Princesa que mandasse descê-lo, para irem as irmãs. Ela despediu-se, dando-lhe em sinal de reconhecimento o seu precioso leque. Vitorioso daquele primeiro inimigo, dirigiu-se ao segundo quarto. Abriu aporta e deparou com uma menina, se era possível, ainda mais linda do que a primeira. Sentada junto duma mesa, tinha na mão um ramo de mil flores feito de pedras preciosas. Mal viu o rapaz, disse-lhe com tristeza: — Fuja depressa, que a minha guarda é uma serpente, e se aqui o apanha mata-o logo. — Não fugirei, minha linda Infanta, porque já salvei a sua irmã e aqui estou para a salvar também. Mal tinham dito estas palavras ouviram um silvo medonho e uma serpente monstruosa apareceu: — Quem está aqui a falar?! Não respondeu a menina, que Benvindo, rápido como um relâmpago, saiu de trás da porta e deu tal pancada no mostrengo que ele ficou logo ali despedaçado. A menina, doida de contentamento, saltou-lhe ao pescoço e ele pegou nela ao colo e foi acorrer metê-la no cesto. Sacudindo as cordas fortemente, fez-lhe a recomendação de o mandar descer para ir a terceira Princesa. Ela prometeu, e como prova de reconhecimento deu-lhe também o seu ramo. Mal o cesto começou a subir, foi a correr ao terceiro quarto, abriu a porta e ficou deslumbrado vendo a terceira Princesa, que era a mais linda de todas. Nada havia no mundo a que a comparar, porque a sua formosura parecia divina. Sentada num banquinho de marfim, fiava numa roca feita dum só brilhante. Mal deu com os olhos no rapaz ficou muito contente e ao mesmo tempo admirada, porque homens era coisa que nunca vira, tendo sido roubada pelo Diabo logo que nasceu. Depois ficou muito triste, dizendo: — O que vem aqui fazer, infeliz? Não sabe que é o Diabo quem me guarda? Que é ele o senhor deste palácio, que é ele quem aqui tudo manda, e se o apanhar o matará?! — Pois à procura dele venho eu (disse Benvindo). Até já me está tardando encontrar-me com esse sujeito para o ensinar bem ensinado. — É que nem o senhor sabe quem ele é; se cá o apanha mata-o logo. — Veremos isso!... — Olhe, lá vem ele! — E, muito aflita, pôs-se a menina afiar disfarçadamente, enquanto ''O da moca'' se metia atrás da porta. Nisto sentiu-se um formidável barulho, todo o palácio estremeceu, e, como um furacão, entrou o Diabo a gritar: — Aqui está gente!... O rapaz ia a descarregar-lhe uma violenta pancada, mas o ''inimigo'', que era mais fino do que fora o leão e do que a serpente; desviou-se para o lado com um salto, dizendo: — Nada, lá com a moca é que não! Já uma vez me deste com ela que me ias arrebentando. Entre valentes o caso vai doutra maneira. Havemos de nos bater à espada. — Pois seja; aceito. Vai lá buscar as espadas. Se tu ficares vencedor, matas-me; se eu te vencer a ti, levo esta menina e tu nunca mais te meterás comigo. — Está dito! — respondeu o Diabo. E muito contente foi buscar duas espadas, uma muito reluzente e outra muito ferrugenta. Queria entregar a brilhante ao rapaz, mas ele recordou-se do conselho da Velha, lançou mão da outra, dizendo em ar de graça: — Nada de cerimónias, amigo; eu não sou para essas delicadezas. E levantando a espada começou o combate partindo em mil pedaços a que tinha o Diabo e dando-lhe tal cutilada que lhe cortou uma orelha. Vencedor, nem esperou que voltasse a si da surpresa o seu adversário; apanhou a orelha e meteu-a no bolso. Depois pegou na menina e foi a correr pô-la no cesto, dizendo-lhe que mandasse o descessem, para ele depois subir. A lindíssima Princesa, agradecendo-lhe muito, queria que ele subisse no mesmo cesto, com medo que ainda o Diabo lhe fizesse alguma. Mas o cesto era pequeno para os dois. Benvindo tratou de a sossegar, e ela, em sinal da sua imensa gratidão, deu-lhe a roca. Ali ficou Benvindo à espera; e fartou-se de esperar que lhe deitassem o cesto para ele subir. Mas isso é que não podia acontecer porque mal se viram com as Princesas, os falsos foram-se embora com elas, sem quererem saber do companheiro que as tinha ido libertar. As Princesas não queriam ir, mas não podiam resistir à força deles. Só a mais nova chorou e se afligiu tanto que perdeu a fala. Dirigiram-se para o Reino do pai das Princesas, o qual ficou tão contente que não se pode dizer mais. Em sinal de regozijo decretou logo grandes festas e um torneio esplêndido, para solenizar tão grande ventura e, ao mesmo tempo, fazer público o casamento das duas Princesas mais velhas com os que se inculcavam seus libertadores. Só no meio de tanta felicidade havia o imenso desgosto da Princesa mais nova ter perdido a fala. Por mais que lhe dissessem e fizessem, ela nada respondia e a sua vida era chorar. Por esse motivo resolveu o Rei dar três grandes torneios para reunir na sua capital todos os Príncipes e Cavaleiros do Mundo, a ver se à Princesa lhe voltava a fala e escolhia marido. <p style="text-align: center;">* * *</p> ''O da moca'', que ficou no fundo do poço, farto de esperar e tornar a esperar, convenceu-se de que tinha sido enganado e jurou vingar-se. Sair dali é que era o principal e também o mais difícil. Andou para um lado e para o outro, percorreu todo o maravilhoso palácio subterrâneo, mas ninguém encontrou. Passados três dias, já desesperado, voltou ao fundo do poço, lembrou-se que tinha no bolso a orelha do diabo e cheio de raiva esfregou-a com muita força na parede, dizendo: — Este é que tem a culpa de tudo. Ouviu logo uma voz gritar: — Ai, minha rica orelha, dá-me cá a minha orelha!... — Não dou! Põe-me lá em cima imediatamente, senão ainda farei pior. Não viu o Diabo mais remédio senão aparecer e dizer-lhe que montasse nos seus ombros, que seria um instante enquanto o levaria. O rapaz subiu e ei-los aí vão pela terra acima. A meio do poço diz o Diabo: — Não me apertes tanto, olha que me afogas! — Nada, não hei-de apertar! O que tu agora querias era largar-me. E, apertando ainda mais o pescoço do Diabo, num momento se apanhou em cima. Mal se viu ao ar livre, correu em procura dos companheiros e das Princesas, mas ninguém lhe dava sinais certos da sua passagem. Andando e perguntando, chegou à grande cidade onde eles agora estavam. Logo ali soube as alegrias que iam no Paço, do casamento das duas irmãs mais velhas e dos preparativos que, para o torneio e mais festas, se faziam. De toda a parte do Mundo tinham já chegado Príncipes e Cavaleiros que tomavam parte no torneio. Mas, ao mesmo tempo que havia todo este regozijo, havia também um desgosto enorme porque a Princesa mais nova tinha perdido a fala e não fazia senão chorar. Por mais carinhos de que a rodeassem tudo era baldado, e o pai só tinha esperança de a ver boa se algum dos nobres Cavaleiros que vinham ao torneio conseguisse tocar-lhe o coração. Quem estas informações estava dando ao ''Homem da moca'' era um ourives de grande fama, que, pelos vistos, curava mais das vidas alheias que dos afazeres. Estavam nesta conversa quando lhe vieram dizer que; sem falta, o Rei queria as pinhas no dia seguinte, sob pena de morte. Ficou o homem muito aflito e ''O da moca'' perguntou-lhe o que tinha. — O que hei-de ter?! Decerto que vou à morte, porque Sua Majestade encomendou-me seis pinhas de oiro para mandar colocar na balaustrada da tribuna real; ora as encomendas têm sido tantas que não pude encontrar oficiais que me ajudassem. — Não se apoquente (disse Benvindo), que eu também sou ourives, e sei fazer todas as obras, ainda as mais delicadas. Dê-me o senhor a ferramenta, o oiro e o modelo; deixe-me ir só para um quarto bem fechado, e eu me comprometo a fazer-lhe o que deseja. O ourives deu-lhe tudo quanto ele pediu. O rapaz foi para o quarto, mas, em lugar de trabalhar, meteu-se na cama e dormiu, como um justo, até à noite. À ceia chamaram-no e ele foi logo, comendo com tal apetite que admirava a toda a família da casa. Depois pegou numa luz e foi para o quarto fingir que trabalhava. Antes de se ir deitar foi o ourives ver o adiantamento da obra, e não vendo nada feito desatou a chorar. — Ó homem, vá-se deitar e descanse, que há-de ter as pinhas. — Hei-de ter, hei-de! O senhor fala assim porque não tem a sua vida em perigo. O Rei manda-as buscar amanhã; o que hei-de fazer?! — Já lhe disse que as venha buscar daqui a pouco, pois estarão prontas. O ourives, não se fiando em tais palavras saiu do quarto, desanimado. Mal fechou a porta, ''O da moca'' meteu a mão no bolso e tirando a orelha do Diabo esfregou com ela na parede. Imediatamente o tal sujeito apareceu gritando: — Ai a minha orelha! Dá cá a minha orelha! — Hei-de dar-ta, descansa, mas só quando não precisar de ti. Conta com isto e vai-te portando bem, se a queres!... — Então para que me chamaste? — Para me fazeres seis pinhas de oiro e brilhantes do feitio desta que está aqui. Sentou-se o Diabo à mesa e, pegando no oiro, imediatamente o transformou em seis pinhas cravejadas de brilhantes, feitas com tal perfeição e arte que nada havia a dizer. O rapaz escondeu cinco numa gaveta e, chamando o ourives, mostrou-lhe uma, dizendo com todo o desassombro: — Já acabei esta; diga se está boa para assim fazer as outras. Era tal o seu brilho e beleza que nem o ourives ousou tocar-lhe e, caindo de joelhos, beijou as mãos do artista genial que tinha em sua casa. Ao outro dia mandaram as seis pinhas. Estava o Rei com a sua Corte e numerosos hóspedes quando chegou o portador. Aberta a caixa ficaram todos deslumbrados, não havendo elogios que não fizessem ao ourives. O boato correu logo e, como nas festas que se projectavam todos queriam mostrar o seu gosto e riqueza, foram tantas as encomendas que fizeram ao artista célebre, que ele não tinha mãos a medir. Aceitava-as todas, porque ''O da moca'' encarregava-se de fazer tudo dum dia para o outro. A orelha do diabo é que dessa vez ia ficando em lastimável estado. O ourives ganhava rios de dinheiro, tanto mais que ele quis dividir com Benvindo e este nada aceitou. Chegou finalmente o primeiro dia de torneio. Estava tudo a postos; o Rei, as Princesas, e toda a Corte nas tribunas; os Cavaleiros armados como se fossem para cruel batalha, prestes a lançarem-se uns contra os outros para mostrarem às suas damas como eram valorosos. Acabavam os arautos de tocar as suas trompas, dando o sinal de combate, quando um cavaleiro todo vestido de armas pretas, montando um belo animal preto como azeviche, saltou por cima das barreiras, e, vindo parar em frente da tribuna real, fez uma profunda vénia. Voltou-se para os Cavaleiros e gritou-lhes arrogante: — Para combater-vos vim, senhores! Um a um, dois a dois, dez a dez, ou todos juntos se quiserdes, eu vos receberei na ponta da minha lança. Despeitadíssimos ficaram todos os reptados e todos à uma correram para o desconhecido, ansiosos de tirar vingança dum tal atrevimento. Mas recuaram logo, envergonhados de tal movimento, pois seria caso nunca visto, entre nobres Cavaleiros, irem tantos contra um. Só o ''Arranca-pinheiros'' e o ''Revolve-montes'' — que eram agora dois nobres senhores da Corte, futuros genros do Rei — foram para a frente combater ''O da moca'', que outro não era o desconhecido de armas pretas. Fortes eram eles, mas faltava-lhes a coragem sem a qual a força pouco mais vale do que nada. Benvindo, que bem os conhecia, correu para eles com ímpeto e derribou-os logo das selas. Em vista deste feito, saiu dentre os campeões o Príncipe de maior fama que nesse tempo havia e apresentou-se a desafiar ''O da moca''. Este, sem lhe fazer mal, enfiou a lança pela armadura e fê-lo ir cair no meio da arena. As palmas retumbaram de todos os lados, e o Rei mandou ir à sua presença o vencedor do dia. Quando isto lhe disseram, recusou apresentar-se. Mandou o Rei que logo o prendessem, e ele, com a espada em sarilho, livrou-se de todos, e, chegando defronte da Princesa mais velha, atirou-lhe com o leque para o regaço. Assombrada, gritou amenina: — Meu pai, meu pai, foi este que nos salvou! Irritado com a teimosa recusa do desconhecido, ordenou o Rei que de qualquer modo o agarrassem. Nada importou ao Cavaleiro, que, abrindo passagem por entre o povo, fez saltar o cavalo por cima de tudo e desapareceu. Ficaram desesperados de não terem podido apanhar o famoso Cavaleiro de armas pretas e o seu cavalo, a mais perfeita estampa que todos tinham visto, notando-se-lhe só a falta de uma orelha, coisa que muito dava que pensar. No dia seguinte havia novo combate, e o Rei, para apanhar o desconhecido, mandou altear as balizas e pôr tropa em volta do campo para o prenderem e lho trazerem, vivo ou morto. Mal os arautos deram o sinal de combate, viram todos, com assombro, um cavaleiro vestido de vermelho, montando um cavalo da mesma cor, que parecia deitar chamas pelos olhos e pela boca. Saltou por cima de tudo e de todos e veio estacar em frente da tribuna real. Já ninguém tirava os olhos dele, pois tinham a certeza de que era o mesmo da véspera, porque ao cavalo faltava também uma orelha. Os Cavaleiros, como tinham o apoio do Rei, concordaram em se lançar todos à uma sobre o atrevido campeão, mas o espanto e o desespero foram grandes, vendo-se perdidos diante de tanta coragem e força. Em pouco tempo desarmara todos, sem a nenhum matar. Tinha o Rei dado as suas ordens e atropa rodeou ''O da moca'' para lhe deitar a mão, mas este com tal destreza e brio se houve que pôde chegar junto da segunda Princesa e atirar-lhe com o ramo para o regaço. A menina, admiradíssima, gritou: — Meu pai, não o deixe fugir, que foi ele quem nos salvou! Mas quem podia ter mão em tal senhor?! Saltando por cima de tudo, ia a desaparecer, quando um soldado atrevido atirou um dardo que se lhe foi cravar na perna direita. Sem parar, foi com a mão para o arrancar, mas tão enterrado estava que se partiu. Atirou com o pedaço fora e continuou a fugir. O soldado deu parte ao Rei do que tinha feito. Foram logo prevenidos todos os cirurgiões da cidade para, sob pena de morte, entregarem o Cavaleiro, se por acaso fossem chamados para o tratar. Mas Benvindo não era homem que se incomodasse com tão pouco. Mal chegou a casa foi para o quarto, acabou de arrancar o ferro, lavou a ferida, e, depois de a ligar, deitou-se e adormeceu. O ourives andava intrigado com as frequentes saídas do seu oficial, e, vendo-o nesse dia entrar a coxear, foi de mansinho espreitar o que ele fazia. Ficou muito admirado de todo aquele aparato, e, quando o rapaz foi chamado para jantar, entrou-lhe no quarto e viu que era parte de um dardo o que ele tinha arrancado da perna. Compreendeu logo que tinha em sua casa o misterioso Cavaleiro e ficou contentíssimo de tal honra, mas fingiu nada saber. Era o dia seguinte o último do torneio e o Rei mandou estar tudo a postos, porque, apesar de o saberem ferido, todos esperavam ver chegar o desconhecido campeão. Mal os arautos tocaram para principiar o combate, viram com espanto um Cavaleiro todo vestido de azul, como sempre de vizeira caída, montando um cavalo também azul e com uma orelha de menos. Saltou por cima de tudo para ir fazer a sua vénia diante da tribuna real. A terceira Princesa — que para nada tinha olhos e que ainda não tinha falado desde que chegara ao palácio — mal ele apareceu ficou outra e nunca mais o perdeu de vista. O ''Arranca-pinheiros'' e o ''Revolve-montes'' é que andavam desconfiados, e, como eram dois traidores e cobardes, deixaram-se ficar na tribuna. Nesse dia desceu à liça o próprio Rei, armado de ponto em branco, e desafiou o desconhecido. — Como te chamas, Cavaleiro? — Benvindo, Senhor, é o meu nome, mas Cavaleiro não sou. Tenho-me apresentado como tal, e, para combater com outros senhores, assim me apresentaria sempre; mas nunca para cruzar o meu ferro com o vosso. Chamai todos os Cavaleiros e dos mais esforçados que a todos vencerei, mas nunca me obrigareis a defender-me da vossa real espada. Em vista disto, mandou o Rei que vinte homens se defrontassem com o desconhecido, dizendo: — Tenho tanto empenho em o conhecer que desejo tê-lo vivo e prisioneiro, ou vencido e morto. Aí estão vinte Cavaleiros dos mais valentes, defendei-vos! É escusado dizer que a todos venceu, ficando ele só no meio da arena e os outros desmontados e sem armas. Depois chegou junto da Princesa mais nova e atirou-lhe com a roca de oiro para o regaço. Mal isto fez, a Princesa, que ainda não tinha falado, gritou: — Ai, meu pai, que é o nosso salvador! E tamanha foi a sua alegria que perdeu os sentidos. O Cavaleiro fugiu. Mas, com o esforço que fez ao saltar por cima das balizas altíssimas, a ferida, mal fechada, abriu-se de novo e deixava um rasto de sangue por onde ele ia passando. Seguindo este sinal foram os soldados ter a casa do ourives, que os recebeu à porta, dizendo que ali não tinha entrado Cavaleiro algum e só com ele tinha o seu ajudante. Como se não pôde apurar nada sobre o destino do misterioso Cavaleiro mandou o Rei que se marcasse o dia do casamento das duas Princesas mais velhas com os seus falsos salvadores. A mais nova é que outra vez perdera a fala e não havia quem a pudesse distrair. No dia marcado para os casamentos foi o ourives ao paço, pedindo para falar imediatamente ao Rei. Chegando junto do Soberano, e, depois de interrogado, disse: — Venho perguntar se ainda quereis saber quem foi o vencedor do torneio. — Decerto que quero; é o meu maior empenho. Por acaso sabes tu onde se esconde esse valente; que desejaria cumular de honras? — Em minha casa está há quatro semanas e foi a minha providência. Contou então tudo o que lhe tinha acontecido. O Rei, muito contente, mandou logo chamar o ajudante do ourives, que se apresentou com o seu fato ordinário e encostado à ''moca'', sem nenhuma aparência de grandeza. Perguntou-lhe o Rei: — Como te chamas? — Benvindo, Senhor. Também outros me chamam o ''Homem da moca'', por causa desta arma que trago sempre comigo. — Para que fugias? — Porque temia desagradar-vos, vindo onde não era chamado. — Agora me lembro — disse o Rei — as minhas três filhas disseram que eras o seu salvador. Foste realmente quem as salvou? — Fui eu e só eu! — Então estes dois?! E o Rei mostrava os traidores, que, tendo reconhecido ''O da moca'', estavam enfiados e confundidos. — Esses dois — respondeu ele — eram meus criados e fugiram com as Princesas, que eu tinha salvo, deixando-me no fundo de um poço. — Mas como provas tu isso? Como podes tu provar que és o Cavaleiro valoroso que apareceu no torneio? — Em primeiro lugar, com o soldado que me feriu; em segundo, com o testemunho das vossas próprias filhas; em terceiro, com o do meu cavalo, que, esteja onde estiver, em eu chamando por ele logo aparece. Mandou o Rei chamar o soldado e perguntou-lhe: — Onde feriste o cavaleiro desconhecido? — Na perna direita, Senhor. Levantou o rapaz acalça e mostrou a ferida ainda mal cicatrizada; depois entregou ao Rei metade do ferro que ajustava perfeitamente ao pedaço que lhe trouxera o soldado. Não de todo convencido, mandou o soldado embora e que chamassem as Princesas. As meninas, mal viram o rapaz, reconheceram-no logo, e, saltando-lhe ao pescoço, começaram a gritar: — Foi este, foi este que nos salvou! À mais nova voltou logo a fala e disse ao pai que morreria senão casasse com aquele corajoso rapaz. Contaram tudo ao Rei, e ele muito contente abraçou-o, chamou-lhe filho, e entregou-lhe os dois mariolas para ele se vingar. Os miseráveis cairam de joelhos, pedindo mil perdões, e ''O da moca'' disse-lhes: — Eu nem vos quero tocar para me não sujar; vou entregar-vos ao meu cavalo. Esfregou na parede a orelha do Diabo e logo todos sentiram um formidável tropel e viram — galgando rios e montes — aparecer o cavalo preto, que diante do dono se pôs quedo e manso. — Bem, agora montem vocês para cima e agarrem-se bem — disse ele a rir aos dois traidores. E dirigindo-se ao cavalo: — Aqui tens estes figurões que eu te dou de presente, em paga dos teus bons serviços. E aqui tens também a orelha que te prometi; mas tu prometes-me também nunca me fazer mal, nem a mim nem a ninguém que eu estime, não é verdade? — Sim! — respondeu em pavoroso grito o diabólico animal. Então, obrigaram os dois a montar, e cavalo e cavaleiros elevaram-se nos ares. O ''Homem da moca'', ''Benvindo'', ou o ''Cavaleiro Desconhecido'', que todas estas designações tinha, casou com a Princesa mais nova e foi o herdeiro do trono, porque as duas Princesas mais velhas nunca quiseram casar, certas de que não havia no Mundo outro homem tão valente e leal. [[Categoria:Contos portugueses]] sty028alzrifi047uc8wsmz5ca79cjt 559683 559682 2026-08-20T15:21:57Z Mt516 43586 559683 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O Homem da moca | anterior = [[../Prefácio/]] | posterior = [[../História do careca/]] | notas = }} <big>'''O HOMEM DA MOCA'''</big> HAVIA numa terra, que não vem para aqui dizer o nome, um rapaz dotado duma força tal que nenhum homem se atrevia a lutar com ele. Mas, como era bom e alegre, todos o convidavam e lhe chamavam o Benvindo significando assim o prazer que sentiam com a sua companhia. Um dia aborreceu-se de viver ali e resolveu ir viajar. Mandou fazer uma grande moca de ferro e, encostando-se a ela, partiu sem destino, ao acaso da sua fantasia. Passou por um pinhal e viu um homem que arrancava grandes pinheiros com a maior facilidade e os atava em molho como se fossem ramos secos. O ''Homem da moca'' perguntou ao outro o que andava a fazer e, como lhe respondesse que andava ajuntar lenha para o seu lume e tencionava levar duma vez as árvores todas, ficou muito contente de encontrar um homem com tanta força e propôs-lhe serem companheiros, pagando-lhe ele soldada. O ''Arranca-pinheiros'' aceitou logo e, satisfeitos de serem dois valentes sem medo a coisa alguma, continuaram a jornada. Depois de muito caminharem e de verem inúmeras terras sem nunca encontrarem quem os vencesse, viram no meio dum campo um homem só com uma montanha às costas. Admirados, perguntaram: — Olá, tu que fazes aí? — Eu tenho muita força e para me entreter quero mudar esta montanha. — Deixa-te disso — acudiu ''O da moca'' — vem daí connosco ver terras, que eu pago-te soldada como pago a este. O ''Revolve-montes'' aceitou e lá. foram os três valentes correr mundo. Eram a admiração de toda a gente e muitos Reis e Imperadores os quiseram fazer generais dos seus exércitos. Mas o ''Homem da moca'' nada mais desejava do que ver terras, correr mundo e conhecer novas gentes. Assim foram andando até que uma noite acharam-se num descampado onde havia uma casa. Não vendo más nem boas, para ali se dirigiram e ficaram verdadeiramente espantados por encontrarem uma boa casa completamente abandonada. Benvindo, que não era homem para meias medidas, entrou por ali dentro, tomou posse de tudo e disse aos companheiros que era preciso fazer a ceia e então que fosse um deles ver se encontrava quem lhe desse ou vendesse coisa que pudessem comer. Saiu o ''Arranca-pinheiros'' e, como visse fogueiras na serra, discorreu que eram os pastores e foi comprar um carneiro e bom leite. Por conversa perguntou de quem era aquela grande casa e porque razão estava assim abandonada. Responderam-lhe os pastores: — A casa lá de baixo?! Ai senhor, Deus o livre de lá ficar! — Mas porquê, homenzinhos?! Digam sempre, que nós somos três companheiros invencíveis, sem medo a coisa alguma. — Pois os senhores serão muito valentes, ninguém diz menos disso (responderam os pastores), mas é que naquela casa anda o Diabo e quem lá ficar morre! — Vamos a ver se ele é mais forte do que nós! Foi ter com os companheiros e, contando oque lhe tinham dito os pastores, pediu a Benvindo que se fosse deitar mais o ''Revolve-montes'', que ele ficaria fazendo a ceia. Assim foi; os dois subiram para os quartos e o ''Arranca-pinheiros'' tratou de esfolar o carneiro e pô-lo a assar no espeto, ao mesmo tempo que deitava o leite num tacho para ferver. Estava nestes preparativos quando ouviu uns ''miaus'' terríveis. Voltou-se e deu de cara com um gatarrão, preto como o azeviche, que abria uma boca enorme miando desesperadamente. Era tão medonho o animal que o ''Arranca-pinheiros'', apesar da sua valentia, fugiu pela escada acima, chamando os companheiros. Entretanto foi o gato ao lume e levantou tal labareda que o carneiro ficou em carvão e o leite em fervura fugiu todo do tacho. Vieram os companheiros ver o gato famoso que havia afugentado o valente, mas nada encontraram. O ''Homem da moca'' muito zangado mandou pôr a ceia na mesa, mas a ceia era uma vez!, tiveram que se deitar sem ela. Ao outro dia quiseram os dois ir-se embora, mas ''O da moca'', tendo empenho de conhecer a coragem dos seus homens, resolveu ficar. Mandou outra vez comprar um carneiro e leite e nessa noite foi o ''Revolve-monte''s quem ficou a fazer a ceia. Mal o homem tinha posto tudo ao lume, ouvindo o sinistro miar do gato, largou barcos e redes e foi acorrer ter com os companheiros gritando que estava ali o Diabo com forma de gato, a deitar lume pelos olhos! Os outros desceram e não viram nada, mas, como na véspera, tiveram que ficar sem ceia — porque tudo estava reduzido a carvões. Na noite seguinte mandou ''O da moca'' deitar os dois e ficou ele a cozinhar a ceia, pondo ao pé de si a arma sua fiel companheira. Tinha já a ceia pronta e estava para chamar os outros dois, quando ouviu o gato a miar. Olhou para o lado, viu o bicho e disse-lhe: — Anda para cá com o teu ''renhau-nhau'', que eu te ensino! O gato, sem fazer caso, ia-se aproximando do lume; e o homem, sempre com olhos nele, pegou na moca e quando o viu ao alcance levantou-a ràpidamente e arrumou-lhe tamanha pancada que o bicho deu um berro medonho e desapareceu. — Então não te dizia eu que me havias de pagar!? Deixares-me duas noites sem ceia!? Ora toma lá para não seres esperto! — dizia ele todo contente. Chamou os companheiros para a ceia, e eles, que já o imaginavam cheio de susto, ficaram envergonhados de o verem a rir muito satisfeito da sua proeza. Cearam com todo o descanso e apetite, e depois disse ''O da moca'': — Agora vamos procurar o gato, que ele deve estar por aí escondido em algum canto. Respondeu o ''Arranca-pinheiros'': — Então como havemos de o encontrar? — Procurando-o, meu bruto! Pois tu não vês que deixou rastro de sangue? ''O da moca'', sempre na frente, foi seguindo e, depois de percorrerem lojas, subterrâneos e velhos casarões abandonados, chegaram a um pátio interior onde havia um poço. Terminava ali o rastro de sangue, que ainda se via na borda. — Bom! (disse Benvindo). Foi por aqui que ele se meteu, e nós vamos lá abaixo procurá-lo. — Como havemos nós de descer? — perguntaram os outros, sempre atrapalhados. — Isso já se arranja. Fiquem vocês aguardar a saída, que eu já volto. Foi à cozinha, onde tinha visto cordas e cestos, escolheu um com quatro asas e trouxe tudo para aborda do poço. Atou as cordas às quatro asas do cesto e fazendo entrar para dentro o ''Arranca-pinheiros'' deu-lhe uma campainha dizendo: Tu vais descer lá ao fundo e ver o que há para vires contar; levas esta campainha, se te vires aflito toca-a com força que nós içamos-te logo. O ''Arranca-pinheiros'' lá se meteu no cesto e os dois começaram a deixá-lo cair devagarinho. Estaria por aí a meio do poço, começou a tocar a campainha com tal fúria que os outros o subiram logo. Perguntou ''O da moca'': — Então para que tocaste? O que viste? — Ih, Jesus! eram tantos os mosquitos que não era possível romper. Até me iam abafando! — És um bruto que só tens força e não tens coragem nenhuma. Agora vai tu, ''Revolve-montes''. Meteu-se este no cesto e foi descendo, mas quando estaria a duas terças partes do caminho desanda a tocar numa tal fúria que não houve mais remédio senão tirá-lo. Chegou acima e disse o mesmo que tinha dito o ''Arranca-pinheiros''. ''O Homem da moca'' ficou tão zangado que ele próprio se meteu no cesto e recomendou que ouvindo tocar não o subissem porque isso apenas queria dizer que precisava descer mais depressa; que só içassem o cesto quando ele abanasse as cordas. Assim foi. A meio do poço, como eram tantos os mosquitos que já o atabafavam, começou a tocar e os de cima vá de largar corda. Foi um instante enquanto se viu com os pés no chão. Saiu do cesto e ficou maravilhado. Dos mosquitos nem sinal! E o fundo do poço não era mais que um palácio, todo de cristal, iluminado como se fosse dia. Começou a percorrer salas e quartos e por toda a parte as riquezas eram tais e tantas que ele se imaginava a sonhar. Assim andou, sem ver ninguém, até encontrar uma Velha que, admirada e compungida, lhe disse: — Que vens aqui fazer, desgraçado? Pois tu não sabes onde estás?! — Para o saber é que venho — respondeu ele arrogante — e se tu não mo dizes, com esta moca te esmago já. Porque é de saber que ele nunca largava a sua arma. A Velha, vendo-se perdida com semelhante ameaça, disse logo: — Espera lá, espera lá, que eu tudo te conto. Olha, naquele quarto está a filha mais velha dum grande Rei, guardada por um leão. Se ele te vê, devora-te. No segundo quarto está a segunda filha do mesmo Rei, guardada por uma serpente, a maior que existe no Mundo. Se lhe apareces, decerto que te engole. E no terceiro quarto está a terceira Princesa que, por ser a mais bela de todas, é guardada pelo próprio Diabo. — Hum! Pois a procurar esse ''figurão'' é que eu vim. Deixa, que ele já provou a minha moca; então vai renovar conhecimentos. — Não — disse a Velha — não fazes nada com isso. Visto que ele já sabe quanto pesa a tua bengala não há-de querer mais brincadeiras dessas. Naturalmente propõe-te um duelo à espada, e tu aceita logo; mas quando ele vier com as espadas, uma muito nova e brilhante, outra muito ferrugenta, escolhe tu esta que a outra é de vidro. — Tu estás a enganar-me? — Não estou, não; previno-te porque assim me vingo dele que me tem presa aqui desde a minha mocidade. Não digas que me viste, é só o que te peço. O rapaz dirigiu-se logo para a primeira porta, abriu-a e encontrou uma linda menina, sentada num banco de oiro, abanando-se com um leque de rendas preciosas. Quando ela o viu entrar, gritou-lhe: — Que vem aqui fazer, desgraçado?! Fuja, que é um leão o meu guarda; se o encontra, mata-o logo. — Pois, minha linda Princesa, eu é que venho para o matar a ele e então já daqui não saio. Mal isto disse, um rugido medonho fez tremer todo o palácio e o homem não teve senão tempo de se meter atrás da porta, enquanto a Princesa, estarrecida de susto, o encomendava a todos os Santos. Abriu-se a porta com formidável estrondo e o leão rugiu: — Aqui há humana criatura!... Mas nem a Princesa teve tempo de responder porque o ''Homem da moca'' descarregou tamanha pancada na cabeça do monstro que ele ficou logo morto. Depois agarrou na Princesa ao colo e foi a correr metê-la no cesto. Deu um grande puxão à corda, que começou logo a subir, e disse à Princesa que mandasse descê-lo, para irem as irmãs. Ela despediu-se, dando-lhe em sinal de reconhecimento o seu precioso leque. Vitorioso daquele primeiro inimigo, dirigiu-se ao segundo quarto. Abriu aporta e deparou com uma menina, se era possível, ainda mais linda do que a primeira. Sentada junto duma mesa, tinha na mão um ramo de mil flores feito de pedras preciosas. Mal viu o rapaz, disse-lhe com tristeza: — Fuja depressa, que a minha guarda é uma serpente, e se aqui o apanha mata-o logo. — Não fugirei, minha linda Infanta, porque já salvei a sua irmã e aqui estou para a salvar também. Mal tinham dito estas palavras ouviram um silvo medonho e uma serpente monstruosa apareceu: — Quem está aqui a falar?! Não respondeu a menina, que Benvindo, rápido como um relâmpago, saiu de trás da porta e deu tal pancada no mostrengo que ele ficou logo ali despedaçado. A menina, doida de contentamento, saltou-lhe ao pescoço e ele pegou nela ao colo e foi acorrer metê-la no cesto. Sacudindo as cordas fortemente, fez-lhe a recomendação de o mandar descer para ir a terceira Princesa. Ela prometeu, e como prova de reconhecimento deu-lhe também o seu ramo. Mal o cesto começou a subir, foi a correr ao terceiro quarto, abriu a porta e ficou deslumbrado vendo a terceira Princesa, que era a mais linda de todas. Nada havia no mundo a que a comparar, porque a sua formosura parecia divina. Sentada num banquinho de marfim, fiava numa roca feita dum só brilhante. Mal deu com os olhos no rapaz ficou muito contente e ao mesmo tempo admirada, porque homens era coisa que nunca vira, tendo sido roubada pelo Diabo logo que nasceu. Depois ficou muito triste, dizendo: — O que vem aqui fazer, infeliz? Não sabe que é o Diabo quem me guarda? Que é ele o senhor deste palácio, que é ele quem aqui tudo manda, e se o apanhar o matará?! — Pois à procura dele venho eu (disse Benvindo). Até já me está tardando encontrar-me com esse sujeito para o ensinar bem ensinado. — É que nem o senhor sabe quem ele é; se cá o apanha mata-o logo. — Veremos isso!... — Olhe, lá vem ele! — E, muito aflita, pôs-se a menina afiar disfarçadamente, enquanto ''O da moca'' se metia atrás da porta. Nisto sentiu-se um formidável barulho, todo o palácio estremeceu, e, como um furacão, entrou o Diabo a gritar: — Aqui está gente!... O rapaz ia a descarregar-lhe uma violenta pancada, mas o ''inimigo'', que era mais fino do que fora o leão e do que a serpente; desviou-se para o lado com um salto, dizendo: — Nada, lá com a moca é que não! Já uma vez me deste com ela que me ias arrebentando. Entre valentes o caso vai doutra maneira. Havemos de nos bater à espada. — Pois seja; aceito. Vai lá buscar as espadas. Se tu ficares vencedor, matas-me; se eu te vencer a ti, levo esta menina e tu nunca mais te meterás comigo. — Está dito! — respondeu o Diabo. E muito contente foi buscar duas espadas, uma muito reluzente e outra muito ferrugenta. Queria entregar a brilhante ao rapaz, mas ele recordou-se do conselho da Velha, lançou mão da outra, dizendo em ar de graça: — Nada de cerimónias, amigo; eu não sou para essas delicadezas. E levantando a espada começou o combate partindo em mil pedaços a que tinha o Diabo e dando-lhe tal cutilada que lhe cortou uma orelha. Vencedor, nem esperou que voltasse a si da surpresa o seu adversário; apanhou a orelha e meteu-a no bolso. Depois pegou na menina e foi a correr pô-la no cesto, dizendo-lhe que mandasse o descessem, para ele depois subir. A lindíssima Princesa, agradecendo-lhe muito, queria que ele subisse no mesmo cesto, com medo que ainda o Diabo lhe fizesse alguma. Mas o cesto era pequeno para os dois. Benvindo tratou de a sossegar, e ela, em sinal da sua imensa gratidão, deu-lhe a roca. Ali ficou Benvindo à espera; e fartou-se de esperar que lhe deitassem o cesto para ele subir. Mas isso é que não podia acontecer porque mal se viram com as Princesas, os falsos foram-se embora com elas, sem quererem saber do companheiro que as tinha ido libertar. As Princesas não queriam ir, mas não podiam resistir à força deles. Só a mais nova chorou e se afligiu tanto que perdeu a fala. Dirigiram-se para o Reino do pai das Princesas, o qual ficou tão contente que não se pode dizer mais. Em sinal de regozijo decretou logo grandes festas e um torneio esplêndido, para solenizar tão grande ventura e, ao mesmo tempo, fazer público o casamento das duas Princesas mais velhas com os que se inculcavam seus libertadores. Só no meio de tanta felicidade havia o imenso desgosto da Princesa mais nova ter perdido a fala. Por mais que lhe dissessem e fizessem, ela nada respondia e a sua vida era chorar. Por esse motivo resolveu o Rei dar três grandes torneios para reunir na sua capital todos os Príncipes e Cavaleiros do Mundo, a ver se à Princesa lhe voltava a fala e escolhia marido. <p style="text-align: center;">* * *</p> ''O da moca'', que ficou no fundo do poço, farto de esperar e tornar a esperar, convenceu-se de que tinha sido enganado e jurou vingar-se. Sair dali é que era o principal e também o mais difícil. Andou para um lado e para o outro, percorreu todo o maravilhoso palácio subterrâneo, mas ninguém encontrou. Passados três dias, já desesperado, voltou ao fundo do poço, lembrou-se que tinha no bolso a orelha do diabo e cheio de raiva esfregou-a com muita força na parede, dizendo: — Este é que tem a culpa de tudo. Ouviu logo uma voz gritar: — Ai, minha rica orelha, dá-me cá a minha orelha!... — Não dou! Põe-me lá em cima imediatamente, senão ainda farei pior. Não viu o Diabo mais remédio senão aparecer e dizer-lhe que montasse nos seus ombros, que seria um instante enquanto o levaria. O rapaz subiu e ei-los aí vão pela terra acima. A meio do poço diz o Diabo: — Não me apertes tanto, olha que me afogas! — Nada, não hei-de apertar! O que tu agora querias era largar-me. E, apertando ainda mais o pescoço do Diabo, num momento se apanhou em cima. Mal se viu ao ar livre, correu em procura dos companheiros e das Princesas, mas ninguém lhe dava sinais certos da sua passagem. Andando e perguntando, chegou à grande cidade onde eles agora estavam. Logo ali soube as alegrias que iam no Paço, do casamento das duas irmãs mais velhas e dos preparativos que, para o torneio e mais festas, se faziam. De toda a parte do Mundo tinham já chegado Príncipes e Cavaleiros que tomavam parte no torneio. Mas, ao mesmo tempo que havia todo este regozijo, havia também um desgosto enorme porque a Princesa mais nova tinha perdido a fala e não fazia senão chorar. Por mais carinhos de que a rodeassem tudo era baldado, e o pai só tinha esperança de a ver boa se algum dos nobres Cavaleiros que vinham ao torneio conseguisse tocar-lhe o coração. Quem estas informações estava dando ao ''Homem da moca'' era um ourives de grande fama, que, pelos vistos, curava mais das vidas alheias que dos afazeres. Estavam nesta conversa quando lhe vieram dizer que; sem falta, o Rei queria as pinhas no dia seguinte, sob pena de morte. Ficou o homem muito aflito e ''O da moca'' perguntou-lhe o que tinha. — O que hei-de ter?! Decerto que vou à morte, porque Sua Majestade encomendou-me seis pinhas de oiro para mandar colocar na balaustrada da tribuna real; ora as encomendas têm sido tantas que não pude encontrar oficiais que me ajudassem. — Não se apoquente (disse Benvindo), que eu também sou ourives, e sei fazer todas as obras, ainda as mais delicadas. Dê-me o senhor a ferramenta, o oiro e o modelo; deixe-me ir só para um quarto bem fechado, e eu me comprometo a fazer-lhe o que deseja. O ourives deu-lhe tudo quanto ele pediu. O rapaz foi para o quarto, mas, em lugar de trabalhar, meteu-se na cama e dormiu, como um justo, até à noite. À ceia chamaram-no e ele foi logo, comendo com tal apetite que admirava a toda a família da casa. Depois pegou numa luz e foi para o quarto fingir que trabalhava. Antes de se ir deitar foi o ourives ver o adiantamento da obra, e não vendo nada feito desatou a chorar. — Ó homem, vá-se deitar e descanse, que há-de ter as pinhas. — Hei-de ter, hei-de! O senhor fala assim porque não tem a sua vida em perigo. O Rei manda-as buscar amanhã; o que hei-de fazer?! — Já lhe disse que as venha buscar daqui a pouco, pois estarão prontas. O ourives, não se fiando em tais palavras saiu do quarto, desanimado. Mal fechou a porta, ''O da moca'' meteu a mão no bolso e tirando a orelha do Diabo esfregou com ela na parede. Imediatamente o tal sujeito apareceu gritando: — Ai a minha orelha! Dá cá a minha orelha! — Hei-de dar-ta, descansa, mas só quando não precisar de ti. Conta com isto e vai-te portando bem, se a queres!... — Então para que me chamaste? — Para me fazeres seis pinhas de oiro e brilhantes do feitio desta que está aqui. Sentou-se o Diabo à mesa e, pegando no oiro, imediatamente o transformou em seis pinhas cravejadas de brilhantes, feitas com tal perfeição e arte que nada havia a dizer. O rapaz escondeu cinco numa gaveta e, chamando o ourives, mostrou-lhe uma, dizendo com todo o desassombro: — Já acabei esta; diga se está boa para assim fazer as outras. Era tal o seu brilho e beleza que nem o ourives ousou tocar-lhe e, caindo de joelhos, beijou as mãos do artista genial que tinha em sua casa. Ao outro dia mandaram as seis pinhas. Estava o Rei com a sua Corte e numerosos hóspedes quando chegou o portador. Aberta a caixa ficaram todos deslumbrados, não havendo elogios que não fizessem ao ourives. O boato correu logo e, como nas festas que se projectavam todos queriam mostrar o seu gosto e riqueza, foram tantas as encomendas que fizeram ao artista célebre, que ele não tinha mãos a medir. Aceitava-as todas, porque ''O da moca'' encarregava-se de fazer tudo dum dia para o outro. A orelha do diabo é que dessa vez ia ficando em lastimável estado. O ourives ganhava rios de dinheiro, tanto mais que ele quis dividir com Benvindo e este nada aceitou. Chegou finalmente o primeiro dia de torneio. Estava tudo a postos; o Rei, as Princesas, e toda a Corte nas tribunas; os Cavaleiros armados como se fossem para cruel batalha, prestes a lançarem-se uns contra os outros para mostrarem às suas damas como eram valorosos. Acabavam os arautos de tocar as suas trompas, dando o sinal de combate, quando um cavaleiro todo vestido de armas pretas, montando um belo animal preto como azeviche, saltou por cima das barreiras, e, vindo parar em frente da tribuna real, fez uma profunda vénia. Voltou-se para os Cavaleiros e gritou-lhes arrogante: — Para combater-vos vim, senhores! Um a um, dois a dois, dez a dez, ou todos juntos se quiserdes, eu vos receberei na ponta da minha lança. Despeitadíssimos ficaram todos os reptados e todos à uma correram para o desconhecido, ansiosos de tirar vingança dum tal atrevimento. Mas recuaram logo, envergonhados de tal movimento, pois seria caso nunca visto, entre nobres Cavaleiros, irem tantos contra um. Só o ''Arranca-pinheiros'' e o ''Revolve-montes'' — que eram agora dois nobres senhores da Corte, futuros genros do Rei — foram para a frente combater ''O da moca'', que outro não era o desconhecido de armas pretas. Fortes eram eles, mas faltava-lhes a coragem sem a qual a força pouco mais vale do que nada. Benvindo, que bem os conhecia, correu para eles com ímpeto e derribou-os logo das selas. Em vista deste feito, saiu dentre os campeões o Príncipe de maior fama que nesse tempo havia e apresentou-se a desafiar ''O da moca''. Este, sem lhe fazer mal, enfiou a lança pela armadura e fê-lo ir cair no meio da arena. As palmas retumbaram de todos os lados, e o Rei mandou ir à sua presença o vencedor do dia. Quando isto lhe disseram, recusou apresentar-se. Mandou o Rei que logo o prendessem, e ele, com a espada em sarilho, livrou-se de todos, e, chegando defronte da Princesa mais velha, atirou-lhe com o leque para o regaço. Assombrada, gritou amenina: — Meu pai, meu pai, foi este que nos salvou! Irritado com a teimosa recusa do desconhecido, ordenou o Rei que de qualquer modo o agarrassem. Nada importou ao Cavaleiro, que, abrindo passagem por entre o povo, fez saltar o cavalo por cima de tudo e desapareceu. Ficaram desesperados de não terem podido apanhar o famoso Cavaleiro de armas pretas e o seu cavalo, a mais perfeita estampa que todos tinham visto, notando-se-lhe só a falta de uma orelha, coisa que muito dava que pensar. No dia seguinte havia novo combate, e o Rei, para apanhar o desconhecido, mandou altear as balizas e pôr tropa em volta do campo para o prenderem e lho trazerem, vivo ou morto. Mal os arautos deram o sinal de combate, viram todos, com assombro, um cavaleiro vestido de vermelho, montando um cavalo da mesma cor, que parecia deitar chamas pelos olhos e pela boca. Saltou por cima de tudo e de todos e veio estacar em frente da tribuna real. Já ninguém tirava os olhos dele, pois tinham a certeza de que era o mesmo da véspera, porque ao cavalo faltava também uma orelha. Os Cavaleiros, como tinham o apoio do Rei, concordaram em se lançar todos à uma sobre o atrevido campeão, mas o espanto e o desespero foram grandes, vendo-se perdidos diante de tanta coragem e força. Em pouco tempo desarmara todos, sem a nenhum matar. Tinha o Rei dado as suas ordens e atropa rodeou ''O da moca'' para lhe deitar a mão, mas este com tal destreza e brio se houve que pôde chegar junto da segunda Princesa e atirar-lhe com o ramo para o regaço. A menina, admiradíssima, gritou: — Meu pai, não o deixe fugir, que foi ele quem nos salvou! Mas quem podia ter mão em tal senhor?! Saltando por cima de tudo, ia a desaparecer, quando um soldado atrevido atirou um dardo que se lhe foi cravar na perna direita. Sem parar, foi com a mão para o arrancar, mas tão enterrado estava que se partiu. Atirou com o pedaço fora e continuou a fugir. O soldado deu parte ao Rei do que tinha feito. Foram logo prevenidos todos os cirurgiões da cidade para, sob pena de morte, entregarem o Cavaleiro, se por acaso fossem chamados para o tratar. Mas Benvindo não era homem que se incomodasse com tão pouco. Mal chegou a casa foi para o quarto, acabou de arrancar o ferro, lavou a ferida, e, depois de a ligar, deitou-se e adormeceu. O ourives andava intrigado com as frequentes saídas do seu oficial, e, vendo-o nesse dia entrar a coxear, foi de mansinho espreitar o que ele fazia. Ficou muito admirado de todo aquele aparato, e, quando o rapaz foi chamado para jantar, entrou-lhe no quarto e viu que era parte de um dardo o que ele tinha arrancado da perna. Compreendeu logo que tinha em sua casa o misterioso Cavaleiro e ficou contentíssimo de tal honra, mas fingiu nada saber. Era o dia seguinte o último do torneio e o Rei mandou estar tudo a postos, porque, apesar de o saberem ferido, todos esperavam ver chegar o desconhecido campeão. Mal os arautos tocaram para principiar o combate, viram com espanto um Cavaleiro todo vestido de azul, como sempre de vizeira caída, montando um cavalo também azul e com uma orelha de menos. Saltou por cima de tudo para ir fazer a sua vénia diante da tribuna real. A terceira Princesa — que para nada tinha olhos e que ainda não tinha falado desde que chegara ao palácio — mal ele apareceu ficou outra e nunca mais o perdeu de vista. O ''Arranca-pinheiros'' e o ''Revolve-montes'' é que andavam desconfiados, e, como eram dois traidores e cobardes, deixaram-se ficar na tribuna. Nesse dia desceu à liça o próprio Rei, armado de ponto em branco, e desafiou o desconhecido. — Como te chamas, Cavaleiro? — Benvindo, Senhor, é o meu nome, mas Cavaleiro não sou. Tenho-me apresentado como tal, e, para combater com outros senhores, assim me apresentaria sempre; mas nunca para cruzar o meu ferro com o vosso. Chamai todos os Cavaleiros e dos mais esforçados que a todos vencerei, mas nunca me obrigareis a defender-me da vossa real espada. Em vista disto, mandou o Rei que vinte homens se defrontassem com o desconhecido, dizendo: — Tenho tanto empenho em o conhecer que desejo tê-lo vivo e prisioneiro, ou vencido e morto. Aí estão vinte Cavaleiros dos mais valentes, defendei-vos! É escusado dizer que a todos venceu, ficando ele só no meio da arena e os outros desmontados e sem armas. Depois chegou junto da Princesa mais nova e atirou-lhe com a roca de oiro para o regaço. Mal isto fez, a Princesa, que ainda não tinha falado, gritou: — Ai, meu pai, que é o nosso salvador! E tamanha foi a sua alegria que perdeu os sentidos. O Cavaleiro fugiu. Mas, com o esforço que fez ao saltar por cima das balizas altíssimas, a ferida, mal fechada, abriu-se de novo e deixava um rasto de sangue por onde ele ia passando. Seguindo este sinal foram os soldados ter a casa do ourives, que os recebeu à porta, dizendo que ali não tinha entrado Cavaleiro algum e só com ele tinha o seu ajudante. Como se não pôde apurar nada sobre o destino do misterioso Cavaleiro mandou o Rei que se marcasse o dia do casamento das duas Princesas mais velhas com os seus falsos salvadores. A mais nova é que outra vez perdera a fala e não havia quem a pudesse distrair. No dia marcado para os casamentos foi o ourives ao paço, pedindo para falar imediatamente ao Rei. Chegando junto do Soberano, e, depois de interrogado, disse: — Venho perguntar se ainda quereis saber quem foi o vencedor do torneio. — Decerto que quero; é o meu maior empenho. Por acaso sabes tu onde se esconde esse valente; que desejaria cumular de honras? — Em minha casa está há quatro semanas e foi a minha providência. Contou então tudo o que lhe tinha acontecido. O Rei, muito contente, mandou logo chamar o ajudante do ourives, que se apresentou com o seu fato ordinário e encostado à ''moca'', sem nenhuma aparência de grandeza. Perguntou-lhe o Rei: — Como te chamas? — Benvindo, Senhor. Também outros me chamam o ''Homem da moca'', por causa desta arma que trago sempre comigo. — Para que fugias? — Porque temia desagradar-vos, vindo onde não era chamado. — Agora me lembro — disse o Rei — as minhas três filhas disseram que eras o seu salvador. Foste realmente quem as salvou? — Fui eu e só eu! — Então estes dois?! E o Rei mostrava os traidores, que, tendo reconhecido ''O da moca'', estavam enfiados e confundidos. — Esses dois — respondeu ele — eram meus criados e fugiram com as Princesas, que eu tinha salvo, deixando-me no fundo de um poço. — Mas como provas tu isso? Como podes tu provar que és o Cavaleiro valoroso que apareceu no torneio? — Em primeiro lugar, com o soldado que me feriu; em segundo, com o testemunho das vossas próprias filhas; em terceiro, com o do meu cavalo, que, esteja onde estiver, em eu chamando por ele logo aparece. Mandou o Rei chamar o soldado e perguntou-lhe: — Onde feriste o cavaleiro desconhecido? — Na perna direita, Senhor. Levantou o rapaz acalça e mostrou a ferida ainda mal cicatrizada; depois entregou ao Rei metade do ferro que ajustava perfeitamente ao pedaço que lhe trouxera o soldado. Não de todo convencido, mandou o soldado embora e que chamassem as Princesas. As meninas, mal viram o rapaz, reconheceram-no logo, e, saltando-lhe ao pescoço, começaram a gritar: — Foi este, foi este que nos salvou! À mais nova voltou logo a fala e disse ao pai que morreria senão casasse com aquele corajoso rapaz. Contaram tudo ao Rei, e ele muito contente abraçou-o, chamou-lhe filho, e entregou-lhe os dois mariolas para ele se vingar. Os miseráveis cairam de joelhos, pedindo mil perdões, e ''O da moca'' disse-lhes: — Eu nem vos quero tocar para me não sujar; vou entregar-vos ao meu cavalo. Esfregou na parede a orelha do Diabo e logo todos sentiram um formidável tropel e viram — galgando rios e montes — aparecer o cavalo preto, que diante do dono se pôs quedo e manso. — Bem, agora montem vocês para cima e agarrem-se bem — disse ele a rir aos dois traidores. E dirigindo-se ao cavalo: — Aqui tens estes figurões que eu te dou de presente, em paga dos teus bons serviços. E aqui tens também a orelha que te prometi; mas tu prometes-me também nunca me fazer mal, nem a mim nem a ninguém que eu estime, não é verdade? — Sim! — respondeu em pavoroso grito o diabólico animal. Então, obrigaram os dois a montar, e cavalo e cavaleiros elevaram-se nos ares. O ''Homem da moca'', ''Benvindo'', ou o ''Cavaleiro Desconhecido'', que todas estas designações tinha, casou com a Princesa mais nova e foi o herdeiro do trono, porque as duas Princesas mais velhas nunca quiseram casar, certas de que não havia no Mundo outro homem tão valente e leal. [[Categoria:Contos portugueses|O Homem da moca]] d7qm2uxgelnhm2lglpud10asx8sqhxn Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/História do careca 0 255974 559684 559092 2026-08-20T15:24:10Z Mt516 43586 559684 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = História do careca | anterior = [[../O Homem da moca|O Homem da moca]] | posterior = [[../A Bela Felicidade|A Bela Felicidade]] | notas = }} '''<big>HISTÓRIA DO CARECA</big>''' ERA uma vez um pobre homem que tinha um único filho, que estimava muito. O seu ofício era ser forneiro, mas tão miseràvelmente vivia que nem tinha dinheiro para comprar lenha, indo ele mesmo cortá-la às matas. Um dia, andando alabutar na sua vida agarrou o pé de uma giesta muito grossa, e tantos esforços fez para a atrancar que caiu para trás. Quando se levantou ficou admiradíssimo vendo diante de si uma senhora muito linda, que tinha saído do buraco deixado pela raiz da giesta. O homem ficou embasbacado a olhar para ela, sem se atrever a mexer pé nem mão. — Eu sou uma Moira encantada (disse-lhe) e tu vieste perturbar o meu silêncio e abrir a porta do meu palácio. O homenzinho deitou-se de joelhos e começou a clamar: — Senhora Moira, eu andava na minha vida arrancando giestas para aquecer o meu forno, que é o meu ganha-pão, e não podia adivinhar que vos incomodava nem tão pouco que esta raiz fosse a porta do vosso palácio. Perdoai o meu crime involuntário, que eu juro guardar este segredo como se estivesse morto. — Pois bem (respondeu a Moira) vai buscar o teu filho, que eu tomo conta dele, e asseguro-te que hei-de fazê-lo mais feliz do que seria vivendo contigo. E a ti não só te perdoarei como te vou enriquecer pois tudo quanto precisares terás de mim. Em prova da verdade aqui tens já esta bolsa de dinheiro, se prometes trazer-me o teu filho. O homem prometeu, pois salvava a sua vida e fazia a felicidade do rapaz, segundo a Moira dizia. Ao outro dia pegou no filho e levou-o ao mesmo sítio. Logo que chegou, a Moira muito linda dirigiu-se para eles e, pegando na mão do pequeno, desapareceram ambos. Olhou o forneiro para o lado onde tinha preso o seu burro e foi buscá-lo para se ir embora. Mas a sua surpresa foi grande vendo-o arreado de novo, com bons alforjes novos e dentro deles uma farta merenda — boa carne, belos pastéis, pão fresco, doces, e duas garrafas de vinho velho. Na outra bolsa encontrou uma grande quantidade de dinheiro em oiro, novinho e reluzente. Satisfeito por se ver tão rico, saltou para cima do burro e dirigiu-se para casa, mas, como esta ainda era um pouco distante e ele desde manhã que andava a girar, foi-lhe de grande conforto a merenda com que a Moira o presenteara. Chegou à sua velha residência e encontrou-a destruída por um incêndio e bem assim o seu forno. Ficou triste e resolveu sair daquela terra. Foi para uma povoação onde ninguém o conhecia, comprou uma boa casa com quintal, e ali se estabeleceu. Depois, foi sempre comprando propriedades e em breve se tornou o mais rico e influente homem da terra, dando leis naquelas redondezas. O rapaz, levado pela Moira, achou-se de repente num maravilhoso palácio subterrâneo. Nunca vira coisa semelhante — o que não admirava, pois sempre vivera na pobreza — e nem por sonhos imaginara nunca coisa assim! Eram galerias majestosas em que as colunas, feitas de brilhantes e rubis e esmeraldas, tinham um tal brilho que cegava. Havia salas feitas de safiras tão azuis como o céu ou como o mar; outra em que todas as pedras preciosas eram combinadas de tal modo que pareciam um jardim de mil flores. Enfim, eram tantas as riquezas e belezas daquele palácio encantado, que não há palavras que as possam descrever! A Moira entregou-lhe então um molho de chaves, dizendo: — Aqui tens. Ficas senhor de tudo: do meu tesouro de surpreendente riqueza, como da minha alma; deste palácio subterrâneo, onde cada pedra vale mais que afortuna do mais rico Imperador da terra, como da minha beleza eterna e sobre-humana; dos meus cofres recheados de moedas de oiro do tempo dos Califas e tantas que todos os banqueiros do mundo não seriam capazes de as contar ainda que vivessem mil anos. «Em paga de tanto que te dou, só exijo uma coisa: é que nunca vás àquele quarto. Estão lá apenas doze barris de oiro em pó. De nada te podem servir, pois que oiro tens aqui aos montes. «Vê lá! Dou-te a chave para te provar a minha confiança, mas se tocares em qualquer dos barris tudo acabará entre nós! Retiro-te a minha protecção e ficarás abandonado e pobre como eras até aqui. O rapaz ouviu tudo que a Moira disse, prometeu não tocar em tais barris, e, depois de ver todas as maravilhas do palácio, teve uma farta ceia que a Moira lhe serviu, e foi deitar-se. Ali esteve muito tempo sem nunca se aborrecer, pois a Moira não se esquecia de lhe dar tudo quanto ele podia ambicionar para ser feliz. Mas a ideia do quarto fechado e dos doze barris de oiro em pó trabalhava-lhe na cabeça. Nem de noite nem de dia pensava noutra coisa — era uma tentação! Abria a porta do quarto, e, olhando para os barris, dizia consigo: — Mas que terão estes barris, que a Moira não quer que eu lhes toque?! Se fosse oiro não se importava ela, não, porque oiro há aqui aos pontapés. Mas que será?!... E assim andou algum tempo, sem poder dormir nem descansar. Enquanto a Moira estava ao pé, ainda se esquecia, mas quando ela ia para o fundo do palácio tecer no tear de marfim ou cantar, com a suavíssima voz, as tristezas da sua raça exilada da nobre Terra da Península, ia ele, pé-ante-pé, como um ladrão, espreitar os barris. Até que um dia não pôde vencer a curiosidade e foi ao primeiro barril e tirou-lhe o batoque, metendo dois dedos para ver o que estava lá dentro. Sentiu-se logo um formidável abalo de terra. O palácio desmoronou-se estrondosamente, e ele, ficando nas trevas, sentiu que lhe pegavam na mão, e achou-se num volver de olhos, e sem poder explicar como, no meio de um campo. Viu então a Moira em pé, diante dele, e falando-lhe com uma voz muito triste: — Desobedeceste-me! Dobraste-me o encanto! Ele, de joelhos, pedia-lhe perdão, chorando a sua curiosidade. A Moira, que bem sabia quanto ele tinha lutado antes de fazer aquela maldade, respondeu: — Não te quero mal, descansa! Deixarás de me ver, mas eu não deixarei de te proteger. Aqui tens esta varinha de condão. Com ela conseguirás tudo. Dando-lhe uma varinha de junco, que à vista nenhuma particularidade tinha, desapareceu dizendo adeus ao rapaz, que ficou muito contristado. Achando-se só, foi andando ao acaso até que chegou a uma fonte. Como levava muita sede, pois o calor apertava, inclinou-se para beber. Sentiu que lhe caia uma coisa pesada da cabeça e ainda imaginou que fosse o chapéu, mas já o tinha tirado para beber. Muito admirado levou as mãos à cabeça e notou que eram os cabelos que tanto pesavam. Deitou-os para os olhos e viu que eram de oiro. Espantadíssimo com tal coisa, mirou-se na água clara da fonte e viu-se deslumbrante com os seus cabelos doirados. Ficara assim logo que metera os dedos no barril de oiro, mas só agora o sabia porque só agora tinha espelho para se mirar. Entendeu que não era muito conveniente mostrar ao mundo tanta riqueza, e na primeira terra em que entrou dirigiu-se ao matadouro, comprou uma bexiga de boi, lavou-a muito bem lavada, cortou-a ao meio, encaixou-a na cabeça e arranjou-a de tal modo que lha cobria toda parecendo completamente calvo. Depois, assim preparado, e com a varinha na mão, seguiu sua jornada. Por onde passava faziam-lhe muita troça chamando-lhe Careca: — Adeus, ó Careca! Para onde vais, ó Careca?... Ele não se importava. Foi seguindo sempre àvante, até que chegou a uma grande cidade, opulenta e formosa, povoada por toda a casta de gente que ia ao seu vastíssimo porto para comerciar. Ninguém reparou que ele fosse careca, e, mesmo que reparassem, não estranhavam porque estava aquele povo muito acostumado a ver indivíduos de todas as raças e feitios que por ali enxameavam. Eram chineses, de rabicho e olhos em fresta; índios bronzeados e magrinhos; japoneses amáveis; pretos de todas as espécies, uns feios como demónios, outros muito simpáticos, com os seus olhos meigos e os dentes de neve a destacarem-se na face de nanquim. Eram turcos, vestidos de branco, fumando nos longos cachimbos. Eram, enfim, homens de todos os países, não esquecendo o loiro e grave inglês e o elegante francês pondo em voga o último figurino. O Careca, percorrendo acidade, achou que lhe convinha ficar. Chegando ao palácio real bateu e perguntou se queriam um criado. Como exactamente tinha saido na véspera o jardineiro da Princesa, disseram-lhe que sim. Entrou logo a exercer as suas obrigações. A família real constava apenas do velho Rei, que estava cego, e da filha que era a mais formosa dama do seu tempo. Quando soube que havia entrado um jardineiro novo, foi falar-lhe para dar as suas ordens, pois de tudo quanto possuia o que mais apreciava eram as flores. O Careca logo que a viu ficou encantado, pois beleza como aquela não havia no mundo. Como era muito boa e muito bem educada, falava para toda a gente, por mais humilde que fosse sua condição, sempre com uma graça e uma simplicidade encantadoras. No fim de dar as suas ordens ao jardineiro, disse-lhe: — Trata-me muito bem as minhas flores, porque não há coisa de que eu mais goste! E todas as manhãs quero um ramo bem fresco e bonito. O Careca inclinou-se reverente, respondendo: — Sim, minha Senhora; farei toda a diligência por lhe agradar. Ao outro dia de manhã, quando a Princesa se levantou, a primeira coisa que viu foi um lindíssimo ramo de magníficas rosas, atado com um fio de oiro. No outro dia a mesma coisa, e no outro e no outro. Sempre que se levantava via o seu ramo de rosas, sempre diferentes e cada vez mais lindas, e atadas com o fio de oiro, o que muito dava que pensar à Princesa. Admirada com tamanha variedade de rosas, que nunca vira no jardim, percorria-o todo a ver se descobria onde o Careca tinha as mais belas, mas não encontrava nenhuma igual às que recebia todas as manhãs. Um dia foi ter com o jardineiro e disse-lhe: — Ó Careca, quantas variedades de rosas temos cá no jardim? — Todas quantas há no mundo — respondeu ele. A Princesa não disse mais nada, olhou muito séria para o jardineiro e foi para o seu quarto pensar nos melhoramentos que via no jardim, sem que metessem obreiro nem lhe pedisse dinheiro a rodos, como os outros costumavam fazer. Eram novas ruas de arbustos os mais raros, caramanchões deliciosos, árvores magníficas, e, por fim, até um lago cheio de peixes doirados e de todas cores, e um tanque de mármore para onde a água corria duma cascata enorme e de pequenos repuxos colocados de maneira que as águas se entrelaçavam, fazendo um efeito surpreendente. A Princesa quando viu tal maravilha ficou extasiada e perguntou ao Careca quem tinha mandado fazer uma coisa tão bela. Respondeu-lhe ele: — Saiba Vossa Alteza que fui eu. Logo que cheguei, vi que este jardim tinha uma grande falta de água e então mandei-a explorar e canalizar, fazendo talhar todas as pedras fora. Trabalharam muitos operários toda a noite para fazer esta surpresa. Ela agradeceu, mas não acreditou nem uma palavra de tal história. Já eram muitas as coisas que a admiravam depois que o Careca tinha entrado ao seu serviço. Parecia-lhe bem que ele não era o que queria fingir, mas sim uma pessoa importante disfarçada. Notou que um dos caramanchões mandado fazer pelo Careca era fechado e todo coberto de trepadeiras. Todos os domingos o via entrar para lá e demorar-se uma boa hora. Disse para consigo: — Deixa estar que eu hei-de ver o que tu fazes. Um dia, quando o Careca entrou para o caramanchão desceu ao jardim e foi espreitar por um buraco que tinha propositadamente feito. Qual não foi o seu espanto vendo o jardineiro despir o fato que trazia, e, abrindo um baú, tirar uma camisa de rendas, meias de seda e sapatos com fivelas de diamantes. Depois vestiu um riquíssimo fato de corte, pôs ao lado a espada com os copos cravejados de rubis e o talim bordado de várias pedras preciosas. Tirou abexiga da cabeça e o cabelo caiu-lhe sobre os hombros como se fosse o resplendor de oiro dum Santo Cavaleiro. No fim, pôs um chapéu de plumas, seguras por uma fivela de esmeraldas e brilhantes, e ficou o mais lindo homem que jamais a Princesa vira. Fugiu dali, mas tão encantada que não pensava noutra coisa. Nem de noite nem de dia lhe saia da cabeça a imagem do formoso Cavaleiro, que andava disfarçado em seu criado. Ora o pai da Princesa era cego, como já disse. Tinha cegado de repente, sem saberem como. Consultados todos os médicos, nenhum lhe deu remédio, mas uma Feiticeira dissera: — Que a doença tinha cura, mas só havia um remédio: que era lavar os olhos com leite duma leitoa que existia numa torre, a algumas léguas de distância. O Rei mandou os seus melhores cavaleiros para matarem a leitoa e trazerem o leite; mas, por mais esforçados que fossem, todos lá ficavam mortos ou tinham que fugir. Logo que chegavam perto da torre surgiam do chão tantos homens armados, que todas as tropas ficavam desbaratadas. Era uma coisa impossível, obter tal remédio. Vendo isto, decretou o Rei grandes torneios na sua capital, mandando convidar todos os príncipes e cavaleiros da Cristandade, não só para a Princesa escolher marido mas também para ver se algum dos mais nobres e corajosos senhores se resolvia a ir matar a leitoa e trazer-lhe o tão desejado remédio. Apareceram muitos príncipes de todos os reinos, nobres barões e cavaleiros andantes, que vinham disputar a mão da mais formosa dama do seu tempo. Todos mais ou menos ficaram apaixonados e desejariam desposá-la. Mas o Rei disse-lhes: — Que a Princesa só casaria com o homem que fosse matar a leitoa e lhe trouxesse o leite. Todos à uma juraram dar morte à leitoa ou morrer. Combinaram o dia da marcha, e o Careca veio pedir licença ao Rei para acompanhar ao combate aqueles senhores. O Rei, apesar de cego, começou a fazer-lhe troça. E os cavaleiros riam muito, escarnecendo o pobre Careca. Mas a Princesa apareceu e perguntou qual a razão de tantos risos. Disseram-lhe o que era, e, em lugar de se rir, como esperavam, pediu ao pai que consentisse no que lhe pediam. O Rei fez-lhe a vontade. Mas o pior é que os cavaleiros, pagens e escudeiros eram muitos e já não havia cavalo para ele. Perguntou então se não havia um burro nas cavalariças, que se contentava com isso. Foram ver, e como existisse lá um burro velho, que já não prestava para nada, deram-lho para montar. No dia da partida lá foi atrás do brilhante exército de cavaleiros montados em soberbos e ricos cavalos. Pelo caminho faziam-lhe muita troça, chamavam-lhe Careca, e diziam: — Ó Careca, tu ficas para trás? Anda, pica as esporas ao teu cavalo de batalha!... Ele, sempre a rir, não fazia caso, respondendo: — Ora! Se eu quiser faço saltar o meu burro por cima dos senhores todos e dos seus belos corcéis. Eles cada vez se riam mais. Então disse ao burro: — Vamos, meu velho, mostra a estes senhores que vales mais do que eles e os seus cavalos de combate. Deu-lhe duas chibatadas, o burro endireitou as orelhas e em dois saltos passou adiante de todos. Mas depois, coitado, como era muito vèlhinho, tropeçou e caiu. Enquanto o Careca ficou a levantar-se, os cavaleiros tomaram tal dianteira que não os via. Então bateu com a varinha que a Moira lhe tinha dado, no chão, e logo lhe apareceu um bonito e valente cavalo de batalha e tudo que era preciso a um guerreiro. Montou imediatamente e partiu a galope, passando como um furacão, pelo exército. Em pouco tempo chegou à torre, sempre com a varinha em punho. Bateu com ela à porta e logo esta se abriu, e a leitoa saltou, numa fúria, para o devorar. Mas o Careca tocou-lhe com a varinha e ela ficou logo morta. Depois apeou-se, ordenhou-lhe o leite todo para um frasco, que já levava para esse fim, rolhou-o muito bem e metendo-o no bolso tornou a montar e partiu. No meio do caminho passou pelos cavaleiros que ainda iam para lá. Chegou ao sítio onde tinha deixado o burro, e tornando a montá-lo ficou outra vez como era. Os cavaleiros chegando à torre encontraram a leitoa morta e sem leite nenhum; ficaram envergonhados e, vendo um pastor com um rebanho de cabras, compraram-lhe um pouco de leite resolvendo levá-lo ao Rei para não darem o seu braço a torcer. Perto do palácio encontraram o Careca montado no seu burro velho, e a troça recomeçou: — Então não quiseste acompanhar-nos, ó Careca? Achaste melhor voltar para trás? Vês, é bem feito! Quem manda um jardineiro meter-se com cavaleiros?!... E ele, muito risonho, respondeu: — Então, que querem? O meu burro ainda mostrou um nadinha da sua graça, depois não quis mais, e eu voltei para ver a figura que os senhores faziam. Então sempre venceram a leitoa e trazem o leite? — Forte parvo! Então não imagina ele que príncipes e cavaleiros, como nós, voltariam sem trazer o que fossem buscar! Cá vai o leite. A Princesa não se tirava da janela, a ver se avistava o Careca, que era oque mais lhe importava. Com efeito, mal que o exército apareceu, viu o jardineiro que vinha muito mais atrasado. Os príncipes apearam-se e entraram, mas a Princesa não saiu da janela sem ele chegar. O Careca fez-lhe sinal para descer ao jardim, e então entregou-lhe o frasco dizendo: — Aqui tem Vossa Alteza o leite da leitoa. Fui eu que a matei e lho tirei. Desejo que pelas vossas mãos o Rei, meu Senhor, seja curado. Ide, Senhora, e ouvi o que eles dizem, porque trazem leite de cabra para fingir que é da leitoa, que já encontraram morta por mim. Deixai-os experimentar primeiro, e, como aquilo não é remédio, o Rei ficará na mesma, e então lavareis vós os seus olhos com este leite que vos dou. Veremos quem merece a recompensa! A Princesa agradeceu-lhe com um sorriso e foi para cima. Quando chegou à sala, ouviu os cavaleiros estarem a contar como tinham morto a leitoa, e não lhes disse nada. Depois lavaram os olhos do Rei, e ele, claro, ficou na mesma. Então foi a Princesa, lavou os olhos do pai com o leite que o Careca lhe tinha dado, e imediatamente ele ficou bom. Olhou para os príncipes e mais cavaleiros e disse: — Qual de vós matou a leitoa e me trouxe o remédio? Responderam todos: — Fui eu, fui eu, fui eu!... Então a Princesa voltou-se para eles e disse: — Enganais-vos; senhores. Quem matou a leitoa e me trouxe o leite foi o Careca! Grande gargalhada dos príncipes, que não podiam tomar a sério o que ela dizia. Chamaram o Careca, e ele, diante de todos, voltou-se para o Rei e falou assim: — Real Senhor, a princesa disse a verdade. Foi eu quem matou a leitoa e trouxe o leite, entregando-o a Sua Alteza. Quando estes senhores lá chegaram e a encontraram morta, envergonharam-se de voltar sem nada e compraram a um pastor leite de cabra. Todos os cavaleiros gritaram que o Careca mentia. — Nem os tinha acompanhado à torre, quanto mais ser ele quem matara a leitoa! Que era um embusteiro atrevido, pois todos o tinham visto ficar para trás. O Careca, assim insultado, desafiou-os a todos para combate singular, e, voltando-se para o rei pediu que o armasse Cavaleiro para combater com os príncipes e nobres senhores, pois o tinham desfeiteado. O Rei não estava muito resolvido, pois nada sabia daquele personagem misterioso, mas a filha pediu muito, contando-lhe o que tinha visto, e ele próprio logo ali, o armou Cavaleiro. O Careca pediu então licença para se preparar e entrando para o caramanchão do jardim em breve saiu de lá vestido de ponto em branco, como se realmente fosse um Cavaleiro. Os cabelos de oiro, caindo-lhe nos hombros, faziam-no deslumbrante de magestade e formosura. Os adversários, o Rei e toda a corte estavam boquiabertos. Só a Princesa batia as palmas, satisfeitíssima, animando-o com sorrisos. Logo quatro príncipes, dos mais considerados e esforçados entre os combatentes, se adiantaram e disseram: — Dizei, Cavaleiro, com qual de nós vos quereis bater, porque não é justo um só homem para tantos. — Venham todos, que a todos farei corpo! — respondeu altivamente o novo Cavaleiro. Então, ele dum lado e os quatro do outro, mediram-se para a luta. O primeiro recontro foi tão violento que dois príncipes ficaram logo no chão. Na segunda arremetida ficaram os outros dois fora de combate, incapazes de levantar mais a espada. Todos os outros iam correr para vingarem os companheiros, mas o Rei, entusiasmado com a façanha, bateu as palmas e a corte imitou-o logo, acabando o combate com todas as honras para o antigo jardineiro. Então a Princesa pediu ao pai que cumprisse a sua palavra, pois muito gostava daquele Cavaleiro e só a ele queria para esposo. O Rei chamou-o, perguntou-lhe quem era, e ele contou toda a sua vida, o que em nada alterou a consideração em que já o tinham. Depois fez-se o casamento com grande pompa, e o Rei, que já estava velho, abdicou nele todos os seus poderes. Foi sempre muito bom e a Princesa muito feliz se considerava em o ter escolhido. E aqui está como o filho dum pobre forneiro chegou a ser Rei, governando o seu reino com muito juizo e acerto. [[Categoria:Contos portugueses|História do careca]] kqw95hqm1mmtc69j2otkeityibf8yft Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/A Bela Felicidade 0 256004 559685 559093 2026-08-20T15:24:44Z Mt516 43586 559685 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = A Bela Felicidade | anterior = [[../História do careca/]] | posterior = [[../O porqueiro/]] | notas = }} '''<big>A BELA FELICIDADE</big>''' ERA uma vez um Rei que tinha dois filhos. O mais velho, que devia ser o herdeiro do trono, chamava-se Aleixo. Desde criança que só pensava em divertimentos e festas, principalmente em caçadas. Dizia ao irmão mais novo que estudasse bastante para governar o seu Reino, pois disso não queria saber. Um dia em que ele andava, segundo o seu gosto, numa grande caçada na qual tomavam parte os fidalgos caçadores do Reino, viu passar um belo veado seguido duma enraivada matilha de cães. Meteu esporas ao cavalo e seguiu-os a toda a brida. O veado corria muito e os cães iam ficando para trás, sem fôlego.Mas o Príncipe não desanimava. Corria, corria, sem nunca perder de vista o animal. Assim foram, por montes e vales, até chegarem a um bosque tão embrenhado, tão espesso, que nele o Príncipe viu desaparecer o veado sem saber onde se metera. Olhou para todos os lados e, achando-se perdido, tocou a trompa de caça que trazia ao lado. Mas por mais que escutasse, a ver se lhe respondiam, nenhum ruído lhe chegava aos ouvidos. Já o sol ia a esconder-se e o Príncipe não estava lá muito satisfeito de se ver só, naquele bosque, sem mesmo ter onde se recolhesse. Enfim, como era aventuroso e cheio de ânimo, resolveu seguir sempre em frente — Porque (dizia ele a si próprio) seguindo sempre a direito a alguma parte chegarei. Assim foi. Já alta noite conseguiu sair daquela triste e sombria floresta e achando-se num descampado viu luzir ao longe um pontinho doirado que parecia uma estrela. Para ali se dirigiu, mais esperançado, mas cheio de fome e de frio. À medida que andava a luz ia crescendo, até que chegando perto viu que era numa casa solitária, que estava no meio do campo. Bateu à porta, e veio um velha muito velha perguntar quem era e o que queria. Respondeu o Príncipe Aleixo que era o filho mais velho do Rei e que andando à caça com a sua comitiva se tinha perdido. Depois, vira aquela luz muito ao longe, e para ali se dirigira a pedir pousada. A Velha respondeu: — Por mim, de boa vontade lhe dou agasalho. Mas o pior são os meus filhos que estão a chegar e que têm muito mau génio. O Príncipe, que era valente, não teve nenhum receio com as palavras da mulherzinha e foi entrando, preferindo antes a luta com os filhos da Velha do que passar a noite ao frio, encostado ao cavalo, que nem podia trocar os pés. Estava o Príncipe sentado à lareira, a conversar com a Velha, quando sentiram fora um barulho furioso. Levantou-se a mulher muito aflita e pediu-lhe que se metesse num grande armário porque chegava o seu filho mais velho, que era o Vento Sul. É ele o mais terrível, o mais danoso de todos, aquele que derruba as grandes árvores, que traz as tempestades, que faz naufragar os navios e, trazendo a chuva, tanta miséria faz passar aos pobrezinhos. O Príncipe escondeu-se no armário ao tempo que batia estrondosamente à porta o vento Sul. A velha foi abrir, e ele mal entrou começou a farejar dizendo: — Cheira-me aqui a carne humana e a sangue real! Respondeu a Velha, com muito boa sombra: — Olha, filho, esteve aqui o Príncipe Aleixo, que se tinha perdido no caminho, mas eu, como não sabia se tu o quererias receber, disse-lhe que se fosse embora. — Há muito tempo que isso foi? — perguntou o Vento Sul. — Foi agora mesmo. — Fez muito mal em o deixar partir, e então saio outra vez para o trazer a nossa casa. Nunca se deve negar agasalho a ninguém. A Velha, vendo que seu filho queria receber o Príncipe, foi abrir o armário dizendo que, por não saber se ele o queria em casa, o tinha escondido. O Príncipe apareceu todo contente por se ver bem recebido do terrível Vento Sul. Este fez-lhe muita festa e disse-lhe que sabia que ele se tinha perdido e que já os seus companheiros, depois de o procurarem por toda a parte, tinham ido, muito tristes, dar a notícia ao Rei e ao Infante, que a essa hora estavam desolados imaginando-o morto. Nisto sentiram fora um barulho ainda mais forte do que fora o primeiro. E a Velha, muito aflita, foi dizer ao Príncipe que se escondesse numa arca muito grande que ali tinha, porque chegava o Vento Nordeste, que era o seu filho segundo, e vinha tão bravo que ela receava lhe fizesse algum mal. Escondeu-se o Príncipe Aleixo e a Velha foi abrir. Entrando o Vento Nordeste, começou também a farejar dizendo: — Cheira-me aqui a carne humana e a sangue real! Respondeu-lhe a mãe o mesmo que tinha dito ao Vento Sul, e o Vento Nordeste queria também ir buscá-lo. Então apareceu Aleixo, que foi muito bem tratado por ele. Depois veio o Sudoeste e aconteceu o mesmo. No fim chegou o Vento Norte que, ao entrar, igualmente começou a farejar dizendo: — Cheira-me aqui a carne humana e a sangue real! A Velha respondeu o mesmo que tinha dito aos outros seus três filhos, e o rapaz apareceu, sendo da mesma maneira festejado pelo Vento Norte como tinha sido por seus irmãos. Foi convidado para a ceia, o que aceitou de boamente, pois desde manhã que não comia. Sentaram-se à mesa onde tinham posto um boi inteiro assado no espeto, afora inúmeros pratos de toda a espécie de comida, não falando no vinho, que estava numa pipa ao meio da casa. Como todos tinham apetite, correu a ceia alegremente. No fim de bem fartos e muito alegres, começou cada um a contar o que tinha feito durante o dia. O primeiro foi o Vento Sul, que disse: — Eu hoje estive numa feira e fiz lá o demónio! Quebrei os cântaros às raparigas, voltei-lhes as canastras, parti chapéus de chuva, levantei nuvens de pó — fiz andar tudo num rodopio! Os outros dois ventos disseram também que tinham arrancado árvores, derribado estátuas, destelhado palácios, levantado tempestades de areia... Enfim, tropelias de toda a ordem que estes senhores têm por hábito fazer! Depois chegou a vez ao Vento Norte, que começou a contar: — Eu estive junto do palácio da Bela Felicidade, e como a vi sentada na varanda que deita para o jardim, a bordar com sorrisos a teia da fortuna, fiquei ali a contemplá-la, porque é a mais formosa e esquiva dama que existe no mundo. De vez em quando deitava-lhe uma lufada de ar fresco, coisa de que ela parecia gostar muito. Assim estive todo o dia entretido, pois a ver tão bela Senhora tudo se esquece. O Príncipe, que tinha rido com as histórias do Vento Sul e prestado toda a atenção aos outros dois, quando ouviu o Norte descrever a Bela Felicidade ficou tão perdido da razão que já não pensava noutra coisa nem ouvia mais nada. Chegou a hora de se irem deitar e começaram todos em consultas a ver com quem dormiria o Príncipe, pois na casa só havia cinco camas, que eram dos quatro Ventos e da mãe. Aleixo pediu licença para escolher e foi deitar-se com o Norte. Mas em toda a noite não pregou olho, sempre a pensar na Bela Felicidade. O Vento, vendo que ele não sossegava, perguntou-lhe se queria alguma coisa, ao que o Príncipe respondeu que não podia mais viver, se não visse a Senhora de quem ele tinha falado. O Norte, que era já muito amigo do Príncipe Aleixo, respondeu: — Não há nada mais fácil! Durma descansado, que amanhã o levarei lá. Ficou o Príncipe tão agradecido que nem palavras tinha para dizer a sua alegria. De manhã deu-lhe o Vento Norte uma capa e um chapéu, que tinham a virtude de o tornar invisível aos olhos de todos e leve qual uma pena. Depois, despediu-se o Príncipe dos outros Ventos mandando por eles dizer ao pai que se não afligisse por sua causa, porque estava vivo e são, indo em busca da Bela Felicidade; e ao Príncipe seu irmão que ficasse com o Reino, porque ele já não queria saber de mais nada. Depois, pondo o chapéu e a capa, subiu para os ombros do Vento Norte, que lhe disse: — Agarre-se bem, porque embrulhado nessa capa que lhe dei está leve qual uma folha seca, e pondo o chapéu ficará invisível como nós somos. Dizendo isto saiu a porta da casa e logo se transportou ao palácio da Bela Felicidade. Então, colocando o Príncipe no jardim, disse-lhe: — Agora aqui ficará enquanto quiser. Eu cá o virei ver, de tempos a tempos, e saberei se precisa de alguma coisa. Com esse chapéu e essa capa poderá andar por toda a parte sem perigo. Retirou-se o Vento, não sem receber os maiores agradecimentos. Por ali ficou o Príncipe Aleixo a passear no jardim até que se abriu a varanda e pôde contemplar a mais risonha, a mais bela, a mais encantadora mulher que jamais ele tinha sonhado. E a olhá-la esqueceu tudo e não podia desviar-se dali — tal era o embevecimento em que tinha caído. Assim estaria por toda a eternidade, se a menina não se retirasse da varanda para ir almoçar. Então, sabendo que ninguém o podia ver nem sentir, graças à capa e ao chapéu que o vento Norte lhe tinha dado, dirigiu-se também para a sala de jantar e, sentando-se junto da Bela Felicidade, ia comendo do mesmo prato e bebendo do mesmo copo sem que ela reparasse. Tudo naquele palácio era risonho e agradável. Não o enchiam grandes riquezas mas tornavam-no encantador a paz e harmonia. Tudo eram flores, risos, músicas, alegria e bem-estar. Era a Bela Felicidade servida por pequeninos espíritos subtis e tão alegres, tão vivos, que enchiam a casa de animação. Cada qual trazia o nome escrito sobre o peito. Eram a Bondade, a Graça, a Delicadeza, a Tolerância, a Amizade, a Gentileza, a Elegância, a Generosidade. E o chefe de todos era o Amor. Estava ali o único bem, mas para lá chegar era preciso correr tantos perigos, vencer tanta contrariedade, que nenhum homem ainda se atrevera a ir até ao fim e a Bela Felicidade vivia só desde o princípio do mundo. O Príncipe Aleixo sentia-se tão bem, que na verdade não sabia se estava vivo ou morto, pois a sua existência decorria como um sonho. Acompanhava sempre a Bela Felicidade, sem que ela o presentisse, graças ao chapéu e à capa do Vento Norte. Assim foram passando os meses sem que desse por isso, tal era o bem-estar que gozava! Nem de dia nem de noite se separava dela, dormindo aos pés da sua cama, comendo do mesmo prato, seguindo os mesmos passeios. A Bela Felicidade andava admirada das coisas que lhe aconteciam, sem saber como as explicar. Um dia, por exemplo, disse ela quase falando consigo: — Bebia agora um copo de água bem fresca! Olhou para o lado e viu um copo com água que vinha pelo ar. Muito admirada, pegou-lhe e bebeu, e em seguida deixou-o cair imaginando que se partiria no chão. Mas qual não foi o seu espanto vendo que, em lugar de cair, foi pelo ar colocar-se ao pé dos outros copos, como se alguém o levasse. Outra vez, andando a passear no jardim, caiu-lhe o lenço e, quando o ia levantar, viu que se erguia até à altura da mão. Com estas coisas e outras, que já tinha notado, como a falta de comida no prato e assim casos parecidos, andava a Bela Felicidade muito intrigada. Uma noite de verão estava ela à fresca, no jardim, a pensar no que lhe acontecia havia algum tempo, e nessa meditação levou até mais tarde. Depois foi deitar-se, e o Príncipe, como de costume, ficou aos pés da cama, adormecendo profundamente. A Bela Felicidade, como se tinha deitado mais tarde, também até mais tarde dormiu. Já era alto dia quando acordou e saltando da cama foi abrir a janela, sem que o Príncipe sentisse. Tornou à cama, sacudiu a roupa e, como Aleixo estava dormindo, caiu-lhe o chapéu da cabeça e logo ficou visível, embrulhado na sua capa. A Bela Felicidade ficou admiradíssima, e tão enlevada que não se podia dizer mais. Olhando aquele moço tão lindo como na sua vida não pudera imaginar coisa igual, ficou logo perdida de amor. Perguntava a si mesma como teria ele podido chegar ali, guardada como estava por tantos obstáculos. Depois puxou-lhe pela capa para o acordar. Despertou o Príncipe e, vendo-se descoberto, saltou logo da cama indo ajoelhar diante da menina, contando-lhe tudo o que tinha sucedido. Ela ficou muito contente por se ver amada de tão gentil cavaleiro. Abraçaram-se cheios de alegria, e o Príncipe pôs logo de parte a capa e o chapéu mágicos e ficou junto da Bela Felicidade gozando do maior e mais verdadeiro bem. Corria o tempo sem ele dar por isso, servido pelos espíritos que estavam às ordens da sua doce companheira. Os anos pareciam-lhe segundos. Até que um dia lembrou-se o Príncipe Aleixo dos pais, o irmão, os seus vassalos e Reino e teve saudades de tudo, e desejo de os tornar a ver. Comunicou à Bela Felicidade este desejo e ela respondeu-lhe: — Então há quanto tempo imaginas tu que vives na minha companhia? — Suponho que estarei aqui há um ano — respondeu Aleixo. — Não, meu amigo! Aqui passa o tempo sem se perceber. Tu já aqui estás há tantos séculos que dos teus já não vive ninguém. O Mundo está completamente deserto e nada existe fora daqui. Se teimas em ir, não encontrarás nada, e o Tempo, que te procura por toda a parte, pois só tu é que ainda vives, mata-te logo que lhe apareças. — Não importa! — volveu o Príncipe — quero ir ver se alguma coisa ainda resta, e voltarei logo e não tornarei então mais a sair daqui. A Bela Felicidade ficou muito triste, mas, não o querendo contrariar, disse: — Enfim!... visto que assim o queres, faça-se a tua vontade. Vais, mas hás-de ir montado no meu cavalo branco que te levará, onde o teu pensamento quiser. Nunca te apeies, seja sob que pretexto for, vejas o que vires, sintas o que sentires. Vê lá! Olha que logo o Tempo te mataria se tu caisses em pôr pé em terra. Toma bem sentido! Se fizeres o que te digo, voltarás aqui outra vez; senão, nunca mais nos veremos! Bem; despediram-se com muita mágua. O Príncipe sofria verdadeira pena de deixar a sua boa companheira, mas a curiosidade era mais forte do que esse desgosto. Ao certo queria ele saber o que seria feito do seu Reino e da sua família. Montou o cavalo branco e logo apareceu na sua terra. Não viu ninguém! Todas as cidades arrasadas, tudo destruído. O Mundo era um deserto. Em vista disto resolveu o Príncipe Aleixo voltar imediatamente ao palácio da Bela Felicidade, donde nunca devera ter saído. Ia muito triste de ver tudo morto e, a meio do caminho, encontrou um carro de bois voltado e debaixo um velho a gritar por socorro, parecendo muito aflito. O Príncipe que assim o viu condoeu-se do velho, que imaginou o último habitante da terra, e, desprezando os conselhos da Bela Felicidade, apeou-se e foi livrá-lo do peso do carro. O Tempo, que outro não era o velho, saltou-lhe em cima com agilidade espantosa e matou-o logo. O cavalo desapareceu, chegando só ao palácio. Quando a Bela Felicidade o viu ficou muito triste presumindo desgraça, mas sempre ia esperando pelo seu companheiro de tantos séculos. Até que um dia o Vento Norte, passando pelo sítio onde o Príncipe ficara morto, viu-o e disse: — Coitado! O Tempo andava em tua procura e sempre conseguiu apanhar-te. Para destruir completamente o género humano, faltavas-lhe tu; agora acabou-se tudo! Ao menos não ficarás aqui abandonado. — E pegando no Príncipe Aleixo, de quem fora tão amigo, foi depô-lo no jardim da Bela Felicidade. Quando ela foi dar o passeio do costume, chamando em vão o seu Príncipe, viu-o ali estendido. Sem saber ainda o que pensar, correu para ele ansiosamente e conheceu então que estava morto. Ficou muito triste, muito triste, e chamou todos os seus bons servos, que igualmente lamentaram a morte de tão galante e bom rapaz. Abriram-lhe uma sepultura ali mesmo, e a chorar escreveu ela na pedra: — Não há felicidade completa, nem coisa que o Tempo não acabe! [[Categoria:Contos portugueses|A Bela Felicidade]] rf1lvvwybwhh4fwoje7nuqwwrtlctc9 Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O porqueiro 0 256005 559686 559094 2026-08-20T15:25:11Z Mt516 43586 559686 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O porqueiro | anterior = [[../A Bela Felicidade/]] | posterior = [[../O coelho branco/]] | notas = }} '''<big>O PORQUEIRO</big>''' EXISTIU em tempos remotos um Rei que tinha uma filha. Um dia disse-lhe ela: — Meu pai, ando sempre a ter sonhos tão extraordinários, que não imagina! Este noite tive um em que até faz vontade de rir. Sonhei que meu pai me há-de beijar a mão! O Rei, que tal ouviu, ficou furioso e respondeu irado: — O quê?! Pois eu hei-de beijar-te a mão?! Isso nunca poderia acontecer! — Não (volveu a menina com doçura), nem eu creio que possa ser, mas foi o que sonhei. O Rei, que era muito orgulhoso, não ficou satisfeito com isto; mandou chamar adivinhos e todos lhe disseram que podia muito bem ser verdadeiro o sonho da Princesa. E, levado pelo seu mau génio e por maus conselheiros secretos, resolveu mandar matar a filha. Chamou um criado de confiança e deu-lhe ordem de levar a Princesa para longe, de a matar e de lhe trazer o coração como prova de ter obedecido. Foi o criado com a menina para um bosque, querendo cumprir as ordens do Rei, mas vendo-a tão bonita, tão novinha, tão boa, e tão desgraçada, não teve coragem de a matar. Apareceu por ali um cãozito e ele tirou-lhe o coração para levar ao Rei, como sendo o da filha. À Princesa disse que se escondesse em alguma choupana por essa noite e depois que fugisse para bem longe, de maneira que a imaginassem morta. Mal a Princesa se viu só, foi andando, andando, mas quanto mais andava mais se enredava na floresta até que lhe anoiteceu, sem ver ninguém a quem perguntasse o caminho ou lhe desse uma sede de água! Ouvia os animais selvagens uivando pelos matos e tremia de frio e de medo. Assim foi seguindo, com os pés ensanguentados e os vestidos em farrapos, até que viu ao longe, muito longe, uma luzinha. Bastou isso para lhe encher o coração de esperança e lá se foi arrastando até chegar a uma casa, à porta da qual bateu esperando que lhe dissessem alguma coisa. Como não lhe respondessem, empurrou a porta, vendo o lume aceso, mas ninguém dentro de casa. Foi entrando, resolvida a esperar os donos para pedir licença de passar a noite em qualquer canto. Mas, como era muito arranjada, vendo a casa por varrer, pegou numa vassoura e limpou-a. Tratou do lume, pôs a panela a ferver, e tinha tudo em ordem quando sentiu um tropel fora da porta. Foi ver o que era e viu um velho que trazia um rebanho de porcos, acomodando-os num curral ao lado. Entrou na casa, onde a Princesa o recebeu a chorar, perguntando-lhe com muito bom modo o que estava ali a fazer equal a razão de tantas lágrimas. A menina contou-lhe toda a sua vida e terminando pediu que a não abandonasse, que a não levasse ao pai, aliás ele a mataria e ao bom criado que a tinha salvo. O porqueiro respondeu-lhe que descansasse, que ali ficaria como sua filha, até que aparecesse um esposo a quem a pudesse entregar. — Por agora (disse-lhe) até me fazes favor em viver comigo, porque eu estava aqui muito só com os meus porcos. Agradeceu a menina, cheia de alegria, ao bom do velho, e daí em diante ficaram os dois a viver como Deus com os anjos. Nunca houve pai e filha que melhor se entendessem. Fazia gosto vê-los. A Princesa acostumara-se àquela vida sossegada e nenhumas saudades tinha do faustuoso viver que deixara. É preciso dizer que a mãe lhe morrera, quando ela abria os olhos ao mundo. Por isso sofrera tanto, e teria morrido, se não fosse um humilde criado! Ora a Princesa era muito linda e muito boa, mas a respeito de sabedoria tinha muito pouca. Naquele tempo nem os reis sabiam escrever, quanto mais as princesas! Mas o porqueiro, que era um grande sábio, não cessava de a ensinar, dizendo-lhe muita vez: — Eu quero um dia apresentar-te a teu pai de tal maneira, que nem ele mesmo te reconhecerá. Mas há-de ser quando tenhas um marido que te ampare e ele não te possa fazer mal. A menina respondia-lhe sempre que era muito feliz, que estava ali muito bem, e não desejava mais do que viver toda a sua vida assim. O velho sorria-se e não dava mais explicações. De dia andava ele pelo montado com os seus porcos, e à noite instruia a Princesa em tudo que uma senhora deve saber para que a considerem mais pela sua inteligência do que pela posição, que duma hora para outra pode mudar. Assim foi passando o tempo até que a Princesa chegou aos vinte anos. Tinha ela o costume de se ir sentar à porta a costurar, enquanto o pai adoptivo andava por fora com os porcos. Ora acontecia que por aqueles sítios passavam muitos fidalgos que andavam à caça; entre eles apareceu um conde de muito galante figura, que se enamorou da filha do porqueiro. Passava e repassava por ali e sempre lhe dizia: — A menina quer ser minha esposa? A Princesa não respondia, mas o cavaleiro não desanimava nem perdia ocasião de repetir o mesmo e mostrar por todos os meios quanto era sincero o seu pedido. Tanto andou, tanto disse, que um dia respondeu-lhe a Princesa, discretamente: — Por mim nenhuma resposta lhe posso dar, cavaleiro. Fale a meu pai. Volveu logo o Conde, muito animado: — Primeiro diga-lhe a menina tudo e amanhã dê-me a resposta. O que ele disser é o que se há-de fazer. O que é verdade é que ele era um lindo rapaz e a Princesa achava-o bastante simpático, mas nada lhe quiz confessar sem o consentimento do bom homem que lhe tinha servido de pai. Quando à noite recolheu, contou-lhe tudo que se tinha passado. O porqueiro ouviu-a atento, respondendo assim: — Minha filha, é esse cavaleiro muito do meu gosto. Conheço-o bem e sei que te fará feliz. De boa vontade; pois, darei o consentimento que me pedem, se ele aceitar a condição que eu ponho. Dize-lhe tu, minha filha, que te deixo casar de muito boa vontade, se ele no jantar de noivado quiser ter como convivas os meus porcos. No outro dia, à hora do costume, chegou o cavaleiro ansioso por saber a resposta que lhe daria a menina, que ele julgava uma simples camponeza, filha dum pobre porqueiro. Ela disse-lhe a condição que seu pai apresentava, e o Conde pensou que, à custa desse sacrifício dum dia, teria a felicidade de toda a vida e, como era uma só vez que jantaria com tão feios companheiros valeria bem a pena. Respondeu à menina que sim, que podia combinar com o pai o dia do casamento, que ele estava por tudo. Ficou a Princesa encantada com uma tão grande prova da sincera afeição do noivo e confessou-lhe como era também grande o amor que lhe dedicava. Separaram-se esperançados e felicíssimos, e o cavaleiro foi dali fazer-se encontrado com o porqueiro, prevenindo-o este de que no dia do casamento, quando os seus porcos estivessem juntos, ele diria uma coisa que causaria muito espanto. O Conde, como nada tinha de que se acusar, ficou por tudo. Chegou o dia marcado e na casa do porqueiro se pôs a mesa, estando os porcos todos em volta. Os parentes e amigos do Conde, que assistiam à festa, não se cansavam de o cumprimentar pelo seu bom gosto, pois a noiva era um encanto de modéstia e discrição, apesar de ser a mais instruída Princesa que nesse tempo se podia encontrar no mundo. E todos concordavam em que valia a pena jantar uma vez na vida com uma ranchada de porcos, para obter uma tão encantadora esposa. Quando estavam à roda da mesa prontos para jantar, dirigiu-se o porqueiro à filha para que lhe cortasse um dedo com uma faca que lhe entregou. Ela não queria de maneira nenhuma fazer tal barbaridade, mas, em vista da insistência do pai, não teve remédio: pegou na faca, voltou a cara para o lado, e descarregou-lhe um golpe, de que o sangue começou a correr em fio. Então o velho foi junto de cada porco e deitando-lhe uma pinga do seu sangue na cabeça logo ele se transformava num cavaleiro ricamente vestido. Quando chegou ao último, os convivas do noivo ficaram pasmados vendo-o transformar-se num homem, com todas as insígnias de imperador. Ao mesmo tempo que isto acontecia, sentiu-se um ligeiro abalo na casa e acharam-se, num abrir e fechar de olhos, no mais sumptuoso palácio. Contou então o porqueiro — que era um bom génio protector dos príncipes infelizes — a história daquele poderoso imperador e seu companheiros, que o menor deles era conde de sangue real. Era um extenso império o daquele poderoso senhor. Ele e seus companheiros foram um dia numa grande armada à conquista da Terra Santa. Mas, indo dar a uma ilha que uma fada muito má governava, transformou-os em porcos e só aquele bom génio podera moderar a pena, que era eterna, fazendo-a terminar no dia em que um nobre senhor quisesse jantar com eles à mesa. Tornemos à história do Conde e da Princesa. O imperador e os seus cavaleiros, como lhes deviam a vida humana a que outra vez se viam restituídos, cheios de reconhecimento os juraram futuros herdeiros do seu império, que, passadas as festas do casamento, iriam todos habitar. No meio da sua grande alegria nem a Princesa já pensava no Rei seu pai, no sonho, e muito menos nas desgraças passadas. Mas estava escrito que o Rei orgulhoso e mau que a mandara matar teria o seu castigo. Como isto tudo se passava no Reino, soube da estada ali do opulento e nobre imperador vivendo num magnífico palácio com a sua corte de príncipes. Resolveu ir visitá-lo, seguido duma soberba comitiva, para mostrar como ele também era rico e poderoso. Ficou, apesar disso, maravilhado com o luxo e riqueza que viu no palácio do imperador. Na sala do trono onde este o recebeu rodeado dos seus cavaleiros e pagens, escudeiros e homens de armas, entre muitas e gentis damas estava uma que, sobre todas, brilhava pela sua nunca vista formosura e riqueza de vestido. O Rei, imaginando que seria a filha do imperador, que sabia viúvo, dirigiu-se para ela e amàvelmente lhe beijou a mão, sem, nem por sombras, lhe passar pela cabeça que fosse a sua própria filha. Também a Princesa não reconheceu o pai senão quando o porqueiro veio contar diante de todos a história daquele mau e orgulhoso Rei, que mandara matar a sua própria filha só por um sonho, que nada valia. Tanto numa como na outra corte ficaram indignados e ele tão furioso, por ter beijado a mão à filha, que teve um ataque de desespero morrendo logo ali, sem ninguém ter pena. Como não tinha mais herdeiros ficaram reis a Princesa e o Conde, combinando dar o primeiro filho que tivessem para herdar o império do piedoso soberano que tinham desencantado. E o segundo filho ficaria herdeiro deles. Assim se fez, como combinaram, tudo na paz e grande amizade que desde então ligam aqueles grandes estados. E, por fim, sempre é bom dizer que viveram muitos anos; que foram o mais felizes que na terra se pode ser, e nunca a Princesa consentiu em separar-se do porqueiro, o bom génio que lhe tinha servido de pai. [[Categoria:Contos portugueses|O porqueiro]] hgknjr22kixdf2dauqqhuk335bzshrl Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O coelho branco 0 256018 559687 559205 2026-08-20T15:25:38Z Mt516 43586 559687 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O coelho branco | anterior = [[../O porqueiro/]] | posterior = [[../Branca-Flor/]] | notas = }} '''<big>O COELHO BRANCO</big>''' EM tempos que já lá vão, havia um Rei que tinha uma única filha. Chamava-se ela Clarinda e ele o Rei Poderoso, tão vastos e ricos eram os seus estados, tão fortes e bem equipados os seus exércitos. O Rei estimava muito a filha, fazia-lhe todas as vontades, e decerto não havia no Mundo outra princesa tão feliz como aquela. E linda, boa e amável era Clarinda como nenhuma outra. Ora um dia foi esta Princesa passear para o seu jardim, que era o mais belo de quantos jardins havia naquele tempo. Sentou-se junto duma fonte e, despregando os seus abundantes cabelos, começou a penteá-los com um riquíssimo pente de ouro cravejado de diamantes. Enquanto prendia o cabelo no alto da cabeça com ganchos de pérolas, veio um coelhinho branco muito lindo, tão lindo e tão branco que só parecia uma bola de neve a caminhar, e roubou-lhe o pente que ela tinha posto sobre as guardas da fonte. A Princesa achou muito engraçado o coelhinho e correu atrás dele, mas por mais que procurasse, não o tornou a ver naquele dia. Na manhã seguinte veio muito cedo sentar-se junto da fonte, e, como toda a noite não dormira a pensar no coelhinho branco, sentiu que o sono ia invadi-la e tirou do pescoço um colar de rubis que lhe apertava alguma coisa. Mal tinha fechado os olhos aparece o coelhinho branco e rouba-lhe o colar. A princesa Clarinda, acordada em sobressalto, correu atrás dele, procurou-o em todo o jardim, chamou criados e pagens, mas, por mais que procurassem, tal coelho não apareceu. Se não fosse faltar o colar e o pente, imaginaria a Princesa que tinha sonhado. Vem o terceiro dia e a bela Clarinda logo de manhã saltou do leito, vestiu o mais rico vestido do seu guarda-roupa, calçou burzeguins de fino coiro, pôs as suas mais artísticas jóias, e foi a correr para o jardim. Sentou-se junto da fonte à espera do coelhinho branco, porque a todo o custo o queria possuir. Já a Princesa estava cansada de esperar, quando se lembrou de meter as mãos na água muito clara, que caía num doce murmúrio na bacia de jaspe em forma de concha. Tirou dos dedos os anéis e pô-los na borda do tanque. Imediatamente vem o coelho a correr, e rouba-lhe um anel de esmeraldas, o mais lindo de quantos ela tinha, e foge numa corrida tal que a Princesa nem viu para que lado ele se meteu. Chamou toda a gente do palácio, procuraram, viram tudo, mas de tal coelhinho nem novas nem mandados! Imaginavam todos que a Princesa tinha querido brincar e fizera aquele reboliço sem ter visto nenhum coelho. Ao outro dia voltou ela ao jardim e no outro e no outro também, mas do coelhinho nunca mais soube. Teve a Princesa Clarinda um tal desgosto com isto, que perdeu a fala. O pai quando assim a viu, ia endoidecendo de desgosto. Mandou chamar todos os médicos do seu Reino e do estrangeiro, mas com a cura da Princesa ninguém acertou! E ela, deitada na cama, nem comia nem falava. O bom do Rei Poderoso oferecia tudo quanto tinha a quem lhe salvasse a vida da filha. Todos os seus vastos domínios lhe pareceriam uma miséria se lhos pedissem em troca da saúde da bela Clarinda. Mandou um arauto apregoar pelo mundo fora que daria a Princesa em casamento ao homem que lhe desse fala, fosse ele quem fosse. E, se alguma mulher conseguisse tal milagre, sob palavra de rei lhe prometia tudo quanto quisesse. É claro, foi toda a gente ao palácio, mas nada se conseguiu. Estavam as coisas neste ponto — e a Princesa cada vez pior e o Rei cada vez mais aflito — quando uma lavadeira se apresentou à porta do paço pedindo para falar à Princesa. Como havia ordem de deixar entrar toda a gente também a lavadeira entrou, desembaraçada, mãos na cinta, faladora e alegre. Chegou ao quarto onde a linda Princesa ia morrendo de saudade a cada hora, e vendo-a tão magrinha, tão diferente do que fora, nem a boa mulher pôde suster as lágrimas. Clarinda não dava por coisa alguma, mas a lavadeira não desanimou. Fez sair toda a gente do quarto, sentou-se à cabeceira do leito, e, pegando com as suas rudes mãos calosas na mãozinha branca da Princesa, começou a contar: — Olhe, minha menina, quando ontem à tarde recolhia a casa, já com a minha tarefa acabada, vi diante de mim um burro com umas cangalhas carregadas de barris, e ouvi uma voz que dizia: ''Arre, burro, para nossa casa!'' — Olhei para todos os lados e não vi ninguém; mais adiante a mesma voz a falar! Admirada com isto, resolvi seguir o burro. Fomos andando, andando, ele sempre adiante e eu atrás, seguindo a voz que repetia: ''Arre, burro, para nossa casa! Arre, burro para nossa casa!...'' — Assim fui andando até chegar a um grande bosque. No meio havia um magnífico palácio, mil vezes mais lindo e mais rico do que este. — De repente vi que os barris saíam de cima do burro, mas não sei quem lhe pegava, e ele foi meter-se na estrebaria. Eu, como estava cansada e vi luz dentro do palácio, fui entrando sem encontrar ninguém até chegar à cozinha. Aí vi um grande fogão cheio de caçarolas, frigideiras e panelas com diversos manjares, e havia por toda a parte um mexer de coisas como se muitos cozinheiros tratassem dum grande banquete. Mas, por mais que olhasse, não via ninguém. — Como estava ali só, fui-me chegando para o fogão a ver se comia um dos bolos muito loirinhos, muito apetitosos, que da frigideira iam saltando para uma travessa que estava ao lado. Mal lhe toquei, senti uma pancada na mão e a voz que dizia: «Olha a lavadeira o que é de atrevida!». A lavadeira contava a sua história, mas a Princesa nada parecia ouvir. Tinha os olhos fechados e estava tão imóvel como se estivesse dormindo. A mulherzinha não desanimou e foi sempre contando: — Olhe, Princesa, isto foi assim até à meia-noite; depois, à última badalada das doze horas, abriram-se alçapões e portas com muito estrondo e eu escondi-me a um canto. Ouviu-se um grande barulho e entrou na cozinha uma quantidade de coelhos de todas as cores; entre eles vinha um todo branco; tão lindo, tão lindo, que eu fiquei encantada. Nunca vi um coelho assim! Mal que a Princesa ouviu isto, abriu os olhos e sentou-se na cama. A lavadeira, contentíssima com tal resultado, foi continuando: — Trouxeram uma bacia de prata cheia de água e puzeram-na no meio da cozinha. Então o coelhinho branco meteu-se dentro, espanejou-se muito, e, saltando para fora da bacia, fez-se num Príncipe ricamente vestido e tão belo que não espero ver outro que o iguale. Depois foi a um armário, e, pegando num cofre de cristal, tirou de dentro um pente de oiro cravejado de brilhantes, um colar de rubis e um anel de esmeraldas, e disse: «Pente, colar, anel da minha Senhora: vejo-te a ti, não a vejo a ela. Ai de mim, que morro por ela!» — E, achorar que fazia pena, tornava: «Pente, colar, anel da minha Senhora: vejo-te a ti, não a vejo a ela. Ai de mim, que morro por ela!». E depois repetiu ainda, antes de fechar o cofre: — «Pente, colar, anel da minha Senhora: vejo-te a ti, não a vejo a ela. Ai de mim, que morro por ela!». Arrumou tudo como estava antes, tornou a meter-se na bacia, espanejou-se muito e ficou outra vez feito em coelho branco. &nbsp; Quando a lavadeira acabou a história, já a Princesa estava em pé no meio do quarto. Abraçou-a como a uma amiga e agradeceu-lhe as boas novas que lhe dava do seu querido coelhinho branco, combinando ir essa tarde com ela para o ver. Foi logo chamado o Rei e pedida a necessária licença para a Princesa sair. O pobre pai tão contente ficou ao ver a filha quase boa, que consentiu em tudo que lhe pediram, para a ter como era antes da doença. À tarde veio a lavadeira buscar a Princesa e lá foram as duas para o rio, encontrando o mesmo burro com as cangalhas e ouvindo a voz que dizia: ''Arre, burro, para nossa casa! Arre, burro, para nossa casa!'' A Princesa caminhava ao pé da lavadeira, e ninguém diria que tinha estado doente, pelo desembaraço que levava. Assim foram seguindo até chegar ao palácio; entraram, e, como na véspera, foi a lavadeira para cozinha e a menina com ela. Havia a mesma faina do dia anterior, e a mulher, para experimentar, fingia mexer nos guisados, e logo uma pancada na mão e a voz que gritava: — Olha a lavadeira o que é de atrevida! — Ia a Princesa, mexia em tudo, e não lhe faziam nenhum mal nem diziam nada. Assim estiveram até que o relógio deu as doze horas. Então, sentindo o mesmo barulho da véspera, esconderam-se as duas e logo viram chegar uma quantidade de coelhinhos e entre eles o branco, que a Princesa tanto amava. Veio a bacia, e ele, metendo-se dentro, espanejou-se muito e saiu um belo cavaleiro. Clarinda por sua vontade teria saído logo do esconderijo, mas a lavadeira não a deixou. Então foi o Príncipe ao armário, abriu o cofre, e, tirando as jóias da Princesa disse: — «Pente, colar, anel da minha Senhora: vejo-te a ti; não a vejo a ela. Ai de mim, que morro por ela!» — E repetiu isto segunda e terceira vez. Então a menina nem o deixou terminar; correu para ele de braços abertos, gritando: — Aqui estou, aqui estou, meu Príncipe! Só a ti quero para marido! Mal acabou de dizer isto, todos os coelhos se transformaram em homens e senhoras ricamente vestidas à corte. O palácio iluminou-se como para a mais esplêndida festa, e o Príncipe, levando a bela Clarinda pela mão, passou por entre os seus respeitosos cortezãos até à sala do trono. Aí esperava-os a linda Fada dos Lilazes, toda vestida de branco. A sua túnica era muito perfumada e fresca, e tão clara que parecia um foco de luz. O penteado tinha a forma do lilaz e no cimo coroava-a um diadema de pérolas semelhando a flor do seu nome. Na mão trazia uma varinha feita dum só brilhante. Estava muito alegre a boa Fada, e, quando os Príncipes chegaram junto dela, estendeu a sua varinha de condão e logo caiu sobre as suas lindas cabeças uma chuva de flores. Depois dirigiu-se à jovem Clarinda nestes termos: — Minha Princesa, aqui tens o mais nobre, o mais belo e o mais esforçado cavaleiro da Terra. Quis destinar-to, minha filha, por seres também a melhor, a mais bela e fiel das Princesas. Ele foi encantado pela minha mortal inimiga, a Fada Negra, ùnicamente por ser meu afilhado e saber quanto me mortificava fazendo mal a este Príncipe e aos seus. Assim foi transformado em coelho e juntamente todos os seus vassalos. — O seu vasto império foi também transformado numa grande floresta, até que uma jovem e linda Princesa o quisesse para marido. Ora isso seria impossível, se eu não te dotasse com todas as perfeições no dia do teu baptizado. A Princesa agradeceu muito à boa Fada e pediu licença para ir prevenir o pai, que a essa hora devia já estar cheio de cuidado. O Príncipe queria logo mandar cavaleiros e carruagens para trazer o velho Rei Poderoso, mas a Fada começou a rir e não consentiu em tal. Desde que estava desencantado o Príncipe todo o seu reino ficara o que tinha sido, e, portanto, tão longe da capital dos estados da Princesa que para lá ir era preciso fazer uma jornada dum mês montando camelos e elefantes. Como os noivos ficassem tristes com aquela contrariedade, que devia fazer morrer de pena o pobre Rei, a Fada sossegou-os, pois já tinha pensado nisso mandando logo o seu pagem — que era o anão das botas de sete léguas — chamar o Rei, que devia estar a chegar. Efectivamente, mal acabava de dizer isto, sentiram ruído fora, correram à janela, e a Princesa reconheceu o pai sentado num carro de oiro e puxado por grandes cisnes brancos, e, atrás dele, toda a sua comitiva igualmente trazida por enormes cisnes, que a um sinal da Fada dos Lilazes desapareceram logo. O velho Rei, abraçado à filha, nem queria acreditar em tamanha felicidade e desfazia-se em agradecimentos à boa Fada. Poucos dias depois fez-se o casamento no meio das mais esplêndidas festas, às quais a bela Fada dos Lilazes presidiu. Depois juntaram-se os dois reinos e ficou o maior império do mundo. Ainda por muitos anos viveu o bom Rei Poderoso, e, quando já era tão velhinho que não podia mais, morreu, deixando muitas saudades aos filhos e netos. A Imperatriz Clarinda e o seu nobre esposo, o Príncipe Branco, — que assim se ficou chamando por causa do encanto — viveram largos e felizes anos, tendo muitos filhos e amando-se sempre como no primeiro dia. Todos os anos a Fada dos Lilazes vinha passar com eles o aniversário do casamento, trazendo-lhes muitas e ricas prendas. Foi madrinha de todos os filhos que tiveram e não havia bem que lhes não fizesse. E a Fada Negra, condenada pela Rainha das Fadas a viver fora do Mundo, nunca mais lhes pôde fazer mal. Esquecia dizer que a lavadeira, autora de tanto bem, foi largamente recompensada. Deram-lhe tudo quanto ela quis, fizeram-na primeira dama da corte, e casaram-na com um nobre e rico cavaleiro; foi sempre muito feliz e a melhor amiga da bela Clarinda, que a estimava como irmã. [[Categoria:Contos portugueses|O coelho branco]] 0224j2igxq059dh9reuh1tbrmprtcl4 Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/Branca-Flor 0 256066 559688 559428 2026-08-20T15:25:58Z Mt516 43586 559688 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = Branca-Flor | anterior = [[../O coelho branco/]] | posterior = [[../História do Príncipe encantado no palácio de ferro no reino da escuridão/|História do Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão]] | notas = }} '''<big>BRANCA-FLOR</big>''' ERA uma vez um homem e uma mulher que tinham muitos filhos, tantos que não havia na terra quem quisesse baptizar-lhes uma menina que tiveram por fim. Eram muito pobres, pois o que ganhavam mal chegava para comer, e todos temiam encargos. Ia o homem muito triste pelo caminho fora, a ver se encontrava quem lhe quisesse baptizar a filha, quando de repente lhe apareceu um cavaleiro muito bem vestido, que lhe perguntou a razão da sua tristeza. — Meu senhor, temos uma menina para baptizar, e, como somos muito pobres e temos já muitos filhos, não há quem aceite mais encargos lá na terra. Venho à procura de alguém que me queira fazer essa esmola. — Não te aflijas, homem! Vou eu ser padrinho da menina e nada há-de faltar, mas com a condição de ma entregares em ela tendo doze anos. Ao homenzinho pareceu-lhe uma grande fortuna aquele oferecimento e disse logo que sim, acrescentando: — Falta madrinha, vou ainda procurá-la. — Para madrinha vai convidar a senhora Morgada, que ela aceita. — Isso sim! Já lá fui e ela disse que não! — Vai outra vez e dize-lhe que não é preciso que ela faça despesa alguma, porque o padrinho é que tudo quer pagar. Ficou o homem saltando de contente e foi logo acasa da Morgada, uma avarenta que mais depressa veria alguém morrer de fome do que ela dar cinco réis de esmola! Já era conhecida em todo o país a sua avareza, e por isso ninguém se lhe dirigia para pedir. Mas também não havia quem lhe fizesse o mais pequeno serviço senão por muito bom dinheiro. Foi baptizada a menina e chamou-se Guiomar. O cavaleiro pagava generosamente todas as despesas e nunca na terra se tinha feito uma tão grande festa. Começou a menina a crescer, linda como os amores. Tão bonita era, que a chamavam Branca-Flor, não havendo outra que a igualasse em bondade e beleza. O seu nascimento tinha trazido a felicidade à família, pois ia crescendo em bens, sempre ajudada pelo cavaleiro, que todos os anos aparecia misteriosamente, montado num cavalo que a ninguém mais obedecia. No dia em que Guiomar fazia doze anos, estavam todos em casa muito tristes com a lembrança de que ele a viria buscar, como tinha sido combinado quando se oferecera para padrinho. Ora Branca-Flor era muito devota, e nesse dia, mais que em nenhum outro, ela esteve rezando na igreja. Quando vinha para casa encontrou uma senhora muito linda, que lhe falou com bom modo, perguntando porque estava triste. Contou a menina o que lhe acontecia e a senhora disse-lhe: — que fosse a casa pôr a mesa para o jantar, e que colocasse os garfos e facas em cruz. Aconselhou-a a ter muita paciência, que muitos trabalhos lhe estavam reservados, mas que Deus era com ela; que fizesse sempre o bem que pudesse, porque entre os maus é que é merecimento ser bom. Desapareceu a senhora, e Branca-Flor foi para casa pensando no que tinha ouvido e, já resignada a tudo sofrer com paciência amparada por quem a aconselhava agora e não a abandonaria nunca. À hora marcada chegou o cavaleiro vestido e armado de ponto em branco. Receberam-no com todos os respeitos, como era costume, e levaram-no para a sala de jantar. Mal entrou e viu os garfos e facas postos em cruz deu um berro que atormentou tudo; A parede da casa abriu-se, e ele, crescendo espantosamente, agarrou Branca-Flor, que se escondia junto da mãe, e saltou para o cavalo que o esperava relinchando, saltando, às upas, num tal furor que todos tinham fugido para longe. Cavalo e cavaleiro começaram a crescer, a crescer, tão altos, tão altos, que nem se ouvia a pobre menina chorando nos braços do padrinho. É escusado dizer quem era ele — nem mais nem menos de que o Demónio! Montado no cavalo Pensamento, como ia, foi um instante enquanto chegou ao inferno, sua morada. E lá não teve Branca-Flor de que se queixar. Era muito bem tratada pelo padrinho e pela mulher (mais fina e mais cruel do que ele), pelas filhas (duas diabitas espertas qual azougue e piores que a peçonha), por todos os ''facanitos'' que são diabos menores, enfim, por todos os habitantes do palácio infernal. Um dia viu ela andar tudo em festa. Vinham cadeiras brilhantes, como se fossem de ouro e pratos, garfos, facas, tudo reluzia que era um deslumbramento. Como criança, que era, ia pegar naquelas coisas bonitas para as ver mais de perto; mas o padrinho corria logo para ela: — Não pegues nisso, olha que te queimai, não vês que tudo é de fogo?! — De fogo, meu padrinho?! Então o padrinho não se queima? — Não, eu não me queimo, porque sou também fogo. Tu é que ficavas perdida. Mal sabes tu para quem é isto tudo!... E, dizendo isto, ia brincando com as facas e os garfos e os pratos como no circo um chinês joga com navalhas reluzentes. — Ó meu padrinho, então para quem é a festa?! Eu conheço?... — Conheces, sim. É para a avarenta da tua madrinha. — Ai, meu padrinho, coitada dela! Então não há meio de se salvar?... — Há só um. A única acção boa que fez na sua vida foi ser tua madrinha; por ela se poderia salvar; se tu pedisses numa oração que eu sei. Branca-Flor, que era muito boa, já não largou o Demónio sem ele lha ensinar. Era um martírio para a pobre menina saber que alguém sofria, e que ela podia remediar o mal e não sabia como! Tanto pediu, tanto pediu, que o padrinho lha ensinou, dizendo-lhe que a não repetisse, porque a madrinha não merecia, que a deixasse sofrer pela sua vida avarenta. Branca-Flor não o entendeu assim, e logo que a alma apareceu, chorando o seu feio pecado, pedindo misericórdia, ela disse a oração: — Valha-lhe o Santo Nome de Jesus. Filho de Deus vivo! Virgem Maria seja comigo! Arredai ''facanitos'' e diabos maiorais, Que esta alma não sofre mais. &nbsp; Logo tudo se afastou, e a alma foi-se fazendo branca, branca como luar, e a subir, a subir para o céu, ia sorrindo à menina caridosa, que assim a salvara das penas eternas, pela única acção boa que na vida fizera. <div style="text-align: center; line-height: 1.1; margin: 1.5em 0;"> &#42;<br> &#42;&nbsp;&#42; </div> Havia nesse tempo um rei, que tinha um filho muito jogador. O Príncipe D. Pedro era muito bonito, muito esperto e muito bom; mas tinha aquele grande defeito, que era uma desconsolação para o pai. Em se lhe falando em jogo, perdia a cabeça e não havia tolice que não fizesse. Um dia, pediu ao pai um saco de dinheiro e foi pelo Mundo jogar. Ganhava sempre, e tanto, que ninguém queria jogar com ele. Desconsolado, foi o Príncipe andando até que um dia encontrou o Demónio e começou uma partida com ele. Mas aqui já o caso mudava de figura: tudo quanto jogasse, tudo perdia! As cartas de valor desapareciam-lhe das mãos, sem ele saber como nem mesmo dar por isso. Desesperado, jogava cada vez mais. Até que ficou de todo vazio o saco. — E agora (disse o Demónio) que jogas? — Agora já não tenho nada. — Tens a tua alma; se a quiseres jogar contra este dinheiro todo, eu aceito. O Príncipe ainda hesitava; mas a paixão do jogo é tão violenta, que já de si se pode considerar um tormento do inferno. Aceitou — e perdeu, é claro. — E agora (tornou o Demónio) hás-de vir ter comigo à cidade de Bijo-ó-bijo, ''ao palácio onde irás e não virás.'' — E quem me ensina o caminho? — Vai perguntando sempre, sempre, que eu não te posso levar. Desapareceu o Demónio, e o Príncipe foi andando o seu caminho, mais triste do que a noite. Arrependido do que fizera, ia lamentando a sorte que lhe dera um tão horrível vício. Se ele pudesse voltar com a palavra atrás, nunca mais tornaria a pegar em cartas. E, como ia andando sem encontrar ninguém a quem perguntar por seu caminho, dirigiu-se às formigas: — Formigas, vós que andais por toda a parte, podereis dizer-me onde é a cidade de Bijo-ó-bijo, ''o palácio onde irás e não virás?'' — Nós não sabemos, nem nunca ouvimos falar nela. Pergunta às abelhas. Como voam, talvez tenham visto mais. Foi o Príncipe andando até encontrar um enxame de abelhas, que zumbiam, alegremente, voando de flor em flor. — Abelhas, vós que voais por toda a parte, podeis dizer-me onde é a cidade de Bijo-ó-bijo, ''o palácio onde irás e não virás?'' — Nada, nós não sabemos. Nunca ouvimos falar nela. Olha, vai perguntar às aves, que voam mais alto e mais longe. E ele dirigiu-se às aves: — Dizei-me se sabeis onde é a cidade de Bijo-ó-bijo, ''o palácio onde irás e não virás?'' — Não, nós não sabemos; mas vem ali uma águia, que talvez saiba. Chegou a águia, batendo as asas, muito satisfeita. As mais disseram-lhe: — Donde vens tu? — Venho da cidade de Bijo-ó-bijo, ''do palácio onde irás e não virás''. Vão lá grandes festas, porque esperam um Príncipe, que deve ir já em viagem. — Pois olha, ele aí está a perguntar o caminho. Foi o Príncipe ter com a águia, que lhe disse: — Eu levo-te montado nas minhas costas, mas hás-de ir buscar o maior boi que encontrares e uma grande pipa cheia de vinho que me prenderás às asas. Quando eu te pedir vinho dás-me carne, e quando pedir carne dás-me vinho. Foi o Príncipe arranjar tudo. E a águia, depois de carregada e com o Príncipe montado, abriu as asas e voou, voou pelos espaços fora. Palácios, cidades, mares, países estranhos, de árvores e animais nunca vistos, passavam, como num sonho, debaixo dos olhos maravilhados do Príncipe. E a águia ia comendo e bebendo, até que por fim o Príncipe lhe disse que nada havia já. Então começou a águia a descer vertiginosamente, vindo pousar numa praia deserta onde deixou o Príncipe. Este, mal se viu ali, olhou para todos os lados e ficou muito triste por se ver abandonado naquela solidão. De repente vê ao pé de si uma Senhora muito doce e linda. Era Nossa Senhora, que também consolara Branca-Flor no dia em que ela tinha de ser entregue ao Demónio. Dirigiu-se a sorrir para o Príncipe dizendo-lhe: — Não estejas triste. Ainda podes salvar-te. Em breve aqui virão três meninas tomar banho. À última que entrar na água, que será também a última a sair, tira-lhe o fato e não lho dês senão quando ela te prometer ser boa para ti. A Senhora foi-se embora e o Príncipe ficou mais animado. Daí a pouco viu chegar três meninas; a que vinha atrás, e era a mais bonita de todas, foi a última que entrou na água. O Príncipe, sem que elas o vissem, escondeu-lhe o fato. As outras duas sairam, vestiram-se e foram-se embora, e ela quando quis fazer o mesmo não tinha que vestir. D. Pedro apareceu então dizendo que lhe daria o fato se pro metesse protegê-lo. — De boa vontade, respondeu Branca-Flor, pois era ela, e o seu coração estava sempre disposto a fazer bem. E começou por aconselhar: — Vai ter ao palácio e finge sempre que me não conheces. No banquete que irão dar-te verás facas reluzentes e facas muito feias, garfos brilhantes e garfos ferrugentos, cadeiras muito lindas e carunchosos bancos... Não te sirvas de nada que brilhe e seja bonito, porque é fogo em que tocas. Quando te vires aflito, chama por mim. O Príncipe agradeceu muito e ficou encantado com a menina. Meteu-se pelo caminho que ela lhe ensinou e foi ter ao palácio ''onde irás e não virás''. Lá o esperava o Demónio e toda a sua corte em festa. Apresentaram-lhe um grande jantar e ele, seguindo o conselho de Branca-Flor, só tocou no que não brilhava, coisa que bastante admirou o Demónio e seus diabos todos. No fim de jantar, aquele chamou o Príncipe e disse-lhe: — Aqui tens esta cepa; vai plantá-la no campo que além vês e hás-de trazer-me para a ceia um pichel de vinho da uva que ela der. Se não fizeres isto, morrerás. D. Pedro foi para o monte muito aflito e espantado com tal ordem. Como poderia fazer sòmente que a videira pegasse?! Sentou-se muito triste, clamando: — Valha-me aqui Branca-Flor! Veio ela imediatamente e perguntou o que desejava. — Foi o Demónio que, sob pena de morte, me mandou levar-lhe para a ceia vinho produzido por esta cepa! E mostrava uma raiz torcida e feia, com toda a aparência de seca. Sorrindo, respondeu a menina: — Não te aflijas. Deita a cabeça no meu regaço e dorme. Logo que ele adormeceu, vieram homens plantar a cepa, que logo se cobriu de folha, flor e fruto. Vindimaram, pisaram e fizeram um vinho lindo de ver e delicioso de beber. Então Branca-Flor acordou o Príncipe e entregou-lhe um pichel de vinho, que ele levou, maravilhado. E o Demónio, desconfiando: — Ou tu estiveste com Branca-Flor ou Branca-Flor contigo! Resposta, pronta, do Príncipe: — Nem eu com Branca-Flor, nem Branca-Flor comigo. O Demónio mandou-o deitar e ao outro dia logo de manhã deu-lhe três grãos de trigo, dizendo: — Vai semear estes grãos e ainda hoje me hás-de trazer o pão cozido para o meu jantar. Se isto não fizeres, morrerás. D. Pedro foi ao campo e chamou: — Valha-me aqui Branca-Flor! E logo ela apareceu, perguntando: — Então que temos agora? — Agora manda-me semear, colher, moer, amassar e levar-lhe pão para o jantar, destes grãozitos de trigo! — Descansa, dorme como ontem, que tudo se há-de arranjar. Logo que ele fechou os olhos, atirou com os grãos à terra, nasceu uma linda seara muito verde, que logo amadureceu, vindo muitos homens ceifá-la, malhar e moer o trigo. Fizeram dois pães, que a menina entregou a D. Pedro, cada vez mais agradecido e maravilhado. À hora do jantar lá estava ele com os pães. O Demónio torceu o nariz: — Ou tu estiveste com Branca-Flor ou Branca-Flor contigo. E o Príncipe: — Nem eu com Branca-Flor, nem Branca-Flor comigo. Mandou-o deitar, e ao outro dia disse-lhe: — Prepara-te, que hás-de ir ao fundo do mar buscar um anel que lá perdeu o bisavô do teu bisavô. Se não o trouxeres, morrerás. Foi D. Pedro para a praia e começou a chorar. Ele não tinha razão de se afligir, pois que a menina tudo remediava, mas esta ordem parecia-lhe de tal dificuldade que não contava já com a vida. Muito triste, chamou: — Valha-me aqui Branca-Flor! Apareceu logo Branca-Flor e depois de o ouvir sossegou-o. Arranjou um alguidar, um garrafão e uma faca e mandou ao Príncipe que a cortasse aos bocados sobre aquele alguidar, que a metesse no garrafão e que a deitasse ao mar, ficando ele na praia sentado num banco a tocar viola, até o garrafão vir ao lume da água. — Mas tem cautela! Não deixes cair nenhum sangue fora do alguidar e não deixes de tocar enquanto eu estiver debaixo da água, senão corro grande risco. O Príncipe de maneira nenhuma queria obedecer-lhe mas Branca-Flor afiançou-lhe que era para bem de ambos e começou ela mesma a cortar os pés. Em vista disto, o Príncipe fez tudo que ela mandou. Depois atirou o garrafão às ondas e esperou-o, começando a tocar mas, porque se demorasse muito em vira acima, adormeceu, de cansado. Estava a dormir profundamente quando o garrafão surgiu. Levantou-se uma onda, que lhe veiu molhar os pés, e o Príncipe não acordou. Torna o garrafão a ir ao fundo e a voltar ao cimo, e o Príncipe, a dormir, nada via. Levantou-se outra onda e veio tocar-lhe o corpo e ele não acordou. Terceira vez foi o garrafão ao fundo e veio acima, levantando-se então uma onda que lhe beijou a face. Só então acordou sobressaltado e com a aflição de ter feito a desgraça da sua amiga. Agarrou o garrafão e deitou os pedaços do corpo no alguidar, ficando logo a menina tal qual era antes, menos a ponta do dedo mínimo, porque uma gota de sangue tinha caído fora. Disse ela ao Príncipe: — Se não acordasses à terceira vez que vim à tona de água, morreríamos ambos. Pediu-lhe o Príncipe muito perdão e abraçaram-se felizes por terem escapado à morte daquela vez. Deu-lhe Branca-Flor o anel para entregar ao Demónio, e com um bocadinho de cera arranjaram o dedo de que lhe faltava a pontinha. Quando D. Pedro entregou o anel ao Demónio, ele exclamou furioso: — Ou tu estiveste com Branca-Flor ou Branca-Flor contigo! — Nem eu com Branca-Flor, nem Branca-Flor comigo. — Bem, vai deitar-te e amanhã falaremos. Ao outro dia chamou-o. — Hás-de ir amansar a mula que aí tenho. É alguma coisa brava e então quero que a ensines. D. Pedro, que nada queria fazer sem consultar Branca-Flor, chamou-a, e ela, depois de o ouvir, disse: — Olha que a mula é o próprio Demónio, a mulher dele o selim, as filhas os estribos, e eu a cabeçada e o freio. Tu levas um chicote bem grosso e bate com quanta força tiveres em tudo, menos na cabeçada e no freio. Quanto mais bateres, melhor, e não te deixes desmontar, senão estás perdido. Daí a pouco apresentou-se pronto para montar. E a mula parecia de todo o sossego. Mas, logo que D. Pedro se firmou no selim não se imagina o que foi! Subia a mula para as fragas, saltava, parava de repente, fazia quanto podia para o desmontar, mas o Príncipe era bom calção e melhor pulso ainda tinha. Com o cabo do chicote deu tanta pancada na mula, no selim e nos estribos que, à noite, quando chegou ao palácio, todos andavam a gemer, menos Branca-Flor. Ao outro dia chamou-o o Demónio e disse-lhe: — Visto que não caiste da mula e tens feito sempre quanto eu tenho mandado, quero-te para genro. E agora mesmo hás-de escolher uma das minhas filhas para casares. Mandou pôr as três raparigas detrás de uma cortina e disse ao Príncipe que escolhesse a que queria, vendo só a mão esquerda de cada uma. D. Pedro conheceu Branca-Flor pela ponta de cera do dedo mínimo e foi a que escolheu. O Demónio estava furioso, mas nada podia dizer, e o Príncipe e a menina ficaram contentíssimos, porque gostavam muito um do outro. No dia seguinte casaram, houve grande festa, grande banquete e depois foram deitar-se. Alta noite chamava o Demónio: — Branca-Flor!... — Senhor!?... — Dorme e descansa. E disse Branca-Flor, muito baixinho, para o Príncipe: — Olha que ele quer-nos matar logo que nos saiba a dormir, e então precisamos de fugir. Vai à estrebaria e encontrarás lá três cavalos: o mais gordo e bonito é o ''Tempo'', não lhe toques porque é tão vagaroso que para nada nos serviria, o segundo é o ''Vento'', e o terceiro, magro e feio, é o ''Pensamento''. Esse é que hás-de trazer. D. Pedro levantou-se de manso e foi à estrebaria, mas vendo o cavalo ''Pensamento'' tão magro e o ''Vento'' muito alegre e bonito, foi este o que trouxe, apesar da recomendação de Branca-Flor. Ela ficou aflita, mas não havia tempo a perder. Levantou-se muito devagarinho, cuspiu na travesseira e partiram. De quando em quando tornava o Demónio: — Branca-Flor!... E o cuspo respondia: — Senhor!?... — Dorme e descansa. Quando o cuspo secou deixou de responder, e então vai o Demónio, com uma grande moca de ferro, bateu sobre a cama até partir tudo. Depois foi deitar-se muito satisfeito, imaginando ter morto o Príncipe e Branca-Flor. De manhã veio a mulher ter com ele aos berros: — que tinham fugido, que não estavam mortos, nem na estrebaria estava o cavalo ''Vento''. Pior ainda que ele e queixosa da pancadaria que levara, não largou o Demónio enquanto ele não montou no cavalo ''Pensamento'' para perseguir os fugitivos. <div style="text-align: center; line-height: 1.1; margin: 1.5em 0;"> &#42;<br> &#42;&nbsp;&#42; </div> O Príncipe e Branca-Flor correram, ou antes, voaram toda a noite e toda amanhã. Já iam bem longe da cidade de Bijo-ó-bijo, ''do palácio onde irás e não virás'', quando viram o Demónio a persegui-los, montado no cavalo ''Pensamento''. Então Branca-Flor tirou do bolso um agulheiro com agulhas e deitou-as para trás. Fez-se logo um pinhal tão espesso que julgou o Demónio não poder passar. Deu de rédeas ao cavalo e foi-se embora. — Olha, mulher, não os encontrei, nem pude atravessar um pinhal que se pôs diante de mim — disse ele ao voltar a casa. A mulher que por magia tudo vira a distância gritou-lhe: — Ó grande estúpido, olha que foram eles que fizeram isso! Torna lá e hás-de trazê-los. Foi o Demónio persegui-los outra vez. Branca-Flor quando o viu deitou um copo de água para trás. Logo ali se formou um mar tão largo que não ousou o Demónio passá-lo. Voltou, e foi ter com a mulher. — Olha que não os encontrei. Só vi um grande mar, que não atravessei porque eles decerto o não poderiam também ter passado. — Estás cada vez pior, homem! Eles é que fizeram isso e agora até se hão-de rir de ti. Torna lá e hás-de trazê-los. Foi ele outra vez, e, mal Branca-Flor o viu, transformou o cavalo numa horta, a ela própria em hortaliça e o Príncipe em hortelão. Dirigiu-se-lhe o Demónio, gritando: — Olá, ó amigo, não viu por aqui passar um homem e uma mulher a cavalo? — As couves vendem-se, sim senhor! São a vintém e a trinta réis. — Não é isso. É se viu passar por aqui um homem e uma mulher, a cavalo? — Já lhe disse que se vendem. Se as quer, leve-as; se não, deixe-me em paz! — Ó homem, não é isso! E explicava. Mas a resposta era sempre a mesma. Desesperado, foi-se embora. — Mulher, não os encontrei. Perguntei a um hortelão, mas era surdo, não me disse coisa com coisa. — Pois eram eles. Torna lá e hás-de trazê-los. Tornou o Demónio, encontrando muito mais adiante um jardim, que era o cavalo, as flores a Princesa, e o Príncipe o jardineiro. Dirigiu-se a este, a perguntar: — Ó amigo, viu por aqui passar um homem e uma mulher, a cavalo? Respondeu-lhe o jardineiro: — Ando a regar, ando, sim senhor! Está uma calina que não sei como as flores hão-de resistir! — Não é isso, homem! É se viu passar um homem e uma mulher a cavalo? — É verdade, é! Esta seca é uma desgraça, mata as florinhas todas. — Não é isso que eu digo! Veja se me entende. — E repetia. Mas nada conseguiu. Desesperado, foi o Demónio ter com a mulher: — Olha que não os encontrei. Estive com um homem ainda mais bruto que uma porta, e como me não entendia vim-me embora! — Estás cada vez mais estúpido, digo-te eu! Pois não viste que eram eles?! Torna lá e hás-de trazê-lós. — Pois olha que é a última vez; se os não encontrar, não volto lá — respondeu ele, de muito mau humor. Foi e Branca-Flor mal o viu transformou o cavalo numa igreja, a ela em sinos, e o Príncipe em sacristão. Quando o Demónio chegou ao pé da igreja estava o sacristão a tocar desesperadamente. Começou o Demónio a gritar cá de baixo: — Eh lá, ó amigo! Viu por aqui passar um homem e uma mulher a cavalo? E o outro, de cima, a tocar os sinos com toda a força, respondeu: — Sim, senhor, a missa vai começar. Já o Senhor Cura se está a vestir. E o Demónio : — Não é isso que eu digo! É se viu por aqui passar um homem e uma mulher a cavalo? — Já lhe disse que vai começar a missa! Se quer entrar, entre; se não quer entrar, deixe-me em paz! Desesperado, foi-se o Demónio embora, e, logo que chegou ao palácio ''onde irás e não virás'', disse à mulher: — Não os vi, nem me deram novas deles. Perguntei a um sacristão, mas com o barulho dos sinos não percebeu nada. — Eram eles mesmos! — Pois acabou-se. Que vão em paz, que eu é que não estou para mais correrias! E, por mais que a mulher pregasse, ele é que não esteve para mais. <div style="text-align: center; line-height: 1.1; margin: 1.5em 0;"> &#42;<br> &#42;&nbsp;&#42; </div> Logo que se viu perto do seu Reino, disse o Príncipe a Branca-Flor que por ele esperasse ali; que ele ia buscar carruagens, vestidos e toda a sua corte, para ela ser recebida como merecia pois agora era sua mulher, só para ele Branca-Flor e para todos a Princesa Guiomar. — Vai — respondeu a Princesa — mas tem cautela; não te deixes abraçar por ninguém, senão esqueces-te de mim sete anos. Despediram-se com muitas lágrimas e tristezas e ele partiu. Quando chegou à corte os pais iam morrendo quase de alegria. Há muito havia o Príncipe desaparecido, sem ninguém dar novas dele. Filho único e herdeiro do trono, todo o povo chorava com os pais o futuro Rei. Por isso, quando o viram chegar são e salvo, o entusiasmo foi tão grande, houve tantas festas, que já ninguém se entendia na grande capital. Todos o queriam abraçar, mas o Príncipe pedia que não o fizessem. De maneira nenhuma queria esquecer quem tanto bem lhe tinha feito. Mas, como estivesse cansado de tantas festas, sentou-se num banco do jardim. De repente sentiu-se abraçado pelas costas, deu um grito e de nada mais se lembrou. Foi a boa da sua bisavó, que era já muito velhinha e mal se podia mexer. Desde que ele deixara o Reino a velha Rainha nunca mais saira do seu antigo palácio onde vivia entre damas e cortezãos, tão velhos como ela, rodeada de coisas antigas, recordando factos que presenceara e tão remotos que só nos livros se poderiam saber. O bisneto era a pessoa que mais amava no Mundo, por isso, logo que soube da sua chegada, não quis esperar que ele a fosse ver. Quis ir ela visitá-lo e abraçá-lo, causando assim muito mal à pobre Princesa Guiomar. Sete anos se passaram sem que jamais o Príncipe se lembrasse da sua vida antiga. Ao fim desses sete anos foi a uma grande caçada, como era costume de todos os Reis, Príncipes e Cavaleiros. Andando em montaria a perseguir um veado afastou-se dos cavaleiros que mais de perto o acompanhavam. Foi correndo, correndo, numa galopada doida, e quanto mais corria mais o veado fugia sem se mostrar cansado e olhando para trás a ver se era seguido. Assim foram correndo até chegar a um bosque muito espesso. Ai, como o cavalo não podia continuar por não ter caminho nem atalho, o Príncipe apeou-se e foi seguindo o veado, que também ia mais devagar. Numa clareira do bosque havia uma cabaninha. O Príncipe já muito fatigado, sentou-se ali, e então viu uma menina muito formosa e ricamente vestida, que ia passando com um porco espinho preso por um cordão de seda. E tocando-lhe com uma varinha dizia: <div style="text-align: center; margin: 1.5em 0;"> <poem> «Anda, anda, porco espinho nunca te esqueças de andar, — como o Príncipe D. Pedro se esqueceu de Guiomar» </poem> </div> Mal ouviu isto, lembrou-se o Príncipe de tudo. Correu para a menina, abraçaram-se e ficaram contentíssimos. O porco-espinho transformou-se no cavalo ''Vento''. Nele montaram os dois e foram ter com os outros caçadores. Mas ainda tiveram que andar um par de léguas porque, perseguindo o milagroso veado, o Príncipe andara muito, sem dar por isso. Depois foram todos para o Palácio. Os velhos Reis ficaram muito contentes quando viram Branca-Flor e souberam tudo quanto ela tinha feito para salvação do Príncipe seu filho. Fizeram-se grandes festas, que duraram uns poucos de meses. O povo ficou encantado com a linda e santa Princesa, que viera de mais longe que as terras do fim do Mundo, da cidade e palácio do mal que vencera por sua bondade. [[Categoria:Contos portugueses|Branca-Flor]] b8fucf58w109fl93p950y86blqs1jyw Henriqueta 0 256101 559677 559401 2026-08-20T14:54:23Z BlitzkriegBoop 37692 Controle de autoridade e estatuto de direitos de autor adicionados 559677 wikitext text/x-wiki <pages index="Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf" header=1/> {{Controle de autoridade}} {{DP-3}} [[Categoria:Maria Peregrina de Souza]] [[Categoria:António Feliciano de Castilho]] [[Categoria:Obras publicadas em 1876]] [[Categoria:Henriqueta| ]] oghejn1p1m1pscgnhuouhzumrn1dcu9 Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/História do Príncipe encantado no palácio de ferro no reino da escuridão 0 256245 559689 559426 2026-08-20T15:26:30Z Mt516 43586 559689 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = História do Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão | anterior = [[../Branca-Flor/]] | posterior = [[../O corvo/]] | notas = }} '''<big>HISTÓRIA DO PRÍNCIPE ENCANTADO NO PALÁCIO DE FERRO NO REINO DA ESCURIDÃO</big>''' HAVIA um velho negociante muito rico, que tinha uma filha, uma criança linda, boa e inteligente como dificilmente se encontraria outra. A mulher do opulento negociante morrera quando a menina veio ao mundo, sendo então entregue a uma bondosa mulherzinha, que lhe serviu de ama e de mãe. Não havia, decerto, mãe que mais gostasse de sua filha do que ela gostava da pequenina Maria — assim se chamava a menina. O Rei era muito amigo do negociante, que já por vezes tinha emprestado grandes quantias ao Governo, por isso o tratava como amigo e até fora o padrinho de Maria. Quando esta chegou à idade de começar a estudar, o pai, que se não queria separar dela, arranjou uma mestra para casa. A menina afeiçoou-se de tal maneira à professora que a tratava por mãe, e por irmãs a duas irmãs que ela tinha. Viveram muito bem, muito felizes e alegres, até que à mestra se lhe meteu em cabeça casar com o negociante. Não era por gostar dele, mas sòmente por ser muito rico e ela ambiciosa e má. Combinou então com as irmãs iludir a pequena Maria, que as tinha na conta de suas verdadeiras amigas. Começou a mestra a fingir que andava muito triste. Quando via a pequena punha-se a chorar, e, por mais que ela lhe suplicasse que dissesse o que tinha, nada conseguia. Foi perguntar às irmãs se sabiam o motivo que a fazia andar tão desconsolada, e elas, fingindo-se muito penalizadas, disseram: — A nossa irmã anda assim triste porque gosta muito de teu pai e ele não gosta dela. Se tu quisesses, como seríamos todos felizes! Tu já nos chamas irmãs e a ela mãe, mas se arranjasses o casamento é que verdadeiramente ficávamos uma só família. Estavam nesta conversa quando entrou a mestra. Maria correu para ela de braços abertos, dizendo que sabia a causa das suas mágoas. — Então se já sabes o que eu não queria de modo nenhum confessar-te — disse a ''finória'' — podes avaliar se tenho ou não razão para andar triste! A pequena, que era muito boazinha e muito sincera, acreditou em tudo aquilo e pôs-se a chorar porque não sabia o que havia de fazer. Tantas coisas lhe disseram, tanto a atormentaram, que foi pedir ao pai que casasse com a mestra. O velho negociante percebeu que andava ali intriga e não queria aceder, mas a pobre criança afligiu-se tanto com as lamentações das três que adoeceu. O pai, muito aflito, disse então que sim, que casaria com a professora, mas que havia de comprar primeiro umas botas de montar e quando se rompessem é que se realizaria a festa. Ficou tudo muito contente; o homem comprou as botas julgando-se livre do compromisso — pois quanto tempo não é preciso para romper umas botas de montar! A mestra, que era muito esperta, logo que as botas vieram para casa e foram postas no quarto do negociante, foi com uma pá de cinza ainda quente e deitou-lha dentro. Quando o velho estava para voltar, limpou-as muito bem e pô-las no seu lugar como se nada houvesse. Mas, já se vê, estavam queimadas e, quando o negociante precisou de as calçar, logo as encontrou rotas. Percebeu que tinha sido enganado, mas não teve remédio senão cumprir o que prometera. A filha ficou contentíssima, mas ele sempre lhe disse: — Deixa estar que te hás-de arrepender, mas quando já não houver remédio! Houve grandes festas, tendo o Rei assistido ao baile, e todos andavam muito alegres menos o negociante. Ao princípio tudo ia bem e viviam na mais santa paz, mas a ''espertalhona'', logo que se viu senhora da casa, juntou-se com as irmãs para apoquentarem a Maria, não havendo desgosto que lhe não causassem. Começou ela a ver que seu pai tinha razão, mas já era tarde! Não querendo afligi-lo com a narração das suas mágoas, só lhe pediu que a deixasse ir viver com a ama. O pai deu-lhe muito dinheiro e ela arranjou uma casita de campo e para lá foram as duas. Comprou só o indispensável para viverem como pobres e o resto do dinheiro repartiu com os infelizes. O negociante, desconsolado com a sua vida, só tinha alegria quando ia visitar a filha, mas essa mesma alegria era paga por mil desgostos e sensaborias, porque a mulher logo o sabia e o atormentava por isso. Era uma vida tão horrível que ele nem já tinha coragem para trabalhar e resolveu retirar-se de todo dos negócios. Começou a tratar da liquidação da sua grande fortuna e o que podia mandava para a filha, mas a menina era tão caridosa que chegava a passar privações para dar aos pobres. Um dia, em que ela e a ama estavam completamente sem recursos, bateu um mendigo à porta pedindo agasalho e esmola. Em casa não havia nada e a ama ia despedir o pobrezinho quando a Maria a chamou de parte e lhe disse: — Não podemos fazer tal! Pois onde queres tu que o velhinho vá a estas horas? Nem força terá para andar pelos caminhos! — Ó minha rica menina — respondeu a ama, aflita — pois se não temos para nós cearmos o que havemos de dar ao pobre?! — Olha, toma lá este lenço de seda e vai vendê-lo; sempre há-de render para se comprar carvão e alguma coisa para a ceia. Tirou do pescoço um riquíssimo lenço, que lhe dera o pai, e entregou-o à ama para que o fosse vender e com o dinheiro trouxesse de comer para o pobre. Daí a pouco voltou a ama com tudo que precisavam, e principiou a fazer a ceia. O mendigo, sentado à lareira, conversava com a criada, enquanto a menina trabalhava para os pobres. Além das esmolas dava o seu trabalho, que às vezes é ainda esmola maior. No meio da conversa disse o velho: — Ora eu imaginava que a menina era muito rica!... Tinham-me dito que era a única filha do grande negociante, compadre do Rei, mas vejo que me enganaram. — Não o enganaram, não —respondeu a ama — a minha menina é muito rica e se está nesta miséria é porque dá tudo aos pobres. — Não digas tal, ama, eu dou aos pobrezinhos o que não me faz falta. — E o pai da menina vem aqui? — perguntou ainda o velho. — Vem pouco — respondeu logo a ama que era boa mulher mas faladora — porque é casado com uma mulher muito má. — Ó ama, não digas mal da minha madrasta, deixa-a lá! Meu pai não vem porque não pode. — Ouvi dizer na cidade que o pai da menina ia ao Rio de Janeiro liquidar a sua fortuna — continuou o mendigo — Eu sei muito bem onde é o Rio de Janeiro, porque já lá estive. Há lá um jardim maravilhoso na Quinta chamada da Permissão, que tem as mais lindas rosas do mundo, brancas, encarnadas e azuis. Maria ouviu isto e ficou pensativa. Depois da ceia pronta foram para a mesa e a menina disse ao ouvido da ama que comesse pouco para que o pobre não tivesse falta. Mandaram-no deitar no próprio quarto delas e ficaram ao lume. A ama depressa adormeceu, mas quando a menina ia também a pegar no sono ouviu uma voz dizer: — Maria, se te vires aflita, chama pelo ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão!'' Ficou surpreendida de se ouvir assim chamar pelo seu nome, mas, como não visse nem ouvisse mais nada, adormeceu. De manhã, ficaram admiradas não vendo o pobre e encontrando as portas fechadas por dentro como na véspera as tinham deixado. Procuraram todos os cantos da casa, mas de tal pobre nem sinal! Andavam nestas pesquisas quando ouviram bater à porta. A menina foi abrir e ficou contentíssima quando viu o pai. Abraçaram-se e ele preveniu a filha de que vinha despedir-se porque ia ao Rio de Janeiro liquidar parte da sua fortuna. Reparando na pobreza da casa e dos fatos com que as duas estavam vestidas, ralhou com a menina e deu-lhe mais dinheiro. Depois perguntou o que desejava lhe trouxesse de presente. Maria lembrou-se do que lhe dissera o velhinho e pediu: — Eu, meu pai, só desejava três ramos de rosas: um branco, outro encarnado e outro azul, da Quinta da Permissão. O negociante tomou nota da encomenda da filha, abraçou-a, beijou-a muito e partiu. Chegou ao Rio de Janeiro onde era esperado pelos negociantes que tinham relações com a sua casa, sendo por todos muito bem tratado. Mas o que desejava era liquidar tudo ràpidamente e voltar para junto da filha; por isso, logo que chegou, pediu o levassem à Quinta da Permissão para comprar os ramos maravilhosos que Maria lhe tinha pedido. Foi preciso montar a cavalo e andar quinze dias pelo interior para chegar à magnífica Quinta. Lá encontrou um velho, que lhe perguntou o que desejava: — Três ramos de rosas para a minha filha; um branco, um encarnado e outro azul. O homem foi com ele ao jardim cortar as flores e fez-lhe três ramos que eram um encanto. Perguntou o negociante o preço e o velho disse-lho tão grande que seria para afugentar outro menos rico. Voltou para o Rio, muito contente por levar o que a filha desejava, arranjou os negócios ràpidamente e, no mesmo navio que o havia levado, regressou à Pátria. Mal pôs o pé em terra, correu a casa da filha para lhe entregar os ramos. Depois foi para casa e a mulher e as cunhadas, admiradas de o verem voltar tão depressa, perguntaram se lhes trazia algum presente. O pobre homem respondeu que nada lhes trouxera porque não tivera tempo. As três ''fúrias'' logo que isto ouviram iam dando cabo dele, e a mulher disse: — Aposto que se não esqueceu da sua filha! Resolveram para saber o que ele lhe tinha dado, ir a casa de Maria, fingindo que iam passear. Bateram à porta e foi a própria Maria quem veio abrir. Tratou-as muito bem e disse-lhes que entrassem. — Não, não nos demoramos — disse a madrasta. — Como passámos por aqui batemos à porta para te ver. Fingindo que não queriam entrar, foram sempre entrando e daí a pouco perguntaram: — Já viste o teu pai, que chegou hoje do Rio? Vem mais alegre e melhor de saúde. É bonita a prenda que ele te trouxe? A Maria, que era muito sincera, respondeu-lhes: — Já o vi, sim; trouxe-me três ramos de rosas, qual deles o mais lindo, brancas, azuis e encarnadas! E à mãe e às manas o que trouxe? — A nós?! A nós não trouxe nada! Nem sequer nos perguntou o que queríamos. Não admira, não somos suas filhas!... E foram-se embora, desesperadas, deixando a pobre menina muito aflita pelo mal que involuntàriamente tinha causado ao bom pai. As três chegaram a casa e disseram tais coisas ao pobre negociante que nem é bom imaginar! Combinaram então afligir a Maria destruindo-lhe as flores. No dia seguinte foi a mais velha delas visitá-la; conversaram largo tempo e no fim disse-lhe: — Deixas-me ver de perto o teu ramo de rosas brancas? Na maior boa fé o foi buscar e entregou-lho; depois de muito o gabar fingiu-se distraída e num instante o desfolhou, sem dar tempo à menina para evitar tal desastre. Ficou esta muito desgostosa, ouvindo então uma voz que dizia: — Ai, Maria, que deixaste desfolhar o ramo de rosas brancas onde estava a tua felicidade! Quando te vires aflita chama pelo ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão!...'' Ouvia esta voz, mas, naturalmente por encanto, era como se nada ouvisse, esquecia-lhe imediatamente, e quando se via apoquentada não chamava o seu protector. No outro dia veio a segunda irmã da madrasta e pediu para ver o ramo de rosas encarnadas. A Maria, que já se tinha esquecido do que a outra lhe fizera, foi prontamente buscá-lo. Logo que a malvada o apanhou às mãos, desfolhou-o todo. A menina soltou um grito angustiado, mas já não havia remédio: as pobres florinhas estavam perdidas. E por cima de fazer uma acção tão feia ainda escarneceu, dizendo: — Ah, tu querias receber presentes e nós não termos nada?! Pois agora aí te ficam as tuas lindas rosas. Saiu a rir, enquanto a menina ficava a chorar, ouvindo a mesma voz: — Ai, Maria, que deixaste desfolhar as rosas encarnadas onde estava a tua riqueza; Quando te vires aflita chama pelo ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão.'' Mas ouvia isto e logo se esquecia, assim como das más acções que lhe faziam. No dia seguinte veio a madrasta e ela tratou-a muito bem. Como já vinha com más tenções, pediu-lhe logo que mostrasse o ramo das rosas azuis. Desfolhou-o, deitou-o no chão e pisou as flores, dizendo ainda por cima mil impropérios à enteada. E logo a menina ouviu a mesma voz: — Ai, Maria, que deixaste desfolhar as rosas azuis onde estava o teu amor! Quando te vires aflita chama pelo ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão.'' Entrou a ama e, vendo-a chorar, quis saber o que acontecera, consolando-a como pôde. A menina nessa noite sonhou que era transportada para um país muito distante e que estava defronte de um grande palácio e não conhecia ali ninguém! Muito sobressaltada acordou e foi grande o seu espanto e aflição vendo-se, exactamente como tinha sonhado, num país estranho! Achava-se no meio duma grande praça, defronte do palácio real, rodeada de povo e soldados, e uns se riam, outros a lamentavam, por ser tão nova, tão bonita e não ter ali quem a protegesse. Era tal o alarido que a Rainha chegou à janela do palácio e perguntou o que era. Responderam-lhe logo que aparecera ali adormecida uma estrangeira muito bonita e que se pusera a chorar sem dizer quem era nem o que desejava. A Rainha mandou ir a menina à sua presença e, tratando-a com todo o carinho, perguntou-lhe quem era e porque se encontrava na sua capital. Como fora muito bem educada e sabia umas poucas de línguas, compreendeu o que lhe diziam e respondeu à Rainha contando a sua vida e pedindo que a não abandonasse. Então a Rainha perguntou-lhe o que sabia fazer para a empregar no palácio. Ela respondeu modestamente: — Sei coser e bordar, Senhora. — Bem, ficarás encarregada do enxoval do Príncipe meu filho. Era este menino a única família da Soberana, pois o filho mais velho, o herdeiro do trono e das suas inúmeras riquezas, esse Príncipe que era a flor da Cavalaria ea esperança dos bons, desaparecera um dia misteriosamente. Só depois de o procurarem por todo o Mundo e consultarem todas as Fadas e Génios do seu conhecimento, conseguiram saber que estava encantado no ''Palácio de ferro no Reino da Escuridão.'' Imenso foi o desgosto da Rainha e de todo o povo, pois o Príncipe era muitíssimo estimado. Maria tomou conta da obrigação e tão bem se houve que a Rainha estava contentíssima. Cosia e bordava maravilhosamente e era tão modesta e calada que não havia dela a menor razão de queixa. Como tinha muito talento e desenhava esplêndidamente do natural, os seus bordados eram feitos sobre esses desenhos, com tanta perfeição que chegavam a iludir. Um dia quis fazer uma surpresa à Rainha e bordou, num lençol do berço, a figura do Principezito deitado, de perninhas para o ar, a rir. A perfeição do bordado era tal que o pequenino parecia vivo. Foi a roupa a lavar e ela, sem dizer nada a ninguém, meteu o lençol entre o enxoval do Príncipe. Quando as lavadeiras espalharam a roupa na praia para começar o trabalho, deram com os olhos no bordado e ficaram aflitíssimas, pois julgaram ser o Príncipe que por engano tivesse vindo no saco. Conhecido o engano riram a valer e foram ao palácio levando o lençol nos braços como se realmente fosse uma criança. A Rainha correu, alarmada, mas, vendo que era um retrato, ficou admirada e contente por ter uma obra daquelas. Começou a perguntar quem seria e quem não seria a autora do trabalho e como a Maria era a encarregada da roupa do Principezito foi chamada para dizer o que sabia. Sorriu-se e disse que tinha feito aquele bordado para oferecer à sua Rainha. Esta ficou reconhecida a tanta delicadeza e logo ali a nomeou sua primeira dama. Apesar de ser bondosa e meiga, a menina levantou contra si os ódios e más vontades das outras damas da corte, que não tendo os seus méritos invejavam furiosamente a maneira como a Rainha a tratava. Principalmente três, das mais velhas, tinham-lhe um ódio de morte e reuniram-se um dia para discutirem o mal que lhe haviam de fazer. Pensaram em mandá-la matar, mas isso levantaria suspeitas. Uma delas, mais prudente, disse: — O melhor é intrigá-la com a Soberana e obrigar esta a expulsá-la. Combinado isto, foi logo dali dizer à Rainha, com grandes admirações e comentários, que a Maria se gabara de lavar e engomar toda a roupa do palácio em três dias. A Rainha, que sabia o desembaraço da sua primeira dama, acreditou tudo que lhe contaram e chamando-a perguntou-lhe se era capaz de cumprir o que dissera. Ela afirmou que tal não tinha dito. Mas a Rainha, querendo ver até onde chegava a sua habilidade, respondeu-lhe: — Pois minha amiga, hás-de fazê-lo, sob pena de morte, se não cumprires o que disseste. Acto contínuo, mandou encaixotar toda a roupa que havia no palácio, que em carroças foi para o rio, para Maria começar o seu trabalho. Esta, mal se viu só desatou a chorar amargamente a sua desgraça e, descorçoada de todo, ia deitar-se à água quando ouviu a mesma voz que já lhe tinha falado: — Maria, Maria, que vais tu fazer, infeliz?! Não te tenho já dito que chames pelo ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão'', todas as vezes que te vires em perigo?! Olhou para todos os lados a procurar quem lhe falava e ficou admiradíssima de ver a roupa já lavada, dobrada e engomada dentro das caixas e tudo pronto a partir. Voltou ao palácio e foi recebida pela Rainha com grandes festas, redobrando assim oódio que as três damas lhe tinham. Já é coisa sabida: quanto melhor é uma pessoa, mais inimigos tem; e quanto maior é o seu merecimento, maior o ódio dos ignorantes e dos maus. Passado pouco tempo voltaram as damas a dizer à Rainha que a menina jurara, sob pena de morte, ser capaz de limpar num dia toda a prata e ouro da casa real. A Rainha, convencida de que ela fazia tudo quanto queria, mandou-a chamar e perguntou-lhe se era verdade ter dito aquilo. Ela respondeu que não, que tal não tinha dito, porque era uma coisa impossível de fazer. — Embora — disse a Rainha — eu creio que tu o podes fazer e então, sob pena de morte, hás-de cumprir. E mandou levar a menina ao tesouro real onde estavam arrecadados tantos objectos de prata e ouro que não era possível uma só pessoa limpá-los, nem que estivesse muitos anos a trabalhar. Desanimada, desatou a chorar, e então, como das outras vezes, ouviu a voz: — Maria, Maria, porque não chamas o ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão?!'' Olha e não te aflijas. A menina olhou e viu tudo tão limpo, tão brilhante, como se naquele momento tivesse saído das mãos dos ourives. Doida de contente, voltou aonde a Rainha estava e disse-lhe que as suas ordens estavam cumpridas. Esta ficou satisfeitíssima e, para pagar tanto trabalho e boa vontade, nomeou-a sua dama camareira, que é o mesmo que dizer: a primeira abaixo dela. Se odiada era pelas três damas, pior foi então! Andavam desesperadas por não saber que nova intriga inventariam. Tanto pensaram, que resolveram ir dizer à Rainha que a menina tinha dito ser capaz de ir desencantar o ''Príncipe ao palácio de ferro no Reino da Escuridão.'' A Rainha ficou louca de alegria e mandou logo chamar a Maria, dizendo-lhe: — Sob pena de morte, hás-de ir desencantar o meu filho. Se o fizeres, tudo quanto desejares tudo te darei! O meu Reino, todas as minhas riquezas, são nada para pagar esse serviço. — Senhora, eu não disse tal coisa, mas irei de boa vontade procurar o vosso filho. A minha vida darei para vos causar tamanha felicidade. — Vai, vai, minha filha — volveu a Rainha, lavada em lágrimas e enchendo a menina de carícias — leva um exército, leva dois, leva toda a minha gente, mas traz-me o meu filho amado! — Não levarei ninguém, prefiro ir só. Vendo o desespero da Rainha e achando-se incapaz de lhe valer, a menina perdeu toda a coragem. Saiu do palácio a correr e ia deitar-se da ponte abaixo, quando ouviu a mesma voz. — Maria, Maria, o que fazes?! Quantas vezes te hei-de dizer que chames o ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão?!'' Olha que sou eu mesmo o filho da tua Rainha. Volta para trás e, sem que ninguém te veja, vai ao meu quarto e tira da gaveta do meio do contador um punhal e uma vassoura que lá hás-de encontrar. Pega neles, tendo todo o cuidado em não seres vista por ninguém, e segue o caminho que tiveres em frente até encontrares um palácio de ferro muito grande e muito escuro, com as portas sempre a bater umas contra as outras. Não tenhas medo! Chega lá e crava o punhal na porta principal. Entra sem receio e hás-de ver uma Moura encantada a varrer a casa com uma giesta; atira-lhe com a vassoura e segue para a frente. Hás-de encontrar depois dois leões com palha defronte e mais adiante dois cavalos com ossos na mangedoura. Tu pegarás na palha e hás-de dá-la aos cavalos e aos leões darás os ossos. Depois continua sempre a percorrer o palácio até encontrares um leitãozinho. Pega nele ao colo e foge. Sintas o que sentires, não te voltes para trás. Ainda que te chamem, não olhes! Vê o que fazes! Se olhares ficaremos separados e sabe Deus o que nos acontecerá! A menina ouviu e tomou muito sentido em tudo. Voltou ao palácio e, sem ser pressentida por ninguém, foi ao quarto do Príncipe, que estava fechado desde que ele desaparecera, e abrindo a gaveta do contador logo encontrou o que desejava. Pegou no punhal e na vassoura e partiu. Andou, fartou-se de andar por um caminho deserto, até que, no fim de muitos dias de marcha, se viu diante dum grande palácio de ferro com as portas a abrir e a fechar. Sem medo nenhum foi cravar o punhal na porta principal e logo todas ficaram quietas, abertas de par em par. Entrou e viu uma pobre Moura encantada a varrer a casa com uma giesta. Atirou-lhe com a vassoura e caminhou para a frente. No meio dum pátio, todo revestido de mármore preto, viu dois leões presos por cadeias de ferro a uma coluna. Tinham um molho de palha na frente e rugiam com fome. Adiante, deparou com dois lindos cavalos quase mortos porque estavam presos a uma mangedoura onde só tinham ossos. Foi buscar a palha e deu-a aos cavalos e pegou nos ossos e deitou-os aos leões. Feito isto, caminhou para a frente e percorreu todo o palácio de ferro até chegar a uma sala muito escura onde deparou com o leitãozinho. Pegou-lhe ao colo e voltou a correr por onde tinha ido. Ouviu uma gritaria horrível atrás de si e quando passou junto dos cavalos ouviu uma voz tremenda que dizia: — Cavalos, correi atrás dela que nos quer roubar o nosso tesouro! — Não! Porque estávamos a morrer de fome e ela deu-nos sustento. Passou junto dos leões e a voz gritou ainda mais terrível: — Leões, devorai-a, que nos rouba a felicidade! — Não! Porque tínhamos fome e deu-nos de comer. Passou pela Moura e ouviu: — Moura, não a deixes fugir que leva o nosso bem-estar! — Não lhe farei mal porque me veio dar alívio na minha tarefa. E à saída ouviu, mais tremenda que nunca, a medonha voz: — Portas, fechai-vos e esmagai-a, que nos leva o nosso futuro. — Não! Porque estávamos num eterno tormento e ela deu-nos descanso. Continuou a correr, mas, quando tinha dado alguns passos, ouviu atrás de si tamanho estrondo que não se conteve e voltou a cabeça. Não viu já o palácio de ferro nem coisa nenhuma no campo deserto, mas ao mesmo tempo desaparecia-lhe dos braços o leitão zinho. Vendo-se abandonada começou a andar, a andar, mais triste do que a morte! O caminho não tinha fim e, passados muitos dias, faminta e morta de sede, com os pés em chaga, os vestidos em farrapos, encontrou uma pequena gruta onde se refugiou para morrer. O Príncipe, desencantado, tinha aparecido logo no palácio, pois o leitão não era senão a forma do seu encanto. A Rainha, quando viu o filho, ia morrendo de alegria, e o regozijo foi imenso tanto na corte como no povo, pois era muito querido de todos. Mandou a Soberana fazer grandes festas, decretou regozijos e esplendores sem par, mas o Príncipe disse que não consentia que se fizessem as festas sem aparecer quem o salvara. Montou logo a cavalo acompanhado por todos os fidalgos do Reino e grande multidão de povo. A própria Rainha e muitas damas o seguiram nas suas carruagens de gala. Assim foram, campo fora, em procura da menina. Tanto andaram que chegaram à grutazinha onde ela estava quase a morrer. Um cão que, ao ser desencantado, o Príncipe viera encontrar tão bom e fiel como antes, entrou por ali dentro e com os seus latidos chamou o dono. Logo que ele entrou e a viu quase morta, teve um grande susto e pegando-lhe ao colo a trouxe para fora mandando chamar médicos que a tratassem e aias que a vestissem. Doente apenas de fome e cansaço depressa melhorou, ficando envergonhada e ao mesmo tempo satisfeitíssima de se ver junto de um tão lindo moço. Disse-lhe ele quem era e quanto a estimava, desde o dia em que a fora visitar disfarçado num pobre velho que tão generosamente socorrera. Que desde esse dia a seguira por toda aparte. A menina agradeceu tanta bondade e delicadeza, confessando também que já o estimava muito antes de o conhecer pelo bem que a todos ouvia dizer dele. E, mais do que tudo isso, pelas consolações que lhe dera nas suas horas de tormento. Estavam nesta conversa e tão enlevados que mais nada viam e decerto nem se lembrariam de partir, se não chegasse a carruagem dourada, onde vinha a Rainha e toda a régia comitiva. Quando viu a Maria junto do Príncipe, apeou-se logo e, abraçando-os a ambos, chamou à menina sua filha querida. Depois obrigou-a a subir para a sua própria carruagem e partiram. Ao lado ia o Príncipe no seu belo cavalo de batalha e, escusado será dizer, que não tinha olhos senão para a noiva. Atrás seguiam os cavaleiros, pagens, escudeiros, nobres damas, em suas equipagens, e grande quantidade de povo que os tinha seguido. Quando nesta ordem entraram na cidade a alegria e o entusiasmo foram enormes. Marcado o dia para o casamento, mandaram vir o negociante, pai da menina, a mulher dele, as cunhadas e a ama. O pobre pai, quando viu a filha, nem sabia se havia de rir se chorar, pois a alegria foi imensa. A ama abraçou a sua querida menina e pegou nela ao colo como se fosse uma criancinha, com tal contentamento que a todos alegrava. A madrasta e as irmãs, arrependidas, pediram mil perdões que de boa vontade lhes concedeu. Mas, envergonhadas da sua maldade, recolheram-se todas a um convento. As damas que tanta inveja tinham tido e tão mal lhe tinham querido fazer, arrependidas também, fugiram da corte apesar da Maria lhes ter dito que podiam ficar, que nenhum ódio lhes tinha, pois até lhes devia a sua felicidade e a do Príncipe, visto que das suas maldades só isso resultara. Fez-se o casamento com grande pompa, sendo padrinho da menina o Rei do seu país, que para esse fim empreendeu uma longa viagem. O Infante cresceu e foi, como o irmão, um primor de cortesia, bondade e valor. É escusado dizer que o ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão'' e Maria foram os melhores dos Reis e também os mais felizes, como pela sua bondade mereciam. [[Categoria:Contos portugueses|História do Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão]] tjy83n68d6a9a8h12th3f41nuhvo05k Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O corvo 0 256254 559690 559458 2026-08-20T15:27:20Z Mt516 43586 559690 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O corvo | anterior = [[../História do Príncipe encantado no palácio de ferro no reino da escuridão/|História do Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão]] | posterior = [[../O Príncipe Bezerro/]] | notas = }} '''<big>O CORVO</big>''' ERA uma vez um Génio, que, pela sua insuportável arrogância, fora condenado pelo Rei dos Génios a tomar a forma dum corvo e a viver longe do convívio dos outros Génios e Fadas, num castelo solitário dependurado numa rocha bravia sobre as verdas águas do mar. Vivia tão aborrecido naquela solidão que resolveu casar-se. Mas qual seria a mulher, camponesa ou grande dama, mendiga ou Princesa, que havia de querer um Génio mau para marido, e demais a mais feito corvo por toda a eternidade?! E ele também não se contentava com qualquer. Altivo como um poderoso Génio que fora, resolveu casar com filha de Imperador ou Rei. Rondou os palácios de todos os Monarcas existentes no seu tempo e em nenhum encontrou formosura que lhe parecesse digna da sua soberba. Até que num longínquo Império do Oriente nasceu uma Princesa linda como as estrelas. Grandes alegrias iam no palácio, pois era a menina a única herdeira da coroa. O Imperador seu pai, sentado no trono de ouro e pedrarias refulgentes, esperava cheio de júbilo que lha viessem apresentar sobre uma almofada de brocado. O Corvo, que esperava ocasião propícia para realizar o seu intento, entrou por uma janela que tinha ficado aberta, e quando a grande dama camareira apresentava ao Imperador a Princesinha, veio ele e arrebatou-lha. Depois, aproveitando a confusão em que todos ficaram, voou para o seu castelo encantado. No paço só se ouviam gritos e ais de aflição. A Imperatriz, quando teve conhecimento do desaparecimento da filha, chorou muito e disse ao marido que partisse imediatamente em busca dela, senão que morreria de desgosto. O bom do Imperador apertava as mãos na cabeça: onde estaria a Princesinha e quem seria esse mau corvo que a tinha raptado?! Passava as noites a meditar e não sabia que fazer à sua vida, pois grande era o seu empenho em encontrar a filha e em consolar a Imperatriz, que não fazia senão chorar e gemer. No fim de muito pensar resolveu reunir o Conselho e, todos à uma, foram de voto que se convidasse a boa Fada Urgélia, protectora da família, e ela que dissesse o que se devia fazer. Logo que o Imperador formulou o seu desejo, apareceu a Fada, num carrinho tecido de fios de ouro puxado por muitas pombas brancas. O Imperador e a Imperatriz correram para ela de braços abertos, e a formosa Fada, a sorrir, inclinou-se numa grácil mesura. Explicaram os aflitos pais o desgosto em que viviam com a perda da Princesinha. Quedou-se em profundo silêncio a Fada Urgélia e todos se calaram, respeitando aquela meditação. Depois como que voltou a si e disse: — Meus amigos, fui agora mesmo ao palácio da minha Rainha para ela me dizer qual o espírito malfazejo que roubou a minha bela afilhada, vossa filha. Sei onde está. Mas para lá ir é preciso reunir todos os exércitos do Império e escolher entre os soldados aquele que Deus destinou a ir livrar a Princesa do poder do Corvo, que é um poderoso Génio hoje castigado pelo seu Rei. Indicou o sítio onde estava o castelo do Corvo, predisse o bom resultado da empresa e, despedindo-se dos Imperadores, mostrou-lhes em boas e sábias palavras quanto os estimava. Os Imperadores desfizeram-se em agradecimentos e acompanharam-na até ao terraço, onde a esperava a sua leve carruagem. Metendo-se dentro foi um instante enquanto desapareceu aos olhos de todos, levada pelo rápido voo das pombas. Mandou então o Imperador reunir na capital as tropas do seu Império, a ver se entre tantos homens encontrava aquele que Deus destinava a salvar a Princesinha. Mandou armar uma caravela para ir também, pois não queria que se dissesse que ele mandava outros livrar a filha e ficava no bom descanso. Vinham os soldados dum regimento da província em direcção à cidade, segundo as ordens imperiais, e entre eles um rapaz chamado Florêncio. Era bom e valente e todos gostavam muito dele, porque estava sempre pronto a fazer vontades. No meio do caminho encontraram um homem morto e três vivos com grandes paus a baterem-lhe. Os soldados viram aquilo e passaram adiante, mas o Florêncio ficou indignado, pediu licença ao Comandante para sair da forma e depois foi perguntar àqueles homens porque razão desacatavam assim um morto. — É que este homem — responderam eles — era muito caloteiro e então, como em vida nos pediu dinheiro que não pagou, vingamo-nos agora dando-lhe esta sova. O rapaz não quis ouvir mais; tirou-lhes o cadáver das mãos, enterrou-o com grande piedade e depois foi a correr juntar-se ao seu regimento. Chegaram à capital, onde estavam todos os corpos do exército e era tanta a quantidade de gente que não havia onde se instalassem. Ao outro dia mandou o Imperador tocar a reunir e passou revista a todas as suas tropas, a ver se escolhia um homem capaz de ir buscar a Princesa. Entre todos notou a beleza e força de Florêncio e foi o que escolheu. O rapaz ficou contentíssimo e pôs-se logo às ordens do Imperador. Nisto, viram no campo um cavalo já aparelhado e pronto para ser montado. O Imperador mandou que lho agarrassem e trouxessem, mas o lindo animal corria tanto que não era possível apanhá-lo. Depois veio até junto de Florêncio, deixando-se montar sem custo algum. Ficaram todos admirados e o Imperador disse ao rapaz que o cavalo lhe pertencia, pois que só a ele obedecera, e então que fosse ao outro dia ter à praia para embarcarem na caravela, que já estava aparelhada. Como só partia no dia seguinte, resolveu Florêncio ir despedir-se da mãe, que era já muito velhinha. Montou no seu belo cavalo e partiu a galope. Abraçou a mãe, e, não se demorando nada, tornou a montar e dirigiu-se para a cidade. No meio do caminho viu um ramo de ouro caído no chão; ia apear-se para o apanhar e disse-lhe o cavalo: — «Deixa, que ouro e prata terás tu à farta!» — O rapaz não se apeou. Mais adiante viu um ramo de penas de todas as cores; pareceu-lhe bonito para pôr no chapéu e ia apanhá-lo, mas o cavalo disse: — «Não apanhes, penas tens tu contigo!» — E não se apeou. Chegou à cidade e dirigiu-se logo à praia para embarcar, mas a caravela já tinha partido com o Imperador. O rapaz ficou muito triste, mas o cavalo começou num galope tal que chegou à fronteira do Império primeiro que o Imperador. Ali pediu desculpa de não estar à hora do embarque, e, aconselhado pelo cavalo, disse que lhe dessem um navio, cinquenta fardas, cinquenta bonés e cinquenta armas. Depois meteu-se no navio com o seu cavalo e foi ancorar mesmo em frente do castelo do Corvo. Mal este os viu arremeteu contra eles, mas o Florêncio mostrou-lhe as fardas, os bonés e as armas e disse-lhe que todos os seus homens tinham morrido e então que tivesse dó dele e do cavalo e o deixasse dormir no castelo. O Corvo consentiu nisso, com a condição de não entrarem numa torre que tinha fechada. Mal se apanhou lá dentro, tratou o Florêncio de ver onde ficaria a torre, pois nela certamente é que estaria a prisioneira. Daí a bocado viu o Corvo a dormir sobre uma árvore, foi pé-ante-pé, abriu a porta e, pegando na Princesinha, que estava deitada num berço de ouro, montou a cavalo e partiu. Quando o Corvo acordou do seu pesado sono de comilão, entrou na torre para ver a Princesa, e a Fada Urgélia, que tinha seguido invisível a aventura, foi por trás e fechou-lhe a porta com fechadura encantada, de maneira que lá ficou encerrado para sempre. Quando o Florêncio apareceu com a Princesinha, foi uma alegria doida por todo o Império. Os Imperadores, muito agradecidos, quiseram que ele ficasse no palácio e fosse considerado como pessoa de família. A Princesinha ia crescendo e tornando-se cada vez mais linda, de maneira que aos quize anos era a senhora mais formosa do Mundo. Gostava tanto do seu salvador que não podia passar sem o ter sempre a seu lado, o que era motivo de muitas invejas. Os cortezãos não o podiam ver e raro era o dia em que não inventavam histórias que iam contar ao Imperador. Este, por muito tempo, não fez caso, mas um dia enraiveceu-se porque lhe vieram contar que ele tinha dito que assim como tinha ido buscar a Princesa, também era capaz de se meter numa caldeira de azeite a ferver. — Então — respondeu o Imperador — já que disse tal coisa, agora há-de cumprir a sua palavra! Chamaram o Florêncio, e ele, coitado, jurava e tornava a jurar que tal coisa não dissera nem mesmo lhe podia vir à cabeça. Lamentava-se muito dizendo: — «O cavalo é que tinha razão! Penas tenho eu comigo». O Imperador não quis ouvir desculpas; teimou em que ele fizesse a experiência, e, se se saísse bem, casaria com a Princesa e assim acabariam todas as intrigas. Em vista disto não havia remédio senão resignar-se a morrer cozido em azeite e foi à cavalariça na intenção de despedir-se do seu bom companheiro. O cavalo falou-lhe, então, assim: — Não te aflijas; pega num pau e bate-me até que eu fique a suar e depois limpa-me com uma toalha e diz à Princesa que te embrulhe nela. O Florêncio não queria bater-lhe, mas o cavalo tanto teimou que ele obedeceu. Depois foi buscar a Princesa que estava fechada no quarto a chorar, sem querer ver ninguém, desde que soubera da desgraça do seu salvador. Fizeram tudo quanto o animal mandou e o rapaz foi meter-se em uma grande caldeira cheia de azeite, que estava a ferver a um lume muito forte, mesmo em frente do palácio imperial, onde toda a corte assistia ao espectáculo. Três vezes mergulhou no azeite, e os seus inimigos, esfregando as mãos de contentes, imaginavam que dessa vez se veriam livres dele; mas tiveram logo que se morder de raiva, porque saiu do banho tão fresco como se o tivesse tomado de água fria. A Princesa ficou doida de contente e quis que um Arcebispo, que andava na corte, os casasse imediatamente. Assim se fez, com grande alegria dos Imperadores e de todo o povo, que muito gostava do novo Príncipe. Depois foi o cavalo ter com ele e disse-lhe: — Venho despedir-me de ti. Ele ficou muito aflito, respondendo: — Ó meu bom cavalo, se tu me deixas o que há-de ser de mim?! — Agora já não corres perigo; como futuro Imperador, todos te hão-de respeitar. Trata de ser sempre bom, como até aqui, e serás feliz. O Príncipe, que se não podia resignar, perguntou: — Mas qual é a razão de me deixares? Que mal te fiz eu?! — Nenhum mal me fizeste, nem eras capaz de fazer, porque és bom como poucos. Se te deixo é porque Deus assim o quer. Fica sabendo que eu sou a alma daquele morto que encontraste no caminho e piedosamente enterraste, livrando-me das pancadas dos meus credores. Não pagava as dívidas porque era pobre, e então elas foram-me perdoadas por Deus. Em paga da tua boa acção, mandou-me à Terra sob esta forma para te servir e aconselhar enquanto precisasses. Dito isto, desapareceu e nunca mais foi visto. Os Imperadores ainda viveram largo tempo muito queridos da filha e do genro, e quando morreram governaram estes, com geral contentamento do seu povo. Foram muitos felizes, tiveram muitos filhos e morreram velhinhos e cheios de bênçãos. [[Categoria:Contos portugueses|O corvo]] 2m3oxuhraie92bba4xkkcqu2ip42rve Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/120 106 256341 559595 2026-08-20T12:37:05Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559595 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|64}}{{lh|2em}}</noinclude>olhos encovados, e suas magras e pallidas faces já mostravam muitas rugas. Parecia uma sexagenaria que na mocidade tivera feições regulares, e tinha de quarenta e dois a quarenta e tres annos. Ella trabalhava de dia e de noite, tanto para se distrair de seus pesares, como para concorrer para os gastos da casa; mas os trabalhos d'uma mulher dão tão pouco lucro que, se não fora José, teria a pobre senhora morrido á mingua e mais seu filho. O negro a barbear e fazer outros pequenos serviços ganhava bastante, porque era geralmente bemquisto pela sua actividade, honradez e humildade. Primeiro havia sido arduo a José ouvir os rapazes zombar d'elle, mas acostumou-se de tal sorte, por amor de sua senhora, a fingir-se surdo, que por fim já nenhuma chufa lhe fazia mossa, e por isso mesmo já ninguem o incommodava. Um dia, que Henriqueta trabalhava de tarefa, como sempre, entrou seu filho. Trazia um rolo de papeis na mão. Andava na aula de desenho. Pousou os papeis e o chapeu e correu a sua mãe. {{nop}}<noinclude></noinclude> 1otox7c6vmgklrfvtl82aywor3cvkon Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/121 106 256342 559596 2026-08-20T12:38:41Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559596 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|65}}{{lh|2em}}</noinclude>Este mocinho, alto, magro e pallido, tinha rosto interessante e meigo, mas dava mostras de pouca saude. A sua natureza era debil, sua alma delicada. O traje de Eduardo era muito simples, mas de uma extrema nitidez e asseio. Henriqueta vestia roupas escuras e grosseiras e talhadas com extremo desalinho. Se algum gosto lhe restava pelo trajar casquilho, ella o empregava em seu filho. Beijou Eduardo com muita ternura as mãos de sua mãe. Esta lhe sorria melancolica. Elle se assentou em um banquinho a seus pés, e lhe disse, estorvando-a de trabalhar: ― Nunca ha de ter descanso?... Nunca ha de divertir-se com algum passatempo?... Trabalha sem cessar, e isso lhe faz mal. ― Não, meu filho, respondeu ella, anediando-lhe a cabeça; o trabalho me faz bem, e tenho todos os dias o melhor divertimento que posso ter. Vejo-te, fallo-te, recebo as tuas caricias. Deixa-me agora acabar este vestido, que é d'uma vizinha que tem pressa d'elle. {{nop}}<noinclude></noinclude> 4snm8nx6b180y4uss1ifn5eeccqy4m7 Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/122 106 256343 559597 2026-08-20T12:43:24Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559597 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|66}}{{lh|2em}}</noinclude>― Faz-me tanta pena ver a azáfama com que trabalha sempre!... Tenha paciencia, por ora não a deixo continuar. Deixe-me tornar a beijar-lhe as mãos. E repita-me que a minha presença lhe dá prazer; tenho precisão d'essa segurança. A's vezes... muitas vezes me parece que em logar de alegria, lhe dá pesar a minha vista. ― Oh, meu filho!... não penses isso! ― Penso, minha mãe, e tenho razão para o pensar. Ai Jesus, Jesus!... minha querida mãe... tem razão de se mortificar commigo. De que sirvo eu no mundo? Fraco e doente, para nada presto. Só sirvo para dar-lhe trabalho e canceira, e ao nosso bom José, e em retribuição que lhes dou!... Sou muito desgraçado pela minha inutilidade!... ― Meu adorado filho, pelo amor de Deus não me digas que és desgraçado!... ― Perdoe... Sou-o, porque a vejo padecer, e não posso alliviar suas tristezas. Não posso perdoar a meu pae... Não me ralhe... Sei que não devia dizer isto, nem pensal-o; porém não tenho a sua virtude e bondade. {{nop}}<noinclude></noinclude> 4shwogsfwir27kczk77kfwjv7dmr5o7 Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/123 106 256344 559598 2026-08-20T12:47:23Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559598 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|67}}{{lh|2em}}</noinclude>― Que offensas tens de teu pae?!... perguntou a infeliz córando e fazendo-se pallida alternativamente. A Eduardo deixava cair algumas lagrimas nas mãos de sua mãe que tinha entre as suas, e apertando-as ao coração, respondeu: ― Perdoe... sei que tem querido enganar-me... Meu pae não morreu. Lembra-me muito bem que viviamos em uma linda casa e quinta, e que muitos pretos nos serviam. Meu pae não nos amava... era duro... Nós lhe fugimos. ― Henriqueta deixou cair a cabeça sobre o peito e guardou silencio. Seu filho continuou, beijando-lhe as mãos: ― As suas maximas não teem conseguido com que eu seja generoso... Não perdoo a meu pae!... Ter uma esposa tão boa... tão meiga... tão terna... tão virtuosa... ― Eduardo! interrompeu a pobre senhora, arrancando uma das mãos de entre as de seu filho, e cobrindo os olhos; não continues... Matas-me. Não sabes o que dizes. E não aborreças teu pae. Elle não teve culpa em nós o abandonarmos. {{nop}}<noinclude></noinclude> pfhdhalu8ntegw01fy731wx45s31103 Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/124 106 256345 559599 2026-08-20T12:49:52Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559599 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|68}}{{lh|2em}}</noinclude>― Eu sei o contrario. Não queira illudir-me. E oh! meu Deus!... que incalculaveis males nos faz elle soffrer! ― Não pensei que eras ambicioso!... A falta de riqueza te parece um mal tão horrivel!... O amor e o trabalho, a honra e a virtude não serão as unicas riquezas dignas de apreço?... ― Não sou ambicioso, minha rica mãe, não! Quizera ter alguma pequena parte das riquezas de meu pae, para ver gozar minha querida mãe de todas as commodidades da vida, e o bom José de descanso; porém não me lembrava agora isso... Os males a que alludia eram outros. ― Quaes são, Eduardo? Quaes são? ― E' um segredo. ― Um segredo?!.. Tu me assustas! ― Não se assuste, minha rica mãe, tornou elle, fingindo brincar e rir, não é caso para sustos. E' uma experiencia que quero fazer. Vejamos, se sei guardar um segredo. Henriqueta puxou seu filho para si, e abraçada n'elle disse com terna meiguice: ― Meu Eduardo, has de me dizer esse segredo. Com uma mãe não deve haver<noinclude></noinclude> g3hjd50nwrdj913nyjx46fuwopzkoar Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/125 106 256346 559600 2026-08-20T12:52:55Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559600 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|69}}{{lh|2em}}</noinclude>dissimulações. Ora vamos... sê bom filho, dize-me esse segredo. ― Ah!... ah!... como queria fazer-me cair!... Com que anzol se dispunha pescar!... Bem sabe que os seus carinhos são a isca que mais me atrahe e engoda; mas d'esta vez perde os seus afagos. Quero que veja que tenho aprendido as suas lições. Um segredo não se diz a ninguem, nem mesmo a uma terna e carinhosa mãe. ― Meu filho!... meu amor; tu não pódes ter segredos para mim. Não me queiras deixar em uma terrivel anciedade. ― Como a mãe é curiosa!... Ora supponha que querem fazer-me ministro d'estado. ― Eduardo, tu não pódes enganar-me. O teu rosto é um livro em que estou acostumada a ler. Não póde lograr-me o teu riso forçado. Occultas-me alguma desgraça; mas has de dizer-me qual é. O conhecimento da verdade não póde ser mais cruel do que as suspeitas do que poderá ser. José entrou assustado e exclamou: ― Minha senhora, o senhor moço quer comprar pistolas! {{nop}}<noinclude></noinclude> 0vd40kwy7ph4ttmtp2oxojq0zqjt6kf Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/126 106 256347 559601 2026-08-20T12:58:31Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559601 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|70}}{{lh|2em}}</noinclude>Eduardo lhe lançou uma vista tão severa, que o pobre negro tornou a sair com a pressa com que entrara. ― Comprar pistolas!... repetiu Henriqueta, fitando vistas aterradas em seu filho, comprar pistolas!... Eduardo, ordeno-te, que me digas, para que precisas d'armas. Ficas calado?.. Não ouviste, que te ordenei, que me dissesses, para que precisas d'ar- mas? ― Não se agonie, minha boa mãe. Vou dizer-lhe o que passo. Ha cousas, que me seria impossivel de balbuciar mesmo. Offenderam-me, minha virtuosa mãe!.. offenderam-me mortalmente. E não ha forças humanas, que possam desviar-me da tenção, que tenho de castigar o malvado. ― Com um assassinio!!!.. exclamou a mãe aterrada. ― Não, minha mãe. Com um duello. ― Oh, meu doce Jesus!.. como elle se esqueceu cedo dos preceitos de religião, que lhe dei!.. E' mais um castigo de meus peccados!.. E a triste senhora desatou a chorar como perdida. O filho procurou enxugar<noinclude></noinclude> khcm9u32p1sb7rehy60vb23tz046tzr Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/127 106 256348 559603 2026-08-20T13:01:43Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559603 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|71}}{{lh|2em}}</noinclude>as lagrimas maternas com osculos e caricias, dizendo: ― O' minha querida mãe, não chore!.. Despedaça-me o coração! Ouça-me... Eu tenho todos os seus ditames gravados na alma. ― Então, meu filho, como ousas pensar em duello?!.. ― E não tente desviar-me do meu proposito. Escute o qué tenho a dizer-lhe. Declarei-lhe os meus intentos por duas razões, primeiro porque m'o ordenou, segundo porque nem as suas ordens, nem os seus rogos podem abalar a minha resolução. O castigo do máo póde ser deferido, se me fecharem, mas ou tarde ou cedo lho hei de dar. Não chore... não chore assim!.. Olhe, minha adorada mãe, não esqueci os seus preceitos de religião, le perdoaria uma offensa propria; mas não posso deixar passar calumnias sobre a pessoa mais virtuosa da terra. Devo castigar o difamador: se o não fizesse, poderiam haver crédulos... Pelo que tenho observado o mundo menoscaba a virtude humilde, e acata o vicio mesmo sendo arrogante. E' mister pois, que a virtude tenha<noinclude></noinclude> 0n4eqqe0rmc6ixducp9u6xowbqepfmi Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/128 106 256349 559604 2026-08-20T13:03:08Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559604 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|72}}{{lh|2em}}</noinclude>quem a defenda arrogante, quando a insultam. E chora cada vez mais; minha dignamãe!!.. Teme por mim?.. A sua ternura exagera o perigo. Não haviam antigamente, minha cara mãe, duellos que se chamavam o juizo de Deus?.. Pois bem, este será tambem um juizo de Deus. Eu como David matarei o Golias. A mão de uma creança vingará a virtude calumniada. Aquelle dos dois que combater pela verdade matará o contrario. Era muito!.. Henriqueta desorientada se lançou de joelhos diante de seu filho,bradando: ― Misericordia!.. Não me laceres mais o coração!.. E' para defenderes a reputação de tua desgraçada mãe, que te vaes votar a morte violenta!.. Morte de corpo e talvez d'alma!.. E essa mãe que queres desaffrontar é mais criminosa cem vezes do que o póde crêr esse homem, que queres matar. ― Oh, minha mãe!.., exclamou o joven, forcejando por levantal-a, esse ardil não me illude. Sei o que devo pensar. Lembra-me muito bem, que meu pae era seu marido,<noinclude></noinclude> tmqh3xlccbidjq55qg16ojdsb9pnkir Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/129 106 256350 559605 2026-08-20T13:04:24Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559605 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|73}}{{lh|2em}}</noinclude>e sei que depois que o deixamos, tem vivido só para mim. ― Infeliz!.. Estás enganado!.. Teu pae não era meu marido. ― Oh, meu Deus!.. Para me salvar a vida, minha mãe, diz tão horrivel falsidade?!.. Não ouvi eu dizer-lhe a José quando chegamos a Lisboa: Vai vender este annel, que é a ultima lembrança do meu tempo de solteira!.. Não se afflija com vãos receios. Deus é justo: elle decidirá, qual de nós combate pela razão, e será punido aquelle, que estiver do máo lado. ― Eduardo! Eduardo! já que Deus assim o quer, para meu espantoso castigo, sabe a horrivel verdade, e não me amaldiçôes!.. (Meu Jesus, acceitai esta minha humilhação!..) Eduardo... Casei em muito moça... vi depois teu pae... namorei-me d'elle... e fugi com elle, abandonando meu marido... meus filhos... e meus paes!.. Henriqueta estava ainda de joelhos, e seu filho a abraçava. De repente sentiu ella, que os braços de Eduardo a largavam, e abafada em pranto, soluçou: {{nop}}<noinclude></noinclude> 7fplrh6v88q50sstptyf9pd9rhauocs Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/130 106 256351 559607 2026-08-20T13:06:14Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559607 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|74}}{{lh|2em}}</noinclude>― Repelle-me!.. Sou-lhe odiosa!.. Faltava-me isto, meu Deus!.. O pobre mocinho não a ouviu. Tinha-a deixado, porque perdeu os sentidos, e baqueou no chão. Precipitou-se sobre elle a desgraçada mãe, e vendo-o sem sentidos, soltou um grito. Passou-se um momento de silenciosa agonia. Ella apalpava o rosto macilento de Eduardo. Depois torcendo os braços clamou com terrivel angustia: ― Basta, meu Deus, basta! Não posso com tanto. <section end=C9/> <section begin=C10/> {{ch|Capitulo X}} Febre lenta, e negra melancolia, fastio e insomnia, levaram o pobre Eduardo a passos largos para a sepultura. Sua alma era verdadeiramente delicada e virtuosa. E o retiro, em que sempre viveu, as maximas que sua mãe infiltrara desde o berço na sua essencia, apuraram a natural nobreza do seu modo de pensar e sentir. Quando pois soube, que sua mãe, que era o seu idolo, que era tudo quanto amava sobre a terra; {{hífen|quan|quando}}<noinclude></noinclude> sqv70fnarzdl7uri8qy70xak4y4f6vc Henriqueta/Capitulo 9 0 256352 559608 2026-08-20T13:07:19Z BlitzkriegBoop 37692 página criada 559608 wikitext text/x-wiki <pages index="Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf" from=119 to=130 fromsection=C9 tosection=C9 header=1 /> [[Categoria:Henriqueta| 15]] asxeoyidevh7hhbpdhhvglq2kbnn4i8 Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/131 106 256353 559609 2026-08-20T13:09:05Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559609 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|75}}{{lh|2em}}</noinclude>{{hífen-fim|do|quando}} soube, digo, que esse ser venerado e querido era uma mulher aviltada e criminosa, e que o seu nascimento era uma vergonha para elle e um remorso para sua mãe, sentiu-se acabrunhado e desejou ardentemente a morte. Mostrava elle a mesma affeição a sua mãe; e talvez sentimentos de compaixão o fizessem ser mais terno ainda; mas, pelo cuidado, que tomava em nada dizer que offendesse a sensibilidade de sua desgraçada mãe, pela cautela, com que afastava de seus discursos as palavras ― honra e virtude ― tão naturaes em seus labios puros, bem conhecia a pobre senhora, que elle não esquecia um só momento a terrivel revelação. Deus se compadeceu do infeliz innocente, e o conduziu em breve aos ultimos momentos, dando-lhe a coragem da virtude, e o socego da innocencia. A pessoa bôa, e que viveu sempre bem com Deus, nos umbraes da eternidade tira forças da fraqueza physica, porque a alma é forte, e anima-se a si e aos outros. O joven mostrava-se consolado por ver que deixava um mundo, em que gozara tão poucas alegrias, e ao qual<noinclude></noinclude> 9c51hgisydskllgganzod6jaehm872f Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/132 106 256354 559610 2026-08-20T13:10:41Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559610 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|76}}{{lh|2em}}</noinclude>o não prendia sequer uma esperança. Elle queria inspirar a sua mãe e a José as ideias, que tinha do resgate, que ia ter; mas a sua logica quebrava-se de encontro áquelles corações magoados. Henriqueta sobretudo estava n'um estado lamentavel! Parecia, que seguiria de perto seu filho ao tumulo. ― Minha mãe, lhe disse Eduardo, porque tem chorado tanto? A vida merece acaso, que se tenha saudades d'ella?.. ― Meu querido filho, replicou ella suffocada em choro, e apertando-llie as mãos entre as suas, não choro por ti... O egoismo é que me faz derramar lagrimas... Eras o unico fio que me prendia á vida... quebrado elle, que será de mim, senão morro logo?! Só no mundo, com meus pesares e remorsos, que farei sobre a terra? ― Valha-me Deus!.. Não chore assim, que quasi me faz ter pena de morrer!.. Considere, minha adorada mãe, que, se eu vivesse, seria muito infeliz. Eu era um ente nullo para a sociedade, pela minha fraqueza e pouca saude. Tinha ha muito summo pesar de ser um fardo para os dois entes que me amavam. E se José adoecesse?..<noinclude></noinclude> kwoydl5nqakptn6p11vjsf8v07b311i Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/133 106 256355 559611 2026-08-20T13:14:38Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559611 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|77}}{{lh|2em}}</noinclude>Precisaria então eu de mendigar para sustentar minha mãe e o nosso bemfeitor, e tenho a alma tão altiva!.. Morreria mil vezes n'uma hora. Dos trabalhos mais humildes não me vexava, mas esmolar!.. Agradeçamos pois a Deus, minha queria mãe, a mercê que elle me faz e que eu não merecia. Se Deus não fosse tão misericordioso, teria eu mais vida, para expiar meus peccados, e... ― E os peccados de teus paes: não é isso, que querias dizer? ― Sim, minha boa mãe. Estou n'uma hora em que se não escurece a verdade. Devia pois expiar os meus erros e os dos auctores de meus dias, com mais annos de martyrio. Deus faz-me a graça de me despenar; agradeçamos-lhe tanta bondade! ― Sim!.. o eterno é justo. Leva-te a ti, porque não tinhas crimes; e deixa-me na terra, para agonizar mais algum tempo. ― O Eterno não é só justo, minha mãe, é tambem piedoso. Conserva-lhe a vida, e livra-a de mim, para que possa ir pedir perdão, antes de morrer, á sua familia. ― Que dizes, Eduardo?.. Como hei de ousar tal?!.. {{nop}}<noinclude></noinclude> q1sawzleyyuu3gwr6cehv2z7exj31p0 Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/134 106 256356 559612 2026-08-20T13:17:18Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559612 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|78}}{{lh|2em}}</noinclude>― Deve-o fazer... e ha de ousal-o... a seu marido sobretudo. ― Como posso esperar, que elle me perdoe?. ― Ha de lhe perdoar, minha querida mãe, porque tem soffrido muito: mas, se aquelle que offendeu fosse implacavel, Deus não o seria, e ha de perdoar-lhe completamente depois d'essa humilhação precisa. No entanto eu tenho fé, que irei para o céu rogar ao piedoso Senhor, que cedo nos reuna a ambos. E creio, que Elle me ha de ouvir. A pobre mãe deitou os braços a seu filho, e longo tempo ficou assim, chorando e gemendo. D'alli a algumas horas havia um justo de menos no mundo, e mais um santo nos céus. Dois mezes depois na mesma sala, em que Henriqueta trabalhara, chorando pelo espaço de doze annos, estava um cavalheiro de meia edade escrevendo, na mesa que fora de Eduardo, uma carta concebida n'estes termos: «Rodrigo, pediste-me {{hífen|encarecidamen|encarecidamente}}<noinclude></noinclude> kzq3tqp5t9y4i6e743cbupah66id52x 559613 559612 2026-08-20T13:17:40Z BlitzkriegBoop 37692 559613 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|78}}{{lh|2em}}</noinclude>― Deve-o fazer... e ha de ousal-o... a seu marido sobretudo. ― Como posso esperar, que elle me perdoe?. ― Ha de lhe perdoar, minha querida mãe, porque tem soffrido muito: mas, se aquelle que offendeu fosse implacavel, Deus não o seria, e ha de perdoar-lhe completamente depois d'essa humilhação precisa. No entanto eu tenho fé, que irei para o céu rogar ao piedoso Senhor, que cedo nos reuna a ambos. E creio, que Elle me ha de ouvir. A pobre mãe deitou os braços a seu filho, e longo tempo ficou assim, chorando e gemendo. D'alli a algumas horas havia um justo de menos no mundo, e mais um santo nos céus. Dois mezes depois na mesma sala, em que Henriqueta trabalhara, chorando pelo espaço de doze annos, estava um cavalheiro de meia edade escrevendo, na mesa que fôra de Eduardo, uma carta concebida n'estes termos: «Rodrigo, pediste-me {{hífen|encarecidamen|encarecidamente}}<noinclude></noinclude> oh0s2bpmja5f5knzfhlnam1v9vfclmb Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/135 106 256357 559614 2026-08-20T13:19:21Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559614 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|79}}{{lh|2em}}</noinclude>{{hífen-fim|te|encarecidamente}}, que te dissesse o proveito, que tirara com o meu regresso á patria. Satisfarei hoje o teu pedido... Tambem querias saber se eu achava noticias da desgraçada Emilia!.. «Escrevo-te, meu amigo, em uma miseravel casa, em que ella viveu com meu filho doze annos.... luctando com a pobreza e os desgostos! O que valeu, para que não morressem de miseria, foi o trabalho d'aquelle negro, que Emilia livrou dos tormentos. Ah!.. ella foi propheta, quando me disse: ― «A compra d'este negro ser-me-ha proveitosa. «Se tu visses agora aquella mulher tão formosa?.. «Ha tres ou quatro dias entrei n'um cemiterio. O meu coração ambiciona ha muito impressionar-se de cousas tristes. Sobre uma rasa sepultura estava uma mulher de bruços e a seu lado um negro de joelhos a prantear-se. Conheci José, e occultei-me tremendo atraz d'um mausoleu. O coração batia-me, porque tinha esperanças de encontrar finalmente o meu filho... Ai de mim!.. ai de mim!.. A sepultura sobre que via chorar era a de Eduardo. A mulher,<noinclude>{{d|9}}</noinclude> ebu7jera2ygm94g0tsp3dhx30z2gmh3 Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/136 106 256358 559615 2026-08-20T13:21:10Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559615 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|80}}{{lh|2em}}</noinclude>que estava prostrada, ergueu-se. Não a conheci. Seu rosto cadaverico e coberto de lagrimas, parecia o de uma octogenaria. que ia descer á campa. Ouvi-lhe a voz... era a doce voz de Emilia!!! ― «José, dizia ella entre soluços, estas são as ultimas lagrimas que derramaremos sobre os restos do meu querido Eduardo!.. Mas espero que elle alcance de Deus a graça de levar-me breve para o seu lado... assim m'o prometteu pouco antes de voar para a sua patria!.. Foi sempre um anjo!.. Elle dizia bem!.. que faria n'este mundo pobre, desprezado... sem parentes nem amigos?.. Elle com uma alma tão nobre e votado á desgraça e ao aviltamento!.. Vamos... As forças me faltam todos os dias, e preciso de muitas para ir, onde devo... O ''anjo'' m'o disse... é preciso que eu me humilhe diante d'aquelle que offendi. Vamos, meu bom José, leva a tua dedicação até ao resto. Acompanha-me lá... lá onde estava a felicidade, e eu fiz entrar a desgraça. «Elles se tinham ido retirando. Eu estava immovel com o coração partido. Queria beijar a sepultura de meu filho, mas {{hífen|te|temia}}<noinclude></noinclude> ql1ves3hm31ufm8e2s9ou2hpjt93wn0 Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/137 106 256359 559616 2026-08-20T13:22:56Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559616 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|81}}{{lh|2em}}</noinclude>{{hífen-fim|mia|temia}} perder de vista a mulher, que tão desgraçada fizera. Assignalei a sepultura, e segui Emilia. Vi-a entrar n'esta casa, e soube dos vizinhos que iam partir de Lisboa, e que vendiam os trastes para fazerem a jornada. Fiz comprar por terceira pessoa o mais caro possivel, quanto lhes pertencia. «O que era de meu filho o tenho como reliquias. Ah! Rodrigo!.. elle desenhava tão bem!.. E nos seus papeis achei pensamentos tão sublimes!.. Amava sua mãe com fanatismo, a José com reconhecimento e ternura... E seu pae talvez lhe fosse odioso. Quando em creancinha vinha para mim tremendo, repellia-o com dureza; e se agora fosse elle vivo, seria eu que tremeria na sua presença. Fil-o infeliz, e já não posso reparar o mal!.. E sua mãe?!. a quem nem sequer me é dado pedir perdão, para não aggravar seus males!.. A infeliz lá vai lançar-se aos pés da sua familia... Oxalá que seja bem recebida e que morra em paz. Não terá ao menos muito tempo a soffrer o pesado fardo da existencia. «Adeus, Rodrigo; não sei ainda se {{hífen|par|partirei}}<noinclude></noinclude> gotkms37j7o01ua5cb6epkyp2eye5xa Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/138 106 256360 559617 2026-08-20T13:24:21Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559617 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|82}}{{lh|2em}}</noinclude>{{hífen-fim|tirei|partirei}} outra vez para essa cidade, ou se ficarei aqui para ser enterrado junto de meu filho. Se me tornares a ver, custar-te-ha a reconhecer o infortunado Carlos.» <section end=C10/> <section begin=C11/> {{ch|Capitulo XI}} Que saudosas e doces sensações não experimenta aquelle, que passados muitos annos de penosa ausencia, torna a ver os sitios, em que correu a sua feliz meninice!... Mas, ah! para Henriqueta não eram doces essas sensações! Saudosas sim... saudosissimas e amargas!.. Lembranças repassadas de espinhos lhe compungiam a alma, e lhe despedaçavam o coração. Do Porto se dirigiu a Rivaes. Ao chegar perto dos sitios, em que viveu vida tão feliz, antes de errar, desejou fartar-se de penosas recordações. Apeou-se, disse a José, que fosse pela estrada para ir encontral-a na estalagem proxima, e se metteu por uma azinhaga, que encurtava muito caminho. A misera filha de Henrique de Moraes<noinclude></noinclude> s3d8dssu7imvxcwmrallzhpc87n7rk9 Henriqueta/Capitulo 10 0 256361 559619 2026-08-20T13:25:53Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559619 wikitext text/x-wiki <pages index="Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf" from=130 to=138 fromsection=C10 tosection=C10 header=1 /> [[Categoria:Henriqueta| 16]] pogzj4b2hk33ilz48qt29k9hykjma12 Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/139 106 256362 559620 2026-08-20T13:26:59Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559620 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|83}}{{lh|2em}}</noinclude>caminhava vagarosa. Cada arvore lhe despertava uma lembrança, cada prado uma recordação. Estava-se na bella estação da primavera. As aves gorgeavam entre os floridos ramos das arvores, os cegadores nas cearas soltavam galhofeiros gritos no meio da sua tarefa, e n'um prado vicejante cantava uma rapariga com voz monotona e harmoniosa d'amores, em quanto ceifava com mão descuidada a herva, e as muitas florinhas, que esmaltavam o prado. Tudo respirava alegria e vida, menos a pobre mãe de Eduardo. Ella se detinha a cada momento para respirar e enxugar os olhos; e, quando deu com a vista n'uma linda e risonha casa, que parecia com os raios do sol feita de jaspe, e encastoar janellas d'ouro, estremeceu, parando; com uma das mãos apertou o coração ao tempo que vendava os olhos com a outra. ― Eil-a alli!.., balbuciou com voz abafada pelos soluços. Eil-a alli!... E' a mesma... a mesma em tudo!.. E eu?.. Lagrimas de fogo lhe sulcaram as faces. D'uma varanda pendiam tapetes, que<noinclude></noinclude> id1t25x16ingqq470kaa7wn3so750ou Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O Príncipe Bezerro 0 256363 559621 2026-08-20T13:28:31Z Mt516 43586 [[Ajuda:SEA|←]] nova página: {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O Príncipe Bezerro | anterior = [[../O corvo/]] | posterior = [[../A Princesa da Áustria/]] | notas = }} '''<big>O PRÍNCIPE BEZERRO</big>''' HAVIA, em tempos muito remotos, um Rei e uma Rainha senhores dum grande reino, mas que viviam muito tristes, muito tristes, por não terem filhos. Principalmente a Rainha chorava muito a sua desgra... 559621 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O Príncipe Bezerro | anterior = [[../O corvo/]] | posterior = [[../A Princesa da Áustria/]] | notas = }} '''<big>O PRÍNCIPE BEZERRO</big>''' HAVIA, em tempos muito remotos, um Rei e uma Rainha senhores dum grande reino, mas que viviam muito tristes, muito tristes, por não terem filhos. Principalmente a Rainha chorava muito a sua desgraça e não se cansava de os pedir a Deus e a todos os Santos. Um dia, já muito desesperada, exclamou: — Quem me dera um filho, ainda que fosse um bezerro! Passado tempo, deram parte à corte que a Rainha estava para dar um herdeiro à coroa. Fizeram-se muitas festas; houve alegria geral desde o palácio dos reis até à mais humilde choupana. Mas qual não foi o espanto de todos quando viram que, em lugar do menino tão ansiosamente esperado, nascia um bezerrinho! Os pais ficaram muito aflitos, mas eram pais e resignaram-se. O Príncipe foi crescendo e mostrava muita inteligência e bondade. Os pais — coitados! — apesar da forma extravagante do filho, gostavam dele como se fosse um homem perfeito, achavam-no até muito lindo e não podiam tolerar que as raparigas fugissem dele e não o quisessem para marido. Ora o Príncipe Bezerro queria por força casar e então os reis deram reuniões sobre reuniões, a ver se alguma mulher se agradava dele. Mas era trabalho baldado, porque as raparigas de quem gostava faziam troça dele e não o queriam nem por quanto havia. Aconteceu vir aos bailes da corte uma menina muito linda e sobretudo muito boa. Viu o Príncipe Bezerro e teve muita pena dele. Enquanto as outras se riam de o verem fazer-se amável com as damas, lambendo-lhes as mãos com toda a delicadeza, ela pegou no seu fino lenço de rendas e limpou-lhe a baba. Ficou o Príncipe Bezerro tão encantado com aquela prova de bondade da menina, que se dirigiu logo aos pais para a pedirem em casamento. Assim fizeram, e a menina, como era muito boa, teve dó do pobre rapaz que todos desprezavam e disse que sim, que aceitava ser sua mulher para que ele fosse menos infeliz. Fez-se o casamento com grande pompa, e, quando à noite se recolheram ao quarto, viu a menina, com grande admiração, que o Príncipe despia a pele de bezerro como se fosse uma camisa e ficava um belo rapaz — o mais belo que jamais tinha visto. Abraçaram-se cheios de contentamento, e ele disse-lhe então: — Não vás dar parte a ninguém disto que vês, porque é um encanto que não acabará se tu o fores dizer, ainda que seja a uma só pessoa! Ao outro dia foi a menina visitar a mãe e, doida de alegria, não teve mão em si que lhe não contasse, debaixo de grande segredo, o que lhe tinha acontecido. E a mãe aconselhou-a a queimar a pele de bezerro que à noite o Príncipe despia, quando ele estivesse a dormir. Assim foi. À noite aconteceu o mesmo da véspera, e a menina, quando o marido adormeceu, foi queimar-lhe a pele, imaginando que assim acabaria o encanto. Mal a pele começou a arder, acordou o Príncipe em sobressalto, exclamando: — Ai, desgraçada mulher, que dobraste o meu fadário! Agora não me tornarás a ver sem romperes sete pares de sapatos de ferro, e ninguém encontrarás que te dê notícias de mim! E, dizendo isto, desapareceu o Príncipe, o palácio, e tudo que a rodeava, e ela viu-se abandonada numa terra desconhecida. Cheia de desgosto e de remorso, não se entregou, porém, ao desespero. Resolveu fazer tudo para desencantar o Príncipe. Comprou sete pares de sapatos de ferro e pôs-se a caminho. Andou, andou, e por toda a parte perguntava pela morada do Príncipe Bezerro, mas ninguém lhe dava notícias dele nem do seu reino. Assim foi andando até que o último par de sapatos de ferro estava quase a findar. Uma noite viu uma luzinha muito ao longe, muito ao longe, e dirigiu-se para lá. Chegou a uma grande casa e bateu à porta. Veio uma velha abrir e perguntou: — Que vem aqui fazer a minha menina? Não sabe que esta é a casa do meu filho Sol? Se ele aqui a vê, é capaz de a matar. Tão aflita estava a infeliz, que lhe respondeu: — Olhe, tiazinha, eu estou tão cansada que só desejo um canto onde me deite, e, se vier o seu filho e me quiser matar, deixá-lo! E talvez ele me saiba dizer onde mora o Príncipe Bezerro. A velha teve muito dó da pobre menina, deixou-a entrar, deu-lhe ceia e cama, dizendo-lhe que descansasse até vir o filho. Daí a pouco chegou o Sol, iluminando a casa — que toda ela parecia um brazeiro de luz — e, dirigindo-se à velha, gritou: — Minha mãe, cheira-me aqui a carne humana! Respondeu ela: — Olha, filho, é uma menina muito bonita que está ali a dormir. Vem perguntar se tu sabes onde é o reino do Príncipe Bezerro. — Eu não sei (disse o Sol) mas a Lua, como anda de noite, talvez saiba. Depois chamou a menina, e, dando-lhe uma noz, recomendou-lhe que a não abrisse senão quando de todo em todo não pudesse suportar a fome. Foi ela dali até acasa da Lua, bateu à porta, e veio também uma velhita, que era a mãe. Deixou-a entrar e descansar, até que chegasse a filha. Então a menina perguntou à Lua: se sabia onde era o reino do Príncipe Bezerro. — Não, eu não sei (respondeu a Lua), nunca o vi nem ouvi falar nele. Melhor é ires perguntar ao Vento, que esse, como anda de noite e de dia, talvez te dê melhores notícias. Mas toma cautela com ele, porque é uma pessoa de muito mau génio, anda sempre arrenegado. Depois deu-lhe também uma noz, fazendo a mesma recomendação que lhe tinha feito o Sol — de só a abrir quando a fome fosse de todo insuportável. Foi dali a menina a casa do Vento, e bateu à porta. Veio abrir-lha uma mulher ainda nova, que lhe perguntou a que vinha. Ela respondeu o mesmo que já tinha dito à mãe do Sol e à da Lua, e a mulher respondeu: — O meu marido só chega à tardinha — hora em que abranda o vento — vem cear, e depois volta logo à sua obrigação. Se a menina lhe quer falar há-de ser à hora da ceia, mas tenho que a esconder quando ele chegar, porque entra sempre com tal espalhafato que despedaça tudo quanto encontra diante de si. A menina agradeceu à mulher do Vento, entrou, e esperou até ao lusco-fusco. Então meteu-se atrás da porta, e viu chegar o Vento, derribando tudo e gritando arrogante que lhe dessem a ceia depressa. Quando ela o viu sossegado, saiu do esconderijo e disse-lhe a que vinha, contando-lhe toda a sua história. O Vento respondeu que sim, que sabia muito bem onde era o reino do Príncipe Bezerro, mas que ele ia casar-se daí a três dias, e então que fosse depressa — a não chegar lá essa manhã já não iria a tempo. Ensinou-lhe o caminho e deu-lhe outra noz, recomendando o mesmo que a Lua e o Sol, isto é: que só a partisse quando de todo não pudesse tolerar a fome. Foi a menina andando pelo caminho por ele indicado, mas em certa altura sentiu uma tal fome que se tentou a partir uma das nozes. Qual não foi, porém, o seu espanto encontrando dentro, em vez da amêndoa que desejava comer, uma dobadoura muito linda toda de ouro e brilhantes. Mais adiante, deu-lhe outra vez uma tão grande fome que se resolveu a partir a segunda noz, e dentro, em lugar de fruto que comesse, encontrou um sarilho de ouro e pedras preciosas tão bonito que ficou deslumbrada. Ainda foi suportando a fome até mais adiante, e, quando inteiramente já não podia, partiu a terceira noz, e então mais admirada ficou quando de dentro lhe saiu uma galinha com sua ninhada de pintos, tudo de ouro, com as penas de brilhantes, rubis, esmeraldas e safiras. Mexiam-se, piavam, corriam — que era mesmo um encanto. A menina foi andando, até que de manhã chegou a uma grande cidade. Entrou e perguntou se vivia ali o Príncipe Bezerro. Disse-ram-lhe que sim, que era ele o rei daquele País e que daí a três dias viria a noiva para se casar. A menina foi sentar-se defronte do palácio real com a dobadoura. Viu-a uma criada da Rainha mãe, que lhe perguntou se queria vender aquela tão linda prenda. — Não, — respondeu ela — não a vendo, mas dá-la-ei à Senhora Rainha, se ela me deixar ficar esta noite no quarto do Príncipe Bezerro. A criada foi dizer aquilo à Rainha. Combinaram deitar dormideiras na água que, ao deitar, o Príncipe bebia. Assim a mulher ficaria no quarto sem ele dar por isso. A menina deu a dobadoura e à noite ficou no quarto do Príncipe. Mas, por mais que ela o chamasse e abanasse, ele não deu por coisa alguma. Chorou muito, disse mal da sua triste vida e do mau costume de falar demais, pois se não tivesse contado à mãe o segredo do Príncipe nenhuns trabalhos daqueles lhe teriam sucedido! De manhã teve de sair, sem ter podido acordar o marido. Por toda a parte ouvia falar no próximo casamento do Príncipe, e na formosura da noiva, que ninguém tinha visto, mas todos afirmavam ser a mais formosa do Mundo. Muito desanimada, foi sentar-se defronte do palácio real com o sarilho de ouro. Viu-a a mesma criada e foi a correr dizer à Rainha que a mulher trazia ali um sarilho, mil vezes mais belo do que a dobadoura. A Rainha, como na véspera, mandou perguntar se o vendia e ela respondeu a mesma coisa: — que não o vendia, mas o daria à senhora Rainha se a deixasse ficar essa noite no quarto do Príncipe Bezerro. A Rainha não queria, mas a criada convenceu-a a fazer o mesmo que tinha feito na véspera, porque ele nunca o saberia. Assim aconteceu: deram as dormideiras ao Príncipe, e à noite, quando a mulher veio, por mais que chamasse e chorasse, nada! — não acordou com coisa nenhuma. De manhã saiu do palácio, mais triste do que a noite, e foi sentar-se defronte das janelas com a galinha de ouro e os pintainhos. Tocava-os com uma vara de ouro e começavam todos a correr, a piar, a abrir as asas, que era mesmo uma coisa nunca vista de linda e engraçada. Foi a mesma criada, a correr, dizer à Rainha o que a mulher trazia e voltou logo a perguntar: — se vendia aquela tão linda prenda, que a Rainha daria tudo quanto lhe pedisse. Ela respondeu o mesmo das outras vezes: — que não vendia, mas que daria à senhora Rainha a galinha e os pintos, se a deixasse ficar essa noite no quarto do Príncipe Bezerro. Disseram-lhe que sim, e ela ficou esperando a noite, que era a sua única esperança de salvação. Ora o criado particular do Príncipe fora dizer-lhe que havia duas noites que ficava no quarto dele uma mulher que chorava e se lamentava tanto que cortava o coração ouvi-la. O Príncipe, que nada tinha ouvido, ficou a desconfiar que lhe tivessem dado alguma coisa para dormir, e, à noite, em lugar de beber o copo com a água do costume, foi disfarçadamente deitá-la fora. Depois meteu-se na cama, e, fingindo que dormia, esperou que entrasse a mulher. Veio ela a chorar, chamou-o por marido, e, por entre soluços e lamentos, contou-lhe todas as suas desgraças. O Príncipe ouviu, ouviu, fingindo sempre que dormia, até que por fim teve dó dela e abraçou-a, dizendo que pela sua constância e arrependimento, o encanto mau acabara; e que ficavam casados como dantes, porque não queria outra esposa senão a ela. No outro dia apresentou-a à mãe e a todo o povo, que a recebeu como Rainha, ficando todos muito satisfeitos por ser tão boa e tão amiga do seu Príncipe. ez9ag7qtsipfnv1zrxpcvf5tj2o49oc 559691 559621 2026-08-20T15:27:58Z Mt516 43586 559691 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O Príncipe Bezerro | anterior = [[../O corvo/]] | posterior = [[../A Princesa da Áustria/]] | notas = }} '''<big>O PRÍNCIPE BEZERRO</big>''' HAVIA, em tempos muito remotos, um Rei e uma Rainha senhores dum grande reino, mas que viviam muito tristes, muito tristes, por não terem filhos. Principalmente a Rainha chorava muito a sua desgraça e não se cansava de os pedir a Deus e a todos os Santos. Um dia, já muito desesperada, exclamou: — Quem me dera um filho, ainda que fosse um bezerro! Passado tempo, deram parte à corte que a Rainha estava para dar um herdeiro à coroa. Fizeram-se muitas festas; houve alegria geral desde o palácio dos reis até à mais humilde choupana. Mas qual não foi o espanto de todos quando viram que, em lugar do menino tão ansiosamente esperado, nascia um bezerrinho! Os pais ficaram muito aflitos, mas eram pais e resignaram-se. O Príncipe foi crescendo e mostrava muita inteligência e bondade. Os pais — coitados! — apesar da forma extravagante do filho, gostavam dele como se fosse um homem perfeito, achavam-no até muito lindo e não podiam tolerar que as raparigas fugissem dele e não o quisessem para marido. Ora o Príncipe Bezerro queria por força casar e então os reis deram reuniões sobre reuniões, a ver se alguma mulher se agradava dele. Mas era trabalho baldado, porque as raparigas de quem gostava faziam troça dele e não o queriam nem por quanto havia. Aconteceu vir aos bailes da corte uma menina muito linda e sobretudo muito boa. Viu o Príncipe Bezerro e teve muita pena dele. Enquanto as outras se riam de o verem fazer-se amável com as damas, lambendo-lhes as mãos com toda a delicadeza, ela pegou no seu fino lenço de rendas e limpou-lhe a baba. Ficou o Príncipe Bezerro tão encantado com aquela prova de bondade da menina, que se dirigiu logo aos pais para a pedirem em casamento. Assim fizeram, e a menina, como era muito boa, teve dó do pobre rapaz que todos desprezavam e disse que sim, que aceitava ser sua mulher para que ele fosse menos infeliz. Fez-se o casamento com grande pompa, e, quando à noite se recolheram ao quarto, viu a menina, com grande admiração, que o Príncipe despia a pele de bezerro como se fosse uma camisa e ficava um belo rapaz — o mais belo que jamais tinha visto. Abraçaram-se cheios de contentamento, e ele disse-lhe então: — Não vás dar parte a ninguém disto que vês, porque é um encanto que não acabará se tu o fores dizer, ainda que seja a uma só pessoa! Ao outro dia foi a menina visitar a mãe e, doida de alegria, não teve mão em si que lhe não contasse, debaixo de grande segredo, o que lhe tinha acontecido. E a mãe aconselhou-a a queimar a pele de bezerro que à noite o Príncipe despia, quando ele estivesse a dormir. Assim foi. À noite aconteceu o mesmo da véspera, e a menina, quando o marido adormeceu, foi queimar-lhe a pele, imaginando que assim acabaria o encanto. Mal a pele começou a arder, acordou o Príncipe em sobressalto, exclamando: — Ai, desgraçada mulher, que dobraste o meu fadário! Agora não me tornarás a ver sem romperes sete pares de sapatos de ferro, e ninguém encontrarás que te dê notícias de mim! E, dizendo isto, desapareceu o Príncipe, o palácio, e tudo que a rodeava, e ela viu-se abandonada numa terra desconhecida. Cheia de desgosto e de remorso, não se entregou, porém, ao desespero. Resolveu fazer tudo para desencantar o Príncipe. Comprou sete pares de sapatos de ferro e pôs-se a caminho. Andou, andou, e por toda a parte perguntava pela morada do Príncipe Bezerro, mas ninguém lhe dava notícias dele nem do seu reino. Assim foi andando até que o último par de sapatos de ferro estava quase a findar. Uma noite viu uma luzinha muito ao longe, muito ao longe, e dirigiu-se para lá. Chegou a uma grande casa e bateu à porta. Veio uma velha abrir e perguntou: — Que vem aqui fazer a minha menina? Não sabe que esta é a casa do meu filho Sol? Se ele aqui a vê, é capaz de a matar. Tão aflita estava a infeliz, que lhe respondeu: — Olhe, tiazinha, eu estou tão cansada que só desejo um canto onde me deite, e, se vier o seu filho e me quiser matar, deixá-lo! E talvez ele me saiba dizer onde mora o Príncipe Bezerro. A velha teve muito dó da pobre menina, deixou-a entrar, deu-lhe ceia e cama, dizendo-lhe que descansasse até vir o filho. Daí a pouco chegou o Sol, iluminando a casa — que toda ela parecia um brazeiro de luz — e, dirigindo-se à velha, gritou: — Minha mãe, cheira-me aqui a carne humana! Respondeu ela: — Olha, filho, é uma menina muito bonita que está ali a dormir. Vem perguntar se tu sabes onde é o reino do Príncipe Bezerro. — Eu não sei (disse o Sol) mas a Lua, como anda de noite, talvez saiba. Depois chamou a menina, e, dando-lhe uma noz, recomendou-lhe que a não abrisse senão quando de todo em todo não pudesse suportar a fome. Foi ela dali até acasa da Lua, bateu à porta, e veio também uma velhita, que era a mãe. Deixou-a entrar e descansar, até que chegasse a filha. Então a menina perguntou à Lua: se sabia onde era o reino do Príncipe Bezerro. — Não, eu não sei (respondeu a Lua), nunca o vi nem ouvi falar nele. Melhor é ires perguntar ao Vento, que esse, como anda de noite e de dia, talvez te dê melhores notícias. Mas toma cautela com ele, porque é uma pessoa de muito mau génio, anda sempre arrenegado. Depois deu-lhe também uma noz, fazendo a mesma recomendação que lhe tinha feito o Sol — de só a abrir quando a fome fosse de todo insuportável. Foi dali a menina a casa do Vento, e bateu à porta. Veio abrir-lha uma mulher ainda nova, que lhe perguntou a que vinha. Ela respondeu o mesmo que já tinha dito à mãe do Sol e à da Lua, e a mulher respondeu: — O meu marido só chega à tardinha — hora em que abranda o vento — vem cear, e depois volta logo à sua obrigação. Se a menina lhe quer falar há-de ser à hora da ceia, mas tenho que a esconder quando ele chegar, porque entra sempre com tal espalhafato que despedaça tudo quanto encontra diante de si. A menina agradeceu à mulher do Vento, entrou, e esperou até ao lusco-fusco. Então meteu-se atrás da porta, e viu chegar o Vento, derribando tudo e gritando arrogante que lhe dessem a ceia depressa. Quando ela o viu sossegado, saiu do esconderijo e disse-lhe a que vinha, contando-lhe toda a sua história. O Vento respondeu que sim, que sabia muito bem onde era o reino do Príncipe Bezerro, mas que ele ia casar-se daí a três dias, e então que fosse depressa — a não chegar lá essa manhã já não iria a tempo. Ensinou-lhe o caminho e deu-lhe outra noz, recomendando o mesmo que a Lua e o Sol, isto é: que só a partisse quando de todo não pudesse tolerar a fome. Foi a menina andando pelo caminho por ele indicado, mas em certa altura sentiu uma tal fome que se tentou a partir uma das nozes. Qual não foi, porém, o seu espanto encontrando dentro, em vez da amêndoa que desejava comer, uma dobadoura muito linda toda de ouro e brilhantes. Mais adiante, deu-lhe outra vez uma tão grande fome que se resolveu a partir a segunda noz, e dentro, em lugar de fruto que comesse, encontrou um sarilho de ouro e pedras preciosas tão bonito que ficou deslumbrada. Ainda foi suportando a fome até mais adiante, e, quando inteiramente já não podia, partiu a terceira noz, e então mais admirada ficou quando de dentro lhe saiu uma galinha com sua ninhada de pintos, tudo de ouro, com as penas de brilhantes, rubis, esmeraldas e safiras. Mexiam-se, piavam, corriam — que era mesmo um encanto. A menina foi andando, até que de manhã chegou a uma grande cidade. Entrou e perguntou se vivia ali o Príncipe Bezerro. Disse-ram-lhe que sim, que era ele o rei daquele País e que daí a três dias viria a noiva para se casar. A menina foi sentar-se defronte do palácio real com a dobadoura. Viu-a uma criada da Rainha mãe, que lhe perguntou se queria vender aquela tão linda prenda. — Não, — respondeu ela — não a vendo, mas dá-la-ei à Senhora Rainha, se ela me deixar ficar esta noite no quarto do Príncipe Bezerro. A criada foi dizer aquilo à Rainha. Combinaram deitar dormideiras na água que, ao deitar, o Príncipe bebia. Assim a mulher ficaria no quarto sem ele dar por isso. A menina deu a dobadoura e à noite ficou no quarto do Príncipe. Mas, por mais que ela o chamasse e abanasse, ele não deu por coisa alguma. Chorou muito, disse mal da sua triste vida e do mau costume de falar demais, pois se não tivesse contado à mãe o segredo do Príncipe nenhuns trabalhos daqueles lhe teriam sucedido! De manhã teve de sair, sem ter podido acordar o marido. Por toda a parte ouvia falar no próximo casamento do Príncipe, e na formosura da noiva, que ninguém tinha visto, mas todos afirmavam ser a mais formosa do Mundo. Muito desanimada, foi sentar-se defronte do palácio real com o sarilho de ouro. Viu-a a mesma criada e foi a correr dizer à Rainha que a mulher trazia ali um sarilho, mil vezes mais belo do que a dobadoura. A Rainha, como na véspera, mandou perguntar se o vendia e ela respondeu a mesma coisa: — que não o vendia, mas o daria à senhora Rainha se a deixasse ficar essa noite no quarto do Príncipe Bezerro. A Rainha não queria, mas a criada convenceu-a a fazer o mesmo que tinha feito na véspera, porque ele nunca o saberia. Assim aconteceu: deram as dormideiras ao Príncipe, e à noite, quando a mulher veio, por mais que chamasse e chorasse, nada! — não acordou com coisa nenhuma. De manhã saiu do palácio, mais triste do que a noite, e foi sentar-se defronte das janelas com a galinha de ouro e os pintainhos. Tocava-os com uma vara de ouro e começavam todos a correr, a piar, a abrir as asas, que era mesmo uma coisa nunca vista de linda e engraçada. Foi a mesma criada, a correr, dizer à Rainha o que a mulher trazia e voltou logo a perguntar: — se vendia aquela tão linda prenda, que a Rainha daria tudo quanto lhe pedisse. Ela respondeu o mesmo das outras vezes: — que não vendia, mas que daria à senhora Rainha a galinha e os pintos, se a deixasse ficar essa noite no quarto do Príncipe Bezerro. Disseram-lhe que sim, e ela ficou esperando a noite, que era a sua única esperança de salvação. Ora o criado particular do Príncipe fora dizer-lhe que havia duas noites que ficava no quarto dele uma mulher que chorava e se lamentava tanto que cortava o coração ouvi-la. O Príncipe, que nada tinha ouvido, ficou a desconfiar que lhe tivessem dado alguma coisa para dormir, e, à noite, em lugar de beber o copo com a água do costume, foi disfarçadamente deitá-la fora. Depois meteu-se na cama, e, fingindo que dormia, esperou que entrasse a mulher. Veio ela a chorar, chamou-o por marido, e, por entre soluços e lamentos, contou-lhe todas as suas desgraças. O Príncipe ouviu, ouviu, fingindo sempre que dormia, até que por fim teve dó dela e abraçou-a, dizendo que pela sua constância e arrependimento, o encanto mau acabara; e que ficavam casados como dantes, porque não queria outra esposa senão a ela. No outro dia apresentou-a à mãe e a todo o povo, que a recebeu como Rainha, ficando todos muito satisfeitos por ser tão boa e tão amiga do seu Príncipe. [[Categoria:Contos portugueses|O Príncipe Bezerro]] 011x24ufoj8o0fnjw2y1v0km5rhyx2z Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/140 106 256364 559622 2026-08-20T13:28:39Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559622 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|84}}{{lh|2em}}</noinclude>um criado sacudia. A infeliz lembrou-se da opulencia, em que fora creada, e da súa pobreza presente. Se não fora a gratidão de um negro, teria ha muito morrido de fome. Vinham-lhe depois ideias mais amargas ainda. Era alli que viveu vida innocente, e alli tambem que commettera a culpa que a desterrou do seu eden da mocidade. Ah! ella agora viu, como nossos primeiros paes, anjos exterminadores, à porta do paraizo, que lhe vedavam o ingresso. Estes anjos exterminadores eram o remorso, a vergonha e o temor. Uma visão celeste como que afastou por um pouco da mente de Henriqueta pensamentos horrorosos. Uma senhora (que pela forma do corpo e elegancia do traje se conhecia ser moça) assumara á janella do seu antigo quarto de solteira. A infeliz quasi não respirou um momento; suspensa, immovel, enlevada olhava com vistas fixas aquella graciosa figura. Passado o primeiro momento apertou o seio com as mãos e articulou com gemidos: ― Meu Deus!.. meu Deus!.. é minha filha!.. a minha adorada Virginia!.. {{nop}}<noinclude></noinclude> gvt3fzubz0mczpufjmzndgxgsi1t6hf 559623 559622 2026-08-20T13:29:08Z BlitzkriegBoop 37692 559623 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|84}}{{lh|2em}}</noinclude>um criado sacudia. A infeliz lembrou-se da opulencia, em que fora creada, e da súa pobreza presente. Se não fôra a gratidão de um negro, teria ha muito morrido de fome. Vinham-lhe depois ideias mais amargas ainda. Era alli que viveu vida innocente, e alli tambem que commettera a culpa que a desterrou do seu eden da mocidade. Ah! ella agora viu, como nossos primeiros paes, anjos exterminadores, à porta do paraizo, que lhe vedavam o ingresso. Estes anjos exterminadores eram o remorso, a vergonha e o temor. Uma visão celeste como que afastou por um pouco da mente de Henriqueta pensamentos horrorosos. Uma senhora (que pela forma do corpo e elegancia do traje se conhecia ser moça) assumara á janella do seu antigo quarto de solteira. A infeliz quasi não respirou um momento; suspensa, immovel, enlevada olhava com vistas fixas aquella graciosa figura. Passado o primeiro momento apertou o seio com as mãos e articulou com gemidos: ― Meu Deus!.. meu Deus!.. é minha filha!.. a minha adorada Virginia!.. {{nop}}<noinclude></noinclude> d7hebzg1drpyztn1fvwpb9e7yxh8p7s Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/141 106 256365 559624 2026-08-20T13:30:24Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559624 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|85}}{{lh|2em}}</noinclude>E, deixando-se cair sobre a relva, chorou dolorosamente. Quando a desventurada mãe ergueu a cabeça, a menina tinha-se retirado da janella. Henriqueta continuou o seu caminho com uma energia, que se assemelhava á desesperação. Chegou perto dos muros da quinta de seu pae. Tinha tencionado ir até á estalagem e de lá mandar uma carta a Julio, se alli estivesse, ou a seu pae, se fosse vivo, pedindo licença de se lhe ir deitar aos pés; mas não teve forças de passar ávante. Parou e olhou em redor. Uma velha fiavá assentada ao sol. Henriqueta, que anciava saber se toda a sua familia era viva, e se era feliz, foi assentar-se, tremendo, junto da velha, e depois de algumas phrases insignificantes, perguntou-lhe de quem era aquella quinta. ― E', respondeu a velha, do snr. Henrique de Moraes; um santo homem, bemfeitor dos pobres. ― Seja Deus louvado!.., exclamou a fugitiva da casa paterna, ao saber que seu pae vivia. {{nop}}<noinclude></noinclude> hx0ezksllu0hvbe43bjn10m8u27dzdz Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/142 106 256366 559625 2026-08-20T13:32:12Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559625 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|86}}{{lh|2em}}</noinclude>A velha enganou-se com a exclamação e replicou: ― Sim, sim!.. Póde dar graças a Deus, se vem para pedir-lhe uma esmola. E então em que occasião vem, santinha!.. ― E o snr. Henrique de Moraes tem familia? ― Tem, e que santa familia! Tambem é o que lhe tem valido. ― Pois succederam-lhe desgraças? — tornou a infeliz com certo tremor na voz. ― Desgraças?!.. Isso são historias largas. Se quer ouvir cousas de ''estarrecer'', eu lhe conto. Era casado o snr. Henrique de Moraes... ― E já não é casado!.., interrompeu Henriqueta; morreu sua esposa? ― Morreu; mas espere, ainda lá não chegamos. A filha desgraçada correu a mão pela testa e pelos olhos, enxugando duas lagrimas ardentes. A velha compunha o linho da roca, e continuou: ― Era casado e tinha uma filha bella como uma imagem de cera, e bôa, que mais não!.. Casaram a snr.{{sup|a}} D. Henriquetinha<noinclude></noinclude> d16objiw6a6smvvto92bxre5dp7km8w Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/143 106 256367 559626 2026-08-20T13:34:27Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559626 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|87}}{{lh|2em}}</noinclude>com o snr. Julio; e que festas que não houveram!.. Tinha eu então vindo para casa do meu ''Tonio'' e... ― Mas como morreu a consorte do snr. Henriques de Moraes? — Santinha, você é bem apressada!.. Lá chegaremos. O casamento da snr.{{sup|a}} D. Henriqueta foi abençoado. Nunca se viu casamento assim!.. Vai senão quando foi o snr. Julio á terra dos ''ingrezes arreceber'' muito dinheiro!.. Estava para vir; a snr.{{sup|a}} D. Henriqueta, que morria de soidades, foi esperal-o muito longe; e deixou seus filhinhos com seu pae e sua mãe. ― E esses filhos vivem?.. ― Então, você quer saber tudo d'uma assentada! Como lhe ia dizendo, a snr.{{sup|a}} D. Henriquetinha foi esperar seu homem. Na estrada saem-lhe os ladrões, e por mais que ella pedia com as mãos erguidas, que a não matassem sem tornar a ver o seu homem, cozeram-na a facadas!.. O snr. Julio, que vinha todo contente, encontrou-a morta no meio da estrada!.. Se não fosse a gente, que acudia aos aqui-d'el-reis, matava-se sem remedio. Veio depois para Rivaes, que {{hífen|met|mettia}}<noinclude></noinclude> 3otbftcupxyp5gyrf3lp13cdx4heb50 559627 559626 2026-08-20T13:34:44Z BlitzkriegBoop 37692 559627 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|87}}{{lh|2em}}</noinclude>com o snr. Julio; e que festas que não houveram!.. Tinha eu então vindo para casa do meu ''Tonio'' e... ― Mas como morreu a consorte do snr. Henriques de Moraes? — Santinha, você é bem apressada!.. Lá chegaremos. O casamento da snr.{{sup|a}} D. Henriqueta foi abençoado. Nunca se viu casamento assim!.. Vai senão quando foi o snr. Julio á terra dos ''ingrezes arreceber'' muito dinheiro!.. Estava para vir; a snr.{{sup|a}} D. Henriqueta, que morria de ''soidades'', foi esperal-o muito longe; e deixou seus filhinhos com seu pae e sua mãe. ― E esses filhos vivem?.. ― Então, você quer saber tudo d'uma assentada! Como lhe ia dizendo, a snr.{{sup|a}} D. Henriquetinha foi esperar seu homem. Na estrada saem-lhe os ladrões, e por mais que ella pedia com as mãos erguidas, que a não matassem sem tornar a ver o seu homem, cozeram-na a facadas!.. O snr. Julio, que vinha todo contente, encontrou-a morta no meio da estrada!.. Se não fosse a gente, que acudia aos aqui-d'el-reis, matava-se sem remedio. Veio depois para Rivaes, que {{hífen|met|mettia}}<noinclude></noinclude> 4ypul53vbtdtnwe6dtv7pm2v1hckbst Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/144 106 256368 559628 2026-08-20T13:36:26Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559628 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|88}}{{lh|2em}}</noinclude>{{hífen-fim|tia|mettia}} medo! Mettia-se pelas brenhas, sem querer ver gente, com as barbas crescidas e a vista espantada. Uns diziam que andava doudo; outros, que trazia a alma de quem Deus levou. Eu cá nunea lhe vi atirar pedras; e a defunta foi em vida uma santa em carne e osso, como havia de cá vir depois de morta?!.. Assim mesmo não gostava de vel-o ir sempre, sempre metter-se entre os mattos com seu filho pela mão... ― E' amigo de seu filho? ― Se é amigo?!.. E' a luz dos seus olhos; e tambem sua filha. ― Tambem é amigo de sua filha? ― Podéra!.. Se ella é uma santinha como sua mãe! Lá tão bonita não é ella, isso não. Não lhe chega aos calcanhares. O snr. Augusto, esse sim, é um mocetão como uma trave; e é sua mãe ''escarradinho''! Mas, como lhe ia dizendo, mettia-se o snr. Julio com seu filho pelas brenhas, dando gemidos, que fazia cortar o coração!.. O snr. Henrique de Moraes pegava em sua neta nos braços, ia por esses campos a rezar sempre, e tão triste e ''merenconio'', que dava vontade de chorar vel-o. Só sorria para a<noinclude></noinclude> j9x1mibvn1dkd52ed6gni3ohr6a8sl6 Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/145 106 256369 559629 2026-08-20T13:39:18Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559629 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|89}}{{lh|2em}}</noinclude>menina, quando ella lhe fallava, ou lhe dava beijos. ― E a esposa do snr. Henrique de Moraes? ― A sr.{{sup|a}} D. Augusta não queria ver ninguem. Fechava-se no seu quarto a chorar... ''a chorar como uma videira''. Um dia foi achada por morta entre papeis, que tinha espalhado pelo chão, e com uma carta de sua filha tão agarrada, que só o snr. Julio l'a pôde tirar; e por signal, que a queimou logo. Poucos dias de vida teve a sr.{{sup|a}} D. Augusta, e passou-os quasi todos com seu genro. Pois a carta, ''pelos modos'', era a recommendar seu marido a seus paes; como se a snr.{{sup|a}} D. Henriquetinha adivinhasse que tinha de morrer em breves audiencias. O certo é que a snr.{{sup|a}} D. Augusta, depois que leu aquella carta estava sempre a chamar por seu genro, e o abraçava com muito amor, dizendo: — Meu filho!.. meu amado filho!.. como és bom!.. Henriqueta soluçava. — Ah!.. você porque chora? Isto é triste, mas já lá vai ha muito. {{nop}}<noinclude></noinclude> dsk0fku6vmprt77q4ta2m289yzfk220 Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/146 106 256370 559630 2026-08-20T13:41:34Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559630 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|90}}{{lh|2em}}</noinclude>― Choro porque perdi um filho ha pouco que tambem era muito bom. ― Pois se era bom ha de estar no céu. Leve a ''maleita merenconias''. — Continue o que me estava contando... Já abafei minhas proprias tristezas. — Morreu a snr. D. Augusta; e todas essas penas abateram muito o snr. Henrique de Moraes, que por fim de contas teve ''mal ruim'', e ficou ''emprégado''. ― Meu Deus!.. quantas desgraças!.. Entrevado o... senhor tão bom e esmoler!.. Era melhor morrer!.. Este ''era melhor morrer''; dizia-o a infeliz senhora por si, mas a velha não o tomou assim e replicou: — Isso seria assim, santinha, se se tratasse de mim ou de você; mas quem é rico póde passar sem pernas. O snr. Henrique de Moraes é ''boquinha que queres? coração que desejas?''.. Rosa, uma rapariga que foi creada em casa, não o deixa. A snr.{{sup|a}} D. Virginia, essa não fallemos: e é o ''ai-jesus'' de seu avô. Amam-no tambem muito, e lhe fazem muita companhia o snr. Augusto, o snr. Julio e o snr. Feliciano.<noinclude></noinclude> ivv1scps1oha3clhbj6ydrlh02fr1xm Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/147 106 256371 559631 2026-08-20T13:43:08Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559631 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|91}}{{lh|2em}}</noinclude>— Quem é o snr. Feliciano? — Está-me sempre a atrapalhar... Não me deixa contar a historia direita. O snr. Feliciano é o noivo da menina. — Ah! Oxalá!.. Meu Deus!.. meu Deus!.. A's vezes ha casamentos!.. E não sei como seu avô a deixa casar... Far-lhe-ha falta. — Foi elle e o snr. Augusto, que obrigaram o snr. Julio a dar o sim. ''Pelos modos'' o viuvo da snr.{{sup|a}} D. Henriquetinha não queria que seus filhos casassem. O homem nunca ficou muito fixo do juizo, pelos geitos. — Não quereria talvez que sua filha casasse, por ella não gostar do noivo?!.. — Ella?!.. Coitadinha!!! ia-se d'este mundo com chorar por seu pae, se oppôr ao seu casamento. Elle dizia, que Feliciano era um santo rapaz; mas que não queria que seus filhos casassem. — Homem infeliz!.. Digno de uma sorte melhor. E novas lagrimas arrebentaram dos olhos de Henriqueta; e antes que a velha fizesse reflexões sobre isto, a esposa de Julio disse: {{nop}}<noinclude></noinclude> igf76ry3n20tolceain0jey24bh8630 Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/148 106 256372 559632 2026-08-20T13:44:49Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559632 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|92}}{{lh|2em}}</noinclude>— A lembrança de um marido que perdi... um marido tão bom como o snr. Julio, me despedaça o coração. — Console-se, bôa velha. A gente não ha de viver sempre. Aqui estou eu, que perdi dois maridos que tive. Prantiei-os muito; mas agora já não ando a ''choramingar''. Rezo-lhes por alma todos os dias, que padre-nossos é que elles lá querem. — Se eu fosse a casa do snr. Henrique, dar-me-iam lá pousada? Sou uma viandante pobre, e na estalagem gasta-se muito. — Por isso fico eu. E dar-lhe-hão ainda boa esmola. Veio em boa maré!. O snr. Julio não quer festas no casamento de sua filha; e o dinheiro que haviam de gastar nas bôdas, ''pelos modos'' será dado á pobreza Henriqueta despediu-se da velha, que já conhecêra adiantada em annos, quando era muito moça, e que agora parecia da mesma edade que ella. A velha nem por sombras se recordou de tel-a conhecido. Afastou-se da velha a infeliz culpada com o coração ralado de pesares e tristezas, e acercou-se da porta da quinta. Não receiava que os criados a reconhecessem, e não<noinclude></noinclude> ggw7w8nt5pb9pwg2y7d6ssibcna9wlw Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/149 106 256373 559633 2026-08-20T13:46:44Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559633 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|93}}{{lh|2em}}</noinclude>podia ir mais longe. Tinha as forças physicas e moraes já esgotadas. — Dormirei ao menos uma noite ainda, pensava ella, debaixo do tecto de meu pae... perto de meus filhos... Talvez ouça suas vozes. Suas lagrimas caíam, pesar seu, sobre o solo, para onde lhe pendia a cabeça; seu passo era vacillante. Dous bellos caçadores passaram por ella quasi correndo, e um dos cães da matilha deu-lhe um encontrão tão forte, que cairia a pobre senhora se o mais alto dos caçadores a não tivesse amparado com um braço, dizendo: — Perdôe, bôa mulher... Magoou-se? ― Não!.., balbuciou Henriqueta, fitando os olhos no bello rosto do mancebo, com um ardor apaixonado, que elle tomou pelo rogo d'uma esmola. Apalpou os bolsos, e não achando dinheiro, lhe disse: — Vá por aquella porta (e indicou-lhe a porta principal). Os cães não fazem mal. Precisa de descanso, e talvez de almoço. Quando se fôr embora, mandarei dar-lhe alguma cousa. {{nop}}<noinclude></noinclude> obgpjb31c7dgbwat9rvt7cj7d63zbvo Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/150 106 256374 559634 2026-08-20T13:48:00Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559634 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|94}}{{lh|2em}}</noinclude>E deixando-a, foi a correr ajuntar-se ao companheiro que ia entrar na quinta por uma pequena porta; e entraram ambos. — Oh, meu doce Jesus!.. murmurou ella. Seria aquelle Augusto? E, em vez de ir por a porta que o moço lhe indicara, seguiu-o com a pressa que as suas forças lhe permittiam. Depois de entrar na quinta parou, e seguiu com a vista os caçadores. Ambos eram tão bellos!.. Qual d'elles seria seu filho? Cruel incerteza! <section end=C11/> <section begin=C12/> {{ch|Capitulo XII}} Elles não se haviam dirigido para casa, mas para o lado apposto, porque tinham avistado d'alli um vestido branco. Henriqueta não via ainda senão os dois moços, e encostando-se ao muro balbuciou com os olhos turvos pelas lagrimas: — Um é meu filho... o outro o noivo de minha filha!.. Qual será o meu Augusto?.. O coração me diz, que é aquelle, que me teve junto ao seio... e com que frieza<noinclude></noinclude> 3lsqkfsva5re2uanjvpwiwf4om753cq Henriqueta/Capitulo 11 0 256375 559635 2026-08-20T13:48:38Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559635 wikitext text/x-wiki <pages index="Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf" from=138 to=150 fromsection=C11 tosection=C11 header=1 /> [[Categoria:Henriqueta| 17]] 24sifc5ex1bsyp8j83ptwvg82x8nbao Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/151 106 256376 559636 2026-08-20T13:49:48Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559636 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|95}}{{lh|2em}}</noinclude>se apartou de mim!.. Oh! e com que ancia o apertaria nos meus braços... o comeria de beijos!.. Meu Deus!.. Lá vem minha filha!.. a minha adorada Virginia!.. Eu morro!.. E ella se deixou cair sobre um banco, que estava alli perto, debaixo de uma pequena latada. Os tres jovens tinham-se encontrado e voltavam para onde estava a pobre desconhecida. Esta tornou a animar-se e erguendo a cabeça afastou as folhas da latada e pensou, examinando Virginia: — Como é linda!.. Como é graciosa!.. O mancebo mais alto a traz abraçada!.. E' então na verdade o meu querido Augusto!.. Como são lindos meus filhos!.. E como mostram amar-se!.. Misera de mim! Quanto elles me amariam, se os não tivesse abandonado! Já não podia chorar mais. Tinha os olhos inchados e as faces ardentes. Apertou as mãos ao peito, murmurando: ― Oh, meu Deus! dai-me forças para resistir à tentação de chamal-os em altos brados... de correr a seus braços!.. Quanto<noinclude>{{D|10}}</noinclude> 9ylgqczjmbgf5cpd7en97cx4lh7ntq3 Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/152 106 256377 559637 2026-08-20T13:51:43Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559637 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|96}}{{lh|2em}}</noinclude>poderia ser feliz e quão desgraçada sou!.. De todos os tormentos da minha culpada vida, oh, meu Deus!.. é este que te offereço em expiação de meus peccados!.. Os tres jovens se approximavam. Henriqueta tremia, e abafou os suspiros e quasi a respiração, para os ouvir. ― Não sejas impostora, dizia o moço que trazia Virginia abraçada, confessa que nos ias procurar. — Já te disse, respondeu a menina, sorrindo, que não deixei o avô por amor de ti. — Tambem não direi que fosse por ''amor'' de mim. Os ''amores'' novos fazem esquecer os velhos. Se me mettia na conta, era para te não dizer chamente que ias procurar o meu amigo Feliciano. Ah, ah, ah! Como te fizestes vermelhinha! Ora, se não queres perder o credito de verdadeira, ''confessa a conceição''. — Não faça caso do que diz este louco, — disse o outro mancebo com ar risonho. Virginia parou e replicou triste: — Vejo-os a ambos tão alegres, que não tinha animo de lhes dizer onde ia, mas é<noinclude></noinclude> onvgx3pm80kwyrp701dgomoldfbem3b Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/153 106 256378 559638 2026-08-20T13:53:36Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559638 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|97}}{{lh|2em}}</noinclude>preciso que o saibam, para me deixarem retroceder. Ia procurar o pae. — Pois elle não está em casa?!.. — Não; ergueu-se muito melancolico, fez-me uma longa pratica e saiu. O avô, vendo qué eram horas de almoçar, e que elle não voltava, disse-me que o fosse procurar. — Pobré pae!.. Tornam-lhe os seus ataques de hypocondria!.. Vou eu procural-o. Ide ambos para casa. Sei onde o hei de achar. — Queres que vá comtigo? — perguntou Feliciano. — Não, meu amigo. Nas occasiões de grande melancolia, só eu sei distrail-o. Foi o longo tirocinio de toda a minha vida. Desde a mais tenra infancia fui o companheiro de seus dias tristes. — Teu pae é o homem, que mais estimo e respeito. As saudades que conserva por uma esposa virtuosa dão a conhecer a bondade de sua alma; e comtudo para mim foi duro tanto tempo... Tinha horas bem más a cogitar, porque lhe desagradaria. ― Não lhe desagradavas, pelo {{hífen|contra|contrario}}<noinclude></noinclude> 77q0ghrxdp951t1ld3cu3nvsiniunav Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/154 106 256379 559639 2026-08-20T13:55:14Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559639 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|98}}{{lh|2em}}</noinclude>{{hífen-fim|rio|contrario}}, te estimava; mas a desgraça que succedeu a minha querida mãe, por elle a ter deixado algum tempo, o indispoz contra todos os casamentos. ― Quanto não devia ser estimavel a mulher que deixou tão longas saudades a seu marido!.. ― Era um anjo!.. Ainda conservo uma vaga ideia da sua formosura e bondade. Na vespera da sua fatal jornada me acariciou muito e me recommendou que amasse e protegesse minha irmã. E, como depois da sua morte, não se viam n'esta casa senão lagrimas, uniu-se tanto esta ideia com a imagem da minha querida mãe, que me parecia que ella me alagava com seu pranto, em me beijando. ― Eu sou mais infeliz que Augusto, disse pesarosa a menina. Não tenho a menor ideia de minha mãe; ainda que me diz meu avô que ella me beijou e abraçou com muita ternura na vespera da sua partida. ― Eras muito pequenina; e eu na verdade não era muito maior, apesar de me julgar então um homemzarrão. Lembra-me que muitos dias nos deixaram quasi {{hífen|aban|abandonados}}<noinclude></noinclude> mb6cp249ub7586w4qlqm5u1yrw0zius Página:Júlio Verne - À Roda da Lua (1886).pdf/158 106 256380 559640 2026-08-20T13:56:05Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 559640 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|150|{{sc|á roda da lua}}|{{sc|viagens maravilhosas}}}}{{rule}}</noinclude>E que succederia aos ousados viajantes, nʼum futuro muito proximo? Se nāo morressem de fome, se nāo morressem de sede, é porque dentro em poucos dias, quando viesse a faltar-lhes o gaz, morreriam por falta de ar, se antes os nāo tivesse morto o frio! No entretanto, apesar da importancia que tinha a economia do gaz, o excessivo abaixamento da temperatura obrigou os viajantes a consumirem uma certa porçāo dʼelle. Em rigor, sem luz poderiam passar, mas sem calor é que nāo. Por grande fortuna, o calorico desenvolvido pelo apparelho Reiset e Regnault ajudava tambem a elevar a temperatura, e poude esta manter-se, sem grande dispendio, em grau toleravel. Entretanto as observaçōes tinham-se tornado muito difficeis através das vigias. A humidade do interior da bala condensava-se na superficie interna dos vidros, onde immediatamente congelava, e força era destruir a opacidade que dʼahi resultava para os vidros por meio de reiteradas fricçōes. Apesar dʼisto, sempre se poderam verificar alguns phenomenos do mais alto interesse. Effectivamente, se aquelle disco invisivel tinha atmosphera, deviam ver-se estrellas cadentes a sulcal-a com as suas trajectorias. Se o proprio projectil viesse a atravessar as camadas fluidas, deveriam perceber-se alguns ruidos repercutidos pelos echos lunares; taes, por exemplo, como o rugir das tempestade, o estrepito de alguma ''avalanche'', as detonaçōes de algum vulcāo em actividade. Assim como, se alguma montanha ignivoma se coroasse de relampagos, se lhe haviam de perceber as intensas fulguraçōes. E taes factos, cuidadosamente observados e verificados que fôssem, era para elucidar mui notavelmente o obscuro assumpto da constituiçāo lunar. Por isso Barbicane e Nicholl, postos junto ás vigias, como astronomos que eram, observavam com escrupulosa paciencia. O disco, porém, permanecéra até entāo silencioso o obscuro, sem dar resposta alguma ás multiplas interrogaçōes que lhe di-<noinclude></noinclude> fiwbckax83un7v24j3myijnbcp7yrtv Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/155 106 256381 559641 2026-08-20T13:57:00Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559641 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|99}}{{lh|2em}}</noinclude>{{hífen-fim|donados|abandonados}}, quando se soube a horrivel nova da morte de nossa mãe, e que eu, altivo com a minha importancia, passava o meu tempo a guardar Virginia, e a matar as vespas, para que lhe não ferrassem; parecendo-me que fôra uma das recommendações da mãe. Virginia apertou seu irmão ao coração, deixando cair de seus lindos olhos duas lagrimas. Augusto, ainda abraçado 'n'ella, encostou a arma, que trazia, á casinha de fresco, em que se occultava sua mãe e estendeu o braço a Feliciano, dizendo: ― Unamo-nos todos tres. Fiquem nossos corações, formando um só. Vou confiar-vos a condição, que o pae poz ao vosso casamento.... — Seja qual fôr, interrompeu o outro mancebo, desde já a acceito e cumprirei religiosamente. ― Não é cousa que te dê canceira a ti: a mim só é que diz respeito. Augusto, me disse meu pae, eu me descuidei de proteger a filha, que teu avô me entregou.... não tenho direito a esperar que Feliciano seja mais cuidadoso com Virginia... Os perigos que lhe receio não são só de assassinios,<noinclude></noinclude> 8gz97deum4tshkaxh9isq14j1tpatfx Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/156 106 256382 559642 2026-08-20T13:58:49Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559642 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|100}}{{lh|2em}}</noinclude>mas tambem de genero differente... Ha um periodo, na vida dos casados, de muito risco; é, quando o marido já não é amante, e a mulher é ainda moça... Por esse periodo não passei eu... Tua mãe... = As lagrimas o soffocaram e depois continuou: = Visto que se amam, consinto no casamento de minha filha, com a condição de tu seres sempre o seu segundo guarda e protector, como tens até agora sido o primeiro. Se Feliciano, por necessidade, ou por gosto se afastar de tua irmã, posta-te a seu lado... não a abandones, e que, quando Feliciano voltar, a ache como a deixou. — Espero que me ajudes a fazer tua irmã venturosa, mas emquanto ao mais... julgo que teu pae nunca se arrependerá da honra que me faz. — Estou certissimo que o meu logar de guarda substituto será um emprego honorario. Por agora ao menos protege tu só a ''nossa'' Virginia, que eu vou procurar o pae. Toma sentido que lhe não ferrem as vespas, como eu fazia na minha primeira campanha; porém não vás logo pedir o premio de teus serviços, como eu costumava. {{hífen|As|Assim}}<noinclude></noinclude> 9bxegq9amnobgjn3cucloda5nxpvch6 Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/157 106 256383 559643 2026-08-20T14:00:07Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559643 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|101}}{{lh|2em}}</noinclude>{{hífen-fim|sim|Assim}} que matava uma vespa corria a Virginia, bradando: menina... menina, dá-me um beijo, que matei uma feia. Augusto acabando de fallar estendeu o pescoço, e beijou sua irmã, dizendo: — Com sua licença, snr. Feliciano, este beijo foi por algumas vespas que quiz matar e não pude. E agarrando na arma, que tinha encostada, partiu como uma setta, para recuperar o tempo perdido, seguido de seus cães. Henriqueta o seguiu com vistas ternas, pensando: — O meu Augusto!.. Talvez o não torne a ver!.. Virginia e Feliciano o olhavam tambem um pouco; depois o mancebo offereceu o braço á menina para leval-a mais perto de si, e se adiantaram vagarosos. Havia tanta singeleza e innocencia na linguagem da donzella, tanta delicadeza, amor e probidade nas expressões do mancebo, que a infeliz mãe ergueu os olhos ao céu reconhecida. Acreditava que Virginia seria feliz, e nunca se desviaria da estrada do dever e da virtude. {{nop}}<noinclude></noinclude> fv9h3tjesqnx3civr62cy4v9uu1uvna Página:Júlio Verne - À Roda da Lua (1886).pdf/159 106 256384 559644 2026-08-20T14:00:29Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 559644 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|151|{{sc|á roda da lua}}|{{sc|viagens maravilhosas}}}}{{rule}}</noinclude>rigiam aquelles espiritos ardentes. Facto este que provocou da parte de Miguel Ardan a seguinte reflexāo, assás justa, ao menos apparentemente: — Se alguma vez tornarmos a fazer esta viagem, nāo será mau escolher a época da Lua-nova. — Effectivamente, respondeu Nicholl, essa phase seria mais favoravel. Bem vejo que durante a viagem nāo seria a Lua visivel por estar immersa na irradiaçāo solar, em compensaçāo, porém, ver-se-ia a Terra que entāo estaria cheia; e demais, se fôssemos arrastados, como agora nos succede, em volta da Lua, tinhamos ao menos a vantagem de lhe ver o disco invisivel magnificamente illuminado! — Bem dito! Nicholl, replicou Miguel Ardan. E tu que pensas do caso, Barbicane? — Penso que se alguma vez tornarmos a emprehender esta viagem, havemos de partir na mesma época e nas mesmas condiçōes. Ora supponham que tinhamos alcançado o alvo, nāo seria melhor ir encontrar continentes plenamente illuminados do que regiōes immersas em noite escura? Nāo se faria no primeiro caso em melhores condiçōes a nossa installaçāo? Por certo que sim. O lado invisivel, esse podiamos visital-o nas nossas viagens de reconhecimento no globo lunar. Por consequencia a época do pleni-lunio foi bem escolhida. O caso, porém, estava em ir dar no alvo, e, para là ir, nāo ser desviado durante o caminho. — Isso é que nāo tem resposta, disse Miguel Ardan. No entanto o caso é que foi uma occasiāo perdida de observar o outro lado da Lua. Quem sabe se os habitantes dos outros planetas estarāo mais adiantados que os sabios lá da Terra no que diz respeito aos respectivos satellites? A esta observaçāo de Miguel Ardan poder-se-ia facilmente responder o seguinte: Sim, ha outros satellites cujo estudo, pela maior proximidade em que estāo dos seus astros principaes, se deve ter tornado mais facil. Se é que existem habitantes de Saturno, de Jupiter e de Urano, devem elles ter podido estabelecer com as respectivas Luas mais faceis commu-<noinclude></noinclude> 1ucfq8fusdutqg4uw1z8ra6fm48ll4a Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/158 106 256385 559645 2026-08-20T14:03:11Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559645 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|102}}{{lh|2em}}</noinclude>Elles tinham parado á entrada da casinha de fresco outra vez, mas não viram Henriqueta; estavam muito entretidos com o seu dialogo. Era a primeira vez que se achavam sós por sós, ou ao menos assim o pensavam. — Vamos para o avô, disse por fim Virginia, puxando pelo braço de Feliciano para diante. Se Augusto viesse, e nos achasse no mesmo sitio, em que nos deixou, o que não diria!.. Como iam rentes á casa de fresco, um braço do jasmineiro se enleou na franja do chaile de Virginia. Ella o desviou, e sem olhar, procurou encaminhal-o para dentro da casa de fresco, parando outra vez um momento. A mão descuidada da menina roçou pelas mãos descarnadas da infeliz mãe. Esta perdeu a cabeça com aquelle toque, e, caindo de joelhos, agarrou com força na mão fresca e mimosa de sua filha e a levou aos labios com um ardor inconcebivel. Virginia soltou um grito de susto, e Feliciano quiz livral-a da desconhecida, que tomou por demente; mas ella lhe disse, já recuperada do sobresalto: {{nop}}<noinclude></noinclude> 0zb8ztrulgietzdclxsl4bi5dyzku75 Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/159 106 256386 559646 2026-08-20T14:04:41Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559646 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|103}}{{lh|2em}}</noinclude>― E' alguma infeliz que precisa de soccorro. Deixe ver o que quer. No entanto a esposa de Julio ficava de joelhos, apertando a mão de sua filha e beijando-a com fogo e ternura. Não era uma mãe diante de sua filha; era a mulher culpada e arrependida diante da virgem innocente, que ardia apertar ao coração, e que não ousava toca rsenão de joelhos. Virginia se curvou para ella e lhe disse com muito carinho: — Que tem?.. porque chora? Meu pae e meu avô são muito bons. Não a deixarão sem soccorros. Levante-se. Era muito para a infeliz. O bafo de sua filha acabou de lhe transtornar as ideias; puxou Virginia para si, encostou a encanecida cabeça ao seio d'ella e desmaiou. — Feliciano, bradou a donzella, esta pobrezinha morre-me nos braços!.. O mancebo amparou-as ambas, ergueu Henriqueta nos braços e animou Virginia, dizendo, que aquillo era apenas um desmaio. — Vou chamar, quem a leve a casa, replicou a menina. Ella precisa de soccorros. {{nop}}<noinclude></noinclude> q9obuuu44ioc0lfpkh02taz3fcwsgaq Página:Júlio Verne - À Roda da Lua (1886).pdf/160 106 256387 559647 2026-08-20T14:05:03Z Erick Soares3 19404 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: nicações. Os quatro satellites de Jupiter gravitam ás distancias de cento e oito mil duzentas e sessenta leguas, cento e setenta e duas mil e duzentas leguas, duzentas e setenta e quatro mil e setecentas leguas e quatrocentas e oitenta mil cento e trinta leguas. Estas distancias, porém, são contadas do centro do planeta, e subtraindo-lhe o comprimento do raio dʼelle, que é de dezesete a dezoito mil leguas, vê-se que o primeiro satellit... 559647 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Erick Soares3" />{{rvh|152|{{sc|á roda da lua}}|{{sc|viagens maravilhosas}}}}{{rule}}</noinclude>nicações. Os quatro satellites de Jupiter gravitam ás distancias de cento e oito mil duzentas e sessenta leguas, cento e setenta e duas mil e duzentas leguas, duzentas e setenta e quatro mil e setecentas leguas e quatrocentas e oitenta mil cento e trinta leguas. Estas distancias, porém, são contadas do centro do planeta, e subtraindo-lhe o comprimento do raio dʼelle, que é de dezesete a dezoito mil leguas, vê-se que o primeiro satellite está a distancia menor da superficie de Jupiter do que a Lua está da Terra. De oito luas que tem Saturno, ha tambem quatro que estão mais proximas do astro que a Lua da Terra; Diana está a oitenta e quatro mil e seiscentas leguas, Thetys a sessenta e duas mil novecentas e sessenta e seis, Encelade a quarenta e oito mil cento e noventa uma, e finalmente Mimas a uma distancia média sómente de trinta e quatro mil. O primeiro dos oito satellites de Urano, Ariél, está apenas a eincoenta e uma mil quinhentas e vinte leguas do planeta. Por consequencia, na superficie de qualquer dos tres citados astros, uma experiencia analoga á do presidente Barbicane teria apresentado menores difficuldades. E se os habitantes dʼelles tentassem a aventura, é possivel que reconhecessem a constituição dʼaquella metade do diseo que todos os satellites occultam eternamente às vistas dos habitantes dos respectivos astros principaes <ref>Effectivamente, Herschell verificou que para os satellites, uma rotação completa em torno do eixo é sempre igual em duração a uma resolução inteira em volta do planeta. Por consequencia apresentam-lhe (como a Lua á Terra) sempre a mesma face. O mundo de Urano é o unico que apresenta uma diversidade notavel: os movimentos das luas dʼeste planeta effectuam-se em direcção quasi perpendicular ao plano de orbita, e a direcção dos seus movimentos é retrograda, isto é, os seus satellites movem-se em sentido inverso do dos outros astros do mundo solar.</ref>. Mas se estes habitantes nunca deixaram os respectivos planetas, podem tambem não estar mais adiantados que os astronomos da Terra. No entretanto a bala ia descrevendo nas trevas aquella incalculavel trajectoria, que, por falta absoluta de pontos de re-<noinclude>{{smallrefs}}</noinclude> 9f3tt7pfstbelbynguelqaft45nsy0b 559648 559647 2026-08-20T14:05:39Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 559648 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|152|{{sc|á roda da lua}}|{{sc|viagens maravilhosas}}}}{{rule}}</noinclude>nicaçōes. Os quatro satellites de Jupiter gravitam ás distancias de cento e oito mil duzentas e sessenta leguas, cento e setenta e duas mil e duzentas leguas, duzentas e setenta e quatro mil e setecentas leguas e quatrocentas e oitenta mil cento e trinta leguas. Estas distancias, porém, sāo contadas do centro do planeta, e subtraindo-lhe o comprimento do raio dʼelle, que é de dezesete a dezoito mil leguas, vê-se que o primeiro satellite está a distancia menor da superficie de Jupiter do que a Lua está da Terra. De oito luas que tem Saturno, ha tambem quatro que estāo mais proximas do astro que a Lua da Terra; Diana está a oitenta e quatro mil e seiscentas leguas, Thetys a sessenta e duas mil novecentas e sessenta e seis, Encelade a quarenta e oito mil cento e noventa uma, e finalmente Mimas a uma distancia média sómente de trinta e quatro mil. O primeiro dos oito satellites de Urano, Ariél, está apenas a eincoenta e uma mil quinhentas e vinte leguas do planeta. Por consequencia, na superficie de qualquer dos tres citados astros, uma experiencia analoga á do presidente Barbicane teria apresentado menores difficuldades. E se os habitantes dʼelles tentassem a aventura, é possivel que reconhecessem a constituiçāo dʼaquella metade do diseo que todos os satellites occultam eternamente às vistas dos habitantes dos respectivos astros principaes <ref>Effectivamente, Herschell verificou que para os satellites, uma rotaçāo completa em torno do eixo é sempre igual em duraçāo a uma resoluçāo inteira em volta do planeta. Por consequencia apresentam-lhe (como a Lua á Terra) sempre a mesma face. O mundo de Urano é o unico que apresenta uma diversidade notavel: os movimentos das luas dʼeste planeta effectuam-se em direcçāo quasi perpendicular ao plano de orbita, e a direcçāo dos seus movimentos é retrograda, isto é, os seus satellites movem-se em sentido inverso do dos outros astros do mundo solar.</ref>. Mas se estes habitantes nunca deixaram os respectivos planetas, podem tambem nāo estar mais adiantados que os astronomos da Terra. No entretanto a bala ia descrevendo nas trevas aquella incalculavel trajectoria, que, por falta absoluta de pontos de re-<noinclude>{{smallrefs}}</noinclude> kthgwkl2m7hkxgsk0nku16cqoqhwb39 Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/160 106 256388 559649 2026-08-20T14:06:26Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559649 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|104}}{{lh|2em}}</noinclude>— Não é preciso, Virginia. Eu levo-a. Não peza mais que uma penna. — Coitadinha!.. Tem só a pelle sobre os ossos!.. Talvez a pobreza lhe tenha cavado a sepultura. Ah, Feliciano!.. E' tão triste ser velho e pobre!.. Se meu avô não tivesse o tratamento que tem, teria morrido ha muito. — Não conhece esta infeliz? Creio, que é uma, a quem Augusto deu esmola, antes de entrar. Eu vinha com tanta pressa... confesso a minha culpa, que não quiz deter-me a ver o que Augusto ficava dizendo á infeliz. ― Fez mal, Feliciano... A caridade... — Bem sei, que para agradar a um anjo, devia antes privar-me de vel-o, do que de fazer uma boa acção. Perdoe, Virginia. Mas não sabe, quem é esta velhinha? — Não. Nunca a vi. Mas faz-me tanta pena!.. Não sei, porque faz-me lembrar de minha avó... Porém bem se conhece que esta pobresinha ha de ser muito mais velha do que o seria minha avó, se hoje fosse viva. Morreu ha tantos annos!.. Era eu ainda bem pequena. {{nop}}<noinclude></noinclude> ceoll4ihgdv3t8oew4xm1wq8rvrrcwj Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/161 106 256389 559650 2026-08-20T14:08:53Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559650 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|105}}{{lh|2em}}</noinclude>Tinham-se approximado de casa. Felicianó com Henriqueta nos braços, e Virginia com a arma do mancebo nas mãos, que elle tinha lançado ao chão. A mocinha tinha muito medo de armas de fogo, mas esta lhe parecia inoffensiva e leve. A mulher, que ama devéras, sente doce satisfação em se apossar de alguma pertença do seu amante. — Ella o seguiu, mas adiantando-se para arredar uns ramos, via Feliciano que ella carregava com a sua arma e quiz oppor-se a que a levasse mais tempo. ― Não tenha medo, que lh'a estrague, disse ella sorrindo; eu vou já entregar-lh'a. E chamou duas criadas, a quem disse, que deitassem aquella velhinha no quarto terreo, e que procurassem chamal-a á vida. Entregou a arma ao mancebo, pedindo-lhe que fosse dizer a seu avô o que tinha succedido, e seguiu a desconhecida. Era recolhida por caridade a filha de Henrique de Moraes na casa paterna, como uma pobre mendiga. Na casa em que fôra senhora, era agora menos que o mais infimo dos criados!.. Ainda bem que a falta dos sentidos lhe tirou a sensibilidade por<noinclude></noinclude> fvjdto68c5do7b4llqgk9dmdtvzbhgb Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/162 106 256390 559652 2026-08-20T14:11:14Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559652 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|106}}{{lh|2em}}</noinclude>algum tempo, e lhe poupou de ouvir o que diziam as criadas que a deitaram. <section end=C12/> <section begin=C13/> {{Capitulo XIII}} Custou muito a fazer tornar a si Henriqueta. Passadas duas horas abriu a infeliz os olhos. Junto ao leito estava um cirurgião, Rosa, a antiga criada da casa, Virginia e o negro José, que chorava grossas lagrimas aos pés da cama. A enferma só via sua filha. Saiu o cirurgião depois de ter dito o que se havia de dar á doente, que elle achava em extremo abatida. Virginia perguntou a esta com muita doçura, se queria que lhe deixasse Rosa, ou se desejava ficar só com o seu criado, que a tinha vindo procurar, não a vendo chegar á estalagem. ― Oh, meu Deus! pensou a infeliz, minha filha vai deixar-me! A menina repetiu a pergunta. ― Deixa-me?!.. articulou a pobre mãe. Não tornarei a vel-a? ― Virei depois ver como está, {{hífen|redar|redarguiu}}<noinclude></noinclude> r0y6s9ez6rvlbgb34leii6z6r69y05t 559653 559652 2026-08-20T14:13:10Z BlitzkriegBoop 37692 559653 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|106}}{{lh|2em}}</noinclude>algum tempo, e lhe poupou de ouvir o que diziam as criadas que a deitaram. <section end=C12/> <section begin=C13/> {{Ch|Capitulo XIII}} Custou muito a fazer tornar a si Henriqueta. Passadas duas horas abriu a infeliz os olhos. Junto ao leito estava um cirurgião, Rosa, a antiga criada da casa, Virginia e o negro José, que chorava grossas lagrimas aos pés da cama. A enferma só via sua filha. Saiu o cirurgião depois de ter dito o que se havia de dar á doente, que elle achava em extremo abatida. Virginia perguntou a esta com muita doçura, se queria que lhe deixasse Rosa, ou se desejava ficar só com o seu criado, que a tinha vindo procurar, não a vendo chegar á estalagem. ― Oh, meu Deus! pensou a infeliz, minha filha vai deixar-me! A menina repetiu a pergunta. ― Deixa-me?!.. articulou a pobre mãe. Não tornarei a vel-a? ― Virei depois ver como está, {{hífen|redar|redarguiu}}<noinclude></noinclude> g7zghork7dey4ve5x7itywnzul3e549 Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/A Princesa da Áustria 0 256391 559654 2026-08-20T14:13:28Z Mt516 43586 [[Ajuda:SEA|←]] nova página: {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = A Princesa da Áustria | anterior = [[../O Príncipe Bezerro/]] | posterior = [[..//História do Príncipe Luís]] | notas = }} '''<big>A PRINCESA DA ÁUSTRIA</big>''' HAVIA em tempos que já lá vão, no grande Reino da Áustria, um Rei e uma Rainha que tinham muita pena de não terem filho ou filha, que lhes herdasse honras fortuna. Pass... 559654 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = A Princesa da Áustria | anterior = [[../O Príncipe Bezerro/]] | posterior = [[..//História do Príncipe Luís]] | notas = }} '''<big>A PRINCESA DA ÁUSTRIA</big>''' HAVIA em tempos que já lá vão, no grande Reino da Áustria, um Rei e uma Rainha que tinham muita pena de não terem filho ou filha, que lhes herdasse honras fortuna. Passavam os dias tristemente no meio dos seus tesouros, pois é das coisas do Mundo, a riqueza, o que nos traz menos felicidade. Quantas vezes a Rainha não chorava de mágoa, vendo o seu palácio tão cheio de preciosidades e tão vazio de alegria, ao passo que em muitas casas modestas dos seus súbditos havia risos e contentamento?! Lamentava-se a triste Rainha e lamentava-se o bom Rei da miséria do seu esplêndido viver. Médicos de todo o Mundo eram chamados, promessas a todos os santos eram feitas com fervor; mas nada perecia remediar tão grande mal. Um dia, em que a Rainha foi passear para distrair suas penas, encontrou uma igreja aberta e lembrou-se de ir, mais uma vez, implorar o milagre. Mandou parar a carruagem, pôs o pé no banquinho que um pagem lhe apresentou de joelhos, e, seguida a distância pelas damas da sua comitiva, entrou no sombrio templo. Por acaso dirigiu-se ao altar de S. Miguel e, reparando nele e na figura do Diabo que o acompanha, exclamou, cheia de desespero: — Ó Anjo! Por vós ou por quem tendes aos pés, dai-nos um filho ou filha a quem deixemos as nossas riquezas e Reino! Passados dias, participou ao Rei que podia anunciar à corte que iam ter um herdeiro. Foi a notícia recebida com grandes festas e regozijo de todo o povo. Chegado que foi o grande dia apareceu uma menina muito linda, tudo quanto de mais formoso há sobre a Terra. A Princesinha logo que nasceu começou a falar, coisa que muito, e justamente, admirou a todos. Voltou-se para as aias e disse: — Dai-me pão e carne, que eu tenho muita fome! O Rei, a Rainha e a corte não vinham a si do espanto que lhes causava um caso tão fora do natural. Cresceu a menina cada vez mais bela, mas também comendo cada vez maior quantidade de pão e carne. Era coisa tanto mais extraordinária quanto era certo que a nobre Princesa nada tinha de disforme. Bonita e elegante como era, muito admirava que pudesse comer tanto. E depois ainda tinha outra excentricidade, que a todos confundia — era certo romper todas as noites sete pares de sapatos de ferro. Como os rompia, ninguém podia adivinhar. De dia andava, tal qual as outras damas, com sapatinhos leves e finas meias de seda. Passeava pelas sumptuosas salas e galerias do seu palácio; descia, quando muito, aos admiráveis jardins que o rodeavam e quando saía a passeio era sempre em carruagens douradas, puxadas por cavalos brancos da mais fina raça. Onde poderia então gastar os sapatos de ferro a nobre herdeira do trono?! Afirmavam as aias que a Princesa todas as noites ficava dormindo, quando elas a deixavam na sua câmara e lhe corriam cautelosamente as cortinas de renda. Dormisse ou não dormisse, o caso era quê os sapatos, que à noite colocavam novos junto do leito, apareciam de manhã despedaçados. Cismavam os reis e cismava toda a corte e nenhum meio achavam para resolver o caso. Quando a Princesa da Áustria chegou à idade de procurar noivo fez o Rei um decreto dizendo: — «A Princesa, minha filha, herdeira única de todas as riquezas e honras que me pertencem, casará com o homem que no espaço de três noites descobrir onde ela gasta sete pares de sapatos de ferro. Seja Príncipe ou Cavaleiro, nobre ou plebeu, por minha coroa eu juro que será o seu esposo. Mas, igualmente jurado fica, que irá a enforcar se não poder descobrir nada durante as três noites em que ordeno seja feita a experiência». Como a Princesa era formosíssima e o reino era de tentar, apresentaram-se príncipes de todos os países, fidalgos, cavaleiros andantes, simples pagens e até homens do povo, gente enfim de todas as classes, porque é da condição humana todos desejarem ser grandes. Vinham, cada um por sua vez, passar as três noites no quarto da Princesa e, no fim, nada podiam dizer, porque nada tinham visto, pois o sono os atacava de tal modo que não lhe resistiam. Iam então a enforcar com grande mágoa de toda a gente e até mesmo do próprio Rei, que não podia revogar a sentença. Crescia o luto e o espanto por toda a parte porque assim iam perecendo miseràvelmente, em busca dum vão desejo de glória, todos os moços daquele tempo. Por fim já ninguém se arriscava a fazer a experiência e cada vez mais desanimado se mostrava o velho Rei, empenhado como estava no esclarecimento do estranho caso. Contava-se isto pelas cidades e pelos campos, em toda a parte se falava da Princesa e dos infelizes namorados que tinham ido a enforcar. Depois de sabido e ressabido por todos e de não haver já quem se apresentasse para casar com a menina, chegou a história aos ouvidos dum pastorzinho chamado José Pequeno, que vivia com seus pais numa choça nó meio de serras bravas. Ouviu contar o facto a um viandante que por acaso ali se perdeu e disse para os pais que ia ele saber onde a Princesa gastava os sete pares de sapatos de ferro. Os pais bem choraram e pediram que não fosse, mas o rapaz era teimoso. Pegou no ''surrão'', deitou-o às costas e partiu para a cidade em demanda do palácio real. Chegou à porta e disse à sentinela que queria falar ao Rei, por que estava resolvido a procurar saber como a Princesa gastava os sapatos de ferro. A sentinela teve dó dele e disse-lhe que se fosse embora, que não quisesse arriscar a sua vida, porque era certo ir a morrer. — Não importa — disse o José Pequeno — assim como assim, rapazes como eu há muitos e então se eu morrer não se perde grande coisa e, se eu viver, acaba-se com este horror. Não houve remédio se não levarem-no à presença do Rei. Este recebeu-o muito bem e disse-lhe que sim, que fizesse o que pudesse, mas que era certo ser enforcado se não descobrisse o mistério. À noite ficou no quarto da Princesa, mas, logo que deitou a cabeça no travesseiro, adormeceu tão profundamente que não pôde saber nada. De manhã perguntou-lhe o Rei: — Então que tal, José Pequeno? — Assim como adormeci assim acordei, Real Senhor! — Bem! Ainda te faltam duas noites. Chegou a hora de se irem deitar e o José Pequeno fez tudo quanto pôde para se conservar acordado, mas o sono veio com tal força que não resistiu e ficou a dormir. E esse sono foi tão pegado que nada viu nem ouviu até que de manhã o vieram chamar. Perguntou-lhe o Rei logo que ele se apresentou: — Então José Pequeno, o que sabes? — Nada, Senhor! Assim como adormeci assim acordei. — Já não tens senão uma noite! Estava o rapaz muito triste e já resignado a morrer. Saíu do palácio e foi pelos campos despedir-se do Sol, das árvores e dos passarinhos alegres. Sentou-se junto duma fonte a pensar na sua desgraça, que era a desgraça de todos, quando viu diante de si um cavaleiro de tal formosura e brilhantismo que outro igual jamais olhos humanos tinham podido contemplar. Caiu de joelhos, fascinado pelo esplendor da estranha aparição, e ouviu uma voz suavíssima que lhe disse: — Não desanimes, José Pequeno! És o primeiro que não vem por ambição mas por dever. Volta descansado ao palácio, que eu serei contigo. Eu sou o Arcanjo Miguel, que uma vez mais vai lutar com o inimigo da pureza e da bondade. Tem coragem e fé. Foi o rapaz para o palácio e deitou-se como nas noites anteriores. Fingiu-se logo adormecido, mas não estava, que o Anjo velava por ele. Levantou-se a Princesa, quando o julgou bem pegado no sono, e para o experimentar beliscou-o, picou-o, fez-lhe mil judiarias, e o rapaz, calado, a tudo resistiu. Convencida de que ele estava a dormir foi à janela e abriu-a; logo apareceu uma fantástica carruagem puxada por um cavalo-diabo, para a qual a Princesa subiu toda satisfeita. O José Pequeno, mal que a viu voltar costas, ergueu-se subtilmente, deitou o ''surrão'' para os ombros e subiu para a trazeira do carro. Voava a equipagem por cima de toda a folha, galgava precipícios, atravessava rios, pairava por sobre as mais altas montanhas, como leve pluma de ave levada pelo vento. Assim foram até chegar ao mar. Aí afogar-se-ia o José Pequeno — porque a trazeira do carro mergulhava e cortava as águas como a quilha dum vapor — se o bom Anjo lhe não tivesse dado um lenço maravilhoso que ele estendeu sobre o mar e no qual se colocou navegando por sobre as ondas como se fosse num barco. Depois agarrou-se outra vez ao carro e lá foram seguindo até chegarem à porta do Jardim de Cobre. Bateu a Princesa e perguntaram de dentro: — Quem vem lá? — É a Princesa da Áustria. — Passe a Princesa da Áustria mais a sua companhia. A Princesa não sabia que levava companhia e ficou admirada de lhe dizerem isto. Atravessaram o Jardim de Cobre, que era tudo quanto se pode imaginar de mais extraordinário! Árvores, flores, ramos, folhas, tudo era feito de cobre. O José Pequeno cortou um galhito duma árvore e meteu-o para o ''surrão''. Continuaram a andar e mais adiante bateram à porta do Jardim de Prata. — Quem vem lá? — disseram de dentro. — É a Princesa da Áustria. — Passe a Princesa da Áustria mais a sua companhia. — Ora esta — dizia a Princesa consigo — todas as noites aqui passo e nunca me falaram na companhia senão hoje. O que será isto?... Se admirado ficara o José Pequeno com o Jardim de Cobre, com o de Prata, então, nem sabia que pensar! Como passavam debaixo duma árvore cortou uma esgalhinha e meteu-a para o ''surrão''. Continuaram a jornada até chegarem à porta do Jardim de Ouro, à qual a Princesa bateu. — Quem vem lá ? — É a Princesa da Áustria. — Passe a Princesa da Áustria mais a sua companhia. O Jardim de Ouro era prodigioso! Desde o maior e mais frondoso cedro à mais humilde ervazinha, todas as plantas ali estavam representadas por um exemplar feito do mais fino ouro. A folhagem tremia ao menor sopro, qual as folhas verdes das árvores verdadeiras. A Princesa já estava habituada a ver estas maravilhas e por isso não lhes dava atenção. O carro não afrouxava a carreira e o José Pequeno tinha que se contentar com o pouco que via. De passagem pôde ainda cortar um ramo de ouro que meteu no ''surrão''. Assim foram correndo até chegarem ao inferno. Mal o carro chegou à porta, abriu-se esta de par em par, mostrando as mais negras trevas. Entraram e enquanto arrumavam o carro o José Pequeno escondeu-se atrás da porta. Vinham os ''facanitos'', ajoujados com os pratos e manjares para a ceia, e o José Pequeno empurrava-os, quebrava tudo e dava-lhes muitos sopapos, na escuridão. Eles iam a gritar para dentro: — Hi! Sempre hoje trouxeram um vento lá da Terra que dá cabo da gente! Depois da ceia veio o ''Diabo Maior'', para dançar com a Princesa. O José Pequeno deu-lhe um soco na cara. — Irra, que o vento está bravo! — dizia o Diabo esfregando a cara dorida. Começou então a bailar com a Princesa e de cada volta que davam atirava com um par dos sapatos de ferro, já rotos, para debaixo dum banco; ia o José Pequeno por trás e metia-os no ''surrão''. Quando se apanhou com os sete pares de sapatos em seu poder, pegou no banco e deu com ele nas costas do Diabo que começou a gritar para a Princesa: — Vai-te embora, vai-te embora, que hoje ninguém te pode aturar. Tornou a Princesa a meter-se no carro e o José Pequeno a esconder-se na trazeira, acontecendo na volta as mesmas coisas que na ida tinham acontecido. Quando José Pequeno se viu perto do palácio, saltou do carro e pôs-se a correr com quanta força tinha, de maneira que já estava na cama, a fingir que dormia, quando a Princesa chegou. Desconfiada, começou de o picar e beliscar, dizendo: — Dar-se-á o caso que tu me tenhas enganado?!... Mas o rapaz, nem ''chus'' nem ''bus'', tudo padeceu sem se mexer. De manhã mandou o Rei chamá-lo à sua presença e perguntou: — Então o que sabes? — Assim como me deitei, assim acordei, Senhor. — Bom, vais a enforcar. — Irei. Mas na praça mais pública e com bastante gente a assistir, é o meu último desejo. O Rei fez-lhe a vontade. Mandou armar a forca na praça mais concorrida e mandou anunciar o caso por todo o Reino. Junto da forca estavam a chorar os dois velhos, pai e mãe de José Pequeno, e a todos fazia pena a aflição dos pobres. Quando ele apareceu com o ''surrão'' às costas começou o povo a agitar-se e com mais desejo de enforcar a Princesa, causadora de tantas desgraças, do que deixar matar mais um inocente. O borborinho era muito e só se acalmou quando o José Pequeno subiu os degraus da forca e fez sinal de querer falar. Assistiam os reis, a Princesa e toda a corte numa tribuna especialmente feita. Voltou-se para lá o José Pequeno e, fazendo uma vénia, tirou do ''surrão'' o primeiro par de sapatos rotos. Mal isto viu, gritou a Princesa: — Não fales, não fales, que já me ganhaste! — Se sabes onde são gastos os sapatos, podes descer e casar já com ela — disse o Rei. — Senhor, não caso. Que ela tem contas com o Demónio. Tudo quero contar a este bom povo. Começou ele então a contar o que vira e para prova mostrou os sete pares de sapatos e os raminhos de cobre, de prata e de ouro. Quando acabou, o povo todo encheu-o de aclamações e festas e levararam-no em triunfo pela cidade, dizendo que só ele salvara o Reino de vir a ser da Princesa endemoninhada. A Princesa então disse aos pais que ia morrer. Que lhe haviam de jurar mandá-la enterrar na igreja de São Miguel e que todas as noites iria para lá uma sentinela. Os pais juraram e ela morreu. Fizeram-lhe grandes pompas no enterro mas só os pais a choraram. Desde o dia em que a Princesa foi enterrada, uma sentinela ficava à porta da igreja, mas de manhã quando iam para a render apenas lá encontravam os ossos! A gente que vivia perto dali dizia que à meia noite se ouvia um barulho infernal, as portas e janelas abriam-se e fechavam-se como se um furacão as empurrasse. Depois uma voz gritava: — Sentinela alerta! — Alerta está — respondia o pobre soldado. E logo ouviam o ruído de alguém que estivesse a comer. O terror chegou a tal ponto que não havia soldado que quisesse ir fazer guarda, senão levado à força. O povo começou a gritar e já ameaçavam de morte o Rei e a Rainha se aquilo continuasse. Deitavam-se as sortes todas as noites e a quem calhasse, fosse ele quem fosse, não tinha remédio senão ir! Assim, pois, caiu a sorte ao José Pequeno, que já então era um conde, o maior da corte. Tiveram todos um grande desgosto; o rapaz foi despedir-se dos pais, com grande mágoa, e à noite dirigiu-se para a igreja. A meio do caminho encontrou uma velhinha, que lhe disse: — Que triste vais, José Pequeno! — Pois não terei eu razão?! Vou hoje ficar de sentinela à Princesa. Portanto, morrer como os outros. Até já me lembrou de fugir! — Ah, isso é que não! Um homem nunca foge ao seu dever. Vai para a igreja e, ao dar a primeira badalada da meia noite, põe-te por detrás do altar-mor e, ouças o que ouvires, não saias de lá senão de manhã. Em vista deste conselho, foi. Quando o sino deu a primeira badalada das doze horas, aquilo não foi correr, foi voar! Num instante se meteu atrás do altar-mor. Mal a última hora tinha soado levantou-se um vento terrível na igreja, as portas bateram violentamente, as lâmpadas apagaram-se, parecia que tudo se fazia em fanicos. O José Pequeno, encolhido atrás do altar, ia sempre olhando. O que há-de ele ver no meio da igreja?! Uma nuvem branca que subia para o tecto e uma voz gritar: — Sentinela alerta!... Sentinela alerta!... Como o José Pequeno não respondeu, a voz, que metia horror, disse: — Ah, maldição, que faltaram ao juramento! O rapaz deitou a cabeça de fora e respondeu: — Não faltaram, não, que eu aqui estou! Depois sentiu correr na igreja, ouviu uivos e gritos; mas não iam onde ele estava, protegido pelo altar. Quando de manhã vieram render a guarda, esperando só encontrar os ossos da sentinela, apareceu José Pequeno todo satisfeito, causando a admiração de toda a gente. Nesse dia tornou a cair-lhe a sorte para ir fazer a guarda à Princesa. Ficou desconsoladíssimo! Quando se dirigia para a igreja de novo encontrou a velhinha: — Então, José Pequeno, vais hoje tão triste! Parece que ainda estás mais desanimado do que ontem! — Desanimado vou, senhora. O caso não é para menos! Se visse a Princesa a bater os dentes com fúria, para me comer! Até me lembrei de fugir. — Não fujas. Vai ao teu destino, que não é bom fugir-lhe. Olha, esta noite esconde-te por detrás do painel das almas e tem coragem! José Pequeno foi e, ao dar a primeira badalada da meia noite, correu a esconder-se onde a velha tinha dito. Quando as doze horas cairam, o barulho foi tal que tudo parecia vir abaixo; depois a mesma voz gritou: — Sentinela alerta!... Sentinela alerta!... Ah, maldição, que faltaram ao prometido! Respondeu José Pequeno: — Não faltaram, não, que eu aqui estou! Mas a Princesa por mais que fizesse não lhe podia tocar, porque estava protegido por maior poder. E no fim de muito gritar e barafustar, começou a subir numa nuvem branca e desapareceu. De manhã todos ficaram admirados vendo o José Pequeno cheio de vida, como na véspera o tinham deixado. Levaram-no em triunfo por toda a parte, fizeram-lhe grandes festas e os reis abraçaram-no cheios de alegria. Tornaram a deitar sortes para ver quem ficaria de sentinela à Princesa e a sorte de novo caiu no rapaz. À noite, lá foi ele muito desesperado para a igreja e, no meio do caminho, encontrou a mesma velhinha. — Então, José Pequeno, tornas a ir para a igreja? — Que remédio tenho eu! Hoje é que lá fico com certeza! — Não ficarás se fizeres o que eu te disser. — Então o que é? A senhora é que me tem valido, mas hoje não sei como será! — Hás-de sair-te bem, não desanimes. Olha, vai buscar um jarro com água e uma toalha e esconde-te no altar de Nossa Senhora. Ainda que chamem por ti não apareças; mas, quando te pedirem água, estende o braço e deita a do jarro e, quando pedirem uma toalha, atira a que levares. Depois podes aparecer e farás o que quiseres. O rapaz voltou ao palácio, para levar o que a velhinha tinha dito, e depois dirigiu-se à igreja. Ao dar da meia noite foi-se pôr no sitio indicado e ouviu tal barulho que ia ficando doido de susto. Depois a voz gritou: — Sentinela alerta!... Sentinela alerta!... Ah, maldição, que faltaram ao juramento! Depois de muito gritar e chorar, disse a Princesa: — Ai que sede que eu tenho! Quando o José ouviu isto, deitou o braço de fora e entornou a água do jarro. Ouviu em baixo uma pessoa a beber e depois a lavar-se. — Agora só queria uma toalha! O rapaz atirou a toalha e ouviu que tremiam de frio; olhou para baixo e viu a Princesa mais bonita do que nunca e viva como a tinha conhecido. Desceu então do esconderijo, embrulhou-a no seu próprio capote e foi sentar-se com ela nos degraus do altar-mor. Ali ficaram à espera que amanhecesse e ela daí a pouco adormeceu. Quando de manhã vieram saber do José Pequeno e o encontraram na companhia da Princesa, viva e formosa como era, foi um alarido por toda acidade! Correram a chamar os reis — que não podiam crer em tanta felicidade! Soube-se então que a Princesa da Áustria, nascida por parte do Diabo, nunca estivera morta e sim encantada e só por encanto ela podia fazer tanta maldade. Vencido o inimigo, ficou a menina livre e feliz. O José Pequeno casou com ela. Foram reis daquele grande país e sempre muito bons e amados pelo povo. o7rrevx6n5szgm2lxcag14351wv4iqb 559692 559654 2026-08-20T15:28:30Z Mt516 43586 559692 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = A Princesa da Áustria | anterior = [[../O Príncipe Bezerro/]] | posterior = [[..//História do Príncipe Luís]] | notas = }} '''<big>A PRINCESA DA ÁUSTRIA</big>''' HAVIA em tempos que já lá vão, no grande Reino da Áustria, um Rei e uma Rainha que tinham muita pena de não terem filho ou filha, que lhes herdasse honras fortuna. Passavam os dias tristemente no meio dos seus tesouros, pois é das coisas do Mundo, a riqueza, o que nos traz menos felicidade. Quantas vezes a Rainha não chorava de mágoa, vendo o seu palácio tão cheio de preciosidades e tão vazio de alegria, ao passo que em muitas casas modestas dos seus súbditos havia risos e contentamento?! Lamentava-se a triste Rainha e lamentava-se o bom Rei da miséria do seu esplêndido viver. Médicos de todo o Mundo eram chamados, promessas a todos os santos eram feitas com fervor; mas nada perecia remediar tão grande mal. Um dia, em que a Rainha foi passear para distrair suas penas, encontrou uma igreja aberta e lembrou-se de ir, mais uma vez, implorar o milagre. Mandou parar a carruagem, pôs o pé no banquinho que um pagem lhe apresentou de joelhos, e, seguida a distância pelas damas da sua comitiva, entrou no sombrio templo. Por acaso dirigiu-se ao altar de S. Miguel e, reparando nele e na figura do Diabo que o acompanha, exclamou, cheia de desespero: — Ó Anjo! Por vós ou por quem tendes aos pés, dai-nos um filho ou filha a quem deixemos as nossas riquezas e Reino! Passados dias, participou ao Rei que podia anunciar à corte que iam ter um herdeiro. Foi a notícia recebida com grandes festas e regozijo de todo o povo. Chegado que foi o grande dia apareceu uma menina muito linda, tudo quanto de mais formoso há sobre a Terra. A Princesinha logo que nasceu começou a falar, coisa que muito, e justamente, admirou a todos. Voltou-se para as aias e disse: — Dai-me pão e carne, que eu tenho muita fome! O Rei, a Rainha e a corte não vinham a si do espanto que lhes causava um caso tão fora do natural. Cresceu a menina cada vez mais bela, mas também comendo cada vez maior quantidade de pão e carne. Era coisa tanto mais extraordinária quanto era certo que a nobre Princesa nada tinha de disforme. Bonita e elegante como era, muito admirava que pudesse comer tanto. E depois ainda tinha outra excentricidade, que a todos confundia — era certo romper todas as noites sete pares de sapatos de ferro. Como os rompia, ninguém podia adivinhar. De dia andava, tal qual as outras damas, com sapatinhos leves e finas meias de seda. Passeava pelas sumptuosas salas e galerias do seu palácio; descia, quando muito, aos admiráveis jardins que o rodeavam e quando saía a passeio era sempre em carruagens douradas, puxadas por cavalos brancos da mais fina raça. Onde poderia então gastar os sapatos de ferro a nobre herdeira do trono?! Afirmavam as aias que a Princesa todas as noites ficava dormindo, quando elas a deixavam na sua câmara e lhe corriam cautelosamente as cortinas de renda. Dormisse ou não dormisse, o caso era quê os sapatos, que à noite colocavam novos junto do leito, apareciam de manhã despedaçados. Cismavam os reis e cismava toda a corte e nenhum meio achavam para resolver o caso. Quando a Princesa da Áustria chegou à idade de procurar noivo fez o Rei um decreto dizendo: — «A Princesa, minha filha, herdeira única de todas as riquezas e honras que me pertencem, casará com o homem que no espaço de três noites descobrir onde ela gasta sete pares de sapatos de ferro. Seja Príncipe ou Cavaleiro, nobre ou plebeu, por minha coroa eu juro que será o seu esposo. Mas, igualmente jurado fica, que irá a enforcar se não poder descobrir nada durante as três noites em que ordeno seja feita a experiência». Como a Princesa era formosíssima e o reino era de tentar, apresentaram-se príncipes de todos os países, fidalgos, cavaleiros andantes, simples pagens e até homens do povo, gente enfim de todas as classes, porque é da condição humana todos desejarem ser grandes. Vinham, cada um por sua vez, passar as três noites no quarto da Princesa e, no fim, nada podiam dizer, porque nada tinham visto, pois o sono os atacava de tal modo que não lhe resistiam. Iam então a enforcar com grande mágoa de toda a gente e até mesmo do próprio Rei, que não podia revogar a sentença. Crescia o luto e o espanto por toda a parte porque assim iam perecendo miseràvelmente, em busca dum vão desejo de glória, todos os moços daquele tempo. Por fim já ninguém se arriscava a fazer a experiência e cada vez mais desanimado se mostrava o velho Rei, empenhado como estava no esclarecimento do estranho caso. Contava-se isto pelas cidades e pelos campos, em toda a parte se falava da Princesa e dos infelizes namorados que tinham ido a enforcar. Depois de sabido e ressabido por todos e de não haver já quem se apresentasse para casar com a menina, chegou a história aos ouvidos dum pastorzinho chamado José Pequeno, que vivia com seus pais numa choça nó meio de serras bravas. Ouviu contar o facto a um viandante que por acaso ali se perdeu e disse para os pais que ia ele saber onde a Princesa gastava os sete pares de sapatos de ferro. Os pais bem choraram e pediram que não fosse, mas o rapaz era teimoso. Pegou no ''surrão'', deitou-o às costas e partiu para a cidade em demanda do palácio real. Chegou à porta e disse à sentinela que queria falar ao Rei, por que estava resolvido a procurar saber como a Princesa gastava os sapatos de ferro. A sentinela teve dó dele e disse-lhe que se fosse embora, que não quisesse arriscar a sua vida, porque era certo ir a morrer. — Não importa — disse o José Pequeno — assim como assim, rapazes como eu há muitos e então se eu morrer não se perde grande coisa e, se eu viver, acaba-se com este horror. Não houve remédio se não levarem-no à presença do Rei. Este recebeu-o muito bem e disse-lhe que sim, que fizesse o que pudesse, mas que era certo ser enforcado se não descobrisse o mistério. À noite ficou no quarto da Princesa, mas, logo que deitou a cabeça no travesseiro, adormeceu tão profundamente que não pôde saber nada. De manhã perguntou-lhe o Rei: — Então que tal, José Pequeno? — Assim como adormeci assim acordei, Real Senhor! — Bem! Ainda te faltam duas noites. Chegou a hora de se irem deitar e o José Pequeno fez tudo quanto pôde para se conservar acordado, mas o sono veio com tal força que não resistiu e ficou a dormir. E esse sono foi tão pegado que nada viu nem ouviu até que de manhã o vieram chamar. Perguntou-lhe o Rei logo que ele se apresentou: — Então José Pequeno, o que sabes? — Nada, Senhor! Assim como adormeci assim acordei. — Já não tens senão uma noite! Estava o rapaz muito triste e já resignado a morrer. Saíu do palácio e foi pelos campos despedir-se do Sol, das árvores e dos passarinhos alegres. Sentou-se junto duma fonte a pensar na sua desgraça, que era a desgraça de todos, quando viu diante de si um cavaleiro de tal formosura e brilhantismo que outro igual jamais olhos humanos tinham podido contemplar. Caiu de joelhos, fascinado pelo esplendor da estranha aparição, e ouviu uma voz suavíssima que lhe disse: — Não desanimes, José Pequeno! És o primeiro que não vem por ambição mas por dever. Volta descansado ao palácio, que eu serei contigo. Eu sou o Arcanjo Miguel, que uma vez mais vai lutar com o inimigo da pureza e da bondade. Tem coragem e fé. Foi o rapaz para o palácio e deitou-se como nas noites anteriores. Fingiu-se logo adormecido, mas não estava, que o Anjo velava por ele. Levantou-se a Princesa, quando o julgou bem pegado no sono, e para o experimentar beliscou-o, picou-o, fez-lhe mil judiarias, e o rapaz, calado, a tudo resistiu. Convencida de que ele estava a dormir foi à janela e abriu-a; logo apareceu uma fantástica carruagem puxada por um cavalo-diabo, para a qual a Princesa subiu toda satisfeita. O José Pequeno, mal que a viu voltar costas, ergueu-se subtilmente, deitou o ''surrão'' para os ombros e subiu para a trazeira do carro. Voava a equipagem por cima de toda a folha, galgava precipícios, atravessava rios, pairava por sobre as mais altas montanhas, como leve pluma de ave levada pelo vento. Assim foram até chegar ao mar. Aí afogar-se-ia o José Pequeno — porque a trazeira do carro mergulhava e cortava as águas como a quilha dum vapor — se o bom Anjo lhe não tivesse dado um lenço maravilhoso que ele estendeu sobre o mar e no qual se colocou navegando por sobre as ondas como se fosse num barco. Depois agarrou-se outra vez ao carro e lá foram seguindo até chegarem à porta do Jardim de Cobre. Bateu a Princesa e perguntaram de dentro: — Quem vem lá? — É a Princesa da Áustria. — Passe a Princesa da Áustria mais a sua companhia. A Princesa não sabia que levava companhia e ficou admirada de lhe dizerem isto. Atravessaram o Jardim de Cobre, que era tudo quanto se pode imaginar de mais extraordinário! Árvores, flores, ramos, folhas, tudo era feito de cobre. O José Pequeno cortou um galhito duma árvore e meteu-o para o ''surrão''. Continuaram a andar e mais adiante bateram à porta do Jardim de Prata. — Quem vem lá? — disseram de dentro. — É a Princesa da Áustria. — Passe a Princesa da Áustria mais a sua companhia. — Ora esta — dizia a Princesa consigo — todas as noites aqui passo e nunca me falaram na companhia senão hoje. O que será isto?... Se admirado ficara o José Pequeno com o Jardim de Cobre, com o de Prata, então, nem sabia que pensar! Como passavam debaixo duma árvore cortou uma esgalhinha e meteu-a para o ''surrão''. Continuaram a jornada até chegarem à porta do Jardim de Ouro, à qual a Princesa bateu. — Quem vem lá ? — É a Princesa da Áustria. — Passe a Princesa da Áustria mais a sua companhia. O Jardim de Ouro era prodigioso! Desde o maior e mais frondoso cedro à mais humilde ervazinha, todas as plantas ali estavam representadas por um exemplar feito do mais fino ouro. A folhagem tremia ao menor sopro, qual as folhas verdes das árvores verdadeiras. A Princesa já estava habituada a ver estas maravilhas e por isso não lhes dava atenção. O carro não afrouxava a carreira e o José Pequeno tinha que se contentar com o pouco que via. De passagem pôde ainda cortar um ramo de ouro que meteu no ''surrão''. Assim foram correndo até chegarem ao inferno. Mal o carro chegou à porta, abriu-se esta de par em par, mostrando as mais negras trevas. Entraram e enquanto arrumavam o carro o José Pequeno escondeu-se atrás da porta. Vinham os ''facanitos'', ajoujados com os pratos e manjares para a ceia, e o José Pequeno empurrava-os, quebrava tudo e dava-lhes muitos sopapos, na escuridão. Eles iam a gritar para dentro: — Hi! Sempre hoje trouxeram um vento lá da Terra que dá cabo da gente! Depois da ceia veio o ''Diabo Maior'', para dançar com a Princesa. O José Pequeno deu-lhe um soco na cara. — Irra, que o vento está bravo! — dizia o Diabo esfregando a cara dorida. Começou então a bailar com a Princesa e de cada volta que davam atirava com um par dos sapatos de ferro, já rotos, para debaixo dum banco; ia o José Pequeno por trás e metia-os no ''surrão''. Quando se apanhou com os sete pares de sapatos em seu poder, pegou no banco e deu com ele nas costas do Diabo que começou a gritar para a Princesa: — Vai-te embora, vai-te embora, que hoje ninguém te pode aturar. Tornou a Princesa a meter-se no carro e o José Pequeno a esconder-se na trazeira, acontecendo na volta as mesmas coisas que na ida tinham acontecido. Quando José Pequeno se viu perto do palácio, saltou do carro e pôs-se a correr com quanta força tinha, de maneira que já estava na cama, a fingir que dormia, quando a Princesa chegou. Desconfiada, começou de o picar e beliscar, dizendo: — Dar-se-á o caso que tu me tenhas enganado?!... Mas o rapaz, nem ''chus'' nem ''bus'', tudo padeceu sem se mexer. De manhã mandou o Rei chamá-lo à sua presença e perguntou: — Então o que sabes? — Assim como me deitei, assim acordei, Senhor. — Bom, vais a enforcar. — Irei. Mas na praça mais pública e com bastante gente a assistir, é o meu último desejo. O Rei fez-lhe a vontade. Mandou armar a forca na praça mais concorrida e mandou anunciar o caso por todo o Reino. Junto da forca estavam a chorar os dois velhos, pai e mãe de José Pequeno, e a todos fazia pena a aflição dos pobres. Quando ele apareceu com o ''surrão'' às costas começou o povo a agitar-se e com mais desejo de enforcar a Princesa, causadora de tantas desgraças, do que deixar matar mais um inocente. O borborinho era muito e só se acalmou quando o José Pequeno subiu os degraus da forca e fez sinal de querer falar. Assistiam os reis, a Princesa e toda a corte numa tribuna especialmente feita. Voltou-se para lá o José Pequeno e, fazendo uma vénia, tirou do ''surrão'' o primeiro par de sapatos rotos. Mal isto viu, gritou a Princesa: — Não fales, não fales, que já me ganhaste! — Se sabes onde são gastos os sapatos, podes descer e casar já com ela — disse o Rei. — Senhor, não caso. Que ela tem contas com o Demónio. Tudo quero contar a este bom povo. Começou ele então a contar o que vira e para prova mostrou os sete pares de sapatos e os raminhos de cobre, de prata e de ouro. Quando acabou, o povo todo encheu-o de aclamações e festas e levararam-no em triunfo pela cidade, dizendo que só ele salvara o Reino de vir a ser da Princesa endemoninhada. A Princesa então disse aos pais que ia morrer. Que lhe haviam de jurar mandá-la enterrar na igreja de São Miguel e que todas as noites iria para lá uma sentinela. Os pais juraram e ela morreu. Fizeram-lhe grandes pompas no enterro mas só os pais a choraram. Desde o dia em que a Princesa foi enterrada, uma sentinela ficava à porta da igreja, mas de manhã quando iam para a render apenas lá encontravam os ossos! A gente que vivia perto dali dizia que à meia noite se ouvia um barulho infernal, as portas e janelas abriam-se e fechavam-se como se um furacão as empurrasse. Depois uma voz gritava: — Sentinela alerta! — Alerta está — respondia o pobre soldado. E logo ouviam o ruído de alguém que estivesse a comer. O terror chegou a tal ponto que não havia soldado que quisesse ir fazer guarda, senão levado à força. O povo começou a gritar e já ameaçavam de morte o Rei e a Rainha se aquilo continuasse. Deitavam-se as sortes todas as noites e a quem calhasse, fosse ele quem fosse, não tinha remédio senão ir! Assim, pois, caiu a sorte ao José Pequeno, que já então era um conde, o maior da corte. Tiveram todos um grande desgosto; o rapaz foi despedir-se dos pais, com grande mágoa, e à noite dirigiu-se para a igreja. A meio do caminho encontrou uma velhinha, que lhe disse: — Que triste vais, José Pequeno! — Pois não terei eu razão?! Vou hoje ficar de sentinela à Princesa. Portanto, morrer como os outros. Até já me lembrou de fugir! — Ah, isso é que não! Um homem nunca foge ao seu dever. Vai para a igreja e, ao dar a primeira badalada da meia noite, põe-te por detrás do altar-mor e, ouças o que ouvires, não saias de lá senão de manhã. Em vista deste conselho, foi. Quando o sino deu a primeira badalada das doze horas, aquilo não foi correr, foi voar! Num instante se meteu atrás do altar-mor. Mal a última hora tinha soado levantou-se um vento terrível na igreja, as portas bateram violentamente, as lâmpadas apagaram-se, parecia que tudo se fazia em fanicos. O José Pequeno, encolhido atrás do altar, ia sempre olhando. O que há-de ele ver no meio da igreja?! Uma nuvem branca que subia para o tecto e uma voz gritar: — Sentinela alerta!... Sentinela alerta!... Como o José Pequeno não respondeu, a voz, que metia horror, disse: — Ah, maldição, que faltaram ao juramento! O rapaz deitou a cabeça de fora e respondeu: — Não faltaram, não, que eu aqui estou! Depois sentiu correr na igreja, ouviu uivos e gritos; mas não iam onde ele estava, protegido pelo altar. Quando de manhã vieram render a guarda, esperando só encontrar os ossos da sentinela, apareceu José Pequeno todo satisfeito, causando a admiração de toda a gente. Nesse dia tornou a cair-lhe a sorte para ir fazer a guarda à Princesa. Ficou desconsoladíssimo! Quando se dirigia para a igreja de novo encontrou a velhinha: — Então, José Pequeno, vais hoje tão triste! Parece que ainda estás mais desanimado do que ontem! — Desanimado vou, senhora. O caso não é para menos! Se visse a Princesa a bater os dentes com fúria, para me comer! Até me lembrei de fugir. — Não fujas. Vai ao teu destino, que não é bom fugir-lhe. Olha, esta noite esconde-te por detrás do painel das almas e tem coragem! José Pequeno foi e, ao dar a primeira badalada da meia noite, correu a esconder-se onde a velha tinha dito. Quando as doze horas cairam, o barulho foi tal que tudo parecia vir abaixo; depois a mesma voz gritou: — Sentinela alerta!... Sentinela alerta!... Ah, maldição, que faltaram ao prometido! Respondeu José Pequeno: — Não faltaram, não, que eu aqui estou! Mas a Princesa por mais que fizesse não lhe podia tocar, porque estava protegido por maior poder. E no fim de muito gritar e barafustar, começou a subir numa nuvem branca e desapareceu. De manhã todos ficaram admirados vendo o José Pequeno cheio de vida, como na véspera o tinham deixado. Levaram-no em triunfo por toda a parte, fizeram-lhe grandes festas e os reis abraçaram-no cheios de alegria. Tornaram a deitar sortes para ver quem ficaria de sentinela à Princesa e a sorte de novo caiu no rapaz. À noite, lá foi ele muito desesperado para a igreja e, no meio do caminho, encontrou a mesma velhinha. — Então, José Pequeno, tornas a ir para a igreja? — Que remédio tenho eu! Hoje é que lá fico com certeza! — Não ficarás se fizeres o que eu te disser. — Então o que é? A senhora é que me tem valido, mas hoje não sei como será! — Hás-de sair-te bem, não desanimes. Olha, vai buscar um jarro com água e uma toalha e esconde-te no altar de Nossa Senhora. Ainda que chamem por ti não apareças; mas, quando te pedirem água, estende o braço e deita a do jarro e, quando pedirem uma toalha, atira a que levares. Depois podes aparecer e farás o que quiseres. O rapaz voltou ao palácio, para levar o que a velhinha tinha dito, e depois dirigiu-se à igreja. Ao dar da meia noite foi-se pôr no sitio indicado e ouviu tal barulho que ia ficando doido de susto. Depois a voz gritou: — Sentinela alerta!... Sentinela alerta!... Ah, maldição, que faltaram ao juramento! Depois de muito gritar e chorar, disse a Princesa: — Ai que sede que eu tenho! Quando o José ouviu isto, deitou o braço de fora e entornou a água do jarro. Ouviu em baixo uma pessoa a beber e depois a lavar-se. — Agora só queria uma toalha! O rapaz atirou a toalha e ouviu que tremiam de frio; olhou para baixo e viu a Princesa mais bonita do que nunca e viva como a tinha conhecido. Desceu então do esconderijo, embrulhou-a no seu próprio capote e foi sentar-se com ela nos degraus do altar-mor. Ali ficaram à espera que amanhecesse e ela daí a pouco adormeceu. Quando de manhã vieram saber do José Pequeno e o encontraram na companhia da Princesa, viva e formosa como era, foi um alarido por toda acidade! Correram a chamar os reis — que não podiam crer em tanta felicidade! Soube-se então que a Princesa da Áustria, nascida por parte do Diabo, nunca estivera morta e sim encantada e só por encanto ela podia fazer tanta maldade. Vencido o inimigo, ficou a menina livre e feliz. O José Pequeno casou com ela. Foram reis daquele grande país e sempre muito bons e amados pelo povo. [[Categoria:Contos portugueses|A Princesa da Áustria]] ejuht7a510xbw3oli2zv47xqorm8kdj Henriqueta/Capitulo 12 0 256392 559655 2026-08-20T14:13:57Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559655 wikitext text/x-wiki <pages index="Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf" from=150 to=162 fromsection=C12 tosection=C12 header=1 /> [[Categoria:Henriqueta| 18]] 3mqgxxkgar31vc5vhjczm0467pm8c7f Página:Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano, Tomo XI (1904).pdf/638 106 256394 559656 2026-08-20T14:14:16Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 559656 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" /></noinclude>{{t2|O ASSEDIO DO RECIFE}} {{dhr}} {{c|EM}} {{dhr}} {{t2|'''1821'''}} {{dhr}} {{rule|5em}} {{dhr}} {{c|'''Impressões duma senhora ingleza'''}} {{dhr|2}} {{rule|5em}} {{dhr}} {{c|(CONCLUSÃO<ref>Vide o n. 60 desta Revista.</ref>)}} {{dhr}} {{rule|5em}} {{dhr}} ''Quarta-feira, 3 de Outubro.''—Voltei a bordo na segunda-feira e, para desapontamento meu, os patriotas escolheram justamente aquella noite para atacar o posto avançado dos Afogados, de sorte que não vi o governador á frente das suas tropas marchar ao seu encontro, nem ouvi o hymno nacional entoado pelos regimentos ao desfilarem de volta dʼuma feliz sortida <ref>Depois de escrever o meu ''Diario'' vi a narrativa official deste ataque á villa de Afogados. Foi ams expedição muito bem planejada: mas, as tropas bisonhas dos insurgentes foram facilmente expellidas, pelos veteranos de Luiz do Rego, da villa de que já se haviam apoderado tendo lançado uma ponte sobre um dos braços do Capibaribe.<ref>{{gap}}Na mesma manhã, isto é, na de 1º de Outubro, a Junta Provisoria de Pernambuco officiou á dos patriotas de Goyanna, offerecendo paz, disendo que, como fôsse o seu objectivo confessado a demissão de Luiz do Rego, este estava prompto a retirar-se; que já por duas vezes se offerecêra no Conselho do Recife a fazel-o, e além disso havia escripto ás Côrtes pedindo que lhe nomeassem um successor e lhe permittissem retirar se ; que o motivo que o levava a saim proceder era o desejo da paz e de conseguir a tranquillidade da provincia, tão agitada por estas dissenções intestinas.<br>{{gap}}Communicaram igualmente aos patriotas a chegada da ''Dom Pedro'' e asseguraram-lhes que as tropas trazidas por ella sériam unicamente empregadas na defesa do Recife.</ref>. Hontem nada occorreu digno de nota; tivemos<noinclude>{{rule|4em|align=left}} {{smallrefs}}</noinclude> 4925svep8pyzg3vj6pgt2fuxqwl0xrs 559657 559656 2026-08-20T14:14:43Z Erick Soares3 19404 559657 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" /></noinclude>{{t2|O ASSEDIO DO RECIFE}} {{dhr}} {{c|EM}} {{dhr}} {{t2|'''1821'''}} {{dhr}} {{rule|5em}} {{dhr}} {{c|'''Impressões duma senhora ingleza'''}} {{dhr|2}} {{rule|5em}} {{dhr}} {{c|(CONCLUSÃO<ref>Vide o n. 60 desta Revista.</ref>)}} {{dhr}} {{rule|5em}} {{dhr}} ''Quarta-feira, 3 de Outubro.''—Voltei a bordo na segunda-feira e, para desapontamento meu, os patriotas escolheram justamente aquella noite para atacar o posto avançado dos Afogados, de sorte que não vi o governador á frente das suas tropas marchar ao seu encontro, nem ouvi o hymno nacional entoado pelos regimentos ao desfilarem de volta dʼuma feliz sortida <ref>Depois de escrever o meu ''Diario'' vi a narrativa official deste ataque á villa de Afogados. 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Hontem nada occorreu digno de nota; tivemos<noinclude>{{rule|4em|align=left}} {{smallrefs}}</noinclude> rc7qvi6rnpm4s2f1w1m1gs8n2ujt6be 559660 559657 2026-08-20T14:18:52Z Erick Soares3 19404 559660 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" /></noinclude>{{t2|O ASSEDIO DO RECIFE}} {{dhr}} {{c|EM}} {{dhr}} {{t2|'''1821'''}} {{dhr}} {{rule|5em}} {{dhr}} {{c|'''Impressões duma senhora ingleza'''}} {{dhr|2}} {{rule|5em}} {{dhr}} {{c|(CONCLUSÃO<ref>Vide o n. 60 desta Revista.</ref>)}} {{dhr}} {{rule|5em}} {{dhr}} ''Quarta-feira, 3 de Outubro.''—Voltei a bordo na segunda-feira e, para desapontamento meu, os patriotas escolheram justamente aquella noite para atacar o posto avançado dos Afogados, de sorte que não vi o governador á frente das suas tropas marchar ao seu encontro, nem ouvi o hymno nacional entoado pelos regimentos ao desfilarem de volta dʼuma feliz sortida<ref name=p590>Depois de escrever o meu ''Diario'' vi a narrativa official deste ataque á villa de Afogados. Foi ams expedição muito bem planejada: mas, as tropas bisonhas dos insurgentes foram facilmente expellidas, pelos veteranos de Luiz do Rego, da villa de que já se haviam apoderado tendo lançado uma ponte sobre um dos braços do Capibaribe.<br>{{gap}}Na mesma manhã, isto é, na de 1º de Outubro, a Junta Provisoria de Pernambuco officiou á dos patriotas de Goyanna, offerecendo paz, disendo que, como fôsse o seu objectivo confessado a demissão de Luiz do Rego, este estava prompto a retirar-se; que já por duas vezes se offerecêra no Conselho do Recife a fazel-o, e além disso havia escripto ás Côrtes pedindo que lhe nomeassem um successor e lhe permittissem retirar se ; que o motivo que o levava a saim proceder era o desejo da paz e de conseguir a tranquillidade da provincia, tão agitada por estas dissenções intestinas.<br>{{gap}}Communicaram igualmente aos patriotas a chegada da ''Dom Pedro'' e asseguraram-lhes que as tropas trazidas por ella sériam unicamente empregadas na defesa do Recife.</ref>. Hontem nada occorreu digno de nota; tivemos<noinclude>{{rule|4em|align=left}} {{smallrefs}}</noinclude> jmerv9xg2g7gzsvtrrzt9nvrbflc7ew Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/163 106 256395 559658 2026-08-20T14:15:51Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559658 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|107}}{{lh|2em}}</noinclude>{{hífen|guiu|retorguiu}} a filha de Julio. Agora vou para a minha familia. ― Para a sua famia?!.. Tem razão.... Não deve deixal-a mais tempo para estar com uma ''estranha''. Havia certo azedume n'esta phrase. Virginia não o percebeu e lhe disse, que se quizesse alguma cousa, a mandasse pedir pelo seu criado, e dispunha-se a sair. Henriqueta a deteve, dizendo com voz supplicante e chorosa: ― Antes de me deixar faça-me uma graça. ― Não se acanhe, replicou a menina, diga o que quer. ― Queria tornar a beijar-lhe a mão. ― Beijar-me a mão!.. Para que? Não me deve favores. ― Oh!.. devo muitos... muitos! E faz-me lembrar uma filha que perdi. ― Pobre mãe!.. E Virginia se debruçou sobre o leito, e beijou o cadaverico rosto de sua mãe. Esta não pôde senhorear suas sensações; apertou a donzella em seus {{hífen|descarna|descarnados}}<noinclude></noinclude> oqwqbu9chrc7zrdchurxgrupe4psrpv Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/164 106 256396 559659 2026-08-20T14:17:41Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559659 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|108}}{{lh|2em}}</noinclude>{{hífen-fim|dos|descarnados}} braços, e a beijou com soffreguidão muitas vezes, dizendo entre soluços: ― Filha da minha alma!.. filha do meu coração! Este phrenesi assustou a menina, que o suppunha filho só do delirio, e se soltou o mais brandamente possivel dos braços que a retinham; recommendou ao negro que velasse em sua ama, e que chamasse, sendo preciso; e promettendo á doente de voltar breve, saiu. Henriqueta, apesar do seu estado de fraqueza, assentou-se na cama, apenas ficou só com o negro, Lançou a este uma vista espantada e lhe disse: — José, José!.. Viste aquelle anjo?.. E' minha filha!.. E deixou-me!.. Foi para a sua familia!.. Eu não lhe sou nada!... Ah!.. Eu desafio todos... todos... avô, pae, irmão, noivo, a que a amem mais que eu!.. A que a amem tanto!.. Ai!.. pobre de mim!.. Senti seus labios tocarem meu rosto... mas era um beijo de piedade!.. Estava insensivel e talvez receiosa em meus braços!.. E eu ardia n'um extasis de amor materno. Ah! se não fosse por lançar o ferrete da ignominia<noinclude></noinclude> b4q01amymh8rvcjj7eremi53bwp2m4d Página:Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano, Tomo XI (1904).pdf/639 106 256397 559661 2026-08-20T14:21:39Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 559661 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|591|REV. DO INST. ARCH. E GEOG. PERN.|REV. DO INST. ARCH. E GEOG. PERN.}}{{rule}}</noinclude>a bordo o consul e negociantes ingleses para jantar, e o dia passou como taes dias costumam passar. Tendo se sabido que os patriotas haviam recusado consentir que a roupa pertencente ao navio, mandada para os arrabaldes afim de ser lavada, voltasse para a cidade, determinou-se enviar alguem ao seu quartel-general no intuito de protestar contra este modo inconvenientissimo de prejudicar o porto. Obtive permissão para acompanhar os emissarios, e em consequencia fomos todos á terra logo depois do almoço. O nosso primeiro cuidado foi arranjar passaportes e informar-nos das senhas; depois disto o capitão Graham com o coronel Cottar, principal ajudante de campo do governador, cavalgou comnosco até o posto avançado, onde os deixamos, havendo combinado voltar para jantar em casa de Mr. Stewart e ali encontrar a familia de Luiz do Rego. O nosso grupo constava de M. Caumont, na qualidade de interprete; Mr. Dance, portador da carta ; meu primo Mr. Glennie, como meu cavalheiro, e eu. Era a primeira vez que tinhamos occasião de transpor as linhas ; sentiamo-nos como collegiaes em férias, e tinhamos razão para isto: o scenario era ameno e aprazivel e o dia tão bello quanto possivel. Pernambuco não é uma cidade murada; mas, cercam-na largos rios de forte correnteza e vastos estuarios, e só é accessivel pelas estradas e aterros; as trincheiras levantadas atravez dellas, para a actual defeza, são de ordem a deter por alguns minutos a cavallaria brasileira ou offerecer abrigo contra a mosquetaria ; a sua principal defeza consiste, porém, no pantano na foz do Capibaribe, que na preamar fica inundado e se estende até quasi o Beberibe. Na margem do pantano ha uma <ref follow=p590><br>{{gap}}Insinuaram igualmente contarem com o auxilio das fragatas franceza ingleza então ali. auxilio que lhes fòra offerecido em attenção ás propriedades de subditos francezes e ingleses na cidade.<br>{{gap}}Ora, sei que semelhante auxilio jamais foi offereoido pela fragata ingleza; foi solicitado, mas, qualquer interferencia da nossa parte foi negada, havendo-nos sido recommendada pelo governo a mais extricta neutralidade e apenas offereceu-se protecção pessoal tanto a inglezes, como a francezes e p rtugueses; ambos os partidos naturalmente não ignoravam que a presença da fragata vizava a protecção dos subditos ingleses.</ref><noinclude>{{rule|5em|align=left}} {{smallrefs}} {{right|32}}</noinclude> qhd0pa71a3mzc1dlqfu7vruvqlrwl96 559662 559661 2026-08-20T14:21:55Z Erick Soares3 19404 559662 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|591|REV. DO INST. ARCH. E GEOG. PERN.|REV. DO INST. ARCH. E GEOG. PERN.}}{{rule}}</noinclude>a bordo o consul e negociantes ingleses para jantar, e o dia passou como taes dias costumam passar. Tendo se sabido que os patriotas haviam recusado consentir que a roupa pertencente ao navio, mandada para os arrabaldes afim de ser lavada, voltasse para a cidade, determinou-se enviar alguem ao seu quartel-general no intuito de protestar contra este modo inconvenientissimo de prejudicar o porto. Obtive permissão para acompanhar os emissarios, e em consequencia fomos todos á terra logo depois do almoço. O nosso primeiro cuidado foi arranjar passaportes e informar-nos das senhas; depois disto o capitão Graham com o coronel Cottar, principal ajudante de campo do governador, cavalgou comnosco até o posto avançado, onde os deixamos, havendo combinado voltar para jantar em casa de Mr. Stewart e ali encontrar a familia de Luiz do Rego. O nosso grupo constava de M. Caumont, na qualidade de interprete; Mr. Dance, portador da carta ; meu primo Mr. Glennie, como meu cavalheiro, e eu. Era a primeira vez que tinhamos occasião de transpor as linhas ; sentiamo-nos como collegiaes em férias, e tinhamos razão para isto: o scenario era ameno e aprazivel e o dia tão bello quanto possivel. Pernambuco não é uma cidade murada; mas, cercam-na largos rios de forte correnteza e vastos estuarios, e só é accessivel pelas estradas e aterros; as trincheiras levantadas atravez dellas, para a actual defeza, são de ordem a deter por alguns minutos a cavallaria brasileira ou offerecer abrigo contra a mosquetaria ; a sua principal defeza consiste, porém, no pantano na foz do Capibaribe, que na preamar fica inundado e se estende até quasi o Beberibe. 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DO INST. ARCH. E GEOG. PERN.|REV. DO INST. ARCH. E GEOG. PERN.}}{{rule}}</noinclude>estacada onde deixamos o ultimo posto dos realistas e nos despedimos dos amigos que nos acompanhavam. Depois de cavalgarmos atravez do pantano, que entre parenthesis é um terreno muito proprio ao cultivo do arroz, e está cercado de coqueiros e tamarineiros, chegamos á arteria principal do Capibaribe, um rio largo e fundo de forte correnteza; as suas margens são empinadas e a agua muito clara <ref>O Capibaribe tem um enrao de quasi cincocenta milhas, mas, só é navegavel até seis milhas do mar devido as corredoiras e cachoeiras da parte superior ; tem duas embocaduras : uma no Recife e outra em Afogados. ''Chor. Bras.''</ref>; marginam-no casas de campo, adornadas de pomares e jardins, presentemente abandonadas pelos seus proprietarios, que se refugiaram no Recife. As cercas em ambos os lados da estrada eram feitas de folhas de palmeira e as mais antigas estavam cobertas de lindissimas frepadeiras como maracujá, clematis brancas, azues e amarellas, jasmins, rosas da China e muitas outras igualmente agradaveis á vista e an olfacto. As vallas tambem pompeiavam côres variegadas, mas cavalgavamos com demasiada pressa para que podessemos nos deter a collecionar plantas; comtudo prometti a mim mesma, dʼoutra vez, colher ao menos uma que parecia-se com o trevo dos lagos mas era dʼuma brilhante côr de purpura. Cerea de duas millas além do ultimo posto avançado de Luiz do Rego encontramos o primeiro posto dos patriotas, numa casa de campo edificada nuna encosta, onde se viam armas empilhadas junto á porta e uma especie de guarda esfarrapada, consistindo dʼum negro jovial armado dʼuma espingarda de caça, um brasileiro com um trabuco e dous on tres outros individuos de côr duvidosa com cacêtes, espadas, pistollas, etc., que nos informaram haver ali um official. Depois de parlamentarmos alguns minutos verificamos que o official não estava autorisado a receber a nossa carta, pelo que seguimos adiante sob a direcção do velho brasileiro com o trabuco que, indo a pé, nos ameaçava de fazer fogo caso tratassenos de cavalgar mais rapidamente do que elle andava. {{nop}}<noinclude>{{rule|6em|align=left}} {{smallrefs}}</noinclude> bcj6rpi2utrl6dmsv9zeqvqftklmgog Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/165 106 256399 559664 2026-08-20T14:28:49Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559664 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|109}}{{lh|2em}}</noinclude>sobre ella, e sobre todos, que ama, lançar-me-ia a seus pés e lhe diria: ― Tua mãe não morreu!.. Sou eu!.. Fui criminosa; mas amo-te muito!.. muito!.. Quero morrer nos teus braços! ― Porém não!.. Não juntarei mais erros, aos meus erros passados. Seja ditosa e conserve na memoria as virtudes de sua mãe... E' uma piedosa mentira. Ainda me lembra o que soffreu o pobre Eduardo ao saber.... Mas o seu nome aqui é um sacrilegio!.. e um anathema contra mim. Depois de ligeira pausa proseguiu com voz surda: — Vês estas paredes, meu amigo? São as paredes da minha casa. Mas este quarto não é o meu quarto alegre e risonho de solteira, nem os meus aposentos ricos e asseados de casada, é o pobre quarto dos viandantes pobres, e fui acolhida aqui por caridade. Meu pae e meus filhos estão lá em cima, fallando em mim como de uma estranha e indifferente!.. Nunca saberão quem eu sou!.. O unico que o saberá é meu marido... Elle só sabe, que existo, e sou culpada... Os outros julgam-me ha muito morta e veneram a minha memoria. Meu {{hífen|ma|marido}}<noinclude></noinclude> d9xi5xigsmb4d7j04hc9i3hdqzhoyp3 Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/166 106 256400 559665 2026-08-20T14:31:48Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559665 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|110}}{{lh|2em}}</noinclude>{{hífen-fim|rido|marido}} me conhecerá... e recuará de horror ao saber quem sou! Mandar-me-ha expulsar de casa, eu irei morrer n'um palheiro da visinhança... não poderei ir longe. Não importa!.. Tudo mereço. Sabes, que fui matricida e quasi parricida? Minha mãe morreu de dor. E eu não morri d'angustia ao saber os effeitos do meu crime!.. Resisti a tudo!.. Não morri com tantos golpes... Vivo ainda para soffrer o aguilhão do remorso... e toda a força da desesperação! O bom negro pedia ha muito a sua senhora com as mãos erguidas e muitas lagrimas, que socegasse; mas ella, só quando as forças, se lhe esgotaram, é que cessou de fallar, e caiu sobre o travesseiro. Aquella agitação em que estivera, fez-lhe muito mal, e lançou algumas golfadas de sangue pela bocca. José quiz chamar, mas Henriqueta deteve-o; e com a cabeça encostada ao braço, com que elle a sustinha, lhe disse com affeição e reconhecimento: — Socega, meu bom José, socega. Não te afflijas assim. Isto está a dar resto. Demos graças a Deus... Não preciso já de remedios... Preciso só de cumprir aquillo a<noinclude></noinclude> kylmhpznwjyeasushnzffdh9y8w19mp Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/167 106 256401 559666 2026-08-20T14:36:10Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559666 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|111}}{{lh|2em}}</noinclude>que vim, e reconciliar-me com Deus. Vai dizer, qué por caridade me chamem um sacerdote... Elle pedirá de meu mando perdão a meu marido... Já não tenho forças para me lançar a seus pés... Assim é melhor. A minha vista faria mal áquelle homem tão offendido. José pousou a cabeça de sua senhora no travesseiro e foi cumprir a commissão, que lhe fora dada. Voltou logo. A enferma viu o cupioso pranto do negro e lhe disse com doçura: — Lembras-te do que me dizia o innocente, que perdemos, nos seus ultimos momentos? Pois é o que eu quizera poder dizer-te agora. Esta ultima metade da minha vida tem sido um prolongado padecimento. Se és meu amigo, regosija-te por veres, que meus males vão dar resto. E tambem não achas satisfação em seres o meu unico confidente, e amigo que me cerrará os olhos?.. ― Ah! exclamou o negro, tenho satisfação em estar com minha senhora... ''mas eu quer morrer com ella''. — Não, José, não queiras morrer. Eu<noinclude>{{nop|11}}</noinclude> dphlfha4k7f867p65reum1wnx4fiy9b Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/168 106 256402 559667 2026-08-20T14:37:28Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559667 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|112}}{{lh|2em}}</noinclude>''quero'' que vivas. Fica n'estes sitios, se poderes; ama meus filhos e meu pae, e respeita meu marido... Peço-te tambem, que nunca em tempo algum, ouças a meu respeito o que ouvires, digas uma palavra que possa descobrir o meu segredo. Não digas sobretudo ao snr. Julio cousa que o faça adivinhar que tu sabias a minha historia. Isso o humilharia na tua presença, e demasiados dissabores lhe tenho já dado. José prometteu tudo sempre, chorando. Henriqueta ficou mais socegada. Pouco depois entrou um velho dizendo: — Seja aqui a paz do Senhor. — O padre Simão!.. pensou a enferma. O santo varão que me deu as lições de moral, que eu depois calquei aos pés!.. que me fez exortações para eu amar e respeitar meu marido!.. Oh, meu Jesus!.. Restava-me ainda passar por esta vergonha!.. No entanto o sacerdote havia mandado José para fóra do quarto e assentou-se á cabeceira do leito. Passado um quarto d'hora saía elle com os olhos sempre cheios de lagrimas, por mais<noinclude></noinclude> s33k4nb4pxykc5efb0o2n8ekv79vz99 Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/169 106 256403 559668 2026-08-20T14:39:05Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559668 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|113}}{{lh|2em}}</noinclude><noinclude></noinclude> pkfam0ixr1nteq73drf4epz6ow2l0s1 559669 559668 2026-08-20T14:39:26Z BlitzkriegBoop 37692 559669 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|113}}{{lh|2em}}</noinclude>que se esforçava por enxugal-as: deu ordem a José de não entrar no quarto, se a senhora não chamasse, antes d'elle voltar, e de não deixar entrar ninguem. Desde que o ancião saiu conservou-se Henriqueta com as mãos erguidas e os olhos postos. Estava deitada e tão immovel, que pareceria já um cadaver, senão se lhe ouvisse a respiração oppressa, e não se visse o movimento convulso dos labios descorados. Alguem entrou no quarto. A moribunda abriu os olhos espantados. Era Julio. O primeiro impulso de Henriqueta foi de levantar-se para se lançar de joelhos, mas tornou-lhe a cair no travesseiro a cabeça que erguera. Julio correu a ella e lhe pousou uma mão para que se não levantasse. Não fallou logo, porque a voz lhe estava presa na garganta. A infeliz cobrindo com as mãos tremulas e descarnadas o macilento rosto, balbuciou com custo: — Acabrunha-me com a tua cólera... Não mereço consideração. Tudo ficou em silencio. A moribunda, espantada de não ouvir reprehensões, nem queixas, tornou a olhar para seu marido: {{nop}}<noinclude></noinclude> o8hggnfgqm254q35j1dmxw0ou8vndzw 559670 559669 2026-08-20T14:40:17Z BlitzkriegBoop 37692 559670 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|113}}{{lh|2em}}</noinclude>que se esforçava por enxugal-as: deu ordem a José de não entrar no quarto, se a senhora não chamasse, antes d'elle voltar, e de não deixar entrar ninguem. Desde que o ancião saiu conservou-se Henriqueta com as mãos erguidas e os olhos postos. Estava deitada e tão immovel, que pareceria já um cadaver, senão se lhe ouvisse a respiração oppressa, e não se visse o movimento convulso dos labios descorados. Alguem entrou no quarto. A moribunda abriu os olhos espantados. Era Julio. O primeiro impulso de Henriqueta foi de levantar-se para se lançar de joelhos, mas tornou-lhe a cair no travesseiro a cabeça que erguera. 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Perdoa-me tambem de ter concorrido de algum modo para a tua desgraça. — Oh, meu Deus!.. Que generosidade!.. Julio, Julio!.. quão pouco conheci a bondade de teu coração!.. Se fosse possivel augmentarem-se os remorsos que ha tantos annos me ralavam a alma.... ― Não me conhecias, não, Henriqueta!.. Soffrias os rigores da pobresa, e não te lembravas que eu vivia?!.. — A maior necessidade que eu padecia era de consolações, e essas não podia pedirt'as; e não pensava que fosses tão generoso... Além d'isso vivia com um ente, que... apesar de muito innocente, era um anathema para mim... uma pedra de escandalo entre nós. — Dize-me aonde está essa creatur; prometto-te protegel-a. {{nop}}<noinclude></noinclude> 7y30vykx23hkhxx6shpe9np0gjdo09k Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/171 106 256405 559672 2026-08-20T14:43:11Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559672 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|115}}{{lh|2em}}</noinclude>— Basta, Julio, basta! Não me confundas mais com tua excessiva generosidade. Essa pessoa existe agora no céu. — E não tens nenhumas recommendações a fazer-me? — Sim... Julio, tenho. Ama nossos filhos, e meu pae, e sê feliz com elles. Como são bellos e amaveis nossos filhos!.. De que ventura me privei pela allucinação de um momento!.. Que felicidade seria a minha, se tivessemos vivido sempre juntos, e agora morresse nos teus braços e nos d'elles, sem crimes nem remorsos!.. Misera de mim!.. Não os tornarei a ver!.. nem ouvirei mais suas vozes!.. Vi-os, e não corri a seus braços.... Ouvi-os lamentar a minha morte, e não lhes bradei que ainda vivia, e que os adorava!.. Oh, Julio! fui muito culpada, mas ainda fui mais desgraçada! Os tormentos que sobre tudo soffri ha pouco... não os posso exprimir. Estou-te magoando sem o dever... A culpa foi minha... só minha, se perdi o direito de abraçar meus filhos... E comtudo os abracei a ambos!!! A caridade os tornava indulgentes e meigos para a pobre velha desconhecida!.. Bem hajas, Julio, bem {{hífen|ha|hajas}}<noinclude></noinclude> pg28u32ir1a8sb9nus081xhaeud335a Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/172 106 256406 559673 2026-08-20T14:44:42Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559673 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{C|116}}{{lh|2em}}</noinclude>{{hífen-fim|jas|hajas}}, que lhes inspiraste ideias de bondade e compaixão!.. Bem hajas tambem pela piedosa mentira, com que encobriste meu crime... sobretudo a meus filhos... Com que horror não saberiam elles, que sua mãe era tão culpada!.. Julio tinha chorado continuamente, mas senhoreou por fim sua angustia, e pondo com muita brandura as mãos sobre as da enferma, disse, curvando-se sobre ella: — Socega, Henriqueta, tens fallado demasiado. Esgotas as forças que te restam. Dize só, se queres que te faça alguma cousa para descarga da consciencia, ou satisfação do coração. Sabes que és rica, dicta as tuas vontades, que eu as cumprirei. Serei o teu fiel testamenteiro, sejam quaes forem as ordens do teu testamento. — Dá as esmolas que quizeres... manda dizer as missas que te parecer!.. — articulou com voz entrecortada Henriqueta. — E só te recommendo esse pobre negro.... que me sustentou tantos annos com o suor do seu rosto... Tem um coração grato como ha poucos. Adeus, Julio, homem generoso e bom!... Vive para nossos filhos... que elles<noinclude></noinclude> jr9yy0rcapoxeszu9lrew3hb6mym2lf Henriqueta/Capitulo 13 0 256407 559674 2026-08-20T14:46:13Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559674 wikitext text/x-wiki <pages index="Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf" from=162 to=174 fromsection=C13 header=1 /> [[Categoria:Henriqueta| 19]] 1hbzgk50qd0i3cwv7z6yg4ul9m2m8dn Página:Maria Peregrina de Souza - Henriqueta.pdf/176 106 256408 559675 2026-08-20T14:50:49Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559675 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" /></noinclude>{| style="margin: auto; border:10px ridge #e3e3e3; width:400px; height:600px"; |{{C|300 {{uc|Reis}}}} |} {{nop}}<noinclude></noinclude> gsc3wvyl0unmx97a0j882pi6up4docj Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/Os dois almocreves 0 256409 559681 2026-08-20T15:15:30Z Mt516 43586 [[Ajuda:SEA|←]] nova página: {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = Os dois almocreves | anterior = [[../O esperto/]] | posterior = [[../A mão de finado/]] | notas = }} '''<big>OS DOIS ALMOCREVES</big>''' ERA uma vez dois almocreves, que iam de seu caminho por uma linda manhã muito fresca, em que alegres os sinos repicavam para a missa. E o mais novo, que se chamava Isidoro, disse: — Olha lá, compadr... 559681 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = Os dois almocreves | anterior = [[../O esperto/]] | posterior = [[../A mão de finado/]] | notas = }} '''<big>OS DOIS ALMOCREVES</big>''' ERA uma vez dois almocreves, que iam de seu caminho por uma linda manhã muito fresca, em que alegres os sinos repicavam para a missa. E o mais novo, que se chamava Isidoro, disse: — Olha lá, compadre, nós devemos ir à missa. — Para quê? Não sejas parvo! — Olha que devemos!... E devemos não devemos, a questão ia-se azedando, até que retorquiu o mais velho: — Para tirarmos as dúvidas, vamos perguntar à primeira pessoa que encontrarmos. Se ela disser que sim, tiras-me os olhos e ficas com o macho e com a carga de azeite. Se disser que não, tiro-tos eu a ti e fico com o teu macho e o teu azeite. — Pois sim. Vamos lá a ver quem tem razão. E os sinos continuavam a repicar alegremente e o bom do Isidoro a sentir cada vez maior o desejo de entrar numa igreja muito asseada que via no cimo dum monte. Parecia que na sua alma também tilintavam sinos de alegria e revoadas de orações lhe vinham aos lábios. Iam andando sem ninguém encontrarem a quem fazer a pergunta, até que numa encruzilhada deram de cara com um bonito rapaz muito bem vestido, de veludo encarnado, chapéu de plumas, espada reluzente, montando um bom cavalo ricamente ajaezado. Os dois almocreves adiantaram-se: — Senhor cavaleiro — disse o mais velho — nós queríamos fazer-lhe uma pergunta. — Então que querem vocês? — Eu digo que não devemos ir à missa e este meu companheiro diz que sim. Quem tem razão? — Tu é que tens razão, não devem ir à missa. A vida é curta, não se pode gastar tempo com bagatelas. E o cavaleiro partiu, a rir entre dentes. Isidoro tremeu de ver aquele riso tão cruel, mas nada dizia, enquanto o companheiro todo contente já se preparava para lhe tirar os olhos. E os sinos a tocarem numa alegria, numa pressa, que até os passarinhos parecia que iam voando para a igreja que alvejava no cimo do monte. Isidoro chorando pediu que não valesse a resposta do cavaleiro que era moço e de pouca experiência. Iriam mais adiante a ver se encontravam pessoa competente para decidir a aposta. Foram andando, andando, até que encontraram um negociante, que vinha da sua feira, montado numa gorda mula, os alforges cheios de dinheiro, cantando satisfeito. O almocreve chegou-se logo ao pé dele, de chapéu na mão: — Senhor, queria fazer-lhe uma pergunta. — Dize lá, homem; à vontade. — Como é hoje dia de missa, o meu companheiro diz que devemos lá ir e eu digo que não. Fizemos uma aposta e o senhor é que há-de decidir. — Não devem ir; não sejam brutos. Eu também nunca lá vou e estou bem rico e bem gordo. E, dando de esporas à mula, foi-se, cantando com uma voz tão fina, que Isidoro ficou a tremer como se estivesse enterrado em neve. — Compadre — voltou ele a dizer — não me tires ainda os olhos, deixa só passar outra pessoa a quem perguntemos. O homem não estava lá muito pelos ajustes, mas por fim acedeu. Foram andando, andando, até que encontraram um velho de barbas brancas, vestido com um hábito de frade. Caminhava muito devagar, passando as contas dum rosário. Isidoro, todo contente, foi quem falou desta vez: — Meu Irmão, eu queria saber se num dia assim de festa como é hoje, nós podemos passar sem missa. Este meu companheiro diz que sim, eu digo que não, mas vossa senhoria é que há-de decidir. O velho levantou a cabeça e, olhando fito para o pobre Isidoro, disse com ar muito carrancudo: — Quando se tem que fazer, deixa-se a devoção pela obrigação. — Mas, senhor, a minha mãe disse-me que era obrigação que Deus nos deu irmos à missa em todos os domingos e dias santos. — Obrigação é só para os padres. Enquanto estivesses na missa, outros viriam tirar-te a freguesia. E foi-se andando a mastigar fingidas orações, enquanto o primeiro almocreve se ficava a rir das lágrimas do desgraçado Isidoro. Surdo a lamentos e cego a tanta amargura não quis saber de nada, puxou da faca e arrancou-lhe os olhos. Isidoro lamentava-se tristemente: — Ai compadre, se fosse eu não te fazia isto! Ainda que ganhasse não te tirava a luz dos olhos, que é tudo que no mundo há melhor! O outro nem já o ouvia. O que quis foi apanhar-se dono dos machos e do azeite e lá se foi, estrada fora, assobiando alto, de contente. O desgraçado Isidoro não se cansava de chorar a sua triste sorte. Chamava em altas vozes o companheiro, mas ninguém lhe respondia. No campo deserto apenas se ouviam os sinos, que na igreja branca do cimo do monte repicavam alegremente, tocando às ''Ave-Marias.'' Isidoro ajoelhou pedindo protecção a Deus. Depois, mais consolado, sentou-se debaixo duma árvore, matou a fome com um bocado de pão que trazia no bolso, e às apalpadelas foi procurando um lugar onde se abrigasse do ardor do sol e do frio da noite. Encontrou asilo debaixo de uma fraga. Deitou-se, chorando sempre a sua triste sorte, e tanto chorou, tanto se lamentou, que por fim adormeceu. Era alta noite quando acordou sobressaltado, ouvindo grande barulho de vozes e de gritos sobre a fraga onde estava escondido. Quando acalmou o tumulto ouviu uma conversa, percebendo logo que eram os demónios que ali se reuniam a contar o mal que nesse dia tinham feito à humanidade. Cada um vinha por sua vez enumerar a lista dos seus malefícios, e quanto maiores eram maior era a alegria de todos. O pobre Isidoro estava transido de medo, não se cansando de rezar todas as orações que sabia. Qual não foi o seu espanto ouvindo um que dizia: — Eu obriguei dois almocreves a ficarem sem missa e um a tirar os olhos ao outro. Mas foi preciso vestir-me de cavaleiro, de rico mercador e de frade porque estava teimoso o rapaz. Por fim sempre ficou cego e roubado. Agora o que ele não sabe é que debaixo desta fraga encontraria o remédio para a sua cegueira. Esfregando os olhos com uma erva que nesta lapa existe ficaria logo bom. — E tu que fizeste? — perguntou o maioral ao outro. — Eu tirei a água a Lisboa. Meti uma grande pedra no chafariz e como não sabem onde está o mal tudo se há-de desesperar com sede. E haverá então boa colheita para nós. — E tu? — Eu meti-me no travesseiro da Rainha e tanto a pico, tanto a faço sofrer, que ela há-de morrer desesperada e lá a teremos no Inferno. Isidoro, que isto ouviu, deixou-se estar muito calado, fazendo-se muito pequeno, a um canto, estarrecido de medo. Logo que a manhã rompeu, o que ele conheceu pelo cantar dos passarinhos, tratou de procurar a erva e de esfregar os olhos com ela. Imediatamente ficou bom! Que alegria a do pobre rapaz em poder contemplar o céu azul, o campo verde, as flores que se alevantavam tão lindas na frescura da manhã! Caindo de joelhos e chorando de felicidade, agradeceu a salvação da sua alma e a vista, que assim milagrosamente tinha recobrado. Os nossos inimigos fazem-nos bem muitas vezes, querendo fazer-nos mal! Se o nosso coração é puro e a nossa consciência está livre, Deus protege-nos obrigando os maus a descobrirem a sua maldade. Logo que se viu outra vez com vista, era tal a satisfação que sentiu o bom almocreve que não fazia senão cantar e saltar pela estrada fora. Foi andando até que chegou a Lisboa. O seu primeiro cuidado foi pedir água. Negaram-lha, na maior consternação. Havia dois dias que tinha secado o chafariz. Se continuasse assim morreria tudo à sede. Foi o que o Isidoro quis ouvir. Dirigindo-se logo ao Governador, ofereceu-se para de novo fazer correr a água. Aceite o oferecimento foi ao chafariz, tirou a pedra que lá tinha posto o demónio e logo a água correu abundante e cristalina. O povo, cheio de reconhecimento ao seu salvador, com festas e presentes, lhe deu muito dinheiro. Foi dali o bom do Isidoro ao palácio real e pediu para falar à Rainha. Disseram-lhe que não podia ser pois que ela estava tão doente que nem de dia nem de noite sossegava, não fazendo senão gritar. Teimou ele em pedir que o deixassem entrar que a curaria. Preveniram o Rei, que, sabedor do bem que ele tinha feito à cidade, mandou ordem para o deixarem subir. Quando chegou ao quarto da Rainha doente, pediu uma braseira com brasas bem acesas e uma caldeirinha com água benta. Tirou o travesseiro da cama e, pondo-o sobre as brasas, deitou-lhe por cima a água benta. Levantou-se um fumo muito espesso que encheu o quarto, e ouviu-se um estrondo tão grande que todas as janelas tremeram. Correu tudo à cama e viram a Rainha já boa, a rir muito satisfeita, como se lhe tivessem tirado de sobre o seu corpo um grande peso. Vestiu-se logo e andava pela casa tão boa que ninguém diria que era a mesma. O Rei, contentíssimo, deu muito ouro ao Isidoro, encheu-o de presentes e queria que ele ficasse no palácio. Mas como não era ambicioso, por cousa nenhuma do mundo queria abandonar a sua terra e a boa mãe que lá o esperava. Comprou um cavalo e ei-lo aí vai pela estrada fora, de volta à sua querida aldeia, prometendo a si mesmo nunca mais de lá sair e não faltar a missa nenhuma, por mais que lhe dissessem. Fazendo os seus planos de vida futura, todo o caminho lhe pareceu curto. Compraria uma casa com a sua horta pegada. Os pais e os irmãos, todos teriam onde se recolher. Depois casaria com a sua conversada. Teriam filhos e todos seriam felizes. Ora, no meio do caminho, quem há-de ele encontrar? O almocreve seu antigo companheiro, com os machos e a competente carga. Admirado ficou ele de ver Isidoro com vista e tão bem posto. Não se cansava de lhe fazer perguntas. O Isidoro não era de ressentimentos e entendia na sua simplicidade — melhor que outros com muita esperteza — que as criaturas não têm direito de castigar. Contou tudo o que lhe tinha acontecido, e a maneira como recuperou a vista e como conseguira a fortunazinha que levava para casa. O outro não quis saber mais; entregou-lhe os machos e foi-se pôr debaixo da fraga para ouvir os demónios que assim davam ocasião a ganhar-se tanto dinheiro. Quando chegou a noite lá estava atento e à escuta. Primeiro ouviu um barulho infernal; depois, os mesmos demónios que falavam. Disse o primeiro: — Antes de mais nada, vamos ver debaixo da fraga se lá está alguém. Por causa daquele maroto que nos ouviu, apanhei uma escaldadela de brasas e água benta, que ainda tremo. E nunca mais posso entrar no quarto da Rainha. — E eu perdi o meu trabalho, porque a água já corre outra vez em Lisboa. — E eu ensinei-lhe sem querer acurar-se da cegueira. — Vamos ver debaixo da fraga! — Vamos, vamos! — gritaram vozes de todos os lados, que era de atordoar. O almocreve quis fugir, mas foi logo agarrado e deram-lhe tanta pancada, fizeram-lhe tais tratos, que no outro dia foi encontrado no fundo dum vale, já morto e tão negro como negra era a sua alma. Também ninguém teve pena dele. Era o castigo que merecia pelo mal que quis fazer ao companheiro, o bom do Isidoro. Esse lá foi para a terra com toda a sua fortuna. Foi muito feliz toda a vida. Rodeado de filhos e netos, sempre temente a Deus, alegre e caridoso para todos, morreu muito vèlhinho, deixando muitas saudades na terra. ow8qlrw63if54r6zq0x1t7qw7lu0dln 559693 559681 2026-08-20T15:28:58Z Mt516 43586 559693 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = Os dois almocreves | anterior = [[../O esperto/]] | posterior = [[../A mão de finado/]] | notas = }} '''<big>OS DOIS ALMOCREVES</big>''' ERA uma vez dois almocreves, que iam de seu caminho por uma linda manhã muito fresca, em que alegres os sinos repicavam para a missa. E o mais novo, que se chamava Isidoro, disse: — Olha lá, compadre, nós devemos ir à missa. — Para quê? Não sejas parvo! — Olha que devemos!... E devemos não devemos, a questão ia-se azedando, até que retorquiu o mais velho: — Para tirarmos as dúvidas, vamos perguntar à primeira pessoa que encontrarmos. Se ela disser que sim, tiras-me os olhos e ficas com o macho e com a carga de azeite. 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Isidoro tremeu de ver aquele riso tão cruel, mas nada dizia, enquanto o companheiro todo contente já se preparava para lhe tirar os olhos. E os sinos a tocarem numa alegria, numa pressa, que até os passarinhos parecia que iam voando para a igreja que alvejava no cimo do monte. Isidoro chorando pediu que não valesse a resposta do cavaleiro que era moço e de pouca experiência. Iriam mais adiante a ver se encontravam pessoa competente para decidir a aposta. Foram andando, andando, até que encontraram um negociante, que vinha da sua feira, montado numa gorda mula, os alforges cheios de dinheiro, cantando satisfeito. O almocreve chegou-se logo ao pé dele, de chapéu na mão: — Senhor, queria fazer-lhe uma pergunta. — Dize lá, homem; à vontade. — Como é hoje dia de missa, o meu companheiro diz que devemos lá ir e eu digo que não. Fizemos uma aposta e o senhor é que há-de decidir. — Não devem ir; não sejam brutos. Eu também nunca lá vou e estou bem rico e bem gordo. 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O velho levantou a cabeça e, olhando fito para o pobre Isidoro, disse com ar muito carrancudo: — Quando se tem que fazer, deixa-se a devoção pela obrigação. — Mas, senhor, a minha mãe disse-me que era obrigação que Deus nos deu irmos à missa em todos os domingos e dias santos. — Obrigação é só para os padres. Enquanto estivesses na missa, outros viriam tirar-te a freguesia. E foi-se andando a mastigar fingidas orações, enquanto o primeiro almocreve se ficava a rir das lágrimas do desgraçado Isidoro. Surdo a lamentos e cego a tanta amargura não quis saber de nada, puxou da faca e arrancou-lhe os olhos. Isidoro lamentava-se tristemente: — Ai compadre, se fosse eu não te fazia isto! Ainda que ganhasse não te tirava a luz dos olhos, que é tudo que no mundo há melhor! O outro nem já o ouvia. O que quis foi apanhar-se dono dos machos e do azeite e lá se foi, estrada fora, assobiando alto, de contente. O desgraçado Isidoro não se cansava de chorar a sua triste sorte. Chamava em altas vozes o companheiro, mas ninguém lhe respondia. No campo deserto apenas se ouviam os sinos, que na igreja branca do cimo do monte repicavam alegremente, tocando às ''Ave-Marias.'' Isidoro ajoelhou pedindo protecção a Deus. Depois, mais consolado, sentou-se debaixo duma árvore, matou a fome com um bocado de pão que trazia no bolso, e às apalpadelas foi procurando um lugar onde se abrigasse do ardor do sol e do frio da noite. Encontrou asilo debaixo de uma fraga. Deitou-se, chorando sempre a sua triste sorte, e tanto chorou, tanto se lamentou, que por fim adormeceu. Era alta noite quando acordou sobressaltado, ouvindo grande barulho de vozes e de gritos sobre a fraga onde estava escondido. Quando acalmou o tumulto ouviu uma conversa, percebendo logo que eram os demónios que ali se reuniam a contar o mal que nesse dia tinham feito à humanidade. Cada um vinha por sua vez enumerar a lista dos seus malefícios, e quanto maiores eram maior era a alegria de todos. O pobre Isidoro estava transido de medo, não se cansando de rezar todas as orações que sabia. Qual não foi o seu espanto ouvindo um que dizia: — Eu obriguei dois almocreves a ficarem sem missa e um a tirar os olhos ao outro. Mas foi preciso vestir-me de cavaleiro, de rico mercador e de frade porque estava teimoso o rapaz. Por fim sempre ficou cego e roubado. Agora o que ele não sabe é que debaixo desta fraga encontraria o remédio para a sua cegueira. Esfregando os olhos com uma erva que nesta lapa existe ficaria logo bom. — E tu que fizeste? — perguntou o maioral ao outro. — Eu tirei a água a Lisboa. Meti uma grande pedra no chafariz e como não sabem onde está o mal tudo se há-de desesperar com sede. E haverá então boa colheita para nós. — E tu? — Eu meti-me no travesseiro da Rainha e tanto a pico, tanto a faço sofrer, que ela há-de morrer desesperada e lá a teremos no Inferno. Isidoro, que isto ouviu, deixou-se estar muito calado, fazendo-se muito pequeno, a um canto, estarrecido de medo. Logo que a manhã rompeu, o que ele conheceu pelo cantar dos passarinhos, tratou de procurar a erva e de esfregar os olhos com ela. Imediatamente ficou bom! Que alegria a do pobre rapaz em poder contemplar o céu azul, o campo verde, as flores que se alevantavam tão lindas na frescura da manhã! Caindo de joelhos e chorando de felicidade, agradeceu a salvação da sua alma e a vista, que assim milagrosamente tinha recobrado. Os nossos inimigos fazem-nos bem muitas vezes, querendo fazer-nos mal! Se o nosso coração é puro e a nossa consciência está livre, Deus protege-nos obrigando os maus a descobrirem a sua maldade. Logo que se viu outra vez com vista, era tal a satisfação que sentiu o bom almocreve que não fazia senão cantar e saltar pela estrada fora. Foi andando até que chegou a Lisboa. O seu primeiro cuidado foi pedir água. Negaram-lha, na maior consternação. Havia dois dias que tinha secado o chafariz. Se continuasse assim morreria tudo à sede. Foi o que o Isidoro quis ouvir. Dirigindo-se logo ao Governador, ofereceu-se para de novo fazer correr a água. Aceite o oferecimento foi ao chafariz, tirou a pedra que lá tinha posto o demónio e logo a água correu abundante e cristalina. O povo, cheio de reconhecimento ao seu salvador, com festas e presentes, lhe deu muito dinheiro. Foi dali o bom do Isidoro ao palácio real e pediu para falar à Rainha. Disseram-lhe que não podia ser pois que ela estava tão doente que nem de dia nem de noite sossegava, não fazendo senão gritar. Teimou ele em pedir que o deixassem entrar que a curaria. Preveniram o Rei, que, sabedor do bem que ele tinha feito à cidade, mandou ordem para o deixarem subir. Quando chegou ao quarto da Rainha doente, pediu uma braseira com brasas bem acesas e uma caldeirinha com água benta. Tirou o travesseiro da cama e, pondo-o sobre as brasas, deitou-lhe por cima a água benta. Levantou-se um fumo muito espesso que encheu o quarto, e ouviu-se um estrondo tão grande que todas as janelas tremeram. Correu tudo à cama e viram a Rainha já boa, a rir muito satisfeita, como se lhe tivessem tirado de sobre o seu corpo um grande peso. Vestiu-se logo e andava pela casa tão boa que ninguém diria que era a mesma. O Rei, contentíssimo, deu muito ouro ao Isidoro, encheu-o de presentes e queria que ele ficasse no palácio. Mas como não era ambicioso, por cousa nenhuma do mundo queria abandonar a sua terra e a boa mãe que lá o esperava. Comprou um cavalo e ei-lo aí vai pela estrada fora, de volta à sua querida aldeia, prometendo a si mesmo nunca mais de lá sair e não faltar a missa nenhuma, por mais que lhe dissessem. Fazendo os seus planos de vida futura, todo o caminho lhe pareceu curto. Compraria uma casa com a sua horta pegada. Os pais e os irmãos, todos teriam onde se recolher. Depois casaria com a sua conversada. Teriam filhos e todos seriam felizes. Ora, no meio do caminho, quem há-de ele encontrar? O almocreve seu antigo companheiro, com os machos e a competente carga. Admirado ficou ele de ver Isidoro com vista e tão bem posto. Não se cansava de lhe fazer perguntas. O Isidoro não era de ressentimentos e entendia na sua simplicidade — melhor que outros com muita esperteza — que as criaturas não têm direito de castigar. Contou tudo o que lhe tinha acontecido, e a maneira como recuperou a vista e como conseguira a fortunazinha que levava para casa. O outro não quis saber mais; entregou-lhe os machos e foi-se pôr debaixo da fraga para ouvir os demónios que assim davam ocasião a ganhar-se tanto dinheiro. Quando chegou a noite lá estava atento e à escuta. Primeiro ouviu um barulho infernal; depois, os mesmos demónios que falavam. Disse o primeiro: — Antes de mais nada, vamos ver debaixo da fraga se lá está alguém. Por causa daquele maroto que nos ouviu, apanhei uma escaldadela de brasas e água benta, que ainda tremo. E nunca mais posso entrar no quarto da Rainha. — E eu perdi o meu trabalho, porque a água já corre outra vez em Lisboa. — E eu ensinei-lhe sem querer acurar-se da cegueira. — Vamos ver debaixo da fraga! — Vamos, vamos! — gritaram vozes de todos os lados, que era de atordoar. O almocreve quis fugir, mas foi logo agarrado e deram-lhe tanta pancada, fizeram-lhe tais tratos, que no outro dia foi encontrado no fundo dum vale, já morto e tão negro como negra era a sua alma. Também ninguém teve pena dele. Era o castigo que merecia pelo mal que quis fazer ao companheiro, o bom do Isidoro. Esse lá foi para a terra com toda a sua fortuna. Foi muito feliz toda a vida. Rodeado de filhos e netos, sempre temente a Deus, alegre e caridoso para todos, morreu muito vèlhinho, deixando muitas saudades na terra. 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Para o efeito, procedeu-se a um estudo linguístico apurado, seguido da análise dos principais conteúdos temáticos, a saber: a relevância da descendência para a ideologia real, o papel do juramento divino e do deus Šamaš no mesmo, assim como as etapas da viagem do rei Etana e da águia, protagonistas principais da narrativa. {{dhr}} '''Palavras-chave:''' Antiga Mesopotâmia, Literatura mítica, Divindade Solar, Ideologia Real. {{dhr|3}} '''“Look at the country, my friend, what is it like?”: Translation and analysis of the Mesopotamian''' '''''myth of Etana''''' {{dhr}} '''Abstract''': The article aims to present a translation and study of the ''Myth of Etana'' from Akkadian into Portuguese. With this intent, an accurate linguistic study was carried out, followed by the analysis of the main thematic, namely: the importance of progeny in royal ideology, the role of the divine oath and of god Šamaš in it, and the stages of the journey of King Etana and the eagle, the main protagonists of the narrative. {{dhr}} '''Keywords:''' Ancient Mesopotamia, Mythical Literature, Solar Deity, Royal Ideology.}} {{nop}}<noinclude> {{right|'''165'''}}</noinclude> lnengl0ue0thhyyzppcy5ft6r2cxko2 559698 559697 2026-08-20T16:07:57Z Erick Soares3 19404 559698 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rh|'''''Lusitania Sacra.''''' 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Quem nunca sonhou ter asas? Muito antes de assistirmos à heroína de George R. R. Martin, Daenerys Targaryen, voar amparada no seu dragão Drogon, ou de vermos o pequeno Bastian de ''História Interminável'' vencer o vento montado no seu companheiro Falkor, já os antigos mesopotâmios tinham criado a sua própria narrativa sobre um herói que cruzou os céus com o auxílio de uma águia. As várias cópias que chegaram até nós da composição acádica hoje conhecida como ''Mito de Etana'' comprovam a sua importância, permanência e transversalidade ao longo da história desta civilização. Dos vários exemplares cuneiformes hoje conhecidos, os mais antigos provêm do período paleobabilónico<ref>Segundo a cronologia média, que aqui seguimos (BRISCH, Nicole Mesopotamian history: the basics. In ''Ancient'' ''Mesopotamian Gods and Goddesses''. Oract and the UK Higher Education Academy, 2013. Acedido em Julho de 2022, http://oracc.museum.upenn.edu/amgg/mesopotamianhistory/), o período paleobabilónico decorre na primeira metade do II milénio a.C., entre c. 2004 e c. 1595 a.C., data em que a cidade da Babilónia, à altura capital de um verdadeiro império fundado pelo célebre Hammu-rabi, é tomada pelo poder hitita. Para um apanhado dos episódios narrados nas várias cópias, vide ALSTER, Bendt — The textual history of the Legend of Etana. ''Journal of the American Oriental Society''. 109:1 (1989) 82. Sobre a proveniência das tabuinhas, vide DALLEY, Stephanie — ''Myths from Mesopotamia. Creation, the flood,'' ''Gilgamesh and others''. Oxford: Oxford University Press, 1991, p. 189 e NOVOTNY, Jamie — ''The standard babylonian Etana'' ''Epic''. Pennsylvania: Penn State University Press, 2001, p. ix.</ref>, oriundos das cidades de Tell Harmal e de Susa, outros são datados do período mesoassírio<ref>O período mesoassírio, não tão bem conhecido como o anterior devido à comparativamente menor quantidade de fontes disponíveis, desenvolveu-se entre c. de 1350 e c. 1000 a.C.</ref>, tendo sido encontrados na cidade de Ashur, e os mais recentes foram exumados em Nínive e pertencem à fase de apogeu do império neoassírio<ref>O período neoassírio corresponde, tal como o nome indica, a uma fase histórica marcada pela hegemonia da Assíria, que se estendeu de c. 900 a c. 612 a. C. Durante este longo período, a Assíria conheceu diferentes capitais, entre as quais a cidade de Nínive, famosa, entre outros aspetos, pela biblioteca de Assurbanípal.</ref>. De entre as versões destes três períodos, a mais completa é, sem dúvida, a última, também conhecida como versão babilónica ''standard'', editada por Jamie R. Novotny na coleção ''State Archives of Assyria Cuneiform Texts'' (''SAACT'')<ref>''Etana Epic'' (2001). Esta recensão inclui cerca de catorze exemplares neoassírios encontrados precisamente na biblioteca de Assurbanípal. Embora haja lacunas nalgumas partes do texto, Novotny não a reconstruiu, como é usualmente costume entre assiriólogos, partindo das antigas versões paleo-babilónica e mesoassíria. Este aspeto deve-se ao facto de estas duas versões anteriores não apresentarem uma linha de transmissão direta entre ambas e entre a versão mais tardia, incorporando cada qual as suas próprias idiossincrasias e a sua visão da narrativa. Como tal, em conjunto, não representariam um todo harmonioso.</ref>, que seguiremos no estudo aqui apresentado. Porém, as várias tabuinhas de que dispomos não sobreviveram completas, pelo que a história narrada continua a suscitar algumas dúvidas, sobretudo no que se refere ao seu final. 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Neste sentido, destaca-se das cidades estado que se desenvolviam mais a sul, onde a herança suméria se fazia sentir de forma mais vincada (SANMARTIN, Joaquín e SERRANO, José Miguel — ''Historia antigua'' ''del Próximo Oriente. Mesopotamia y Egipto''. Madrid: Ediciones Akal, 2003, p. 134). Recorde-se que em Kiš terão residido os reis fundadores do império acádico (HEINZ, Marlies - Public buildings, palaces and temples Sumerian World. In CRAWFORD, Harriet, ed. — ''The Sumerian world''. London and New York: Routledge, 2013, p. 180).</ref>, Etana anseia por um herdeiro que possa assegurar a sua continuidade dinástica. A sua mulher, afligida por uma doença<ref>Esta ideia não está expressa na versão que analisaremos ao pormenor, mas sim num fragmento do período paleobabilónico, reconstituído por Kinnier Wilson (KOUBKOVÁ, Evelyne – ''Fortune and misfortune of the eagle in the myth of Etana.'' In DREWNOWSKA, Olga e SANDOWICZ, Małgorzata, ed – ''Fortune and misfortune in the Ancient Near East. Proceedings of the'' ''60''th ''Rencontre Assyriologique Internationale at Warsaw 21–25 July 2014''. Winona Lake – Indiana: Eisenbrauns, 2017, p 373).</ref>, vê-se impedida de concretizar o sonho do rei que, para tal, terá de alcançar uma planta misteriosa — a "planta do nascimento" (''šammu ša alādi''<ref>O termo ''alādi'' constitui o infinitivo genitivo do verbo acádico ''(w)alādu(m)'', com o sentido de "to give birth", "to bear", "to beget" (Chicago Assyrian Dictionary [CAD] A/1, p. 287), e tem o significado em português de "nascimento" ou "gravidez". ''CAD'' A/1 ''olōdu'' 1a, p. 289, atribui o sentido de "plant of childbearing" à expressão.</ref>). Todo este enredo, relatado na primeira tabuinha, parece passar subitamente para segundo plano, e a trama dá entāo relevo, já na segunda tabuinha, a uma outra história. Entram em cena uma águia e uma serpente. Ambas prestam juramento diante do deus solar, Šamaš, comprometendo-se a nāo atentarem uma contra a outra e a viverem pacificamente, visto partilharem a mesma morada: um choupo. A águia e as suas crias instalam-se na copa, enquanto a serpente e a sua prole se fixam junto das raízes. Nāo obstante o juramento, num ato de cobiça, a águia acaba por transgredir o compromisso e devastar o ninho da serpente. Šamaš acede entāo às súplicas desta e arquiteta um plano para castigar a águia, atirando-a para o fundo de um buraco. Novamente, o deus sol é chamado a intervir, desta feita pela ave, que a ele se dirige no sentido de acabar com o seu tormento. É precisamente neste ponto que o redator junta os dois enredos, tecendo um encontro entre a águia e Etana: o rei é designado por Šamaš para a retirar do buraco. Já na terceira tabuinha, e como recompensa pelo seu auxílio, a águia oferece-se para levar Etana até aos céus em busca da planta do nascimento. Sāo, contudo, precisas duas tentativas para que, de facto, este domínio seja alcançado. O final da fábula deixa-nos intrigados. O estado fragmentário das tabuinhas impede-nos de conhecer o destino de Etana. Terá ele alcançado a tão almejada planta? Terá tido um herdeiro? A julgar pela designada ''Lista Real Suméria''<ref>Composição onde se incluem os nomes e a duração dos reinados dos governantes que se sentaram no trono das cidades-estados/reinos que detiveram poder desde, grosso modo, o período Dinástico Inicial (c. 2900 a c. 2340 a.C.) até ao período de Isin e Larsa (c. 2004 a c. 1763 a.C). Não obstante pretender ser um registo histórico, a ''lista Real'' constitui uma narrativa que, tal como as restantes compostas na Mesopotâmia, interliga dados objetivos com eventos fictícios e mitificados. No caso, o texto tem como propósito justificar a hegemonia da dinastia de Isin (veja se MICHALOWSKI, Piotr — History as charter. Some observations on the sumerian king list. 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Neste sentido, destaca-se das cidades estado que se desenvolviam mais a sul, onde a herança suméria se fazia sentir de forma mais vincada (SANMARTIN, Joaquín e SERRANO, José Miguel — ''Historia antigua'' ''del Próximo Oriente. Mesopotamia y Egipto''. Madrid: Ediciones Akal, 2003, p. 134). Recorde-se que em Kiš terão residido os reis fundadores do império acádico (HEINZ, Marlies - Public buildings, palaces and temples Sumerian World. In CRAWFORD, Harriet, ed. — ''The Sumerian world''. London and New York: Routledge, 2013, p. 180).</ref>, Etana anseia por um herdeiro que possa assegurar a sua continuidade dinástica. A sua mulher, afligida por uma doença<ref>Esta ideia não está expressa na versão que analisaremos ao pormenor, mas sim num fragmento do período paleobabilónico, reconstituído por Kinnier Wilson (KOUBKOVÁ, Evelyne – ''Fortune and misfortune of the eagle in the myth of Etana.'' In DREWNOWSKA, Olga e SANDOWICZ, Małgorzata, ed – ''Fortune and misfortune in the Ancient Near East. 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Ambas prestam juramento diante do deus solar, Šamaš, comprometendo-se a nāo atentarem uma contra a outra e a viverem pacificamente, visto partilharem a mesma morada: um choupo. A águia e as suas crias instalam-se na copa, enquanto a serpente e a sua prole se fixam junto das raízes. Nāo obstante o juramento, num ato de cobiça, a águia acaba por transgredir o compromisso e devastar o ninho da serpente. Šamaš acede entāo às súplicas desta e arquiteta um plano para castigar a águia, atirando-a para o fundo de um buraco. Novamente, o deus sol é chamado a intervir, desta feita pela ave, que a ele se dirige no sentido de acabar com o seu tormento. É precisamente neste ponto que o redator junta os dois enredos, tecendo um encontro entre a águia e Etana: o rei é designado por Šamaš para a retirar do buraco. Já na terceira tabuinha, e como recompensa pelo seu auxílio, a águia oferece-se para levar Etana até aos céus em busca da planta do nascimento. 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Sob as urzes queimadas nascem rosas... Nos meus olhos as lágrimas apago... Anseio! Asas abertas! O que trago Em mim? Eu oiço bôcas silenciosas Murmurar-me as palavras misteriosas Que perturbam meu sêr como um afago! E nesta febre ansiosa que me invade, Dispo a minha mortalha, o meu burel, E, já não sou, Amor, Soror Saudade... Olhos a arder em êxtases de amor, Boca a saber a sol, a fruto, a mel: Sou a charneca rude a abrir em flor! </poem>}}<noinclude></noinclude> o4lnelimou937t0tbmqcs3cfgkej1lz 559768 559762 2026-08-20T22:08:38Z BlitzkriegBoop 37692 559768 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" /></noinclude>{{ch|Charneca em flor}} {{dhr|3em}} {{bloco centro|<poem> {{Gcapitular|E}}nche o meu peito, num encanto mago, O frémito das coisas dolorosas... Sob as urzes queimadas nascem rosas... Nos meus olhos as lágrimas apago... Anseio! Asas abertas! O que trago Em mim? 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Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguem! O mundo! O que é o mundo, ó meu amor? — O jardim dos meus versos todo em flor... A seara dos teus beijos, pão bemdito... Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços... — São os teus braços dentro dos meus braços, Via-láctea fechando o Infinito. </poem>}}<noinclude></noinclude> ocdysmrfzp98grh537loz02i2m7ak3f 559764 559763 2026-08-20T22:05:22Z BlitzkriegBoop 37692 559764 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''8''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}} {{lh}}</noinclude>{{ch|Versos de orgulho}} {{dhr|3em}} {{bloco centro|<poem> {{gcapitular|O}} mundo quer-me mal porque ninguem Tem asas como eu tenho! Porque Deus Me fez nascer Princesa entre plebeus Numa tôrre de orgulho e de desdém. Porque o meu Reino fica para além... Porque trago no olhar os vastos ceus, E os oiros e os clarões são todos meus! Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguem! O mundo! 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Dou por elas meu trôno de Princesa, E todos os meus Reinos de Ansiedade. </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> oe24w3xxzoipekjcp3flitejl9k8nub Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/14 106 256425 559769 2026-08-20T22:12:13Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559769 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''10''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Realidade}} {{dhr|3em}} {{bloco centro|<poem> {{gcapitular|E}}m ti o meu olhar fez-se alvorada E a minha voz fez-se gorjeio de ninho... E a minha rubra bôca apaixonada Teve a frescura pálida do linho... Embriagou-me o teu beijo como um vinho Fulvo de Espanha, em taça cinzelada... E a minha cabeleira desatada Poz a teus pés a sombra dum caminho... Minhas pálpebras são côr de verbena, Eu tenho os olhos garços, sou morena, E para te encontrar foi que eu nasci... Tens sido vida fora o meu desejo, E agora, que te falo, que te vejo, Não sei se te encontrei... se te perdi... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> ban0gshimdapb6o111u2lxc8cosamae Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/15 106 256426 559770 2026-08-20T22:14:42Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559770 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''11''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Conto de fadas}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|E}}u trago-te nas mãos o esquecimento Das horas más que tens vivido, Amor! E para as tuas chagas o unguento Com que sarei a minha própria dor. Os meus gestos são ondas de Sorrento... Trago no nome as letras de uma flor... Foi dos meus olhos garços que um pintor Tirou a luz para pintar o vento... Dou-te o que tenho: o astro que dormita, O manto dos crepúsculos da tarde, O sol que é de oiro, a onda que palpita. Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez! ― Eu sou Aquela de quem tens saudade, A Princesa do conto: «Era uma vez...» </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> btuiz29x0aofsu6zznlbh7pk4wjot8n Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/16 106 256427 559771 2026-08-20T22:22:58Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559771 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''12''|''{{uc|Charneca em flor}}''|''12''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|A um moribundo}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|N}}ão tenhas mêdo, não! Tranquilamente, Como adormece a noite pelo Outôno, Fecha os teus olhos, simples, dôcemente, Como, à tarde, uma pomba que tem sôno... A cabeça reclina levemente E os braços deixa-os ir ao abandono, Como tombam, arfando, ao sol poente, As asas de uma pomba que tem sôno... O que ha depois? Depois?... O azul dos ceus? Um outro mundo? O eterno nada? Deus? Um abismo? Um castigo? Uma guarida? Que importa? Que te importa, ó moribundo? ― Seja o que fôr, será melhor que o mundo! Tudo será melhor do que esta vida!... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> dwbpfdiq3xlq628026ezj927i0e2t6s 559772 559771 2026-08-20T22:23:10Z BlitzkriegBoop 37692 559772 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''12''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|A um moribundo}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|N}}ão tenhas mêdo, não! Tranquilamente, Como adormece a noite pelo Outôno, Fecha os teus olhos, simples, dôcemente, Como, à tarde, uma pomba que tem sôno... A cabeça reclina levemente E os braços deixa-os ir ao abandono, Como tombam, arfando, ao sol poente, As asas de uma pomba que tem sôno... O que ha depois? Depois?... O azul dos ceus? Um outro mundo? O eterno nada? Deus? Um abismo? Um castigo? Uma guarida? Que importa? Que te importa, ó moribundo? ― Seja o que fôr, será melhor que o mundo! Tudo será melhor do que esta vida!... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> d7nay7tkfe9ozx2ynutkv289hp4yroi Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/17 106 256428 559773 2026-08-20T22:26:50Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559773 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''13''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Eu}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|A}}té agora eu não me conhecia, Julgava que era Eu e eu não era Aquela que em meus versos descrevera Tão clara como a fonte e como o dia. Mas que eu não era Eu não o sabia E, mesmo que o soubesse, o não dissera... Olhos fitos em rútila quimera Andava atrás de mim... e não me via! Andava a procurar-me ― pobre louca! ― E achei o meu olhar no teu olhar, E a minha bôca sôbre a tua bôca! E esta ânsia de viver, que nada acalma, É a chama da tua alma a esbrazear As apagadas cinzas da minha alma! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 3wqwv9y21ux06nkx04p0imjg5fu6th5 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/18 106 256429 559774 2026-08-20T22:28:15Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559774 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''14''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Passeio ao campo}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|M}}eu Amor! Meu Amante! Meu Amigo!! Colhe a hora que passa, hora divina, Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo! Sinto-me alegre e forte! Sou menina! Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina... Pele doirada de alabastro antigo... Frágeis mãos de madona florentina... ― Vamos correr e rir por entre o trigo! ― Ha rendas de gramineas pelos montes... Papoilas rubras nos trigaes maduros... Água azulada a scintilar nas fontes... E à volta, Amor... tornemos, nas alfombras Dos caminhos selvagens e escuros, Num astro só as nossas duas sombras!... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 5q0oaf518ypx5t823zzkahr6518ln98 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/19 106 256430 559775 2026-08-20T22:30:05Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559775 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''15''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Tarde no mar}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|A}} tarde é de oiro rútilo: esbraseia O horisonte: um cacto purpurino. E a vaga esbelta que palpita e ondeia, Com uma frágil graça de menino, Poisa o manto de arminho na areia E lá vai, e lá segue ao seu destino! E o sol, nas casas brancas que incendeia, Desenha mãos sangrentas de assassino! Que linda tarde aberta sôbre o mar! Vai deitando do ceu molhos de rosas Que Apolo se entretem a desfolhar... E, sôbre mim, em gestos palpitantes, As tuas mãos morenas, milagrosas, São as asas do sol, agonisantes... </poem>}}<noinclude></noinclude> aol9gyluu28vkdcxcaeuvcwa0lw2g9v Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/20 106 256431 559776 2026-08-20T22:31:23Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559776 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''16''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Se tu viesses ver-me...}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|S}}e tu viesses ver-me hoje à tardinha, A essa hora dos mágicos cansaços, Quando a noite de manso se avisinha, E me prendesses toda nos teus braços... Quando me lembra: esse sabôr que tinha A tua bôca... o eco dos teus passos... O teu riso de fonte... os teus abraços... Os teus beijos... a tua mão na minha... Se tu viesses quando, linda e louca, Traça as linhas dulcissimas dum beijo E é de sêda vermelha e canta e ri E é como um cravo ao sol a minha bôca... Quando os olhos se me cerram de desejo... E os meus braços se estendem para ti... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 2paxpzhfdklshcrrc07q11ru1lf4gg3 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/21 106 256432 559777 2026-08-20T22:32:35Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559777 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''17''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Mistério}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|G}}osto de ti, ó chuva, nos beirados, Dizendo coisas que ninguem entende! Da tua cantilena se desprende Um sonho de magia e de pecados. Dos teus pálidos dedos delicados Uma alada canção palpita e ascende, Frases que a nossa bôca não aprende, Murmúrios por caminhos desolados. Pelo meu rôsto branco, sempre frio, Fazes passar o lúgubre arrepio Das sensações extranhas, dolorosas... Talvez um dia entenda o teu mistério.. Quando, inerte, na paz do cemitério, O meu corpo matar a fome às rosas! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> e1a6i0g5dhqxrperzxph254a2cjr8l2 Charneca em Flor/Charneca em flor 0 256433 559778 2026-08-20T22:34:34Z BlitzkriegBoop 37692 página criada 559778 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=11 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 01]] 1aouqhwue4d59wb2x3ht1zl7x573a4l Charneca em Flor/Versos de orgulho 0 256434 559779 2026-08-20T22:35:00Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559779 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=12 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 02]] b3ptzg66g9ymg69a7lrj5u630d0b7np Charneca em Flor/Rústica 0 256435 559780 2026-08-20T22:35:17Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559780 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=13 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 03]] 7u9m2npq9wkqo4u8ektbvd1lf9y5wo5 Charneca em Flor/Realidade 0 256436 559781 2026-08-20T22:35:33Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559781 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=14 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 04]] 61hzdquoyxbnq3f75lfdsw9hzeiuuqx Charneca em Flor/Conto de fadas 0 256437 559782 2026-08-20T22:35:49Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559782 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=15 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 05]] 58d348yl1su9315yy2yqkrci8jzukrp Charneca em Flor/A um moribundo 0 256438 559783 2026-08-20T22:36:11Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559783 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=16 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 06]] ggbcpnli7ngliu7d6eysra2ejiv23mu Charneca em Flor/Eu 0 256439 559784 2026-08-20T22:36:25Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559784 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=17 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 07]] 2gm6mjvbduzxv4ljk3uj2bhcb8g7gj1 Charneca em Flor/Passeio ao campo 0 256440 559785 2026-08-20T22:36:41Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559785 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=18 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 08]] c4kcbqifbjtgk628wbldkst1rypgr96 Charneca em Flor/Tarde no mar 0 256441 559786 2026-08-20T22:37:02Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559786 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=19 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 09]] 7p4m44i1vwubz63wno5wpgrdkyktcf5 Charneca em Flor/Se tu viesses ver-me 0 256442 559787 2026-08-20T22:37:18Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559787 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=20 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 10]] gm1fc0me794vcvyzlh57xqiamqnmxya Charneca em Flor/Mistério 0 256443 559788 2026-08-20T22:37:35Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559788 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=21 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 11]] 51n8to14n1lrmsqpxb3xxrqdr29hzy6 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/22 106 256444 559789 2026-08-20T22:38:51Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559789 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''18''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|O meu condão}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|Q}}uis Deus dar-me o condão de ser sensível Como o diamante à luz que o alumia, Dar-me uma alma fantástica, impossível: — Um bailado de côr e fantasia! Quis Deus fazer de ti a ambrosia Desta paixão estranha, ardente, incrível! Erguer em mim o facho inextinguível, Como um cinzel vincando uma agonia! Quis Deus fazer-me tua... para nada! ― Vãos, os meus braços de crucificada, Inúteis, esses beijos que te dei! Anda! Caminha! Aonde?... Mas por onde?... Se a um gesto dos teus a sombra esconde O caminho de estrelas que tracei... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> db2mlku35pgus91z919m1gt6w72r2ow Charneca em Flor/O meu condão 0 256445 559790 2026-08-20T22:39:13Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559790 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=22 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 12]] nmj8pywn8z57q32nnjzf3elldas41n0 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/23 106 256446 559791 2026-08-20T22:41:29Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559791 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''19''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|As minhas mãos}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|A}}s minhas mãos magritas, afiladas, Tão brancas como a água da nascente, Lembram pálidas rosas entornadas Dum regaço de Infanta do Oriente. Mãos de ninfa, de fada, de vidente, Pobrezinhas em sêdas enroladas, Virgens mortas em luz amortalhadas Pelas próprias mãos de oiro do sol-poente. Magras e brancas... Foram assim feitas... Mãos de engeitada porque tu me engeitas... Tão dôces que elas são! Tão a meu gôsto! Pra que as quero eu — Deus! — P'ra que as quero eu?! Ó minhas mãos, aonde está o ceu? ... Aonde estão as linhas do teu rôsto? </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> b4k5iglbkjtkgz4k33del0dggvog8nc Charneca em Flor/As minhas mãos 0 256447 559792 2026-08-20T22:41:55Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559792 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=23 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 13]] 5atqdztc7z1reqotd3643g65qk3ipdo Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/24 106 256448 559793 2026-08-20T22:43:26Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559793 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''20''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Noitinha}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|A}} noite sôbre nós se debruçou... Minha alma ajoelha, põe as mãos e ora! O luar, pelas colinas, nesta hora, É água dum gomil que se entornou... Não sei quem tanta pérola espalhou! Murmura alguem pelas quebradas fóra... Flores do campo, humildes, mesmo agora, A noite, os olhos brandos, lhes fechou... Fumo beijando o colmo dos casais.. Serenidade idílica de fontes, E a voz dos rouxinois nos salgueirais... Tranquilidade... calma... anoitecer... Num êxtase, eu escuto pelos montes O coração das pedras a bater... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> jal063kgt6aqjulqs9xk5fts3wuatld Charneca em Flor/Noitinha 0 256449 559794 2026-08-20T22:43:42Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559794 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=24 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 14]] gl614dje7g74guuwidji7z0163m7pw5 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/25 106 256450 559795 2026-08-20T22:45:17Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559795 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''21''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Lembrança}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|F}}ui Essa que nas ruas esmolou E fui a que habitou Paços Reais; No mármore de curvas ogivais Fui Essa que as mãos pálidas poisou... Tanto poeta em versos me cantou! Fiei o linho à porta dos casais... Fui descobrir a India e nunca mais Voltei! fui essa nau que não voltou... Tenho o perfil moreno, lusitano, E os olhos verdes, côr do verde Oceano, Sereia que nasceu de navegantes... Tudo em cinzentas brumas se dilui... Ah, quem me dera ser ''Essas'' que eu fui, ''As'' que me lembro de ter sido... dantes!... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> qf1j8u0ut0gbs5sqwzh9i7slzcqzlgo Charneca em Flor/Lembrança 0 256451 559796 2026-08-20T22:45:39Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559796 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=25 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 15]] 76fqauxoapfvtda0lvsf8ebz2t0oz6p Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/26 106 256452 559797 2026-08-20T22:48:22Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559797 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''22''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude><noinclude></noinclude> bdfaicu3eyza67zabyndr8750gapxvi 559798 559797 2026-08-20T22:48:40Z BlitzkriegBoop 37692 559798 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''22''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|A nossa casa}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|A}} nossa casa, Amor, a nossa casa! Onde está ela, Amor, que não a vejo? Na minha doida fantasia em braza Constroi-a, num instante, o meu desejo! Onde está ela, Amor, a nossa casa, O bem que neste mundo mais invejo? O brando ninho aonde o nosso beijo Será mais puro e dôce que uma asa? Sonho... que eu e tu, dois pobresinhos, Andamos de mãos dadas, nos caminhos Duma terra de rosas, num jardim, Num país de ilusão que nunca vi... E que eu móro — tão bom! — dentro de ti E tu, ó meu Amor, dentro de mim... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> g0eltr5tcjvd3mrsq9jpjwx98pmnjix Charneca em Flor/A nossa casa 0 256453 559799 2026-08-20T22:49:03Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559799 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=26 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 16]] 5vek3b5h1tfwh9v1jly7tgbcvgbyms9 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/27 106 256454 559800 2026-08-20T22:51:01Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559800 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''23''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Mendiga}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|N}}a vida nada tenho e nada sou; Eu ando a mendigar pelas estradas... No silêncio das noites estreladas Caminho, sem saber para onde vou! Tinha o manto do sol... quem m'o roubou?! Quem pisou minhas rosas desfolhadas?! Quem foi que sôbre as ondas revoltadas A minha taça de oiro espedaçou?! Agora vou andando e mendigando, Sem que um olhar dos mundos infinitos Veja passar o verme, rastejando... Ah, quem me dera ser como os chacais Uivando os brados, rouquejando os gritos Na solidão dos ermos matagais!... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> h4hdw9sqxstqqg0o6h6icqf2bj2m7hm Charneca em Flor/Mendiga 0 256455 559801 2026-08-20T22:51:25Z BlitzkriegBoop 37692 página criada 559801 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=27 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 17]] ra6k1cc4a8f125ivhvht14mf6016og7 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/28 106 256456 559802 2026-08-20T22:52:45Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559802 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''24''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Supremo enleio}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|Q}}uanta mulher no teu passado, quanta! Tanta sombra em redor! Mas que me importa? Se delas veio o sonho que conforta, A sua vinda foi três vezes santa! Erva do chão que a mão de Deus levanta, Folhas murchas de rôjo à tua porta... Quando eu fôr uma pobre coisa morta, Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta! Mas eu sou a manhã: apago estrelas! Hás de ver-me, beijar-me em todas elas, Mesmo na boca da que fôr mais linda! E quando a derradeira, enfim, vier, Nesse corpo vibrante de mulher Será o meu que hás de encontrar ainda... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> jwkwvsb2isw86t3t0g3wefgvp963c74 Charneca em Flor/Supremo enleio 0 256457 559803 2026-08-20T22:53:05Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559803 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=28 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 18]] pvsmw8edpczm1ieeqdj8cexj7icja2p Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/29 106 256458 559804 2026-08-20T22:54:49Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559804 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''25''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Tolêdo}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|D}}iluido numa taça de oiro a arder Tolêdo é um rubi. E hoje é só nosso! O sol a rir... Viv'alma... Não esboço Um gesto que me não sinta esvaecer... As tuas mãos tateiam-me a tremer... Meu corpo de ámbar, harmonioso e môço É como um jasmineiro em alvoroço Ébrio de sol, de aroma, de prazer! Cerro um pouco o olhar onde subsiste Um romântico apêlo vago e mudo, ― Um grande amor é sempre grave e triste. Flameja ao longe o esmalte azul do Tejo... Uma tôrre ergue ao ceu um grito agudo ... Tua bôca desfolha-me num beijo... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> lowchldbjjky68xytgmeq21zctq27xg Charneca em Flor/Tolêdo 0 256459 559805 2026-08-20T22:55:07Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559805 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=29 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 19]] j1lbewwce3ohenxyvwcu1tl5pskqijn Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/30 106 256460 559806 2026-08-20T22:56:42Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559806 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''26''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Outonal}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|C}}aem as folhas mortas sôbre o lago; Na penumbra outonal, não sei quem tece As rendas do silêncio... Olha, anoitece! — Brumas longinquas do País do Vago... Veludos a ondear... Mistério mago... Encantamento... A hora que não esquece, A luz que a pouco e pouco desfalece, Que lança em mim a bênção dum afago... Outono dos crepúsculos doirados, De púrpuras, damascos e brocados! — Vestes a terra inteira de esplendor! Outono das tardinhas silenciosas, Das magníficas noites voluptuosas Em que eu soluço a delirar de amor... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> czvixmwj8gjwvpyl6yycz9tm4zbl0cy Charneca em Flor/Outonal 0 256461 559807 2026-08-20T22:57:00Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559807 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=30 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 20]] ss9z18easuopcg3975czeog4abq9oe7 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/57 106 256462 559809 2026-08-20T23:00:20Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559809 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" /></noinclude>{{bloco centro|''He hum não querer mais que bem querer.''{{D|{{smaller|{{sc|Camões}}}}}}}}<noinclude></noinclude> 9mleu7r8bwx7z1k8wjinx7glpt1511t Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/58 106 256463 559810 2026-08-20T23:00:32Z BlitzkriegBoop 37692 /* Sem texto */ 559810 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="0" user="BlitzkriegBoop" /></noinclude><noinclude></noinclude> ltg9mtpefm08n2h0k9e81m08dk0hzmr Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/59 106 256464 559811 2026-08-20T23:01:58Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559811 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''55''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|I}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|G}}osto de ti apaixonadamente, De ti que és a victoria, a salvação, De ti que me trouxeste pela mão Até ao brilho desta chama quente. A tua linda voz de agua corrente Ensinou-me a cantar... e essa canção Foi ritmo nos meus versos de paixão, Foi graça no meu peito de descrente. Bordão a amparar minha cegueira, Da noite negra o mágico farol, Cravos rubros a arder numa fogueira! E eu, que era neste mundo uma vencida, Ergo a cabeça ao alto, encaro o sol! — Águia real, apontas-me a subida! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> igyvbapd0ei4gjwcuacumsdihejyhr7 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/60 106 256465 559812 2026-08-20T23:04:07Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559812 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''56''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{Ch|II}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|M}}eu Amor, meu Amado, vê... repara: Poisa os teus lindos olhos de oiro em mim, — Dos meus beijos de amor Deus fez-me avara Para nunca os contares até ao fim. Meus olhos teem tons de pedra rara, — É só para teu bem que os tenho assim — E as minhas mãos são fontes de agua clara A cantar sobre a sêde dum jardim. Sou triste como a fôlha ao abandono Num parque solitário, pelo Outono, Sôbre um lago onde vogam nenufares... Deus fez-me atravessar o teu caminho... — Que contas dás a Deus indo sosinho, Passando junto a mim, sem me encontrares? — </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> srvk9cpxz0a9jghf2ps4ondi5ly486r Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/61 106 256466 559813 2026-08-20T23:15:21Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559813 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''57''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|III}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|F}}rémito do meu corpo a procurar-te, Febre das minhas mãos na tua pele Que cheira a ámbar, a baunilha e a mel, Doido anseio dos meus braços a abraçar-te, Olhos buscando os teus por toda a parte, Sêde de beijos, amargor de fel, Estonteante fome, áspera e cruel, Que nada existe que a mitigue e a farte! E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma Junto da minha, uma lagôa calma, A dizer-me, a cantar que me não amas... E o meu coração que tu não sentes, Vai boiando ao acaso das correntes, Esquife negro sôbre um mar de châmas... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> eqrxmrklw7v7lpjxtfjssdrozfhabg6 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/62 106 256467 559814 2026-08-20T23:16:47Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559814 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''58''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|IV}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|É}}s tu! és tu! Sempre vieste, enfim! Oiço de novo o riso dos teus passos! És tu que eu vejo a estender-me os braços Que Deus creou p'ra me abraçar a mim! Tudo é divino e santo visto assim... Foram-se os desalentos, os cansaços... O mundo não é mundo: é um jardim! Um céu aberto: longes, os espaços! Prende-me tôda, Amor, prende-me bem! Que vês tu em redor? Não há ninguem! A terra? — Um astro morto que flutua... Tudo o que é chama a arder, tudo o que sente, Tudo o que é vida e vibra eternamente É tu seres meu, Amor, e eu ser tua! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> irwulvzymiotiz5nl14aa8n2yj0gi70 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/63 106 256468 559815 2026-08-20T23:17:59Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559815 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''59''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|V}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|D}}ize-me, Amor, como te sou querida, Conta-me a glória do teu sonho eleito, Aninha-me a sorrir junto ao teu peito, Arranca-me dos pântanos da vida. Embriagada numa extranha lida, Trago nas mãos o coração desfeito, Mostra-me a luz, ensina-me o preceito Que me salve e levante redimida! Nesta negra cisterna em que me afundo, Sem quimeras, sem crenças, sem ternura, Agonia sem fé dum moribundo, Grito o teu nome numa sêde extranha, Como se fosse, Amor, toda a frescura Das cristalinas aguas da montanha! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> jmh1trbl002726rhvkgddsdecnhhhua Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/64 106 256469 559816 2026-08-20T23:19:21Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559816 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''60''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|VI}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|F}}alo de ti às pedras das estradas, E ao sol que é loiro como o teu olhar, Falo ao rio, que desdobra a faiscar, Vestidos de Princesas e de Fadas; Falo às gaivotas de asas desdobradas, Lembrando lenços brancos a acenar, E aos mastros que apunhalam o luar Na solidão das noites consteladas; Digo os anseios, os sonhos, os desejos Donde a tua alma, tonta de victoria, Levanta ao céu a torre dos meus beijos! E os meus gritos de amor, crusando o espaço, Sôbre os brocados fúlgidos da glória, São astros que me tombam do regaço! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> sh7p4ds0kf16iy4gl28ixuhwvr794z6 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/65 106 256470 559817 2026-08-20T23:20:37Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559817 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''61''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|VII}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|S}}ão mortos os que nunca acreditaram Que esta vida é sómente uma passagem, Um atalho sombrio, uma paisagem Onde os nossos sentidos se poisaram. São mortos os que nunca alevantaram Dentre escombros a Torre de Menagem Dos seus sonhos de orgulho e de coragem, E os que não riram e os que não choraram. Que Deus faça de mim, quando eu morrer, Quando eu partir para o País da Luz, A sombra calma dum entardecer, Tombando, em dôces pregas de mortalha, Sôbre o teu corpo heroico, posto em cruz, Na solidão dum campo de batalha! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> nsdeguitw3n5hc3s467k8z6uinhdtmw Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/66 106 256471 559818 2026-08-20T23:21:44Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559818 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''62''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|VIII}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|A}}brir os olhos, procurar a luz, De coração erguido ao alto, em chama, Que tudo neste mundo se reduz A ver os astros scintilar na lama! Amar o sol da glória e a voz da fama Que em clamorosos gritos se traduz! Com misericórdia, amar quem nos não ama, E deixar que nos preguem numa cruz! Sôbre um sonho desfeito erguer a torre Doutro sonho mais alto e, se esse morre, Mais outro e outro ainda, toda a vida! Que importa que nos vençam desenganos, Se pudermos contar os nossos anos Assim como degraus duma subida? </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> kfyc7qq15ad54p1xrs9boh6uu3kdpnp Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/67 106 256472 559819 2026-08-20T23:23:16Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559819 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''63''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|IX}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|P}}erdi os meus fantásticos castelos Como névoa distante que se esfuma... Quiz vencer, quiz lutar, quiz defendê-los: Quebrei as minhas lanças uma a uma! Perdi minhas galeras entre os gêlos Que se afundaram sôbre um mar de bruma... — Tantos escolhos! Quem podia vê-los? ― Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma! Perdi a minha taça, o meu anel, A minha cota de aço, o meu corcel, Perdi meu elmo de oiro e pedrarias... Sobem-me aos lábios súplicas estranhas... Sôbre o meu coração pesam montanhas... Olho assombrada as minhas mãos vasias... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 5tac5sf4jpn9q80i6u5qn4f6gmat777 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/68 106 256473 559820 2026-08-20T23:24:49Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559820 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''64''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|X}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem>Eu queria mais altas as estrelas, Mais largo o espaço, o sol mais creador, Mais refulgente a lua, o mar maior, Mais cavadas as ondas e mais belas; Mais amplas, mais rasgadas as janelas Das almas, mais rosaes a abrir em flor, Mais montanhas, mais azas de condor, Mais sangue sôbre a cruz das caravelas! E abrir os braços e viver a vida, ― Quanto mais funda e lúgubre a descida Mais alta é a ladeira que não cansa! E, acabada a tarefa... em paz, contente, Um dia adormecer, serenamente, Como dorme no berço uma creança! </poem> {{smaller|Outubro, 1930.}}}} {{nop}}<noinclude></noinclude> s7l88ipn2cn67vghz6r422lson57jkx Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/69 106 256474 559821 2026-08-20T23:25:29Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559821 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" /></noinclude>{{C|{{xxx-larger|{{uc|Reliqui{{Ae|1}}}}}}}}<noinclude></noinclude> 4hjcmg5es37es4jer27yort310qqmrb Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/70 106 256475 559822 2026-08-20T23:29:16Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559822 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" /></noinclude>{{bloco direito|width=24em|Os sonetos que vão lêr-se foram coligidos depois da morte da Autora. São mais ou menos da mesma época dos que se publicam antes, na coleção que ela intitulou «{{uc|Charneca em flor}}». A Autora guardou-os, não os mandando para serem impressos com os anteriores, por tencionar modificar alguns, como se vê dos originais, e por lhe parecer que a coleção enviada já era bastante grande. Viriam a fazer parte dum novo livro. Na primeira edição da «{{uc|Charneca em flor}}», que como se sabe foi postuma, quiz-se respeitar a sua vontade, incluindo só os sonetos que Ela tinha indicado, porém agora entendeu o editor dever publicar os inéditos nesta segunda edição, parecendo-lhe que é neste livro mesmo o seu logar mais adequado. {{D|offset=2em|{{smaller|{{Sc|Guido Battelli.}}}}}}}}<noinclude></noinclude> 8v8r6vjrry50p0sj2a2ofniwjxp7xiv Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/31 106 256476 559823 2026-08-20T23:30:39Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559823 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''{{uc|Charneca em flor}}''|''27''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Ser poeta}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|S}}er poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquem e de Alem Dôr! É ter de mil desejos o explendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor! É ter fome, é ter sêde de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e de setim... É condensar o mundo num só grito! E é amar-te, assim, perdidamente... É seres alma e sangue e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> ny7gkjwkos91zpdta3nmptol3vjarjh 559825 559823 2026-08-20T23:34:07Z BlitzkriegBoop 37692 559825 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''27''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Ser poeta}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|S}}er poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquem e de Alem Dôr! É ter de mil desejos o explendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor! É ter fome, é ter sêde de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e de setim... É condensar o mundo num só grito! E é amar-te, assim, perdidamente... É seres alma e sangue e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> sstz7deidcwl2pjm4als8u5p3ui70ks Charneca em Flor/Ser poeta 0 256477 559824 2026-08-20T23:32:02Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559824 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=31 notas="{{Ouça|Florbela Espanca - Ser poeta.ogg}}" header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 21]] fa4nlzvhdtvtn5btfizpaxkc5s3op4z Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/32 106 256478 559826 2026-08-20T23:35:13Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559826 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''28''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Alvorecer}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|A}} noite empalidece. Alvorecer... Ouve-se mais o gargalhar da fonte... Sôbre a cidade muda, o horisonte É uma orquídea estranha a florescer. Há andorinhas prontas a dizer A missa d'alva, mal o sol desponte. Gritos de galos soam monte em monte Numa intensa alegria de viver. Passos ao longe... um vulto que se esvai... Em cada sombra Colombina trai.... Anda o silêncio em volta a qu'rer falar... E o luar que desmaia, macerado, Lembra, pálido, tonto, esfarrapado, Um Pierrot, todo branco, a soluçar... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> bhgveh2rhmd5jz4yoefv8ipcinuot6q Charneca em Flor/Alvorecer 0 256479 559827 2026-08-20T23:36:00Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559827 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=32 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 22]] 6pdxhgj0ud4ls5pkngr9vfn0q7nmg54 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/33 106 256480 559828 2026-08-20T23:37:32Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559828 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''29''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Mocidade}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{Gcapitular|A}} mocidade explêndida, vibrante, Ardente, extraordinária, audaciosa, Que vê num cardo a folha duma rosa, Na gôta de água o brilho dum diamante; Essa que fez de mim Judeu Errante Do espírito, a torrente caudalosa, Dos vendavais irmã tempestuosa, ― Trago-a em mim vermelha, triunfante! No meu sangue rubis correm dispersos: ― Chamas subindo ao alto nos meus versos, Papoilas nos meus lábios a florir! Ama-me doida, estonteadoramente, Ó meu Amor! que o coração da gente É tão pequeno... e a vida, água a fugir... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> ib1jbh7aj91pdk749lt0gmdiwszuw1m Charneca em Flor/Mocidade 0 256481 559829 2026-08-20T23:37:56Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559829 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=33 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 23]] 4ttmdivx0t3wsu1v5z6dez4suyvb94o Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/34 106 256482 559830 2026-08-20T23:39:12Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559830 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''30''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Amar!}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|E}}u quero amar, amar perdidamente! Amar só por amar: Aqui... além... Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente... Amar! Amar! E não amar ninguem! Recordar? Esquecer? Indiferente!... Prender ou desprender? É mal? É bem? Quem disser que se pode amar alguem Durante a vida inteira é porque mente! Há uma primavera em cada vida: É preciso canta-la assim florida, Pois se Deus nos deu voz, foi p'ra cantar! E se um dia hei de ser pó, cinza e nada Que seja a minha noite uma alvorada, Que me saiba perder... p'ra me encontrar. </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> fbev45ig488gkvpoldzchfalmwzr0fw Charneca em Flor/Amar! 0 256483 559831 2026-08-20T23:40:25Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559831 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=34 notas="{{Ouça|Florbela_Espanca_-_Amar.ogg}}" header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 24]] rv2ylt3t4lsb3otdkzwnea40n9k2it6 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/35 106 256484 559832 2026-08-20T23:41:53Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559832 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''31''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Nostalgia}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{Gcapitular|N}}esse País de lenda, que me encanta, Ficaram meus brocados, que despi, E as joias que p'las aias reparti Como outras rosas de Rainha Santa! Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta! Foi por lá que as semeei e que as perdi... Mostrem-me esse País onde eu nasci ! Mostrem-me o Reino de que eu sou Infanta! Ó meu País de sonho e de ansiedade, Não sei se esta quiméra que me assombra, É feita de mentira ou de verdade! Quero voltar! Não sei por onde vim... Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra Por entre tanta sombra igual a mim! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> dl7iyowg0skmydiclwe94xqk5v7h4pd Charneca em Flor/Nostalgia 0 256485 559833 2026-08-20T23:42:40Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559833 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=35 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 25]] eqantfozvwkbz2uskze0dtr9xewz5hx Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/36 106 256486 559834 2026-08-20T23:47:36Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559834 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''32''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Ambiciosa}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{Gcapitular|P}}ara aqueles fantasmas que passaram, Vagabundos a quem jurei amar, Nunca os meus braços lânguidos traçaram O vôo dum gesto para os alcançar... Se as minhas mãos em garra se cravaram Sôbre um amor em sangue a palpitar.... — Quantas panteras bárbaras mataram Só pelo raro gosto de matar! Minha alma é como a pedra funerária Erguida na montanha solitária Interrogando a vibração dos ceus ! O amor dum homem? ― Terra tão pisada! Gôta de chuva ao vento baloiçada... Um homem? ― Quando eu sonho o amor dum deus!... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> qmxt4ssijhwccqpyfpgh1dschqgda58 Charneca em Flor/Ambiciosa 0 256487 559835 2026-08-20T23:48:03Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559835 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=36 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 26]] 5e7fgtntygk9ld5p68yjtl33ny2ur7h Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/37 106 256488 559836 2026-08-20T23:50:02Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559836 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''33''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Crucificada}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|A}}miga... noiva... irmã... o que quiseres! Por ti, todos os ceus terão estrelas, Por teu amor, mendiga, hei-de merecê-las, Ao beijar a esmola que me deres. Podes amar até outras mulheres! ― Hei-de compôr, sonhar palavras belas, Lindos versos de dôr só para elas, Para em lânguidas noites lhes dizeres! Crucificada em mim, sôbre os meus braços, Hei-de poisar a bôca nos teus passos P'ra não serem pisados por ninguem. E depois... Ah! depois de dores tamanhas, Nascerás outra vez de outras entranhas, Nascerás outra vez de uma outra Mãe! </poem>}} {{nop}}<noinclude>{{D|{{smaller|3}}}}</noinclude> lxv2p9gl5le852d5xi13sq671yezpz5 Charneca em Flor/Crucificada 0 256489 559837 2026-08-20T23:50:29Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559837 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=37 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 27]] 5evdtctttrwz5qlt9tfp2a8fsy53t7n Charneca em Flor/He hum não querer mais que bem querer 0 256490 559838 2026-08-20T23:51:57Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559838 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" from=57 to=68 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 47]] 3e2vp0o6mgvsn5w5sj0457w15mgmkgh Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/38 106 256491 559839 2026-08-20T23:54:25Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559839 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''34''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Espera}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|N}}ão me digas adeus, ó sombra amiga, Abranda mais o ritmo dos teus passos; Sente o perfume da paixão antiga, Dos nossos bons e cândidos abraços! Sou a dona dos misticos cansaços, A fantástica e extranha rapariga Que um dia ficou prêsa nos teus braços... Não vás ainda embora, ó sombra amiga! Teu amor fez de mim um lago triste: Quantas ondas a rir que não lhe ouviste, Quanta canção de ondinas lá no fundo! Espera... espera... ó minha sombra amada... Vê que p'ra além de mim já não há nada E nunca mais me encontras neste mundo!... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> a31win91lz1jlz74q8t84uprkqjj0fw Charneca em Flor/Espera 0 256492 559840 2026-08-20T23:54:48Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559840 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=38 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 28]] lz40py6qg8apjo7qlt77r9dnaqkrs11 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/39 106 256493 559841 2026-08-20T23:56:12Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559841 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''35''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Interrogação}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|N}}este tormento inútil, neste empenho De tornar em silêncio o que em mim canta, Sobem-me roucos brados à garganta Num clamor de loucura que contenho. Ó alma da charneca sacrosanta, Irmã da alma rútila que eu tenho, Dize para onde vou, donde é que venho Nesta dôr que me exalta e me alevanta! Visões de mundos novos, de infinitos, Cadências de soluços e de gritos, Fogueira a esbrazear que me consome! Dize que mão é esta que me arrasta? Nódoa de sangue que palpita e alastra... Dize de que é que eu tenho sêde e fome?! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 5b5e0yyf21n5n9oox474aczlye129dm Charneca em Flor/Interrogação 0 256494 559842 2026-08-20T23:56:31Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559842 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=39 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 29]] afbptk81x7t9us2n78kr09g6nvkciug Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/40 106 256495 559843 2026-08-20T23:58:07Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559843 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''36''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Volúpia}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|N}}o divino impudor da mocidade, Nesse êxtase pagão que vence a sorte, Num frémito vibrante de ansiedade, Dou-te o meu corpo prometido à morte! A sombra entre a mentira e a verdade... A nuvem que arrastou o vento norte... ― Meu corpo! Trago nele um vinho forte: Meus beijos de volúpia e de maldade! Trago dálias vermelhas no regaço... São os dedos do sol quando te abraço, Cravados no teu peito como lanças! E do meu corpo os leves arabescos Vão-te envolvendo em circulos dantescos Felinamente, em voluptuosas danças... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> piwj6ypj8c98zk82wbjysqjf2usycy0 Charneca em Flor/Volúpia 0 256496 559844 2026-08-20T23:58:28Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559844 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=40 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 30]] 56bw1gmm5ib3h241u368jt64ir2xpr0 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/41 106 256497 559846 2026-08-21T00:07:38Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559846 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''37''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Filtro}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|M}}eu Amor, não é nada: ― Sons marinhos Numa concha vasia, chôro errante... Ah, olhos que não choram! Pobrezinhos... Não ha luz neste mundo que os levante! Eu andarei por ti os maus caminhos E as minhas mãos, abertas a diamante, Hão-de crucificar-se nos espinhos Quando o meu peito fôr o teu mirante! Para que corpos vís te não desejem, Hei-de dar-te o meu corpo, e a bôca minha P'ra que bôcas impuras te não beijem! Como quem roça um lago que sonhou, Minhas cançadas asas de andorinha Hão de prender-te todo num só vôo... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> hm5gwbio07j483rqtqfimauuppa8wwx Charneca em Flor/Filtro 0 256498 559847 2026-08-21T00:08:18Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559847 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=41 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 31]] e0z9mzx979ooinfxqj94p6ke4f0e4v5 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/42 106 256499 559848 2026-08-21T00:10:04Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559848 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''38''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Mais alto}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|M}}ais alto, sim! mais alto, mais além Do sonho, onde morar a dôr da vida, Até sair de mim! Ser a Perdida, A que se não encontra! Aquela a quem O mundo não conhece por Alguem! Ser orgulho, ser águia na subida, Até chegar a ser, entontecida, Aquela que sonhou o meu desdém! Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível! Turris Ebúrnea erguida nos espaços, Á rutilante luz dum impossível! Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber O mal da vida dentro dos meus braços, Dos meus divinos braços de Mulher! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 2jvxyta2zfme1pmr9ccvi4lvs8p8ujg Charneca em Flor/Mais alto 0 256500 559849 2026-08-21T00:10:19Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559849 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=42 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 32]] gmw6bb7u6bbntau0pq3exbbg9ss06mx Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/43 106 256501 559850 2026-08-21T00:28:11Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559850 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''39''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Nervos doiro}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|M}}eus nervos, guisos de oiro a tilintar Cantam-me n'alma a estranha sinfonia Da volúpia, da mágua e da alegria, Que me faz rir e que me faz chorar! Em meu corpo fremente, sem cessar, Agito os guisos de oiro da folia! A Quimera, à Loucura, a Fantasia, Num rubro turbilhão sinto-As passar! O coração, numa imperial oferta, Ergo-o ao alto! E, sôbre a minha mão, É uma rosa de púrpura, entreaberta! E em mim, dentro de mim, vibram dispersos, Meus nervos de oiro, explêndidos, que são Toda a Arte suprema dos meus versos! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> ndr109ya7hbja7i0baqlyqs2b6at7b6 Charneca em Flor/Nervos doiro 0 256502 559851 2026-08-21T00:28:31Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559851 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=43 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 33]] d9mcliqiylugcq2cu6yx0mxw9xcv2q2 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/101 106 256503 559852 2026-08-21T00:29:06Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559852 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" /></noinclude><noinclude></noinclude> njvguwjolg1hpju24rha37ear4uypra 559853 559852 2026-08-21T00:29:13Z BlitzkriegBoop 37692 /* Sem texto */ 559853 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="0" user="BlitzkriegBoop" /></noinclude><noinclude></noinclude> ltg9mtpefm08n2h0k9e81m08dk0hzmr Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/102 106 256504 559854 2026-08-21T00:29:23Z BlitzkriegBoop 37692 /* Sem texto */ 559854 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="0" user="BlitzkriegBoop" /></noinclude><noinclude></noinclude> ltg9mtpefm08n2h0k9e81m08dk0hzmr Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/103 106 256505 559855 2026-08-21T00:29:33Z BlitzkriegBoop 37692 /* Sem texto */ 559855 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="0" user="BlitzkriegBoop" /></noinclude><noinclude></noinclude> ltg9mtpefm08n2h0k9e81m08dk0hzmr Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/98 106 256506 559856 2026-08-21T00:31:12Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559856 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''94''|''{{uc|Reliqui{{ae|1}}}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Á morte}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|M}}orte, minha Senhora Dona Morte, Tão bom que deve ser o teu abraço! Languido e dôce como um dôce laço E como uma raiz, sereno e forte. Não há mal que não sare ou não conforte Tua mão que nos guia passo a passo, Em ti, dentro de ti, no teu regaço Não há triste destino nem má sorte. Dona Morte dos dedos de veludo, Fecha-me os olhos que já viram tudo! Prende-me as asas que voaram tanto! Vim da Moirama, sou filha de rei, Má fada me encantou e aqui fiquei Á tua espera,... quebra-me o encanto! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 828xwi6y8wzv7svrv1y3y0bcwt36wm1 Charneca em Flor/Nota do Editor 0 256507 559857 2026-08-21T00:35:20Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559857 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=69 título="Relique{{ae|2}}" header=1/> {{page break|label=}} <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=70/> [[Categoria:Charneca em Flor| 48]] gvwgz8nsezo6723d9qoxia00nfaa1zz Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/2 106 256508 559858 2026-08-21T00:35:42Z BlitzkriegBoop 37692 /* Sem texto */ 559858 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="0" user="BlitzkriegBoop" /></noinclude><noinclude></noinclude> ltg9mtpefm08n2h0k9e81m08dk0hzmr Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/3 106 256509 559859 2026-08-21T00:36:22Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559859 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" /></noinclude>{{c|{{xx-larger|{{uc|Charneca em flor}}}}}}<noinclude></noinclude> t66wxywl63ed1soc3wxvp2fpcptdihe Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/4 106 256510 559860 2026-08-21T00:37:48Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559860 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" /></noinclude>{{bloco centro| {{Sc|Livro de magoas}} ― 1920 (exgotado). {{sc|Livro de Soror Saudade}} ― 1923 (exgotado).}}<noinclude></noinclude> 0na5k24ghbjt7aet4y36vypyplbzpni Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/6 106 256511 559861 2026-08-21T00:38:08Z BlitzkriegBoop 37692 /* Sem texto */ 559861 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="0" user="BlitzkriegBoop" /></noinclude><noinclude></noinclude> ltg9mtpefm08n2h0k9e81m08dk0hzmr Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/9 106 256512 559862 2026-08-21T00:40:02Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559862 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" /></noinclude>{{bloco centro| <poem> Amar, amar, amar, amar siempre y con todo El ser y con la tierra y con el cielo, Con lo claro del sol y lo obscuro del lodo. Amar por toda ciencia y amar por todo anhelo. Y cuando la montaña de la vida. Nos sea dura y larga, y alta, y llena de abismos, Amar la immensidad, que es de amor encendida, Y arder en la fusión de nuestros pechos mismos... </poem> {{dhr}} {{D|{{sc|Rubén Darío.}}}}}}<noinclude></noinclude> qnjo9xytitop0wq4sex57u3bru6lhvz Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/10 106 256513 559863 2026-08-21T00:40:14Z BlitzkriegBoop 37692 /* Sem texto */ 559863 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="0" user="BlitzkriegBoop" /></noinclude><noinclude></noinclude> ltg9mtpefm08n2h0k9e81m08dk0hzmr Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/44 106 256514 559865 2026-08-21T00:43:40Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559865 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''40''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{Ch|A voz da tília}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|D}}iz-me a tília a cantar: «Eu sou sincera, Eu sou isto que vês: o sonho, a graça, Deu ao meu corpo, o vento, quando passa, Este ar escultural de bayadera... E de manhã o sol é uma cratera, Uma serpente de oiro que me enlaça... Trago nas mãos as mãos da primavera... E é para mim que em noites de desgraça Toca o vento Mozart, triste e solene, E à minha alma vibrante, posta a nú, Diz a chuva sonetos de Verlaine...» E, ao ver-me triste, a tília murmurou: «Já fui um dia poeta como tu... Ainda hás de ser tília como eu sou...» </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> bqrm8qnfpilessscskmcdgg6ujwlsx8 Charneca em Flor/A voz da tília 0 256515 559866 2026-08-21T00:43:49Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559866 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=44 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 34]] g7nrhi5bo63cyk4w6yuzndq7pvzzkj2 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/45 106 256516 559867 2026-08-21T00:45:02Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559867 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''41''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Não ser}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|Q}}uem me dera voltar à inocência Das coisas brutas, sãs, inanimadas, Despir o vão orgulho, a incoerência: ― Mantos rôtos de estátuas mutiladas! Ah! Arrancar às carnes laceradas Seu mísero segredo de consciência! Ah! poder ser apenas florescência De astros em puras noites deslumbradas! Ser nostálgico choupo ao entardecer, De ramos graves, plácidos, absortos Na mágica tarefa de viver! Ser haste, seiva, ramaria inquieta, Erguer ao sol o coração dos mortos Na urna de oiro duma flor aberta!... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> rdhpjwspyt59top5cea590o2p6h3yaq Charneca em Flor/Não ser 0 256517 559868 2026-08-21T00:45:25Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559868 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=45 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 35]] q0hx01nqxlfg0d61qkvn1oktagnfp4f Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/46 106 256518 559869 2026-08-21T00:46:39Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559869 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''42''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|?}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|Q}}uem fez ao sapo o leito carmezim De rosas desfolhadas à noitinha? E quem vestiu de monja a andorinha, E perfumou as sombras do jardim? Quem cinzelou estrelas no jasmim? Quem deu esses cabelos de rainha Ao girasol? Quem fez o mar? E a minha Alma a sangrar? Quem me creou a mim? Quem fez os homens e deu vida aos lôbos? Santa Terêsa em místicos arroubos? Os monstros? E os profetas? E o luar? Quem nos deu asas para andar de rastros? Quem nos deu olhos para ver os astros ― Sem nos dar braços para os alcançar? </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 9xguzlv7kwn7tmv4scu1sovr0kn88l4 Charneca em Flor/? 0 256519 559870 2026-08-21T00:46:58Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559870 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=46 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 36]] stsiyn0e0dydiorjx27w962f6e8o2od Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/47 106 256520 559871 2026-08-21T00:49:47Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559871 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''43''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|In memoriam}} {{dhr}} {{bloco centro| {{D|{{Sc|Ao meu morto querido}}}} {{dhr}} <poem> {{gcapitular|N}}a cidade de Assis, «Il Poverello» Santo, três vezes santo, andou prègando Que o sol, a terra, a flor, o rocio brando, Da pobrêsa o tristíssimo flagelo, Tudo quanto há de vil, quanto há de belo, Tudo era nosso irmão! ― E assim sonhando, Pelas estradas da Umbria foi forjando Da cadeia do amor o maior élo! «Olha o nosso irmão Sol, nossa irmã Água...» Ah, Poverello! Em mim, essa lição Perdeu-se como vela em mar de mágua Batida por furiosos vendavais! — Eu fui na vida a irmã dum só Irmão, E já não sou a irmã de ninguem mais! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 5uxlhu5hp3f5r09c58vacbb0sfxrqgb Charneca em Flor/In Memoriam 0 256521 559872 2026-08-21T00:50:09Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559872 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=47 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 37]] b3umqwr5l8lbd3qtdwp0xmvyczi4mbu Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/48 106 256522 559875 2026-08-21T00:59:43Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559875 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''44''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{Ch|Árvores do Alentejo}} {{dhr}} {{bloco centro| {{D|{{smaller|{{Sc|Ao Prof. Guido Battelli}}}}}} <poem> {{gcapitular|H}}oras mortas... Curvada aos pés do Monte A planície é um brasido... e, torturadas, As árvores sangrentas, revoltadas, Gritam a Deus a bênção duma fonte! E quando, manhã alta, o sol posponte A oiro a giesta, a arder, pelas estradas, Esfingicas, recortam desgrenhadas Os trágicos perfís no horisonte! Árvores! Corações, almas que choram, Almas iguais à minha, almas que imploram Em vão remédio para tanta mágua! Árvores! Não choreis! Olhai e vêde: — Também ando a gritar, morta de sêde, Pedindo a Deus a minha gôta de água! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 1zwp094escscp91r3o6e925ho1jbvac Charneca em Flor/Árvores do Alentejo 0 256523 559877 2026-08-21T01:00:12Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559877 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=48 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 38]] eqgr1alrjd2vaeusfh10glpgda8gmr3 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/49 106 256524 559878 2026-08-21T01:05:23Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559878 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''45''}}{{lh}}</noinclude>{{Ch|Quem sabe?...}} {{dhr}} {{bloco centro| {{D|{{smaller|{{SC|Ao Angelo}}}}}} {{dhr}} <poem> {{gcapitular|Q}}ueria tanto saber porque sou Eu! Quem me engeitou neste caminho escuro? Queria tanto saber porque seguro Nas minhas mãos o bem que não é meu! Quem me dirá se, lá no alto, o ceu Também é para o mau, para o perjuro? Para onde vai a alma que morreu? Queria encontrar Deus! Tanto o procuro! A estrada de Damasco, o meu caminho, O meu bordão de estrelas de cèguinho, Água da fonte de que estou sedenta! Quem sabe se êste anseio de Eternidade, A tropeçar na sombra, é a Verdade, É já a mão de Deus que me acalenta? </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> hubhxmmilgvwnubtiqn6l6gy4907j78 Charneca em Flor/Quem sabe? 0 256525 559879 2026-08-21T01:05:42Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559879 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=49 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 39]] ake9vvnhy8qcr3bqe54aknzi5tewih0 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/50 106 256526 559880 2026-08-21T01:10:09Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559880 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''46''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude><noinclude></noinclude> 6eklah6134k4o62l9xikzqthzf2rg8e 559882 559880 2026-08-21T01:11:59Z BlitzkriegBoop 37692 559882 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''46''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{Ch|A minha piedade}} {{dhr}} {{bloco centro| {{D|{{smaller|{{SC|A Bourbon e Menêses}}}}}} {{dhr}} <poem> {{gcapitular|T}}enho pena de tudo quanto lida Neste mundo, de tudo quanto sente, Daquele a quem mentiram, de quem mente, Dos que andam pés descalços pela vida, Da rocha altiva, sôbre o monte erguida, Olhando os ceus ignotos frente a frente, Dos que não são iguais à outra gente, E dos que se ensanguentam na subida! Tenho pêna de mim... pêna de ti... De não beijar o riso duma estrela... Pêna dessa má hora em que nasci... De não ter asas para ir ver o ceu... De não ser Esta... a Outra... e mais Aquela... De ter vivido e não ter sido Eu... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> oz9zj8poiavn3k4imdimb3fd1370r9d Charneca em Flor/A minha piedade 0 256527 559881 2026-08-21T01:11:25Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559881 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=50 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 40]] h7575jpbrn7n5cs7ru45kmv827yt9y1 Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/51 106 256528 559883 2026-08-21T01:13:12Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559883 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''47''}}{{lh}}</noinclude>{{Ch|Sou eu!}} {{dhr}} {{bloco centro| {{D|{{smaller|{{SC|A Laura Chaves}}}}}} {{dhr}} <poem> {{gcapitular|P}}elos campos em fóra, pelos combros, Pelos montes que embalam a manhã, Largo os meus rubros sonhos de pagā, Enquanto as aves poisam nos meus ombros... Em vão me sepultaram entre escombros De catedrais duma escultura vā! Olha-me o loiro sol tonto de assombros, E as nuvens, a chorar, chamam-me irmã! Écos longinquos de ondas... de universos... Écos dum mundo... dum distante Além, Donde eu trouxe a magia dos meus versos! Sou eu! Sou eu! A que nas mãos anciosas Prendeu da vida, assim como ninguem, Os maus espinhos sem tocar nas rosas! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 19ctnoxsrgyibj1pldqld9e3haxfwo3 Charneca em Flor/Sou eu! 0 256529 559884 2026-08-21T01:13:31Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559884 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=51 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 41]] dq8suz36rh9iqldow00po9cjggmpoqd Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/52 106 256530 559885 2026-08-21T01:14:39Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559885 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''48''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{Ch|Panteísmo}} {{dhr}} {{bloco centro| {{D|{{smaller|{{SC|Ao Botto de Carvalho}}}}}} {{dhr}} <poem> {{gcapitular|T}}arde de braza a arder, sol de verão Cingindo, voluptuoso, o horizonte... Sinto-me luz e côr, ritmo e clarão Dum verso triunfal de Anacreonte! Vejo-me asa no ar, erva no chão, Oiço-me gôta de água a rir, na fonte, E a curva altiva e dura do Marão É o meu corpo transformado em monte! E de bruços na terra penso e scismo Que, neste meu ardente panteísmo, Nos meus sentidos postos, e absortos Nas coisas luminosas deste mundo, A minha alma é o túmulo profundo Onde dormem, sorrindo, os deuses mortos! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> e1som1bv5zugd6o0kr4hq2jte4gp8ad Charneca em Flor/Panteísmo 0 256531 559886 2026-08-21T01:14:59Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559886 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=52 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 42]] o25jdgd1arbx6cs4m5ccv26y89bntg5 Charneca em Flor/Pobre de Cristo 0 256532 559887 2026-08-21T01:15:25Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559887 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=53 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 43]] im7ucinl0206sidte3ba31wyhnifwn7 Charneca em Flor/A uma rapariga 0 256533 559888 2026-08-21T01:15:40Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559888 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=54 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 44]] 6yp3ukmlnkoccb75o9ahonguiiqhcdv Charneca em Flor/Minha culpa 0 256534 559889 2026-08-21T01:16:00Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559889 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=55 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 45]] efwmqqarria13j26ebwpxisv4icgj4a Charneca em Flor/Teus olhos 0 256535 559890 2026-08-21T01:16:23Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559890 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=56 header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 46]] 59oyi9qoc0zzm1humxc1eh0gsosayki Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/53 106 256536 559891 2026-08-21T01:18:03Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559891 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''49''}}{{lh}}</noinclude>{{Ch|Pobre de Cristo}} {{dhr}} {{bloco centro| {{D|{{smaller|{{SC|A José Emídio Amaro}}}}}} {{dhr}} <poem> {{gcapitular|Ó}} minha terra na planície rasa, Branca de sol e cal e de luar, Minha terra que nunca viste o mar, Onde tenho o meu pão e a minha casa. Minha terra de tardes sem uma asa, Sem um bater de folha..., a dormitar... Meu anel de rubis a flamejar, Minha terra moirisca a arder em brasa! Minha terra onde meu irmão nasceu, Aonde a mãe que eu tive e que morreu Foi môça e loira, amou e foi amada! Truz... truz... truz... — Eu não tenho onde me acoite, Sou um pobre de longe, é quasi noite, Terra, quero dormir, dá-me pousada!... </poem>}} {{nop}}<noinclude>{{D|{{smaller|4}}}}</noinclude> epp3d1ufvjz7anicbgr9cl5vv1elu5h Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/54 106 256537 559892 2026-08-21T01:19:29Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559892 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''50''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{Ch|A uma rapariga}} {{dhr}} {{bloco centro| {{D|{{smaller|{{SC|Á Nice}}}}}} {{dhr}} <poem> {{gcapitular|A}}bre os olhos e encara a vida! A sina Tem que cumprir-se! Alarga os horisontes! Por sôbre lamaçais alteia pontes Com tuas mãos preciosas de menina. Nessa estrada da vida que fascina Caminha sempre em frente, além dos montes! Morde os frutos a rir! Bebe nas fontes! Beija aqueles que a sorte te destina! Trata por tu a mais longinqua estrela, Escava com as mãos a própria cova E depois, a sorrir, deita-te nela! Que as mãos da terra façam, com amor, Da graça do teu corpo, esguia e nova, Surgir à luz a haste duma flor!... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> sqchq6vxld3icpagbw0722sp4v92lyy Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/55 106 256538 559893 2026-08-21T01:20:51Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559893 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''51''}}{{lh}}</noinclude>{{Ch|Minha culpa}} {{dhr}} {{bloco centro| {{D|{{smaller|{{SC|A Artur Ledesma}}}}}} {{dhr}} <poem> {{gcapitular|S}}ei lá! Sei lá! Eu sei lá bem Quem sou? Um fôgo-fátuo, uma miragem... Sou um reflexo... um canto de paisagem Ou apenas scenário! Um vae-vem Como a sorte: hoje aqui, depois além! Sei lá quem sou? Sei lá! Sou a roupagem Dum doido que partiu numa romagem E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!... Sou um verme que um dia quis ser astro... Uma estátua truncada de alabastro... Uma chaga sangrenta do Senhor... Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados, Num mundo de maldades e pecados, Sou mais um mau, sou mais um pecador... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 3aof41y8lymf4mofh9fbx4afoeexpee Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/56 106 256539 559894 2026-08-21T01:22:08Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559894 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''52''|''{{uc|Charneca em flor}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Teus olhos}} {{Dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|O}}lhos do meu Amor! Infantes loiros Que trazem os meus prêsos, endoidados! Neles deixei, um dia, os meus tesoiros: Meus aneis, minhas rendas, meus brocados. Neles ficaram meus palácios moiros, Meus carros de combate, destroçados, Os meus diamantes, todos os meus oiros Que trouxe d'Além-Mundos ignorados! Olhos do meu Amor! Fontes... cisternas... Enigmáticas campas medievais... Jardins de Espanha... catedraes eternas... Bêrço vindo do céu à minha porta... Ó meu leito de núpcias irreais!... Meu sumptuoso túmulo de morta!... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> hxjirjytktbz5oc32r1rl442eqi9fxc Pedido de Descupla aos Povos Indígenas da Austrália 0 256540 559897 2026-08-21T04:43:51Z NationalApology 43620 [[Ajuda:SEA|←]] nova página: {{navegar | título = Pedido de Descupla aos Povos Indígenas da Austrália | autor = Kevin Rudd | tradutor = Departamento de Negócios Estrangeiros e Comércio | ano = 2008 | anterior = | posterior = | notas = }} Hoje honramos os povos indígenas desta terra, as culturas mais antigas em continuidade na história humana. 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Pedimos perdão, em particular, pela retirada de crianças de Aborígenes e de Ilhéus do Estreito de Torres das suas famílias, comunidades e do seu país. Pela dor, sofrimento e mágoa destas “Gerações Roubadas”, dos seus descendentes e de famílias deixadas para trás, pedimos perdão. Às mães e aos pais, aos irmãos e às irmãs, pela separação das suas famílias e das suas comunidades, pedimos perdão. E pela indignidade e degradação assim infligidas a um povo orgulhoso e com uma cultura orgulhosa, pedimos perdão. Nós, o Parlamento da Austrália, solicitamos respeitosamente que este perdão seja recebido no espírito em que é oferecido, como parte da cura de uma nação. Rumamos ao futuro com coragem; decidindo que esta é uma nova página na qual a história do nosso grande continente pode agora ser escrita. Hoje damos este primeiro passo ao reconhecer o passado e reclamando como nosso um futuro que engloba todos os australianos. Um futuro onde este Parlamento decide que as injustiças do passado não devem nunca, nunca mais acontecer. Um futuro onde aproveitamos a determinação de todos os australianos, indígenas e não indígenas, para colmatar a lacuna que existe entre nós, na esperança de vida, no desempenho escolar e na oportunidade económica. Um futuro onde abraçamos a possibilidade de novas soluções para resistir aos problemas onde as velhas abordagens falharam. Um futuro baseado no respeito mútuo, na resolução mútua e na responsabilidade mútua. Um futuro onde todos os australianos, independentemente da sua origem, sejam parceiros verdadeiramente iguais, com oportunidades iguais e com a mesma participação na influência do próximo capítulo na história deste grande país, a Austrália. Câmara dos Representantes Parlamento, Camberra 13 de Fevereiro de 2008 {{cc-by-4.0}} 579c0zqs9y84ko7s25q0jei5hbj5twe Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/71 106 256541 559898 2026-08-21T10:02:34Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559898 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''67''}}{{lh}}</noinclude>{{C|Evora}} {{dhr}} {{bloco centro| {{D|{{smaller|{{SC|Ao amigo vindo da luminosa Italia, a minha cidade, como eu soturna e triste...}}}}}} {{dhr}} <poem> {{gcapitular|E}}vora! Ruas ermas sob os ceus Côr de violetas rôxas... Ruas frades Pedindo em triste penitencia a Deus Que nos perdoe as míseras vaidades! Tenho corrido em vão tantas cidades! E só aqui recordo os beijos teus, E só aqui eu sinto que são meus Os sonhos que sonhei noutras edades! Evora!... O teu olhar... o teu perfil... Tua bôca sinuosa, um mez de Abril, Que o coração no peito me alvoroça! ... Em cada viela o vulto dum fantasma.... E a minh'alma soturna escuta e pasma... E sente-se passar ''menina-e-moça''... </poem> {{smaller|Julho, 1930.}}}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 25trz3vn2405lywn1b2bhfwkcd5j1jj 559899 559898 2026-08-21T10:04:59Z BlitzkriegBoop 37692 559899 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Charneca em flor}}''|''67''}}{{lh}}</noinclude>{{C|Evora}} {{dhr}} {{bloco centro| {{D|width=6em|{{smaller|{{SC|Ao amigo vindo da luminosa Italia,<br/> a minha cidade, como eu soturna<br/> e triste...}}}}}} {{dhr}} <poem> {{gcapitular|E}}vora! Ruas ermas sob os ceus Côr de violetas rôxas... Ruas frades Pedindo em triste penitencia a Deus Que nos perdoe as míseras vaidades! Tenho corrido em vão tantas cidades! E só aqui recordo os beijos teus, E só aqui eu sinto que são meus Os sonhos que sonhei noutras edades! Evora!... O teu olhar... o teu perfil... 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O teu olhar... o teu perfil... Tua bôca sinuosa, um mez de Abril, Que o coração no peito me alvoroça! ... Em cada viela o vulto dum fantasma.... E a minh'alma soturna escuta e pasma... E sente-se passar ''menina-e-moça''... </poem> {{smaller|Julho, 1930.}}}} {{nop}}<noinclude></noinclude> kp6bmpuwz98l36ttmpos79rf339s33k 559903 559900 2026-08-21T10:10:47Z BlitzkriegBoop 37692 559903 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|reliqui{{Ae|1}}}}''|''67''}}{{lh}}</noinclude>{{Ch|Evora}} {{dhr}} {{bloco centro| {{D|width=6em|{{smaller|{{SC|Ao amigo vindo da luminosa Italia,<br/> a minha cidade, como eu soturna<br/> e triste...}}}}}} {{dhr}} <poem> {{gcapitular|E}}vora! Ruas ermas sob os ceus Côr de violetas rôxas... Ruas frades Pedindo em triste penitencia a Deus Que nos perdoe as míseras vaidades! Tenho corrido em vão tantas cidades! E só aqui recordo os beijos teus, E só aqui eu sinto que são meus Os sonhos que sonhei noutras edades! Evora!... O teu olhar... o teu perfil... Tua bôca sinuosa, um mez de Abril, Que o coração no peito me alvoroça! ... Em cada viela o vulto dum fantasma.... E a minh'alma soturna escuta e pasma... E sente-se passar ''menina-e-moça''... </poem> {{smaller|Julho, 1930.}}}} {{nop}}<noinclude></noinclude> a4zykpzwfnpfhptbodo8uwur1tv0sit Charneca em Flor/Evora 0 256542 559901 2026-08-21T10:06:16Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559901 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=71 título="Relique{{ae|2}}" header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 49]] c5z9g65joa1ielkbv9bb0zaxugy41wh Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/72 106 256543 559904 2026-08-21T10:11:54Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559904 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''68''|''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Á janela de Garcia de Resende}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|J}}anela antiga sobre a rua plana... Ilumina-a o luar com seu clarão... Dantes, a descansar de luta insana, Fui, talvez, flor no poético balcão... Dantes! Da minha gloria altiva e ufana, Talvez... Quem sabe?... Tonto de ilusão, Meu rude coração de alentejana Me palpitasse ao luar nesse balcão... Mística dona, em outras primaveras, Em refulgentes horas de outras eras, Vi passar o cortejo ao sol doirado... Bandeiras! Pagens! O pendão real! E na tua mão, vermelha, triunfal, Minha divisa: um coração chagado!... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 6abwsnco7sa5wuem9j1t67wg6b46ghz Charneca em Flor/A' janela de Rezende 0 256544 559905 2026-08-21T10:12:21Z BlitzkriegBoop 37692 página criada 559905 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=72 título="Relique{{ae|2}}" header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 50]] 5awv91mn33x8xyouv0r1jnvj67l5hsx Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/73 106 256545 559906 2026-08-21T10:14:03Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559906 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|''69''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|O meu impossível}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|M}}inh'alma ardente é uma fogueira acêsa, É um brasido enorme a crepitar! Ansia de procurar sem encontrar A chama onde queimar uma incerteza! Tudo é vago e incompleto! E que mais pesa É nada ser perfeito. É deslumbrar A noite tormentosa até cegar, E tudo ser em vão! Deus, que tristeza!.... Aos meus irmãos na dôr já disse tudo E não me compreenderam!... Vão e mudo Foi tudo o que entendi e o que presinto... Mas se eu pudesse, a mágua que em mim chora, Contar, não a chorava como agora, Irmãos, não a sentia como a sinto!... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> tfaaoeis7lih1me4gfiti420a0dpa5b Charneca em Flor/O meu impossível 0 256546 559907 2026-08-21T10:14:32Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559907 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=73 título="Relique{{ae|2}}" header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 51]] thmmnufaxq5qgsmjqaijm7gohcqd2hr Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/74 106 256547 559908 2026-08-21T10:15:50Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559908 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''70''|''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Em vão}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|P}}asso triste na vida e triste sou Um pobre a quem jamais quizeram bem! Um caminhante exausto que passou, Que não diz onde vai nem donde vem. Ah! Sem piedade, a rir, tanto desdem A flor da minha bôca desdenhou! Solitario convento onde ninguem A silenciosa cela procurou! E eu quero bem a tudo, a toda a gente!... Ando a amar assim, perdidamente, A acalentar o mundo nos meus braços! E tem passado, em vão, a mocidade Sem que no meu caminho uma saudade Abra em flores a sombra dos meus passos! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> djefymfa9xux1e07yth7e56m3k9pyx9 Charneca em Flor/Em vão 0 256548 559909 2026-08-21T10:22:38Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559909 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=74 título="Relique{{ae|2}}" header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 52]] k754g7nsxw82s8wr76rkr5bj9iz3p3n Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/75 106 256549 559910 2026-08-21T10:23:46Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559910 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|''71''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|A voz que se cala}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|A}}mo as pedras, os astros e o luar Que beija as ervas do atalho escuro, Amo as águas de anil e o dôce olhar Dos animaes, divinamente puro. Amo a hera que entende a voz do muro, E dos sapos, o brando tilintar De cristaes que se afagam de vagar, E da minha charneca o rôsto duro. Amo todos os sonhos que se calam De corações que sentem e não falam, Tudo o que é Infinito e pequenino! Asa que nos protege a todos nós! Soluço imenso, eterno, que é a voz Do nosso grande e mísero Destino!... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 38lkxznn9nigt77a25iy1q5z40prw7q Charneca em Flor/Voz que se cala 0 256550 559911 2026-08-21T10:24:09Z BlitzkriegBoop 37692 página criada 559911 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=75 título="Relique{{ae|2}}" header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 53]] mkytkdy127mwrdz3kbrugs2mgbi5ciz Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/76 106 256551 559912 2026-08-21T10:40:56Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559912 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''72''|''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{Ch|Para quê?}} {{dhr}} {{bloco centro| {{D|{{smaller|{{SC|Ao velho amigo João}}}}}} {{dhr}} <poem> {{gcapitular|P}}ara quê ser o musgo do rochêdo Ou urze atormentada da montanha? Se a arranca a ansiedade e o mêdo E este enleio e esta angústia estranha E todo este feitiço e este enrêdo Do nosso próprio peito? E é tamanha E tão profunda a gente que o segrêdo Da vida como um grande mar nos banha? P'ra que ser asa quando a gente vôa De que serve ser cântico se entôa Toda a canção de amor do Universo? Para quê ser altura e ansiedade, Se se pode gritar uma Verdade Ao mundo vão nas sílabas dum verso? </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> rrnwsl5f2r4f1ltyir5siwqq7cl2jbi Charneca em Flor/Para quê? 0 256552 559913 2026-08-21T10:43:19Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559913 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=76 título="Relique{{ae|2}}" header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 54]] 6kobfoorcrg6304qis0zmgw1qq93hgq Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/77 106 256553 559914 2026-08-21T10:49:55Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559914 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|''73''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Sonho vago}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|U}}m sonho alado que nasceu um instante, Erguido ao alto em horas de demencia... Gotas de agua que tombam em cadencia Na minh'alma tristissima, distante... Onde está ele o Desejado? O Infante? O que ha de vir e amar-me em doida ardencia? O das horas de mágua e penitencia? O Principe Encantado? O Eleito? O Amante? E neste sonho eu já nem sei quem sou... O brando marulhar dum longo beijo Que não chegou a dar-se e que passou... Um fogo fátuo rútilo, talvez... E eu ando a procurar-te e já te vejo!... E tu já me encontraste e não me vês!... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 4ullhmvkr3g5csotymlpft04eqb4p3g Charneca em Flor/Sonho vago 0 256554 559915 2026-08-21T10:50:17Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559915 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=77 título="Relique{{ae|2}}" header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 55]] j8nooak9o2xfk9b5vi7hdtu7nojfigz Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/78 106 256555 559917 2026-08-21T11:17:57Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559917 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''74''|''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Primavera}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|É}} primavera agora, meu Amor! O campo despe a veste de estamenha; Não ha árvore nenhuma que não tenha O coração aberto, todo em flor! Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabôr Da vida... não ha bem que nos não venha Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha! Não ha bem que não possa ser melhor! Tambem despi meu triste burel pardo, E agora cheiro a rosmaninho e a nardo E ando agora tonta, à tua espera... Puz rosas côr de rosa em meus cabelos... Parecem um rosal! Vem desprendê-los! Meu Amor, meu Amor, é Primavera!... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> e9hst21u6h6zezwcqnjcrt5mdvaohjq Charneca em Flor/Primavera 0 256556 559918 2026-08-21T11:19:11Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559918 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=78 título="Relique{{ae|2}}" header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 56]] 6aur7i7tz01i0zny82pb6e70phif7uk Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/79 106 256557 559919 2026-08-21T11:20:30Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559919 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|''75''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Blasfémia}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|S}}ilêncio, meu Amor, não digas nada! Cai a noite nos longes donde vim.... Toda eu sou alma e amor, sou um jardim, Um pátio alucinante de Granada! Dos meus cílios a sombra enluarada, Quando os teus olhos descem sôbre mim, Traça trémulas hastes de jasmim Na palidez da face extasiada! Sou no teu rosto a luz que o alumia, Sou a expressão das tuas mãos de raça, E os beijos que me dás já foram meus! Em ti sou Glória, Altura e Poesia! E vejo-me — milagre cheio de graça! — Dentro de ti, em ti igual a Deus!... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> ee75s2hb24y3cgmk4vzbld39ig9fmdz Charneca em Flor/Blasfémia 0 256558 559920 2026-08-21T11:21:08Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559920 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=79 título="Relique{{ae|2}}" header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 57]] bym4a3irbknbmi0ankmz3l1q5c0dacg Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/80 106 256559 559921 2026-08-21T11:25:55Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559921 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''76''|''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|O teu olhar}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|P}}assam no teu olhar nobres cortejos, Frotas, pendões ao vento sobranceiros, Lindos versos de antigos romanceiros, Ceus do Oriente, em braza, como beijos, Mares onde não cabem teus desejos; Passam no teu olhar mundos inteiros, Todo um povo de herois e marinheiros, Lanças núas em rútilos lampejos; Passam lendas e sonhos e milagres! Passa a India, a visão do Infante em Sagres, Em scentelhas de crença e de certeza! E ao sentir-te tão grande, ao ver-te assim, Amor, julgo trazer dentro de mim Um pedaço da terra portuguesa! </poem> {{smaller|Outubro, 1930.}}}} {{nop}}<noinclude></noinclude> lo9s28p6m39l7vw5mixiuuom87kudk0 Charneca em Flor/O teu olhar 0 256560 559922 2026-08-21T11:26:25Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559922 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=80 título="Relique{{ae|2}}" header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 58]] 0exi2nvtwj4q945x0nak3yb2dxcm1ik Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/81 106 256561 559923 2026-08-21T11:27:42Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559923 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|''77''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Noite de chuva}} {{dhr|3em}} {{bloco centro| <poem> {{gcapitular|C}}huva... Que gôtas grossas!... Vem ouvir: Uma... duas... mais outra que desceu... É Viviana, é Melusina a rir, São rosas brancas dum rosal do ceu... Os lilases deixaram-se dormir... Nem um frémito... a terra emudeceu... Amor! Vem ver estrelas a caír: Uma... duas... mais outra que desceu... Fala baixo, juntinho ao meu ouvido, Que essa fala de amor seja um gemido, Um murmúrio, um soluço, um ai desfeito... Ah, deixa à noite o seu encanto triste! E a mim... o teu amor que mal existe, Chuva a caír na noite do meu peito! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 2dm7o5fo6ak246cg5s4qjsn4symmof3 Charneca em Flor/Noite de chuva 0 256562 559924 2026-08-21T11:28:07Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559924 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=81 título="Relique{{ae|2}}" header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 59]] f8brrd75e45zdodqbo0plwna2i0ch65 Charneca em Flor/Tarde de música 0 256563 559925 2026-08-21T11:28:30Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559925 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=82 título="Relique{{ae|2}}" header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 60]] kpuq7vpdjx88jy10iocqw3mgtrsgush Charneca em Flor/Chopin 0 256564 559926 2026-08-21T11:28:43Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559926 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=83 título="Relique{{ae|2}}" header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 61]] cqep5ay1wief21r8neh5fsnitley1wh Charneca em Flor/O meu desejo 0 256565 559927 2026-08-21T11:28:58Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559927 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=84 título="Relique{{ae|2}}" header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 62]] c8nlzzxlolzq4294o5j2409qbhwtfmf Charneca em Flor/Escrava 0 256566 559928 2026-08-21T11:29:11Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559928 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=85 título="Relique{{ae|2}}" header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 63]] aluw0bkpdcokpfnafzqdcvyu5tl4214 Charneca em Flor/Divino instante 0 256567 559929 2026-08-21T11:29:24Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 559929 wikitext text/x-wiki <pages index="Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf" include=86 título="Relique{{ae|2}}" header=1/> [[Categoria:Charneca em Flor| 64]] cve8zz7pkukia3h7sfd56sk5zzyb6hl Charneca em Flor/Silêncio! 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Serenidade... Não assustes os sonhos... Ah, não varras As quimeras... Amor, senão esbarras Na minha vaga imaterialidade... Liszt, agora, o brilhante; o piano arde... Beijos alados... écos de fanfarras... Pétalas dos teus dedos feitos garras... Como cai em pó de oiro o ar da tarde! Eu olhava para ti... «é lindo! Ideal!» Gemeram nossas vozes confundidas. ― Havia rosas côr de rosa aos molhos ― Falavas de Liszt e eu... da musical Harmonia das pálpebras descidas, Do ritmo dos teus cílios sôbre os olhos... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 9e0w5zvp96c89dx79qlmp0fe1tr1l0g Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/83 106 256581 559943 2026-08-21T11:36:44Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559943 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|''79''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Chopin}} {{dhr|2em}} {{Bloco centro| <poem> {{gcapitular|N}}ão se acende hoje a luz... Todo o luar Fique lá fóra. Bem Aparecidas As estrelas miudinhas, dando no ar As voltas dum cordão de margaridas! Entram falênas meio entontecidas... Lusco-fusco... um morcêgo a palpitar, Passa... torna a passar... torna a passar... As coisas tem o ar de adormecidas... Mansinho... Roça os dedos p'lo tèclado, No vago arfar que tudo alteia e doira, Alma, Sacrário de Almas, meu Amado! E, enquanto o piano a dôce queixa exala, Divina e triste, a grande sombra loira, Vem para mim da escuridão da sala... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> jmgmk4n2iibqmvqv44xubj9han9p2c6 559961 559943 2026-08-21T11:54:54Z BlitzkriegBoop 37692 559961 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|''79''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Chopin}} {{dhr|3em}} {{Bloco centro| <poem> {{gcapitular|N}}ão se acende hoje a luz... Todo o luar Fique lá fóra. Bem Aparecidas As estrelas miudinhas, dando no ar As voltas dum cordão de margaridas! Entram falênas meio entontecidas... 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Minha bôca tem fome só da tua! Meus olhos teem sêde só dos teus! Sombra da tua sombra, dôce e calma, Sou a grande quiméra da tua alma E, sem viver, ando a viver contigo... Deixa-me andar assim no teu caminho Por toda a vida, Amor, devagarinho, Até a morte me levar consigo... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> ttr68uz57fd06to5309qkjlj6ykq371 559960 559944 2026-08-21T11:54:42Z BlitzkriegBoop 37692 559960 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''80''|''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|O meu desejo}} {{dhr|3em}} {{Bloco centro| <poem> {{gcapitular|V}}ejo-te só a ti no azul dos ceus, Olhando a nuvem de oiro que flutua... Ó minha perfeição que creou Deus E que num dia lindo me fez sua! Nos vultos que diviso pela rua, Que cruzam os seus passos com os meus... Minha bôca tem fome só da tua! Meus olhos teem sêde só dos teus! 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Eu, dôce e humilde escrava, te saúdo, E, de mãos postas, em sentida prece, Canto teus olhos de oiro e de veludo. Ah, êsse verso imenso de ansiedade, Esse verso de amor que te fizesse Ser eterno por toda a Eternidade!... </poem>}} {{nop}}<noinclude>{{D|{{smaller|6}}}}</noinclude> otqu6ara4lmm4b1qf4ip7oy5tc83yug 559959 559945 2026-08-21T11:54:32Z BlitzkriegBoop 37692 559959 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|''81''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Escrava}} {{dhr|3em}} {{Bloco centro| <poem> {{gcapitular|Ó}} meu Deus, ó meu dono, ó meu senhor, Eu te saúdo, olhar do meu olhar, Fala da minha bôca a palpitar, Gesto das minhas mãos tontas de amor! Que te seja propício o astro e a flor, Que a teus pés se incline a terra e o mar, P'los séculos dos séculos sem par, Ó meu Deus, ó meu dono, ó meu senhor! Eu, dôce e humilde escrava, te saúdo, E, de mãos postas, em sentida prece, Canto teus olhos de oiro e de veludo. 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Ah, fixar o efémero! êsse instante Em que o teu beijo sòfrego de amante Queima o meu corpo frágil de âmbar loiro; Ah, fixar o momento em que, dolente, Tuas pálpebras descem, lentamente, Sôbre a vertigem dos teus olhos de oiro! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> f9mgiu5had0d914a6mlpr4vbn3qbtkv 559958 559946 2026-08-21T11:54:20Z BlitzkriegBoop 37692 559958 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''82''|''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Divino instante}} {{dhr|3em}} {{Bloco centro| <poem> {{gcapitular|S}}er uma pobre morta inerte e fria, Hierática, deitada sob a terra, Sem saber se no mundo ha paz ou guerra, Sem ver nascer, sem ver morrer o dia, Luz apagada ao alto e que alumia, Bôca fechada à fala que não erra, Urna de bronze que a Verdade encerra, Ah! ser Eu essa morta inerte e fria! 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Quantas vezes no livro que tu lês Meu olhar se poisou e se perdeu! Trago-te como um filho nos meus braços! E na tua casa... Escuta!... Uns leves passos... Silêncio, meu Amor!... Abre! Sou eu!... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 4gc52x3mbqgi08wzowy4wkbw1hucotg 559957 559947 2026-08-21T11:54:07Z BlitzkriegBoop 37692 559957 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|''83''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Silêncio!...}} {{dhr|3em}} {{Bloco centro| <poem> {{gcapitular|N}}o fadário que é meu, neste penar, Noite alta, noite escura, noite morta, Sou o vento que geme e quere entrar, Sou o vento que vai bater-te à porta... Vivo longe de ti, mas que me importa? Se eu já não vivo em mim! Ando a vaguear Em roda à tua casa, a procurar Beber-te a voz, apaixonada, absorta! Estou junto de ti e não me vês... Quantas vezes no livro que tu lês Meu olhar se poisou e se perdeu! Trago-te como um filho nos meus braços! 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Mas que me importa a mim que me não queiras, Se esta pena, esta dôr, estas canseiras, Este mísero pungir, árduo e profundo Do teu frio desamor, dos teus desdens, É, na vida, o mais alto dos meus bens? É tudo quanto eu tenho neste mundo? </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 1fe9k93ug8swu4x6maqs9rhd76yxdjd 559956 559948 2026-08-21T11:53:54Z BlitzkriegBoop 37692 559956 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''84''|''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|O maior bem}} {{dhr|3em}} {{Bloco centro| <poem> {{gcapitular|Ê}}ste querer-te bem sem me quereres, Êste sofrer por ti constantemente, Andar atrás de ti sem tu me vêres Faria piedade a toda a gente. Mesmo a beijar-me a tua bôca mente... Quantos sangrentos beijos de mulheres Poisa na minha a tua bôca ardente, E quanto engano nos seus vãos dizeres!... Mas que me importa a mim que me não queiras, Se esta pena, esta dôr, estas canseiras, Este mísero pungir, árduo e profundo Do teu frio desamor, dos teus desdens, É, na vida, o mais alto dos meus bens? É tudo quanto eu tenho neste mundo? </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> e6eq3bfbholunraveim104nsz5t0ynk Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/89 106 256587 559949 2026-08-21T11:44:17Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559949 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|''85''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Os meus versos}} {{dhr|2em}} {{Bloco centro| <poem> {{gcapitular|R}}asga esses versos que eu te fiz, Amor! Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento, Que a cinza os cubra, que os arraste o vento, Que a tempestade os leve aonde fôr! Rasga-os na mente, se os souberes de cór, Que volte ao nada o nada dum momento! Julguei-me grande pelo sentimento, E pelo orgulho ainda sou maior!... Tanto verso já disse o que eu sonhei! Tantos penaram já o que eu penei! Azas que passam, todo o mundo as sente... Rasga os meus versos... Pobre endoidecida! Como se um grande amor cá nesta vida Não fosse o mesmo amor de toda a gente!... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> avflnvyfwz3d2iq8jq6qeb0mgm032yk 559955 559949 2026-08-21T11:53:25Z BlitzkriegBoop 37692 559955 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|''85''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Os meus versos}} {{dhr|3em}} {{Bloco centro| <poem> {{gcapitular|R}}asga esses versos que eu te fiz, Amor! Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento, Que a cinza os cubra, que os arraste o vento, Que a tempestade os leve aonde fôr! Rasga-os na mente, se os souberes de cór, Que volte ao nada o nada dum momento! Julguei-me grande pelo sentimento, E pelo orgulho ainda sou maior!... Tanto verso já disse o que eu sonhei! Tantos penaram já o que eu penei! 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Eu bem sei, meu Amor, que era preciso Fazer do amor que parte o claro riso Doutro amor impossivel que há de vir! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 9buhj3utd07s6ew3r4ukjtqgu9a6tw4 559954 559950 2026-08-21T11:53:13Z BlitzkriegBoop 37692 559954 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''86''|''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Amor que morre}} {{dhr|3em}} {{Bloco centro| <poem> {{gcapitular|O}} nosso amor morreu... Quem o diria! Quem o pensára mesmo ao ver-me tonta, Ceguinha de te ver, sem ver a conta Do tempo que passava, que fugia! Bem estava a sentir que êle morria... E outro clarão, ao longe, já desponta ! Um engano que morre... e logo aponta A luz doutra miragem fugidia... Eu bem sei, meu Amor, que p'ra viver São precisos amores, p'ra morrer E são precisos sonhos p'ra partir. 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Mas inda um dia, em mim, ébrio de côr, Há de nascer um roseiral em flor Ao sol de primavera doutra bôca! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 7jxg4h24uj8annrdygh161vvzr8szw7 559953 559951 2026-08-21T11:52:58Z BlitzkriegBoop 37692 559953 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|''87''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Sôbre a neve}} {{dhr|3em}} {{Bloco centro| <poem> {{gcapitular|S}}ôbre mim, teu desdem, pesado jaz Como um manto de neve... Quem dissera Porque tombou em plena primavera Toda essa neve que o inverno traz! Coroavas-me inda há pouco de lilás E de rosas silvestres... quando eu era Aquela que o Destino prometera Aos teus rútilos sonhos de rapaz! Dos beijos que me deste não te importas, Asas paradas de andorinhas mortas... Fôlhas de outôno em correria louca... 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Fôrça viva, brutal, em movimento, Astro arrastando catadupas de astros! </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> j0xwagmzt3ww36g24tgb5c2wqo908pz Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/93 106 256591 559962 2026-08-21T11:56:35Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559962 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh||''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|''89''}}{{lh}}</noinclude>{{ch|Vão orgulho}} {{dhr|3em}} {{Bloco centro| <poem> {{gcapitular|N}}este mundo vaidoso o amor é nada, É um orgulho a mais, outra vaidade, A corôa de loiros desfolhada Com que se espera a Imortalidade. Ser Beatriz! Natércia! Irrealidade... Mentira... Engano de alma desvairada... Onde está dêsses braços a verdade, Essa fogueira em cinzas apagadas?... Mentira! Não te quis... não me quiseste... Eflúvios subtís dum bem celeste? Gestos... palavras sem nenhum condão... Mentira! Não fui tua... não! Sómente... Quis ser mais do que sou, mais do que gente, No alto orgulho de o ter sido em vão!... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 1vrpo7w0u84nfbz7pi1syp4jdw9jhvo Página:Charneca em Flor - Florbela Espanca - 1931.pdf/94 106 256592 559963 2026-08-21T11:58:30Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 559963 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{rh|''90''|''{{uc|Reliequi{{ae|1}}}}''|}}{{lh}}</noinclude>{{Ch|Ultimo sonhe de «Sóror Saudade»}} {{dhr}} {{bloco centro| {{D|{{smaller|{{SC|Áquele que se perdera no caminho...}}}}}} {{dhr}} <poem> {{gcapitular|S}}óror Saudade abriu a sua cela... E, num encanto que ninguem traduz, Despiu o manto negro que era dela, Seu vestido de noiva de Jesus. E a noite escura, extasiada, ao vê-la, As brancas mãos no peito quasi em cruz, Teve um brilhar feérico de estrela Que se esfolhasse em pétalas de luz! Sóror Saudade olhou... Que olhar profundo Que sonha e espera?... Ah! como é feio o mundo, E os homens vãos! ― Então, devagarinho, Sóror Saudade entrou no seu convento... E, até morrer, resou, sem um lamento, Por ''Um'' que se perdera no caminho!... </poem>}} {{nop}}<noinclude></noinclude> qcqj4r5gw1yw1nbrdjagza430iby01m