Wikisource ptwikisource https://pt.wikisource.org/wiki/Wikisource:P%C3%A1gina_principal MediaWiki 1.47.0-wmf.16 first-letter Multimédia Especial Discussão Utilizador Utilizador Discussão Wikisource Wikisource Discussão Ficheiro Ficheiro Discussão MediaWiki MediaWiki Discussão Predefinição Predefinição Discussão Ajuda Ajuda Discussão Categoria Categoria Discussão Portal Portal Discussão Autor Autor Discussão Galeria Galeria Discussão Página Página Discussão Em Tradução Discussão Em Tradução Anexo Anexo Discussão TimedText TimedText talk Módulo Módulo Discussão Translations Translations talk Evento Evento Discussão Autor:A 102 1536 560244 555207 2026-08-23T03:09:24Z ~2026-46023-95 43630 /* */ 560244 wikitext text/x-wiki [[Categoria:Listas de autores]] gapqj7bsb232eki8tkt5hvjlh1ra4rv Autor:Antônio Vieira 102 11605 560224 548336 2026-08-22T21:45:55Z Junglk 34905 /* Sermões */ 560224 wikitext text/x-wiki {{Autor/v2 | InicialUltimoNome = V | nome = Antonio Vieira | nome completo = | nome nativo = Antonio Vieyra | imagem = Padre António Vieira.jpg | imagem_tamanho = | legenda = | nacionalidade = | data_nascimento = {{dni|6|2|1608|si}} | data_morte = {{morte|17|6|1694|6|2|1608}} | género = | período = | temas = | abl = | Wikipedia = António Vieira | Wikiquote = Padre Antônio Vieira | MiscBio = Foi um religioso português da Companhia de Jesus. Foi um dos mais influentes personagens de seu século em termos de política portuguesa, tendo se destacado como missionário em terras brasileiras. }} == Obras == {{Lista de documentos início}} {{Documento|data=1718|título=História do Futuro|galeria=Historia do futuro v.1 (1855).pdf|progresso=|gênero=Profecia|notas=}} {{Documento|data=1743|título=Arte de Furtar|galeria=Antonio Vieira - Arte de furtar (1855).pdf|progresso=|gênero=Ensaio|notas=}} {{Lista de documentos final}} {{Lista de documentos início|type=Sermões}} {{Documento|data=1633|título=Sermão XIV|galeria=|progresso=|notas=}} {{Documento|data=1639|título=Sermão da Dominga XIX depois do Pentecoste|galeria=|progresso=|notas=Incluí {{Som}}}} {{Documento|data=1639|título=Sermão XII|galeria=|progresso=|notas=}} {{Documento|data=1640|título=Sermão de Nossa Senhora do Ó|galeria=|progresso=|notas=}} {{Documento|data=1640|título=Sermão do Quarto Sabado da Quaresma|galeria=|progresso=|notas=}} {{Documento|data=1640|título=[[Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda (1640)|Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda]]|galeria=(1854) Sermões do padre Antonio Vieira, Volume 1.djvu|exportar=Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda (1640)|progresso=4|notas=}} {{Documento|data=1643|título=Sermão do Mandato|galeria=|progresso=|notas=}} {{Documento|data=1644|título=Sermão da Primeira Sexta-feira da Quaresma|galeria=|progresso=|notas=}} {{Documento|data=1649|título=Sermão nas Exéquias de D. 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{{BRAn|o}} | data_morte = {{morte|28|2|1861|||1827}} | género = | período = | temas = | abl = | MiscBio = '''Aureliano José Lessa''' foi um poeta da segunda geração do romantismo brasileiro. }} == Obras == {{Lista de documentos início|título=Título|class=unsortable}} {{Documento|data=1873|título=Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa|galeria=Aureliano José Lessa - Poesias posthumas (1873).pdf|exportar=Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa|progresso=4|sub-bloco=[[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/O poeta|Poeta]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Tristeza|Tristeza]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Eu|Eu]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Desesperança|Desesperança]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/A’ Diamantina (I)|A’ Diamantina]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Saüdade|Saüdade]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Consolação na morte|Consolação na morte]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/O que é amôr?|O que é amôr?]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/A’ Diamantina (II)|A’ Diamantina]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/O Poeta agonisante|O Poeta agonisante]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Mensagem|Mensagem]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/A’ tarde|A’ tarde]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Leviana|Leviana]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/O Sol|O Sol]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Amargura|Amargura]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/O Echo|O Echo]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/A Creação|A Creação]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Hymno da Creação|Hymno da Creação]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/A Rosa branca|A Rosa branca]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Desengano (I)|Desengano]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Soneto (I)|Soneto]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Canção|Canção]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/A…|A…]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/A’ morte de um passarinho|A’ morte de um passarinho]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Duas Auroras|Duas Auroras]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/A minha estrêlla|A minha estrêlla]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Ciümes|Ciümes]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/A’ uns annos|A’ uns annos]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Desprêzo à glória|Desprêzo à glória]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Mote|Mote]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Glosa|Glosa]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Tu|Tu]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Soneto (II)|Soneto]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/No tumulo de um infante|No tumulo de um infante]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Ella|Ella]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Aos annos de uma Senhora|Aos annos de uma Senhora]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Extasis|Extasis]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Enthusiasmo|Enthusiasmo]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/A minha rosa|A minha rosa]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Só se pode amar no céo|Só se pode amar no céo]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Despedida|Despedida]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Canto de Amôr|Canto de Amôr]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/A’ Noite|A’ Noite]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Consolação|Consolação]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Ultimo canto do Anachoreta|Ultimo canto do Anachoreta]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Desengano (II)|Desengano]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Gratidão|Gratidão]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Queixa|Queixa]] • [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa/Visão|Visão]]}} {{Lista de documentos final}} {{autores}} {{controle de autoridade}} {{DEFAULTSORT:Lessa, Aureliano José}} [[Categoria:Aureliano José Lessa| ]] qbk366lrd370ub88epcfz3i17w0p81g Autor:Ana de Castro Osório 102 197337 560269 555062 2026-08-23T08:37:39Z Mt516 43586 /* Contos */ 560269 wikitext text/x-wiki {{Autor/v2 | InicialUltimoNome = O | nome = Ana de Castro Osório | nome completo = | nome nativo = | imagem = | imagem_tamanho = | legenda = | data_nascimento = {{dni|18|6|1872|si}} | nacionalidade = {{PRTn|a}} | data_morte = {{morte|23|03|1932|18|6|1872}} | género = | período = | temas = | abl = | Wikipedia = | Wikiquote = | Wikicommons = | MiscBio = '''Ana de Castro Osório''' foi uma escritora, especialmente no domínio da literatura infantil, jornalista, pedagoga, feminista e ativista republicana portuguesa. }}{{autora}} ==Obras== ===Contos=== *Para as Crianças (1897-1935) **''Contos tradicionais portugueses'', 10 volumes ** ''Contos, Fábulas, Facécias e Exemplos da Tradição Popular Portuguesa'' ** ''Contos de Grimm'' (tradução do alemão) ** ''Alma infantil'' ** ''Animais'', 1903 ** ''Boas crianças'' **''Branca-Flor e outros contos'' **''Branca-Flor e outras histórias'' **''O Príncipe Luís e outras Histórias,'' 1897 **''O Esperto: e outras histórias'' **''Os Dez Anõezinhos Da Tia Verde-Água,'' 1897 **''Histórias escolhidas'' (tradução do alemão) **''Viagens aventurosas de Felício e Felizarda ao Polo Norte'', 1920 ** ''Viagens aventurosas de Felício e Felizarda ao Brasil,'' 1923 {{digitalização externa|https://catalog.hathitrust.org/Record/008556534}} ** ''[[Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa]],'' 1952, 2 volumes (compilação póstuma) === Teatro Infantil=== **''A comédia da Lili'', 1903 **''Um sermão do sr. Cura'', 1907 ===Outros=== * ''Infelizes: histórias vividas'', 1892 {{digitalização externa|https://catalog.hathitrust.org/Record/006637544}} * ''A Garrett no seu primeiro centenário'', 1899 * {{livro digitalizado|Ambições|Ambições (Ana de Castro Osório, 1903).pdf|''Ambições: romance''}}. Lisboa, Guimarães Libânio, 1903. * ''Bem prega Frei Tomás'' (comédia), 1905 * A Bem da Pátria ** ''As mães devem amamentar seus filhos'' ** ''A educação da criança pela mulher'' *''A nossa homenagem a Bocage'', 1905 *{{livro digitalizado|Ás Mulheres Portuguêsas|Ana de Castro Osório - Ás Mulheres Portuguêsas (1905).pdf|''Às mulheres portuguesas''}}, 1905 *''A minha Pátria,'' 1906 *{{livro digitalizado|Quatro Novelas|Ana de Castro Osório - Quatro Novelas (1908).pdf|''Quatro Novelas''}}, 1908 *''A boa mãe'', 1908 *{{livro digitalizado|A Mulher no Casamento e no Divórcio|Ana de Castro Osório - A Mulher no Casamento e no Divórcio (1911).pdf|''A mulher no casamento e no divórcio''}}, 1911 *''As operárias das fábricas de Setúbal e a greve''. Setúbal: O Radical, 1911 *''Lendo e Aprendendo''. S. Paulo, Brasil, Empresa de Propaganda Literária Luso-Brasileira, 1913 *''A influência da mãe na raça portuguesa''. Typographia Liberty, 1913 * {{livro digitalizado|A Mulher na agricultura, nas industrias regionaes e na administração municipal|A Mulher na agricultura, nas industrias regionaes e na Administração Municipal.pdf|''A Mulher na agricultura, nas industrias regionaes e na administração municipal''}}, 1915 *''Em tempo de Guerra'', 1918 *''De como Portugal foi chamado à Guerra'', 1918 *''A Capela das Rosas'', 1920 *''Dias de Festa'', 1921 *''A Grande Aliança: A Minha Propaganda no Brasil. Lisboa: Ed. Lusitania,'' 1922''. {{digitalização externa|https://catalog.hathitrust.org/Record/100987306}} *''Esperteza dum Sacristão,'' 1922 *''O Livrinho Encantador,'' 1924 *''O direito da mãe'', 1925 *''Mundo Novo'', 1927 *''O Príncipe das Maçãs de Oiro'', conto infantil, 1935 {{autores}} {{controle de autoridade}} [[Categoria:Ana de Castro Osório| ]] [[Categoria:Autoras]] 0eujlqgpaod6j5ur09zgs50w4ocikvd Autor:Oswald de Andrade 102 211106 560214 556154 2026-08-22T18:01:52Z Junglk 34905 560214 wikitext text/x-wiki {{Autor/v2 | InicialUltimoNome = A | nome = Oswald de Andrade | nome completo = José Oswald de Sousa de Andrade | nome nativo = | imagem = | imagem_tamanho = | legenda = | nacionalidade = {{BRAn|o}} | data_nascimento = {{dni|11|1|1890|si}} | data_morte = {{morte|22|10|1954|11|1|1890}} | género = Masculino | período = Modernismo | temas = Nacionalismo, antropofagia, modernismo | abl = | Wikipedia = Oswald de Andrade | Wikiquote = Oswald de Andrade | Wikicommons = Oswald de Andrade | MiscBio = '''José Oswald de Sousa de Andrade''' foi um poeta, escritor, ensaísta e dramaturgo brasileiro. }} == Obras == {{Autor-digitalizar}} {{Lista de documentos início|gênero}} {{Documento|data=1921|título=O Meu Poeta Futurista|galeria=|progresso=|gênero=Ensaio|notas=}} {{Documento|data=1922|título=Os Condenados|galeria=Oswald de Andrade - A trilogia do exílio, Volume 1 (1922, 1ª edição).pdf|progresso=|gênero=Romance|notas=1º volume da Trilogia do Exílio}} {{Documento|data=1924|título=Memórias Sentimentais de João Miramar|galeria=Oswald de Andrade - Memórias sentimentais de João Miramar (1924).pdf|progresso=|gênero=Romance|notas=}} {{Documento|data=1924|título=Manifesto da Poesia Pau-Brasil|galeria=|progresso=|gênero=Manifesto|notas=}} {{Documento|data=1925|título=Pau Brasil|galeria=Pau Brasil (Andrade, 1925).pdf|progresso=4|gênero=Poesia|notas=|exportar=Pau Brasil}} {{Documento|data=1925|título=Poesias Reunidas de Oswald Andrade|galeria=|progresso=|gênero=Poesia|notas=}} {{Documento|data=1927|título=A Estrela de Absinto|galeria=A estrella de absyntho.pdf|progresso=|gênero=Romance|notas=2º volume da Trilogia do Exílio}} {{Documento|data=1927|título=Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade|galeria=Oswald de Andrade - Primeiro caderno do aluno de poesia (1927).pdf|progresso=|gênero=Poesia|notas=}} {{Documento|data=1928|título=Manifesto Antropófago|galeria=|progresso=|gênero=Manifesto|notas=}} {{Documento|data=1931|título=Manifesto Ordem e Progresso|galeria=|progresso=|gênero=Manifesto|notas=In: ''[[O Homem do Povo]]''}} {{Documento|data=1933|título=Serafim Ponte Grande|galeria=Oswald de Andrade - 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'|Transcrição do livro]]</span>&nbsp;' else icon_html = '<span style="display:inline-block; width:22px;"></span>&nbsp;' end html = html .. new_row('padding-right:2em;', sort_title or doc_text) .. icon_html if mw_title then if mw_title.isExternal then html = html .. '[[' .. doc_target .. '|' .. doc_text .. ']]' .. doc_comment .. '&nbsp;' elseif mw_title.exists then html = html .. '[[' .. mw_title.fullText .. '|' .. doc_text .. ']]' .. doc_comment .. '&nbsp;' else html = html .. doc_text .. doc_comment .. '&nbsp;' end else if doc_target ~= args['título'] or mw.ustring.match(args['título'], '^%s*%[%[') then html = html .. '[[' .. doc_target .. '|' .. doc_text .. ']]' .. doc_comment .. '&nbsp;' else html = html .. doc_text .. doc_comment .. 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'|Visualização e edição de dados no Wikidata]]' end local sub_content = args['sub-bloco'] or args['sub_bloco'] or args['conteúdo'] or args['obras'] if sub_content then local sub_div = mw.html.create('div') sub_div:addClass('documento-sub-bloco') :css('margin-top', '0.35em') :css('padding-left', '26px') :css('font-size', '90%') :css('line-height', '1.4') :css('color', '#333') :wikitext(sub_content) html = html .. tostring(sub_div) end if args.tn then html = html .. new_row('font-size:90%; padding-right:2em;', args['tn alpha']) .. args.tn end if args.autor then local autor_target = args.autor local autor_text = args.autor local is_link = false for c1, c2 in mw.ustring.gmatch(args.autor, '%[%[([^|]*)|(.*)%]%]') do autor_target = c1 autor_text = c2 is_link = true end for c in mw.ustring.gmatch(args.autor, '%[%[([^|]*)%]%]') do autor_target = c autor_text = c is_link = true end html = html .. new_row('font-size:90%; padding-right:2em;', args['autor alpha']) local autor_title = mw.title.new(autor_target, 'Autor') if autor_title then if autor_title.isExternal then html = html .. 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'|Visualização e edição de dados no Wikidata]]' end local sub_block_html = '' local sub_content = args['sub-bloco'] or args['sub_bloco'] or args['conteúdo'] or args['obras'] if sub_content then local sub_div = mw.html.create('div') sub_div:addClass('documento-sub-bloco') :css('margin-top', '0.35em') :css('padding-left', '0.8em') :css('font-size', '90%') :css('line-height', '1.4') :css('color', '#333') :wikitext(sub_content) sub_block_html = tostring(sub_div) end local cell_container = mw.html.create('div') cell_container:css('display', 'flex') :css('align-items', 'flex-start') local icon_box = cell_container:tag('span') icon_box:css('flex', '0 0 24px') :css('width', '24px') :css('min-width', '24px') :css('line-height', '1') :css('margin-top', '2px') if icon_content ~= '' then icon_box:wikitext(icon_content) end local text_box = cell_container:tag('div') text_box:css('flex', '1 1 auto') :css('min-width', '0') :wikitext(title_html .. extra_icons .. sub_block_html) html = html .. new_row('padding-right:2em;', sort_title or doc_title_text) .. tostring(cell_container) if args.tn then html = html .. new_row('font-size:90%; padding-right:2em;', args['tn alpha']) .. args.tn end if args.autor then local autor_target = args.autor local autor_text = args.autor local is_link = false for c1, c2 in mw.ustring.gmatch(args.autor, '%[%[([^|]*)|(.*)%]%]') do autor_target = c1 autor_text = c2 is_link = true end for c in mw.ustring.gmatch(args.autor, '%[%[([^|]*)%]%]') do autor_target = c autor_text = c is_link = true end html = html .. new_row('font-size:90%; padding-right:2em;', args['autor alpha']) local autor_title = mw.title.new(autor_target, 'Autor') if autor_title then if autor_title.isExternal then html = html .. 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Utilizada em conjunto com {{tl|Documento}} (linhas da tabela) e {{tl|Lista de documentos final}} (encerramento da tabela).<section end=description /> === Sintaxes === ; Sintaxe básica (Ano + Título e edições): :<code><nowiki>{{Lista de documentos início}}</nowiki></code> ; Sintaxe com colunas extras (Autor, Gênero, Scan, etc.): :<code><nowiki>{{Lista de documentos início | autor | gênero | scan}}</nowiki></code> ; Sintaxe com cabeçalhos e parâmetros personalizados: :<code><nowiki>{{Lista de documentos início | data=Ano | type=Título e edições | autor | gênero | scan | notas=Notas | largura=100}}</nowiki></code> === Parâmetros === ===== Colunas adicionais (Parâmetros posicionais: 1, 2 e 3) ===== Insira os valores como argumentos sem nome para ativar colunas extras entre o título e as notas: * <code>tn</code> : Ativa a coluna de **Título nativo/original** (padrão: <code>Título original</code>). * <code>autor</code> : Ativa a coluna de **Autor** (padrão: <code>Autor</code>). * <code>tradutor</code> : Ativa a coluna de **Tradutor** (padrão: <code>Tradutor</code>). * <code>gênero</code> : Ativa a coluna de **Gênero** (padrão: <code>Gênero</code> ou <code>Gêneros</code>). * <code>scan</code> : Ativa a coluna de **Fac-símile / Digitalização** (coluna não ordenável). ===== 2. Personalização dos Cabeçalhos ===== * <code>data=</code> : Altera o cabeçalho da 1ª coluna (padrão: <code>Ano</code>). Ex.: <code>|data=Data</code> ou <code>|data=Publicação</code>. * <code>type=</code> : Altera o cabeçalho da 2ª coluna (padrão: <code>Títulos e edições</code>). Ex.: <code>|type=Obras</code> ou <code>|type=Poemas</code>. * <code>cabeçalho autor=</code> : Altera o texto do cabeçalho da coluna de autor (padrão: <code>Autor</code>). * <code>cabeçalho tradutor=</code> : Altera o texto do cabeçalho da coluna de tradutor (padrão: <code>Tradutor</code>). * <code>cabeçalho gênero=</code> : Altera o texto do cabeçalho da coluna de gênero (padrão: <code>Gênero</code>). * <code>cabeçalho tn=</code> : Altera o texto do cabeçalho da coluna de título original (padrão: <code>Título original</code>). * <code>cabeçalho scan=</code> : Altera o texto do cabeçalho da coluna de digitalização (padrão: <code>Fac-similé</code>). * <code>notas=</code> : Ativa a coluna final de notas/observações com o nome informado no valor. Ex.: <code>|notas=Observações</code>. ===== 3. Formatação da Tabela ===== * <code>largura=</code> : Define a largura da tabela em porcentagem. Ex.: <code>|largura=100</code>. * <code>class=</code> : Define classes CSS adicionais da tabela (padrão: <code>sortable</code>). * <code>rules=</code> : Define o atributo HTML rules da tabela (ex.: <code>rows</code>, <code>all</code>). === Exemplos === ===== Exemplo 1: Tabela básica com sub-obras (antologias/coletâneas) ===== <pre> {{Lista de documentos início}} {{Documento | data = 1873 | título = [[Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa]] | galeria = Aureliano José Lessa - Poesias posthumas (1873).pdf | exportar = Poesias posthumas do Dr. Aureliano José Lessa | sub-bloco = [[Poesias posthumas/Poeta|Poeta]] • [[Poesias posthumas/Tristeza|Tristeza]] • [[Poesias posthumas/Eu|Eu]] }} {{Documento | data = 1880 | título = [[Obras Escolhidas]] }} {{Lista de documentos final}} </pre> ===== Exemplo 2: Tabela completa com colunas extras ===== <pre> {{Lista de documentos início | autor | gênero | scan | notas=Observações | largura=100}} {{Documento | data = 1899 | título = [[Dom Casmurro]] | galeria = Dom Casmurro (1899).pdf | autor = [[Autor:Machado de Assis|Machado de Assis]] | gênero = Romance | scan = {{esl|https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/4828}} | notas = 1.ª edição }} {{Lista de documentos final}} </pre> == Ver também == * {{tl|Documento}} : O modelo principal para inclusão de cada obra/linha. * {{tl|Lista de documentos final}} : Delimitador de encerramento da tabela. <includeonly> [[Categoria:!Predefinições para bibliografias]] [[Categoria:!Predefinições de formatação do Wikisource]] </includeonly> 96c7xw27r6jsuhfaydaj6kxzxbpdfx2 Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/Prefácio 0 255972 560267 559037 2026-08-23T08:18:08Z Mt516 43586 560267 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = Prefácio | anterior = | posterior = [[../O Homem da moca|O Homem da moca]] | notas = }} O título desta obra — «Histórias Maravilhosas da Tradição Popular» — exprime fielmente o seu alto e perene valor e o seu significado poético e cultural. O subtítulo — «recolhidas e contadas por D. Ana de Castro Osório» — indica não só a autoria literária, ou, melhor, a colaboração literária dada por uma grande Escritora ao génio do Povo, mas também a probidade e a perfeita beleza desta realização. Não carece, por isto, a obra que damos ao público, em edição definitiva e completa, de uma longa apresentação dos Editores. Parece-nos justo, no entanto, inscrever nela algumas palavras liminares, demonstrativas principalmente da consciência com que oferecemos aos Países de Língua Portuguesa, este monumento literário, único em sua vastidão e beleza, o Livro onde ficará sempre vivo o génio de um Povo, através das suas mais belas tradições. Palavras também de justa homenagem à memória de quem com intuição única, lúcido amor pela sua raça, dedicação constante de uma vida e os mais altos dotes literários, pôde realizar esta obra — a escritora D. Ana de Castro Osório. A tradição popular portuguesa é, sem dúvida, uma das mais ricas e de maior elevação de alma. No campo vastíssimo da Literatura Tradicional, por tempo incontável mantida, sucessivamente acrescentada e refeita, e sempre vivida, têm lugar primordial as Histórias Maravilhosas, designação geral que significa toda a narrativa em que se fixou ou recriou um mito, um sentimento do maravilhoso da vida humana e de tudo que a prolonga no mistério. Todo esse maravilhoso tradicional precisava de ser amorosa e inteligentemente recolhido com a intuição do Poeta mais ainda que pela ciência do Folclore. Foi esta obra de recolha da tradição popular realizada, com a dedicação de largo tempo da sua vida, por D. Ana de Castro Osório. Iniciou-a na mocidade, em Mangualde (onde nascera em 18 de Junho de 1872); continuou-a, na juventude, em Setúbal, e ali a terminou, já depois de casada com o poeta Paulino de Oliveira, que muito a animou a prosseguir na realização total do seu empreendimento. Todas estas Histórias foram recolhidas, por um espírito de verdadeira poesia, da tradição oral do grande poeta que é o Povo. Já antes da ilustre escritora, alguns sábios folcloristas haviam começado a obra meritória da recolha, científica, digamos assim, destas e outras mais tradições populares, fixando as suas múltiplas e quase sempre incompletas e imperfeitas versões. Mas não foi aos seus livros de ciência etnográfica ou de folclore que D. Ana de Castro Osório pediu a matéria de sua obra inicial — a criação de uma Literatura Infantil Portuguesa, com base principal nos contos e histórias tradicionais. Foi à matéria, viva e palpitante de sonho, da própria oralidade. Foi agente do povo que, depois, consagrou numa página literária de grande beleza: «Os narradores das lindas histórias». E com o mesmo espírito de poesia as reviveu e recriou, sentindo com a alma do Povo, na sua maior altura; reconstituindo, pela reunião de várias versões ou a intuição poética, o que fora esquecido; purificando,o que se deturpara na tradição oral, sem desumanizar nem alindar mas procurando sempre a perfeição da beleza perene. Esta recriação literária, no sentido melhor e mais puro da palavra, pode considerar-se única em todo o Mundo. A França conta, é certo, com a obra semelhante de Charles Perrault; a Alemanha com a dos irmãos Grimm. Mas a primeira, pelas próprias qualidades e defeitos de época literária e social, de Classicismo e de muito imperfeita compreensão e escasso amor do Povo, e, a segunda, por mais estreito espírito científico e menor sentimento poético, uma e outra não alcançaram a realização que era necessária. E esta — a reconstituição viva e completa dos mitos de tradição popular e sua recriação com beleza perfeita para todos e para sempre válida — realizou-a D. Ana de Castro Osório. A obra fez-se por este sentimento da Poesia e da grandeza humana. Em 1897, com os primeiros contos e histórias, recolhidos na sua mocidade, iniciou D. Ana de Castro Osório a publicação, em fascículos, comovedores por sua modéstia de apresentação gráfica, da sua Colecção de contos «Para as Crianças». Nela foram publicadas algumas obras de criação exclusivamente pessoal; os contos e facécias que exprimem o bom senso e a sátira risonha ou pungente do Povo; e, constituindo o principal de nove séries de fascículos das dezóito dessa Colecção Para as Crianças, as Histórias Maravilhosas. Com esta obra persistente foi, verdadeiramente, D. Ana de Castro Osório a criadora da Literatura Infantil Portuguesa. Mas a tão alto e realizado intuito um outro, maior ainda, se sobrepunha, o de aperfeiçoar, progressivamente, e com o carinho e o respeito exemplar que merece o génio do Povo, todas essas Histórias maravilhosas e de as reunir e ordenar de modo a constituirem um monumento definitivo da Literatura Portuguesa. Em edições sucessivas e numa revisão final, de grande Artista na plena posse das suas qualidades, antes da sua morte (em 23 de Março de 1935) preparou D. Ana de Castro Osório a obra perfeita que hoje damos ao público. Destina-se a todas as crianças e a todos os adultos; aos indivíduos de cultura superior e ao Povo; aos que procuram a beleza da eterna Poesia humana e aos folcloristas que a desejam estudar em suas origens e permanência na tradição. Em notas finais a estes volumes serão indicadas as fontes orais, a origem local das versões recolhidas, os nomes dos seus narradores populares. Porque esta obra da mais alta e válida literatura é também uma obra com base, a mais firme, na ciência do folclore. Interessará, por isso, estamos certos, não só aos homens de língua portuguesa mas também aos homens cultos de todo o Mundo. Mas é na verdade, para todos que falam o português que ela tem o principal e inexcedível interesse — o de constituir um dos Livros essenciais da sua cultura, fonte de beleza moral e de grandeza espiritual. Por o compreendermos desejámos fazer esta edição definitiva das Histórias Maravilhosas do Povo Português, contadas por D. Ana de Castro Osório, sobre a versão última e perfeita, pela muito ilustre senhora revista e que nos foi confiada pelos seus filhos, os escritores João de Castro Osório e José Osório de Oliveira. Os Editores crêem que melhor não poderiam, do que por esta edição, corresponder ao intuito expresso no seu nome. SOCIEDADE DE EXPANSÃO CULTURAL, LDA. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|*Prefacio]] pil7w2nwag2p4wkegcrb5vngih24kwx Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O Homem da moca 0 255973 560250 559683 2026-08-23T08:05:50Z Mt516 43586 560250 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O Homem da moca | anterior = [[../Prefácio/]] | posterior = [[../História do careca/]] | notas = }} <big>'''O HOMEM DA MOCA'''</big> HAVIA numa terra, que não vem para aqui dizer o nome, um rapaz dotado duma força tal que nenhum homem se atrevia a lutar com ele. Mas, como era bom e alegre, todos o convidavam e lhe chamavam o Benvindo significando assim o prazer que sentiam com a sua companhia. Um dia aborreceu-se de viver ali e resolveu ir viajar. Mandou fazer uma grande moca de ferro e, encostando-se a ela, partiu sem destino, ao acaso da sua fantasia. Passou por um pinhal e viu um homem que arrancava grandes pinheiros com a maior facilidade e os atava em molho como se fossem ramos secos. O ''Homem da moca'' perguntou ao outro o que andava a fazer e, como lhe respondesse que andava ajuntar lenha para o seu lume e tencionava levar duma vez as árvores todas, ficou muito contente de encontrar um homem com tanta força e propôs-lhe serem companheiros, pagando-lhe ele soldada. O ''Arranca-pinheiros'' aceitou logo e, satisfeitos de serem dois valentes sem medo a coisa alguma, continuaram a jornada. Depois de muito caminharem e de verem inúmeras terras sem nunca encontrarem quem os vencesse, viram no meio dum campo um homem só com uma montanha às costas. Admirados, perguntaram: — Olá, tu que fazes aí? — Eu tenho muita força e para me entreter quero mudar esta montanha. — Deixa-te disso — acudiu ''O da moca'' — vem daí connosco ver terras, que eu pago-te soldada como pago a este. O ''Revolve-montes'' aceitou e lá. foram os três valentes correr mundo. Eram a admiração de toda a gente e muitos Reis e Imperadores os quiseram fazer generais dos seus exércitos. Mas o ''Homem da moca'' nada mais desejava do que ver terras, correr mundo e conhecer novas gentes. Assim foram andando até que uma noite acharam-se num descampado onde havia uma casa. Não vendo más nem boas, para ali se dirigiram e ficaram verdadeiramente espantados por encontrarem uma boa casa completamente abandonada. Benvindo, que não era homem para meias medidas, entrou por ali dentro, tomou posse de tudo e disse aos companheiros que era preciso fazer a ceia e então que fosse um deles ver se encontrava quem lhe desse ou vendesse coisa que pudessem comer. Saiu o ''Arranca-pinheiros'' e, como visse fogueiras na serra, discorreu que eram os pastores e foi comprar um carneiro e bom leite. Por conversa perguntou de quem era aquela grande casa e porque razão estava assim abandonada. Responderam-lhe os pastores: — A casa lá de baixo?! Ai senhor, Deus o livre de lá ficar! — Mas porquê, homenzinhos?! Digam sempre, que nós somos três companheiros invencíveis, sem medo a coisa alguma. — Pois os senhores serão muito valentes, ninguém diz menos disso (responderam os pastores), mas é que naquela casa anda o Diabo e quem lá ficar morre! — Vamos a ver se ele é mais forte do que nós! Foi ter com os companheiros e, contando oque lhe tinham dito os pastores, pediu a Benvindo que se fosse deitar mais o ''Revolve-montes'', que ele ficaria fazendo a ceia. Assim foi; os dois subiram para os quartos e o ''Arranca-pinheiros'' tratou de esfolar o carneiro e pô-lo a assar no espeto, ao mesmo tempo que deitava o leite num tacho para ferver. Estava nestes preparativos quando ouviu uns ''miaus'' terríveis. Voltou-se e deu de cara com um gatarrão, preto como o azeviche, que abria uma boca enorme miando desesperadamente. Era tão medonho o animal que o ''Arranca-pinheiros'', apesar da sua valentia, fugiu pela escada acima, chamando os companheiros. Entretanto foi o gato ao lume e levantou tal labareda que o carneiro ficou em carvão e o leite em fervura fugiu todo do tacho. Vieram os companheiros ver o gato famoso que havia afugentado o valente, mas nada encontraram. O ''Homem da moca'' muito zangado mandou pôr a ceia na mesa, mas a ceia era uma vez!, tiveram que se deitar sem ela. Ao outro dia quiseram os dois ir-se embora, mas ''O da moca'', tendo empenho de conhecer a coragem dos seus homens, resolveu ficar. Mandou outra vez comprar um carneiro e leite e nessa noite foi o ''Revolve-monte''s quem ficou a fazer a ceia. Mal o homem tinha posto tudo ao lume, ouvindo o sinistro miar do gato, largou barcos e redes e foi acorrer ter com os companheiros gritando que estava ali o Diabo com forma de gato, a deitar lume pelos olhos! Os outros desceram e não viram nada, mas, como na véspera, tiveram que ficar sem ceia — porque tudo estava reduzido a carvões. Na noite seguinte mandou ''O da moca'' deitar os dois e ficou ele a cozinhar a ceia, pondo ao pé de si a arma sua fiel companheira. Tinha já a ceia pronta e estava para chamar os outros dois, quando ouviu o gato a miar. Olhou para o lado, viu o bicho e disse-lhe: — Anda para cá com o teu ''renhau-nhau'', que eu te ensino! O gato, sem fazer caso, ia-se aproximando do lume; e o homem, sempre com olhos nele, pegou na moca e quando o viu ao alcance levantou-a ràpidamente e arrumou-lhe tamanha pancada que o bicho deu um berro medonho e desapareceu. — Então não te dizia eu que me havias de pagar!? Deixares-me duas noites sem ceia!? Ora toma lá para não seres esperto! — dizia ele todo contente. Chamou os companheiros para a ceia, e eles, que já o imaginavam cheio de susto, ficaram envergonhados de o verem a rir muito satisfeito da sua proeza. Cearam com todo o descanso e apetite, e depois disse ''O da moca'': — Agora vamos procurar o gato, que ele deve estar por aí escondido em algum canto. Respondeu o ''Arranca-pinheiros'': — Então como havemos de o encontrar? — Procurando-o, meu bruto! Pois tu não vês que deixou rastro de sangue? ''O da moca'', sempre na frente, foi seguindo e, depois de percorrerem lojas, subterrâneos e velhos casarões abandonados, chegaram a um pátio interior onde havia um poço. Terminava ali o rastro de sangue, que ainda se via na borda. — Bom! (disse Benvindo). Foi por aqui que ele se meteu, e nós vamos lá abaixo procurá-lo. — Como havemos nós de descer? — perguntaram os outros, sempre atrapalhados. — Isso já se arranja. Fiquem vocês aguardar a saída, que eu já volto. Foi à cozinha, onde tinha visto cordas e cestos, escolheu um com quatro asas e trouxe tudo para aborda do poço. Atou as cordas às quatro asas do cesto e fazendo entrar para dentro o ''Arranca-pinheiros'' deu-lhe uma campainha dizendo: Tu vais descer lá ao fundo e ver o que há para vires contar; levas esta campainha, se te vires aflito toca-a com força que nós içamos-te logo. O ''Arranca-pinheiros'' lá se meteu no cesto e os dois começaram a deixá-lo cair devagarinho. Estaria por aí a meio do poço, começou a tocar a campainha com tal fúria que os outros o subiram logo. Perguntou ''O da moca'': — Então para que tocaste? O que viste? — Ih, Jesus! eram tantos os mosquitos que não era possível romper. Até me iam abafando! — És um bruto que só tens força e não tens coragem nenhuma. Agora vai tu, ''Revolve-montes''. Meteu-se este no cesto e foi descendo, mas quando estaria a duas terças partes do caminho desanda a tocar numa tal fúria que não houve mais remédio senão tirá-lo. Chegou acima e disse o mesmo que tinha dito o ''Arranca-pinheiros''. ''O Homem da moca'' ficou tão zangado que ele próprio se meteu no cesto e recomendou que ouvindo tocar não o subissem porque isso apenas queria dizer que precisava descer mais depressa; que só içassem o cesto quando ele abanasse as cordas. Assim foi. A meio do poço, como eram tantos os mosquitos que já o atabafavam, começou a tocar e os de cima vá de largar corda. Foi um instante enquanto se viu com os pés no chão. Saiu do cesto e ficou maravilhado. Dos mosquitos nem sinal! E o fundo do poço não era mais que um palácio, todo de cristal, iluminado como se fosse dia. Começou a percorrer salas e quartos e por toda a parte as riquezas eram tais e tantas que ele se imaginava a sonhar. Assim andou, sem ver ninguém, até encontrar uma Velha que, admirada e compungida, lhe disse: — Que vens aqui fazer, desgraçado? Pois tu não sabes onde estás?! — Para o saber é que venho — respondeu ele arrogante — e se tu não mo dizes, com esta moca te esmago já. Porque é de saber que ele nunca largava a sua arma. A Velha, vendo-se perdida com semelhante ameaça, disse logo: — Espera lá, espera lá, que eu tudo te conto. Olha, naquele quarto está a filha mais velha dum grande Rei, guardada por um leão. Se ele te vê, devora-te. No segundo quarto está a segunda filha do mesmo Rei, guardada por uma serpente, a maior que existe no Mundo. Se lhe apareces, decerto que te engole. E no terceiro quarto está a terceira Princesa que, por ser a mais bela de todas, é guardada pelo próprio Diabo. — Hum! Pois a procurar esse ''figurão'' é que eu vim. Deixa, que ele já provou a minha moca; então vai renovar conhecimentos. — Não — disse a Velha — não fazes nada com isso. Visto que ele já sabe quanto pesa a tua bengala não há-de querer mais brincadeiras dessas. Naturalmente propõe-te um duelo à espada, e tu aceita logo; mas quando ele vier com as espadas, uma muito nova e brilhante, outra muito ferrugenta, escolhe tu esta que a outra é de vidro. — Tu estás a enganar-me? — Não estou, não; previno-te porque assim me vingo dele que me tem presa aqui desde a minha mocidade. Não digas que me viste, é só o que te peço. O rapaz dirigiu-se logo para a primeira porta, abriu-a e encontrou uma linda menina, sentada num banco de oiro, abanando-se com um leque de rendas preciosas. Quando ela o viu entrar, gritou-lhe: — Que vem aqui fazer, desgraçado?! Fuja, que é um leão o meu guarda; se o encontra, mata-o logo. — Pois, minha linda Princesa, eu é que venho para o matar a ele e então já daqui não saio. Mal isto disse, um rugido medonho fez tremer todo o palácio e o homem não teve senão tempo de se meter atrás da porta, enquanto a Princesa, estarrecida de susto, o encomendava a todos os Santos. Abriu-se a porta com formidável estrondo e o leão rugiu: — Aqui há humana criatura!... Mas nem a Princesa teve tempo de responder porque o ''Homem da moca'' descarregou tamanha pancada na cabeça do monstro que ele ficou logo morto. Depois agarrou na Princesa ao colo e foi a correr metê-la no cesto. Deu um grande puxão à corda, que começou logo a subir, e disse à Princesa que mandasse descê-lo, para irem as irmãs. Ela despediu-se, dando-lhe em sinal de reconhecimento o seu precioso leque. Vitorioso daquele primeiro inimigo, dirigiu-se ao segundo quarto. Abriu aporta e deparou com uma menina, se era possível, ainda mais linda do que a primeira. Sentada junto duma mesa, tinha na mão um ramo de mil flores feito de pedras preciosas. Mal viu o rapaz, disse-lhe com tristeza: — Fuja depressa, que a minha guarda é uma serpente, e se aqui o apanha mata-o logo. — Não fugirei, minha linda Infanta, porque já salvei a sua irmã e aqui estou para a salvar também. Mal tinham dito estas palavras ouviram um silvo medonho e uma serpente monstruosa apareceu: — Quem está aqui a falar?! Não respondeu a menina, que Benvindo, rápido como um relâmpago, saiu de trás da porta e deu tal pancada no mostrengo que ele ficou logo ali despedaçado. A menina, doida de contentamento, saltou-lhe ao pescoço e ele pegou nela ao colo e foi acorrer metê-la no cesto. Sacudindo as cordas fortemente, fez-lhe a recomendação de o mandar descer para ir a terceira Princesa. Ela prometeu, e como prova de reconhecimento deu-lhe também o seu ramo. Mal o cesto começou a subir, foi a correr ao terceiro quarto, abriu a porta e ficou deslumbrado vendo a terceira Princesa, que era a mais linda de todas. Nada havia no mundo a que a comparar, porque a sua formosura parecia divina. Sentada num banquinho de marfim, fiava numa roca feita dum só brilhante. Mal deu com os olhos no rapaz ficou muito contente e ao mesmo tempo admirada, porque homens era coisa que nunca vira, tendo sido roubada pelo Diabo logo que nasceu. Depois ficou muito triste, dizendo: — O que vem aqui fazer, infeliz? Não sabe que é o Diabo quem me guarda? Que é ele o senhor deste palácio, que é ele quem aqui tudo manda, e se o apanhar o matará?! — Pois à procura dele venho eu (disse Benvindo). Até já me está tardando encontrar-me com esse sujeito para o ensinar bem ensinado. — É que nem o senhor sabe quem ele é; se cá o apanha mata-o logo. — Veremos isso!... — Olhe, lá vem ele! — E, muito aflita, pôs-se a menina afiar disfarçadamente, enquanto ''O da moca'' se metia atrás da porta. Nisto sentiu-se um formidável barulho, todo o palácio estremeceu, e, como um furacão, entrou o Diabo a gritar: — Aqui está gente!... O rapaz ia a descarregar-lhe uma violenta pancada, mas o ''inimigo'', que era mais fino do que fora o leão e do que a serpente; desviou-se para o lado com um salto, dizendo: — Nada, lá com a moca é que não! Já uma vez me deste com ela que me ias arrebentando. Entre valentes o caso vai doutra maneira. Havemos de nos bater à espada. — Pois seja; aceito. Vai lá buscar as espadas. Se tu ficares vencedor, matas-me; se eu te vencer a ti, levo esta menina e tu nunca mais te meterás comigo. — Está dito! — respondeu o Diabo. E muito contente foi buscar duas espadas, uma muito reluzente e outra muito ferrugenta. Queria entregar a brilhante ao rapaz, mas ele recordou-se do conselho da Velha, lançou mão da outra, dizendo em ar de graça: — Nada de cerimónias, amigo; eu não sou para essas delicadezas. E levantando a espada começou o combate partindo em mil pedaços a que tinha o Diabo e dando-lhe tal cutilada que lhe cortou uma orelha. Vencedor, nem esperou que voltasse a si da surpresa o seu adversário; apanhou a orelha e meteu-a no bolso. Depois pegou na menina e foi a correr pô-la no cesto, dizendo-lhe que mandasse o descessem, para ele depois subir. A lindíssima Princesa, agradecendo-lhe muito, queria que ele subisse no mesmo cesto, com medo que ainda o Diabo lhe fizesse alguma. Mas o cesto era pequeno para os dois. Benvindo tratou de a sossegar, e ela, em sinal da sua imensa gratidão, deu-lhe a roca. Ali ficou Benvindo à espera; e fartou-se de esperar que lhe deitassem o cesto para ele subir. Mas isso é que não podia acontecer porque mal se viram com as Princesas, os falsos foram-se embora com elas, sem quererem saber do companheiro que as tinha ido libertar. As Princesas não queriam ir, mas não podiam resistir à força deles. Só a mais nova chorou e se afligiu tanto que perdeu a fala. Dirigiram-se para o Reino do pai das Princesas, o qual ficou tão contente que não se pode dizer mais. Em sinal de regozijo decretou logo grandes festas e um torneio esplêndido, para solenizar tão grande ventura e, ao mesmo tempo, fazer público o casamento das duas Princesas mais velhas com os que se inculcavam seus libertadores. Só no meio de tanta felicidade havia o imenso desgosto da Princesa mais nova ter perdido a fala. Por mais que lhe dissessem e fizessem, ela nada respondia e a sua vida era chorar. Por esse motivo resolveu o Rei dar três grandes torneios para reunir na sua capital todos os Príncipes e Cavaleiros do Mundo, a ver se à Princesa lhe voltava a fala e escolhia marido. <p style="text-align: center;">* * *</p> ''O da moca'', que ficou no fundo do poço, farto de esperar e tornar a esperar, convenceu-se de que tinha sido enganado e jurou vingar-se. Sair dali é que era o principal e também o mais difícil. Andou para um lado e para o outro, percorreu todo o maravilhoso palácio subterrâneo, mas ninguém encontrou. Passados três dias, já desesperado, voltou ao fundo do poço, lembrou-se que tinha no bolso a orelha do diabo e cheio de raiva esfregou-a com muita força na parede, dizendo: — Este é que tem a culpa de tudo. Ouviu logo uma voz gritar: — Ai, minha rica orelha, dá-me cá a minha orelha!... — Não dou! Põe-me lá em cima imediatamente, senão ainda farei pior. Não viu o Diabo mais remédio senão aparecer e dizer-lhe que montasse nos seus ombros, que seria um instante enquanto o levaria. O rapaz subiu e ei-los aí vão pela terra acima. A meio do poço diz o Diabo: — Não me apertes tanto, olha que me afogas! — Nada, não hei-de apertar! O que tu agora querias era largar-me. E, apertando ainda mais o pescoço do Diabo, num momento se apanhou em cima. Mal se viu ao ar livre, correu em procura dos companheiros e das Princesas, mas ninguém lhe dava sinais certos da sua passagem. Andando e perguntando, chegou à grande cidade onde eles agora estavam. Logo ali soube as alegrias que iam no Paço, do casamento das duas irmãs mais velhas e dos preparativos que, para o torneio e mais festas, se faziam. De toda a parte do Mundo tinham já chegado Príncipes e Cavaleiros que tomavam parte no torneio. Mas, ao mesmo tempo que havia todo este regozijo, havia também um desgosto enorme porque a Princesa mais nova tinha perdido a fala e não fazia senão chorar. Por mais carinhos de que a rodeassem tudo era baldado, e o pai só tinha esperança de a ver boa se algum dos nobres Cavaleiros que vinham ao torneio conseguisse tocar-lhe o coração. Quem estas informações estava dando ao ''Homem da moca'' era um ourives de grande fama, que, pelos vistos, curava mais das vidas alheias que dos afazeres. Estavam nesta conversa quando lhe vieram dizer que; sem falta, o Rei queria as pinhas no dia seguinte, sob pena de morte. Ficou o homem muito aflito e ''O da moca'' perguntou-lhe o que tinha. — O que hei-de ter?! Decerto que vou à morte, porque Sua Majestade encomendou-me seis pinhas de oiro para mandar colocar na balaustrada da tribuna real; ora as encomendas têm sido tantas que não pude encontrar oficiais que me ajudassem. — Não se apoquente (disse Benvindo), que eu também sou ourives, e sei fazer todas as obras, ainda as mais delicadas. Dê-me o senhor a ferramenta, o oiro e o modelo; deixe-me ir só para um quarto bem fechado, e eu me comprometo a fazer-lhe o que deseja. O ourives deu-lhe tudo quanto ele pediu. O rapaz foi para o quarto, mas, em lugar de trabalhar, meteu-se na cama e dormiu, como um justo, até à noite. À ceia chamaram-no e ele foi logo, comendo com tal apetite que admirava a toda a família da casa. Depois pegou numa luz e foi para o quarto fingir que trabalhava. Antes de se ir deitar foi o ourives ver o adiantamento da obra, e não vendo nada feito desatou a chorar. — Ó homem, vá-se deitar e descanse, que há-de ter as pinhas. — Hei-de ter, hei-de! O senhor fala assim porque não tem a sua vida em perigo. O Rei manda-as buscar amanhã; o que hei-de fazer?! — Já lhe disse que as venha buscar daqui a pouco, pois estarão prontas. O ourives, não se fiando em tais palavras saiu do quarto, desanimado. Mal fechou a porta, ''O da moca'' meteu a mão no bolso e tirando a orelha do Diabo esfregou com ela na parede. Imediatamente o tal sujeito apareceu gritando: — Ai a minha orelha! Dá cá a minha orelha! — Hei-de dar-ta, descansa, mas só quando não precisar de ti. Conta com isto e vai-te portando bem, se a queres!... — Então para que me chamaste? — Para me fazeres seis pinhas de oiro e brilhantes do feitio desta que está aqui. Sentou-se o Diabo à mesa e, pegando no oiro, imediatamente o transformou em seis pinhas cravejadas de brilhantes, feitas com tal perfeição e arte que nada havia a dizer. O rapaz escondeu cinco numa gaveta e, chamando o ourives, mostrou-lhe uma, dizendo com todo o desassombro: — Já acabei esta; diga se está boa para assim fazer as outras. Era tal o seu brilho e beleza que nem o ourives ousou tocar-lhe e, caindo de joelhos, beijou as mãos do artista genial que tinha em sua casa. Ao outro dia mandaram as seis pinhas. Estava o Rei com a sua Corte e numerosos hóspedes quando chegou o portador. Aberta a caixa ficaram todos deslumbrados, não havendo elogios que não fizessem ao ourives. O boato correu logo e, como nas festas que se projectavam todos queriam mostrar o seu gosto e riqueza, foram tantas as encomendas que fizeram ao artista célebre, que ele não tinha mãos a medir. Aceitava-as todas, porque ''O da moca'' encarregava-se de fazer tudo dum dia para o outro. A orelha do diabo é que dessa vez ia ficando em lastimável estado. O ourives ganhava rios de dinheiro, tanto mais que ele quis dividir com Benvindo e este nada aceitou. Chegou finalmente o primeiro dia de torneio. Estava tudo a postos; o Rei, as Princesas, e toda a Corte nas tribunas; os Cavaleiros armados como se fossem para cruel batalha, prestes a lançarem-se uns contra os outros para mostrarem às suas damas como eram valorosos. Acabavam os arautos de tocar as suas trompas, dando o sinal de combate, quando um cavaleiro todo vestido de armas pretas, montando um belo animal preto como azeviche, saltou por cima das barreiras, e, vindo parar em frente da tribuna real, fez uma profunda vénia. Voltou-se para os Cavaleiros e gritou-lhes arrogante: — Para combater-vos vim, senhores! Um a um, dois a dois, dez a dez, ou todos juntos se quiserdes, eu vos receberei na ponta da minha lança. Despeitadíssimos ficaram todos os reptados e todos à uma correram para o desconhecido, ansiosos de tirar vingança dum tal atrevimento. Mas recuaram logo, envergonhados de tal movimento, pois seria caso nunca visto, entre nobres Cavaleiros, irem tantos contra um. Só o ''Arranca-pinheiros'' e o ''Revolve-montes'' — que eram agora dois nobres senhores da Corte, futuros genros do Rei — foram para a frente combater ''O da moca'', que outro não era o desconhecido de armas pretas. Fortes eram eles, mas faltava-lhes a coragem sem a qual a força pouco mais vale do que nada. Benvindo, que bem os conhecia, correu para eles com ímpeto e derribou-os logo das selas. Em vista deste feito, saiu dentre os campeões o Príncipe de maior fama que nesse tempo havia e apresentou-se a desafiar ''O da moca''. Este, sem lhe fazer mal, enfiou a lança pela armadura e fê-lo ir cair no meio da arena. As palmas retumbaram de todos os lados, e o Rei mandou ir à sua presença o vencedor do dia. Quando isto lhe disseram, recusou apresentar-se. Mandou o Rei que logo o prendessem, e ele, com a espada em sarilho, livrou-se de todos, e, chegando defronte da Princesa mais velha, atirou-lhe com o leque para o regaço. Assombrada, gritou amenina: — Meu pai, meu pai, foi este que nos salvou! Irritado com a teimosa recusa do desconhecido, ordenou o Rei que de qualquer modo o agarrassem. Nada importou ao Cavaleiro, que, abrindo passagem por entre o povo, fez saltar o cavalo por cima de tudo e desapareceu. Ficaram desesperados de não terem podido apanhar o famoso Cavaleiro de armas pretas e o seu cavalo, a mais perfeita estampa que todos tinham visto, notando-se-lhe só a falta de uma orelha, coisa que muito dava que pensar. No dia seguinte havia novo combate, e o Rei, para apanhar o desconhecido, mandou altear as balizas e pôr tropa em volta do campo para o prenderem e lho trazerem, vivo ou morto. Mal os arautos deram o sinal de combate, viram todos, com assombro, um cavaleiro vestido de vermelho, montando um cavalo da mesma cor, que parecia deitar chamas pelos olhos e pela boca. Saltou por cima de tudo e de todos e veio estacar em frente da tribuna real. Já ninguém tirava os olhos dele, pois tinham a certeza de que era o mesmo da véspera, porque ao cavalo faltava também uma orelha. Os Cavaleiros, como tinham o apoio do Rei, concordaram em se lançar todos à uma sobre o atrevido campeão, mas o espanto e o desespero foram grandes, vendo-se perdidos diante de tanta coragem e força. Em pouco tempo desarmara todos, sem a nenhum matar. Tinha o Rei dado as suas ordens e atropa rodeou ''O da moca'' para lhe deitar a mão, mas este com tal destreza e brio se houve que pôde chegar junto da segunda Princesa e atirar-lhe com o ramo para o regaço. A menina, admiradíssima, gritou: — Meu pai, não o deixe fugir, que foi ele quem nos salvou! Mas quem podia ter mão em tal senhor?! Saltando por cima de tudo, ia a desaparecer, quando um soldado atrevido atirou um dardo que se lhe foi cravar na perna direita. Sem parar, foi com a mão para o arrancar, mas tão enterrado estava que se partiu. Atirou com o pedaço fora e continuou a fugir. O soldado deu parte ao Rei do que tinha feito. Foram logo prevenidos todos os cirurgiões da cidade para, sob pena de morte, entregarem o Cavaleiro, se por acaso fossem chamados para o tratar. Mas Benvindo não era homem que se incomodasse com tão pouco. Mal chegou a casa foi para o quarto, acabou de arrancar o ferro, lavou a ferida, e, depois de a ligar, deitou-se e adormeceu. O ourives andava intrigado com as frequentes saídas do seu oficial, e, vendo-o nesse dia entrar a coxear, foi de mansinho espreitar o que ele fazia. Ficou muito admirado de todo aquele aparato, e, quando o rapaz foi chamado para jantar, entrou-lhe no quarto e viu que era parte de um dardo o que ele tinha arrancado da perna. Compreendeu logo que tinha em sua casa o misterioso Cavaleiro e ficou contentíssimo de tal honra, mas fingiu nada saber. Era o dia seguinte o último do torneio e o Rei mandou estar tudo a postos, porque, apesar de o saberem ferido, todos esperavam ver chegar o desconhecido campeão. Mal os arautos tocaram para principiar o combate, viram com espanto um Cavaleiro todo vestido de azul, como sempre de vizeira caída, montando um cavalo também azul e com uma orelha de menos. Saltou por cima de tudo para ir fazer a sua vénia diante da tribuna real. A terceira Princesa — que para nada tinha olhos e que ainda não tinha falado desde que chegara ao palácio — mal ele apareceu ficou outra e nunca mais o perdeu de vista. O ''Arranca-pinheiros'' e o ''Revolve-montes'' é que andavam desconfiados, e, como eram dois traidores e cobardes, deixaram-se ficar na tribuna. Nesse dia desceu à liça o próprio Rei, armado de ponto em branco, e desafiou o desconhecido. — Como te chamas, Cavaleiro? — Benvindo, Senhor, é o meu nome, mas Cavaleiro não sou. Tenho-me apresentado como tal, e, para combater com outros senhores, assim me apresentaria sempre; mas nunca para cruzar o meu ferro com o vosso. Chamai todos os Cavaleiros e dos mais esforçados que a todos vencerei, mas nunca me obrigareis a defender-me da vossa real espada. Em vista disto, mandou o Rei que vinte homens se defrontassem com o desconhecido, dizendo: — Tenho tanto empenho em o conhecer que desejo tê-lo vivo e prisioneiro, ou vencido e morto. Aí estão vinte Cavaleiros dos mais valentes, defendei-vos! É escusado dizer que a todos venceu, ficando ele só no meio da arena e os outros desmontados e sem armas. Depois chegou junto da Princesa mais nova e atirou-lhe com a roca de oiro para o regaço. Mal isto fez, a Princesa, que ainda não tinha falado, gritou: — Ai, meu pai, que é o nosso salvador! E tamanha foi a sua alegria que perdeu os sentidos. O Cavaleiro fugiu. Mas, com o esforço que fez ao saltar por cima das balizas altíssimas, a ferida, mal fechada, abriu-se de novo e deixava um rasto de sangue por onde ele ia passando. Seguindo este sinal foram os soldados ter a casa do ourives, que os recebeu à porta, dizendo que ali não tinha entrado Cavaleiro algum e só com ele tinha o seu ajudante. Como se não pôde apurar nada sobre o destino do misterioso Cavaleiro mandou o Rei que se marcasse o dia do casamento das duas Princesas mais velhas com os seus falsos salvadores. A mais nova é que outra vez perdera a fala e não havia quem a pudesse distrair. No dia marcado para os casamentos foi o ourives ao paço, pedindo para falar imediatamente ao Rei. Chegando junto do Soberano, e, depois de interrogado, disse: — Venho perguntar se ainda quereis saber quem foi o vencedor do torneio. — Decerto que quero; é o meu maior empenho. Por acaso sabes tu onde se esconde esse valente; que desejaria cumular de honras? — Em minha casa está há quatro semanas e foi a minha providência. Contou então tudo o que lhe tinha acontecido. O Rei, muito contente, mandou logo chamar o ajudante do ourives, que se apresentou com o seu fato ordinário e encostado à ''moca'', sem nenhuma aparência de grandeza. Perguntou-lhe o Rei: — Como te chamas? — Benvindo, Senhor. Também outros me chamam o ''Homem da moca'', por causa desta arma que trago sempre comigo. — Para que fugias? — Porque temia desagradar-vos, vindo onde não era chamado. — Agora me lembro — disse o Rei — as minhas três filhas disseram que eras o seu salvador. Foste realmente quem as salvou? — Fui eu e só eu! — Então estes dois?! E o Rei mostrava os traidores, que, tendo reconhecido ''O da moca'', estavam enfiados e confundidos. — Esses dois — respondeu ele — eram meus criados e fugiram com as Princesas, que eu tinha salvo, deixando-me no fundo de um poço. — Mas como provas tu isso? Como podes tu provar que és o Cavaleiro valoroso que apareceu no torneio? — Em primeiro lugar, com o soldado que me feriu; em segundo, com o testemunho das vossas próprias filhas; em terceiro, com o do meu cavalo, que, esteja onde estiver, em eu chamando por ele logo aparece. Mandou o Rei chamar o soldado e perguntou-lhe: — Onde feriste o cavaleiro desconhecido? — Na perna direita, Senhor. Levantou o rapaz acalça e mostrou a ferida ainda mal cicatrizada; depois entregou ao Rei metade do ferro que ajustava perfeitamente ao pedaço que lhe trouxera o soldado. Não de todo convencido, mandou o soldado embora e que chamassem as Princesas. As meninas, mal viram o rapaz, reconheceram-no logo, e, saltando-lhe ao pescoço, começaram a gritar: — Foi este, foi este que nos salvou! À mais nova voltou logo a fala e disse ao pai que morreria senão casasse com aquele corajoso rapaz. Contaram tudo ao Rei, e ele muito contente abraçou-o, chamou-lhe filho, e entregou-lhe os dois mariolas para ele se vingar. Os miseráveis cairam de joelhos, pedindo mil perdões, e ''O da moca'' disse-lhes: — Eu nem vos quero tocar para me não sujar; vou entregar-vos ao meu cavalo. Esfregou na parede a orelha do Diabo e logo todos sentiram um formidável tropel e viram — galgando rios e montes — aparecer o cavalo preto, que diante do dono se pôs quedo e manso. — Bem, agora montem vocês para cima e agarrem-se bem — disse ele a rir aos dois traidores. E dirigindo-se ao cavalo: — Aqui tens estes figurões que eu te dou de presente, em paga dos teus bons serviços. E aqui tens também a orelha que te prometi; mas tu prometes-me também nunca me fazer mal, nem a mim nem a ninguém que eu estime, não é verdade? — Sim! — respondeu em pavoroso grito o diabólico animal. Então, obrigaram os dois a montar, e cavalo e cavaleiros elevaram-se nos ares. O ''Homem da moca'', ''Benvindo'', ou o ''Cavaleiro Desconhecido'', que todas estas designações tinha, casou com a Princesa mais nova e foi o herdeiro do trono, porque as duas Princesas mais velhas nunca quiseram casar, certas de que não havia no Mundo outro homem tão valente e leal. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa]] cjkmttpkro9qzu0zshq75rutsbsaakz 560268 560250 2026-08-23T08:23:34Z Mt516 43586 560268 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O Homem da moca | anterior = [[../Prefácio/]] | posterior = [[../História do careca/]] | notas = }} <big>'''O HOMEM DA MOCA'''</big> HAVIA numa terra, que não vem para aqui dizer o nome, um rapaz dotado duma força tal que nenhum homem se atrevia a lutar com ele. Mas, como era bom e alegre, todos o convidavam e lhe chamavam o Benvindo significando assim o prazer que sentiam com a sua companhia. Um dia aborreceu-se de viver ali e resolveu ir viajar. Mandou fazer uma grande moca de ferro e, encostando-se a ela, partiu sem destino, ao acaso da sua fantasia. Passou por um pinhal e viu um homem que arrancava grandes pinheiros com a maior facilidade e os atava em molho como se fossem ramos secos. O ''Homem da moca'' perguntou ao outro o que andava a fazer e, como lhe respondesse que andava ajuntar lenha para o seu lume e tencionava levar duma vez as árvores todas, ficou muito contente de encontrar um homem com tanta força e propôs-lhe serem companheiros, pagando-lhe ele soldada. O ''Arranca-pinheiros'' aceitou logo e, satisfeitos de serem dois valentes sem medo a coisa alguma, continuaram a jornada. Depois de muito caminharem e de verem inúmeras terras sem nunca encontrarem quem os vencesse, viram no meio dum campo um homem só com uma montanha às costas. Admirados, perguntaram: — Olá, tu que fazes aí? — Eu tenho muita força e para me entreter quero mudar esta montanha. — Deixa-te disso — acudiu ''O da moca'' — vem daí connosco ver terras, que eu pago-te soldada como pago a este. O ''Revolve-montes'' aceitou e lá. foram os três valentes correr mundo. Eram a admiração de toda a gente e muitos Reis e Imperadores os quiseram fazer generais dos seus exércitos. Mas o ''Homem da moca'' nada mais desejava do que ver terras, correr mundo e conhecer novas gentes. Assim foram andando até que uma noite acharam-se num descampado onde havia uma casa. Não vendo más nem boas, para ali se dirigiram e ficaram verdadeiramente espantados por encontrarem uma boa casa completamente abandonada. Benvindo, que não era homem para meias medidas, entrou por ali dentro, tomou posse de tudo e disse aos companheiros que era preciso fazer a ceia e então que fosse um deles ver se encontrava quem lhe desse ou vendesse coisa que pudessem comer. Saiu o ''Arranca-pinheiros'' e, como visse fogueiras na serra, discorreu que eram os pastores e foi comprar um carneiro e bom leite. Por conversa perguntou de quem era aquela grande casa e porque razão estava assim abandonada. Responderam-lhe os pastores: — A casa lá de baixo?! Ai senhor, Deus o livre de lá ficar! — Mas porquê, homenzinhos?! Digam sempre, que nós somos três companheiros invencíveis, sem medo a coisa alguma. — Pois os senhores serão muito valentes, ninguém diz menos disso (responderam os pastores), mas é que naquela casa anda o Diabo e quem lá ficar morre! — Vamos a ver se ele é mais forte do que nós! Foi ter com os companheiros e, contando oque lhe tinham dito os pastores, pediu a Benvindo que se fosse deitar mais o ''Revolve-montes'', que ele ficaria fazendo a ceia. Assim foi; os dois subiram para os quartos e o ''Arranca-pinheiros'' tratou de esfolar o carneiro e pô-lo a assar no espeto, ao mesmo tempo que deitava o leite num tacho para ferver. Estava nestes preparativos quando ouviu uns ''miaus'' terríveis. Voltou-se e deu de cara com um gatarrão, preto como o azeviche, que abria uma boca enorme miando desesperadamente. Era tão medonho o animal que o ''Arranca-pinheiros'', apesar da sua valentia, fugiu pela escada acima, chamando os companheiros. Entretanto foi o gato ao lume e levantou tal labareda que o carneiro ficou em carvão e o leite em fervura fugiu todo do tacho. Vieram os companheiros ver o gato famoso que havia afugentado o valente, mas nada encontraram. O ''Homem da moca'' muito zangado mandou pôr a ceia na mesa, mas a ceia era uma vez!, tiveram que se deitar sem ela. Ao outro dia quiseram os dois ir-se embora, mas ''O da moca'', tendo empenho de conhecer a coragem dos seus homens, resolveu ficar. Mandou outra vez comprar um carneiro e leite e nessa noite foi o ''Revolve-monte''s quem ficou a fazer a ceia. Mal o homem tinha posto tudo ao lume, ouvindo o sinistro miar do gato, largou barcos e redes e foi acorrer ter com os companheiros gritando que estava ali o Diabo com forma de gato, a deitar lume pelos olhos! Os outros desceram e não viram nada, mas, como na véspera, tiveram que ficar sem ceia — porque tudo estava reduzido a carvões. Na noite seguinte mandou ''O da moca'' deitar os dois e ficou ele a cozinhar a ceia, pondo ao pé de si a arma sua fiel companheira. Tinha já a ceia pronta e estava para chamar os outros dois, quando ouviu o gato a miar. Olhou para o lado, viu o bicho e disse-lhe: — Anda para cá com o teu ''renhau-nhau'', que eu te ensino! O gato, sem fazer caso, ia-se aproximando do lume; e o homem, sempre com olhos nele, pegou na moca e quando o viu ao alcance levantou-a ràpidamente e arrumou-lhe tamanha pancada que o bicho deu um berro medonho e desapareceu. — Então não te dizia eu que me havias de pagar!? Deixares-me duas noites sem ceia!? Ora toma lá para não seres esperto! — dizia ele todo contente. Chamou os companheiros para a ceia, e eles, que já o imaginavam cheio de susto, ficaram envergonhados de o verem a rir muito satisfeito da sua proeza. Cearam com todo o descanso e apetite, e depois disse ''O da moca'': — Agora vamos procurar o gato, que ele deve estar por aí escondido em algum canto. Respondeu o ''Arranca-pinheiros'': — Então como havemos de o encontrar? — Procurando-o, meu bruto! Pois tu não vês que deixou rastro de sangue? ''O da moca'', sempre na frente, foi seguindo e, depois de percorrerem lojas, subterrâneos e velhos casarões abandonados, chegaram a um pátio interior onde havia um poço. Terminava ali o rastro de sangue, que ainda se via na borda. — Bom! (disse Benvindo). Foi por aqui que ele se meteu, e nós vamos lá abaixo procurá-lo. — Como havemos nós de descer? — perguntaram os outros, sempre atrapalhados. — Isso já se arranja. Fiquem vocês aguardar a saída, que eu já volto. Foi à cozinha, onde tinha visto cordas e cestos, escolheu um com quatro asas e trouxe tudo para aborda do poço. Atou as cordas às quatro asas do cesto e fazendo entrar para dentro o ''Arranca-pinheiros'' deu-lhe uma campainha dizendo: Tu vais descer lá ao fundo e ver o que há para vires contar; levas esta campainha, se te vires aflito toca-a com força que nós içamos-te logo. O ''Arranca-pinheiros'' lá se meteu no cesto e os dois começaram a deixá-lo cair devagarinho. Estaria por aí a meio do poço, começou a tocar a campainha com tal fúria que os outros o subiram logo. Perguntou ''O da moca'': — Então para que tocaste? O que viste? — Ih, Jesus! eram tantos os mosquitos que não era possível romper. Até me iam abafando! — És um bruto que só tens força e não tens coragem nenhuma. Agora vai tu, ''Revolve-montes''. Meteu-se este no cesto e foi descendo, mas quando estaria a duas terças partes do caminho desanda a tocar numa tal fúria que não houve mais remédio senão tirá-lo. Chegou acima e disse o mesmo que tinha dito o ''Arranca-pinheiros''. ''O Homem da moca'' ficou tão zangado que ele próprio se meteu no cesto e recomendou que ouvindo tocar não o subissem porque isso apenas queria dizer que precisava descer mais depressa; que só içassem o cesto quando ele abanasse as cordas. Assim foi. A meio do poço, como eram tantos os mosquitos que já o atabafavam, começou a tocar e os de cima vá de largar corda. Foi um instante enquanto se viu com os pés no chão. Saiu do cesto e ficou maravilhado. Dos mosquitos nem sinal! E o fundo do poço não era mais que um palácio, todo de cristal, iluminado como se fosse dia. Começou a percorrer salas e quartos e por toda a parte as riquezas eram tais e tantas que ele se imaginava a sonhar. Assim andou, sem ver ninguém, até encontrar uma Velha que, admirada e compungida, lhe disse: — Que vens aqui fazer, desgraçado? Pois tu não sabes onde estás?! — Para o saber é que venho — respondeu ele arrogante — e se tu não mo dizes, com esta moca te esmago já. Porque é de saber que ele nunca largava a sua arma. A Velha, vendo-se perdida com semelhante ameaça, disse logo: — Espera lá, espera lá, que eu tudo te conto. Olha, naquele quarto está a filha mais velha dum grande Rei, guardada por um leão. Se ele te vê, devora-te. No segundo quarto está a segunda filha do mesmo Rei, guardada por uma serpente, a maior que existe no Mundo. Se lhe apareces, decerto que te engole. E no terceiro quarto está a terceira Princesa que, por ser a mais bela de todas, é guardada pelo próprio Diabo. — Hum! Pois a procurar esse ''figurão'' é que eu vim. Deixa, que ele já provou a minha moca; então vai renovar conhecimentos. — Não — disse a Velha — não fazes nada com isso. Visto que ele já sabe quanto pesa a tua bengala não há-de querer mais brincadeiras dessas. Naturalmente propõe-te um duelo à espada, e tu aceita logo; mas quando ele vier com as espadas, uma muito nova e brilhante, outra muito ferrugenta, escolhe tu esta que a outra é de vidro. — Tu estás a enganar-me? — Não estou, não; previno-te porque assim me vingo dele que me tem presa aqui desde a minha mocidade. Não digas que me viste, é só o que te peço. O rapaz dirigiu-se logo para a primeira porta, abriu-a e encontrou uma linda menina, sentada num banco de oiro, abanando-se com um leque de rendas preciosas. Quando ela o viu entrar, gritou-lhe: — Que vem aqui fazer, desgraçado?! Fuja, que é um leão o meu guarda; se o encontra, mata-o logo. — Pois, minha linda Princesa, eu é que venho para o matar a ele e então já daqui não saio. Mal isto disse, um rugido medonho fez tremer todo o palácio e o homem não teve senão tempo de se meter atrás da porta, enquanto a Princesa, estarrecida de susto, o encomendava a todos os Santos. Abriu-se a porta com formidável estrondo e o leão rugiu: — Aqui há humana criatura!... Mas nem a Princesa teve tempo de responder porque o ''Homem da moca'' descarregou tamanha pancada na cabeça do monstro que ele ficou logo morto. Depois agarrou na Princesa ao colo e foi a correr metê-la no cesto. Deu um grande puxão à corda, que começou logo a subir, e disse à Princesa que mandasse descê-lo, para irem as irmãs. Ela despediu-se, dando-lhe em sinal de reconhecimento o seu precioso leque. Vitorioso daquele primeiro inimigo, dirigiu-se ao segundo quarto. Abriu aporta e deparou com uma menina, se era possível, ainda mais linda do que a primeira. Sentada junto duma mesa, tinha na mão um ramo de mil flores feito de pedras preciosas. Mal viu o rapaz, disse-lhe com tristeza: — Fuja depressa, que a minha guarda é uma serpente, e se aqui o apanha mata-o logo. — Não fugirei, minha linda Infanta, porque já salvei a sua irmã e aqui estou para a salvar também. Mal tinham dito estas palavras ouviram um silvo medonho e uma serpente monstruosa apareceu: — Quem está aqui a falar?! Não respondeu a menina, que Benvindo, rápido como um relâmpago, saiu de trás da porta e deu tal pancada no mostrengo que ele ficou logo ali despedaçado. A menina, doida de contentamento, saltou-lhe ao pescoço e ele pegou nela ao colo e foi acorrer metê-la no cesto. Sacudindo as cordas fortemente, fez-lhe a recomendação de o mandar descer para ir a terceira Princesa. Ela prometeu, e como prova de reconhecimento deu-lhe também o seu ramo. Mal o cesto começou a subir, foi a correr ao terceiro quarto, abriu a porta e ficou deslumbrado vendo a terceira Princesa, que era a mais linda de todas. Nada havia no mundo a que a comparar, porque a sua formosura parecia divina. Sentada num banquinho de marfim, fiava numa roca feita dum só brilhante. Mal deu com os olhos no rapaz ficou muito contente e ao mesmo tempo admirada, porque homens era coisa que nunca vira, tendo sido roubada pelo Diabo logo que nasceu. Depois ficou muito triste, dizendo: — O que vem aqui fazer, infeliz? Não sabe que é o Diabo quem me guarda? Que é ele o senhor deste palácio, que é ele quem aqui tudo manda, e se o apanhar o matará?! — Pois à procura dele venho eu (disse Benvindo). Até já me está tardando encontrar-me com esse sujeito para o ensinar bem ensinado. — É que nem o senhor sabe quem ele é; se cá o apanha mata-o logo. — Veremos isso!... — Olhe, lá vem ele! — E, muito aflita, pôs-se a menina afiar disfarçadamente, enquanto ''O da moca'' se metia atrás da porta. Nisto sentiu-se um formidável barulho, todo o palácio estremeceu, e, como um furacão, entrou o Diabo a gritar: — Aqui está gente!... O rapaz ia a descarregar-lhe uma violenta pancada, mas o ''inimigo'', que era mais fino do que fora o leão e do que a serpente; desviou-se para o lado com um salto, dizendo: — Nada, lá com a moca é que não! Já uma vez me deste com ela que me ias arrebentando. Entre valentes o caso vai doutra maneira. Havemos de nos bater à espada. — Pois seja; aceito. Vai lá buscar as espadas. Se tu ficares vencedor, matas-me; se eu te vencer a ti, levo esta menina e tu nunca mais te meterás comigo. — Está dito! — respondeu o Diabo. E muito contente foi buscar duas espadas, uma muito reluzente e outra muito ferrugenta. Queria entregar a brilhante ao rapaz, mas ele recordou-se do conselho da Velha, lançou mão da outra, dizendo em ar de graça: — Nada de cerimónias, amigo; eu não sou para essas delicadezas. E levantando a espada começou o combate partindo em mil pedaços a que tinha o Diabo e dando-lhe tal cutilada que lhe cortou uma orelha. Vencedor, nem esperou que voltasse a si da surpresa o seu adversário; apanhou a orelha e meteu-a no bolso. Depois pegou na menina e foi a correr pô-la no cesto, dizendo-lhe que mandasse o descessem, para ele depois subir. A lindíssima Princesa, agradecendo-lhe muito, queria que ele subisse no mesmo cesto, com medo que ainda o Diabo lhe fizesse alguma. Mas o cesto era pequeno para os dois. Benvindo tratou de a sossegar, e ela, em sinal da sua imensa gratidão, deu-lhe a roca. Ali ficou Benvindo à espera; e fartou-se de esperar que lhe deitassem o cesto para ele subir. Mas isso é que não podia acontecer porque mal se viram com as Princesas, os falsos foram-se embora com elas, sem quererem saber do companheiro que as tinha ido libertar. As Princesas não queriam ir, mas não podiam resistir à força deles. Só a mais nova chorou e se afligiu tanto que perdeu a fala. Dirigiram-se para o Reino do pai das Princesas, o qual ficou tão contente que não se pode dizer mais. Em sinal de regozijo decretou logo grandes festas e um torneio esplêndido, para solenizar tão grande ventura e, ao mesmo tempo, fazer público o casamento das duas Princesas mais velhas com os que se inculcavam seus libertadores. Só no meio de tanta felicidade havia o imenso desgosto da Princesa mais nova ter perdido a fala. Por mais que lhe dissessem e fizessem, ela nada respondia e a sua vida era chorar. Por esse motivo resolveu o Rei dar três grandes torneios para reunir na sua capital todos os Príncipes e Cavaleiros do Mundo, a ver se à Princesa lhe voltava a fala e escolhia marido. <p style="text-align: center;">* * *</p> ''O da moca'', que ficou no fundo do poço, farto de esperar e tornar a esperar, convenceu-se de que tinha sido enganado e jurou vingar-se. Sair dali é que era o principal e também o mais difícil. Andou para um lado e para o outro, percorreu todo o maravilhoso palácio subterrâneo, mas ninguém encontrou. Passados três dias, já desesperado, voltou ao fundo do poço, lembrou-se que tinha no bolso a orelha do diabo e cheio de raiva esfregou-a com muita força na parede, dizendo: — Este é que tem a culpa de tudo. Ouviu logo uma voz gritar: — Ai, minha rica orelha, dá-me cá a minha orelha!... — Não dou! Põe-me lá em cima imediatamente, senão ainda farei pior. Não viu o Diabo mais remédio senão aparecer e dizer-lhe que montasse nos seus ombros, que seria um instante enquanto o levaria. O rapaz subiu e ei-los aí vão pela terra acima. A meio do poço diz o Diabo: — Não me apertes tanto, olha que me afogas! — Nada, não hei-de apertar! O que tu agora querias era largar-me. E, apertando ainda mais o pescoço do Diabo, num momento se apanhou em cima. Mal se viu ao ar livre, correu em procura dos companheiros e das Princesas, mas ninguém lhe dava sinais certos da sua passagem. Andando e perguntando, chegou à grande cidade onde eles agora estavam. Logo ali soube as alegrias que iam no Paço, do casamento das duas irmãs mais velhas e dos preparativos que, para o torneio e mais festas, se faziam. De toda a parte do Mundo tinham já chegado Príncipes e Cavaleiros que tomavam parte no torneio. Mas, ao mesmo tempo que havia todo este regozijo, havia também um desgosto enorme porque a Princesa mais nova tinha perdido a fala e não fazia senão chorar. Por mais carinhos de que a rodeassem tudo era baldado, e o pai só tinha esperança de a ver boa se algum dos nobres Cavaleiros que vinham ao torneio conseguisse tocar-lhe o coração. Quem estas informações estava dando ao ''Homem da moca'' era um ourives de grande fama, que, pelos vistos, curava mais das vidas alheias que dos afazeres. Estavam nesta conversa quando lhe vieram dizer que; sem falta, o Rei queria as pinhas no dia seguinte, sob pena de morte. Ficou o homem muito aflito e ''O da moca'' perguntou-lhe o que tinha. — O que hei-de ter?! Decerto que vou à morte, porque Sua Majestade encomendou-me seis pinhas de oiro para mandar colocar na balaustrada da tribuna real; ora as encomendas têm sido tantas que não pude encontrar oficiais que me ajudassem. — Não se apoquente (disse Benvindo), que eu também sou ourives, e sei fazer todas as obras, ainda as mais delicadas. Dê-me o senhor a ferramenta, o oiro e o modelo; deixe-me ir só para um quarto bem fechado, e eu me comprometo a fazer-lhe o que deseja. O ourives deu-lhe tudo quanto ele pediu. O rapaz foi para o quarto, mas, em lugar de trabalhar, meteu-se na cama e dormiu, como um justo, até à noite. À ceia chamaram-no e ele foi logo, comendo com tal apetite que admirava a toda a família da casa. Depois pegou numa luz e foi para o quarto fingir que trabalhava. Antes de se ir deitar foi o ourives ver o adiantamento da obra, e não vendo nada feito desatou a chorar. — Ó homem, vá-se deitar e descanse, que há-de ter as pinhas. — Hei-de ter, hei-de! O senhor fala assim porque não tem a sua vida em perigo. O Rei manda-as buscar amanhã; o que hei-de fazer?! — Já lhe disse que as venha buscar daqui a pouco, pois estarão prontas. O ourives, não se fiando em tais palavras saiu do quarto, desanimado. Mal fechou a porta, ''O da moca'' meteu a mão no bolso e tirando a orelha do Diabo esfregou com ela na parede. Imediatamente o tal sujeito apareceu gritando: — Ai a minha orelha! Dá cá a minha orelha! — Hei-de dar-ta, descansa, mas só quando não precisar de ti. Conta com isto e vai-te portando bem, se a queres!... — Então para que me chamaste? — Para me fazeres seis pinhas de oiro e brilhantes do feitio desta que está aqui. Sentou-se o Diabo à mesa e, pegando no oiro, imediatamente o transformou em seis pinhas cravejadas de brilhantes, feitas com tal perfeição e arte que nada havia a dizer. O rapaz escondeu cinco numa gaveta e, chamando o ourives, mostrou-lhe uma, dizendo com todo o desassombro: — Já acabei esta; diga se está boa para assim fazer as outras. Era tal o seu brilho e beleza que nem o ourives ousou tocar-lhe e, caindo de joelhos, beijou as mãos do artista genial que tinha em sua casa. Ao outro dia mandaram as seis pinhas. Estava o Rei com a sua Corte e numerosos hóspedes quando chegou o portador. Aberta a caixa ficaram todos deslumbrados, não havendo elogios que não fizessem ao ourives. O boato correu logo e, como nas festas que se projectavam todos queriam mostrar o seu gosto e riqueza, foram tantas as encomendas que fizeram ao artista célebre, que ele não tinha mãos a medir. Aceitava-as todas, porque ''O da moca'' encarregava-se de fazer tudo dum dia para o outro. A orelha do diabo é que dessa vez ia ficando em lastimável estado. O ourives ganhava rios de dinheiro, tanto mais que ele quis dividir com Benvindo e este nada aceitou. Chegou finalmente o primeiro dia de torneio. Estava tudo a postos; o Rei, as Princesas, e toda a Corte nas tribunas; os Cavaleiros armados como se fossem para cruel batalha, prestes a lançarem-se uns contra os outros para mostrarem às suas damas como eram valorosos. Acabavam os arautos de tocar as suas trompas, dando o sinal de combate, quando um cavaleiro todo vestido de armas pretas, montando um belo animal preto como azeviche, saltou por cima das barreiras, e, vindo parar em frente da tribuna real, fez uma profunda vénia. Voltou-se para os Cavaleiros e gritou-lhes arrogante: — Para combater-vos vim, senhores! Um a um, dois a dois, dez a dez, ou todos juntos se quiserdes, eu vos receberei na ponta da minha lança. Despeitadíssimos ficaram todos os reptados e todos à uma correram para o desconhecido, ansiosos de tirar vingança dum tal atrevimento. Mas recuaram logo, envergonhados de tal movimento, pois seria caso nunca visto, entre nobres Cavaleiros, irem tantos contra um. Só o ''Arranca-pinheiros'' e o ''Revolve-montes'' — que eram agora dois nobres senhores da Corte, futuros genros do Rei — foram para a frente combater ''O da moca'', que outro não era o desconhecido de armas pretas. Fortes eram eles, mas faltava-lhes a coragem sem a qual a força pouco mais vale do que nada. Benvindo, que bem os conhecia, correu para eles com ímpeto e derribou-os logo das selas. Em vista deste feito, saiu dentre os campeões o Príncipe de maior fama que nesse tempo havia e apresentou-se a desafiar ''O da moca''. Este, sem lhe fazer mal, enfiou a lança pela armadura e fê-lo ir cair no meio da arena. As palmas retumbaram de todos os lados, e o Rei mandou ir à sua presença o vencedor do dia. Quando isto lhe disseram, recusou apresentar-se. Mandou o Rei que logo o prendessem, e ele, com a espada em sarilho, livrou-se de todos, e, chegando defronte da Princesa mais velha, atirou-lhe com o leque para o regaço. Assombrada, gritou amenina: — Meu pai, meu pai, foi este que nos salvou! Irritado com a teimosa recusa do desconhecido, ordenou o Rei que de qualquer modo o agarrassem. Nada importou ao Cavaleiro, que, abrindo passagem por entre o povo, fez saltar o cavalo por cima de tudo e desapareceu. Ficaram desesperados de não terem podido apanhar o famoso Cavaleiro de armas pretas e o seu cavalo, a mais perfeita estampa que todos tinham visto, notando-se-lhe só a falta de uma orelha, coisa que muito dava que pensar. No dia seguinte havia novo combate, e o Rei, para apanhar o desconhecido, mandou altear as balizas e pôr tropa em volta do campo para o prenderem e lho trazerem, vivo ou morto. Mal os arautos deram o sinal de combate, viram todos, com assombro, um cavaleiro vestido de vermelho, montando um cavalo da mesma cor, que parecia deitar chamas pelos olhos e pela boca. Saltou por cima de tudo e de todos e veio estacar em frente da tribuna real. Já ninguém tirava os olhos dele, pois tinham a certeza de que era o mesmo da véspera, porque ao cavalo faltava também uma orelha. Os Cavaleiros, como tinham o apoio do Rei, concordaram em se lançar todos à uma sobre o atrevido campeão, mas o espanto e o desespero foram grandes, vendo-se perdidos diante de tanta coragem e força. Em pouco tempo desarmara todos, sem a nenhum matar. Tinha o Rei dado as suas ordens e atropa rodeou ''O da moca'' para lhe deitar a mão, mas este com tal destreza e brio se houve que pôde chegar junto da segunda Princesa e atirar-lhe com o ramo para o regaço. A menina, admiradíssima, gritou: — Meu pai, não o deixe fugir, que foi ele quem nos salvou! Mas quem podia ter mão em tal senhor?! Saltando por cima de tudo, ia a desaparecer, quando um soldado atrevido atirou um dardo que se lhe foi cravar na perna direita. Sem parar, foi com a mão para o arrancar, mas tão enterrado estava que se partiu. Atirou com o pedaço fora e continuou a fugir. O soldado deu parte ao Rei do que tinha feito. Foram logo prevenidos todos os cirurgiões da cidade para, sob pena de morte, entregarem o Cavaleiro, se por acaso fossem chamados para o tratar. Mas Benvindo não era homem que se incomodasse com tão pouco. Mal chegou a casa foi para o quarto, acabou de arrancar o ferro, lavou a ferida, e, depois de a ligar, deitou-se e adormeceu. O ourives andava intrigado com as frequentes saídas do seu oficial, e, vendo-o nesse dia entrar a coxear, foi de mansinho espreitar o que ele fazia. Ficou muito admirado de todo aquele aparato, e, quando o rapaz foi chamado para jantar, entrou-lhe no quarto e viu que era parte de um dardo o que ele tinha arrancado da perna. Compreendeu logo que tinha em sua casa o misterioso Cavaleiro e ficou contentíssimo de tal honra, mas fingiu nada saber. Era o dia seguinte o último do torneio e o Rei mandou estar tudo a postos, porque, apesar de o saberem ferido, todos esperavam ver chegar o desconhecido campeão. Mal os arautos tocaram para principiar o combate, viram com espanto um Cavaleiro todo vestido de azul, como sempre de vizeira caída, montando um cavalo também azul e com uma orelha de menos. Saltou por cima de tudo para ir fazer a sua vénia diante da tribuna real. A terceira Princesa — que para nada tinha olhos e que ainda não tinha falado desde que chegara ao palácio — mal ele apareceu ficou outra e nunca mais o perdeu de vista. O ''Arranca-pinheiros'' e o ''Revolve-montes'' é que andavam desconfiados, e, como eram dois traidores e cobardes, deixaram-se ficar na tribuna. Nesse dia desceu à liça o próprio Rei, armado de ponto em branco, e desafiou o desconhecido. — Como te chamas, Cavaleiro? — Benvindo, Senhor, é o meu nome, mas Cavaleiro não sou. Tenho-me apresentado como tal, e, para combater com outros senhores, assim me apresentaria sempre; mas nunca para cruzar o meu ferro com o vosso. Chamai todos os Cavaleiros e dos mais esforçados que a todos vencerei, mas nunca me obrigareis a defender-me da vossa real espada. Em vista disto, mandou o Rei que vinte homens se defrontassem com o desconhecido, dizendo: — Tenho tanto empenho em o conhecer que desejo tê-lo vivo e prisioneiro, ou vencido e morto. Aí estão vinte Cavaleiros dos mais valentes, defendei-vos! É escusado dizer que a todos venceu, ficando ele só no meio da arena e os outros desmontados e sem armas. Depois chegou junto da Princesa mais nova e atirou-lhe com a roca de oiro para o regaço. Mal isto fez, a Princesa, que ainda não tinha falado, gritou: — Ai, meu pai, que é o nosso salvador! E tamanha foi a sua alegria que perdeu os sentidos. O Cavaleiro fugiu. Mas, com o esforço que fez ao saltar por cima das balizas altíssimas, a ferida, mal fechada, abriu-se de novo e deixava um rasto de sangue por onde ele ia passando. Seguindo este sinal foram os soldados ter a casa do ourives, que os recebeu à porta, dizendo que ali não tinha entrado Cavaleiro algum e só com ele tinha o seu ajudante. Como se não pôde apurar nada sobre o destino do misterioso Cavaleiro mandou o Rei que se marcasse o dia do casamento das duas Princesas mais velhas com os seus falsos salvadores. A mais nova é que outra vez perdera a fala e não havia quem a pudesse distrair. No dia marcado para os casamentos foi o ourives ao paço, pedindo para falar imediatamente ao Rei. Chegando junto do Soberano, e, depois de interrogado, disse: — Venho perguntar se ainda quereis saber quem foi o vencedor do torneio. — Decerto que quero; é o meu maior empenho. Por acaso sabes tu onde se esconde esse valente; que desejaria cumular de honras? — Em minha casa está há quatro semanas e foi a minha providência. Contou então tudo o que lhe tinha acontecido. O Rei, muito contente, mandou logo chamar o ajudante do ourives, que se apresentou com o seu fato ordinário e encostado à ''moca'', sem nenhuma aparência de grandeza. Perguntou-lhe o Rei: — Como te chamas? — Benvindo, Senhor. Também outros me chamam o ''Homem da moca'', por causa desta arma que trago sempre comigo. — Para que fugias? — Porque temia desagradar-vos, vindo onde não era chamado. — Agora me lembro — disse o Rei — as minhas três filhas disseram que eras o seu salvador. Foste realmente quem as salvou? — Fui eu e só eu! — Então estes dois?! E o Rei mostrava os traidores, que, tendo reconhecido ''O da moca'', estavam enfiados e confundidos. — Esses dois — respondeu ele — eram meus criados e fugiram com as Princesas, que eu tinha salvo, deixando-me no fundo de um poço. — Mas como provas tu isso? Como podes tu provar que és o Cavaleiro valoroso que apareceu no torneio? — Em primeiro lugar, com o soldado que me feriu; em segundo, com o testemunho das vossas próprias filhas; em terceiro, com o do meu cavalo, que, esteja onde estiver, em eu chamando por ele logo aparece. Mandou o Rei chamar o soldado e perguntou-lhe: — Onde feriste o cavaleiro desconhecido? — Na perna direita, Senhor. Levantou o rapaz acalça e mostrou a ferida ainda mal cicatrizada; depois entregou ao Rei metade do ferro que ajustava perfeitamente ao pedaço que lhe trouxera o soldado. Não de todo convencido, mandou o soldado embora e que chamassem as Princesas. As meninas, mal viram o rapaz, reconheceram-no logo, e, saltando-lhe ao pescoço, começaram a gritar: — Foi este, foi este que nos salvou! À mais nova voltou logo a fala e disse ao pai que morreria senão casasse com aquele corajoso rapaz. Contaram tudo ao Rei, e ele muito contente abraçou-o, chamou-lhe filho, e entregou-lhe os dois mariolas para ele se vingar. Os miseráveis cairam de joelhos, pedindo mil perdões, e ''O da moca'' disse-lhes: — Eu nem vos quero tocar para me não sujar; vou entregar-vos ao meu cavalo. Esfregou na parede a orelha do Diabo e logo todos sentiram um formidável tropel e viram — galgando rios e montes — aparecer o cavalo preto, que diante do dono se pôs quedo e manso. — Bem, agora montem vocês para cima e agarrem-se bem — disse ele a rir aos dois traidores. E dirigindo-se ao cavalo: — Aqui tens estes figurões que eu te dou de presente, em paga dos teus bons serviços. E aqui tens também a orelha que te prometi; mas tu prometes-me também nunca me fazer mal, nem a mim nem a ninguém que eu estime, não é verdade? — Sim! — respondeu em pavoroso grito o diabólico animal. Então, obrigaram os dois a montar, e cavalo e cavaleiros elevaram-se nos ares. O ''Homem da moca'', ''Benvindo'', ou o ''Cavaleiro Desconhecido'', que todas estas designações tinha, casou com a Princesa mais nova e foi o herdeiro do trono, porque as duas Princesas mais velhas nunca quiseram casar, certas de que não havia no Mundo outro homem tão valente e leal. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|O Homem da moca]] oo435vwu4n6olswp2et7e3aq5kixnay Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/História do careca 0 255974 560251 559684 2026-08-23T08:06:28Z Mt516 43586 560251 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = História do careca | anterior = [[../O Homem da moca|O Homem da moca]] | posterior = [[../A Bela Felicidade|A Bela Felicidade]] | notas = }} '''<big>HISTÓRIA DO CARECA</big>''' ERA uma vez um pobre homem que tinha um único filho, que estimava muito. O seu ofício era ser forneiro, mas tão miseràvelmente vivia que nem tinha dinheiro para comprar lenha, indo ele mesmo cortá-la às matas. Um dia, andando alabutar na sua vida agarrou o pé de uma giesta muito grossa, e tantos esforços fez para a atrancar que caiu para trás. Quando se levantou ficou admiradíssimo vendo diante de si uma senhora muito linda, que tinha saído do buraco deixado pela raiz da giesta. O homem ficou embasbacado a olhar para ela, sem se atrever a mexer pé nem mão. — Eu sou uma Moira encantada (disse-lhe) e tu vieste perturbar o meu silêncio e abrir a porta do meu palácio. O homenzinho deitou-se de joelhos e começou a clamar: — Senhora Moira, eu andava na minha vida arrancando giestas para aquecer o meu forno, que é o meu ganha-pão, e não podia adivinhar que vos incomodava nem tão pouco que esta raiz fosse a porta do vosso palácio. Perdoai o meu crime involuntário, que eu juro guardar este segredo como se estivesse morto. — Pois bem (respondeu a Moira) vai buscar o teu filho, que eu tomo conta dele, e asseguro-te que hei-de fazê-lo mais feliz do que seria vivendo contigo. E a ti não só te perdoarei como te vou enriquecer pois tudo quanto precisares terás de mim. Em prova da verdade aqui tens já esta bolsa de dinheiro, se prometes trazer-me o teu filho. O homem prometeu, pois salvava a sua vida e fazia a felicidade do rapaz, segundo a Moira dizia. Ao outro dia pegou no filho e levou-o ao mesmo sítio. Logo que chegou, a Moira muito linda dirigiu-se para eles e, pegando na mão do pequeno, desapareceram ambos. Olhou o forneiro para o lado onde tinha preso o seu burro e foi buscá-lo para se ir embora. Mas a sua surpresa foi grande vendo-o arreado de novo, com bons alforjes novos e dentro deles uma farta merenda — boa carne, belos pastéis, pão fresco, doces, e duas garrafas de vinho velho. Na outra bolsa encontrou uma grande quantidade de dinheiro em oiro, novinho e reluzente. Satisfeito por se ver tão rico, saltou para cima do burro e dirigiu-se para casa, mas, como esta ainda era um pouco distante e ele desde manhã que andava a girar, foi-lhe de grande conforto a merenda com que a Moira o presenteara. Chegou à sua velha residência e encontrou-a destruída por um incêndio e bem assim o seu forno. Ficou triste e resolveu sair daquela terra. Foi para uma povoação onde ninguém o conhecia, comprou uma boa casa com quintal, e ali se estabeleceu. Depois, foi sempre comprando propriedades e em breve se tornou o mais rico e influente homem da terra, dando leis naquelas redondezas. O rapaz, levado pela Moira, achou-se de repente num maravilhoso palácio subterrâneo. Nunca vira coisa semelhante — o que não admirava, pois sempre vivera na pobreza — e nem por sonhos imaginara nunca coisa assim! Eram galerias majestosas em que as colunas, feitas de brilhantes e rubis e esmeraldas, tinham um tal brilho que cegava. Havia salas feitas de safiras tão azuis como o céu ou como o mar; outra em que todas as pedras preciosas eram combinadas de tal modo que pareciam um jardim de mil flores. Enfim, eram tantas as riquezas e belezas daquele palácio encantado, que não há palavras que as possam descrever! A Moira entregou-lhe então um molho de chaves, dizendo: — Aqui tens. Ficas senhor de tudo: do meu tesouro de surpreendente riqueza, como da minha alma; deste palácio subterrâneo, onde cada pedra vale mais que afortuna do mais rico Imperador da terra, como da minha beleza eterna e sobre-humana; dos meus cofres recheados de moedas de oiro do tempo dos Califas e tantas que todos os banqueiros do mundo não seriam capazes de as contar ainda que vivessem mil anos. «Em paga de tanto que te dou, só exijo uma coisa: é que nunca vás àquele quarto. Estão lá apenas doze barris de oiro em pó. De nada te podem servir, pois que oiro tens aqui aos montes. «Vê lá! Dou-te a chave para te provar a minha confiança, mas se tocares em qualquer dos barris tudo acabará entre nós! Retiro-te a minha protecção e ficarás abandonado e pobre como eras até aqui. O rapaz ouviu tudo que a Moira disse, prometeu não tocar em tais barris, e, depois de ver todas as maravilhas do palácio, teve uma farta ceia que a Moira lhe serviu, e foi deitar-se. Ali esteve muito tempo sem nunca se aborrecer, pois a Moira não se esquecia de lhe dar tudo quanto ele podia ambicionar para ser feliz. Mas a ideia do quarto fechado e dos doze barris de oiro em pó trabalhava-lhe na cabeça. Nem de noite nem de dia pensava noutra coisa — era uma tentação! Abria a porta do quarto, e, olhando para os barris, dizia consigo: — Mas que terão estes barris, que a Moira não quer que eu lhes toque?! Se fosse oiro não se importava ela, não, porque oiro há aqui aos pontapés. Mas que será?!... E assim andou algum tempo, sem poder dormir nem descansar. Enquanto a Moira estava ao pé, ainda se esquecia, mas quando ela ia para o fundo do palácio tecer no tear de marfim ou cantar, com a suavíssima voz, as tristezas da sua raça exilada da nobre Terra da Península, ia ele, pé-ante-pé, como um ladrão, espreitar os barris. Até que um dia não pôde vencer a curiosidade e foi ao primeiro barril e tirou-lhe o batoque, metendo dois dedos para ver o que estava lá dentro. Sentiu-se logo um formidável abalo de terra. O palácio desmoronou-se estrondosamente, e ele, ficando nas trevas, sentiu que lhe pegavam na mão, e achou-se num volver de olhos, e sem poder explicar como, no meio de um campo. Viu então a Moira em pé, diante dele, e falando-lhe com uma voz muito triste: — Desobedeceste-me! Dobraste-me o encanto! Ele, de joelhos, pedia-lhe perdão, chorando a sua curiosidade. A Moira, que bem sabia quanto ele tinha lutado antes de fazer aquela maldade, respondeu: — Não te quero mal, descansa! Deixarás de me ver, mas eu não deixarei de te proteger. Aqui tens esta varinha de condão. Com ela conseguirás tudo. Dando-lhe uma varinha de junco, que à vista nenhuma particularidade tinha, desapareceu dizendo adeus ao rapaz, que ficou muito contristado. Achando-se só, foi andando ao acaso até que chegou a uma fonte. Como levava muita sede, pois o calor apertava, inclinou-se para beber. Sentiu que lhe caia uma coisa pesada da cabeça e ainda imaginou que fosse o chapéu, mas já o tinha tirado para beber. Muito admirado levou as mãos à cabeça e notou que eram os cabelos que tanto pesavam. Deitou-os para os olhos e viu que eram de oiro. Espantadíssimo com tal coisa, mirou-se na água clara da fonte e viu-se deslumbrante com os seus cabelos doirados. Ficara assim logo que metera os dedos no barril de oiro, mas só agora o sabia porque só agora tinha espelho para se mirar. Entendeu que não era muito conveniente mostrar ao mundo tanta riqueza, e na primeira terra em que entrou dirigiu-se ao matadouro, comprou uma bexiga de boi, lavou-a muito bem lavada, cortou-a ao meio, encaixou-a na cabeça e arranjou-a de tal modo que lha cobria toda parecendo completamente calvo. Depois, assim preparado, e com a varinha na mão, seguiu sua jornada. Por onde passava faziam-lhe muita troça chamando-lhe Careca: — Adeus, ó Careca! Para onde vais, ó Careca?... Ele não se importava. Foi seguindo sempre àvante, até que chegou a uma grande cidade, opulenta e formosa, povoada por toda a casta de gente que ia ao seu vastíssimo porto para comerciar. Ninguém reparou que ele fosse careca, e, mesmo que reparassem, não estranhavam porque estava aquele povo muito acostumado a ver indivíduos de todas as raças e feitios que por ali enxameavam. Eram chineses, de rabicho e olhos em fresta; índios bronzeados e magrinhos; japoneses amáveis; pretos de todas as espécies, uns feios como demónios, outros muito simpáticos, com os seus olhos meigos e os dentes de neve a destacarem-se na face de nanquim. Eram turcos, vestidos de branco, fumando nos longos cachimbos. Eram, enfim, homens de todos os países, não esquecendo o loiro e grave inglês e o elegante francês pondo em voga o último figurino. O Careca, percorrendo acidade, achou que lhe convinha ficar. Chegando ao palácio real bateu e perguntou se queriam um criado. Como exactamente tinha saido na véspera o jardineiro da Princesa, disseram-lhe que sim. Entrou logo a exercer as suas obrigações. A família real constava apenas do velho Rei, que estava cego, e da filha que era a mais formosa dama do seu tempo. Quando soube que havia entrado um jardineiro novo, foi falar-lhe para dar as suas ordens, pois de tudo quanto possuia o que mais apreciava eram as flores. O Careca logo que a viu ficou encantado, pois beleza como aquela não havia no mundo. Como era muito boa e muito bem educada, falava para toda a gente, por mais humilde que fosse sua condição, sempre com uma graça e uma simplicidade encantadoras. No fim de dar as suas ordens ao jardineiro, disse-lhe: — Trata-me muito bem as minhas flores, porque não há coisa de que eu mais goste! E todas as manhãs quero um ramo bem fresco e bonito. O Careca inclinou-se reverente, respondendo: — Sim, minha Senhora; farei toda a diligência por lhe agradar. Ao outro dia de manhã, quando a Princesa se levantou, a primeira coisa que viu foi um lindíssimo ramo de magníficas rosas, atado com um fio de oiro. No outro dia a mesma coisa, e no outro e no outro. Sempre que se levantava via o seu ramo de rosas, sempre diferentes e cada vez mais lindas, e atadas com o fio de oiro, o que muito dava que pensar à Princesa. Admirada com tamanha variedade de rosas, que nunca vira no jardim, percorria-o todo a ver se descobria onde o Careca tinha as mais belas, mas não encontrava nenhuma igual às que recebia todas as manhãs. Um dia foi ter com o jardineiro e disse-lhe: — Ó Careca, quantas variedades de rosas temos cá no jardim? — Todas quantas há no mundo — respondeu ele. A Princesa não disse mais nada, olhou muito séria para o jardineiro e foi para o seu quarto pensar nos melhoramentos que via no jardim, sem que metessem obreiro nem lhe pedisse dinheiro a rodos, como os outros costumavam fazer. Eram novas ruas de arbustos os mais raros, caramanchões deliciosos, árvores magníficas, e, por fim, até um lago cheio de peixes doirados e de todas cores, e um tanque de mármore para onde a água corria duma cascata enorme e de pequenos repuxos colocados de maneira que as águas se entrelaçavam, fazendo um efeito surpreendente. A Princesa quando viu tal maravilha ficou extasiada e perguntou ao Careca quem tinha mandado fazer uma coisa tão bela. Respondeu-lhe ele: — Saiba Vossa Alteza que fui eu. Logo que cheguei, vi que este jardim tinha uma grande falta de água e então mandei-a explorar e canalizar, fazendo talhar todas as pedras fora. Trabalharam muitos operários toda a noite para fazer esta surpresa. Ela agradeceu, mas não acreditou nem uma palavra de tal história. Já eram muitas as coisas que a admiravam depois que o Careca tinha entrado ao seu serviço. Parecia-lhe bem que ele não era o que queria fingir, mas sim uma pessoa importante disfarçada. Notou que um dos caramanchões mandado fazer pelo Careca era fechado e todo coberto de trepadeiras. Todos os domingos o via entrar para lá e demorar-se uma boa hora. Disse para consigo: — Deixa estar que eu hei-de ver o que tu fazes. Um dia, quando o Careca entrou para o caramanchão desceu ao jardim e foi espreitar por um buraco que tinha propositadamente feito. Qual não foi o seu espanto vendo o jardineiro despir o fato que trazia, e, abrindo um baú, tirar uma camisa de rendas, meias de seda e sapatos com fivelas de diamantes. Depois vestiu um riquíssimo fato de corte, pôs ao lado a espada com os copos cravejados de rubis e o talim bordado de várias pedras preciosas. Tirou abexiga da cabeça e o cabelo caiu-lhe sobre os hombros como se fosse o resplendor de oiro dum Santo Cavaleiro. No fim, pôs um chapéu de plumas, seguras por uma fivela de esmeraldas e brilhantes, e ficou o mais lindo homem que jamais a Princesa vira. Fugiu dali, mas tão encantada que não pensava noutra coisa. Nem de noite nem de dia lhe saia da cabeça a imagem do formoso Cavaleiro, que andava disfarçado em seu criado. Ora o pai da Princesa era cego, como já disse. Tinha cegado de repente, sem saberem como. Consultados todos os médicos, nenhum lhe deu remédio, mas uma Feiticeira dissera: — Que a doença tinha cura, mas só havia um remédio: que era lavar os olhos com leite duma leitoa que existia numa torre, a algumas léguas de distância. O Rei mandou os seus melhores cavaleiros para matarem a leitoa e trazerem o leite; mas, por mais esforçados que fossem, todos lá ficavam mortos ou tinham que fugir. Logo que chegavam perto da torre surgiam do chão tantos homens armados, que todas as tropas ficavam desbaratadas. Era uma coisa impossível, obter tal remédio. Vendo isto, decretou o Rei grandes torneios na sua capital, mandando convidar todos os príncipes e cavaleiros da Cristandade, não só para a Princesa escolher marido mas também para ver se algum dos mais nobres e corajosos senhores se resolvia a ir matar a leitoa e trazer-lhe o tão desejado remédio. Apareceram muitos príncipes de todos os reinos, nobres barões e cavaleiros andantes, que vinham disputar a mão da mais formosa dama do seu tempo. Todos mais ou menos ficaram apaixonados e desejariam desposá-la. Mas o Rei disse-lhes: — Que a Princesa só casaria com o homem que fosse matar a leitoa e lhe trouxesse o leite. Todos à uma juraram dar morte à leitoa ou morrer. Combinaram o dia da marcha, e o Careca veio pedir licença ao Rei para acompanhar ao combate aqueles senhores. O Rei, apesar de cego, começou a fazer-lhe troça. E os cavaleiros riam muito, escarnecendo o pobre Careca. Mas a Princesa apareceu e perguntou qual a razão de tantos risos. Disseram-lhe o que era, e, em lugar de se rir, como esperavam, pediu ao pai que consentisse no que lhe pediam. O Rei fez-lhe a vontade. Mas o pior é que os cavaleiros, pagens e escudeiros eram muitos e já não havia cavalo para ele. Perguntou então se não havia um burro nas cavalariças, que se contentava com isso. Foram ver, e como existisse lá um burro velho, que já não prestava para nada, deram-lho para montar. No dia da partida lá foi atrás do brilhante exército de cavaleiros montados em soberbos e ricos cavalos. Pelo caminho faziam-lhe muita troça, chamavam-lhe Careca, e diziam: — Ó Careca, tu ficas para trás? Anda, pica as esporas ao teu cavalo de batalha!... Ele, sempre a rir, não fazia caso, respondendo: — Ora! Se eu quiser faço saltar o meu burro por cima dos senhores todos e dos seus belos corcéis. Eles cada vez se riam mais. Então disse ao burro: — Vamos, meu velho, mostra a estes senhores que vales mais do que eles e os seus cavalos de combate. Deu-lhe duas chibatadas, o burro endireitou as orelhas e em dois saltos passou adiante de todos. Mas depois, coitado, como era muito vèlhinho, tropeçou e caiu. Enquanto o Careca ficou a levantar-se, os cavaleiros tomaram tal dianteira que não os via. Então bateu com a varinha que a Moira lhe tinha dado, no chão, e logo lhe apareceu um bonito e valente cavalo de batalha e tudo que era preciso a um guerreiro. Montou imediatamente e partiu a galope, passando como um furacão, pelo exército. Em pouco tempo chegou à torre, sempre com a varinha em punho. Bateu com ela à porta e logo esta se abriu, e a leitoa saltou, numa fúria, para o devorar. Mas o Careca tocou-lhe com a varinha e ela ficou logo morta. Depois apeou-se, ordenhou-lhe o leite todo para um frasco, que já levava para esse fim, rolhou-o muito bem e metendo-o no bolso tornou a montar e partiu. No meio do caminho passou pelos cavaleiros que ainda iam para lá. Chegou ao sítio onde tinha deixado o burro, e tornando a montá-lo ficou outra vez como era. Os cavaleiros chegando à torre encontraram a leitoa morta e sem leite nenhum; ficaram envergonhados e, vendo um pastor com um rebanho de cabras, compraram-lhe um pouco de leite resolvendo levá-lo ao Rei para não darem o seu braço a torcer. Perto do palácio encontraram o Careca montado no seu burro velho, e a troça recomeçou: — Então não quiseste acompanhar-nos, ó Careca? Achaste melhor voltar para trás? Vês, é bem feito! Quem manda um jardineiro meter-se com cavaleiros?!... E ele, muito risonho, respondeu: — Então, que querem? O meu burro ainda mostrou um nadinha da sua graça, depois não quis mais, e eu voltei para ver a figura que os senhores faziam. Então sempre venceram a leitoa e trazem o leite? — Forte parvo! Então não imagina ele que príncipes e cavaleiros, como nós, voltariam sem trazer o que fossem buscar! Cá vai o leite. A Princesa não se tirava da janela, a ver se avistava o Careca, que era oque mais lhe importava. Com efeito, mal que o exército apareceu, viu o jardineiro que vinha muito mais atrasado. Os príncipes apearam-se e entraram, mas a Princesa não saiu da janela sem ele chegar. O Careca fez-lhe sinal para descer ao jardim, e então entregou-lhe o frasco dizendo: — Aqui tem Vossa Alteza o leite da leitoa. Fui eu que a matei e lho tirei. Desejo que pelas vossas mãos o Rei, meu Senhor, seja curado. Ide, Senhora, e ouvi o que eles dizem, porque trazem leite de cabra para fingir que é da leitoa, que já encontraram morta por mim. Deixai-os experimentar primeiro, e, como aquilo não é remédio, o Rei ficará na mesma, e então lavareis vós os seus olhos com este leite que vos dou. Veremos quem merece a recompensa! A Princesa agradeceu-lhe com um sorriso e foi para cima. Quando chegou à sala, ouviu os cavaleiros estarem a contar como tinham morto a leitoa, e não lhes disse nada. Depois lavaram os olhos do Rei, e ele, claro, ficou na mesma. Então foi a Princesa, lavou os olhos do pai com o leite que o Careca lhe tinha dado, e imediatamente ele ficou bom. Olhou para os príncipes e mais cavaleiros e disse: — Qual de vós matou a leitoa e me trouxe o remédio? Responderam todos: — Fui eu, fui eu, fui eu!... Então a Princesa voltou-se para eles e disse: — Enganais-vos; senhores. Quem matou a leitoa e me trouxe o leite foi o Careca! Grande gargalhada dos príncipes, que não podiam tomar a sério o que ela dizia. Chamaram o Careca, e ele, diante de todos, voltou-se para o Rei e falou assim: — Real Senhor, a princesa disse a verdade. Foi eu quem matou a leitoa e trouxe o leite, entregando-o a Sua Alteza. Quando estes senhores lá chegaram e a encontraram morta, envergonharam-se de voltar sem nada e compraram a um pastor leite de cabra. Todos os cavaleiros gritaram que o Careca mentia. — Nem os tinha acompanhado à torre, quanto mais ser ele quem matara a leitoa! Que era um embusteiro atrevido, pois todos o tinham visto ficar para trás. O Careca, assim insultado, desafiou-os a todos para combate singular, e, voltando-se para o rei pediu que o armasse Cavaleiro para combater com os príncipes e nobres senhores, pois o tinham desfeiteado. O Rei não estava muito resolvido, pois nada sabia daquele personagem misterioso, mas a filha pediu muito, contando-lhe o que tinha visto, e ele próprio logo ali, o armou Cavaleiro. O Careca pediu então licença para se preparar e entrando para o caramanchão do jardim em breve saiu de lá vestido de ponto em branco, como se realmente fosse um Cavaleiro. Os cabelos de oiro, caindo-lhe nos hombros, faziam-no deslumbrante de magestade e formosura. Os adversários, o Rei e toda a corte estavam boquiabertos. Só a Princesa batia as palmas, satisfeitíssima, animando-o com sorrisos. Logo quatro príncipes, dos mais considerados e esforçados entre os combatentes, se adiantaram e disseram: — Dizei, Cavaleiro, com qual de nós vos quereis bater, porque não é justo um só homem para tantos. — Venham todos, que a todos farei corpo! — respondeu altivamente o novo Cavaleiro. Então, ele dum lado e os quatro do outro, mediram-se para a luta. O primeiro recontro foi tão violento que dois príncipes ficaram logo no chão. Na segunda arremetida ficaram os outros dois fora de combate, incapazes de levantar mais a espada. Todos os outros iam correr para vingarem os companheiros, mas o Rei, entusiasmado com a façanha, bateu as palmas e a corte imitou-o logo, acabando o combate com todas as honras para o antigo jardineiro. Então a Princesa pediu ao pai que cumprisse a sua palavra, pois muito gostava daquele Cavaleiro e só a ele queria para esposo. O Rei chamou-o, perguntou-lhe quem era, e ele contou toda a sua vida, o que em nada alterou a consideração em que já o tinham. Depois fez-se o casamento com grande pompa, e o Rei, que já estava velho, abdicou nele todos os seus poderes. Foi sempre muito bom e a Princesa muito feliz se considerava em o ter escolhido. E aqui está como o filho dum pobre forneiro chegou a ser Rei, governando o seu reino com muito juizo e acerto. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|História do careca]] 3q3cgrchi0qnr1jo504xq2zjm4uay0v Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/A Bela Felicidade 0 256004 560254 559685 2026-08-23T08:08:16Z Mt516 43586 560254 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = A Bela Felicidade | anterior = [[../História do careca/]] | posterior = [[../O porqueiro/]] | notas = }} '''<big>A BELA FELICIDADE</big>''' ERA uma vez um Rei que tinha dois filhos. O mais velho, que devia ser o herdeiro do trono, chamava-se Aleixo. Desde criança que só pensava em divertimentos e festas, principalmente em caçadas. Dizia ao irmão mais novo que estudasse bastante para governar o seu Reino, pois disso não queria saber. Um dia em que ele andava, segundo o seu gosto, numa grande caçada na qual tomavam parte os fidalgos caçadores do Reino, viu passar um belo veado seguido duma enraivada matilha de cães. Meteu esporas ao cavalo e seguiu-os a toda a brida. O veado corria muito e os cães iam ficando para trás, sem fôlego.Mas o Príncipe não desanimava. Corria, corria, sem nunca perder de vista o animal. Assim foram, por montes e vales, até chegarem a um bosque tão embrenhado, tão espesso, que nele o Príncipe viu desaparecer o veado sem saber onde se metera. Olhou para todos os lados e, achando-se perdido, tocou a trompa de caça que trazia ao lado. Mas por mais que escutasse, a ver se lhe respondiam, nenhum ruído lhe chegava aos ouvidos. Já o sol ia a esconder-se e o Príncipe não estava lá muito satisfeito de se ver só, naquele bosque, sem mesmo ter onde se recolhesse. Enfim, como era aventuroso e cheio de ânimo, resolveu seguir sempre em frente — Porque (dizia ele a si próprio) seguindo sempre a direito a alguma parte chegarei. Assim foi. Já alta noite conseguiu sair daquela triste e sombria floresta e achando-se num descampado viu luzir ao longe um pontinho doirado que parecia uma estrela. Para ali se dirigiu, mais esperançado, mas cheio de fome e de frio. À medida que andava a luz ia crescendo, até que chegando perto viu que era numa casa solitária, que estava no meio do campo. Bateu à porta, e veio um velha muito velha perguntar quem era e o que queria. Respondeu o Príncipe Aleixo que era o filho mais velho do Rei e que andando à caça com a sua comitiva se tinha perdido. Depois, vira aquela luz muito ao longe, e para ali se dirigira a pedir pousada. A Velha respondeu: — Por mim, de boa vontade lhe dou agasalho. Mas o pior são os meus filhos que estão a chegar e que têm muito mau génio. O Príncipe, que era valente, não teve nenhum receio com as palavras da mulherzinha e foi entrando, preferindo antes a luta com os filhos da Velha do que passar a noite ao frio, encostado ao cavalo, que nem podia trocar os pés. Estava o Príncipe sentado à lareira, a conversar com a Velha, quando sentiram fora um barulho furioso. Levantou-se a mulher muito aflita e pediu-lhe que se metesse num grande armário porque chegava o seu filho mais velho, que era o Vento Sul. É ele o mais terrível, o mais danoso de todos, aquele que derruba as grandes árvores, que traz as tempestades, que faz naufragar os navios e, trazendo a chuva, tanta miséria faz passar aos pobrezinhos. O Príncipe escondeu-se no armário ao tempo que batia estrondosamente à porta o vento Sul. A velha foi abrir, e ele mal entrou começou a farejar dizendo: — Cheira-me aqui a carne humana e a sangue real! Respondeu a Velha, com muito boa sombra: — Olha, filho, esteve aqui o Príncipe Aleixo, que se tinha perdido no caminho, mas eu, como não sabia se tu o quererias receber, disse-lhe que se fosse embora. — Há muito tempo que isso foi? — perguntou o Vento Sul. — Foi agora mesmo. — Fez muito mal em o deixar partir, e então saio outra vez para o trazer a nossa casa. Nunca se deve negar agasalho a ninguém. A Velha, vendo que seu filho queria receber o Príncipe, foi abrir o armário dizendo que, por não saber se ele o queria em casa, o tinha escondido. O Príncipe apareceu todo contente por se ver bem recebido do terrível Vento Sul. Este fez-lhe muita festa e disse-lhe que sabia que ele se tinha perdido e que já os seus companheiros, depois de o procurarem por toda a parte, tinham ido, muito tristes, dar a notícia ao Rei e ao Infante, que a essa hora estavam desolados imaginando-o morto. Nisto sentiram fora um barulho ainda mais forte do que fora o primeiro. E a Velha, muito aflita, foi dizer ao Príncipe que se escondesse numa arca muito grande que ali tinha, porque chegava o Vento Nordeste, que era o seu filho segundo, e vinha tão bravo que ela receava lhe fizesse algum mal. Escondeu-se o Príncipe Aleixo e a Velha foi abrir. Entrando o Vento Nordeste, começou também a farejar dizendo: — Cheira-me aqui a carne humana e a sangue real! Respondeu-lhe a mãe o mesmo que tinha dito ao Vento Sul, e o Vento Nordeste queria também ir buscá-lo. Então apareceu Aleixo, que foi muito bem tratado por ele. Depois veio o Sudoeste e aconteceu o mesmo. No fim chegou o Vento Norte que, ao entrar, igualmente começou a farejar dizendo: — Cheira-me aqui a carne humana e a sangue real! A Velha respondeu o mesmo que tinha dito aos outros seus três filhos, e o rapaz apareceu, sendo da mesma maneira festejado pelo Vento Norte como tinha sido por seus irmãos. Foi convidado para a ceia, o que aceitou de boamente, pois desde manhã que não comia. Sentaram-se à mesa onde tinham posto um boi inteiro assado no espeto, afora inúmeros pratos de toda a espécie de comida, não falando no vinho, que estava numa pipa ao meio da casa. Como todos tinham apetite, correu a ceia alegremente. No fim de bem fartos e muito alegres, começou cada um a contar o que tinha feito durante o dia. O primeiro foi o Vento Sul, que disse: — Eu hoje estive numa feira e fiz lá o demónio! Quebrei os cântaros às raparigas, voltei-lhes as canastras, parti chapéus de chuva, levantei nuvens de pó — fiz andar tudo num rodopio! Os outros dois ventos disseram também que tinham arrancado árvores, derribado estátuas, destelhado palácios, levantado tempestades de areia... Enfim, tropelias de toda a ordem que estes senhores têm por hábito fazer! Depois chegou a vez ao Vento Norte, que começou a contar: — Eu estive junto do palácio da Bela Felicidade, e como a vi sentada na varanda que deita para o jardim, a bordar com sorrisos a teia da fortuna, fiquei ali a contemplá-la, porque é a mais formosa e esquiva dama que existe no mundo. De vez em quando deitava-lhe uma lufada de ar fresco, coisa de que ela parecia gostar muito. Assim estive todo o dia entretido, pois a ver tão bela Senhora tudo se esquece. O Príncipe, que tinha rido com as histórias do Vento Sul e prestado toda a atenção aos outros dois, quando ouviu o Norte descrever a Bela Felicidade ficou tão perdido da razão que já não pensava noutra coisa nem ouvia mais nada. Chegou a hora de se irem deitar e começaram todos em consultas a ver com quem dormiria o Príncipe, pois na casa só havia cinco camas, que eram dos quatro Ventos e da mãe. Aleixo pediu licença para escolher e foi deitar-se com o Norte. Mas em toda a noite não pregou olho, sempre a pensar na Bela Felicidade. O Vento, vendo que ele não sossegava, perguntou-lhe se queria alguma coisa, ao que o Príncipe respondeu que não podia mais viver, se não visse a Senhora de quem ele tinha falado. O Norte, que era já muito amigo do Príncipe Aleixo, respondeu: — Não há nada mais fácil! Durma descansado, que amanhã o levarei lá. Ficou o Príncipe tão agradecido que nem palavras tinha para dizer a sua alegria. De manhã deu-lhe o Vento Norte uma capa e um chapéu, que tinham a virtude de o tornar invisível aos olhos de todos e leve qual uma pena. Depois, despediu-se o Príncipe dos outros Ventos mandando por eles dizer ao pai que se não afligisse por sua causa, porque estava vivo e são, indo em busca da Bela Felicidade; e ao Príncipe seu irmão que ficasse com o Reino, porque ele já não queria saber de mais nada. Depois, pondo o chapéu e a capa, subiu para os ombros do Vento Norte, que lhe disse: — Agarre-se bem, porque embrulhado nessa capa que lhe dei está leve qual uma folha seca, e pondo o chapéu ficará invisível como nós somos. Dizendo isto saiu a porta da casa e logo se transportou ao palácio da Bela Felicidade. Então, colocando o Príncipe no jardim, disse-lhe: — Agora aqui ficará enquanto quiser. Eu cá o virei ver, de tempos a tempos, e saberei se precisa de alguma coisa. Com esse chapéu e essa capa poderá andar por toda a parte sem perigo. Retirou-se o Vento, não sem receber os maiores agradecimentos. Por ali ficou o Príncipe Aleixo a passear no jardim até que se abriu a varanda e pôde contemplar a mais risonha, a mais bela, a mais encantadora mulher que jamais ele tinha sonhado. E a olhá-la esqueceu tudo e não podia desviar-se dali — tal era o embevecimento em que tinha caído. Assim estaria por toda a eternidade, se a menina não se retirasse da varanda para ir almoçar. Então, sabendo que ninguém o podia ver nem sentir, graças à capa e ao chapéu que o vento Norte lhe tinha dado, dirigiu-se também para a sala de jantar e, sentando-se junto da Bela Felicidade, ia comendo do mesmo prato e bebendo do mesmo copo sem que ela reparasse. Tudo naquele palácio era risonho e agradável. Não o enchiam grandes riquezas mas tornavam-no encantador a paz e harmonia. Tudo eram flores, risos, músicas, alegria e bem-estar. Era a Bela Felicidade servida por pequeninos espíritos subtis e tão alegres, tão vivos, que enchiam a casa de animação. Cada qual trazia o nome escrito sobre o peito. Eram a Bondade, a Graça, a Delicadeza, a Tolerância, a Amizade, a Gentileza, a Elegância, a Generosidade. E o chefe de todos era o Amor. Estava ali o único bem, mas para lá chegar era preciso correr tantos perigos, vencer tanta contrariedade, que nenhum homem ainda se atrevera a ir até ao fim e a Bela Felicidade vivia só desde o princípio do mundo. O Príncipe Aleixo sentia-se tão bem, que na verdade não sabia se estava vivo ou morto, pois a sua existência decorria como um sonho. Acompanhava sempre a Bela Felicidade, sem que ela o presentisse, graças ao chapéu e à capa do Vento Norte. Assim foram passando os meses sem que desse por isso, tal era o bem-estar que gozava! Nem de dia nem de noite se separava dela, dormindo aos pés da sua cama, comendo do mesmo prato, seguindo os mesmos passeios. A Bela Felicidade andava admirada das coisas que lhe aconteciam, sem saber como as explicar. Um dia, por exemplo, disse ela quase falando consigo: — Bebia agora um copo de água bem fresca! Olhou para o lado e viu um copo com água que vinha pelo ar. Muito admirada, pegou-lhe e bebeu, e em seguida deixou-o cair imaginando que se partiria no chão. Mas qual não foi o seu espanto vendo que, em lugar de cair, foi pelo ar colocar-se ao pé dos outros copos, como se alguém o levasse. Outra vez, andando a passear no jardim, caiu-lhe o lenço e, quando o ia levantar, viu que se erguia até à altura da mão. Com estas coisas e outras, que já tinha notado, como a falta de comida no prato e assim casos parecidos, andava a Bela Felicidade muito intrigada. Uma noite de verão estava ela à fresca, no jardim, a pensar no que lhe acontecia havia algum tempo, e nessa meditação levou até mais tarde. Depois foi deitar-se, e o Príncipe, como de costume, ficou aos pés da cama, adormecendo profundamente. A Bela Felicidade, como se tinha deitado mais tarde, também até mais tarde dormiu. Já era alto dia quando acordou e saltando da cama foi abrir a janela, sem que o Príncipe sentisse. Tornou à cama, sacudiu a roupa e, como Aleixo estava dormindo, caiu-lhe o chapéu da cabeça e logo ficou visível, embrulhado na sua capa. A Bela Felicidade ficou admiradíssima, e tão enlevada que não se podia dizer mais. Olhando aquele moço tão lindo como na sua vida não pudera imaginar coisa igual, ficou logo perdida de amor. Perguntava a si mesma como teria ele podido chegar ali, guardada como estava por tantos obstáculos. Depois puxou-lhe pela capa para o acordar. Despertou o Príncipe e, vendo-se descoberto, saltou logo da cama indo ajoelhar diante da menina, contando-lhe tudo o que tinha sucedido. Ela ficou muito contente por se ver amada de tão gentil cavaleiro. Abraçaram-se cheios de alegria, e o Príncipe pôs logo de parte a capa e o chapéu mágicos e ficou junto da Bela Felicidade gozando do maior e mais verdadeiro bem. Corria o tempo sem ele dar por isso, servido pelos espíritos que estavam às ordens da sua doce companheira. Os anos pareciam-lhe segundos. Até que um dia lembrou-se o Príncipe Aleixo dos pais, o irmão, os seus vassalos e Reino e teve saudades de tudo, e desejo de os tornar a ver. Comunicou à Bela Felicidade este desejo e ela respondeu-lhe: — Então há quanto tempo imaginas tu que vives na minha companhia? — Suponho que estarei aqui há um ano — respondeu Aleixo. — Não, meu amigo! Aqui passa o tempo sem se perceber. Tu já aqui estás há tantos séculos que dos teus já não vive ninguém. O Mundo está completamente deserto e nada existe fora daqui. Se teimas em ir, não encontrarás nada, e o Tempo, que te procura por toda a parte, pois só tu é que ainda vives, mata-te logo que lhe apareças. — Não importa! — volveu o Príncipe — quero ir ver se alguma coisa ainda resta, e voltarei logo e não tornarei então mais a sair daqui. A Bela Felicidade ficou muito triste, mas, não o querendo contrariar, disse: — Enfim!... visto que assim o queres, faça-se a tua vontade. Vais, mas hás-de ir montado no meu cavalo branco que te levará, onde o teu pensamento quiser. Nunca te apeies, seja sob que pretexto for, vejas o que vires, sintas o que sentires. Vê lá! Olha que logo o Tempo te mataria se tu caisses em pôr pé em terra. Toma bem sentido! Se fizeres o que te digo, voltarás aqui outra vez; senão, nunca mais nos veremos! Bem; despediram-se com muita mágua. O Príncipe sofria verdadeira pena de deixar a sua boa companheira, mas a curiosidade era mais forte do que esse desgosto. Ao certo queria ele saber o que seria feito do seu Reino e da sua família. Montou o cavalo branco e logo apareceu na sua terra. Não viu ninguém! Todas as cidades arrasadas, tudo destruído. O Mundo era um deserto. Em vista disto resolveu o Príncipe Aleixo voltar imediatamente ao palácio da Bela Felicidade, donde nunca devera ter saído. Ia muito triste de ver tudo morto e, a meio do caminho, encontrou um carro de bois voltado e debaixo um velho a gritar por socorro, parecendo muito aflito. O Príncipe que assim o viu condoeu-se do velho, que imaginou o último habitante da terra, e, desprezando os conselhos da Bela Felicidade, apeou-se e foi livrá-lo do peso do carro. O Tempo, que outro não era o velho, saltou-lhe em cima com agilidade espantosa e matou-o logo. O cavalo desapareceu, chegando só ao palácio. Quando a Bela Felicidade o viu ficou muito triste presumindo desgraça, mas sempre ia esperando pelo seu companheiro de tantos séculos. Até que um dia o Vento Norte, passando pelo sítio onde o Príncipe ficara morto, viu-o e disse: — Coitado! O Tempo andava em tua procura e sempre conseguiu apanhar-te. Para destruir completamente o género humano, faltavas-lhe tu; agora acabou-se tudo! Ao menos não ficarás aqui abandonado. — E pegando no Príncipe Aleixo, de quem fora tão amigo, foi depô-lo no jardim da Bela Felicidade. Quando ela foi dar o passeio do costume, chamando em vão o seu Príncipe, viu-o ali estendido. Sem saber ainda o que pensar, correu para ele ansiosamente e conheceu então que estava morto. Ficou muito triste, muito triste, e chamou todos os seus bons servos, que igualmente lamentaram a morte de tão galante e bom rapaz. Abriram-lhe uma sepultura ali mesmo, e a chorar escreveu ela na pedra: — Não há felicidade completa, nem coisa que o Tempo não acabe! [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|A Bela Felicidade]] q2oi70hkyhuida9uuvu2l9c3boxi0xv Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O porqueiro 0 256005 560255 559686 2026-08-23T08:08:43Z Mt516 43586 560255 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O porqueiro | anterior = [[../A Bela Felicidade/]] | posterior = [[../O coelho branco/]] | notas = }} '''<big>O PORQUEIRO</big>''' EXISTIU em tempos remotos um Rei que tinha uma filha. Um dia disse-lhe ela: — Meu pai, ando sempre a ter sonhos tão extraordinários, que não imagina! Este noite tive um em que até faz vontade de rir. Sonhei que meu pai me há-de beijar a mão! O Rei, que tal ouviu, ficou furioso e respondeu irado: — O quê?! Pois eu hei-de beijar-te a mão?! Isso nunca poderia acontecer! — Não (volveu a menina com doçura), nem eu creio que possa ser, mas foi o que sonhei. O Rei, que era muito orgulhoso, não ficou satisfeito com isto; mandou chamar adivinhos e todos lhe disseram que podia muito bem ser verdadeiro o sonho da Princesa. E, levado pelo seu mau génio e por maus conselheiros secretos, resolveu mandar matar a filha. Chamou um criado de confiança e deu-lhe ordem de levar a Princesa para longe, de a matar e de lhe trazer o coração como prova de ter obedecido. Foi o criado com a menina para um bosque, querendo cumprir as ordens do Rei, mas vendo-a tão bonita, tão novinha, tão boa, e tão desgraçada, não teve coragem de a matar. Apareceu por ali um cãozito e ele tirou-lhe o coração para levar ao Rei, como sendo o da filha. À Princesa disse que se escondesse em alguma choupana por essa noite e depois que fugisse para bem longe, de maneira que a imaginassem morta. Mal a Princesa se viu só, foi andando, andando, mas quanto mais andava mais se enredava na floresta até que lhe anoiteceu, sem ver ninguém a quem perguntasse o caminho ou lhe desse uma sede de água! Ouvia os animais selvagens uivando pelos matos e tremia de frio e de medo. Assim foi seguindo, com os pés ensanguentados e os vestidos em farrapos, até que viu ao longe, muito longe, uma luzinha. Bastou isso para lhe encher o coração de esperança e lá se foi arrastando até chegar a uma casa, à porta da qual bateu esperando que lhe dissessem alguma coisa. Como não lhe respondessem, empurrou a porta, vendo o lume aceso, mas ninguém dentro de casa. Foi entrando, resolvida a esperar os donos para pedir licença de passar a noite em qualquer canto. Mas, como era muito arranjada, vendo a casa por varrer, pegou numa vassoura e limpou-a. Tratou do lume, pôs a panela a ferver, e tinha tudo em ordem quando sentiu um tropel fora da porta. Foi ver o que era e viu um velho que trazia um rebanho de porcos, acomodando-os num curral ao lado. Entrou na casa, onde a Princesa o recebeu a chorar, perguntando-lhe com muito bom modo o que estava ali a fazer equal a razão de tantas lágrimas. A menina contou-lhe toda a sua vida e terminando pediu que a não abandonasse, que a não levasse ao pai, aliás ele a mataria e ao bom criado que a tinha salvo. O porqueiro respondeu-lhe que descansasse, que ali ficaria como sua filha, até que aparecesse um esposo a quem a pudesse entregar. — Por agora (disse-lhe) até me fazes favor em viver comigo, porque eu estava aqui muito só com os meus porcos. Agradeceu a menina, cheia de alegria, ao bom do velho, e daí em diante ficaram os dois a viver como Deus com os anjos. Nunca houve pai e filha que melhor se entendessem. Fazia gosto vê-los. A Princesa acostumara-se àquela vida sossegada e nenhumas saudades tinha do faustuoso viver que deixara. É preciso dizer que a mãe lhe morrera, quando ela abria os olhos ao mundo. Por isso sofrera tanto, e teria morrido, se não fosse um humilde criado! Ora a Princesa era muito linda e muito boa, mas a respeito de sabedoria tinha muito pouca. Naquele tempo nem os reis sabiam escrever, quanto mais as princesas! Mas o porqueiro, que era um grande sábio, não cessava de a ensinar, dizendo-lhe muita vez: — Eu quero um dia apresentar-te a teu pai de tal maneira, que nem ele mesmo te reconhecerá. Mas há-de ser quando tenhas um marido que te ampare e ele não te possa fazer mal. A menina respondia-lhe sempre que era muito feliz, que estava ali muito bem, e não desejava mais do que viver toda a sua vida assim. O velho sorria-se e não dava mais explicações. De dia andava ele pelo montado com os seus porcos, e à noite instruia a Princesa em tudo que uma senhora deve saber para que a considerem mais pela sua inteligência do que pela posição, que duma hora para outra pode mudar. Assim foi passando o tempo até que a Princesa chegou aos vinte anos. Tinha ela o costume de se ir sentar à porta a costurar, enquanto o pai adoptivo andava por fora com os porcos. Ora acontecia que por aqueles sítios passavam muitos fidalgos que andavam à caça; entre eles apareceu um conde de muito galante figura, que se enamorou da filha do porqueiro. Passava e repassava por ali e sempre lhe dizia: — A menina quer ser minha esposa? A Princesa não respondia, mas o cavaleiro não desanimava nem perdia ocasião de repetir o mesmo e mostrar por todos os meios quanto era sincero o seu pedido. Tanto andou, tanto disse, que um dia respondeu-lhe a Princesa, discretamente: — Por mim nenhuma resposta lhe posso dar, cavaleiro. Fale a meu pai. Volveu logo o Conde, muito animado: — Primeiro diga-lhe a menina tudo e amanhã dê-me a resposta. O que ele disser é o que se há-de fazer. O que é verdade é que ele era um lindo rapaz e a Princesa achava-o bastante simpático, mas nada lhe quiz confessar sem o consentimento do bom homem que lhe tinha servido de pai. Quando à noite recolheu, contou-lhe tudo que se tinha passado. O porqueiro ouviu-a atento, respondendo assim: — Minha filha, é esse cavaleiro muito do meu gosto. Conheço-o bem e sei que te fará feliz. De boa vontade; pois, darei o consentimento que me pedem, se ele aceitar a condição que eu ponho. Dize-lhe tu, minha filha, que te deixo casar de muito boa vontade, se ele no jantar de noivado quiser ter como convivas os meus porcos. No outro dia, à hora do costume, chegou o cavaleiro ansioso por saber a resposta que lhe daria a menina, que ele julgava uma simples camponeza, filha dum pobre porqueiro. Ela disse-lhe a condição que seu pai apresentava, e o Conde pensou que, à custa desse sacrifício dum dia, teria a felicidade de toda a vida e, como era uma só vez que jantaria com tão feios companheiros valeria bem a pena. Respondeu à menina que sim, que podia combinar com o pai o dia do casamento, que ele estava por tudo. Ficou a Princesa encantada com uma tão grande prova da sincera afeição do noivo e confessou-lhe como era também grande o amor que lhe dedicava. Separaram-se esperançados e felicíssimos, e o cavaleiro foi dali fazer-se encontrado com o porqueiro, prevenindo-o este de que no dia do casamento, quando os seus porcos estivessem juntos, ele diria uma coisa que causaria muito espanto. O Conde, como nada tinha de que se acusar, ficou por tudo. Chegou o dia marcado e na casa do porqueiro se pôs a mesa, estando os porcos todos em volta. Os parentes e amigos do Conde, que assistiam à festa, não se cansavam de o cumprimentar pelo seu bom gosto, pois a noiva era um encanto de modéstia e discrição, apesar de ser a mais instruída Princesa que nesse tempo se podia encontrar no mundo. E todos concordavam em que valia a pena jantar uma vez na vida com uma ranchada de porcos, para obter uma tão encantadora esposa. Quando estavam à roda da mesa prontos para jantar, dirigiu-se o porqueiro à filha para que lhe cortasse um dedo com uma faca que lhe entregou. Ela não queria de maneira nenhuma fazer tal barbaridade, mas, em vista da insistência do pai, não teve remédio: pegou na faca, voltou a cara para o lado, e descarregou-lhe um golpe, de que o sangue começou a correr em fio. Então o velho foi junto de cada porco e deitando-lhe uma pinga do seu sangue na cabeça logo ele se transformava num cavaleiro ricamente vestido. Quando chegou ao último, os convivas do noivo ficaram pasmados vendo-o transformar-se num homem, com todas as insígnias de imperador. Ao mesmo tempo que isto acontecia, sentiu-se um ligeiro abalo na casa e acharam-se, num abrir e fechar de olhos, no mais sumptuoso palácio. Contou então o porqueiro — que era um bom génio protector dos príncipes infelizes — a história daquele poderoso imperador e seu companheiros, que o menor deles era conde de sangue real. Era um extenso império o daquele poderoso senhor. Ele e seus companheiros foram um dia numa grande armada à conquista da Terra Santa. Mas, indo dar a uma ilha que uma fada muito má governava, transformou-os em porcos e só aquele bom génio podera moderar a pena, que era eterna, fazendo-a terminar no dia em que um nobre senhor quisesse jantar com eles à mesa. Tornemos à história do Conde e da Princesa. O imperador e os seus cavaleiros, como lhes deviam a vida humana a que outra vez se viam restituídos, cheios de reconhecimento os juraram futuros herdeiros do seu império, que, passadas as festas do casamento, iriam todos habitar. No meio da sua grande alegria nem a Princesa já pensava no Rei seu pai, no sonho, e muito menos nas desgraças passadas. Mas estava escrito que o Rei orgulhoso e mau que a mandara matar teria o seu castigo. Como isto tudo se passava no Reino, soube da estada ali do opulento e nobre imperador vivendo num magnífico palácio com a sua corte de príncipes. Resolveu ir visitá-lo, seguido duma soberba comitiva, para mostrar como ele também era rico e poderoso. Ficou, apesar disso, maravilhado com o luxo e riqueza que viu no palácio do imperador. Na sala do trono onde este o recebeu rodeado dos seus cavaleiros e pagens, escudeiros e homens de armas, entre muitas e gentis damas estava uma que, sobre todas, brilhava pela sua nunca vista formosura e riqueza de vestido. O Rei, imaginando que seria a filha do imperador, que sabia viúvo, dirigiu-se para ela e amàvelmente lhe beijou a mão, sem, nem por sombras, lhe passar pela cabeça que fosse a sua própria filha. Também a Princesa não reconheceu o pai senão quando o porqueiro veio contar diante de todos a história daquele mau e orgulhoso Rei, que mandara matar a sua própria filha só por um sonho, que nada valia. Tanto numa como na outra corte ficaram indignados e ele tão furioso, por ter beijado a mão à filha, que teve um ataque de desespero morrendo logo ali, sem ninguém ter pena. Como não tinha mais herdeiros ficaram reis a Princesa e o Conde, combinando dar o primeiro filho que tivessem para herdar o império do piedoso soberano que tinham desencantado. E o segundo filho ficaria herdeiro deles. Assim se fez, como combinaram, tudo na paz e grande amizade que desde então ligam aqueles grandes estados. E, por fim, sempre é bom dizer que viveram muitos anos; que foram o mais felizes que na terra se pode ser, e nunca a Princesa consentiu em separar-se do porqueiro, o bom génio que lhe tinha servido de pai. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|O porqueiro]] jq558tnsf9b6y5i6wyyxejsrp5oq67m Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O coelho branco 0 256018 560256 559687 2026-08-23T08:09:06Z Mt516 43586 560256 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O coelho branco | anterior = [[../O porqueiro/]] | posterior = [[../Branca-Flor/]] | notas = }} '''<big>O COELHO BRANCO</big>''' EM tempos que já lá vão, havia um Rei que tinha uma única filha. Chamava-se ela Clarinda e ele o Rei Poderoso, tão vastos e ricos eram os seus estados, tão fortes e bem equipados os seus exércitos. O Rei estimava muito a filha, fazia-lhe todas as vontades, e decerto não havia no Mundo outra princesa tão feliz como aquela. E linda, boa e amável era Clarinda como nenhuma outra. Ora um dia foi esta Princesa passear para o seu jardim, que era o mais belo de quantos jardins havia naquele tempo. Sentou-se junto duma fonte e, despregando os seus abundantes cabelos, começou a penteá-los com um riquíssimo pente de ouro cravejado de diamantes. Enquanto prendia o cabelo no alto da cabeça com ganchos de pérolas, veio um coelhinho branco muito lindo, tão lindo e tão branco que só parecia uma bola de neve a caminhar, e roubou-lhe o pente que ela tinha posto sobre as guardas da fonte. A Princesa achou muito engraçado o coelhinho e correu atrás dele, mas por mais que procurasse, não o tornou a ver naquele dia. Na manhã seguinte veio muito cedo sentar-se junto da fonte, e, como toda a noite não dormira a pensar no coelhinho branco, sentiu que o sono ia invadi-la e tirou do pescoço um colar de rubis que lhe apertava alguma coisa. Mal tinha fechado os olhos aparece o coelhinho branco e rouba-lhe o colar. A princesa Clarinda, acordada em sobressalto, correu atrás dele, procurou-o em todo o jardim, chamou criados e pagens, mas, por mais que procurassem, tal coelho não apareceu. Se não fosse faltar o colar e o pente, imaginaria a Princesa que tinha sonhado. Vem o terceiro dia e a bela Clarinda logo de manhã saltou do leito, vestiu o mais rico vestido do seu guarda-roupa, calçou burzeguins de fino coiro, pôs as suas mais artísticas jóias, e foi a correr para o jardim. Sentou-se junto da fonte à espera do coelhinho branco, porque a todo o custo o queria possuir. Já a Princesa estava cansada de esperar, quando se lembrou de meter as mãos na água muito clara, que caía num doce murmúrio na bacia de jaspe em forma de concha. Tirou dos dedos os anéis e pô-los na borda do tanque. Imediatamente vem o coelho a correr, e rouba-lhe um anel de esmeraldas, o mais lindo de quantos ela tinha, e foge numa corrida tal que a Princesa nem viu para que lado ele se meteu. Chamou toda a gente do palácio, procuraram, viram tudo, mas de tal coelhinho nem novas nem mandados! Imaginavam todos que a Princesa tinha querido brincar e fizera aquele reboliço sem ter visto nenhum coelho. Ao outro dia voltou ela ao jardim e no outro e no outro também, mas do coelhinho nunca mais soube. Teve a Princesa Clarinda um tal desgosto com isto, que perdeu a fala. O pai quando assim a viu, ia endoidecendo de desgosto. Mandou chamar todos os médicos do seu Reino e do estrangeiro, mas com a cura da Princesa ninguém acertou! E ela, deitada na cama, nem comia nem falava. O bom do Rei Poderoso oferecia tudo quanto tinha a quem lhe salvasse a vida da filha. Todos os seus vastos domínios lhe pareceriam uma miséria se lhos pedissem em troca da saúde da bela Clarinda. Mandou um arauto apregoar pelo mundo fora que daria a Princesa em casamento ao homem que lhe desse fala, fosse ele quem fosse. E, se alguma mulher conseguisse tal milagre, sob palavra de rei lhe prometia tudo quanto quisesse. É claro, foi toda a gente ao palácio, mas nada se conseguiu. Estavam as coisas neste ponto — e a Princesa cada vez pior e o Rei cada vez mais aflito — quando uma lavadeira se apresentou à porta do paço pedindo para falar à Princesa. Como havia ordem de deixar entrar toda a gente também a lavadeira entrou, desembaraçada, mãos na cinta, faladora e alegre. Chegou ao quarto onde a linda Princesa ia morrendo de saudade a cada hora, e vendo-a tão magrinha, tão diferente do que fora, nem a boa mulher pôde suster as lágrimas. Clarinda não dava por coisa alguma, mas a lavadeira não desanimou. Fez sair toda a gente do quarto, sentou-se à cabeceira do leito, e, pegando com as suas rudes mãos calosas na mãozinha branca da Princesa, começou a contar: — Olhe, minha menina, quando ontem à tarde recolhia a casa, já com a minha tarefa acabada, vi diante de mim um burro com umas cangalhas carregadas de barris, e ouvi uma voz que dizia: ''Arre, burro, para nossa casa!'' — Olhei para todos os lados e não vi ninguém; mais adiante a mesma voz a falar! Admirada com isto, resolvi seguir o burro. Fomos andando, andando, ele sempre adiante e eu atrás, seguindo a voz que repetia: ''Arre, burro, para nossa casa! Arre, burro para nossa casa!...'' — Assim fui andando até chegar a um grande bosque. No meio havia um magnífico palácio, mil vezes mais lindo e mais rico do que este. — De repente vi que os barris saíam de cima do burro, mas não sei quem lhe pegava, e ele foi meter-se na estrebaria. Eu, como estava cansada e vi luz dentro do palácio, fui entrando sem encontrar ninguém até chegar à cozinha. Aí vi um grande fogão cheio de caçarolas, frigideiras e panelas com diversos manjares, e havia por toda a parte um mexer de coisas como se muitos cozinheiros tratassem dum grande banquete. Mas, por mais que olhasse, não via ninguém. — Como estava ali só, fui-me chegando para o fogão a ver se comia um dos bolos muito loirinhos, muito apetitosos, que da frigideira iam saltando para uma travessa que estava ao lado. Mal lhe toquei, senti uma pancada na mão e a voz que dizia: «Olha a lavadeira o que é de atrevida!». A lavadeira contava a sua história, mas a Princesa nada parecia ouvir. Tinha os olhos fechados e estava tão imóvel como se estivesse dormindo. A mulherzinha não desanimou e foi sempre contando: — Olhe, Princesa, isto foi assim até à meia-noite; depois, à última badalada das doze horas, abriram-se alçapões e portas com muito estrondo e eu escondi-me a um canto. Ouviu-se um grande barulho e entrou na cozinha uma quantidade de coelhos de todas as cores; entre eles vinha um todo branco; tão lindo, tão lindo, que eu fiquei encantada. Nunca vi um coelho assim! Mal que a Princesa ouviu isto, abriu os olhos e sentou-se na cama. A lavadeira, contentíssima com tal resultado, foi continuando: — Trouxeram uma bacia de prata cheia de água e puzeram-na no meio da cozinha. Então o coelhinho branco meteu-se dentro, espanejou-se muito, e, saltando para fora da bacia, fez-se num Príncipe ricamente vestido e tão belo que não espero ver outro que o iguale. Depois foi a um armário, e, pegando num cofre de cristal, tirou de dentro um pente de oiro cravejado de brilhantes, um colar de rubis e um anel de esmeraldas, e disse: «Pente, colar, anel da minha Senhora: vejo-te a ti, não a vejo a ela. Ai de mim, que morro por ela!» — E, achorar que fazia pena, tornava: «Pente, colar, anel da minha Senhora: vejo-te a ti, não a vejo a ela. Ai de mim, que morro por ela!». E depois repetiu ainda, antes de fechar o cofre: — «Pente, colar, anel da minha Senhora: vejo-te a ti, não a vejo a ela. Ai de mim, que morro por ela!». Arrumou tudo como estava antes, tornou a meter-se na bacia, espanejou-se muito e ficou outra vez feito em coelho branco. &nbsp; Quando a lavadeira acabou a história, já a Princesa estava em pé no meio do quarto. Abraçou-a como a uma amiga e agradeceu-lhe as boas novas que lhe dava do seu querido coelhinho branco, combinando ir essa tarde com ela para o ver. Foi logo chamado o Rei e pedida a necessária licença para a Princesa sair. O pobre pai tão contente ficou ao ver a filha quase boa, que consentiu em tudo que lhe pediram, para a ter como era antes da doença. À tarde veio a lavadeira buscar a Princesa e lá foram as duas para o rio, encontrando o mesmo burro com as cangalhas e ouvindo a voz que dizia: ''Arre, burro, para nossa casa! Arre, burro, para nossa casa!'' A Princesa caminhava ao pé da lavadeira, e ninguém diria que tinha estado doente, pelo desembaraço que levava. Assim foram seguindo até chegar ao palácio; entraram, e, como na véspera, foi a lavadeira para cozinha e a menina com ela. Havia a mesma faina do dia anterior, e a mulher, para experimentar, fingia mexer nos guisados, e logo uma pancada na mão e a voz que gritava: — Olha a lavadeira o que é de atrevida! — Ia a Princesa, mexia em tudo, e não lhe faziam nenhum mal nem diziam nada. Assim estiveram até que o relógio deu as doze horas. Então, sentindo o mesmo barulho da véspera, esconderam-se as duas e logo viram chegar uma quantidade de coelhinhos e entre eles o branco, que a Princesa tanto amava. Veio a bacia, e ele, metendo-se dentro, espanejou-se muito e saiu um belo cavaleiro. Clarinda por sua vontade teria saído logo do esconderijo, mas a lavadeira não a deixou. Então foi o Príncipe ao armário, abriu o cofre, e, tirando as jóias da Princesa disse: — «Pente, colar, anel da minha Senhora: vejo-te a ti; não a vejo a ela. Ai de mim, que morro por ela!» — E repetiu isto segunda e terceira vez. Então a menina nem o deixou terminar; correu para ele de braços abertos, gritando: — Aqui estou, aqui estou, meu Príncipe! Só a ti quero para marido! Mal acabou de dizer isto, todos os coelhos se transformaram em homens e senhoras ricamente vestidas à corte. O palácio iluminou-se como para a mais esplêndida festa, e o Príncipe, levando a bela Clarinda pela mão, passou por entre os seus respeitosos cortezãos até à sala do trono. Aí esperava-os a linda Fada dos Lilazes, toda vestida de branco. A sua túnica era muito perfumada e fresca, e tão clara que parecia um foco de luz. O penteado tinha a forma do lilaz e no cimo coroava-a um diadema de pérolas semelhando a flor do seu nome. Na mão trazia uma varinha feita dum só brilhante. Estava muito alegre a boa Fada, e, quando os Príncipes chegaram junto dela, estendeu a sua varinha de condão e logo caiu sobre as suas lindas cabeças uma chuva de flores. Depois dirigiu-se à jovem Clarinda nestes termos: — Minha Princesa, aqui tens o mais nobre, o mais belo e o mais esforçado cavaleiro da Terra. Quis destinar-to, minha filha, por seres também a melhor, a mais bela e fiel das Princesas. Ele foi encantado pela minha mortal inimiga, a Fada Negra, ùnicamente por ser meu afilhado e saber quanto me mortificava fazendo mal a este Príncipe e aos seus. Assim foi transformado em coelho e juntamente todos os seus vassalos. — O seu vasto império foi também transformado numa grande floresta, até que uma jovem e linda Princesa o quisesse para marido. Ora isso seria impossível, se eu não te dotasse com todas as perfeições no dia do teu baptizado. A Princesa agradeceu muito à boa Fada e pediu licença para ir prevenir o pai, que a essa hora devia já estar cheio de cuidado. O Príncipe queria logo mandar cavaleiros e carruagens para trazer o velho Rei Poderoso, mas a Fada começou a rir e não consentiu em tal. Desde que estava desencantado o Príncipe todo o seu reino ficara o que tinha sido, e, portanto, tão longe da capital dos estados da Princesa que para lá ir era preciso fazer uma jornada dum mês montando camelos e elefantes. Como os noivos ficassem tristes com aquela contrariedade, que devia fazer morrer de pena o pobre Rei, a Fada sossegou-os, pois já tinha pensado nisso mandando logo o seu pagem — que era o anão das botas de sete léguas — chamar o Rei, que devia estar a chegar. Efectivamente, mal acabava de dizer isto, sentiram ruído fora, correram à janela, e a Princesa reconheceu o pai sentado num carro de oiro e puxado por grandes cisnes brancos, e, atrás dele, toda a sua comitiva igualmente trazida por enormes cisnes, que a um sinal da Fada dos Lilazes desapareceram logo. O velho Rei, abraçado à filha, nem queria acreditar em tamanha felicidade e desfazia-se em agradecimentos à boa Fada. Poucos dias depois fez-se o casamento no meio das mais esplêndidas festas, às quais a bela Fada dos Lilazes presidiu. Depois juntaram-se os dois reinos e ficou o maior império do mundo. Ainda por muitos anos viveu o bom Rei Poderoso, e, quando já era tão velhinho que não podia mais, morreu, deixando muitas saudades aos filhos e netos. A Imperatriz Clarinda e o seu nobre esposo, o Príncipe Branco, — que assim se ficou chamando por causa do encanto — viveram largos e felizes anos, tendo muitos filhos e amando-se sempre como no primeiro dia. Todos os anos a Fada dos Lilazes vinha passar com eles o aniversário do casamento, trazendo-lhes muitas e ricas prendas. Foi madrinha de todos os filhos que tiveram e não havia bem que lhes não fizesse. E a Fada Negra, condenada pela Rainha das Fadas a viver fora do Mundo, nunca mais lhes pôde fazer mal. Esquecia dizer que a lavadeira, autora de tanto bem, foi largamente recompensada. Deram-lhe tudo quanto ela quis, fizeram-na primeira dama da corte, e casaram-na com um nobre e rico cavaleiro; foi sempre muito feliz e a melhor amiga da bela Clarinda, que a estimava como irmã. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|O coelho branco]] 1ul75k4tu154dwjys9kfn1de6834e9q Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/Branca-Flor 0 256066 560257 559688 2026-08-23T08:09:36Z Mt516 43586 560257 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = Branca-Flor | anterior = [[../O coelho branco/]] | posterior = [[../História do Príncipe encantado no palácio de ferro no reino da escuridão/|História do Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão]] | notas = }} '''<big>BRANCA-FLOR</big>''' ERA uma vez um homem e uma mulher que tinham muitos filhos, tantos que não havia na terra quem quisesse baptizar-lhes uma menina que tiveram por fim. Eram muito pobres, pois o que ganhavam mal chegava para comer, e todos temiam encargos. Ia o homem muito triste pelo caminho fora, a ver se encontrava quem lhe quisesse baptizar a filha, quando de repente lhe apareceu um cavaleiro muito bem vestido, que lhe perguntou a razão da sua tristeza. — Meu senhor, temos uma menina para baptizar, e, como somos muito pobres e temos já muitos filhos, não há quem aceite mais encargos lá na terra. Venho à procura de alguém que me queira fazer essa esmola. — Não te aflijas, homem! Vou eu ser padrinho da menina e nada há-de faltar, mas com a condição de ma entregares em ela tendo doze anos. Ao homenzinho pareceu-lhe uma grande fortuna aquele oferecimento e disse logo que sim, acrescentando: — Falta madrinha, vou ainda procurá-la. — Para madrinha vai convidar a senhora Morgada, que ela aceita. — Isso sim! Já lá fui e ela disse que não! — Vai outra vez e dize-lhe que não é preciso que ela faça despesa alguma, porque o padrinho é que tudo quer pagar. Ficou o homem saltando de contente e foi logo acasa da Morgada, uma avarenta que mais depressa veria alguém morrer de fome do que ela dar cinco réis de esmola! Já era conhecida em todo o país a sua avareza, e por isso ninguém se lhe dirigia para pedir. Mas também não havia quem lhe fizesse o mais pequeno serviço senão por muito bom dinheiro. Foi baptizada a menina e chamou-se Guiomar. O cavaleiro pagava generosamente todas as despesas e nunca na terra se tinha feito uma tão grande festa. Começou a menina a crescer, linda como os amores. Tão bonita era, que a chamavam Branca-Flor, não havendo outra que a igualasse em bondade e beleza. O seu nascimento tinha trazido a felicidade à família, pois ia crescendo em bens, sempre ajudada pelo cavaleiro, que todos os anos aparecia misteriosamente, montado num cavalo que a ninguém mais obedecia. No dia em que Guiomar fazia doze anos, estavam todos em casa muito tristes com a lembrança de que ele a viria buscar, como tinha sido combinado quando se oferecera para padrinho. Ora Branca-Flor era muito devota, e nesse dia, mais que em nenhum outro, ela esteve rezando na igreja. Quando vinha para casa encontrou uma senhora muito linda, que lhe falou com bom modo, perguntando porque estava triste. Contou a menina o que lhe acontecia e a senhora disse-lhe: — que fosse a casa pôr a mesa para o jantar, e que colocasse os garfos e facas em cruz. Aconselhou-a a ter muita paciência, que muitos trabalhos lhe estavam reservados, mas que Deus era com ela; que fizesse sempre o bem que pudesse, porque entre os maus é que é merecimento ser bom. Desapareceu a senhora, e Branca-Flor foi para casa pensando no que tinha ouvido e, já resignada a tudo sofrer com paciência amparada por quem a aconselhava agora e não a abandonaria nunca. À hora marcada chegou o cavaleiro vestido e armado de ponto em branco. Receberam-no com todos os respeitos, como era costume, e levaram-no para a sala de jantar. Mal entrou e viu os garfos e facas postos em cruz deu um berro que atormentou tudo; A parede da casa abriu-se, e ele, crescendo espantosamente, agarrou Branca-Flor, que se escondia junto da mãe, e saltou para o cavalo que o esperava relinchando, saltando, às upas, num tal furor que todos tinham fugido para longe. Cavalo e cavaleiro começaram a crescer, a crescer, tão altos, tão altos, que nem se ouvia a pobre menina chorando nos braços do padrinho. É escusado dizer quem era ele — nem mais nem menos de que o Demónio! Montado no cavalo Pensamento, como ia, foi um instante enquanto chegou ao inferno, sua morada. E lá não teve Branca-Flor de que se queixar. Era muito bem tratada pelo padrinho e pela mulher (mais fina e mais cruel do que ele), pelas filhas (duas diabitas espertas qual azougue e piores que a peçonha), por todos os ''facanitos'' que são diabos menores, enfim, por todos os habitantes do palácio infernal. Um dia viu ela andar tudo em festa. Vinham cadeiras brilhantes, como se fossem de ouro e pratos, garfos, facas, tudo reluzia que era um deslumbramento. Como criança, que era, ia pegar naquelas coisas bonitas para as ver mais de perto; mas o padrinho corria logo para ela: — Não pegues nisso, olha que te queimai, não vês que tudo é de fogo?! — De fogo, meu padrinho?! Então o padrinho não se queima? — Não, eu não me queimo, porque sou também fogo. Tu é que ficavas perdida. Mal sabes tu para quem é isto tudo!... E, dizendo isto, ia brincando com as facas e os garfos e os pratos como no circo um chinês joga com navalhas reluzentes. — Ó meu padrinho, então para quem é a festa?! Eu conheço?... — Conheces, sim. É para a avarenta da tua madrinha. — Ai, meu padrinho, coitada dela! Então não há meio de se salvar?... — Há só um. A única acção boa que fez na sua vida foi ser tua madrinha; por ela se poderia salvar; se tu pedisses numa oração que eu sei. Branca-Flor, que era muito boa, já não largou o Demónio sem ele lha ensinar. Era um martírio para a pobre menina saber que alguém sofria, e que ela podia remediar o mal e não sabia como! Tanto pediu, tanto pediu, que o padrinho lha ensinou, dizendo-lhe que a não repetisse, porque a madrinha não merecia, que a deixasse sofrer pela sua vida avarenta. Branca-Flor não o entendeu assim, e logo que a alma apareceu, chorando o seu feio pecado, pedindo misericórdia, ela disse a oração: — Valha-lhe o Santo Nome de Jesus. Filho de Deus vivo! Virgem Maria seja comigo! Arredai ''facanitos'' e diabos maiorais, Que esta alma não sofre mais. &nbsp; Logo tudo se afastou, e a alma foi-se fazendo branca, branca como luar, e a subir, a subir para o céu, ia sorrindo à menina caridosa, que assim a salvara das penas eternas, pela única acção boa que na vida fizera. <div style="text-align: center; line-height: 1.1; margin: 1.5em 0;"> &#42;<br> &#42;&nbsp;&#42; </div> Havia nesse tempo um rei, que tinha um filho muito jogador. O Príncipe D. Pedro era muito bonito, muito esperto e muito bom; mas tinha aquele grande defeito, que era uma desconsolação para o pai. Em se lhe falando em jogo, perdia a cabeça e não havia tolice que não fizesse. Um dia, pediu ao pai um saco de dinheiro e foi pelo Mundo jogar. Ganhava sempre, e tanto, que ninguém queria jogar com ele. Desconsolado, foi o Príncipe andando até que um dia encontrou o Demónio e começou uma partida com ele. Mas aqui já o caso mudava de figura: tudo quanto jogasse, tudo perdia! As cartas de valor desapareciam-lhe das mãos, sem ele saber como nem mesmo dar por isso. Desesperado, jogava cada vez mais. Até que ficou de todo vazio o saco. — E agora (disse o Demónio) que jogas? — Agora já não tenho nada. — Tens a tua alma; se a quiseres jogar contra este dinheiro todo, eu aceito. O Príncipe ainda hesitava; mas a paixão do jogo é tão violenta, que já de si se pode considerar um tormento do inferno. Aceitou — e perdeu, é claro. — E agora (tornou o Demónio) hás-de vir ter comigo à cidade de Bijo-ó-bijo, ''ao palácio onde irás e não virás.'' — E quem me ensina o caminho? — Vai perguntando sempre, sempre, que eu não te posso levar. Desapareceu o Demónio, e o Príncipe foi andando o seu caminho, mais triste do que a noite. Arrependido do que fizera, ia lamentando a sorte que lhe dera um tão horrível vício. Se ele pudesse voltar com a palavra atrás, nunca mais tornaria a pegar em cartas. E, como ia andando sem encontrar ninguém a quem perguntar por seu caminho, dirigiu-se às formigas: — Formigas, vós que andais por toda a parte, podereis dizer-me onde é a cidade de Bijo-ó-bijo, ''o palácio onde irás e não virás?'' — Nós não sabemos, nem nunca ouvimos falar nela. Pergunta às abelhas. Como voam, talvez tenham visto mais. Foi o Príncipe andando até encontrar um enxame de abelhas, que zumbiam, alegremente, voando de flor em flor. — Abelhas, vós que voais por toda a parte, podeis dizer-me onde é a cidade de Bijo-ó-bijo, ''o palácio onde irás e não virás?'' — Nada, nós não sabemos. Nunca ouvimos falar nela. Olha, vai perguntar às aves, que voam mais alto e mais longe. E ele dirigiu-se às aves: — Dizei-me se sabeis onde é a cidade de Bijo-ó-bijo, ''o palácio onde irás e não virás?'' — Não, nós não sabemos; mas vem ali uma águia, que talvez saiba. Chegou a águia, batendo as asas, muito satisfeita. As mais disseram-lhe: — Donde vens tu? — Venho da cidade de Bijo-ó-bijo, ''do palácio onde irás e não virás''. Vão lá grandes festas, porque esperam um Príncipe, que deve ir já em viagem. — Pois olha, ele aí está a perguntar o caminho. Foi o Príncipe ter com a águia, que lhe disse: — Eu levo-te montado nas minhas costas, mas hás-de ir buscar o maior boi que encontrares e uma grande pipa cheia de vinho que me prenderás às asas. Quando eu te pedir vinho dás-me carne, e quando pedir carne dás-me vinho. Foi o Príncipe arranjar tudo. E a águia, depois de carregada e com o Príncipe montado, abriu as asas e voou, voou pelos espaços fora. Palácios, cidades, mares, países estranhos, de árvores e animais nunca vistos, passavam, como num sonho, debaixo dos olhos maravilhados do Príncipe. E a águia ia comendo e bebendo, até que por fim o Príncipe lhe disse que nada havia já. Então começou a águia a descer vertiginosamente, vindo pousar numa praia deserta onde deixou o Príncipe. Este, mal se viu ali, olhou para todos os lados e ficou muito triste por se ver abandonado naquela solidão. De repente vê ao pé de si uma Senhora muito doce e linda. Era Nossa Senhora, que também consolara Branca-Flor no dia em que ela tinha de ser entregue ao Demónio. Dirigiu-se a sorrir para o Príncipe dizendo-lhe: — Não estejas triste. Ainda podes salvar-te. Em breve aqui virão três meninas tomar banho. À última que entrar na água, que será também a última a sair, tira-lhe o fato e não lho dês senão quando ela te prometer ser boa para ti. A Senhora foi-se embora e o Príncipe ficou mais animado. Daí a pouco viu chegar três meninas; a que vinha atrás, e era a mais bonita de todas, foi a última que entrou na água. O Príncipe, sem que elas o vissem, escondeu-lhe o fato. As outras duas sairam, vestiram-se e foram-se embora, e ela quando quis fazer o mesmo não tinha que vestir. D. Pedro apareceu então dizendo que lhe daria o fato se pro metesse protegê-lo. — De boa vontade, respondeu Branca-Flor, pois era ela, e o seu coração estava sempre disposto a fazer bem. E começou por aconselhar: — Vai ter ao palácio e finge sempre que me não conheces. No banquete que irão dar-te verás facas reluzentes e facas muito feias, garfos brilhantes e garfos ferrugentos, cadeiras muito lindas e carunchosos bancos... Não te sirvas de nada que brilhe e seja bonito, porque é fogo em que tocas. Quando te vires aflito, chama por mim. O Príncipe agradeceu muito e ficou encantado com a menina. Meteu-se pelo caminho que ela lhe ensinou e foi ter ao palácio ''onde irás e não virás''. Lá o esperava o Demónio e toda a sua corte em festa. Apresentaram-lhe um grande jantar e ele, seguindo o conselho de Branca-Flor, só tocou no que não brilhava, coisa que bastante admirou o Demónio e seus diabos todos. No fim de jantar, aquele chamou o Príncipe e disse-lhe: — Aqui tens esta cepa; vai plantá-la no campo que além vês e hás-de trazer-me para a ceia um pichel de vinho da uva que ela der. Se não fizeres isto, morrerás. D. Pedro foi para o monte muito aflito e espantado com tal ordem. Como poderia fazer sòmente que a videira pegasse?! Sentou-se muito triste, clamando: — Valha-me aqui Branca-Flor! Veio ela imediatamente e perguntou o que desejava. — Foi o Demónio que, sob pena de morte, me mandou levar-lhe para a ceia vinho produzido por esta cepa! E mostrava uma raiz torcida e feia, com toda a aparência de seca. Sorrindo, respondeu a menina: — Não te aflijas. Deita a cabeça no meu regaço e dorme. Logo que ele adormeceu, vieram homens plantar a cepa, que logo se cobriu de folha, flor e fruto. Vindimaram, pisaram e fizeram um vinho lindo de ver e delicioso de beber. Então Branca-Flor acordou o Príncipe e entregou-lhe um pichel de vinho, que ele levou, maravilhado. E o Demónio, desconfiando: — Ou tu estiveste com Branca-Flor ou Branca-Flor contigo! Resposta, pronta, do Príncipe: — Nem eu com Branca-Flor, nem Branca-Flor comigo. O Demónio mandou-o deitar e ao outro dia logo de manhã deu-lhe três grãos de trigo, dizendo: — Vai semear estes grãos e ainda hoje me hás-de trazer o pão cozido para o meu jantar. Se isto não fizeres, morrerás. D. Pedro foi ao campo e chamou: — Valha-me aqui Branca-Flor! E logo ela apareceu, perguntando: — Então que temos agora? — Agora manda-me semear, colher, moer, amassar e levar-lhe pão para o jantar, destes grãozitos de trigo! — Descansa, dorme como ontem, que tudo se há-de arranjar. Logo que ele fechou os olhos, atirou com os grãos à terra, nasceu uma linda seara muito verde, que logo amadureceu, vindo muitos homens ceifá-la, malhar e moer o trigo. Fizeram dois pães, que a menina entregou a D. Pedro, cada vez mais agradecido e maravilhado. À hora do jantar lá estava ele com os pães. O Demónio torceu o nariz: — Ou tu estiveste com Branca-Flor ou Branca-Flor contigo. E o Príncipe: — Nem eu com Branca-Flor, nem Branca-Flor comigo. Mandou-o deitar, e ao outro dia disse-lhe: — Prepara-te, que hás-de ir ao fundo do mar buscar um anel que lá perdeu o bisavô do teu bisavô. Se não o trouxeres, morrerás. Foi D. Pedro para a praia e começou a chorar. Ele não tinha razão de se afligir, pois que a menina tudo remediava, mas esta ordem parecia-lhe de tal dificuldade que não contava já com a vida. Muito triste, chamou: — Valha-me aqui Branca-Flor! Apareceu logo Branca-Flor e depois de o ouvir sossegou-o. Arranjou um alguidar, um garrafão e uma faca e mandou ao Príncipe que a cortasse aos bocados sobre aquele alguidar, que a metesse no garrafão e que a deitasse ao mar, ficando ele na praia sentado num banco a tocar viola, até o garrafão vir ao lume da água. — Mas tem cautela! Não deixes cair nenhum sangue fora do alguidar e não deixes de tocar enquanto eu estiver debaixo da água, senão corro grande risco. O Príncipe de maneira nenhuma queria obedecer-lhe mas Branca-Flor afiançou-lhe que era para bem de ambos e começou ela mesma a cortar os pés. Em vista disto, o Príncipe fez tudo que ela mandou. Depois atirou o garrafão às ondas e esperou-o, começando a tocar mas, porque se demorasse muito em vira acima, adormeceu, de cansado. Estava a dormir profundamente quando o garrafão surgiu. Levantou-se uma onda, que lhe veiu molhar os pés, e o Príncipe não acordou. Torna o garrafão a ir ao fundo e a voltar ao cimo, e o Príncipe, a dormir, nada via. Levantou-se outra onda e veio tocar-lhe o corpo e ele não acordou. Terceira vez foi o garrafão ao fundo e veio acima, levantando-se então uma onda que lhe beijou a face. Só então acordou sobressaltado e com a aflição de ter feito a desgraça da sua amiga. Agarrou o garrafão e deitou os pedaços do corpo no alguidar, ficando logo a menina tal qual era antes, menos a ponta do dedo mínimo, porque uma gota de sangue tinha caído fora. Disse ela ao Príncipe: — Se não acordasses à terceira vez que vim à tona de água, morreríamos ambos. Pediu-lhe o Príncipe muito perdão e abraçaram-se felizes por terem escapado à morte daquela vez. Deu-lhe Branca-Flor o anel para entregar ao Demónio, e com um bocadinho de cera arranjaram o dedo de que lhe faltava a pontinha. Quando D. Pedro entregou o anel ao Demónio, ele exclamou furioso: — Ou tu estiveste com Branca-Flor ou Branca-Flor contigo! — Nem eu com Branca-Flor, nem Branca-Flor comigo. — Bem, vai deitar-te e amanhã falaremos. Ao outro dia chamou-o. — Hás-de ir amansar a mula que aí tenho. É alguma coisa brava e então quero que a ensines. D. Pedro, que nada queria fazer sem consultar Branca-Flor, chamou-a, e ela, depois de o ouvir, disse: — Olha que a mula é o próprio Demónio, a mulher dele o selim, as filhas os estribos, e eu a cabeçada e o freio. Tu levas um chicote bem grosso e bate com quanta força tiveres em tudo, menos na cabeçada e no freio. Quanto mais bateres, melhor, e não te deixes desmontar, senão estás perdido. Daí a pouco apresentou-se pronto para montar. E a mula parecia de todo o sossego. Mas, logo que D. Pedro se firmou no selim não se imagina o que foi! Subia a mula para as fragas, saltava, parava de repente, fazia quanto podia para o desmontar, mas o Príncipe era bom calção e melhor pulso ainda tinha. Com o cabo do chicote deu tanta pancada na mula, no selim e nos estribos que, à noite, quando chegou ao palácio, todos andavam a gemer, menos Branca-Flor. Ao outro dia chamou-o o Demónio e disse-lhe: — Visto que não caiste da mula e tens feito sempre quanto eu tenho mandado, quero-te para genro. E agora mesmo hás-de escolher uma das minhas filhas para casares. Mandou pôr as três raparigas detrás de uma cortina e disse ao Príncipe que escolhesse a que queria, vendo só a mão esquerda de cada uma. D. Pedro conheceu Branca-Flor pela ponta de cera do dedo mínimo e foi a que escolheu. O Demónio estava furioso, mas nada podia dizer, e o Príncipe e a menina ficaram contentíssimos, porque gostavam muito um do outro. No dia seguinte casaram, houve grande festa, grande banquete e depois foram deitar-se. Alta noite chamava o Demónio: — Branca-Flor!... — Senhor!?... — Dorme e descansa. E disse Branca-Flor, muito baixinho, para o Príncipe: — Olha que ele quer-nos matar logo que nos saiba a dormir, e então precisamos de fugir. Vai à estrebaria e encontrarás lá três cavalos: o mais gordo e bonito é o ''Tempo'', não lhe toques porque é tão vagaroso que para nada nos serviria, o segundo é o ''Vento'', e o terceiro, magro e feio, é o ''Pensamento''. Esse é que hás-de trazer. D. Pedro levantou-se de manso e foi à estrebaria, mas vendo o cavalo ''Pensamento'' tão magro e o ''Vento'' muito alegre e bonito, foi este o que trouxe, apesar da recomendação de Branca-Flor. Ela ficou aflita, mas não havia tempo a perder. Levantou-se muito devagarinho, cuspiu na travesseira e partiram. De quando em quando tornava o Demónio: — Branca-Flor!... E o cuspo respondia: — Senhor!?... — Dorme e descansa. Quando o cuspo secou deixou de responder, e então vai o Demónio, com uma grande moca de ferro, bateu sobre a cama até partir tudo. Depois foi deitar-se muito satisfeito, imaginando ter morto o Príncipe e Branca-Flor. De manhã veio a mulher ter com ele aos berros: — que tinham fugido, que não estavam mortos, nem na estrebaria estava o cavalo ''Vento''. Pior ainda que ele e queixosa da pancadaria que levara, não largou o Demónio enquanto ele não montou no cavalo ''Pensamento'' para perseguir os fugitivos. <div style="text-align: center; line-height: 1.1; margin: 1.5em 0;"> &#42;<br> &#42;&nbsp;&#42; </div> O Príncipe e Branca-Flor correram, ou antes, voaram toda a noite e toda amanhã. Já iam bem longe da cidade de Bijo-ó-bijo, ''do palácio onde irás e não virás'', quando viram o Demónio a persegui-los, montado no cavalo ''Pensamento''. Então Branca-Flor tirou do bolso um agulheiro com agulhas e deitou-as para trás. Fez-se logo um pinhal tão espesso que julgou o Demónio não poder passar. Deu de rédeas ao cavalo e foi-se embora. — Olha, mulher, não os encontrei, nem pude atravessar um pinhal que se pôs diante de mim — disse ele ao voltar a casa. A mulher que por magia tudo vira a distância gritou-lhe: — Ó grande estúpido, olha que foram eles que fizeram isso! Torna lá e hás-de trazê-los. Foi o Demónio persegui-los outra vez. Branca-Flor quando o viu deitou um copo de água para trás. Logo ali se formou um mar tão largo que não ousou o Demónio passá-lo. Voltou, e foi ter com a mulher. — Olha que não os encontrei. Só vi um grande mar, que não atravessei porque eles decerto o não poderiam também ter passado. — Estás cada vez pior, homem! Eles é que fizeram isso e agora até se hão-de rir de ti. Torna lá e hás-de trazê-los. Foi ele outra vez, e, mal Branca-Flor o viu, transformou o cavalo numa horta, a ela própria em hortaliça e o Príncipe em hortelão. Dirigiu-se-lhe o Demónio, gritando: — Olá, ó amigo, não viu por aqui passar um homem e uma mulher a cavalo? — As couves vendem-se, sim senhor! São a vintém e a trinta réis. — Não é isso. É se viu passar por aqui um homem e uma mulher, a cavalo? — Já lhe disse que se vendem. Se as quer, leve-as; se não, deixe-me em paz! — Ó homem, não é isso! E explicava. Mas a resposta era sempre a mesma. Desesperado, foi-se embora. — Mulher, não os encontrei. Perguntei a um hortelão, mas era surdo, não me disse coisa com coisa. — Pois eram eles. Torna lá e hás-de trazê-los. Tornou o Demónio, encontrando muito mais adiante um jardim, que era o cavalo, as flores a Princesa, e o Príncipe o jardineiro. Dirigiu-se a este, a perguntar: — Ó amigo, viu por aqui passar um homem e uma mulher, a cavalo? Respondeu-lhe o jardineiro: — Ando a regar, ando, sim senhor! Está uma calina que não sei como as flores hão-de resistir! — Não é isso, homem! É se viu passar um homem e uma mulher a cavalo? — É verdade, é! Esta seca é uma desgraça, mata as florinhas todas. — Não é isso que eu digo! Veja se me entende. — E repetia. Mas nada conseguiu. Desesperado, foi o Demónio ter com a mulher: — Olha que não os encontrei. Estive com um homem ainda mais bruto que uma porta, e como me não entendia vim-me embora! — Estás cada vez mais estúpido, digo-te eu! Pois não viste que eram eles?! Torna lá e hás-de trazê-lós. — Pois olha que é a última vez; se os não encontrar, não volto lá — respondeu ele, de muito mau humor. Foi e Branca-Flor mal o viu transformou o cavalo numa igreja, a ela em sinos, e o Príncipe em sacristão. Quando o Demónio chegou ao pé da igreja estava o sacristão a tocar desesperadamente. Começou o Demónio a gritar cá de baixo: — Eh lá, ó amigo! Viu por aqui passar um homem e uma mulher a cavalo? E o outro, de cima, a tocar os sinos com toda a força, respondeu: — Sim, senhor, a missa vai começar. Já o Senhor Cura se está a vestir. E o Demónio : — Não é isso que eu digo! É se viu por aqui passar um homem e uma mulher a cavalo? — Já lhe disse que vai começar a missa! Se quer entrar, entre; se não quer entrar, deixe-me em paz! Desesperado, foi-se o Demónio embora, e, logo que chegou ao palácio ''onde irás e não virás'', disse à mulher: — Não os vi, nem me deram novas deles. Perguntei a um sacristão, mas com o barulho dos sinos não percebeu nada. — Eram eles mesmos! — Pois acabou-se. Que vão em paz, que eu é que não estou para mais correrias! E, por mais que a mulher pregasse, ele é que não esteve para mais. <div style="text-align: center; line-height: 1.1; margin: 1.5em 0;"> &#42;<br> &#42;&nbsp;&#42; </div> Logo que se viu perto do seu Reino, disse o Príncipe a Branca-Flor que por ele esperasse ali; que ele ia buscar carruagens, vestidos e toda a sua corte, para ela ser recebida como merecia pois agora era sua mulher, só para ele Branca-Flor e para todos a Princesa Guiomar. — Vai — respondeu a Princesa — mas tem cautela; não te deixes abraçar por ninguém, senão esqueces-te de mim sete anos. Despediram-se com muitas lágrimas e tristezas e ele partiu. Quando chegou à corte os pais iam morrendo quase de alegria. Há muito havia o Príncipe desaparecido, sem ninguém dar novas dele. Filho único e herdeiro do trono, todo o povo chorava com os pais o futuro Rei. Por isso, quando o viram chegar são e salvo, o entusiasmo foi tão grande, houve tantas festas, que já ninguém se entendia na grande capital. Todos o queriam abraçar, mas o Príncipe pedia que não o fizessem. De maneira nenhuma queria esquecer quem tanto bem lhe tinha feito. Mas, como estivesse cansado de tantas festas, sentou-se num banco do jardim. De repente sentiu-se abraçado pelas costas, deu um grito e de nada mais se lembrou. Foi a boa da sua bisavó, que era já muito velhinha e mal se podia mexer. Desde que ele deixara o Reino a velha Rainha nunca mais saira do seu antigo palácio onde vivia entre damas e cortezãos, tão velhos como ela, rodeada de coisas antigas, recordando factos que presenceara e tão remotos que só nos livros se poderiam saber. O bisneto era a pessoa que mais amava no Mundo, por isso, logo que soube da sua chegada, não quis esperar que ele a fosse ver. Quis ir ela visitá-lo e abraçá-lo, causando assim muito mal à pobre Princesa Guiomar. Sete anos se passaram sem que jamais o Príncipe se lembrasse da sua vida antiga. Ao fim desses sete anos foi a uma grande caçada, como era costume de todos os Reis, Príncipes e Cavaleiros. Andando em montaria a perseguir um veado afastou-se dos cavaleiros que mais de perto o acompanhavam. Foi correndo, correndo, numa galopada doida, e quanto mais corria mais o veado fugia sem se mostrar cansado e olhando para trás a ver se era seguido. Assim foram correndo até chegar a um bosque muito espesso. Ai, como o cavalo não podia continuar por não ter caminho nem atalho, o Príncipe apeou-se e foi seguindo o veado, que também ia mais devagar. Numa clareira do bosque havia uma cabaninha. O Príncipe já muito fatigado, sentou-se ali, e então viu uma menina muito formosa e ricamente vestida, que ia passando com um porco espinho preso por um cordão de seda. E tocando-lhe com uma varinha dizia: <div style="text-align: center; margin: 1.5em 0;"> <poem> «Anda, anda, porco espinho nunca te esqueças de andar, — como o Príncipe D. Pedro se esqueceu de Guiomar» </poem> </div> Mal ouviu isto, lembrou-se o Príncipe de tudo. Correu para a menina, abraçaram-se e ficaram contentíssimos. O porco-espinho transformou-se no cavalo ''Vento''. Nele montaram os dois e foram ter com os outros caçadores. Mas ainda tiveram que andar um par de léguas porque, perseguindo o milagroso veado, o Príncipe andara muito, sem dar por isso. Depois foram todos para o Palácio. Os velhos Reis ficaram muito contentes quando viram Branca-Flor e souberam tudo quanto ela tinha feito para salvação do Príncipe seu filho. Fizeram-se grandes festas, que duraram uns poucos de meses. O povo ficou encantado com a linda e santa Princesa, que viera de mais longe que as terras do fim do Mundo, da cidade e palácio do mal que vencera por sua bondade. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|Branca-Flor]] 4tupsbq15rfubh7ei0e1a1apk970kq6 Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/História do Príncipe encantado no palácio de ferro no reino da escuridão 0 256245 560258 559689 2026-08-23T08:10:06Z Mt516 43586 560258 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = História do Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão | anterior = [[../Branca-Flor/]] | posterior = [[../O corvo/]] | notas = }} '''<big>HISTÓRIA DO PRÍNCIPE ENCANTADO NO PALÁCIO DE FERRO NO REINO DA ESCURIDÃO</big>''' HAVIA um velho negociante muito rico, que tinha uma filha, uma criança linda, boa e inteligente como dificilmente se encontraria outra. A mulher do opulento negociante morrera quando a menina veio ao mundo, sendo então entregue a uma bondosa mulherzinha, que lhe serviu de ama e de mãe. Não havia, decerto, mãe que mais gostasse de sua filha do que ela gostava da pequenina Maria — assim se chamava a menina. O Rei era muito amigo do negociante, que já por vezes tinha emprestado grandes quantias ao Governo, por isso o tratava como amigo e até fora o padrinho de Maria. Quando esta chegou à idade de começar a estudar, o pai, que se não queria separar dela, arranjou uma mestra para casa. A menina afeiçoou-se de tal maneira à professora que a tratava por mãe, e por irmãs a duas irmãs que ela tinha. Viveram muito bem, muito felizes e alegres, até que à mestra se lhe meteu em cabeça casar com o negociante. Não era por gostar dele, mas sòmente por ser muito rico e ela ambiciosa e má. Combinou então com as irmãs iludir a pequena Maria, que as tinha na conta de suas verdadeiras amigas. Começou a mestra a fingir que andava muito triste. Quando via a pequena punha-se a chorar, e, por mais que ela lhe suplicasse que dissesse o que tinha, nada conseguia. Foi perguntar às irmãs se sabiam o motivo que a fazia andar tão desconsolada, e elas, fingindo-se muito penalizadas, disseram: — A nossa irmã anda assim triste porque gosta muito de teu pai e ele não gosta dela. Se tu quisesses, como seríamos todos felizes! Tu já nos chamas irmãs e a ela mãe, mas se arranjasses o casamento é que verdadeiramente ficávamos uma só família. Estavam nesta conversa quando entrou a mestra. Maria correu para ela de braços abertos, dizendo que sabia a causa das suas mágoas. — Então se já sabes o que eu não queria de modo nenhum confessar-te — disse a ''finória'' — podes avaliar se tenho ou não razão para andar triste! A pequena, que era muito boazinha e muito sincera, acreditou em tudo aquilo e pôs-se a chorar porque não sabia o que havia de fazer. Tantas coisas lhe disseram, tanto a atormentaram, que foi pedir ao pai que casasse com a mestra. O velho negociante percebeu que andava ali intriga e não queria aceder, mas a pobre criança afligiu-se tanto com as lamentações das três que adoeceu. O pai, muito aflito, disse então que sim, que casaria com a professora, mas que havia de comprar primeiro umas botas de montar e quando se rompessem é que se realizaria a festa. Ficou tudo muito contente; o homem comprou as botas julgando-se livre do compromisso — pois quanto tempo não é preciso para romper umas botas de montar! A mestra, que era muito esperta, logo que as botas vieram para casa e foram postas no quarto do negociante, foi com uma pá de cinza ainda quente e deitou-lha dentro. Quando o velho estava para voltar, limpou-as muito bem e pô-las no seu lugar como se nada houvesse. Mas, já se vê, estavam queimadas e, quando o negociante precisou de as calçar, logo as encontrou rotas. Percebeu que tinha sido enganado, mas não teve remédio senão cumprir o que prometera. A filha ficou contentíssima, mas ele sempre lhe disse: — Deixa estar que te hás-de arrepender, mas quando já não houver remédio! Houve grandes festas, tendo o Rei assistido ao baile, e todos andavam muito alegres menos o negociante. Ao princípio tudo ia bem e viviam na mais santa paz, mas a ''espertalhona'', logo que se viu senhora da casa, juntou-se com as irmãs para apoquentarem a Maria, não havendo desgosto que lhe não causassem. Começou ela a ver que seu pai tinha razão, mas já era tarde! Não querendo afligi-lo com a narração das suas mágoas, só lhe pediu que a deixasse ir viver com a ama. O pai deu-lhe muito dinheiro e ela arranjou uma casita de campo e para lá foram as duas. Comprou só o indispensável para viverem como pobres e o resto do dinheiro repartiu com os infelizes. O negociante, desconsolado com a sua vida, só tinha alegria quando ia visitar a filha, mas essa mesma alegria era paga por mil desgostos e sensaborias, porque a mulher logo o sabia e o atormentava por isso. Era uma vida tão horrível que ele nem já tinha coragem para trabalhar e resolveu retirar-se de todo dos negócios. Começou a tratar da liquidação da sua grande fortuna e o que podia mandava para a filha, mas a menina era tão caridosa que chegava a passar privações para dar aos pobres. Um dia, em que ela e a ama estavam completamente sem recursos, bateu um mendigo à porta pedindo agasalho e esmola. Em casa não havia nada e a ama ia despedir o pobrezinho quando a Maria a chamou de parte e lhe disse: — Não podemos fazer tal! Pois onde queres tu que o velhinho vá a estas horas? Nem força terá para andar pelos caminhos! — Ó minha rica menina — respondeu a ama, aflita — pois se não temos para nós cearmos o que havemos de dar ao pobre?! — Olha, toma lá este lenço de seda e vai vendê-lo; sempre há-de render para se comprar carvão e alguma coisa para a ceia. Tirou do pescoço um riquíssimo lenço, que lhe dera o pai, e entregou-o à ama para que o fosse vender e com o dinheiro trouxesse de comer para o pobre. Daí a pouco voltou a ama com tudo que precisavam, e principiou a fazer a ceia. O mendigo, sentado à lareira, conversava com a criada, enquanto a menina trabalhava para os pobres. Além das esmolas dava o seu trabalho, que às vezes é ainda esmola maior. No meio da conversa disse o velho: — Ora eu imaginava que a menina era muito rica!... Tinham-me dito que era a única filha do grande negociante, compadre do Rei, mas vejo que me enganaram. — Não o enganaram, não —respondeu a ama — a minha menina é muito rica e se está nesta miséria é porque dá tudo aos pobres. — Não digas tal, ama, eu dou aos pobrezinhos o que não me faz falta. — E o pai da menina vem aqui? — perguntou ainda o velho. — Vem pouco — respondeu logo a ama que era boa mulher mas faladora — porque é casado com uma mulher muito má. — Ó ama, não digas mal da minha madrasta, deixa-a lá! Meu pai não vem porque não pode. — Ouvi dizer na cidade que o pai da menina ia ao Rio de Janeiro liquidar a sua fortuna — continuou o mendigo — Eu sei muito bem onde é o Rio de Janeiro, porque já lá estive. Há lá um jardim maravilhoso na Quinta chamada da Permissão, que tem as mais lindas rosas do mundo, brancas, encarnadas e azuis. Maria ouviu isto e ficou pensativa. Depois da ceia pronta foram para a mesa e a menina disse ao ouvido da ama que comesse pouco para que o pobre não tivesse falta. Mandaram-no deitar no próprio quarto delas e ficaram ao lume. A ama depressa adormeceu, mas quando a menina ia também a pegar no sono ouviu uma voz dizer: — Maria, se te vires aflita, chama pelo ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão!'' Ficou surpreendida de se ouvir assim chamar pelo seu nome, mas, como não visse nem ouvisse mais nada, adormeceu. De manhã, ficaram admiradas não vendo o pobre e encontrando as portas fechadas por dentro como na véspera as tinham deixado. Procuraram todos os cantos da casa, mas de tal pobre nem sinal! Andavam nestas pesquisas quando ouviram bater à porta. A menina foi abrir e ficou contentíssima quando viu o pai. Abraçaram-se e ele preveniu a filha de que vinha despedir-se porque ia ao Rio de Janeiro liquidar parte da sua fortuna. Reparando na pobreza da casa e dos fatos com que as duas estavam vestidas, ralhou com a menina e deu-lhe mais dinheiro. Depois perguntou o que desejava lhe trouxesse de presente. Maria lembrou-se do que lhe dissera o velhinho e pediu: — Eu, meu pai, só desejava três ramos de rosas: um branco, outro encarnado e outro azul, da Quinta da Permissão. O negociante tomou nota da encomenda da filha, abraçou-a, beijou-a muito e partiu. Chegou ao Rio de Janeiro onde era esperado pelos negociantes que tinham relações com a sua casa, sendo por todos muito bem tratado. Mas o que desejava era liquidar tudo ràpidamente e voltar para junto da filha; por isso, logo que chegou, pediu o levassem à Quinta da Permissão para comprar os ramos maravilhosos que Maria lhe tinha pedido. Foi preciso montar a cavalo e andar quinze dias pelo interior para chegar à magnífica Quinta. Lá encontrou um velho, que lhe perguntou o que desejava: — Três ramos de rosas para a minha filha; um branco, um encarnado e outro azul. O homem foi com ele ao jardim cortar as flores e fez-lhe três ramos que eram um encanto. Perguntou o negociante o preço e o velho disse-lho tão grande que seria para afugentar outro menos rico. Voltou para o Rio, muito contente por levar o que a filha desejava, arranjou os negócios ràpidamente e, no mesmo navio que o havia levado, regressou à Pátria. Mal pôs o pé em terra, correu a casa da filha para lhe entregar os ramos. Depois foi para casa e a mulher e as cunhadas, admiradas de o verem voltar tão depressa, perguntaram se lhes trazia algum presente. O pobre homem respondeu que nada lhes trouxera porque não tivera tempo. As três ''fúrias'' logo que isto ouviram iam dando cabo dele, e a mulher disse: — Aposto que se não esqueceu da sua filha! Resolveram para saber o que ele lhe tinha dado, ir a casa de Maria, fingindo que iam passear. Bateram à porta e foi a própria Maria quem veio abrir. Tratou-as muito bem e disse-lhes que entrassem. — Não, não nos demoramos — disse a madrasta. — Como passámos por aqui batemos à porta para te ver. Fingindo que não queriam entrar, foram sempre entrando e daí a pouco perguntaram: — Já viste o teu pai, que chegou hoje do Rio? Vem mais alegre e melhor de saúde. É bonita a prenda que ele te trouxe? A Maria, que era muito sincera, respondeu-lhes: — Já o vi, sim; trouxe-me três ramos de rosas, qual deles o mais lindo, brancas, azuis e encarnadas! E à mãe e às manas o que trouxe? — A nós?! A nós não trouxe nada! Nem sequer nos perguntou o que queríamos. Não admira, não somos suas filhas!... E foram-se embora, desesperadas, deixando a pobre menina muito aflita pelo mal que involuntàriamente tinha causado ao bom pai. As três chegaram a casa e disseram tais coisas ao pobre negociante que nem é bom imaginar! Combinaram então afligir a Maria destruindo-lhe as flores. No dia seguinte foi a mais velha delas visitá-la; conversaram largo tempo e no fim disse-lhe: — Deixas-me ver de perto o teu ramo de rosas brancas? Na maior boa fé o foi buscar e entregou-lho; depois de muito o gabar fingiu-se distraída e num instante o desfolhou, sem dar tempo à menina para evitar tal desastre. Ficou esta muito desgostosa, ouvindo então uma voz que dizia: — Ai, Maria, que deixaste desfolhar o ramo de rosas brancas onde estava a tua felicidade! Quando te vires aflita chama pelo ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão!...'' Ouvia esta voz, mas, naturalmente por encanto, era como se nada ouvisse, esquecia-lhe imediatamente, e quando se via apoquentada não chamava o seu protector. No outro dia veio a segunda irmã da madrasta e pediu para ver o ramo de rosas encarnadas. A Maria, que já se tinha esquecido do que a outra lhe fizera, foi prontamente buscá-lo. Logo que a malvada o apanhou às mãos, desfolhou-o todo. A menina soltou um grito angustiado, mas já não havia remédio: as pobres florinhas estavam perdidas. E por cima de fazer uma acção tão feia ainda escarneceu, dizendo: — Ah, tu querias receber presentes e nós não termos nada?! Pois agora aí te ficam as tuas lindas rosas. Saiu a rir, enquanto a menina ficava a chorar, ouvindo a mesma voz: — Ai, Maria, que deixaste desfolhar as rosas encarnadas onde estava a tua riqueza; Quando te vires aflita chama pelo ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão.'' Mas ouvia isto e logo se esquecia, assim como das más acções que lhe faziam. No dia seguinte veio a madrasta e ela tratou-a muito bem. Como já vinha com más tenções, pediu-lhe logo que mostrasse o ramo das rosas azuis. Desfolhou-o, deitou-o no chão e pisou as flores, dizendo ainda por cima mil impropérios à enteada. E logo a menina ouviu a mesma voz: — Ai, Maria, que deixaste desfolhar as rosas azuis onde estava o teu amor! Quando te vires aflita chama pelo ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão.'' Entrou a ama e, vendo-a chorar, quis saber o que acontecera, consolando-a como pôde. A menina nessa noite sonhou que era transportada para um país muito distante e que estava defronte de um grande palácio e não conhecia ali ninguém! Muito sobressaltada acordou e foi grande o seu espanto e aflição vendo-se, exactamente como tinha sonhado, num país estranho! Achava-se no meio duma grande praça, defronte do palácio real, rodeada de povo e soldados, e uns se riam, outros a lamentavam, por ser tão nova, tão bonita e não ter ali quem a protegesse. Era tal o alarido que a Rainha chegou à janela do palácio e perguntou o que era. Responderam-lhe logo que aparecera ali adormecida uma estrangeira muito bonita e que se pusera a chorar sem dizer quem era nem o que desejava. A Rainha mandou ir a menina à sua presença e, tratando-a com todo o carinho, perguntou-lhe quem era e porque se encontrava na sua capital. Como fora muito bem educada e sabia umas poucas de línguas, compreendeu o que lhe diziam e respondeu à Rainha contando a sua vida e pedindo que a não abandonasse. Então a Rainha perguntou-lhe o que sabia fazer para a empregar no palácio. Ela respondeu modestamente: — Sei coser e bordar, Senhora. — Bem, ficarás encarregada do enxoval do Príncipe meu filho. Era este menino a única família da Soberana, pois o filho mais velho, o herdeiro do trono e das suas inúmeras riquezas, esse Príncipe que era a flor da Cavalaria ea esperança dos bons, desaparecera um dia misteriosamente. Só depois de o procurarem por todo o Mundo e consultarem todas as Fadas e Génios do seu conhecimento, conseguiram saber que estava encantado no ''Palácio de ferro no Reino da Escuridão.'' Imenso foi o desgosto da Rainha e de todo o povo, pois o Príncipe era muitíssimo estimado. Maria tomou conta da obrigação e tão bem se houve que a Rainha estava contentíssima. Cosia e bordava maravilhosamente e era tão modesta e calada que não havia dela a menor razão de queixa. Como tinha muito talento e desenhava esplêndidamente do natural, os seus bordados eram feitos sobre esses desenhos, com tanta perfeição que chegavam a iludir. Um dia quis fazer uma surpresa à Rainha e bordou, num lençol do berço, a figura do Principezito deitado, de perninhas para o ar, a rir. A perfeição do bordado era tal que o pequenino parecia vivo. Foi a roupa a lavar e ela, sem dizer nada a ninguém, meteu o lençol entre o enxoval do Príncipe. Quando as lavadeiras espalharam a roupa na praia para começar o trabalho, deram com os olhos no bordado e ficaram aflitíssimas, pois julgaram ser o Príncipe que por engano tivesse vindo no saco. Conhecido o engano riram a valer e foram ao palácio levando o lençol nos braços como se realmente fosse uma criança. A Rainha correu, alarmada, mas, vendo que era um retrato, ficou admirada e contente por ter uma obra daquelas. Começou a perguntar quem seria e quem não seria a autora do trabalho e como a Maria era a encarregada da roupa do Principezito foi chamada para dizer o que sabia. Sorriu-se e disse que tinha feito aquele bordado para oferecer à sua Rainha. Esta ficou reconhecida a tanta delicadeza e logo ali a nomeou sua primeira dama. Apesar de ser bondosa e meiga, a menina levantou contra si os ódios e más vontades das outras damas da corte, que não tendo os seus méritos invejavam furiosamente a maneira como a Rainha a tratava. Principalmente três, das mais velhas, tinham-lhe um ódio de morte e reuniram-se um dia para discutirem o mal que lhe haviam de fazer. Pensaram em mandá-la matar, mas isso levantaria suspeitas. Uma delas, mais prudente, disse: — O melhor é intrigá-la com a Soberana e obrigar esta a expulsá-la. Combinado isto, foi logo dali dizer à Rainha, com grandes admirações e comentários, que a Maria se gabara de lavar e engomar toda a roupa do palácio em três dias. A Rainha, que sabia o desembaraço da sua primeira dama, acreditou tudo que lhe contaram e chamando-a perguntou-lhe se era capaz de cumprir o que dissera. Ela afirmou que tal não tinha dito. Mas a Rainha, querendo ver até onde chegava a sua habilidade, respondeu-lhe: — Pois minha amiga, hás-de fazê-lo, sob pena de morte, se não cumprires o que disseste. Acto contínuo, mandou encaixotar toda a roupa que havia no palácio, que em carroças foi para o rio, para Maria começar o seu trabalho. Esta, mal se viu só desatou a chorar amargamente a sua desgraça e, descorçoada de todo, ia deitar-se à água quando ouviu a mesma voz que já lhe tinha falado: — Maria, Maria, que vais tu fazer, infeliz?! Não te tenho já dito que chames pelo ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão'', todas as vezes que te vires em perigo?! Olhou para todos os lados a procurar quem lhe falava e ficou admiradíssima de ver a roupa já lavada, dobrada e engomada dentro das caixas e tudo pronto a partir. Voltou ao palácio e foi recebida pela Rainha com grandes festas, redobrando assim oódio que as três damas lhe tinham. Já é coisa sabida: quanto melhor é uma pessoa, mais inimigos tem; e quanto maior é o seu merecimento, maior o ódio dos ignorantes e dos maus. Passado pouco tempo voltaram as damas a dizer à Rainha que a menina jurara, sob pena de morte, ser capaz de limpar num dia toda a prata e ouro da casa real. A Rainha, convencida de que ela fazia tudo quanto queria, mandou-a chamar e perguntou-lhe se era verdade ter dito aquilo. Ela respondeu que não, que tal não tinha dito, porque era uma coisa impossível de fazer. — Embora — disse a Rainha — eu creio que tu o podes fazer e então, sob pena de morte, hás-de cumprir. E mandou levar a menina ao tesouro real onde estavam arrecadados tantos objectos de prata e ouro que não era possível uma só pessoa limpá-los, nem que estivesse muitos anos a trabalhar. Desanimada, desatou a chorar, e então, como das outras vezes, ouviu a voz: — Maria, Maria, porque não chamas o ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão?!'' Olha e não te aflijas. A menina olhou e viu tudo tão limpo, tão brilhante, como se naquele momento tivesse saído das mãos dos ourives. Doida de contente, voltou aonde a Rainha estava e disse-lhe que as suas ordens estavam cumpridas. Esta ficou satisfeitíssima e, para pagar tanto trabalho e boa vontade, nomeou-a sua dama camareira, que é o mesmo que dizer: a primeira abaixo dela. Se odiada era pelas três damas, pior foi então! Andavam desesperadas por não saber que nova intriga inventariam. Tanto pensaram, que resolveram ir dizer à Rainha que a menina tinha dito ser capaz de ir desencantar o ''Príncipe ao palácio de ferro no Reino da Escuridão.'' A Rainha ficou louca de alegria e mandou logo chamar a Maria, dizendo-lhe: — Sob pena de morte, hás-de ir desencantar o meu filho. Se o fizeres, tudo quanto desejares tudo te darei! O meu Reino, todas as minhas riquezas, são nada para pagar esse serviço. — Senhora, eu não disse tal coisa, mas irei de boa vontade procurar o vosso filho. A minha vida darei para vos causar tamanha felicidade. — Vai, vai, minha filha — volveu a Rainha, lavada em lágrimas e enchendo a menina de carícias — leva um exército, leva dois, leva toda a minha gente, mas traz-me o meu filho amado! — Não levarei ninguém, prefiro ir só. Vendo o desespero da Rainha e achando-se incapaz de lhe valer, a menina perdeu toda a coragem. Saiu do palácio a correr e ia deitar-se da ponte abaixo, quando ouviu a mesma voz. — Maria, Maria, o que fazes?! Quantas vezes te hei-de dizer que chames o ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão?!'' Olha que sou eu mesmo o filho da tua Rainha. Volta para trás e, sem que ninguém te veja, vai ao meu quarto e tira da gaveta do meio do contador um punhal e uma vassoura que lá hás-de encontrar. Pega neles, tendo todo o cuidado em não seres vista por ninguém, e segue o caminho que tiveres em frente até encontrares um palácio de ferro muito grande e muito escuro, com as portas sempre a bater umas contra as outras. Não tenhas medo! Chega lá e crava o punhal na porta principal. Entra sem receio e hás-de ver uma Moura encantada a varrer a casa com uma giesta; atira-lhe com a vassoura e segue para a frente. Hás-de encontrar depois dois leões com palha defronte e mais adiante dois cavalos com ossos na mangedoura. Tu pegarás na palha e hás-de dá-la aos cavalos e aos leões darás os ossos. Depois continua sempre a percorrer o palácio até encontrares um leitãozinho. Pega nele ao colo e foge. Sintas o que sentires, não te voltes para trás. Ainda que te chamem, não olhes! Vê o que fazes! Se olhares ficaremos separados e sabe Deus o que nos acontecerá! A menina ouviu e tomou muito sentido em tudo. Voltou ao palácio e, sem ser pressentida por ninguém, foi ao quarto do Príncipe, que estava fechado desde que ele desaparecera, e abrindo a gaveta do contador logo encontrou o que desejava. Pegou no punhal e na vassoura e partiu. Andou, fartou-se de andar por um caminho deserto, até que, no fim de muitos dias de marcha, se viu diante dum grande palácio de ferro com as portas a abrir e a fechar. Sem medo nenhum foi cravar o punhal na porta principal e logo todas ficaram quietas, abertas de par em par. Entrou e viu uma pobre Moura encantada a varrer a casa com uma giesta. Atirou-lhe com a vassoura e caminhou para a frente. No meio dum pátio, todo revestido de mármore preto, viu dois leões presos por cadeias de ferro a uma coluna. Tinham um molho de palha na frente e rugiam com fome. Adiante, deparou com dois lindos cavalos quase mortos porque estavam presos a uma mangedoura onde só tinham ossos. Foi buscar a palha e deu-a aos cavalos e pegou nos ossos e deitou-os aos leões. Feito isto, caminhou para a frente e percorreu todo o palácio de ferro até chegar a uma sala muito escura onde deparou com o leitãozinho. Pegou-lhe ao colo e voltou a correr por onde tinha ido. Ouviu uma gritaria horrível atrás de si e quando passou junto dos cavalos ouviu uma voz tremenda que dizia: — Cavalos, correi atrás dela que nos quer roubar o nosso tesouro! — Não! Porque estávamos a morrer de fome e ela deu-nos sustento. Passou junto dos leões e a voz gritou ainda mais terrível: — Leões, devorai-a, que nos rouba a felicidade! — Não! Porque tínhamos fome e deu-nos de comer. Passou pela Moura e ouviu: — Moura, não a deixes fugir que leva o nosso bem-estar! — Não lhe farei mal porque me veio dar alívio na minha tarefa. E à saída ouviu, mais tremenda que nunca, a medonha voz: — Portas, fechai-vos e esmagai-a, que nos leva o nosso futuro. — Não! Porque estávamos num eterno tormento e ela deu-nos descanso. Continuou a correr, mas, quando tinha dado alguns passos, ouviu atrás de si tamanho estrondo que não se conteve e voltou a cabeça. Não viu já o palácio de ferro nem coisa nenhuma no campo deserto, mas ao mesmo tempo desaparecia-lhe dos braços o leitão zinho. Vendo-se abandonada começou a andar, a andar, mais triste do que a morte! O caminho não tinha fim e, passados muitos dias, faminta e morta de sede, com os pés em chaga, os vestidos em farrapos, encontrou uma pequena gruta onde se refugiou para morrer. O Príncipe, desencantado, tinha aparecido logo no palácio, pois o leitão não era senão a forma do seu encanto. A Rainha, quando viu o filho, ia morrendo de alegria, e o regozijo foi imenso tanto na corte como no povo, pois era muito querido de todos. Mandou a Soberana fazer grandes festas, decretou regozijos e esplendores sem par, mas o Príncipe disse que não consentia que se fizessem as festas sem aparecer quem o salvara. Montou logo a cavalo acompanhado por todos os fidalgos do Reino e grande multidão de povo. A própria Rainha e muitas damas o seguiram nas suas carruagens de gala. Assim foram, campo fora, em procura da menina. Tanto andaram que chegaram à grutazinha onde ela estava quase a morrer. Um cão que, ao ser desencantado, o Príncipe viera encontrar tão bom e fiel como antes, entrou por ali dentro e com os seus latidos chamou o dono. Logo que ele entrou e a viu quase morta, teve um grande susto e pegando-lhe ao colo a trouxe para fora mandando chamar médicos que a tratassem e aias que a vestissem. Doente apenas de fome e cansaço depressa melhorou, ficando envergonhada e ao mesmo tempo satisfeitíssima de se ver junto de um tão lindo moço. Disse-lhe ele quem era e quanto a estimava, desde o dia em que a fora visitar disfarçado num pobre velho que tão generosamente socorrera. Que desde esse dia a seguira por toda aparte. A menina agradeceu tanta bondade e delicadeza, confessando também que já o estimava muito antes de o conhecer pelo bem que a todos ouvia dizer dele. E, mais do que tudo isso, pelas consolações que lhe dera nas suas horas de tormento. Estavam nesta conversa e tão enlevados que mais nada viam e decerto nem se lembrariam de partir, se não chegasse a carruagem dourada, onde vinha a Rainha e toda a régia comitiva. Quando viu a Maria junto do Príncipe, apeou-se logo e, abraçando-os a ambos, chamou à menina sua filha querida. Depois obrigou-a a subir para a sua própria carruagem e partiram. Ao lado ia o Príncipe no seu belo cavalo de batalha e, escusado será dizer, que não tinha olhos senão para a noiva. Atrás seguiam os cavaleiros, pagens, escudeiros, nobres damas, em suas equipagens, e grande quantidade de povo que os tinha seguido. Quando nesta ordem entraram na cidade a alegria e o entusiasmo foram enormes. Marcado o dia para o casamento, mandaram vir o negociante, pai da menina, a mulher dele, as cunhadas e a ama. O pobre pai, quando viu a filha, nem sabia se havia de rir se chorar, pois a alegria foi imensa. A ama abraçou a sua querida menina e pegou nela ao colo como se fosse uma criancinha, com tal contentamento que a todos alegrava. A madrasta e as irmãs, arrependidas, pediram mil perdões que de boa vontade lhes concedeu. Mas, envergonhadas da sua maldade, recolheram-se todas a um convento. As damas que tanta inveja tinham tido e tão mal lhe tinham querido fazer, arrependidas também, fugiram da corte apesar da Maria lhes ter dito que podiam ficar, que nenhum ódio lhes tinha, pois até lhes devia a sua felicidade e a do Príncipe, visto que das suas maldades só isso resultara. Fez-se o casamento com grande pompa, sendo padrinho da menina o Rei do seu país, que para esse fim empreendeu uma longa viagem. O Infante cresceu e foi, como o irmão, um primor de cortesia, bondade e valor. É escusado dizer que o ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão'' e Maria foram os melhores dos Reis e também os mais felizes, como pela sua bondade mereciam. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|História do Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão]] pcyxchcp62b92wmsh49yf6pfljcepq9 Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O corvo 0 256254 560259 559690 2026-08-23T08:10:28Z Mt516 43586 560259 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O corvo | anterior = [[../História do Príncipe encantado no palácio de ferro no reino da escuridão/|História do Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão]] | posterior = [[../O Príncipe Bezerro/]] | notas = }} '''<big>O CORVO</big>''' ERA uma vez um Génio, que, pela sua insuportável arrogância, fora condenado pelo Rei dos Génios a tomar a forma dum corvo e a viver longe do convívio dos outros Génios e Fadas, num castelo solitário dependurado numa rocha bravia sobre as verdas águas do mar. Vivia tão aborrecido naquela solidão que resolveu casar-se. Mas qual seria a mulher, camponesa ou grande dama, mendiga ou Princesa, que havia de querer um Génio mau para marido, e demais a mais feito corvo por toda a eternidade?! E ele também não se contentava com qualquer. Altivo como um poderoso Génio que fora, resolveu casar com filha de Imperador ou Rei. Rondou os palácios de todos os Monarcas existentes no seu tempo e em nenhum encontrou formosura que lhe parecesse digna da sua soberba. Até que num longínquo Império do Oriente nasceu uma Princesa linda como as estrelas. Grandes alegrias iam no palácio, pois era a menina a única herdeira da coroa. O Imperador seu pai, sentado no trono de ouro e pedrarias refulgentes, esperava cheio de júbilo que lha viessem apresentar sobre uma almofada de brocado. O Corvo, que esperava ocasião propícia para realizar o seu intento, entrou por uma janela que tinha ficado aberta, e quando a grande dama camareira apresentava ao Imperador a Princesinha, veio ele e arrebatou-lha. Depois, aproveitando a confusão em que todos ficaram, voou para o seu castelo encantado. No paço só se ouviam gritos e ais de aflição. A Imperatriz, quando teve conhecimento do desaparecimento da filha, chorou muito e disse ao marido que partisse imediatamente em busca dela, senão que morreria de desgosto. O bom do Imperador apertava as mãos na cabeça: onde estaria a Princesinha e quem seria esse mau corvo que a tinha raptado?! Passava as noites a meditar e não sabia que fazer à sua vida, pois grande era o seu empenho em encontrar a filha e em consolar a Imperatriz, que não fazia senão chorar e gemer. No fim de muito pensar resolveu reunir o Conselho e, todos à uma, foram de voto que se convidasse a boa Fada Urgélia, protectora da família, e ela que dissesse o que se devia fazer. Logo que o Imperador formulou o seu desejo, apareceu a Fada, num carrinho tecido de fios de ouro puxado por muitas pombas brancas. O Imperador e a Imperatriz correram para ela de braços abertos, e a formosa Fada, a sorrir, inclinou-se numa grácil mesura. Explicaram os aflitos pais o desgosto em que viviam com a perda da Princesinha. Quedou-se em profundo silêncio a Fada Urgélia e todos se calaram, respeitando aquela meditação. Depois como que voltou a si e disse: — Meus amigos, fui agora mesmo ao palácio da minha Rainha para ela me dizer qual o espírito malfazejo que roubou a minha bela afilhada, vossa filha. Sei onde está. Mas para lá ir é preciso reunir todos os exércitos do Império e escolher entre os soldados aquele que Deus destinou a ir livrar a Princesa do poder do Corvo, que é um poderoso Génio hoje castigado pelo seu Rei. Indicou o sítio onde estava o castelo do Corvo, predisse o bom resultado da empresa e, despedindo-se dos Imperadores, mostrou-lhes em boas e sábias palavras quanto os estimava. Os Imperadores desfizeram-se em agradecimentos e acompanharam-na até ao terraço, onde a esperava a sua leve carruagem. Metendo-se dentro foi um instante enquanto desapareceu aos olhos de todos, levada pelo rápido voo das pombas. Mandou então o Imperador reunir na capital as tropas do seu Império, a ver se entre tantos homens encontrava aquele que Deus destinava a salvar a Princesinha. Mandou armar uma caravela para ir também, pois não queria que se dissesse que ele mandava outros livrar a filha e ficava no bom descanso. Vinham os soldados dum regimento da província em direcção à cidade, segundo as ordens imperiais, e entre eles um rapaz chamado Florêncio. Era bom e valente e todos gostavam muito dele, porque estava sempre pronto a fazer vontades. No meio do caminho encontraram um homem morto e três vivos com grandes paus a baterem-lhe. Os soldados viram aquilo e passaram adiante, mas o Florêncio ficou indignado, pediu licença ao Comandante para sair da forma e depois foi perguntar àqueles homens porque razão desacatavam assim um morto. — É que este homem — responderam eles — era muito caloteiro e então, como em vida nos pediu dinheiro que não pagou, vingamo-nos agora dando-lhe esta sova. O rapaz não quis ouvir mais; tirou-lhes o cadáver das mãos, enterrou-o com grande piedade e depois foi a correr juntar-se ao seu regimento. Chegaram à capital, onde estavam todos os corpos do exército e era tanta a quantidade de gente que não havia onde se instalassem. Ao outro dia mandou o Imperador tocar a reunir e passou revista a todas as suas tropas, a ver se escolhia um homem capaz de ir buscar a Princesa. Entre todos notou a beleza e força de Florêncio e foi o que escolheu. O rapaz ficou contentíssimo e pôs-se logo às ordens do Imperador. Nisto, viram no campo um cavalo já aparelhado e pronto para ser montado. O Imperador mandou que lho agarrassem e trouxessem, mas o lindo animal corria tanto que não era possível apanhá-lo. Depois veio até junto de Florêncio, deixando-se montar sem custo algum. Ficaram todos admirados e o Imperador disse ao rapaz que o cavalo lhe pertencia, pois que só a ele obedecera, e então que fosse ao outro dia ter à praia para embarcarem na caravela, que já estava aparelhada. Como só partia no dia seguinte, resolveu Florêncio ir despedir-se da mãe, que era já muito velhinha. Montou no seu belo cavalo e partiu a galope. Abraçou a mãe, e, não se demorando nada, tornou a montar e dirigiu-se para a cidade. No meio do caminho viu um ramo de ouro caído no chão; ia apear-se para o apanhar e disse-lhe o cavalo: — «Deixa, que ouro e prata terás tu à farta!» — O rapaz não se apeou. Mais adiante viu um ramo de penas de todas as cores; pareceu-lhe bonito para pôr no chapéu e ia apanhá-lo, mas o cavalo disse: — «Não apanhes, penas tens tu contigo!» — E não se apeou. Chegou à cidade e dirigiu-se logo à praia para embarcar, mas a caravela já tinha partido com o Imperador. O rapaz ficou muito triste, mas o cavalo começou num galope tal que chegou à fronteira do Império primeiro que o Imperador. Ali pediu desculpa de não estar à hora do embarque, e, aconselhado pelo cavalo, disse que lhe dessem um navio, cinquenta fardas, cinquenta bonés e cinquenta armas. Depois meteu-se no navio com o seu cavalo e foi ancorar mesmo em frente do castelo do Corvo. Mal este os viu arremeteu contra eles, mas o Florêncio mostrou-lhe as fardas, os bonés e as armas e disse-lhe que todos os seus homens tinham morrido e então que tivesse dó dele e do cavalo e o deixasse dormir no castelo. O Corvo consentiu nisso, com a condição de não entrarem numa torre que tinha fechada. Mal se apanhou lá dentro, tratou o Florêncio de ver onde ficaria a torre, pois nela certamente é que estaria a prisioneira. Daí a bocado viu o Corvo a dormir sobre uma árvore, foi pé-ante-pé, abriu a porta e, pegando na Princesinha, que estava deitada num berço de ouro, montou a cavalo e partiu. Quando o Corvo acordou do seu pesado sono de comilão, entrou na torre para ver a Princesa, e a Fada Urgélia, que tinha seguido invisível a aventura, foi por trás e fechou-lhe a porta com fechadura encantada, de maneira que lá ficou encerrado para sempre. Quando o Florêncio apareceu com a Princesinha, foi uma alegria doida por todo o Império. Os Imperadores, muito agradecidos, quiseram que ele ficasse no palácio e fosse considerado como pessoa de família. A Princesinha ia crescendo e tornando-se cada vez mais linda, de maneira que aos quize anos era a senhora mais formosa do Mundo. Gostava tanto do seu salvador que não podia passar sem o ter sempre a seu lado, o que era motivo de muitas invejas. Os cortezãos não o podiam ver e raro era o dia em que não inventavam histórias que iam contar ao Imperador. Este, por muito tempo, não fez caso, mas um dia enraiveceu-se porque lhe vieram contar que ele tinha dito que assim como tinha ido buscar a Princesa, também era capaz de se meter numa caldeira de azeite a ferver. — Então — respondeu o Imperador — já que disse tal coisa, agora há-de cumprir a sua palavra! Chamaram o Florêncio, e ele, coitado, jurava e tornava a jurar que tal coisa não dissera nem mesmo lhe podia vir à cabeça. Lamentava-se muito dizendo: — «O cavalo é que tinha razão! Penas tenho eu comigo». O Imperador não quis ouvir desculpas; teimou em que ele fizesse a experiência, e, se se saísse bem, casaria com a Princesa e assim acabariam todas as intrigas. Em vista disto não havia remédio senão resignar-se a morrer cozido em azeite e foi à cavalariça na intenção de despedir-se do seu bom companheiro. O cavalo falou-lhe, então, assim: — Não te aflijas; pega num pau e bate-me até que eu fique a suar e depois limpa-me com uma toalha e diz à Princesa que te embrulhe nela. O Florêncio não queria bater-lhe, mas o cavalo tanto teimou que ele obedeceu. Depois foi buscar a Princesa que estava fechada no quarto a chorar, sem querer ver ninguém, desde que soubera da desgraça do seu salvador. Fizeram tudo quanto o animal mandou e o rapaz foi meter-se em uma grande caldeira cheia de azeite, que estava a ferver a um lume muito forte, mesmo em frente do palácio imperial, onde toda a corte assistia ao espectáculo. Três vezes mergulhou no azeite, e os seus inimigos, esfregando as mãos de contentes, imaginavam que dessa vez se veriam livres dele; mas tiveram logo que se morder de raiva, porque saiu do banho tão fresco como se o tivesse tomado de água fria. A Princesa ficou doida de contente e quis que um Arcebispo, que andava na corte, os casasse imediatamente. Assim se fez, com grande alegria dos Imperadores e de todo o povo, que muito gostava do novo Príncipe. Depois foi o cavalo ter com ele e disse-lhe: — Venho despedir-me de ti. Ele ficou muito aflito, respondendo: — Ó meu bom cavalo, se tu me deixas o que há-de ser de mim?! — Agora já não corres perigo; como futuro Imperador, todos te hão-de respeitar. Trata de ser sempre bom, como até aqui, e serás feliz. O Príncipe, que se não podia resignar, perguntou: — Mas qual é a razão de me deixares? Que mal te fiz eu?! — Nenhum mal me fizeste, nem eras capaz de fazer, porque és bom como poucos. Se te deixo é porque Deus assim o quer. Fica sabendo que eu sou a alma daquele morto que encontraste no caminho e piedosamente enterraste, livrando-me das pancadas dos meus credores. Não pagava as dívidas porque era pobre, e então elas foram-me perdoadas por Deus. Em paga da tua boa acção, mandou-me à Terra sob esta forma para te servir e aconselhar enquanto precisasses. Dito isto, desapareceu e nunca mais foi visto. Os Imperadores ainda viveram largo tempo muito queridos da filha e do genro, e quando morreram governaram estes, com geral contentamento do seu povo. Foram muitos felizes, tiveram muitos filhos e morreram velhinhos e cheios de bênçãos. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|O corvo]] 13t5kcpt4tytr37mm25bw6mtjsf406i Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O Príncipe Bezerro 0 256363 560260 559691 2026-08-23T08:10:51Z Mt516 43586 560260 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O Príncipe Bezerro | anterior = [[../O corvo/]] | posterior = [[../A Princesa da Áustria/]] | notas = }} '''<big>O PRÍNCIPE BEZERRO</big>''' HAVIA, em tempos muito remotos, um Rei e uma Rainha senhores dum grande reino, mas que viviam muito tristes, muito tristes, por não terem filhos. Principalmente a Rainha chorava muito a sua desgraça e não se cansava de os pedir a Deus e a todos os Santos. Um dia, já muito desesperada, exclamou: — Quem me dera um filho, ainda que fosse um bezerro! Passado tempo, deram parte à corte que a Rainha estava para dar um herdeiro à coroa. Fizeram-se muitas festas; houve alegria geral desde o palácio dos reis até à mais humilde choupana. Mas qual não foi o espanto de todos quando viram que, em lugar do menino tão ansiosamente esperado, nascia um bezerrinho! Os pais ficaram muito aflitos, mas eram pais e resignaram-se. O Príncipe foi crescendo e mostrava muita inteligência e bondade. Os pais — coitados! — apesar da forma extravagante do filho, gostavam dele como se fosse um homem perfeito, achavam-no até muito lindo e não podiam tolerar que as raparigas fugissem dele e não o quisessem para marido. Ora o Príncipe Bezerro queria por força casar e então os reis deram reuniões sobre reuniões, a ver se alguma mulher se agradava dele. Mas era trabalho baldado, porque as raparigas de quem gostava faziam troça dele e não o queriam nem por quanto havia. Aconteceu vir aos bailes da corte uma menina muito linda e sobretudo muito boa. Viu o Príncipe Bezerro e teve muita pena dele. Enquanto as outras se riam de o verem fazer-se amável com as damas, lambendo-lhes as mãos com toda a delicadeza, ela pegou no seu fino lenço de rendas e limpou-lhe a baba. Ficou o Príncipe Bezerro tão encantado com aquela prova de bondade da menina, que se dirigiu logo aos pais para a pedirem em casamento. Assim fizeram, e a menina, como era muito boa, teve dó do pobre rapaz que todos desprezavam e disse que sim, que aceitava ser sua mulher para que ele fosse menos infeliz. Fez-se o casamento com grande pompa, e, quando à noite se recolheram ao quarto, viu a menina, com grande admiração, que o Príncipe despia a pele de bezerro como se fosse uma camisa e ficava um belo rapaz — o mais belo que jamais tinha visto. Abraçaram-se cheios de contentamento, e ele disse-lhe então: — Não vás dar parte a ninguém disto que vês, porque é um encanto que não acabará se tu o fores dizer, ainda que seja a uma só pessoa! Ao outro dia foi a menina visitar a mãe e, doida de alegria, não teve mão em si que lhe não contasse, debaixo de grande segredo, o que lhe tinha acontecido. E a mãe aconselhou-a a queimar a pele de bezerro que à noite o Príncipe despia, quando ele estivesse a dormir. Assim foi. À noite aconteceu o mesmo da véspera, e a menina, quando o marido adormeceu, foi queimar-lhe a pele, imaginando que assim acabaria o encanto. Mal a pele começou a arder, acordou o Príncipe em sobressalto, exclamando: — Ai, desgraçada mulher, que dobraste o meu fadário! Agora não me tornarás a ver sem romperes sete pares de sapatos de ferro, e ninguém encontrarás que te dê notícias de mim! E, dizendo isto, desapareceu o Príncipe, o palácio, e tudo que a rodeava, e ela viu-se abandonada numa terra desconhecida. Cheia de desgosto e de remorso, não se entregou, porém, ao desespero. Resolveu fazer tudo para desencantar o Príncipe. Comprou sete pares de sapatos de ferro e pôs-se a caminho. Andou, andou, e por toda a parte perguntava pela morada do Príncipe Bezerro, mas ninguém lhe dava notícias dele nem do seu reino. Assim foi andando até que o último par de sapatos de ferro estava quase a findar. Uma noite viu uma luzinha muito ao longe, muito ao longe, e dirigiu-se para lá. Chegou a uma grande casa e bateu à porta. Veio uma velha abrir e perguntou: — Que vem aqui fazer a minha menina? Não sabe que esta é a casa do meu filho Sol? Se ele aqui a vê, é capaz de a matar. Tão aflita estava a infeliz, que lhe respondeu: — Olhe, tiazinha, eu estou tão cansada que só desejo um canto onde me deite, e, se vier o seu filho e me quiser matar, deixá-lo! E talvez ele me saiba dizer onde mora o Príncipe Bezerro. A velha teve muito dó da pobre menina, deixou-a entrar, deu-lhe ceia e cama, dizendo-lhe que descansasse até vir o filho. Daí a pouco chegou o Sol, iluminando a casa — que toda ela parecia um brazeiro de luz — e, dirigindo-se à velha, gritou: — Minha mãe, cheira-me aqui a carne humana! Respondeu ela: — Olha, filho, é uma menina muito bonita que está ali a dormir. Vem perguntar se tu sabes onde é o reino do Príncipe Bezerro. — Eu não sei (disse o Sol) mas a Lua, como anda de noite, talvez saiba. Depois chamou a menina, e, dando-lhe uma noz, recomendou-lhe que a não abrisse senão quando de todo em todo não pudesse suportar a fome. Foi ela dali até acasa da Lua, bateu à porta, e veio também uma velhita, que era a mãe. Deixou-a entrar e descansar, até que chegasse a filha. Então a menina perguntou à Lua: se sabia onde era o reino do Príncipe Bezerro. — Não, eu não sei (respondeu a Lua), nunca o vi nem ouvi falar nele. Melhor é ires perguntar ao Vento, que esse, como anda de noite e de dia, talvez te dê melhores notícias. Mas toma cautela com ele, porque é uma pessoa de muito mau génio, anda sempre arrenegado. Depois deu-lhe também uma noz, fazendo a mesma recomendação que lhe tinha feito o Sol — de só a abrir quando a fome fosse de todo insuportável. Foi dali a menina a casa do Vento, e bateu à porta. Veio abrir-lha uma mulher ainda nova, que lhe perguntou a que vinha. Ela respondeu o mesmo que já tinha dito à mãe do Sol e à da Lua, e a mulher respondeu: — O meu marido só chega à tardinha — hora em que abranda o vento — vem cear, e depois volta logo à sua obrigação. Se a menina lhe quer falar há-de ser à hora da ceia, mas tenho que a esconder quando ele chegar, porque entra sempre com tal espalhafato que despedaça tudo quanto encontra diante de si. A menina agradeceu à mulher do Vento, entrou, e esperou até ao lusco-fusco. Então meteu-se atrás da porta, e viu chegar o Vento, derribando tudo e gritando arrogante que lhe dessem a ceia depressa. Quando ela o viu sossegado, saiu do esconderijo e disse-lhe a que vinha, contando-lhe toda a sua história. O Vento respondeu que sim, que sabia muito bem onde era o reino do Príncipe Bezerro, mas que ele ia casar-se daí a três dias, e então que fosse depressa — a não chegar lá essa manhã já não iria a tempo. Ensinou-lhe o caminho e deu-lhe outra noz, recomendando o mesmo que a Lua e o Sol, isto é: que só a partisse quando de todo não pudesse tolerar a fome. Foi a menina andando pelo caminho por ele indicado, mas em certa altura sentiu uma tal fome que se tentou a partir uma das nozes. Qual não foi, porém, o seu espanto encontrando dentro, em vez da amêndoa que desejava comer, uma dobadoura muito linda toda de ouro e brilhantes. Mais adiante, deu-lhe outra vez uma tão grande fome que se resolveu a partir a segunda noz, e dentro, em lugar de fruto que comesse, encontrou um sarilho de ouro e pedras preciosas tão bonito que ficou deslumbrada. Ainda foi suportando a fome até mais adiante, e, quando inteiramente já não podia, partiu a terceira noz, e então mais admirada ficou quando de dentro lhe saiu uma galinha com sua ninhada de pintos, tudo de ouro, com as penas de brilhantes, rubis, esmeraldas e safiras. Mexiam-se, piavam, corriam — que era mesmo um encanto. A menina foi andando, até que de manhã chegou a uma grande cidade. Entrou e perguntou se vivia ali o Príncipe Bezerro. Disse-ram-lhe que sim, que era ele o rei daquele País e que daí a três dias viria a noiva para se casar. A menina foi sentar-se defronte do palácio real com a dobadoura. Viu-a uma criada da Rainha mãe, que lhe perguntou se queria vender aquela tão linda prenda. — Não, — respondeu ela — não a vendo, mas dá-la-ei à Senhora Rainha, se ela me deixar ficar esta noite no quarto do Príncipe Bezerro. A criada foi dizer aquilo à Rainha. Combinaram deitar dormideiras na água que, ao deitar, o Príncipe bebia. Assim a mulher ficaria no quarto sem ele dar por isso. A menina deu a dobadoura e à noite ficou no quarto do Príncipe. Mas, por mais que ela o chamasse e abanasse, ele não deu por coisa alguma. Chorou muito, disse mal da sua triste vida e do mau costume de falar demais, pois se não tivesse contado à mãe o segredo do Príncipe nenhuns trabalhos daqueles lhe teriam sucedido! De manhã teve de sair, sem ter podido acordar o marido. Por toda a parte ouvia falar no próximo casamento do Príncipe, e na formosura da noiva, que ninguém tinha visto, mas todos afirmavam ser a mais formosa do Mundo. Muito desanimada, foi sentar-se defronte do palácio real com o sarilho de ouro. Viu-a a mesma criada e foi a correr dizer à Rainha que a mulher trazia ali um sarilho, mil vezes mais belo do que a dobadoura. A Rainha, como na véspera, mandou perguntar se o vendia e ela respondeu a mesma coisa: — que não o vendia, mas o daria à senhora Rainha se a deixasse ficar essa noite no quarto do Príncipe Bezerro. A Rainha não queria, mas a criada convenceu-a a fazer o mesmo que tinha feito na véspera, porque ele nunca o saberia. Assim aconteceu: deram as dormideiras ao Príncipe, e à noite, quando a mulher veio, por mais que chamasse e chorasse, nada! — não acordou com coisa nenhuma. De manhã saiu do palácio, mais triste do que a noite, e foi sentar-se defronte das janelas com a galinha de ouro e os pintainhos. Tocava-os com uma vara de ouro e começavam todos a correr, a piar, a abrir as asas, que era mesmo uma coisa nunca vista de linda e engraçada. Foi a mesma criada, a correr, dizer à Rainha o que a mulher trazia e voltou logo a perguntar: — se vendia aquela tão linda prenda, que a Rainha daria tudo quanto lhe pedisse. Ela respondeu o mesmo das outras vezes: — que não vendia, mas que daria à senhora Rainha a galinha e os pintos, se a deixasse ficar essa noite no quarto do Príncipe Bezerro. Disseram-lhe que sim, e ela ficou esperando a noite, que era a sua única esperança de salvação. Ora o criado particular do Príncipe fora dizer-lhe que havia duas noites que ficava no quarto dele uma mulher que chorava e se lamentava tanto que cortava o coração ouvi-la. O Príncipe, que nada tinha ouvido, ficou a desconfiar que lhe tivessem dado alguma coisa para dormir, e, à noite, em lugar de beber o copo com a água do costume, foi disfarçadamente deitá-la fora. Depois meteu-se na cama, e, fingindo que dormia, esperou que entrasse a mulher. Veio ela a chorar, chamou-o por marido, e, por entre soluços e lamentos, contou-lhe todas as suas desgraças. O Príncipe ouviu, ouviu, fingindo sempre que dormia, até que por fim teve dó dela e abraçou-a, dizendo que pela sua constância e arrependimento, o encanto mau acabara; e que ficavam casados como dantes, porque não queria outra esposa senão a ela. No outro dia apresentou-a à mãe e a todo o povo, que a recebeu como Rainha, ficando todos muito satisfeitos por ser tão boa e tão amiga do seu Príncipe. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|O Príncipe Bezerro]] cjh0vcx6qkulj8bq0tsv7gyrula6ean Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/A Princesa da Áustria 0 256391 560246 559692 2026-08-23T07:34:23Z Mt516 43586 560246 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = A Princesa da Áustria | anterior = [[../O Príncipe Bezerro/]] | posterior = [[../História do Príncipe Luís/]] | notas = }} '''<big>A PRINCESA DA ÁUSTRIA</big>''' HAVIA em tempos que já lá vão, no grande Reino da Áustria, um Rei e uma Rainha que tinham muita pena de não terem filho ou filha, que lhes herdasse honras fortuna. Passavam os dias tristemente no meio dos seus tesouros, pois é das coisas do Mundo, a riqueza, o que nos traz menos felicidade. Quantas vezes a Rainha não chorava de mágoa, vendo o seu palácio tão cheio de preciosidades e tão vazio de alegria, ao passo que em muitas casas modestas dos seus súbditos havia risos e contentamento?! Lamentava-se a triste Rainha e lamentava-se o bom Rei da miséria do seu esplêndido viver. Médicos de todo o Mundo eram chamados, promessas a todos os santos eram feitas com fervor; mas nada perecia remediar tão grande mal. Um dia, em que a Rainha foi passear para distrair suas penas, encontrou uma igreja aberta e lembrou-se de ir, mais uma vez, implorar o milagre. Mandou parar a carruagem, pôs o pé no banquinho que um pagem lhe apresentou de joelhos, e, seguida a distância pelas damas da sua comitiva, entrou no sombrio templo. Por acaso dirigiu-se ao altar de S. Miguel e, reparando nele e na figura do Diabo que o acompanha, exclamou, cheia de desespero: — Ó Anjo! Por vós ou por quem tendes aos pés, dai-nos um filho ou filha a quem deixemos as nossas riquezas e Reino! Passados dias, participou ao Rei que podia anunciar à corte que iam ter um herdeiro. Foi a notícia recebida com grandes festas e regozijo de todo o povo. Chegado que foi o grande dia apareceu uma menina muito linda, tudo quanto de mais formoso há sobre a Terra. A Princesinha logo que nasceu começou a falar, coisa que muito, e justamente, admirou a todos. Voltou-se para as aias e disse: — Dai-me pão e carne, que eu tenho muita fome! O Rei, a Rainha e a corte não vinham a si do espanto que lhes causava um caso tão fora do natural. Cresceu a menina cada vez mais bela, mas também comendo cada vez maior quantidade de pão e carne. Era coisa tanto mais extraordinária quanto era certo que a nobre Princesa nada tinha de disforme. Bonita e elegante como era, muito admirava que pudesse comer tanto. E depois ainda tinha outra excentricidade, que a todos confundia — era certo romper todas as noites sete pares de sapatos de ferro. Como os rompia, ninguém podia adivinhar. De dia andava, tal qual as outras damas, com sapatinhos leves e finas meias de seda. Passeava pelas sumptuosas salas e galerias do seu palácio; descia, quando muito, aos admiráveis jardins que o rodeavam e quando saía a passeio era sempre em carruagens douradas, puxadas por cavalos brancos da mais fina raça. Onde poderia então gastar os sapatos de ferro a nobre herdeira do trono?! Afirmavam as aias que a Princesa todas as noites ficava dormindo, quando elas a deixavam na sua câmara e lhe corriam cautelosamente as cortinas de renda. Dormisse ou não dormisse, o caso era quê os sapatos, que à noite colocavam novos junto do leito, apareciam de manhã despedaçados. Cismavam os reis e cismava toda a corte e nenhum meio achavam para resolver o caso. Quando a Princesa da Áustria chegou à idade de procurar noivo fez o Rei um decreto dizendo: — «A Princesa, minha filha, herdeira única de todas as riquezas e honras que me pertencem, casará com o homem que no espaço de três noites descobrir onde ela gasta sete pares de sapatos de ferro. Seja Príncipe ou Cavaleiro, nobre ou plebeu, por minha coroa eu juro que será o seu esposo. Mas, igualmente jurado fica, que irá a enforcar se não poder descobrir nada durante as três noites em que ordeno seja feita a experiência». Como a Princesa era formosíssima e o reino era de tentar, apresentaram-se príncipes de todos os países, fidalgos, cavaleiros andantes, simples pagens e até homens do povo, gente enfim de todas as classes, porque é da condição humana todos desejarem ser grandes. Vinham, cada um por sua vez, passar as três noites no quarto da Princesa e, no fim, nada podiam dizer, porque nada tinham visto, pois o sono os atacava de tal modo que não lhe resistiam. Iam então a enforcar com grande mágoa de toda a gente e até mesmo do próprio Rei, que não podia revogar a sentença. Crescia o luto e o espanto por toda a parte porque assim iam perecendo miseràvelmente, em busca dum vão desejo de glória, todos os moços daquele tempo. Por fim já ninguém se arriscava a fazer a experiência e cada vez mais desanimado se mostrava o velho Rei, empenhado como estava no esclarecimento do estranho caso. Contava-se isto pelas cidades e pelos campos, em toda a parte se falava da Princesa e dos infelizes namorados que tinham ido a enforcar. Depois de sabido e ressabido por todos e de não haver já quem se apresentasse para casar com a menina, chegou a história aos ouvidos dum pastorzinho chamado José Pequeno, que vivia com seus pais numa choça nó meio de serras bravas. Ouviu contar o facto a um viandante que por acaso ali se perdeu e disse para os pais que ia ele saber onde a Princesa gastava os sete pares de sapatos de ferro. Os pais bem choraram e pediram que não fosse, mas o rapaz era teimoso. Pegou no ''surrão'', deitou-o às costas e partiu para a cidade em demanda do palácio real. Chegou à porta e disse à sentinela que queria falar ao Rei, por que estava resolvido a procurar saber como a Princesa gastava os sapatos de ferro. A sentinela teve dó dele e disse-lhe que se fosse embora, que não quisesse arriscar a sua vida, porque era certo ir a morrer. — Não importa — disse o José Pequeno — assim como assim, rapazes como eu há muitos e então se eu morrer não se perde grande coisa e, se eu viver, acaba-se com este horror. Não houve remédio se não levarem-no à presença do Rei. Este recebeu-o muito bem e disse-lhe que sim, que fizesse o que pudesse, mas que era certo ser enforcado se não descobrisse o mistério. À noite ficou no quarto da Princesa, mas, logo que deitou a cabeça no travesseiro, adormeceu tão profundamente que não pôde saber nada. De manhã perguntou-lhe o Rei: — Então que tal, José Pequeno? — Assim como adormeci assim acordei, Real Senhor! — Bem! Ainda te faltam duas noites. Chegou a hora de se irem deitar e o José Pequeno fez tudo quanto pôde para se conservar acordado, mas o sono veio com tal força que não resistiu e ficou a dormir. E esse sono foi tão pegado que nada viu nem ouviu até que de manhã o vieram chamar. Perguntou-lhe o Rei logo que ele se apresentou: — Então José Pequeno, o que sabes? — Nada, Senhor! Assim como adormeci assim acordei. — Já não tens senão uma noite! Estava o rapaz muito triste e já resignado a morrer. Saíu do palácio e foi pelos campos despedir-se do Sol, das árvores e dos passarinhos alegres. Sentou-se junto duma fonte a pensar na sua desgraça, que era a desgraça de todos, quando viu diante de si um cavaleiro de tal formosura e brilhantismo que outro igual jamais olhos humanos tinham podido contemplar. Caiu de joelhos, fascinado pelo esplendor da estranha aparição, e ouviu uma voz suavíssima que lhe disse: — Não desanimes, José Pequeno! És o primeiro que não vem por ambição mas por dever. Volta descansado ao palácio, que eu serei contigo. Eu sou o Arcanjo Miguel, que uma vez mais vai lutar com o inimigo da pureza e da bondade. Tem coragem e fé. Foi o rapaz para o palácio e deitou-se como nas noites anteriores. Fingiu-se logo adormecido, mas não estava, que o Anjo velava por ele. Levantou-se a Princesa, quando o julgou bem pegado no sono, e para o experimentar beliscou-o, picou-o, fez-lhe mil judiarias, e o rapaz, calado, a tudo resistiu. Convencida de que ele estava a dormir foi à janela e abriu-a; logo apareceu uma fantástica carruagem puxada por um cavalo-diabo, para a qual a Princesa subiu toda satisfeita. O José Pequeno, mal que a viu voltar costas, ergueu-se subtilmente, deitou o ''surrão'' para os ombros e subiu para a trazeira do carro. Voava a equipagem por cima de toda a folha, galgava precipícios, atravessava rios, pairava por sobre as mais altas montanhas, como leve pluma de ave levada pelo vento. Assim foram até chegar ao mar. Aí afogar-se-ia o José Pequeno — porque a trazeira do carro mergulhava e cortava as águas como a quilha dum vapor — se o bom Anjo lhe não tivesse dado um lenço maravilhoso que ele estendeu sobre o mar e no qual se colocou navegando por sobre as ondas como se fosse num barco. Depois agarrou-se outra vez ao carro e lá foram seguindo até chegarem à porta do Jardim de Cobre. Bateu a Princesa e perguntaram de dentro: — Quem vem lá? — É a Princesa da Áustria. — Passe a Princesa da Áustria mais a sua companhia. A Princesa não sabia que levava companhia e ficou admirada de lhe dizerem isto. Atravessaram o Jardim de Cobre, que era tudo quanto se pode imaginar de mais extraordinário! Árvores, flores, ramos, folhas, tudo era feito de cobre. O José Pequeno cortou um galhito duma árvore e meteu-o para o ''surrão''. Continuaram a andar e mais adiante bateram à porta do Jardim de Prata. — Quem vem lá? — disseram de dentro. — É a Princesa da Áustria. — Passe a Princesa da Áustria mais a sua companhia. — Ora esta — dizia a Princesa consigo — todas as noites aqui passo e nunca me falaram na companhia senão hoje. O que será isto?... Se admirado ficara o José Pequeno com o Jardim de Cobre, com o de Prata, então, nem sabia que pensar! Como passavam debaixo duma árvore cortou uma esgalhinha e meteu-a para o ''surrão''. Continuaram a jornada até chegarem à porta do Jardim de Ouro, à qual a Princesa bateu. — Quem vem lá ? — É a Princesa da Áustria. — Passe a Princesa da Áustria mais a sua companhia. O Jardim de Ouro era prodigioso! Desde o maior e mais frondoso cedro à mais humilde ervazinha, todas as plantas ali estavam representadas por um exemplar feito do mais fino ouro. A folhagem tremia ao menor sopro, qual as folhas verdes das árvores verdadeiras. A Princesa já estava habituada a ver estas maravilhas e por isso não lhes dava atenção. O carro não afrouxava a carreira e o José Pequeno tinha que se contentar com o pouco que via. De passagem pôde ainda cortar um ramo de ouro que meteu no ''surrão''. Assim foram correndo até chegarem ao inferno. Mal o carro chegou à porta, abriu-se esta de par em par, mostrando as mais negras trevas. Entraram e enquanto arrumavam o carro o José Pequeno escondeu-se atrás da porta. Vinham os ''facanitos'', ajoujados com os pratos e manjares para a ceia, e o José Pequeno empurrava-os, quebrava tudo e dava-lhes muitos sopapos, na escuridão. Eles iam a gritar para dentro: — Hi! Sempre hoje trouxeram um vento lá da Terra que dá cabo da gente! Depois da ceia veio o ''Diabo Maior'', para dançar com a Princesa. O José Pequeno deu-lhe um soco na cara. — Irra, que o vento está bravo! — dizia o Diabo esfregando a cara dorida. Começou então a bailar com a Princesa e de cada volta que davam atirava com um par dos sapatos de ferro, já rotos, para debaixo dum banco; ia o José Pequeno por trás e metia-os no ''surrão''. Quando se apanhou com os sete pares de sapatos em seu poder, pegou no banco e deu com ele nas costas do Diabo que começou a gritar para a Princesa: — Vai-te embora, vai-te embora, que hoje ninguém te pode aturar. Tornou a Princesa a meter-se no carro e o José Pequeno a esconder-se na trazeira, acontecendo na volta as mesmas coisas que na ida tinham acontecido. Quando José Pequeno se viu perto do palácio, saltou do carro e pôs-se a correr com quanta força tinha, de maneira que já estava na cama, a fingir que dormia, quando a Princesa chegou. Desconfiada, começou de o picar e beliscar, dizendo: — Dar-se-á o caso que tu me tenhas enganado?!... Mas o rapaz, nem ''chus'' nem ''bus'', tudo padeceu sem se mexer. De manhã mandou o Rei chamá-lo à sua presença e perguntou: — Então o que sabes? — Assim como me deitei, assim acordei, Senhor. — Bom, vais a enforcar. — Irei. Mas na praça mais pública e com bastante gente a assistir, é o meu último desejo. O Rei fez-lhe a vontade. Mandou armar a forca na praça mais concorrida e mandou anunciar o caso por todo o Reino. Junto da forca estavam a chorar os dois velhos, pai e mãe de José Pequeno, e a todos fazia pena a aflição dos pobres. Quando ele apareceu com o ''surrão'' às costas começou o povo a agitar-se e com mais desejo de enforcar a Princesa, causadora de tantas desgraças, do que deixar matar mais um inocente. O borborinho era muito e só se acalmou quando o José Pequeno subiu os degraus da forca e fez sinal de querer falar. Assistiam os reis, a Princesa e toda a corte numa tribuna especialmente feita. Voltou-se para lá o José Pequeno e, fazendo uma vénia, tirou do ''surrão'' o primeiro par de sapatos rotos. Mal isto viu, gritou a Princesa: — Não fales, não fales, que já me ganhaste! — Se sabes onde são gastos os sapatos, podes descer e casar já com ela — disse o Rei. — Senhor, não caso. Que ela tem contas com o Demónio. Tudo quero contar a este bom povo. Começou ele então a contar o que vira e para prova mostrou os sete pares de sapatos e os raminhos de cobre, de prata e de ouro. Quando acabou, o povo todo encheu-o de aclamações e festas e levararam-no em triunfo pela cidade, dizendo que só ele salvara o Reino de vir a ser da Princesa endemoninhada. A Princesa então disse aos pais que ia morrer. Que lhe haviam de jurar mandá-la enterrar na igreja de São Miguel e que todas as noites iria para lá uma sentinela. Os pais juraram e ela morreu. Fizeram-lhe grandes pompas no enterro mas só os pais a choraram. Desde o dia em que a Princesa foi enterrada, uma sentinela ficava à porta da igreja, mas de manhã quando iam para a render apenas lá encontravam os ossos! A gente que vivia perto dali dizia que à meia noite se ouvia um barulho infernal, as portas e janelas abriam-se e fechavam-se como se um furacão as empurrasse. Depois uma voz gritava: — Sentinela alerta! — Alerta está — respondia o pobre soldado. E logo ouviam o ruído de alguém que estivesse a comer. O terror chegou a tal ponto que não havia soldado que quisesse ir fazer guarda, senão levado à força. O povo começou a gritar e já ameaçavam de morte o Rei e a Rainha se aquilo continuasse. Deitavam-se as sortes todas as noites e a quem calhasse, fosse ele quem fosse, não tinha remédio senão ir! Assim, pois, caiu a sorte ao José Pequeno, que já então era um conde, o maior da corte. Tiveram todos um grande desgosto; o rapaz foi despedir-se dos pais, com grande mágoa, e à noite dirigiu-se para a igreja. A meio do caminho encontrou uma velhinha, que lhe disse: — Que triste vais, José Pequeno! — Pois não terei eu razão?! Vou hoje ficar de sentinela à Princesa. Portanto, morrer como os outros. Até já me lembrou de fugir! — Ah, isso é que não! Um homem nunca foge ao seu dever. Vai para a igreja e, ao dar a primeira badalada da meia noite, põe-te por detrás do altar-mor e, ouças o que ouvires, não saias de lá senão de manhã. Em vista deste conselho, foi. Quando o sino deu a primeira badalada das doze horas, aquilo não foi correr, foi voar! Num instante se meteu atrás do altar-mor. Mal a última hora tinha soado levantou-se um vento terrível na igreja, as portas bateram violentamente, as lâmpadas apagaram-se, parecia que tudo se fazia em fanicos. O José Pequeno, encolhido atrás do altar, ia sempre olhando. O que há-de ele ver no meio da igreja?! Uma nuvem branca que subia para o tecto e uma voz gritar: — Sentinela alerta!... Sentinela alerta!... Como o José Pequeno não respondeu, a voz, que metia horror, disse: — Ah, maldição, que faltaram ao juramento! O rapaz deitou a cabeça de fora e respondeu: — Não faltaram, não, que eu aqui estou! Depois sentiu correr na igreja, ouviu uivos e gritos; mas não iam onde ele estava, protegido pelo altar. Quando de manhã vieram render a guarda, esperando só encontrar os ossos da sentinela, apareceu José Pequeno todo satisfeito, causando a admiração de toda a gente. Nesse dia tornou a cair-lhe a sorte para ir fazer a guarda à Princesa. Ficou desconsoladíssimo! Quando se dirigia para a igreja de novo encontrou a velhinha: — Então, José Pequeno, vais hoje tão triste! Parece que ainda estás mais desanimado do que ontem! — Desanimado vou, senhora. O caso não é para menos! Se visse a Princesa a bater os dentes com fúria, para me comer! Até me lembrei de fugir. — Não fujas. Vai ao teu destino, que não é bom fugir-lhe. Olha, esta noite esconde-te por detrás do painel das almas e tem coragem! José Pequeno foi e, ao dar a primeira badalada da meia noite, correu a esconder-se onde a velha tinha dito. Quando as doze horas cairam, o barulho foi tal que tudo parecia vir abaixo; depois a mesma voz gritou: — Sentinela alerta!... Sentinela alerta!... Ah, maldição, que faltaram ao prometido! Respondeu José Pequeno: — Não faltaram, não, que eu aqui estou! Mas a Princesa por mais que fizesse não lhe podia tocar, porque estava protegido por maior poder. E no fim de muito gritar e barafustar, começou a subir numa nuvem branca e desapareceu. De manhã todos ficaram admirados vendo o José Pequeno cheio de vida, como na véspera o tinham deixado. Levaram-no em triunfo por toda a parte, fizeram-lhe grandes festas e os reis abraçaram-no cheios de alegria. Tornaram a deitar sortes para ver quem ficaria de sentinela à Princesa e a sorte de novo caiu no rapaz. À noite, lá foi ele muito desesperado para a igreja e, no meio do caminho, encontrou a mesma velhinha. — Então, José Pequeno, tornas a ir para a igreja? — Que remédio tenho eu! Hoje é que lá fico com certeza! — Não ficarás se fizeres o que eu te disser. — Então o que é? A senhora é que me tem valido, mas hoje não sei como será! — Hás-de sair-te bem, não desanimes. Olha, vai buscar um jarro com água e uma toalha e esconde-te no altar de Nossa Senhora. Ainda que chamem por ti não apareças; mas, quando te pedirem água, estende o braço e deita a do jarro e, quando pedirem uma toalha, atira a que levares. Depois podes aparecer e farás o que quiseres. O rapaz voltou ao palácio, para levar o que a velhinha tinha dito, e depois dirigiu-se à igreja. Ao dar da meia noite foi-se pôr no sitio indicado e ouviu tal barulho que ia ficando doido de susto. Depois a voz gritou: — Sentinela alerta!... Sentinela alerta!... Ah, maldição, que faltaram ao juramento! Depois de muito gritar e chorar, disse a Princesa: — Ai que sede que eu tenho! Quando o José ouviu isto, deitou o braço de fora e entornou a água do jarro. Ouviu em baixo uma pessoa a beber e depois a lavar-se. — Agora só queria uma toalha! O rapaz atirou a toalha e ouviu que tremiam de frio; olhou para baixo e viu a Princesa mais bonita do que nunca e viva como a tinha conhecido. Desceu então do esconderijo, embrulhou-a no seu próprio capote e foi sentar-se com ela nos degraus do altar-mor. Ali ficaram à espera que amanhecesse e ela daí a pouco adormeceu. Quando de manhã vieram saber do José Pequeno e o encontraram na companhia da Princesa, viva e formosa como era, foi um alarido por toda acidade! Correram a chamar os reis — que não podiam crer em tanta felicidade! Soube-se então que a Princesa da Áustria, nascida por parte do Diabo, nunca estivera morta e sim encantada e só por encanto ela podia fazer tanta maldade. Vencido o inimigo, ficou a menina livre e feliz. O José Pequeno casou com ela. Foram reis daquele grande país e sempre muito bons e amados pelo povo. [[Categoria:Contos portugueses|A Princesa da Áustria]] 5ek4v8yfgxogfwm69mbo8v5vg8mfv3x 560248 560246 2026-08-23T08:04:25Z Mt516 43586 560248 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = A Princesa da Áustria | anterior = [[../O Príncipe Bezerro/]] | posterior = [[../História do Príncipe Luís/]] | notas = }} '''<big>A PRINCESA DA ÁUSTRIA</big>''' HAVIA em tempos que já lá vão, no grande Reino da Áustria, um Rei e uma Rainha que tinham muita pena de não terem filho ou filha, que lhes herdasse honras fortuna. Passavam os dias tristemente no meio dos seus tesouros, pois é das coisas do Mundo, a riqueza, o que nos traz menos felicidade. Quantas vezes a Rainha não chorava de mágoa, vendo o seu palácio tão cheio de preciosidades e tão vazio de alegria, ao passo que em muitas casas modestas dos seus súbditos havia risos e contentamento?! Lamentava-se a triste Rainha e lamentava-se o bom Rei da miséria do seu esplêndido viver. Médicos de todo o Mundo eram chamados, promessas a todos os santos eram feitas com fervor; mas nada perecia remediar tão grande mal. Um dia, em que a Rainha foi passear para distrair suas penas, encontrou uma igreja aberta e lembrou-se de ir, mais uma vez, implorar o milagre. Mandou parar a carruagem, pôs o pé no banquinho que um pagem lhe apresentou de joelhos, e, seguida a distância pelas damas da sua comitiva, entrou no sombrio templo. Por acaso dirigiu-se ao altar de S. Miguel e, reparando nele e na figura do Diabo que o acompanha, exclamou, cheia de desespero: — Ó Anjo! Por vós ou por quem tendes aos pés, dai-nos um filho ou filha a quem deixemos as nossas riquezas e Reino! Passados dias, participou ao Rei que podia anunciar à corte que iam ter um herdeiro. Foi a notícia recebida com grandes festas e regozijo de todo o povo. Chegado que foi o grande dia apareceu uma menina muito linda, tudo quanto de mais formoso há sobre a Terra. A Princesinha logo que nasceu começou a falar, coisa que muito, e justamente, admirou a todos. Voltou-se para as aias e disse: — Dai-me pão e carne, que eu tenho muita fome! O Rei, a Rainha e a corte não vinham a si do espanto que lhes causava um caso tão fora do natural. Cresceu a menina cada vez mais bela, mas também comendo cada vez maior quantidade de pão e carne. Era coisa tanto mais extraordinária quanto era certo que a nobre Princesa nada tinha de disforme. Bonita e elegante como era, muito admirava que pudesse comer tanto. E depois ainda tinha outra excentricidade, que a todos confundia — era certo romper todas as noites sete pares de sapatos de ferro. Como os rompia, ninguém podia adivinhar. De dia andava, tal qual as outras damas, com sapatinhos leves e finas meias de seda. Passeava pelas sumptuosas salas e galerias do seu palácio; descia, quando muito, aos admiráveis jardins que o rodeavam e quando saía a passeio era sempre em carruagens douradas, puxadas por cavalos brancos da mais fina raça. Onde poderia então gastar os sapatos de ferro a nobre herdeira do trono?! Afirmavam as aias que a Princesa todas as noites ficava dormindo, quando elas a deixavam na sua câmara e lhe corriam cautelosamente as cortinas de renda. Dormisse ou não dormisse, o caso era quê os sapatos, que à noite colocavam novos junto do leito, apareciam de manhã despedaçados. Cismavam os reis e cismava toda a corte e nenhum meio achavam para resolver o caso. Quando a Princesa da Áustria chegou à idade de procurar noivo fez o Rei um decreto dizendo: — «A Princesa, minha filha, herdeira única de todas as riquezas e honras que me pertencem, casará com o homem que no espaço de três noites descobrir onde ela gasta sete pares de sapatos de ferro. Seja Príncipe ou Cavaleiro, nobre ou plebeu, por minha coroa eu juro que será o seu esposo. Mas, igualmente jurado fica, que irá a enforcar se não poder descobrir nada durante as três noites em que ordeno seja feita a experiência». Como a Princesa era formosíssima e o reino era de tentar, apresentaram-se príncipes de todos os países, fidalgos, cavaleiros andantes, simples pagens e até homens do povo, gente enfim de todas as classes, porque é da condição humana todos desejarem ser grandes. Vinham, cada um por sua vez, passar as três noites no quarto da Princesa e, no fim, nada podiam dizer, porque nada tinham visto, pois o sono os atacava de tal modo que não lhe resistiam. Iam então a enforcar com grande mágoa de toda a gente e até mesmo do próprio Rei, que não podia revogar a sentença. Crescia o luto e o espanto por toda a parte porque assim iam perecendo miseràvelmente, em busca dum vão desejo de glória, todos os moços daquele tempo. Por fim já ninguém se arriscava a fazer a experiência e cada vez mais desanimado se mostrava o velho Rei, empenhado como estava no esclarecimento do estranho caso. Contava-se isto pelas cidades e pelos campos, em toda a parte se falava da Princesa e dos infelizes namorados que tinham ido a enforcar. Depois de sabido e ressabido por todos e de não haver já quem se apresentasse para casar com a menina, chegou a história aos ouvidos dum pastorzinho chamado José Pequeno, que vivia com seus pais numa choça nó meio de serras bravas. Ouviu contar o facto a um viandante que por acaso ali se perdeu e disse para os pais que ia ele saber onde a Princesa gastava os sete pares de sapatos de ferro. Os pais bem choraram e pediram que não fosse, mas o rapaz era teimoso. Pegou no ''surrão'', deitou-o às costas e partiu para a cidade em demanda do palácio real. Chegou à porta e disse à sentinela que queria falar ao Rei, por que estava resolvido a procurar saber como a Princesa gastava os sapatos de ferro. A sentinela teve dó dele e disse-lhe que se fosse embora, que não quisesse arriscar a sua vida, porque era certo ir a morrer. — Não importa — disse o José Pequeno — assim como assim, rapazes como eu há muitos e então se eu morrer não se perde grande coisa e, se eu viver, acaba-se com este horror. Não houve remédio se não levarem-no à presença do Rei. Este recebeu-o muito bem e disse-lhe que sim, que fizesse o que pudesse, mas que era certo ser enforcado se não descobrisse o mistério. À noite ficou no quarto da Princesa, mas, logo que deitou a cabeça no travesseiro, adormeceu tão profundamente que não pôde saber nada. De manhã perguntou-lhe o Rei: — Então que tal, José Pequeno? — Assim como adormeci assim acordei, Real Senhor! — Bem! Ainda te faltam duas noites. Chegou a hora de se irem deitar e o José Pequeno fez tudo quanto pôde para se conservar acordado, mas o sono veio com tal força que não resistiu e ficou a dormir. E esse sono foi tão pegado que nada viu nem ouviu até que de manhã o vieram chamar. Perguntou-lhe o Rei logo que ele se apresentou: — Então José Pequeno, o que sabes? — Nada, Senhor! Assim como adormeci assim acordei. — Já não tens senão uma noite! Estava o rapaz muito triste e já resignado a morrer. Saíu do palácio e foi pelos campos despedir-se do Sol, das árvores e dos passarinhos alegres. Sentou-se junto duma fonte a pensar na sua desgraça, que era a desgraça de todos, quando viu diante de si um cavaleiro de tal formosura e brilhantismo que outro igual jamais olhos humanos tinham podido contemplar. Caiu de joelhos, fascinado pelo esplendor da estranha aparição, e ouviu uma voz suavíssima que lhe disse: — Não desanimes, José Pequeno! És o primeiro que não vem por ambição mas por dever. Volta descansado ao palácio, que eu serei contigo. Eu sou o Arcanjo Miguel, que uma vez mais vai lutar com o inimigo da pureza e da bondade. Tem coragem e fé. Foi o rapaz para o palácio e deitou-se como nas noites anteriores. Fingiu-se logo adormecido, mas não estava, que o Anjo velava por ele. Levantou-se a Princesa, quando o julgou bem pegado no sono, e para o experimentar beliscou-o, picou-o, fez-lhe mil judiarias, e o rapaz, calado, a tudo resistiu. Convencida de que ele estava a dormir foi à janela e abriu-a; logo apareceu uma fantástica carruagem puxada por um cavalo-diabo, para a qual a Princesa subiu toda satisfeita. O José Pequeno, mal que a viu voltar costas, ergueu-se subtilmente, deitou o ''surrão'' para os ombros e subiu para a trazeira do carro. Voava a equipagem por cima de toda a folha, galgava precipícios, atravessava rios, pairava por sobre as mais altas montanhas, como leve pluma de ave levada pelo vento. Assim foram até chegar ao mar. Aí afogar-se-ia o José Pequeno — porque a trazeira do carro mergulhava e cortava as águas como a quilha dum vapor — se o bom Anjo lhe não tivesse dado um lenço maravilhoso que ele estendeu sobre o mar e no qual se colocou navegando por sobre as ondas como se fosse num barco. Depois agarrou-se outra vez ao carro e lá foram seguindo até chegarem à porta do Jardim de Cobre. Bateu a Princesa e perguntaram de dentro: — Quem vem lá? — É a Princesa da Áustria. — Passe a Princesa da Áustria mais a sua companhia. A Princesa não sabia que levava companhia e ficou admirada de lhe dizerem isto. Atravessaram o Jardim de Cobre, que era tudo quanto se pode imaginar de mais extraordinário! Árvores, flores, ramos, folhas, tudo era feito de cobre. O José Pequeno cortou um galhito duma árvore e meteu-o para o ''surrão''. Continuaram a andar e mais adiante bateram à porta do Jardim de Prata. — Quem vem lá? — disseram de dentro. — É a Princesa da Áustria. — Passe a Princesa da Áustria mais a sua companhia. — Ora esta — dizia a Princesa consigo — todas as noites aqui passo e nunca me falaram na companhia senão hoje. O que será isto?... Se admirado ficara o José Pequeno com o Jardim de Cobre, com o de Prata, então, nem sabia que pensar! Como passavam debaixo duma árvore cortou uma esgalhinha e meteu-a para o ''surrão''. Continuaram a jornada até chegarem à porta do Jardim de Ouro, à qual a Princesa bateu. — Quem vem lá ? — É a Princesa da Áustria. — Passe a Princesa da Áustria mais a sua companhia. O Jardim de Ouro era prodigioso! Desde o maior e mais frondoso cedro à mais humilde ervazinha, todas as plantas ali estavam representadas por um exemplar feito do mais fino ouro. A folhagem tremia ao menor sopro, qual as folhas verdes das árvores verdadeiras. A Princesa já estava habituada a ver estas maravilhas e por isso não lhes dava atenção. O carro não afrouxava a carreira e o José Pequeno tinha que se contentar com o pouco que via. De passagem pôde ainda cortar um ramo de ouro que meteu no ''surrão''. Assim foram correndo até chegarem ao inferno. Mal o carro chegou à porta, abriu-se esta de par em par, mostrando as mais negras trevas. Entraram e enquanto arrumavam o carro o José Pequeno escondeu-se atrás da porta. Vinham os ''facanitos'', ajoujados com os pratos e manjares para a ceia, e o José Pequeno empurrava-os, quebrava tudo e dava-lhes muitos sopapos, na escuridão. Eles iam a gritar para dentro: — Hi! Sempre hoje trouxeram um vento lá da Terra que dá cabo da gente! Depois da ceia veio o ''Diabo Maior'', para dançar com a Princesa. O José Pequeno deu-lhe um soco na cara. — Irra, que o vento está bravo! — dizia o Diabo esfregando a cara dorida. Começou então a bailar com a Princesa e de cada volta que davam atirava com um par dos sapatos de ferro, já rotos, para debaixo dum banco; ia o José Pequeno por trás e metia-os no ''surrão''. Quando se apanhou com os sete pares de sapatos em seu poder, pegou no banco e deu com ele nas costas do Diabo que começou a gritar para a Princesa: — Vai-te embora, vai-te embora, que hoje ninguém te pode aturar. Tornou a Princesa a meter-se no carro e o José Pequeno a esconder-se na trazeira, acontecendo na volta as mesmas coisas que na ida tinham acontecido. Quando José Pequeno se viu perto do palácio, saltou do carro e pôs-se a correr com quanta força tinha, de maneira que já estava na cama, a fingir que dormia, quando a Princesa chegou. Desconfiada, começou de o picar e beliscar, dizendo: — Dar-se-á o caso que tu me tenhas enganado?!... Mas o rapaz, nem ''chus'' nem ''bus'', tudo padeceu sem se mexer. De manhã mandou o Rei chamá-lo à sua presença e perguntou: — Então o que sabes? — Assim como me deitei, assim acordei, Senhor. — Bom, vais a enforcar. — Irei. Mas na praça mais pública e com bastante gente a assistir, é o meu último desejo. O Rei fez-lhe a vontade. Mandou armar a forca na praça mais concorrida e mandou anunciar o caso por todo o Reino. Junto da forca estavam a chorar os dois velhos, pai e mãe de José Pequeno, e a todos fazia pena a aflição dos pobres. Quando ele apareceu com o ''surrão'' às costas começou o povo a agitar-se e com mais desejo de enforcar a Princesa, causadora de tantas desgraças, do que deixar matar mais um inocente. O borborinho era muito e só se acalmou quando o José Pequeno subiu os degraus da forca e fez sinal de querer falar. Assistiam os reis, a Princesa e toda a corte numa tribuna especialmente feita. Voltou-se para lá o José Pequeno e, fazendo uma vénia, tirou do ''surrão'' o primeiro par de sapatos rotos. Mal isto viu, gritou a Princesa: — Não fales, não fales, que já me ganhaste! — Se sabes onde são gastos os sapatos, podes descer e casar já com ela — disse o Rei. — Senhor, não caso. Que ela tem contas com o Demónio. Tudo quero contar a este bom povo. Começou ele então a contar o que vira e para prova mostrou os sete pares de sapatos e os raminhos de cobre, de prata e de ouro. Quando acabou, o povo todo encheu-o de aclamações e festas e levararam-no em triunfo pela cidade, dizendo que só ele salvara o Reino de vir a ser da Princesa endemoninhada. A Princesa então disse aos pais que ia morrer. Que lhe haviam de jurar mandá-la enterrar na igreja de São Miguel e que todas as noites iria para lá uma sentinela. Os pais juraram e ela morreu. Fizeram-lhe grandes pompas no enterro mas só os pais a choraram. Desde o dia em que a Princesa foi enterrada, uma sentinela ficava à porta da igreja, mas de manhã quando iam para a render apenas lá encontravam os ossos! A gente que vivia perto dali dizia que à meia noite se ouvia um barulho infernal, as portas e janelas abriam-se e fechavam-se como se um furacão as empurrasse. Depois uma voz gritava: — Sentinela alerta! — Alerta está — respondia o pobre soldado. E logo ouviam o ruído de alguém que estivesse a comer. O terror chegou a tal ponto que não havia soldado que quisesse ir fazer guarda, senão levado à força. O povo começou a gritar e já ameaçavam de morte o Rei e a Rainha se aquilo continuasse. Deitavam-se as sortes todas as noites e a quem calhasse, fosse ele quem fosse, não tinha remédio senão ir! Assim, pois, caiu a sorte ao José Pequeno, que já então era um conde, o maior da corte. Tiveram todos um grande desgosto; o rapaz foi despedir-se dos pais, com grande mágoa, e à noite dirigiu-se para a igreja. A meio do caminho encontrou uma velhinha, que lhe disse: — Que triste vais, José Pequeno! — Pois não terei eu razão?! Vou hoje ficar de sentinela à Princesa. Portanto, morrer como os outros. Até já me lembrou de fugir! — Ah, isso é que não! Um homem nunca foge ao seu dever. Vai para a igreja e, ao dar a primeira badalada da meia noite, põe-te por detrás do altar-mor e, ouças o que ouvires, não saias de lá senão de manhã. Em vista deste conselho, foi. Quando o sino deu a primeira badalada das doze horas, aquilo não foi correr, foi voar! Num instante se meteu atrás do altar-mor. Mal a última hora tinha soado levantou-se um vento terrível na igreja, as portas bateram violentamente, as lâmpadas apagaram-se, parecia que tudo se fazia em fanicos. O José Pequeno, encolhido atrás do altar, ia sempre olhando. O que há-de ele ver no meio da igreja?! Uma nuvem branca que subia para o tecto e uma voz gritar: — Sentinela alerta!... Sentinela alerta!... Como o José Pequeno não respondeu, a voz, que metia horror, disse: — Ah, maldição, que faltaram ao juramento! O rapaz deitou a cabeça de fora e respondeu: — Não faltaram, não, que eu aqui estou! Depois sentiu correr na igreja, ouviu uivos e gritos; mas não iam onde ele estava, protegido pelo altar. Quando de manhã vieram render a guarda, esperando só encontrar os ossos da sentinela, apareceu José Pequeno todo satisfeito, causando a admiração de toda a gente. Nesse dia tornou a cair-lhe a sorte para ir fazer a guarda à Princesa. Ficou desconsoladíssimo! Quando se dirigia para a igreja de novo encontrou a velhinha: — Então, José Pequeno, vais hoje tão triste! Parece que ainda estás mais desanimado do que ontem! — Desanimado vou, senhora. O caso não é para menos! Se visse a Princesa a bater os dentes com fúria, para me comer! Até me lembrei de fugir. — Não fujas. Vai ao teu destino, que não é bom fugir-lhe. Olha, esta noite esconde-te por detrás do painel das almas e tem coragem! José Pequeno foi e, ao dar a primeira badalada da meia noite, correu a esconder-se onde a velha tinha dito. Quando as doze horas cairam, o barulho foi tal que tudo parecia vir abaixo; depois a mesma voz gritou: — Sentinela alerta!... Sentinela alerta!... Ah, maldição, que faltaram ao prometido! Respondeu José Pequeno: — Não faltaram, não, que eu aqui estou! Mas a Princesa por mais que fizesse não lhe podia tocar, porque estava protegido por maior poder. E no fim de muito gritar e barafustar, começou a subir numa nuvem branca e desapareceu. De manhã todos ficaram admirados vendo o José Pequeno cheio de vida, como na véspera o tinham deixado. Levaram-no em triunfo por toda a parte, fizeram-lhe grandes festas e os reis abraçaram-no cheios de alegria. Tornaram a deitar sortes para ver quem ficaria de sentinela à Princesa e a sorte de novo caiu no rapaz. À noite, lá foi ele muito desesperado para a igreja e, no meio do caminho, encontrou a mesma velhinha. — Então, José Pequeno, tornas a ir para a igreja? — Que remédio tenho eu! Hoje é que lá fico com certeza! — Não ficarás se fizeres o que eu te disser. — Então o que é? A senhora é que me tem valido, mas hoje não sei como será! — Hás-de sair-te bem, não desanimes. Olha, vai buscar um jarro com água e uma toalha e esconde-te no altar de Nossa Senhora. Ainda que chamem por ti não apareças; mas, quando te pedirem água, estende o braço e deita a do jarro e, quando pedirem uma toalha, atira a que levares. Depois podes aparecer e farás o que quiseres. O rapaz voltou ao palácio, para levar o que a velhinha tinha dito, e depois dirigiu-se à igreja. Ao dar da meia noite foi-se pôr no sitio indicado e ouviu tal barulho que ia ficando doido de susto. Depois a voz gritou: — Sentinela alerta!... Sentinela alerta!... Ah, maldição, que faltaram ao juramento! Depois de muito gritar e chorar, disse a Princesa: — Ai que sede que eu tenho! Quando o José ouviu isto, deitou o braço de fora e entornou a água do jarro. Ouviu em baixo uma pessoa a beber e depois a lavar-se. — Agora só queria uma toalha! O rapaz atirou a toalha e ouviu que tremiam de frio; olhou para baixo e viu a Princesa mais bonita do que nunca e viva como a tinha conhecido. Desceu então do esconderijo, embrulhou-a no seu próprio capote e foi sentar-se com ela nos degraus do altar-mor. Ali ficaram à espera que amanhecesse e ela daí a pouco adormeceu. Quando de manhã vieram saber do José Pequeno e o encontraram na companhia da Princesa, viva e formosa como era, foi um alarido por toda acidade! Correram a chamar os reis — que não podiam crer em tanta felicidade! Soube-se então que a Princesa da Áustria, nascida por parte do Diabo, nunca estivera morta e sim encantada e só por encanto ela podia fazer tanta maldade. Vencido o inimigo, ficou a menina livre e feliz. O José Pequeno casou com ela. Foram reis daquele grande país e sempre muito bons e amados pelo povo. [[Categoria:Contos portugueses|A Princesa da Áustria]] [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa]] c79gq0ck7ygens81zunpvd4kbq2d0ds 560252 560248 2026-08-23T08:06:54Z Mt516 43586 560252 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = A Princesa da Áustria | anterior = [[../O Príncipe Bezerro/]] | posterior = [[../História do Príncipe Luís/]] | notas = }} '''<big>A PRINCESA DA ÁUSTRIA</big>''' HAVIA em tempos que já lá vão, no grande Reino da Áustria, um Rei e uma Rainha que tinham muita pena de não terem filho ou filha, que lhes herdasse honras fortuna. Passavam os dias tristemente no meio dos seus tesouros, pois é das coisas do Mundo, a riqueza, o que nos traz menos felicidade. Quantas vezes a Rainha não chorava de mágoa, vendo o seu palácio tão cheio de preciosidades e tão vazio de alegria, ao passo que em muitas casas modestas dos seus súbditos havia risos e contentamento?! Lamentava-se a triste Rainha e lamentava-se o bom Rei da miséria do seu esplêndido viver. Médicos de todo o Mundo eram chamados, promessas a todos os santos eram feitas com fervor; mas nada perecia remediar tão grande mal. Um dia, em que a Rainha foi passear para distrair suas penas, encontrou uma igreja aberta e lembrou-se de ir, mais uma vez, implorar o milagre. Mandou parar a carruagem, pôs o pé no banquinho que um pagem lhe apresentou de joelhos, e, seguida a distância pelas damas da sua comitiva, entrou no sombrio templo. Por acaso dirigiu-se ao altar de S. Miguel e, reparando nele e na figura do Diabo que o acompanha, exclamou, cheia de desespero: — Ó Anjo! Por vós ou por quem tendes aos pés, dai-nos um filho ou filha a quem deixemos as nossas riquezas e Reino! Passados dias, participou ao Rei que podia anunciar à corte que iam ter um herdeiro. Foi a notícia recebida com grandes festas e regozijo de todo o povo. Chegado que foi o grande dia apareceu uma menina muito linda, tudo quanto de mais formoso há sobre a Terra. A Princesinha logo que nasceu começou a falar, coisa que muito, e justamente, admirou a todos. Voltou-se para as aias e disse: — Dai-me pão e carne, que eu tenho muita fome! O Rei, a Rainha e a corte não vinham a si do espanto que lhes causava um caso tão fora do natural. Cresceu a menina cada vez mais bela, mas também comendo cada vez maior quantidade de pão e carne. Era coisa tanto mais extraordinária quanto era certo que a nobre Princesa nada tinha de disforme. Bonita e elegante como era, muito admirava que pudesse comer tanto. E depois ainda tinha outra excentricidade, que a todos confundia — era certo romper todas as noites sete pares de sapatos de ferro. Como os rompia, ninguém podia adivinhar. De dia andava, tal qual as outras damas, com sapatinhos leves e finas meias de seda. Passeava pelas sumptuosas salas e galerias do seu palácio; descia, quando muito, aos admiráveis jardins que o rodeavam e quando saía a passeio era sempre em carruagens douradas, puxadas por cavalos brancos da mais fina raça. Onde poderia então gastar os sapatos de ferro a nobre herdeira do trono?! Afirmavam as aias que a Princesa todas as noites ficava dormindo, quando elas a deixavam na sua câmara e lhe corriam cautelosamente as cortinas de renda. Dormisse ou não dormisse, o caso era quê os sapatos, que à noite colocavam novos junto do leito, apareciam de manhã despedaçados. Cismavam os reis e cismava toda a corte e nenhum meio achavam para resolver o caso. Quando a Princesa da Áustria chegou à idade de procurar noivo fez o Rei um decreto dizendo: — «A Princesa, minha filha, herdeira única de todas as riquezas e honras que me pertencem, casará com o homem que no espaço de três noites descobrir onde ela gasta sete pares de sapatos de ferro. Seja Príncipe ou Cavaleiro, nobre ou plebeu, por minha coroa eu juro que será o seu esposo. Mas, igualmente jurado fica, que irá a enforcar se não poder descobrir nada durante as três noites em que ordeno seja feita a experiência». Como a Princesa era formosíssima e o reino era de tentar, apresentaram-se príncipes de todos os países, fidalgos, cavaleiros andantes, simples pagens e até homens do povo, gente enfim de todas as classes, porque é da condição humana todos desejarem ser grandes. Vinham, cada um por sua vez, passar as três noites no quarto da Princesa e, no fim, nada podiam dizer, porque nada tinham visto, pois o sono os atacava de tal modo que não lhe resistiam. Iam então a enforcar com grande mágoa de toda a gente e até mesmo do próprio Rei, que não podia revogar a sentença. Crescia o luto e o espanto por toda a parte porque assim iam perecendo miseràvelmente, em busca dum vão desejo de glória, todos os moços daquele tempo. Por fim já ninguém se arriscava a fazer a experiência e cada vez mais desanimado se mostrava o velho Rei, empenhado como estava no esclarecimento do estranho caso. Contava-se isto pelas cidades e pelos campos, em toda a parte se falava da Princesa e dos infelizes namorados que tinham ido a enforcar. Depois de sabido e ressabido por todos e de não haver já quem se apresentasse para casar com a menina, chegou a história aos ouvidos dum pastorzinho chamado José Pequeno, que vivia com seus pais numa choça nó meio de serras bravas. Ouviu contar o facto a um viandante que por acaso ali se perdeu e disse para os pais que ia ele saber onde a Princesa gastava os sete pares de sapatos de ferro. Os pais bem choraram e pediram que não fosse, mas o rapaz era teimoso. Pegou no ''surrão'', deitou-o às costas e partiu para a cidade em demanda do palácio real. Chegou à porta e disse à sentinela que queria falar ao Rei, por que estava resolvido a procurar saber como a Princesa gastava os sapatos de ferro. A sentinela teve dó dele e disse-lhe que se fosse embora, que não quisesse arriscar a sua vida, porque era certo ir a morrer. — Não importa — disse o José Pequeno — assim como assim, rapazes como eu há muitos e então se eu morrer não se perde grande coisa e, se eu viver, acaba-se com este horror. Não houve remédio se não levarem-no à presença do Rei. Este recebeu-o muito bem e disse-lhe que sim, que fizesse o que pudesse, mas que era certo ser enforcado se não descobrisse o mistério. À noite ficou no quarto da Princesa, mas, logo que deitou a cabeça no travesseiro, adormeceu tão profundamente que não pôde saber nada. De manhã perguntou-lhe o Rei: — Então que tal, José Pequeno? — Assim como adormeci assim acordei, Real Senhor! — Bem! Ainda te faltam duas noites. Chegou a hora de se irem deitar e o José Pequeno fez tudo quanto pôde para se conservar acordado, mas o sono veio com tal força que não resistiu e ficou a dormir. E esse sono foi tão pegado que nada viu nem ouviu até que de manhã o vieram chamar. Perguntou-lhe o Rei logo que ele se apresentou: — Então José Pequeno, o que sabes? — Nada, Senhor! Assim como adormeci assim acordei. — Já não tens senão uma noite! Estava o rapaz muito triste e já resignado a morrer. Saíu do palácio e foi pelos campos despedir-se do Sol, das árvores e dos passarinhos alegres. Sentou-se junto duma fonte a pensar na sua desgraça, que era a desgraça de todos, quando viu diante de si um cavaleiro de tal formosura e brilhantismo que outro igual jamais olhos humanos tinham podido contemplar. Caiu de joelhos, fascinado pelo esplendor da estranha aparição, e ouviu uma voz suavíssima que lhe disse: — Não desanimes, José Pequeno! És o primeiro que não vem por ambição mas por dever. Volta descansado ao palácio, que eu serei contigo. Eu sou o Arcanjo Miguel, que uma vez mais vai lutar com o inimigo da pureza e da bondade. Tem coragem e fé. Foi o rapaz para o palácio e deitou-se como nas noites anteriores. Fingiu-se logo adormecido, mas não estava, que o Anjo velava por ele. Levantou-se a Princesa, quando o julgou bem pegado no sono, e para o experimentar beliscou-o, picou-o, fez-lhe mil judiarias, e o rapaz, calado, a tudo resistiu. Convencida de que ele estava a dormir foi à janela e abriu-a; logo apareceu uma fantástica carruagem puxada por um cavalo-diabo, para a qual a Princesa subiu toda satisfeita. O José Pequeno, mal que a viu voltar costas, ergueu-se subtilmente, deitou o ''surrão'' para os ombros e subiu para a trazeira do carro. Voava a equipagem por cima de toda a folha, galgava precipícios, atravessava rios, pairava por sobre as mais altas montanhas, como leve pluma de ave levada pelo vento. Assim foram até chegar ao mar. Aí afogar-se-ia o José Pequeno — porque a trazeira do carro mergulhava e cortava as águas como a quilha dum vapor — se o bom Anjo lhe não tivesse dado um lenço maravilhoso que ele estendeu sobre o mar e no qual se colocou navegando por sobre as ondas como se fosse num barco. Depois agarrou-se outra vez ao carro e lá foram seguindo até chegarem à porta do Jardim de Cobre. Bateu a Princesa e perguntaram de dentro: — Quem vem lá? — É a Princesa da Áustria. — Passe a Princesa da Áustria mais a sua companhia. A Princesa não sabia que levava companhia e ficou admirada de lhe dizerem isto. Atravessaram o Jardim de Cobre, que era tudo quanto se pode imaginar de mais extraordinário! Árvores, flores, ramos, folhas, tudo era feito de cobre. O José Pequeno cortou um galhito duma árvore e meteu-o para o ''surrão''. Continuaram a andar e mais adiante bateram à porta do Jardim de Prata. — Quem vem lá? — disseram de dentro. — É a Princesa da Áustria. — Passe a Princesa da Áustria mais a sua companhia. — Ora esta — dizia a Princesa consigo — todas as noites aqui passo e nunca me falaram na companhia senão hoje. O que será isto?... Se admirado ficara o José Pequeno com o Jardim de Cobre, com o de Prata, então, nem sabia que pensar! Como passavam debaixo duma árvore cortou uma esgalhinha e meteu-a para o ''surrão''. Continuaram a jornada até chegarem à porta do Jardim de Ouro, à qual a Princesa bateu. — Quem vem lá ? — É a Princesa da Áustria. — Passe a Princesa da Áustria mais a sua companhia. O Jardim de Ouro era prodigioso! Desde o maior e mais frondoso cedro à mais humilde ervazinha, todas as plantas ali estavam representadas por um exemplar feito do mais fino ouro. A folhagem tremia ao menor sopro, qual as folhas verdes das árvores verdadeiras. A Princesa já estava habituada a ver estas maravilhas e por isso não lhes dava atenção. O carro não afrouxava a carreira e o José Pequeno tinha que se contentar com o pouco que via. De passagem pôde ainda cortar um ramo de ouro que meteu no ''surrão''. Assim foram correndo até chegarem ao inferno. Mal o carro chegou à porta, abriu-se esta de par em par, mostrando as mais negras trevas. Entraram e enquanto arrumavam o carro o José Pequeno escondeu-se atrás da porta. Vinham os ''facanitos'', ajoujados com os pratos e manjares para a ceia, e o José Pequeno empurrava-os, quebrava tudo e dava-lhes muitos sopapos, na escuridão. Eles iam a gritar para dentro: — Hi! Sempre hoje trouxeram um vento lá da Terra que dá cabo da gente! Depois da ceia veio o ''Diabo Maior'', para dançar com a Princesa. O José Pequeno deu-lhe um soco na cara. — Irra, que o vento está bravo! — dizia o Diabo esfregando a cara dorida. Começou então a bailar com a Princesa e de cada volta que davam atirava com um par dos sapatos de ferro, já rotos, para debaixo dum banco; ia o José Pequeno por trás e metia-os no ''surrão''. Quando se apanhou com os sete pares de sapatos em seu poder, pegou no banco e deu com ele nas costas do Diabo que começou a gritar para a Princesa: — Vai-te embora, vai-te embora, que hoje ninguém te pode aturar. Tornou a Princesa a meter-se no carro e o José Pequeno a esconder-se na trazeira, acontecendo na volta as mesmas coisas que na ida tinham acontecido. Quando José Pequeno se viu perto do palácio, saltou do carro e pôs-se a correr com quanta força tinha, de maneira que já estava na cama, a fingir que dormia, quando a Princesa chegou. Desconfiada, começou de o picar e beliscar, dizendo: — Dar-se-á o caso que tu me tenhas enganado?!... Mas o rapaz, nem ''chus'' nem ''bus'', tudo padeceu sem se mexer. De manhã mandou o Rei chamá-lo à sua presença e perguntou: — Então o que sabes? — Assim como me deitei, assim acordei, Senhor. — Bom, vais a enforcar. — Irei. Mas na praça mais pública e com bastante gente a assistir, é o meu último desejo. O Rei fez-lhe a vontade. Mandou armar a forca na praça mais concorrida e mandou anunciar o caso por todo o Reino. Junto da forca estavam a chorar os dois velhos, pai e mãe de José Pequeno, e a todos fazia pena a aflição dos pobres. Quando ele apareceu com o ''surrão'' às costas começou o povo a agitar-se e com mais desejo de enforcar a Princesa, causadora de tantas desgraças, do que deixar matar mais um inocente. O borborinho era muito e só se acalmou quando o José Pequeno subiu os degraus da forca e fez sinal de querer falar. Assistiam os reis, a Princesa e toda a corte numa tribuna especialmente feita. Voltou-se para lá o José Pequeno e, fazendo uma vénia, tirou do ''surrão'' o primeiro par de sapatos rotos. Mal isto viu, gritou a Princesa: — Não fales, não fales, que já me ganhaste! — Se sabes onde são gastos os sapatos, podes descer e casar já com ela — disse o Rei. — Senhor, não caso. Que ela tem contas com o Demónio. Tudo quero contar a este bom povo. Começou ele então a contar o que vira e para prova mostrou os sete pares de sapatos e os raminhos de cobre, de prata e de ouro. Quando acabou, o povo todo encheu-o de aclamações e festas e levararam-no em triunfo pela cidade, dizendo que só ele salvara o Reino de vir a ser da Princesa endemoninhada. A Princesa então disse aos pais que ia morrer. Que lhe haviam de jurar mandá-la enterrar na igreja de São Miguel e que todas as noites iria para lá uma sentinela. Os pais juraram e ela morreu. Fizeram-lhe grandes pompas no enterro mas só os pais a choraram. Desde o dia em que a Princesa foi enterrada, uma sentinela ficava à porta da igreja, mas de manhã quando iam para a render apenas lá encontravam os ossos! A gente que vivia perto dali dizia que à meia noite se ouvia um barulho infernal, as portas e janelas abriam-se e fechavam-se como se um furacão as empurrasse. Depois uma voz gritava: — Sentinela alerta! — Alerta está — respondia o pobre soldado. E logo ouviam o ruído de alguém que estivesse a comer. O terror chegou a tal ponto que não havia soldado que quisesse ir fazer guarda, senão levado à força. O povo começou a gritar e já ameaçavam de morte o Rei e a Rainha se aquilo continuasse. Deitavam-se as sortes todas as noites e a quem calhasse, fosse ele quem fosse, não tinha remédio senão ir! Assim, pois, caiu a sorte ao José Pequeno, que já então era um conde, o maior da corte. Tiveram todos um grande desgosto; o rapaz foi despedir-se dos pais, com grande mágoa, e à noite dirigiu-se para a igreja. A meio do caminho encontrou uma velhinha, que lhe disse: — Que triste vais, José Pequeno! — Pois não terei eu razão?! Vou hoje ficar de sentinela à Princesa. Portanto, morrer como os outros. Até já me lembrou de fugir! — Ah, isso é que não! Um homem nunca foge ao seu dever. Vai para a igreja e, ao dar a primeira badalada da meia noite, põe-te por detrás do altar-mor e, ouças o que ouvires, não saias de lá senão de manhã. Em vista deste conselho, foi. Quando o sino deu a primeira badalada das doze horas, aquilo não foi correr, foi voar! Num instante se meteu atrás do altar-mor. Mal a última hora tinha soado levantou-se um vento terrível na igreja, as portas bateram violentamente, as lâmpadas apagaram-se, parecia que tudo se fazia em fanicos. O José Pequeno, encolhido atrás do altar, ia sempre olhando. O que há-de ele ver no meio da igreja?! Uma nuvem branca que subia para o tecto e uma voz gritar: — Sentinela alerta!... Sentinela alerta!... Como o José Pequeno não respondeu, a voz, que metia horror, disse: — Ah, maldição, que faltaram ao juramento! O rapaz deitou a cabeça de fora e respondeu: — Não faltaram, não, que eu aqui estou! Depois sentiu correr na igreja, ouviu uivos e gritos; mas não iam onde ele estava, protegido pelo altar. Quando de manhã vieram render a guarda, esperando só encontrar os ossos da sentinela, apareceu José Pequeno todo satisfeito, causando a admiração de toda a gente. Nesse dia tornou a cair-lhe a sorte para ir fazer a guarda à Princesa. Ficou desconsoladíssimo! Quando se dirigia para a igreja de novo encontrou a velhinha: — Então, José Pequeno, vais hoje tão triste! Parece que ainda estás mais desanimado do que ontem! — Desanimado vou, senhora. O caso não é para menos! Se visse a Princesa a bater os dentes com fúria, para me comer! Até me lembrei de fugir. — Não fujas. Vai ao teu destino, que não é bom fugir-lhe. Olha, esta noite esconde-te por detrás do painel das almas e tem coragem! José Pequeno foi e, ao dar a primeira badalada da meia noite, correu a esconder-se onde a velha tinha dito. Quando as doze horas cairam, o barulho foi tal que tudo parecia vir abaixo; depois a mesma voz gritou: — Sentinela alerta!... Sentinela alerta!... Ah, maldição, que faltaram ao prometido! Respondeu José Pequeno: — Não faltaram, não, que eu aqui estou! Mas a Princesa por mais que fizesse não lhe podia tocar, porque estava protegido por maior poder. E no fim de muito gritar e barafustar, começou a subir numa nuvem branca e desapareceu. De manhã todos ficaram admirados vendo o José Pequeno cheio de vida, como na véspera o tinham deixado. Levaram-no em triunfo por toda a parte, fizeram-lhe grandes festas e os reis abraçaram-no cheios de alegria. Tornaram a deitar sortes para ver quem ficaria de sentinela à Princesa e a sorte de novo caiu no rapaz. À noite, lá foi ele muito desesperado para a igreja e, no meio do caminho, encontrou a mesma velhinha. — Então, José Pequeno, tornas a ir para a igreja? — Que remédio tenho eu! Hoje é que lá fico com certeza! — Não ficarás se fizeres o que eu te disser. — Então o que é? A senhora é que me tem valido, mas hoje não sei como será! — Hás-de sair-te bem, não desanimes. Olha, vai buscar um jarro com água e uma toalha e esconde-te no altar de Nossa Senhora. Ainda que chamem por ti não apareças; mas, quando te pedirem água, estende o braço e deita a do jarro e, quando pedirem uma toalha, atira a que levares. Depois podes aparecer e farás o que quiseres. O rapaz voltou ao palácio, para levar o que a velhinha tinha dito, e depois dirigiu-se à igreja. Ao dar da meia noite foi-se pôr no sitio indicado e ouviu tal barulho que ia ficando doido de susto. Depois a voz gritou: — Sentinela alerta!... Sentinela alerta!... Ah, maldição, que faltaram ao juramento! Depois de muito gritar e chorar, disse a Princesa: — Ai que sede que eu tenho! Quando o José ouviu isto, deitou o braço de fora e entornou a água do jarro. Ouviu em baixo uma pessoa a beber e depois a lavar-se. — Agora só queria uma toalha! O rapaz atirou a toalha e ouviu que tremiam de frio; olhou para baixo e viu a Princesa mais bonita do que nunca e viva como a tinha conhecido. Desceu então do esconderijo, embrulhou-a no seu próprio capote e foi sentar-se com ela nos degraus do altar-mor. Ali ficaram à espera que amanhecesse e ela daí a pouco adormeceu. Quando de manhã vieram saber do José Pequeno e o encontraram na companhia da Princesa, viva e formosa como era, foi um alarido por toda acidade! Correram a chamar os reis — que não podiam crer em tanta felicidade! Soube-se então que a Princesa da Áustria, nascida por parte do Diabo, nunca estivera morta e sim encantada e só por encanto ela podia fazer tanta maldade. Vencido o inimigo, ficou a menina livre e feliz. O José Pequeno casou com ela. Foram reis daquele grande país e sempre muito bons e amados pelo povo. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|A Princesa da Áustria]] tvoxvbz67qpwlg0pmagv7aovlvlw0q1 Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/Os dois almocreves 0 256409 560262 559693 2026-08-23T08:12:12Z Mt516 43586 560262 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = Os dois almocreves | anterior = [[../O esperto/]] | posterior = [[../A mão de finado/]] | notas = }} '''<big>OS DOIS ALMOCREVES</big>''' ERA uma vez dois almocreves, que iam de seu caminho por uma linda manhã muito fresca, em que alegres os sinos repicavam para a missa. E o mais novo, que se chamava Isidoro, disse: — Olha lá, compadre, nós devemos ir à missa. — Para quê? Não sejas parvo! — Olha que devemos!... E devemos não devemos, a questão ia-se azedando, até que retorquiu o mais velho: — Para tirarmos as dúvidas, vamos perguntar à primeira pessoa que encontrarmos. Se ela disser que sim, tiras-me os olhos e ficas com o macho e com a carga de azeite. Se disser que não, tiro-tos eu a ti e fico com o teu macho e o teu azeite. — Pois sim. Vamos lá a ver quem tem razão. E os sinos continuavam a repicar alegremente e o bom do Isidoro a sentir cada vez maior o desejo de entrar numa igreja muito asseada que via no cimo dum monte. Parecia que na sua alma também tilintavam sinos de alegria e revoadas de orações lhe vinham aos lábios. Iam andando sem ninguém encontrarem a quem fazer a pergunta, até que numa encruzilhada deram de cara com um bonito rapaz muito bem vestido, de veludo encarnado, chapéu de plumas, espada reluzente, montando um bom cavalo ricamente ajaezado. Os dois almocreves adiantaram-se: — Senhor cavaleiro — disse o mais velho — nós queríamos fazer-lhe uma pergunta. — Então que querem vocês? — Eu digo que não devemos ir à missa e este meu companheiro diz que sim. Quem tem razão? — Tu é que tens razão, não devem ir à missa. A vida é curta, não se pode gastar tempo com bagatelas. E o cavaleiro partiu, a rir entre dentes. Isidoro tremeu de ver aquele riso tão cruel, mas nada dizia, enquanto o companheiro todo contente já se preparava para lhe tirar os olhos. E os sinos a tocarem numa alegria, numa pressa, que até os passarinhos parecia que iam voando para a igreja que alvejava no cimo do monte. Isidoro chorando pediu que não valesse a resposta do cavaleiro que era moço e de pouca experiência. Iriam mais adiante a ver se encontravam pessoa competente para decidir a aposta. Foram andando, andando, até que encontraram um negociante, que vinha da sua feira, montado numa gorda mula, os alforges cheios de dinheiro, cantando satisfeito. O almocreve chegou-se logo ao pé dele, de chapéu na mão: — Senhor, queria fazer-lhe uma pergunta. — Dize lá, homem; à vontade. — Como é hoje dia de missa, o meu companheiro diz que devemos lá ir e eu digo que não. Fizemos uma aposta e o senhor é que há-de decidir. — Não devem ir; não sejam brutos. Eu também nunca lá vou e estou bem rico e bem gordo. E, dando de esporas à mula, foi-se, cantando com uma voz tão fina, que Isidoro ficou a tremer como se estivesse enterrado em neve. — Compadre — voltou ele a dizer — não me tires ainda os olhos, deixa só passar outra pessoa a quem perguntemos. O homem não estava lá muito pelos ajustes, mas por fim acedeu. Foram andando, andando, até que encontraram um velho de barbas brancas, vestido com um hábito de frade. Caminhava muito devagar, passando as contas dum rosário. Isidoro, todo contente, foi quem falou desta vez: — Meu Irmão, eu queria saber se num dia assim de festa como é hoje, nós podemos passar sem missa. Este meu companheiro diz que sim, eu digo que não, mas vossa senhoria é que há-de decidir. O velho levantou a cabeça e, olhando fito para o pobre Isidoro, disse com ar muito carrancudo: — Quando se tem que fazer, deixa-se a devoção pela obrigação. — Mas, senhor, a minha mãe disse-me que era obrigação que Deus nos deu irmos à missa em todos os domingos e dias santos. — Obrigação é só para os padres. Enquanto estivesses na missa, outros viriam tirar-te a freguesia. E foi-se andando a mastigar fingidas orações, enquanto o primeiro almocreve se ficava a rir das lágrimas do desgraçado Isidoro. Surdo a lamentos e cego a tanta amargura não quis saber de nada, puxou da faca e arrancou-lhe os olhos. Isidoro lamentava-se tristemente: — Ai compadre, se fosse eu não te fazia isto! Ainda que ganhasse não te tirava a luz dos olhos, que é tudo que no mundo há melhor! O outro nem já o ouvia. O que quis foi apanhar-se dono dos machos e do azeite e lá se foi, estrada fora, assobiando alto, de contente. O desgraçado Isidoro não se cansava de chorar a sua triste sorte. Chamava em altas vozes o companheiro, mas ninguém lhe respondia. No campo deserto apenas se ouviam os sinos, que na igreja branca do cimo do monte repicavam alegremente, tocando às ''Ave-Marias.'' Isidoro ajoelhou pedindo protecção a Deus. Depois, mais consolado, sentou-se debaixo duma árvore, matou a fome com um bocado de pão que trazia no bolso, e às apalpadelas foi procurando um lugar onde se abrigasse do ardor do sol e do frio da noite. Encontrou asilo debaixo de uma fraga. Deitou-se, chorando sempre a sua triste sorte, e tanto chorou, tanto se lamentou, que por fim adormeceu. Era alta noite quando acordou sobressaltado, ouvindo grande barulho de vozes e de gritos sobre a fraga onde estava escondido. Quando acalmou o tumulto ouviu uma conversa, percebendo logo que eram os demónios que ali se reuniam a contar o mal que nesse dia tinham feito à humanidade. Cada um vinha por sua vez enumerar a lista dos seus malefícios, e quanto maiores eram maior era a alegria de todos. O pobre Isidoro estava transido de medo, não se cansando de rezar todas as orações que sabia. Qual não foi o seu espanto ouvindo um que dizia: — Eu obriguei dois almocreves a ficarem sem missa e um a tirar os olhos ao outro. Mas foi preciso vestir-me de cavaleiro, de rico mercador e de frade porque estava teimoso o rapaz. Por fim sempre ficou cego e roubado. Agora o que ele não sabe é que debaixo desta fraga encontraria o remédio para a sua cegueira. Esfregando os olhos com uma erva que nesta lapa existe ficaria logo bom. — E tu que fizeste? — perguntou o maioral ao outro. — Eu tirei a água a Lisboa. Meti uma grande pedra no chafariz e como não sabem onde está o mal tudo se há-de desesperar com sede. E haverá então boa colheita para nós. — E tu? — Eu meti-me no travesseiro da Rainha e tanto a pico, tanto a faço sofrer, que ela há-de morrer desesperada e lá a teremos no Inferno. Isidoro, que isto ouviu, deixou-se estar muito calado, fazendo-se muito pequeno, a um canto, estarrecido de medo. Logo que a manhã rompeu, o que ele conheceu pelo cantar dos passarinhos, tratou de procurar a erva e de esfregar os olhos com ela. Imediatamente ficou bom! Que alegria a do pobre rapaz em poder contemplar o céu azul, o campo verde, as flores que se alevantavam tão lindas na frescura da manhã! Caindo de joelhos e chorando de felicidade, agradeceu a salvação da sua alma e a vista, que assim milagrosamente tinha recobrado. Os nossos inimigos fazem-nos bem muitas vezes, querendo fazer-nos mal! Se o nosso coração é puro e a nossa consciência está livre, Deus protege-nos obrigando os maus a descobrirem a sua maldade. Logo que se viu outra vez com vista, era tal a satisfação que sentiu o bom almocreve que não fazia senão cantar e saltar pela estrada fora. Foi andando até que chegou a Lisboa. O seu primeiro cuidado foi pedir água. Negaram-lha, na maior consternação. Havia dois dias que tinha secado o chafariz. Se continuasse assim morreria tudo à sede. Foi o que o Isidoro quis ouvir. Dirigindo-se logo ao Governador, ofereceu-se para de novo fazer correr a água. Aceite o oferecimento foi ao chafariz, tirou a pedra que lá tinha posto o demónio e logo a água correu abundante e cristalina. O povo, cheio de reconhecimento ao seu salvador, com festas e presentes, lhe deu muito dinheiro. Foi dali o bom do Isidoro ao palácio real e pediu para falar à Rainha. Disseram-lhe que não podia ser pois que ela estava tão doente que nem de dia nem de noite sossegava, não fazendo senão gritar. Teimou ele em pedir que o deixassem entrar que a curaria. Preveniram o Rei, que, sabedor do bem que ele tinha feito à cidade, mandou ordem para o deixarem subir. Quando chegou ao quarto da Rainha doente, pediu uma braseira com brasas bem acesas e uma caldeirinha com água benta. Tirou o travesseiro da cama e, pondo-o sobre as brasas, deitou-lhe por cima a água benta. Levantou-se um fumo muito espesso que encheu o quarto, e ouviu-se um estrondo tão grande que todas as janelas tremeram. Correu tudo à cama e viram a Rainha já boa, a rir muito satisfeita, como se lhe tivessem tirado de sobre o seu corpo um grande peso. Vestiu-se logo e andava pela casa tão boa que ninguém diria que era a mesma. O Rei, contentíssimo, deu muito ouro ao Isidoro, encheu-o de presentes e queria que ele ficasse no palácio. Mas como não era ambicioso, por cousa nenhuma do mundo queria abandonar a sua terra e a boa mãe que lá o esperava. Comprou um cavalo e ei-lo aí vai pela estrada fora, de volta à sua querida aldeia, prometendo a si mesmo nunca mais de lá sair e não faltar a missa nenhuma, por mais que lhe dissessem. Fazendo os seus planos de vida futura, todo o caminho lhe pareceu curto. Compraria uma casa com a sua horta pegada. Os pais e os irmãos, todos teriam onde se recolher. Depois casaria com a sua conversada. Teriam filhos e todos seriam felizes. Ora, no meio do caminho, quem há-de ele encontrar? O almocreve seu antigo companheiro, com os machos e a competente carga. Admirado ficou ele de ver Isidoro com vista e tão bem posto. Não se cansava de lhe fazer perguntas. O Isidoro não era de ressentimentos e entendia na sua simplicidade — melhor que outros com muita esperteza — que as criaturas não têm direito de castigar. Contou tudo o que lhe tinha acontecido, e a maneira como recuperou a vista e como conseguira a fortunazinha que levava para casa. O outro não quis saber mais; entregou-lhe os machos e foi-se pôr debaixo da fraga para ouvir os demónios que assim davam ocasião a ganhar-se tanto dinheiro. Quando chegou a noite lá estava atento e à escuta. Primeiro ouviu um barulho infernal; depois, os mesmos demónios que falavam. Disse o primeiro: — Antes de mais nada, vamos ver debaixo da fraga se lá está alguém. Por causa daquele maroto que nos ouviu, apanhei uma escaldadela de brasas e água benta, que ainda tremo. E nunca mais posso entrar no quarto da Rainha. — E eu perdi o meu trabalho, porque a água já corre outra vez em Lisboa. — E eu ensinei-lhe sem querer acurar-se da cegueira. — Vamos ver debaixo da fraga! — Vamos, vamos! — gritaram vozes de todos os lados, que era de atordoar. O almocreve quis fugir, mas foi logo agarrado e deram-lhe tanta pancada, fizeram-lhe tais tratos, que no outro dia foi encontrado no fundo dum vale, já morto e tão negro como negra era a sua alma. Também ninguém teve pena dele. Era o castigo que merecia pelo mal que quis fazer ao companheiro, o bom do Isidoro. Esse lá foi para a terra com toda a sua fortuna. Foi muito feliz toda a vida. Rodeado de filhos e netos, sempre temente a Deus, alegre e caridoso para todos, morreu muito vèlhinho, deixando muitas saudades na terra. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|Os dois almocreves]] t19y81giyh2kb468kweo7a09z37hctg Página:"Olha a terra, meu amigo, como é que ela é?".pdf/6 106 256613 560184 560087 2026-08-22T16:16:49Z Erick Soares3 19404 560184 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rh||{{smaller|MARIA DE FÁTIMA ROSA, ISABEL GOMES DE ALMEIDA}}|}} {{rule|40em|align=right}}</noinclude>''Tradução''<ref>Como referido acima, seguimos a transliteração de NOVOTNY [''Etana Epic''). Não foram, por isso, consultadas pelas autoras, ou estudadas, as tabuinhas originais, mas apenas a edição citada.</ref> (por Maria de Fátima Rosa) {{dhr}} Tab. I {{dhr}} <poem> {{nota lateral esquerda|1}}Eles planearam uma cidade [e fizeram-na perfeita]<ref>NOVOTNY [''Etana Epic'', p. 15) propõe uma reconstrução da frase recorrendo ao verbo ''s̄uklulu'', no perfeito, com o sentido de “to perfect the appearence of an artifact”, “to complete a construction” (''CAD'' Š/3, p. 221).</ref>, Os [grandes] deuses lançaram [as suas fundações), Eles planearam a sublime<ref>O adjetivo que qualifica a cidade de Kiš, ''ṣīru'', tem o sentido de “first-rank”, “august”, “excelent” (''CAD''Ṣ, p. 210).</ref> (Kiš e fizeram-na perfeita], Os [grandes] deuses lançaram as suas fundações. {{nota lateral esquerda|5}}Os Igigi<ref>O termo Igigi refere-se a um grande conjunto de deuses do panteão sumério-acádico que surgem ora como opostos ora como complementares a outro grupo divino, os Anunnaki, considerados, nalgumas narrativas, como mais importantes Neste caso, e dado o contexto da narrativa, parece-nos que os Igigi estão a agir de forma complementar, fortalecendo as fundações da cidade idealizada pelos “grandes deuses”, os Anunnaki.</ref> fortaleceram a sua alvenaria de tijolo. {{gap}}“Que [o rei] seja o seu pastor, {{gap}}Que Etana seja o seu construtor [...] {{gap}}O bastão<ref>A palavra ''s̄ibirru'' utilizada nesta linha contrasta com aquela que adiante, na linha 15, é escolhida para designar o ceptro real (GIŠ PA = ''haṭṭu'') Embora também possa tomar este sentido, pensamos que, neste caso concreto, a tradução mais viável é “bastão” ou “cajado”, artefacto também ele associado à governança, mas que espelha de forma mais objetiva a associação metafórica entre o escolhido dos deuses e o pastoreio.</ref> [...]” Os grande Anunnaki<ref>Tal como acima referido, os Anunnaki representavam um conjunto de divindades, consideradas, nalgumas composições, como mais importantes que os Igigi. Ao contrário do que acontece nesta narrativa, no ''Mito de Atra-Hasîs'', por exemplo, estes dois grupos aparecem como opostos. Nas linhas inaugurais da primeira tabuinha é descrito como os Anunnaki exercem um poder quase despótico sobre os Igigi, forçando-os a trabalhar para si (vide VON SODEN, W – Die Igigu-Götter in altbabylonischer Zeit und Edimmu im Atramḫasīs-Mythos In CAGNI, L , MÜLLER, H -P ; VON SODEN, W., ed – ''Aus sprache,'' ''geschichte und religion babyloniens.'' Naples, 1989, p 339-349) Esta situação vai então conduzir à sua revolta, que se afirma como o motivo para a decisão divina de criar a humanidade, já que os seres humanos serão os substitutos dos Igigi nas tarefas laborais. Veja-se a composição em DALLEY – ''Myths from Mesopotamia'', p 1-38.</ref>, [aqueles que fixamos destinos], {{nota lateral esquerda|10}} Sentaram-se e ponderaram a sua decisão [sobre o país]. Os criadores do mundo<ref>O termo ''kibrātu'' aparece normalmente acompanhado por ''arba’im'' (“os quatro cantos [do mundo]”). Quando sozinho, como é o caso, pode tomar o sentido de “world” (''Concise Dictionary of Akkadian'' [''CDA''] 15 6). Note-se que, em textos sumérios, como os do período de Ur III, encontramos recorrentemente a fórmula ''an-ub-da límmu-ba'', com o sentido de “four world regions” (a título de exemplo, vide GEORGE, Andrew, ed – ''Cuneiform royal inscriptions and related texts in the Schøyen'' ''Collection'' Maryland – Bethesda: CDL Press, 2011, p 49-57).</ref>, os que estabelecem a obra criada. Por ordem de todos, os Igigi [decretaram um festival para a população]. Eles (ainda) não tinham estabelecido [um rei sobre a numerosa população]. Nesse tempo, o turbante [(ainda) não tinha sido reunido, nem a coroa], {{nota lateral esquerda|15}}Nem o ceptro<ref>Vide nota 22.</ref> tinha sido [incrustado] com lápis-lazuli<ref>''kubs̄u'' (“turbante”), ''mēanu'' (“coroa”, “tiara”), ''haṭṭu'' (“ceptro”) correspondem naturalmente a símbolos do poder real.</ref>. Do mesmo modo, não tinha sido criado o [trono<ref>À letra, a palavra ''parakku'' deve ser traduzida como “estrado”, referindo certamente a plataforma onde ficaria o trono real.</ref>] no mundo conhecido. </poem> {{nop}}<noinclude>{{rule}} {{smallrefs}} {{left|'''170'''}}</noinclude> ingp2zjhhrwi67ec0x28itzuqm7xtaf Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O soldado 0 256633 560264 560109 2026-08-23T08:13:18Z Mt516 43586 560264 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O soldado | anterior = [[../A Princesa Macaca/]] | posterior = [[../Os meninos da estrela de ouro na testa/]] | notas = }} '''<big>O SOLDADO</big>''' ERA uma vez um soldado, que, tendo acabado o seu tempo de serviço, recebeu a baixa e meteu-se a caminho de volta à sua terra. Ora o bom do soldado não tinha uma riqueza por aí além; levava apenas no bornal um pão de munição e quatro vinténs. Mas o principal bem que tinha era a alegria que não lhe faltava nunca. Ia no seu caminho, muito contente da sua vida, quando encontrou um pobre que lhe pediu esmola. — Eu não sou muito rico, homenzinho — disse-lhe ele — mas enfim, metade do meu pão e um vintém sempre lhe servirão de alguma coisa. O pobre agradeceu muito e o soldado continuou o seu caminho. Mais adiante encontrou outro pobre, ainda mais doente e velho que o primeiro. O soldado teve muita pena e deu-lhe outra metade do pão e um vintém. Mais adiante, terceiro pobre: — Mau! Isto já me parece história!... — resmungava ele. Mas, como era muito bom rapaz, logo que o pobre lhe pediu, deu-lhe os dois vinténs que ainda tinha. Agradeceu muito o pobrezinho e disse-lhe: — Em recompensa das esmolas que me tens dado, fica sabendo que para o teu bornal irá tudo que desejares. O soldado desatou a rir, perguntando: — Pois quem és tu que te mostras tão generoso para os outros tendo tão pouco para ti? — Eu sou S. Pedro, que me disfarcei nos três pobres que encontraste. — Mas, para quê? — Lá no Céu corre como certo que os soldados são muito maus e então vim à Terra para experimentar o primeiro. — Vá lá que me encontraste a mim, bom S. Pedro — retorquiu a rir o soldado. — Generosos somos todos, mas eu sou um pródigo. Por isso fiquei sem nada. — Como foste caridoso, deixa estar que nada te há-de faltar no bornal. Mal acabou de dizer isto desapareceu o Santo, e o soldado ficou a rir imaginando que este último pobre tinha estado a fazer troça dele. Continuou o seu caminho até que chegou a uma terra onde havia uma grande festa. Todas as casas estavam cheias de forasteiros. Não havia um canto onde um pobre se estendesse nem um caldo que não fosse pago por bom dinheiro. Ora o soldado tinha muita fome e um tal sono que nem se podia ter em pé. Chegou à hospedaria e pediu que ao menos o deixassem estar na cozinha sentado num banco da lareira. Tiveram dó dele e deixaram-no entrar. Ele descansava as pernas, mas a fome é que não descansava. Com o cheiro dos bons petiscos que se cozinhavam, ainda mais a fome aumentava. Mas, como não tinha dinheiro, não se atrevia a pedir nada. Lembrou-se do pobre e disse com os seus botões: — Deixa cá ver se ele mentiu!... Estavam umas perdizes no espeto a assar, muito louras, muito apetitosas, já prontas para serem servidas aos hóspedes ricos, e vai ele: — Perdizes para o meu bornal! Imediatamente, com grande espanto da cozinheira, desapareceram as perdizes. Em vista disto, ficou o soldado acreditando que na verdade estivera com S. Pedro, e já para a ceia não se contentou só com as perdizes. Viu um tabuleiro de pães e desejou um dentro do bornal. Depois uma garrafa de vinho do melhor que houvesse na adega. Começou então a lamentar-se que tinha muito sono, que pelo amor de Deus lhe dessem um quarto, que já não podia consigo. Tanta lamúria fez, que aborrecido de o ouvir o hospedeiro acabou por lhe dizer: — Olhe, eu tenho aí um quarto, mas não lhe levo dinheiro por ele se você lá ficar. — Oh, senhor!, isso é uma grande fortuna e uma grande esmola que me faz. — Pois escusa de agradecer porque não lhe faço favor nenhum. Anda o medo no tal quarto, e alguns hóspedes que lá têm ficado aparecem mortos de manhã. — Um soldado nunca tem medo; dê-me o senhor o quarto e o resto fica por minha conta. Ensinaram-lhe para onde havia de ir e deram-lhe uma luz. Fechou a porta à chave, comeu as perdizes, o pão e o vinho que encontrou dentro do bornal, deitou-se e adormeceu logo, mais feliz do que um rei. Mas, daí a pouco, qual dormir nem qual história. Eram picadas, bofetadas, pancadaria, um tal barulho no quarto que não podia pregar olho. Acendia a luz e nada via; logo que a apagava sentia a mesma coisa! Por fim aborreceu-se e gritou: — Tudo para dentro do meu bornal! O barulho acabou, como por encanto, e ele dormiu dum sono até de manhã. Quando saiu do quarto todos ficaram admirados e o dono da hospedaria foi-lhe perguntar se não tinha visto nada. — Ver, não, mas ouvi um barulho infernal e senti beliscões, bofetadas e picadelas. Mas daqui em diante escusam de ter medo, porque todo o mal vai dentro do meu bornal. Ficou o hospedeiro todo contente, abraçou o soldado, deu-lhe de almoçar e ofereceu-lhe o dinheiro que quisesse. Dali foi o soldado a uma forja e disse ao ferreiro: — Ponha este bornal na bigorna e dê-lhe com o malho com quanta força tiver. O homem assim fez, descarregou o martelo umas poucas de vezes, e depois abriram o bornal e saiu de lá uma nuvem de diabos, uns com as pernas partidas, outros os braços, outros a cabeça, todos a gritar contra o soldado, que ria como um perdido. Dali foi andando, andando, até que chegou à sua terra, e lá viveu muitos anos feliz como ninguém. Nada lhe faltava porque tudo quanto desejava ia encontrar dentro do bornal. Mas, passado muito tempo, aborreceu-se de viver cá no Mundo e resolveu ir para o Céu. Pegou no bornal e foi andando até que encontrou dois caminhos. Um era muito custoso de subir, cheio de pedras e espinhos. As silvas tomavam-no todo. Os que conseguiam passar ficavam com as carnes ensanguentadas, cansados e miseráveis. Era o caminho do Céu. O outro caminho era todo florido e a descer, uma bela estrada sem pedras nem espinhos até chegar ao Inferno... O soldado não quis saber de mais nada, andou por ali abaixo e foi bater à porta da casa do Diabo. Abriram-lhe logo, pois há sempre lugar para os que querem entrar. Mas o guarda-portão mal o viu gritou para dentro: — É o soldado com o seu bornal. Os diabos fizeram um alarido medonho e fecharam-lhe a porta na cara. — O maroto que lhes tinha batido — gritaram — que fosse pra onde quisesse, que lá no Inferno é que não entrava! De mau humor ficou o soldado, mas enfim, não teve outro remédio senão pegar no bornal e com todo o custo subir o caminho do Céu. Chegou à porta e bateu; abriu S. Pedro o postigo a ver quem era, e disse logo: — Ah! tu por cá? Pois vai por onde vieste, que no Paraíso é que não entras. O soldado, que ouvia já os cantos dos anjos e via o esplendor de mil sóis e perfumes deliciosos lhe vinham como princípio de felicidade eterna, respondeu: — Ora essa, Senhor S. Pedro! Então eu não hei-de entrar no Céu? Que mal vos fiz eu? — Que fizeste?! Foste primeiro ao Inferno antes de vir aqui! — Lá isso é verdade, Senhor S. Pedro, mas para que arranjaram para cá um caminho tão mau? Foi por ver o caminho muito difícil de subir que procurei outro mais suave. — Foste pecador e preguiçoso mesmo depois de deixar o Mundo. Não te arrependeste. — Arrependi-me, depois. Não estou eu aqui? — Pois sim, sim! Mas cá é que não entras! — Então sento-me aqui fora, porque estou muito cansado. Daí a pouco tornou a bater. S. Pedro abriu o postigo e perguntou: — O que queres? Já te disse que te não deixo entrar cá dentro. — Não é isso, Senhor S. Pedro. É que não tenho onde pôr o meu bornal e quero pedir-lhe o favor de mo guardar aí. S. Pedro consentiu e recebeu o bornal pelo postigo. Mal o soldado apanhou lá dentro o bornal, disse: — Desejo-me dentro do meu bornal! Transpôs imediatamente a porta fechada a sete chaves e encontrou-se no Céu. S. Pedro achou-lhe muita graça, abraçou o soldado, que lá ficou para sempre na bem-aventurança. Quando a nossa alma é boa, ainda quando os procuremos, fogem de nós os maus. Quando praticamos o bem, ainda que um momento abandonemos o seu caminho, é possível reencontrá-lo. O bem não morre e transforma-se em alegrias eternas para o nosso coração. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|O soldado]] a5eq4j8n8day9p5otknhp5oasdbki6j Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O figuinho da figueira 0 256646 560265 560125 2026-08-23T08:13:46Z Mt516 43586 560265 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O figuinho da figueira | anterior = [[../Os meninos da estrela de ouro na testa/]] | posterior = [[../Os sapatinhos de setim/]] | notas = }} '''<big>O FIGUINHO DA FIGUEIRA</big>''' HAVIA um homem e uma mulher casados, que tinham uma filha de quem era muito amigos. Com eles vivia a mãe da mulher, que era uma velha e rabujenta feiticeira, e por criado tinham um preto. Perto daquela terra fazia-se uma feira muito importante, e o homem e a mulher, que tinham que dar ordens à sua vida e não eram ricos, foram para lá fazer o seu negócio, levando o preto para os ajudar. A menina ficou em casa com a velha, e os pais antes de sair recomendaram-lhe muito que a não deixasse ir só nem para a rua nem para o quintal, que podia acontecer alguma desgraça, e então que a guardasse muito bem. Mal a velha os viu pelas costas, foi ao quintal contar os figos duma figueira que lá havia, e depois pôs a menina por baixo, dizendo que a matava se lhe faltasse algum. A menina enxotava os pássaros quanto podia, mas lá veio um mais atrevido que não se importou com os seus gritos e roubou um figo. Veio a avó contá-los, e, dando por falta daquele, abriu uma cova muito funda, e chamou a pequenita para a pentear. Quando a criança estava quase a dormir, atirou-a para a cova, deitou por cima terra e pedras e foi para casa. Quando os pais da menina vieram e perguntaram por ela, respondeu a velha que não sabia, que tinha fugido e que a não pudera agarrar. Procuraram-na por todas as casas da vizinhança, perguntaram a toda a gente se a tinham visto, mas ninguém lhes deu conta dela. Passaram-se os dias e os meses na maior aflição, até que uma tarde em que andava no quintal a apanhar relva, o preto viu uma roseira nova debaixo da figueira e começou a cortar uma flor. Ouviu logo uma voz muito linda que vinha debaixo da terra e dizia: <poem> Ó preto, ó meu pretinho, Não me cortes o cabelinho, Minha mãe mo penteou, Minha avó mo enterrou, Pelo figo da figueira Que o passarinho levou. </poem> O preto correu a casa muito admirado, dizendo aos patrões que a menina não aparecia, mas que lhe ouvira a voz debaixo da terra dizer: <poem> Ó preto, ó meu pretinho, Não me cortes o cabelinho, Minha mãe mo penteou, Minha avó mo enterrou, Pelo figo da figueira Que o passarinho levou. </poem> A velha não fazia senão gritar que estava maluco e que não acreditassem no que dizia. Mas os pais não fizeram caso e foram ao quintal. Pegou o criado na rosa e logo ouviram a mesma voz: <poem> Ó preto, ó meu pretinho, Não me cortes o cabelinho, Minha mãe mo penteou, Minha avó mo enterrou, Pelo figo da figueira Que o passarinho levou. </poem> Trataram logo de abrir a cova e encontraram a menina deitada, uma fontinha a correr ao lado, Nossa Senhora sentada à cabeceira, e anjos, com velas acesas, rodeando o corpo. Da cova saía um tão doce cheiro a rosas, que parecia um jardim do céu. Os pais e o preto caíram de joelhos e com muitas lágrimas pediram à Senhora que fizesse acordar a menina. Os anjos do Senhor não queriam, porque ela era santa e no céu era o seu lugar. Mas Nossa Senhora, que sabe o que é ter filhos, teve muita pena dos pais, ressuscitou a menina e entregou-lha, para que bem a criassem e guardassem. Dali foram para casa para entregarem a velha à justiça, mas já ela se tinha justiçado por suas mãos, pois se deitara duma janela abaixo. E veio logo o Demónio que a arrebatou em corpo e alma para o mais terrível dos infernos. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|O figuinho da figueira]] rfhfecz8ca7ggcc5cnhnka4wzmzxbmz Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O bom serviço recompensado 0 256649 560266 560132 2026-08-23T08:14:13Z Mt516 43586 560266 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O bom serviço recompensado | anterior = [[../O gosto dos gostos/]] | posterior = [[../História da Princesa adormecida ou das treze fadas/]] | notas = }} '''<big>O BOM SERVIÇO RECOMPENSADO</big>''' NUMA aldeia muito pobre, lá das montanhas, havia uma viúva que tinha um filho. Viviam miseràvelmente, apenas do que a terra produzia, e o rapaz aborreceu-se de ter fome e disse para a mãe: — Eu vou correr mundo e vossemecê espera-me com paciência, que eu, se fizer fortuna, cá a venho buscar. Se morrer, a minha mãe se resignará porque não tem outro remédio. A viúva chorou muito e lembrou-lhe o desamparo em que ficava, mas o rapaz tinha aquela ideia tão metida na cabeça que não houve meio de o dissuadir. Pegou no seu bordão de viagem e pôs-se a caminho. Depois de muito andar, passou por um sítio ermo e triste e viu um burro morto e de roda do cadáver um leão, uma águia, um galgo e uma formiga. Os bichos, mal o viram, chamaram-no para lhes fazer a partilha da presa. O homem, que apesar de se inculcar rei da criação tem de alguns súbditos um medo atroz, ainda quis fugir. Mas depois pensou — também o que lhe vale é saber pensar! — que o galgo tinha boas pernas para o agarrar e o leão e a águia não são inimigos de que se possa rir. A formiga é que lhe não metia medo, apesar de também saber dar a sua mordidela bem boa. Em vista de tais raciocínios fez das tripas coração e lá foi ter com os quatro companheiros para lhes fazer as partilhas que desejavam. Com tal acerto se houve que os animais ficaram satisfeitíssimos — o que é raro acontecer entre os homens quando há negócios semelhantes — e todos o quiseram presentear. O leão deu-lhe um cabelo da sua juba e disse-lhe: — Quando te vires aflito, pega neste cabelo e dize: ''ai de mim, leão!'' A águia deu-lhe uma pena e disse também: — Pois quando o leão te não possa valer, grita: ''ai de mim, águia!'' O galgo, dando-lhe um bocadinho do seu pêlo, disse-lhe: — Pois quando o leão e a águia nada possam, chama por mim dizendo: ''ai de mim, galgo!'' — que eu talvez te possa servir. E a formiga, não lhes ficando atrás em generosidade, deu uma das suas perninhas ao rapaz e disse: — Pois quando nenhum deles te possa valer, chama: ''ai de mim, formiga!'' — e verás que eu te salvarei. Partiu o rapaz, depois de ter agradecido aos animais, e foi andando, andando, por caminhos cada vez mais tristes e solitários, até que chegou a um palácio riquíssimo, rodeado de jardins, os mais belos, mas tão cerrados e gradeados que não era possível lá entrar. Olhou de longe para o palácio e viu assomada a uma das suas janelas uma menina, linda como os amores. Querendo vê-la de perto e mesmo chegar junto dela, se possível fosse, murmurou: ''ai de mim, águia!'' Imediatamente lhe apareceu a rainha das aves, que lhe perguntou o que queria. — Transformar-me num pássaro e chegar junto daquela menina — respondeu ele. — Faço-te o que pedes, porque nada há mais fácil, mas, toma bem sentido, olha que a menina é uma Princesa guardada por um Gigante, que ao nascer a roubou do palácio dum poderoso Rei, que é o seu pai. Depois de estares lá dentro, não terei poder para te livrar de qualquer perigo. — Embora! Eu quero ver a Princesa ou morrer, pois a sua formosura me encanta. A águia transformou-o num bonito pássaro e fugiu. Mal o rapaz se viu feito ave e com asas para voar, como se o espaço fosse todo seu, ficou muito satisfeito e num momento se pôs junto da menina, que era tão linda como as estrelas. — Que gentil passarinho ! — disse ela para o Gigante. — Quem mo dera ter para o meter numa gaiola. O Gigante deitou-lhe a mão e agarrou-o logo. Foi posto numa gaiola de ouro, que colocaram no quarto da Princesa. O rapaz não se apoquentou. Quando chegou a noite disse muito baixinho: ''ai de mim, formiga!'' Apareceu-lhe logo a rainha das formigas que perguntou o que desejava. — Sair desta prisão. — Nada mais fácil. E num momento o transformou em formiga, como era preciso para poder sair das apertadas grades da gaiola. Mal pôs o pé no chão, fez-se logo outra vez homem. A Princesa, que nunca tinha visto um ser humano, começou a gritar com medo e o Gigante veio saber o que lhe acontecera. Mas o rapaz tinha-se feito formiga, e, por mais que o procurassem, não davam com ele. O Gigante foi-se embora e ele voltou à sua forma humana, dando um grande susto à Princesinha, que de novo gritou pelo Gigante. Este veio muito aborrecido, por lhe terem quebrado o melhor do seu sono, e, tornando a correr todos os cantos, nada encontrou, porque o esperto moço voltara a ser formiga. Terceira vez aconteceu o mesmo e o bruto do Gigante disse para a menina que a mataria se o tornasse a chamar, porque já por três vezes o tinha incomodado inùtilmente. Foi o melhor que podia ter dito, pois o rapaz tornou à sua forma natural e pôde contar à jovem Princesa tudo o que se tinha passado. — Eu tive medo — respondeu ela — porque era a primeira vez que via um homem. Logo que nasci, fui roubada por este Gigante que aqui me tem presa. A minha ama foi uma raposa e o meu mestre tem sido ele. Mas eu estou aqui muito aborrecida e só queria que me livrassem e me entregassem a meus pais. — Pois se a Princesa quiser, eu matarei o Gigante — respondeu o rapaz. — Isso não pode ser, porque ele é eterno. Só se lhe pudéssemos tirar o encanto, que anda na serra, dentro dum porco-espinho. — Isso faço eu! — disse logo o rapaz. — E depois de se matar o porco — continuou a Princesa — ainda sairá de dentro uma lebre, que se há-de agarrar e matar também, para de dentro dela sair uma pomba. Essa pomba porá um ovo e só com ele se poderá acabar com o terrível Gigante meu guardador. — Bem, tudo isso é fácil. A menina ficou animada com a coragem do rapaz e despediu-se. Este, chegando à janela, chamou a águia, transformou-se em pássaro e voou para a serra, onde o porco-espinho habitava no mais cerrado dos matos. Chegado que foi ali, clamou: ''ai de mim, leão!'' O leão veio logo e perguntou o que queria. O rapaz explicou o que desejava, e o animal, rugindo furioso, deitou-se sobre o porco-espinho, trazendo-o morto para junto do homem. Ele então abriu-o e encontrou dentro uma lebre viva que se pôs aos saltos e a correr sem destino pela serra fora. Muito apoquentado por a não poder segurar, gritou: ''ai de mim, galgo!'' O galgo apareceu como por encanto, e, num abrir e fechar de olhos, apanhou a lebre, que lhe entregou. Abriu a lebre e de dentro saiu uma pombinha, que se lhe escapou das mãos e voou pelos ares além. Clamou logo: ''ai de mim, águia!'' A águia veio, e, ouvindo o que ele desejava, transformou-o em milhafre, para ir em busca da pomba. Mas a pomba tinha voado tão longe, que a não pôde logo encontrar, e só passados três dias a viu escondida no ninho da sua companheira, que há muito a esperava em vão. Como a pomba não tivesse posto o ovo, teve que se transformar em homem e ficou por ali à espera. Ajustou-se como guardador de gado na casa dum homem que tinha três filhas. Como era muito bom e fazia óptimo serviço, o patrão queria-o casar com uma delas, para que não mais saísse de sua casa, mas o rapaz escusava-se sempre e não pensava senão na Princesa, que o esperava no palácio do Gigante. Um dia que viu as duas pombas muito contentes, foi ao ninho e encontrou o ovo; ficou, é claro, cheio de alegria e logo chamou a águia, que o transformou em pássaro. Chegou ao palácio, onde a menina contava as horas e os minutos na maior ansiedade, e entregou o ovo, que ela guardou com todos os cuidados. Daí, ele voltou à sua forma humana, conversaram e riram todo o dia na maior satisfação, comendo e bebendo dos melhores manjares e licores. À noite veio o Gigante, e o rapaz, mal o sentiu, fez-se em formiga. A menina tratou muito bem o terrível carcereiro, e, quando o viu a dormir, deu-lhe com o ovo na testa — zás! Ele soltou um berro que tudo atormentou e fez tremer o palácio, e morreu. Os dois ficaram muito contentes, e, dirigindo-se às cavalariças, escolheram dois cavalos dos melhores e partiram em direcção do País dos pais da Princesa. Nem quiseram esperar que rompesse a manhã, tal era o temor de que o monstro ainda ressuscitasse. Sem saudade nenhuma, deixou a Princesinha o palácio maravilhoso onde fora criada, e que, apesar de todas as suas belezas e inumeráveis riquezas, nunca para ela podia ter encantos, porque era uma prisão. Quando os pais viram chegar à corte aquela formosíssima dama, só acompanhada pelo valente moço, ficaram muito admirados, e quando se deu a conhecer e contou o que lhe tinha sucedido, além de surpresos, ficaram alegríssimos, pois não mais houvera alegria na corte desde que faltara a herdeira ao seu nome e reino. Ela declarou quanto devia ao moço e que desejava ter por esposo o seu salvador, o que todos acharam muito louvável e natural. O rapaz, porém, não aceitou tal honra sem que primeiro o deixassem ir buscar a mãe que miseràvelmente vivia na tal aldeiazinha das montanhas. A pobre criatura quando viu o filho cuidou morrer de alegria, e quando se viu na corte, vestida de grande dama e tratada como rainha, já lhe parecia que na vida fora habitar o céu. A Princesa e o marido foram sempre muito felizes e ainda hoje são lembradas as suas virtudes e a sua memória venerada pelos descendentes dos seus súbditos. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|O bom serviço recompensado]] 74l6l0stvw64vn7yfg743639gag8sf1 Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/A menina fadada 0 256650 560261 560133 2026-08-23T08:11:38Z Mt516 43586 560261 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = A menina fadada | anterior = [[../O homem de pedra/]] | posterior = [[../O esperto/]] | notas = }} '''<big>A MENINA FADADA</big>''' HAVIA em tempos um homem que tinha três filhas e era bastante rico. Naquela terra era costume, quando alguma rapariga chegava à idade de casar, mandarem os pais fazer uma bola de ouro ou de prata ou de cobre, conforme as suas posses, e porem-na à porta da rua para os rapazes saberem se deviam pretendê-la. Quando a filha mais velha do tal homem quis escolher marido, o pai mandou fazer uma grande bola de ouro martelado e pô-la à porta da sua casa. Passavam bons homens honestos, rapazes trabalhadores e inteligentes, mas não tinham fortuna e vendo uma coisa de tanto valor diziam: — Nada, aquela é muito rica, não é para mim! Até que um dia passou o filho dum Rei, e, como esse possuia muitas riquezas, não teve receio de casar com a menina. Entrou e pediu-a em casamento, com o que pai e filha ficaram muito vaidosos e satisfeitos. Ajustaram tudo e daí a dias realizou-se a cerimónia, partindo a Princesa para o Reino do seu esposo. Correu tempo e chegou a vez da filha segunda casar, mas como o pai tinha gasto muito dinheiro com a bola de ouro não pôde fazer senão uma de prata, mas que tinha uma tal grandeza que nenhum rapaz da terra se atrevia a falar à rapariga. Passou então um fidalgo opulento que a achou do seu gosto, e entrando a pediu e tudo se combinou logo. Tornou a correr tempo e chegou a vez da terceira; então o pai disse-lhe que não tinha dinheiro para mandar fazer uma bola nem de ouro nem de prata mas sòmente de cobre. — É o mesmo — disse a menina. — Cada qual deve contentar-se com a sua sorte. Por ter menos do que minhas irmãs não me considerarei menos feliz, se tiver um marido que me queira bem. Em vista disto mandou o homem fazer uma bola de cobre e colocaram-na à porta. Passou um Príncipe, que andava a procurar noiva acompanhado por luzido cortejo de fidalgos e pagens, e olhando para a bola de cobre sorriu com desdém, dizendo: — Ali está uma noiva que me não serve, porque é pobre demais para mim. Vieram depois condes, ricos homens da corte, orgulhosos burgueses abarrotados de ouro, rapazes sem posição à cata de noiva rica; todos por ali passaram e nenhum se lembrou de entrar e pedir a boa menina, que só tinha o defeito de ser pobre. Até que por fim veio um bom e inteligente rapaz que nada mais tinha que a riqueza do seu trabalho e que havia muito procurava noiva, que não o envergonhasse. Vendo a bola de cobre que tinha afugentado os mais, disse muito contente: — Esta, sim, esta é que a mulher que convém à minha modéstia. Entrou, falou com ela e com o pai, e daí a dias casaram e foram para a terra dele, que era um pouco distante. As irmãs da menina, como estavam casadas com príncipes e fidalgos, ficaram furiosas por a saberem pobre e nunca a procuraram, sem se lembrarem aquelas egoistas que se a mais nova ficara sem fortuna a elas ùnicamente o devia, pois tinham arruinado o pai com os seus dotes. Enfim, ela não se importou e não fez senão bem, pois estando em paz com a nossa consciência não nos devemos preocupar com as vaidades e mau procedimento dos que nos julgam. A menina era muito feliz com o marido e, apesar das irmãs serem ricas e ela pobre, não lhes tinha inveja nenhuma. Assim viveram na maior paz e harmonia trabalhando com gosto, até que uma noite a menina adoeceu e o marido saiu para ir buscar um remédio. Como não tinham criada ficou só com uma filhita de poucos meses, que já lhes havia nascido. Nisto, bateram à porta, e ela, como não tinha medo dos ladrões, porque nada possuiam que tentasse a cubiça, mandou entrar. Ficou muito condoída vendo que eram três vèlhitas muito mal trajadas que lhe pediam abrigo para a noite, que estava de invernia má. Apesar de doente, lá se foi arrastando e serviu-as de tudo quanto para eles tinham. As mulheres agradeciam reconhecidas, elogiando a jovem senhora e a criancinha que ela trazia nos braços. Quando o marido voltou aprovou tudo quanto a mulher tinha feito e igualmente tratou bem as pobrezinhas. De manhã, mal começou a luzir o buraco, levantaram-se as três velhas e, chegando ao berço, onde a criança dormia — porque elas eram nem mais nem menos do que três poderosas fadas, que assim se disfarçaram para experimentar a bondade da menina e recompensarem as suas acções — fadaram a pequenita. Disse a que parecia ser a mais considerada, pois que as fadas não tendo idade não se pode dizer qual a mais velha: — Eu te fado para que sejas a mais formosa mulher do Mundo. Foi a segunda e disse: — Eu te fado para que venhas a ser a mais feliz de quantas mulheres no Mundo existem. Depois, a terceira: — Eu te fado para que as tuas palavras sejam flores, as mais belas e bem cheirosas. Tocaram com as varinhas de condão no berço pobrezito e logo este se transformou em dourado berço de princesa coberto de seda e holandas. Tocaram nos móveis, nas paredes, na roupa, em tudo que ali havia, e logo a miserável casa se transformou em grandioso palácio opulentamente mobilado e ornamentado com gosto de fada. Basta dizer isto para se calcularem os seus esplendores. Desapareceram depois, deixando aquela bondosa família a nadar em contentamento e riquezas. Logo que as irmãs da menina a viram habitar um palácio tão rico e não precisar nada, fizeram as pazes com ela e já não podiam passar sem a visitar todos os dias. A irmã mais velha, casada com o Príncipe, vivia muito mal com o marido e apesar de estar em tão alta posição não fazia senão lamentar-se e invejar a irmã mais nova. Tinha ela uma filha que era da idade da menina fadada, mas não se parecendo com ela na beleza e na bondade. Iam crescendo juntas e davam-se muito, apesar da invejosa não poder ver a prima. Já eram grandes quando por ali passou o Rei dum grande País, que andava a correr Mundo. Viu a menina fadada e ficou tão agradado dela que imediatamente lhe pediu para ser sua esposa. Ela disse logo que sim, também agradada dele. Pediu-a aos pais e combinaram ir ele ao seu reino buscar comitiva digna de acompanhar uma tão bela e bondosa noiva e casarem em seguida. Despediram-se com mágoa e ele partiu, indo a menina avistá-lo até onde podiam alcançar os seus olhos, da torre mais alta da cidade. Mas, quando o estava divisando muito ao longe, veio por detrás dela, a prima, com um ferro em braza e tirou-lhe os olhos, fugindo muito depressa para que ninguém soubesse de tão feia e criminosa acção. Muito triste por se ver cega e sem acertar com a saída começou a menina fadada a chorar. Tanto chorou e se lamentou que um bom velho camponês passado por baixo das janelas da torre, olhou para cima e cheio de piedade a foi buscar e recolheu na sua choupana no meio das serras. Os pais da menina, como a não vissem aparecer, foram à torre procurá-la e, não a encontrando lá, iam morrendo de desgosto; mas então lhes apareceu uma das boas fadas e assegurou que a filha era viva e brevemente a veriam. Outra fada foi ter com a menina e deu-lhe uma varinha de condão, explicando-lhe o que deveria fazer, animando-a para que tivesse esperança. Decorrido o tempo preciso para o Rei voltar da sua viagem, mandou a menina o camponês à cidade a ver o que por lá se passava. O velhote carregou o burrito com as coisas que costumava ir vender e lá foi perguntar novas do Rei. À noite veio para casa, muito triste, dizer à menina que o príncipe voltara e ia casar com a prima dela, que se apresentara como noiva, dizendo que a menina tinha fugido e nada se importava com ele. Primeiro não quisera crer, mas a intriguista dissera-lhe tais coisas que já estava fiado e ia aceitá-la por esposa. A menina fadada não perdeu a coragem; fez descançar o seu protector e, no outro dia de manhã, mandou-o outra vez à cidade para perguntar à noiva do Rei se queria um ramo de flores raras para lhe oferecer, pois que as suas palavras eram flores como nenhum jardineiro seria capaz de as obter à custa de todos os trabalhos e despesas. A outra respondeu que sim, e que lhas mandasse imediatamente porque seria no dia seguinte o casamento. De novo enviou a menina fadada o homenzinho à cidade para dizer à prima que lhe mandasse os olhos, sem o quê não poderia fazer-lhe o ramo. Como ela tinha um grande empenho de presentear o noivo com um mimo daqueles, logo lhe mandou os olhos numa caixa de prata. Foi o que a menina fadada quis, pois, tocando-lhes com a varinha de condão que a fada lhe tinha deixado, ficou logo tal qual era antes. Vestiu-se toda de preto, cobriu-se com um véu e dirigiu-se ao palácio onde morava o Rei seu noivo pedindo audiência. Os guardas não a queriam deixar entrar, por não ser costume os Reis falarem a quem os procura tão modestamente vestido, mas a menina pediu tanto e com tão boas palavras que lá a deixaram entrar. Quando o Rei viu aquela senhora vestida de tão rigoroso dó, parece que teve um presentimento e pediu-lhe para levantar o véu. A menina obedeceu e o Rei reconhecendo-a ficou alegríssimo, querendo logo saber o que se tinha passado. A menina fadada, também muito contente, tocou com a varinha de condão nos seus modestos vestidos ficando tal qual uma rainha. Então contou tudo o que a prima lhe tinha feito e como se curara graças às fadas, suas madrinhas. O Rei ficou tão indignado que imediatamente fez prender a invejosa na torre onde estivera a menina. E não lhe tiraram os olhos a pedido desta, que tinha muito bom coração. Para ali morreu desprezada por todos, ralada de ciúmes e de inveja, enquanto a menina fadada foi sempre a mais feliz das criaturas, amada por toda a gente e especialmente por seu marido e pais e o velho camponês, a quem fizeram o mais rico senhor da corte. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|A menina fadada]] 4zr3075kw9gzqg3p2vaqihg1ntie2mz Ficheiro:Frei Vicente do Salvador - História do Brasil (1931).pdf 6 256666 560161 2026-08-22T13:44:08Z Junglk 34905 {{Informação |descrição = Terceira edição revisada por Capistrano de Abreu e Rodolfo Garcia |obra = Historia do Brasil |ano = 1931 |autor = Frei Vicente de Salvador |falecimento = 1636 |fonte = http://www.etnolinguistica.org/biblio:anonimo-1977-dialogos }} 560161 wikitext text/x-wiki == Descrição do ficheiro == {{Informação |descrição = Terceira edição revisada por Capistrano de Abreu e Rodolfo Garcia |obra = Historia do Brasil |ano = 1931 |autor = Frei Vicente de Salvador |falecimento = 1636 |fonte = http://www.etnolinguistica.org/biblio:anonimo-1977-dialogos }} == Licenciamento == {{PD-scan|DP-2}} 6ckp3qaewc67ar6b2puydyxjnzsm11v 560162 560161 2026-08-22T13:50:06Z Junglk 34905 560162 wikitext text/x-wiki == Descrição do ficheiro == {{Informação |descrição = Terceira edição revisada por [[Autor:Capistrano de Abreu|Capistrano de Abreu]] e [[Autor:Rodolfo Garcia|Rodolfo Garcia]] |obra = História do Brasil (Frei Vicente do Salvador, 1931) |ano = 1931 |autor = Frei Vicente do Salvador |falecimento = 1636 |fonte = https://books.google.com.br/books?id=n8tmAAAAMAAJ&redir_esc=y }} == Licenciamento == {{PD-scan|DP-2}} hm553a7s8eldxu4sq35klq7vphsaw2y Ficheiro:Frei Vicente do Salvador - História do Brasil (1954).pdf 6 256667 560163 2026-08-22T13:55:13Z Junglk 34905 {{Informação |descrição = Quarta edição revisada por [[Autor:Capistrano de Abreu|Capistrano de Abreu]] e [[Autor:Rodolfo Garcia|Rodolfo Garcia]] |obra = História do Brasil (Frei Vicente do Salvador, 1954) |ano = 1954 |autor = Frei Vicente do Salvador |falecimento = 1636 |fonte = https://books.google.com.br/books?id=n8tmAAAAMAAJ&redir_esc=y }} 560163 wikitext text/x-wiki == Descrição do ficheiro == {{Informação |descrição = Quarta edição revisada por [[Autor:Capistrano de Abreu|Capistrano de Abreu]] e [[Autor:Rodolfo Garcia|Rodolfo Garcia]] |obra = História do Brasil (Frei Vicente do Salvador, 1954) |ano = 1954 |autor = Frei Vicente do Salvador |falecimento = 1636 |fonte = https://books.google.com.br/books?id=n8tmAAAAMAAJ&redir_esc=y }} == Licenciamento == {{PD-scan|DP-3}} 61pasffswbfcb5y21cdl7kcch8zhfqm 560164 560163 2026-08-22T13:55:38Z Junglk 34905 /* Descrição do ficheiro */ 560164 wikitext text/x-wiki == Descrição do ficheiro == {{Informação |descrição = Quarta edição revisada por [[Autor:Capistrano de Abreu|Capistrano de Abreu]] e [[Autor:Rodolfo Garcia|Rodolfo Garcia]] |obra = História do Brasil (Frei Vicente do Salvador, 1954) |ano = 1954 |autor = Frei Vicente do Salvador |falecimento = 1636 |fonte = https://books.google.com.br/books?id=ScVmAAAAMAAJ&redir_esc=y }} == Licenciamento == {{PD-scan|DP-3}} e19un0jxo6bxkh0lp04r22ptvbao80p Página:Júlio Verne - À Roda da Lua (1886).pdf/164 106 256668 560165 2026-08-22T14:26:54Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 560165 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|156|{{sc|á roda da lua}}|{{sc|viagens maravilhosas}}}}{{rule}}</noinclude>na trajectoria cortava a linha de caminho do projectil onde devia chegar dentro em poucos minutos; á medida que se avisinhava, augmentava de volume em proporçōes enormes. Imagine quem podér a situaçāo dos viajantes. É impossivel deserevel-a. Apesar da sua coragem, da sua presença de espirito e da sua habitual impassibilidade perante o perigo, estavam mudos, immoveis, com os membros contraidos, tomados de horrível susto. O seu projectil, o seu vehiculo, de que nāo podiam alterar a marcha, corria direito áquella massa ignea, mais intensa que as fauces abertas de um forno de reverberaçāo. O projectil parecia precipitar-se nʼum abysmo de fogo. Barbicane agarrára nas māos dos companheiros, e olhavam todos tres através das palpebras meio fechadas para o asteroide aquecido ao rubro braneo. Se nʼelles nāo estivera anniquilado o pensamento, se no meio dʼaquelle immenso terror lhes funccionasse ainda o cerebro, deviam reputar-se perdidos. Dois minutos depois da subitania appariçāo do bolido,— dois seculos de angustias! parecia o projectil prestes a ir de encontro ao esteroide, quando o globo de fogo fez explosāo como uma bomba, mas sem ruido, como devia ser no meio do vasio, em que o som nāo podia produzir-se, por ser apenas uma agitaçāo das camadas do ar. Nicholl soltára um grito. Elle e os companheiros precipitaram-se para os vidros das vigias. Que espectaculo! Que penna poderia descrevel-o! que palheta seria bastante rica de côres para lhe reproduzir a esplendida magnificencia. Parecia o derramamento de uma cratéra, o desenvolvimento de um immenso incendio. Milhares de fragmentos luminosos alumiavam e sulcavam o espaço com coruscantes lumes. Era um mixto dʼelles de todos os volumes e de todas as côres. Irradiaçōes amarellas, amarelladas, vermelhas, verdes, pardas, de tudo ali havia, formando uma corda de fogos de artificio multicolores. Do enorme e temeroso globo, restavam apenas aquelles pedaços levados em todas as direcçōes, e agora transformados em outros tantos asteroides, uns chammejantes como<noinclude></noinclude> tpql7v0rm2bme1fsxrpx0efsbnt55tz Página:Júlio Verne - À Roda da Lua (1886).pdf/165 106 256669 560166 2026-08-22T14:29:59Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 560166 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|157|{{sc|á roda da lua}}|{{sc|viagens maravilhosas}}}}{{rule}}</noinclude>uma espada, outros envolvidos em vapores esbranquiçados, outros ainda que deixavam após si luminosos sulcos de poeira cosmica. Aquellas massas incandescentes eruzavam-se, encontravam-se, esmigalhavam-se em pequenos fragmentos, alguns dos quaes vieram até de encontro ao projectil, chegando um dʼelles a rachar-lhe o vidro da vigia da esquerda. A bala parecia vogar em meio de uma saraivada de granadas, e a menor dʼestas podia nʼum instante desfazel-a. A luz que saturava o ether expandia-se com incomparavel intensidade, porque os asteroides dispersam a luz em todos os sentidos. Nʼum certo momento chegou a ser tāo viva, que Miguel Ardan exclamou, puxando para o pé da vidraça Barbicane e Nicholl: — Visivel emfim, a invisivel Lua! E todos divisaram, através de um effluvio luminoso de alguns segundos, aquelle disco mysterioso que a vista humana pela vez primeira enxergava. E que viram os viajantes áquella distancia que mal podiam avaliar? Algumas fachas alongadas por sobre o disco, verdadeiras nuvens, formadas nʼum meio atmospherico muito restricto, dʼonde emergiam nāo sómente todas as montanhas, mas ainda todos os relevos, mesmo os de mais mediocre importancia, os circos, as cratéras boquiabertas caprichosamente dispostas, taes como existiam na superficie visivel. Em seguida, espaços immensos, nāo já áridas planicies, senāo verdadeiros mares, oceanos distribuidos com largueza, que reflectiam no seu liquido espelho toda aquella deslumbrante magia dos lumes do espaço. Finalmente, na superficie dos continentes, enormes massas escuras, taes como nos appareciam immensas florestas á rapida luz de um relampago... Seria um engano, um erro dos olhos, uma illusāo de optica? Ou teriam os viajantes direito de affirmar scientificamente aquella observaçāo tāo imperfeitamente feita? Ousariam pronunciar-se ácerea do problema da habitalidade do astro, fun-<noinclude></noinclude> foy4vn5wb9r5h0oapvjoyigjdzh535z Página:Júlio Verne - À Roda da Lua (1886).pdf/166 106 256670 560167 2026-08-22T14:31:37Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 560167 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|158|{{sc|á roda da lua}}|{{sc|viagens maravilhosas}}}}{{rule}}</noinclude>dados em tāo curto relancear de olhos sobre o disco invisivel? No entretanto, as fulguraçōes do espaço foram pouco a pouco enfraquecendo; diminuiu-lhes o brilho accidental; os asteroides foram-se escapando, seguindo trajectorias diversas e apagando-se em distancia. Readquiriu finalmente o ether a tenebrosidade habitual; as estrellas, por instantes eclipsadas, scintillaram no firmamento, e o disco, que os viajantes mal tinham enxergado, desappareceu de novo na impenetravel escuridāo. {{nop}}<noinclude></noinclude> 9vmnrf4wgcj2fnf2u0ped58ix5vjddy Á Roda da Lua (5ª edição)/XV 0 256671 560168 2026-08-22T14:33:31Z Erick Soares3 19404 [[Ajuda:SEA|←]] nova página: <pages index="Júlio Verne - À Roda da Lua (1886).pdf" from=154 to=166 header=1/> {{Modernização}} {{DP-3}} [[pl:Podróż Naokoło Księżyca/XV]] [[ru:Вокруг_Луны_(Верн;_1869)/ДО#ГЛАВА_XV._Гипербола_или_парабола.]] [[cs:Cesta kolem měsíce/Kapitola patnáctá]] [[en:Around the Moon/Chapter XV]] [[fr:Autour de la Lune/15]] 560168 wikitext text/x-wiki <pages index="Júlio Verne - À Roda da Lua (1886).pdf" from=154 to=166 header=1/> {{Modernização}} {{DP-3}} [[pl:Podróż Naokoło Księżyca/XV]] [[ru:Вокруг_Луны_(Верн;_1869)/ДО#ГЛАВА_XV._Гипербола_или_парабола.]] [[cs:Cesta kolem měsíce/Kapitola patnáctá]] [[en:Around the Moon/Chapter XV]] [[fr:Autour de la Lune/15]] dzr3pzp8ys4qn4y6m5r8gxh5qwii80k 560169 560168 2026-08-22T14:33:59Z Erick Soares3 19404 560169 wikitext text/x-wiki <pages index="Júlio Verne - À Roda da Lua (1886).pdf" from=154 to=166 header=1/> {{rule|5em|align=left}} {{smallrefs}} {{Modernização}} {{DP-3}} [[pl:Podróż Naokoło Księżyca/XV]] [[ru:Вокруг_Луны_(Верн;_1869)/ДО#ГЛАВА_XV._Гипербола_или_парабола.]] [[cs:Cesta kolem měsíce/Kapitola patnáctá]] [[en:Around the Moon/Chapter XV]] [[fr:Autour de la Lune/15]] nl9jq05kfg18e6quwiaenn5c4p5j9h7 Página:Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano, Tomo XI (1904).pdf/646 106 256672 560170 2026-08-22T14:38:34Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 560170 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|596|REV. DO INST. ARCH. E GEOG. PERN.|REV. DO INST. ARCH. E GEOG. PERN.}}{{rule}}</noinclude>Communicaram-me cortezmente que não tinha querido tomar conhecimento da carta emquanto eu esperava em baixo; mas, logo que nos sentamos o secretario leu-a em voz alta. Em seguida, em vez de attender ao conteúdo da carta, começou um longo discurso expondo a injustiça do governo e do governador portuguez para com o Brasil em geral e os pernambucanos em particular; que no intuito de resistir a semelhante injustiça haviam constituido o presente respeitavel governo (e apontava para a Junta) sem pretender o menor detrimento aos direitos do rei; que de certo elles não poderiam ser chamados rebeldes, porquanto marchavam sob o estandarte real de Portugal, mas que Luiz do Rego podia razoavelmente ser estigmatisado como tal, porque fizera fogo contra aquella bandeira. Proseguio então numa longa arrenga sobre os principios geraes do governo; mas, como eu pouco entendia da lingua, a sua oratorio ficou perdida para mim bem como para os meus companheiros; não duvido, porém, que servio para incutir no animo da respeitavel Junta uma idéa superior da intelligencia e facundia do sen secretario: no conjuncto o discurso fez-me lembrar algumas das mais bem escriptos proclamações carbonarias da Italia, e havia no ar, nos gestos e na scena um certo que de semelhante ao que imaginamos sejam as reuniões publicas daquelle povo mal dirigido e maltratado. <ref>Lamento extremamente ter então ignorado a lingua portuguess. Soube depois que havia na provincia muitos motivos serios de queixa Não pretendo fallar desrespeitosamente das reuniões populares dos brasileiros; ellas tinham em vista os melhores intuitos: independencia nacional e liberdade civil á sombra de leis reformadas. O primeiro objecto já lhe foi assegurado pelo seu imperador constitucional, o ultimo vae se desenvolvendo sob o seu governo; só o tempo pode aperfeiçoal o.<br>{{gap}}Feliz teria sido a Italia se as suas rennides populares houverem tido o mesmo caracter moderado das do Brasil, e ainda mais feliz se tivese encontrado no seu principe um defensor e protector.</ref>. Conversamos depois muito tempo em francez com o secretario, que repetia cada palavra á respeitavel Junta, e por fim conseguimos fazel-o attender a um pedido de permittir a volta<noinclude>{{rule|5em|align=left}} {{smallrefs}}</noinclude> njqdle8tr8119z4muwnglxi8tj44br9 560171 560170 2026-08-22T14:38:54Z Erick Soares3 19404 560171 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|596|REV. DO INST. ARCH. E GEOG. PERN.|REV. DO INST. ARCH. E GEOG. 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Proseguio então numa longa arrenga sobre os principios geraes do governo; mas, como eu pouco entendia da lingua, a sua oratorio ficou perdida para mim bem como para os meus companheiros; não duvido, porém, que servio para incutir no animo da respeitavel Junta uma idéa superior da intelligencia e facundia do sen secretario: no conjuncto o discurso fez-me lembrar algumas das mais bem escriptos proclamações carbonarias da Italia, e havia no ar, nos gestos e na scena um certo que de semelhante ao que imaginamos sejam as reuniões publicas daquelle povo mal dirigido e maltratado. <ref>Lamento extremamente ter então ignorado a lingua portuguess. Soube depois que havia na provincia muitos motivos serios de queixa Não pretendo fallar desrespeitosamente das reuniões populares dos brasileiros; ellas tinham em vista os melhores intuitos: independencia nacional e liberdade civil á sombra de leis reformadas. 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PERN.}}{{rule}}</noinclude>da nossa roupa de bordo e outro de abastecer o navio de refrescos. Estavamos pagando na cidade quarenta patacões por um boi; concordaram us da Junta que poderiamos ohtel-os a dez patacões por cabeça se mandassemos botes buscal-os no Rio Doce ou Paratibe <ref>No Rio Doce Brito Freire e Pedro Jacques desembarcaram para auxiliar Vieira na restauração de Pernambuco.</ref> que é a foz dun pequeno rio ao norte de Olinda. Não devo deixar de mencionar que se offereceram a consentir que levassemos refrescos para os nossos amigos inglezes e francezes na cidade. A Junta mostrava-se extremamente anciosa por saber se havia probabilidade da Inglaterra reconhecer a independencia do Brasil, ou se tomaria parte na lucta, e ainda outras cousas sobre as quaes o secretario não cessava de nos interrogar. Os patriotas uzam naturalmente de linguagem violenta para com Luiz do Rego, á medida que elle cumpre o seu dever de militar, mantendo-os a distancia com um punhado de homens; como todas as opposições elles podem discorrer sobre principios geraes, porquanto não experimentam o embargo da acção e o conflicto dos interesses particulares com a direcção e o cumprimento duma missão. Eu estava sentada diante de una das janellas da sala do conselho e observára que o sol já começava a se esconder, pelo que levantei-me para partir, tendo recebido do secretario uma nota determinando aos officiaes dos postos avançados que não oppuzéssem obstaculo á passagem de qualquer cousa pertencente á fragata de S. M. Britannica ''Doris''. Mas, não nos permittiram partir sem um convite cordeal para cear e passar a noite; troxeram então um grande pocal no qual despejaram uma garrafa de vinho, com quasi outro tanto dʼagua, e mʼo offereceram em primeiro logar, passando depois ás mãos de todos os quatroze. Por este tempo a guarda pegou em armas, a musica tocou o hymno nacional, que todos ouvimos descobertos, e montamos a cavallo em meio daquelles homens de aspecto selvagem, naquella extranha mas aprazivel paisagem, justamente quando as nevoas da tarde começavam a velar as terras<noinclude>{{rule|6em|align=left}} {{smallrefs}}</noinclude> 8gz4sseix7nr4xu76162albfzngoe0u 560173 560172 2026-08-22T14:42:44Z Erick Soares3 19404 560173 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|597|REV. DO INST. ARCH. E GEOG. PERN.|REV. DO INST. ARCH. E GEOG. PERN.}}{{rule}}</noinclude>da nossa roupa de bordo e outro de abastecer o navio de refrescos. 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A tarde estava fresca e os cavallos sofregos por voltar ; mas, só alcançamos a caza de Mr. Stewart duas horas depois do sol posto, onde soubemos que, depois de nos esperarem até as seis horas, o capitão Graham insistira para que fôsse servido o jantar. O governador estava inquieto e offereceu-se para mandar um destacamento de Caçadores á minha procura, conforme amavelmente disse, o que naturalmente foi recusado, assegurando a capitão a S. Exc. que se os patriotas detivessem o seu tenente elle iria buscal-o com a sua propria gente, e que quanto a mim, enquanto eu estivesse com os meus dous companheiros; elle nada tinha a recciar. Fomos acompanhados ua volta, até quasi as linhas da cidade pelo mesmo official que fôra nosso companheiro na ultima parte da nossa excursão ao quartel-general ; ao contarmos isto ao governador este mostrou-se penalisado por não sabermos o nome do mesmo official, para no caso de algum dia poder ser-lhe util, assim fazêl-o. Uma amena conversação sobre as peripecias do nosso passeio, uma ceia cordeil e um pequeno concerto terminaram o dia, que no conjuncto foi para mim agradabilissimo. ''Quinta-feira, 4 de Outubro.''—Recebi á bordo Mme. do Rego, uma de suas filhas, Miss Stewart e varios cavalheiros. A maior parte dos convivas ficou enjoada devido ao jôgo do navio, agitado pela forte ressaca do ancoradouro. Mostraram-se, entretando, muito encantados com a sua visita, particularmente com os fogos de artiñcio que, por occasião da partida, soltamos em honra ás senhoras que dʼantes nunca tinham estado á bórdo duma fragata ingleza. ''Sexta-feira 5 de Outubro''.—De accordo com a combinação feita, na Quarta-feira, com os officiaes patriotas, uma lancha e o segundo cutter seguiram para o Rio Dôce afim de receber gado e outras provisões. Os officiaes e marinheiros foram muito amavelmente recebidos e voltaram com muitos presentes de viveres e legumes, que os patriotas os obrigaram a aceitar. Uma banda marcial recebeu-os no desembarque e conduziu-os ao logar do encontro com os chefes. Messrs. Biddle e Glennie, quando levantavam plantas<noinclude></noinclude> 5nrrqef94ueb0f0epprprcka3ql4vrs Ficheiro:Mário de Andrade - Contos Novos (1947).pdf 6 256675 560175 2026-08-22T14:50:23Z Junglk 34905 {{Informação |descrição = Faz parte da coleção “Obras completas de Mário de Andrade”, Volume 17 |obra = Contos Novos |ano = 1947 |autor = Mário de Andrade |falecimento = 1945 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8909 }} 560175 wikitext text/x-wiki == Descrição do ficheiro == {{Informação |descrição = Faz parte da coleção “Obras completas de Mário de Andrade”, Volume 17 |obra = Contos Novos |ano = 1947 |autor = Mário de Andrade |falecimento = 1945 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8909 }} == Licenciamento == {{PD-scan|DP-3}} 472yw0jpjvesi5d9qsbwv10l1rvf1i3 Ficheiro:Mário de Andrade - Aspectos da literatura brasileira (1943).pdf 6 256676 560176 2026-08-22T14:59:38Z Junglk 34905 {{Informação |descrição = Primeira edição |obra = Aspectos da literatura brasileira |ano = 1943 |autor = Mário de Andrade |falecimento = 1945 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8938 }} 560176 wikitext text/x-wiki == Descrição do ficheiro == {{Informação |descrição = Primeira edição |obra = Aspectos da literatura brasileira |ano = 1943 |autor = Mário de Andrade |falecimento = 1945 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8938 }} == Licenciamento == {{PD-scan|DP-3}} 80cogvamfc45gm1pug5y22ykbkyhvje Ficheiro:Mário de Andrade - Curso de filosofia e história da arte (1955).pdf 6 256677 560178 2026-08-22T15:02:20Z Junglk 34905 {{Informação |descrição = Este curso foi ministrado no ano de 1938 na Universidade do Distrito Federal, hoje extinta |obra = Curso de filosofia e história da arte |ano = 1955 |autor = Mário de Andrade |falecimento = 1945 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8946 }} 560178 wikitext text/x-wiki == Descrição do ficheiro == {{Informação |descrição = Este curso foi ministrado no ano de 1938 na Universidade do Distrito Federal, hoje extinta |obra = Curso de filosofia e história da arte |ano = 1955 |autor = Mário de Andrade |falecimento = 1945 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8946 }} == Licenciamento == {{PD-scan|DP-3}} hyc3j5lmgmwptv5u8mmdbn6kqf00lq1 Ficheiro:Mário de Andrade - Macunaíma (1937).pdf 6 256678 560180 2026-08-22T15:12:48Z Junglk 34905 {{Informação |descrição = Segunda edição, publicada pela editora José Olympio |obra = Macunaíma |ano = 1937 |autor = Mário de Andrade |falecimento = 1945 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8983 }} 560180 wikitext text/x-wiki == Descrição do ficheiro == {{Informação |descrição = Segunda edição, publicada pela editora José Olympio |obra = Macunaíma |ano = 1937 |autor = Mário de Andrade |falecimento = 1945 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8983 }} == Licenciamento == {{PD-scan|DP-2}} tsgtl9c47xba8ioxqhoim9mm4flt0eg Ficheiro:Mário de Andrade - Belazarte (1934).pdf 6 256679 560181 2026-08-22T15:18:01Z Junglk 34905 {{Informação |descrição = Edição de mil exemplares |obra = Belazarte |ano = 1934 |autor = Mário de Andrade |falecimento = 1945 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/9043 }} 560181 wikitext text/x-wiki == Descrição do ficheiro == {{Informação |descrição = Edição de mil exemplares |obra = Belazarte |ano = 1934 |autor = Mário de Andrade |falecimento = 1945 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/9043 }} d34ra4g2lzlrjjbf628saq7l6wflmzv Página:"Olha a terra, meu amigo, como é que ela é?".pdf/7 106 256680 560182 2026-08-22T16:15:22Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 560182 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rule}} {{rh|||{{smaller|“Olha a terra, meu amigo, como é que ela é?”: tradução e análise do mito mesopotâmico ''Etana''}}}}</noinclude><poem> Os Sebittu<ref>Grupo de sete divindades benevolentes e apotropaicas. Na glíptica, surge muitas vezes representado através de sete pontos, aspeto que deixa transparecer uma possível associação às plêiades (BLACK; GREEN – ''Gods, Demons and Symbols'', p 162).</ref> fecharam os portões contra a multidão, Fecharam os portões contra o mundo habitado, Os Igigi cercaram a cidade [....]. {{nota lateral esquerda|20}} Ištar […]<ref>Apesar de o texto estar fragmentado, é possível que nesta linha se referisse a procura da deusa Ištar por um governante, um pastor que conduzisse a população evocada nas linhas anteriores.</ref> um pastor Procurava um rei [....] Innina<ref>Outra forma de escrever o nome de Inanna/Ištar (GELB, I J – The Name of the Goddess Innin ''Journal of Near Eastern'' ''Studies'' 19:2 [1960]).</ref> [....] um pastor Procurava um rei [...]. Enlil examinava o trono do? céu [...] {{nota lateral esquerda|25}} Procurando incessantemente [...], No pais, por um rei [...]. A realeza (desceu dos céus] E trouxe [...] Os deuses dos países [...] {{dhr}} ''Quebra de cerca de 28 linhas'' {{dhr}} {{nota lateral esquerda|58}}A sua esposa (disse-lhe), a ele, [a Etana]; {{ׄgap}}ׄO meu sonho revelou-me [....], {{gap}}{{nota lateral esquerda|60}}Como Etana, meu marido [....], {{gap}}Como tu [...] {{gap}}Etana, o rei [...], {{gap}}O seu ''etemmu''<ref>O termo define a existência residual do indivíduo humano após a morte. Embora não haja uma tradução concreta para o vocábulo, utilizam-se frequentemente os termos “espectro”, “fantasma”, ou “espírito”.</ref> para [....] <ref>Segue-se um conjunto de linhas demasiado fragmentadas seguidas de outras totalmente destruídas.</ref>. </poem> {{dhr}} Tab. II <poem> {{nota lateral esquerda|1}}Ele nomeou-o<ref>O logograma MU tanto pode tomar o sentido de ''šumu'' (“nome”) como de ''zakāru'' (“falar”, “nomear”), ou inclusivamente ''šattu'' [“ano”). Nalgumas expressões, pode ainda assumir o sentido de ''nīšu'' (“juramento”) ou ''nadānu'' (“dar”) (HALLORAN, John Alan – ''Sumerian lexicon: A dictionary guide to the ancient Sumerian language''. Los Angeles: Logogram Publishing, 2006, p. 176-177) Neste contexto, seguimos com a tradução “nomear”.</ref> homem […] Ele construiu uma torre [...]. O santuário<ref>''parakku'', que na tab I, linha 16, aludia ao trono real, pode igualmente tomar o significado de “sanctuary” (''CAD P, parakku'' A, p 145).</ref> de Adad<ref>Adad é, na mitologia mesopotâmica, o deus associado às chuvas e às tempestades.</ref>, o seu deus [...] À sombra desse santuário, despontou um [choupo alto] </poem> {{nop}}<noinclude>{{rule}} {{smallrefs}} {{right|'''171'''}}</noinclude> a7b0c30ttfnsj8ljhxjnrgrx319i156 560183 560182 2026-08-22T16:16:28Z Erick Soares3 19404 560183 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rule}} {{rh|||{{smaller|“Olha a terra, meu amigo, como é que ela é?”: tradução e análise do mito mesopotâmico ''Etana''}}}}</noinclude><poem> Os Sebittu<ref>Grupo de sete divindades benevolentes e apotropaicas. Na glíptica, surge muitas vezes representado através de sete pontos, aspeto que deixa transparecer uma possível associação às plêiades (BLACK; GREEN – ''Gods, Demons and Symbols'', p 162).</ref> fecharam os portões contra a multidão, Fecharam os portões contra o mundo habitado, Os Igigi cercaram a cidade [....]. {{nota lateral esquerda|20}} Ištar […]<ref>Apesar de o texto estar fragmentado, é possível que nesta linha se referisse a procura da deusa Ištar por um governante, um pastor que conduzisse a população evocada nas linhas anteriores.</ref> um pastor Procurava um rei [....] Innina<ref>Outra forma de escrever o nome de Inanna/Ištar (GELB, I J – The Name of the Goddess Innin ''Journal of Near Eastern'' ''Studies'' 19:2 [1960]).</ref> [....] um pastor Procurava um rei [...]. Enlil examinava o trono do? céu [...] {{nota lateral esquerda|25}} Procurando incessantemente [...], No pais, por um rei [...]. 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Nalgumas expressões, pode ainda assumir o sentido de ''nīšu'' (“juramento”) ou ''nadānu'' (“dar”) (HALLORAN, John Alan – ''Sumerian lexicon: A dictionary guide to the ancient Sumerian language''. Los Angeles: Logogram Publishing, 2006, p. 176-177) Neste contexto, seguimos com a tradução “nomear”.</ref> homem […] Ele construiu uma torre [...]. 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A realeza (desceu dos céus] E trouxe [...] Os deuses dos países [...] {{dhr}} ''Quebra de cerca de 28 linhas'' {{dhr}} {{nota lateral esquerda|58}}A sua esposa (disse-lhe), a ele, [a Etana]; {{gap}}O meu sonho revelou-me [....], {{gap}}{{nota lateral esquerda|60}}Como Etana, meu marido [....], {{gap}}Como tu [...] {{gap}}Etana, o rei [...], {{gap}}O seu ''etemmu''<ref>O termo define a existência residual do indivíduo humano após a morte. Embora não haja uma tradução concreta para o vocábulo, utilizam-se frequentemente os termos “espectro”, “fantasma”, ou “espírito”.</ref> para [....] <ref>Segue-se um conjunto de linhas demasiado fragmentadas seguidas de outras totalmente destruídas.</ref>. </poem> {{dhr}} Tab. II <poem> {{nota lateral esquerda|1}}Ele nomeou-o<ref>O logograma MU tanto pode tomar o sentido de ''šumu'' (“nome”) como de ''zakāru'' (“falar”, “nomear”), ou inclusivamente ''šattu'' [“ano”). 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Optamos por uma tradução que privilegie a ideia de uma necessidade de recolhimento e defesa do ninho.</ref> uma águia; [nas suas raízes, estava enrolada uma serpente]. Diariamente, vigiavam-se [mutuamente]. A águia abriu a sua boca [e disse à serpente]: {{gap}}“Vamos! Formemos uma amizade<ref>À letra, “façamos amizade” (''ru-u<sub>8</sub>-a-[u-tu i ni-pu-uš]'').</ref>! {{gap}}Sejamos amigas, eu [e tu!]” {{nota lateral esquerda|10}} [A serpente] abriu a sua boca [e disse à águia]: {{gap}}“[Ele, Šamaš...] a amizade [...]<ref>A reconstituição e tradução desta linha colocam alguns problemas, visto a mesma se encontrar demasiado fragmentada.</ref>, {{gap}}Tu és má e [desgraçarás o seu es]pírito, {{gap}}[Tu comerás o tabu<ref>''asakka akālu'' [literalmente, “comer o tabu”) é uma expressão corrente, por exemplo, na documentação de Mari. É possível que por ocasião de um compromisso acompanhado por um juramento fossem ingeridos alimentos com um valor mágico, representando as consequências nefastas que se podiam abater sobre o contraente caso este transgredisse as obrigações a que se comprometia. Vide DURAND,– La religion amorrite en Syrie à l’époque des archives de Mari. In OLMO LETE, Gregorio del, ed – ''Mythologie et religion des Sémites Occidentaux. Volume 1: Ebla, Mari (OLA 162)''. Leuven · Paris · Dudley, MA : Peeters, 2008, p 567 e CHARPIN, Dominique – Manger un serment In LAFONT, Sophie, ed – ''Jurer et maudire: pratiques'' ''politiques et usages juridiques du serment dans le Proche-Orient Ancient (Méditerranées'' 10-11) Paris : L’Harmattan, 1997, p. 85-96.</ref>], a maldição dos deuses! {{gap}}(Mas) vamos! Ergamo-nos, [subamos à montanha] {{gap}}{{nota lateral esquerda|15}}E façamos um juramento pelo [imenso] Inframundo”. Diante de Šamaš, o guerreiro, elas prestaram juramento: {{gap}}“Aquela que [transgredir] o limite (imposto por) Šamaš, {{gap}}Que Šamaš [a entregue]<ref>O verbo ''malû'' (“to become full”), quando acompanhado pelo substantivo ''qātu'' (“hand”), toma o sentido de “entregar” [''CDA'', p. 194).</ref> ao atacante para a maltratar. {{gap}}Aquela que [transgredir] o limite (imposto por) Šamaš, {{gap}}{{nota lateral esquerda|20}}Que dela se a faste o desfiladeiro [da montanha], {{gap}}Que a arma errante [vá direita] a ela, {{gap}}Que a armadilha e a maldição de Šamaš a dominem e [capturem]!” Depois de prestarem juramento pelo [imenso] Inframando, Ergueram-se e subiram à montanha {{nota lateral esquerda|25}} Diariamente, vigiavam [os animais selvagens]. A águia caçava um touro selvagem ou um asno selvagem; A serpente comia e afastava-se para as suas crias<ref>À letra, “os seus filhos” (DUMU.MEŠ-''šu'').</ref> se alimentarem. A serpente caçava cabras-da-montanha ou gazelas; A águia comia e afastava-se par as suas crias se alimentarem. {{nota lateral esquerda|30}} A águia caçava um carneiro-selvagem ou um auroque; A serpente comia e afastava-se para as suas crias se alimentarem. A serpente caçava gado [da planície ou bestas selvagens] do campo; [A águia comia] e afastava-se para as suas crias se alimentarem. As crias [da águia consumiram] a comida; </poem> {{nop}}<noinclude>{{rule}} {{smallrefs}} {{left|'''172'''}}</noinclude> 47zq6jcziyf6bumjf4jbtmbgp2gdwl1 Página:"Olha a terra, meu amigo, como é que ela é?".pdf/9 106 256682 560187 2026-08-22T16:45:11Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 560187 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rh||{{smaller|MARIA DE FÁTIMA ROSA, ISABEL GOMES DE ALMEIDA}}|}} {{rule|40em|align=right}}</noinclude><poem> {{nota lateral esquerda|35}} As crias da águia cresceram e desenvolveram-se. Depois de as crias da águia crescerem e se desenvolverem, A águia planeou o mal no seu coração. No seu coração, ela planeou o mal, Decidiu-se<ref>O verbo ''šakānu'' (“to place”), quando acompanhado pelo substantivo ''pānu'' (“face”), pode tomar o sentido de “determinar”, “tencionar” (CDA, p. 263).</ref> a comer as crias da sua amiga. {{nota lateral esquerda|40}} A águia abriu a sua boca e disse aos seus filhos<ref>Em vez de “crias”, optamos agora pela tradução “filhos”, de modo a vincar a importância da descendência e o sentimento de proteção que os intervenientes demonstram em relação à mesma.</ref>; {{gap}}“Eu vou comer os filhos da serpente! {{gap}}A serpente [ficará desolada], {{gap}}(Por isso,) subirei e habitarei no céu. {{gap}}Descerei da copa da árvore (apenas) para comer o fruto.” {{nota lateral esquerda|45}} O filho pequeno, extremamente sábio, Dirigiu<ref>À letra, “disse”.</ref> à águia, sua mãe<ref>No acádio, águia (Á MUŠEN = ''arū/erū'') é uma palavra masculina, pelo que o substantivo usado aqui originalmente é ''abu'' (“pai”).</ref>, as (seguintes) palavras: {{gap}}“Não comas, minha mãe! A rede de Šamaš alcançar-te-á. {{gap}}A armadilha e a maldição de Šamaš dominar-te-ão e capturar-te-ão! {{gap}}Aquele que transgredir o limite (imposto por) Šamaš, {{gap}}{{nota lateral esquerda|50}}Šamaš entregará ao [atacante para o maltratar].” Ela não os ouviu, não prestou atenção à [palavra dos seus filhos], Ela desceu e comeu as crias [da serpente]. Durante a noite, ao cair do dia, A serpente [chegou] carregando o [seu fardo], {{nota lateral esquerda|55}} À entrada do seu ninho, [colocou a carne]. [Olhou (em redor)], mas o seu ninho não estava lá! Examinou, mas não [...] Com as suas garras, [...] o chão, No alto, a sua nuvem de poeira [enegrecia] o céu. {{nota lateral esquerda|60}} A serpente, banhada (em lágrimas), chorava. [As suas lágrimas escorriam diante de Šamaš: {{gap}}“Eu confiei em ti, Šamaš, [o guerreiro] {{gap}}Fui eu quem [ofereceu provisões] à águia, {{gap}}E agora o meu ninho [transformou-se num lugar de lamentação]! {{gap}}{{nota lateral esquerda|65}}O meu ninho já não existe (enquanto) o seu ninho [permanece seguro]. {{gap}}As minhas crias estão dispersas (enquanto) [as suas crias estão bem]. {{gap}}Ela desceu e comeu [os meus filhotes]! {{gap}}[Tu sabes certamente<ref>''lū'' funciona como uma partícula assertiva [Vide HUEHNERGARD, John – ''A grammar of Akkadian''. Winona Lake: Eisenbrauns, 2005, p 326)</ref>] o mal que ela me fez, ó Šamaš! {{gap}}Ó Šamaš, a tua rede é verdadeiramente [extensa] (como) a terra, </poem> {{nop}}<noinclude>{{rule}} {{smallrefs}} {{right|'''173'''}}</noinclude> 5r3xcv6t7mxn58jov35y50ap0gzrfj0 Ficheiro:Oswald de Andrade - Serafim Ponte Grande (1933).pdf 6 256683 560188 2026-08-22T16:58:22Z Junglk 34905 {{Informação |descrição = Segunda edição - Edição do autor |obra = Serafim Ponte Grande |ano = 1933 |autor = Oswald de Andrade |falecimento = 1954 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8885 }} 560188 wikitext text/x-wiki == Descrição do ficheiro == {{Informação |descrição = Segunda edição - Edição do autor |obra = Serafim Ponte Grande |ano = 1933 |autor = Oswald de Andrade |falecimento = 1954 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8885 }} a7t0ixclbkq0k6kgzvf6ssz5c8psfl8 Ficheiro:Oswald de Andrade - A escada vermelha (1934).pdf 6 256684 560190 2026-08-22T17:01:50Z Junglk 34905 {{Informação |descrição = Terceiro volume da “Trilogia do exílado” |obra = A escada vermelha |ano = 1934 |autor = Oswald de Andrade |falecimento = 1954 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8875 }} 560190 wikitext text/x-wiki == Descrição do ficheiro == {{Informação |descrição = Terceiro volume da “Trilogia do exílado” |obra = A escada vermelha |ano = 1934 |autor = Oswald de Andrade |falecimento = 1954 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8875 }} qpyz96fzkt57mqru0kqnvzijxie4h3t Ficheiro:Oswald de Andrade - O homem e o cavalo (1934).pdf 6 256685 560191 2026-08-22T17:03:37Z Junglk 34905 {{Informação |descrição = Primeira edição |obra = O homem e o cavalo |ano = 1934 |autor = Oswald de Andrade |falecimento = 1954 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8884 }} 560191 wikitext text/x-wiki == Descrição do ficheiro == {{Informação |descrição = Primeira edição |obra = O homem e o cavalo |ano = 1934 |autor = Oswald de Andrade |falecimento = 1954 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8884 }} t1fu62w0c3xdr22bb7pwohasreduw0s Ficheiro:Oswald de Andrade - Teatro (1937).pdf 6 256686 560192 2026-08-22T17:05:15Z Junglk 34905 {{Informação |descrição = Primeira edição |obra = Teatro (Oswald de Andrade) |ano = 1937 |autor = Oswald de Andrade |falecimento = 1954 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8886 }} 560192 wikitext text/x-wiki == Descrição do ficheiro == {{Informação |descrição = Primeira edição |obra = Teatro (Oswald de Andrade) |ano = 1937 |autor = Oswald de Andrade |falecimento = 1954 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8886 }} c8byde0e6wrj85f8ivm343bn7ourw4w Ficheiro:Oswald de Andrade - Ponta de lança (1945).pdf 6 256687 560193 2026-08-22T17:07:09Z Junglk 34905 {{Informação |descrição = Primeira edição |obra = Ponta de lança |ano = 1945 |autor = Oswald de Andrade |falecimento = 1954 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8722 }} 560193 wikitext text/x-wiki == Descrição do ficheiro == {{Informação |descrição = Primeira edição |obra = Ponta de lança |ano = 1945 |autor = Oswald de Andrade |falecimento = 1954 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8722 }} dww73rxwf7xjg9u1r3nakpi9pbtplth Ficheiro:Oswald de Andrade - Poesias reunidas (1945).pdf 6 256688 560194 2026-08-22T17:08:51Z Junglk 34905 {{Informação |descrição = Primeira edição |obra = Poesias reunidas |ano = 1945 |autor = Oswald de Andrade |falecimento = 1954 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8761 }} 560194 wikitext text/x-wiki == Descrição do ficheiro == {{Informação |descrição = Primeira edição |obra = Poesias reunidas |ano = 1945 |autor = Oswald de Andrade |falecimento = 1954 |fonte = https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8761 }} g57el2ay7l69zf6aovoc9zoildvtsht Ficheiro:Oswald de Andrade - A crise da filosofia messiânica (1950).pdf 6 256689 560195 2026-08-22T17:10:40Z Junglk 34905 {{Informação |descrição = Tese para concurso da cadeira de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de S. 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A trilogia do exílio, Volume 1 (1922, 1ª edição).pdf}} |Imagem= |Capa=9 |Progresso=X |Páginas=<pagelist /> |Tomos= |Volumes= |Notas=Contém anotações feitas pelo próprio Oswald de Andrade |Sumário= |Epígrafe= |Width= |Css= |Header= |Footer= |Modernização=N }} rqhvc9v7x4g48zdve6g7g7tj8mwphpc Galeria:Oswald de Andrade - A trilogia do exílio, Volume 3 (1922, 1ª edição).pdf 104 256708 560222 2026-08-22T20:43:14Z Junglk 34905 [[Ajuda:SEA|←]] nova página: 560222 proofread-index text/x-wiki {{:MediaWiki:Proofreadpage_index_template |Type=book |Título=A escada vermelha |Subtítulo=A trilogia do exílio |Language=pt |Autor=[[Autor:Oswald de Andrade|Oswald de Andrade]] |Tradutor= |Editor= |Ilustrador= |Edição=1 |Volume=3 |Editora= |Gráfica= |Local= |Ano=1922 |ISBN= |Fonte={{commons|Oswald de Andrade - A trilogia do exílio, Volume 3 (1922, 1ª edição).pdf}} |Imagem= |Capa=7 |Progresso=X |Páginas=<pagelist /> |Tomos= |Volumes= |Notas= |Sumário= |Epígrafe= |Width= |Css= |Header= |Footer= |Modernização=N }} o4eghhjnsg64i4s10645rwpko264ctz Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/141 106 256709 560225 2026-08-22T22:44:40Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560225 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" /></noinclude>{{t2|GARE}}{{traço}}{{ch|V}} Costumava eu ouvir ler os jornaes de cada dia por um menino, que ainda não conhecia a lingua franceza, e que apenas começava a aprendel-a. O leitor dava algumas vezes a sua syllabada, que eu immediatamente corrigia; e, como era estudioso, ficava o rapazinho satisfeito com a emenda, perguntando-me a significação de algumas palavras, que pela primeira vez n’essas leituras encontrava. Sempre que em artigos insertos nas folhas. diarias achava gallicismos dos que notei, e substitui por neologismos, vinha contente dizer-me: — Aqui está uma das palavras que o doutor reprova por não serem portuguezas, e que pode ser trocada pelo neologismo correspondente. E logo repetia o neologismo. Agradava-me aquella prova de adiantamento e docilidade, e por minha parte não cessava de estimulal-o a escrever e falar correctamente. Succede que em certo dia, lendo elle um artigo em que se descrevia a recepção feita a uma auctoridade, que desembarcara na ''estação'' de uma {{pt|ferro-|ferrovia, }}<noinclude>{{d|7}}</noinclude> tc6qm64adxeg0cbfgo340xndnzq32yp Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/142 106 256710 560226 2026-08-22T22:48:27Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560226 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />98</noinclude><noinclude>via,</noinclude> hesitou por alguns instantes ao dar com a palavra — {{lang|fr|''gare''}}. — Penso, doutor, que ha aqui erro de imprensa. — Porque? perguntei-lhe eu. — Talvez seja grade, porque eu não sei o que é — {{lang|fr|''gare''}}. Duvidando do que ouvia, puz os meos nasoculos, e tomei o jornal. — É aqui, disse-me elle, mostrando o logar, em que estava a palavra. — Menino, por infelicidade não é erro typographico. — Então é palavra portugueza que eu não conheço. — Não é palavra portugueza, observei-lhe; é franceza. — E o que quer dizer? — {{lang|fr|''Gare''}}, vocabulo francez, além de outras significações, tem tambem a de — ''estação, embarcadouro''. — Então, é ''embarcadouro'', é ''estação'' que se deve dizer? — Não ha a menor duvida; {{lang|fr|''gare''}} é barbarismo escusado; nada ha que justifique o emprego de palavra estrangeira, quando existe em portuguez vocabulo castiço, que perfeitamente o traduz. {{nop}}<noinclude></noinclude> kbdv5hqxxtp5rqbgak5r7mexwyc3atb Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/143 106 256711 560227 2026-08-22T22:50:09Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560227 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />{{d|99}}</noinclude>Esse e outros termos exoticos, que sem necessidade se empregam em portuguez, são vergonhosa prova da mais ridicula affectação, e ignorancia. {{lang|fr|''Gare''}} é ''estação'', ou ainda melhor, ''embarcadouro:'' palavra de que usaram os bons escriptores portuguezes, referindo-se ao logar, onde passageiros e mercadorias embarcam ou desembarcam de navios ou de carros.<noinclude>{{traço}}</noinclude> lukddy0zzw4maztscctg76h75goas2u Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/II/V 0 256712 560228 2026-08-22T22:50:45Z Trooper57 24584 [[Ajuda:SEA|←]] nova página: <pages index="Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf" from=141 to=143 header=1 /> 560228 wikitext text/x-wiki <pages index="Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf" from=141 to=143 header=1 /> f5dhtolpllo0xbwyrhuoxkjxa3jbfhd Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/145 106 256713 560229 2026-08-22T22:56:49Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560229 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" /></noinclude>{{t2|ROBE DE CHAMBRE}}{{traço}}{{ch|VI}} Ao ver a massa enorme de barbarismos, que dos Alpes se despenha, como gigantesco runimol (antiga {{lang|fr|''avalanche''}}) sobre o nosso vernaculo idioma, tive já uma vez idéa de formar, {{lang|la|''ad usum tironum''}}, (para uso dos aprendizes), um vocabulario especial das taes palavras francezas e inglezas com a respectiva significação; duas razões, porém, me fizeram sobrestar na tentativa. A primeira, porque cresce de tal modo quotidianamente o numero dessas palavras, que, quando o vocabulario estivesse terminado, seria necessario addir-lhe um supplemento dos barbarismos introduzidos na nossa linguagem, emquanto se imprimia o opusculo. A segunda razão é a inutilidade de tal trabalho; visto que não faltam bons diccionarios do francez para o portuguez, faltando sómente vontade de os folhear e aprender a significação do termo, quando aquella se ignore; o que é raro. Não sei que enlevo, não sei que suave attracção ha para as palavras francezas, que, sem {{pt|ne-|necessidade }}<noinclude></noinclude> a0b4160yckrtxqnnbd2vg0u4i1xj7ah Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/146 106 256714 560231 2026-08-22T23:03:53Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560231 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />102</noinclude><noinclude>cessidade</noinclude> alguma, deixam-se as nossas para empre- garmos sómente as que pertencem áquella lingua: é que talvez, por vestirmos o corpo á franceza, queremos vestir o pensamento com traje tambem francez. Entre as multiplas causas desta singular aber- ração, que só vejo em Portugal e no Brazil, avulta o completo desprezo dos livros classicos escriptos em portuguez. Não contentes os francelhos com matizar o nosso idioma de vocabulos exoticos, tal é o gráo de depravação do gosto litterario, que as proprias palavras e locuções francezas soffrem certas alte- rações, das quaes podem muitas vezes resultar e tem resultado equivocos. Contaram-me que um chefe de familia (dos taes amigos das palavras francezas), dirigindo-se ao filho, de cerca de 12 annos de idade, e que estava aprendendo francez, lhe dissera: — Menino, traze-me o {{lang|fr|''chambre''}}. A criança sabia que {{lang|fr|''chambre''}} em francez é ''quarto''; e por isso perguntou: — Papae disse — ''quarto?'' — Tu estás te divertindo commigo ?... então não sabes o que é {{lang|fr|''chambre}}?'' — Mas papae... — {{lang|fr|''Chambre''}} é isto; e segurando pela orelha ao pobre rapaz, mostrou-lhe o que elle e outros<noinclude></noinclude> eageqg58jfwinaea8ruodhifx76fnvk Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/147 106 256715 560232 2026-08-22T23:07:50Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560232 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />{{D|103}}</noinclude>chamam indevidamente em portuguez — {{lang|fr|''Robe de chambre''}}. Em virtude da ''lei de menor esforço'', descoberta pela glottologia moderna, mas que eu çhamo sem euphemismo — ''preguiça'' —, já nem se diz {{lang|fr|''robe de chambre''}}, porém {{lang|fr|''chambre''}}. E por que não se ha de dizer, como outr{{'}}ora em portuguez, que é expressão classica — ''Rocló?''... — Ora, ''rocló''... talvez digam lá comsigo os francelhos, isso é um ''fossil''. ''Fossil'' ou não, ''rocló'' é o termo portuguez que traduz {{lang|fr|''robe de chambre''}}. Gastão João Baptista, duque de {{lang|fr|''Roquelaure''}}, muito conhecido na côrte de Luis XIV, foi quem deu nome ''a uma especie de capote, fechado adiante por botões, desde cima até a baixo''. (Vede Bascherelle, e Diccionario das Academias, supplemento). Os portuguezes fizerão de {{lang|fr|''Roquelaure Rocloró''}}, que ''por lei de menor esforço'', ficou reduzido a ''Rocló''.<noinclude>{{traço}}</noinclude> jq77ecghx7wutb5nj61r5go2rqbcm34 Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/II/VI 0 256716 560233 2026-08-22T23:08:36Z Trooper57 24584 [[Ajuda:SEA|←]] nova página: <pages index="Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf" from=145 to=147 header=1 /> 560233 wikitext text/x-wiki <pages index="Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf" from=145 to=147 header=1 /> 5sg2tvw3lwle1xd1dd59se5y3yh0k7v Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/149 106 256717 560234 2026-08-22T23:18:14Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560234 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" /></noinclude>{{t2|ELITE}}{{traço}}{{ch|VII}}{{c|''(Dialogo)''}} <poem>— Parabens, meo amigo! Está curado; Já o vejo de pé; feição sadia. — E' verdade; estou bom; e a minha cura Devo ao doutor, e à sua homœopathia. — Então, que faz agora? Quanto livro!... Sei que as lettras cultiva com ardor... — E' a minha paixão; porém ás vezes Preferira ser nescio, meo doutor. — São arrufos que passam; com as lettras Quasi o mesmo succede que em amores. — Não é, doutor, das lettras que me queixo, Mas que tantos desprezem essas flôres. — Nem todos gosto tem fino, apurado; As sciencias, as lettras são manjares, Que bem apreciar nem todos sabem; Estragados ha muĩtos paladares.</poem> {{nop}}<noinclude></noinclude> 68nqeq7gkd85jophhwq0bf7va756kpc 560237 560234 2026-08-22T23:20:21Z Trooper57 24584 560237 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" /></noinclude>{{t2|ELITE}}{{traço}}{{ch|VII}}{{c|''(Dialogo)''}} <poem>— Parabens, meo amigo! Está curado; Já o vejo de pé; feição sadia. — E' verdade; estou bom; e a minha cura Devo ao doutor, e à sua homœopathia. — Então, que faz agora? Quanto livro!... Sei que as lettras cultiva com ardor... — E' a minha paixão; porém ás vezes Preferira ser nescio, meo doutor. — São arrufos que passam; com as lettras Quasi o mesmo succede que em amores. — Não é, doutor, das lettras que me queixo, Mas que tantos desprezem essas flôres. — Nem todos gosto tem fino, apurado; As sciencias, as lettras são manjares, Que bem apreciar nem todos sabem; Estragados ha muĩtos paladares. {{nop}}</poem><noinclude></noinclude> anqdtqv6tuqlamj6mcch6iz9x4hx2zm 560238 560237 2026-08-22T23:21:31Z Trooper57 24584 560238 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" /></noinclude>{{t2|ELITE}}{{traço}}{{ch|VII}}{{c|''(Dialogo)''}} <poem>— Parabens, meo amigo! Está curado; Já o vejo de pé; feição sadia. — E' verdade; estou bom; e a minha cura Devo ao doutor, e à sua homœopathia. — Então, que faz agora? Quanto livro!... Sei que as lettras cultiva com ardor... — E' a minha paixão; porém ás vezes Preferira ser nescio, meo doutor. — São arrufos que passam; com as lettras Quasi o mesmo succede que em amores. — Não é, doutor, das lettras que me queixo, Mas que tantos desprezem essas flôres. — Nem todos gosto tem fino, apurado; As sciencias, as lettras são manjares, Que bem apreciar nem todos sabem; Estragados ha muĩtos paladares. </poem><noinclude></noinclude> 9gegpiteg99lwa8qgnzugp99tkbwhu5 560241 560238 2026-08-22T23:23:56Z Trooper57 24584 560241 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" /></noinclude>{{t2|ELITE}}{{traço}}{{ch|VII}}{{c|''(Dialogo)''}} <poem>— Parabens, meo amigo! Está curado; Já o vejo de pé; feição sadia. — E' verdade; estou bom; e a minha cura Devo ao doutor, e à sua homœopathia. — Então, que faz agora? Quanto livro!... Sei que as lettras cultiva com ardor... — E' a minha paixão; porém ás vezes Preferira ser nescio, meo doutor. — São arrufos que passam; com as lettras Quasi o mesmo succede que em amores. — Não é, doutor, das lettras que me queixo, Mas que tantos desprezem essas flôres. — Nem todos gosto tem fino, apurado; As sciencias, as lettras são manjares, Que bem apreciar nem todos sabem; Estragados ha muĩtos paladares. {{nop}}</poem><noinclude></noinclude> mwgczfpu3ynvx3ld8n4wrx9rtkdrm7x Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/II/VII 0 256718 560235 2026-08-22T23:18:42Z Trooper57 24584 [[Ajuda:SEA|←]] nova página: <pages index="Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf" from=149 to=151 header=1 /> 560235 wikitext text/x-wiki <pages index="Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf" from=149 to=151 header=1 /> mdboy8qh54je7y08pu1muonbqcf7iz0 Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/150 106 256719 560236 2026-08-22T23:20:03Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560236 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />106</noinclude><poem>— Na terra, em que nascemos, tão fecunda, Não florescem as lettras, não; eu cuido Que no ambiente existe, que nos cerca, Para as lettras talvez nocivo fluido. Um miasma? um microbio? Então, um nome Ao vibrião dê já parasitario... — Dos seos collegas com a venia, seja Terrivel ''cryptococus'' litterario. — Concordo; e lembro um optimo recurso; Infallivel, e facil medicina; — Basta, não diga mais; eu adivinho; E' o mal empregar como vaccina. — E' isso; cultivar sciencia e lettras, Transformar-lhes o culto em fanatismo; — E' justamente o plano que eu adopto, Batendo, quanto posso, o pedantismo. — Mas agora trabalha... — N'um romance... — Que por certo é de assumpto nacional; I— sso nunca, doutor, nunca; é francez, Pois não sendo, não vale um só real. — Vergonhosa verdade! Assás conheço Essa antiga mania — Mas, doutor, Já que nisto falamos, desejara Pedir às suas luzes um favor.</poem> {{nop}}<noinclude></noinclude> 5c0bow7udap5u7r6sgnpgzbj4zvy273 560239 560236 2026-08-22T23:22:24Z Trooper57 24584 560239 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />106</noinclude><poem>— Na terra, em que nascemos, tão fecunda, Não florescem as lettras, não; eu cuido Que no ambiente existe, que nos cerca, Para as lettras talvez nocivo fluido. Um miasma? um microbio? Então, um nome Ao vibrião dê já parasitario... — Dos seos collegas com a venia, seja Terrivel ''cryptococus'' litterario. — Concordo; e lembro um optimo recurso; Infallivel, e facil medicina; — Basta, não diga mais; eu adivinho; E' o mal empregar como vaccina. — E' isso; cultivar sciencia e lettras, Transformar-lhes o culto em fanatismo; — E' justamente o plano que eu adopto, Batendo, quanto posso, o pedantismo. — Mas agora trabalha... — N'um romance... — Que por certo é de assumpto nacional; I— sso nunca, doutor, nunca; é francez, Pois não sendo, não vale um só real. — Vergonhosa verdade! Assás conheço Essa antiga mania — Mas, doutor, Já que nisto falamos, desejara Pedir às suas luzes um favor. {{nop}}</poem><noinclude></noinclude> bee4km2y1w4c8vsk8bmqxpdmn24uqip Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/151 106 256720 560240 2026-08-22T23:23:36Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560240 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />{{d|107}}</noinclude><poem>— Para servil-o em tudo quanto eu possa, Sempre prompto estarei, sempre; acredite: — Estou embaraçado; dê-me um termo, Que em portuguez traduza o termo — {{lang|en|''elite''}}. — E' isso? dou-lhe quatro primorosos; ''A flôr, a fina flôr, a nata, a gemma;'' — Bravo! Bravo! doutor; as mãos lhe beijo, Resolvi afinal o meo problema.</poem><noinclude>{{traço}}</noinclude> gh0hrb1aggqma8otsvid36vo7dw0p47 Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/178 106 256721 560242 2026-08-22T23:33:31Z Trooper57 24584 /* Sem texto */ 560242 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="0" user="Trooper57" /></noinclude><noinclude></noinclude> 78ffh1ztzf5pdvw08ppv0myz8dt2adu Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/História do Príncipe Luís 0 256722 560245 2026-08-23T07:26:49Z Mt516 43586 [[Ajuda:SEA|←]] nova página: {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = História do Príncipe Luís | anterior = [[../A Princesa da Áustria/]] | posterior = [[..//O Bicho-de-sete-cabeças]] | notas = }} '''<big>HISTÓRIA DO PRÍNCIPE LUÍS</big>''' HAVIA, um Rei e uma Rainha que não tinham filhos. Sentia o Rei grande desgosto com isso, e tanto que queria desmanchar o casamento por esse motivo. A Rainha, qua... 560245 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = História do Príncipe Luís | anterior = [[../A Princesa da Áustria/]] | posterior = [[..//O Bicho-de-sete-cabeças]] | notas = }} '''<big>HISTÓRIA DO PRÍNCIPE LUÍS</big>''' HAVIA, um Rei e uma Rainha que não tinham filhos. Sentia o Rei grande desgosto com isso, e tanto que queria desmanchar o casamento por esse motivo. A Rainha, quando o soube foi ter com a mulher dum catraeiro que morava defronte do palácio e disse-lhe que lhe entregasse o filho que esperava, pois o queria fazer passar por seu levando-o para o palácio. E, dando muito dinheiro à mulher, tudo se combinou no mais absoluto segredo. Passado tempo, disse a Rainha ao marido que iam ter um herdeiro. O Rei, de contente que ficou, não houve a quem não participasse a sua felicidade. Veio o menino de casa do catraeiro e escondidamente o levaram para o quarto da Rainha, a qual, combinada com uma velha aia confidente, conseguiu enganar a todos. E — como quem mal não usa mal não cuida — o Rei amou a criança como se realmente fosse seu filho. Fizeram grandes festas por ocasião do baptizado do herdeiro do trono, que se ficou chamando Pedro. Pouco tempo antes tinha este Rei ido a uma caçada, perdendo-se no caminho. Andou para trás e para diante até que chegou à porta duma quinta. Como a visse aberta, entrou para descansar e ao mesmo tempo inquirir onde estava e a quem pertencia aquela propriedade tão linda. Qual não foi a sua surpresa vendo junto duma fonte, debaixo dum chorão, uma formosa menina. Dirigiu-se-lhe com toda a delicadeza, perguntando a razão de estar ali só. Ela respondeu, contando-lhe a sua história. Era filha dum poderoso Rei, que a mandou com uma aia para aquela quinta, longe de tudo, com proibição expressa de que a fossem ver, porque a sua sina dizia que havia de dar aos pais um grande desgosto. Imaginava o pobre Rei furtar-se à desgraça e à dor. Queixava-se a Princesinha de que vivia muito aborrecida, que lhe pareciam séculos os dias. Imagine-se pois como ela não estimaria a inesperada visita do amável Rei. Contou-lhe ele também que era senhor dum grande Reino, que era poderoso e rico mas que também vivia triste. Que de nome conhecia o pai dela, e que dali ia pedi-la em casamento. Passaram-se quatro dias na mais completa alegria e, no fim deles, despediu-se o Rei da Princesa, deixando-lhe uma caixa com o seu retrato e dentro o colar que os Reis do seu país costumavam usar nos dias de grande gala, dizendo-lhe que guardasse aquela prenda até que ele a fosse buscar, para a apresentar na corte como sua mulher. A Princesa ficou muito triste, esperando o Rei que nunca mais voltou! É que nesse tempo tinha a mulher feito o que dissemos, e ele, entretido com a criança que julgara seu filho, nunca mais se lembrou da pobre menina. Esta, muito desconsolada e saudosa, não fazia senão chorar a desgraça da sua triste vida. Por, mais que a aia a quisesse consolar dizendo-lhe que o Rei havia de voltar, ela já não podia ter esperança. Passado tempo, nasceu um menino, que era a criança mais linda que se tinha visto. A aia pegou nele, vestiu-o com a maior riqueza, e, metendo-o dentro dum cestinho, foi pô-lo à porta do palácio, onde viviam os pais da Princesa. Quando de manhã os guardas viram aquele cesto contendo uma criança, linda como os amores, foram logo a correr dar parte a Suas Majestades. O Rei, que primeiro o viu, mandou-o levar à Rainha e disse-lhe: — Ora aqui está uma coisa que eu estimava muito ver no palácio! Se a nossa filha se não escandalizasse, ficávamos com esta criança como se fosse nossa. Respondeu-lhe logo a Rainha: — Pois eu também o estimava e então vai tu perguntar à nossa filha a sua opinião e se ela consentir ficaremos todos bem. Montou o Rei a cavalo e foi à quinta onde a Princesa estava escondida; depois de o cumprimentar com muito afecto, perguntou ela: — Real Senhor, que prazer é o meu em o ver nesta casa! A que devo tal honra? — Minha filha — respondeu o Rei — vim visitar-te, porque já tinha saudades. Esta foi a primeira razão; mas também te queria dizer, em meu nome e da Rainha tua mãe, que apareceu um menino à porta do palácio, a coisa mais bonita que se tem visto e nós desejamos adoptá-lo, se tu consentires. A Princesa ficou muito contente por saber a criança tão bem entregue, e disse-lhe: — Tudo o que for da vossa vontade é também da minha. Despediu-se o velho rei deixando a filha consumida de saudades, mas descansada sobre a sorte do filho e voltou alegre ao palácio. Imediatamente procuraram ama, fizeram um rico enxoval ao menino, e com grande festa o baptizaram, dando-lhe o nome de Luís. Era uma criança muito bonita, muito inteligente e estudiosa de maneira que todos no palácio o adoravam e os professores não tinham nunca motivo de o castigar. Assim, quando ele chegou à idade de doze anos, o Rei, que o estremecia resolveu ir fazer uma viagem aos reinos vizinhos e levá-lo na sua companhia. Chegaram ao palácio do Rei, que era nem mais nem menos do que o pai do príncipe Luís — segredo que ninguém no mundo sabia. E vai, perguntou ele ao velho: — É seu filho? — Vive comigo como tal — respondeu o Rei. Mandou chamar o Pedro, para lhe apresentar também o seu herdeiro. Os pequenos, que eram da mesma idade, começaram a brincar. Mas não se podia comparar a graça do pequeno Luís com a rudeza do filho do catraeiro. O Rei ficou muito agradado dele e pediu ao avô que lho deixasse ali ficar uns dias, av er se o seu filho aprendia as maneiras dum verdadeiro Príncipe, pois tinha uma grande desconsolação de o ver tão grosseiro e ignorante, por mais mestres que lhe desse. O velho Rei consentiu em deixar o Luís, mas sòmente quatro dias, porque tanto ele como a Rainha não podiam viver longe do seu filho adoptivo. Ficou pois o menino que em breve era estimado por todos. Ora, andando uma vez a brincar com Pedro propôs-lhe irem simular um duelo. Dirigiram-se à sala de armas, escolheram duas espadas próprias e começaram a esgrimir. O Pedro não sabia nada daquele exercício, apesar de ter tido os melhores professores, enquanto o Luís jogava como um mestre. Assim foi que levou de vencida o amigo e, sem querer, lhe deu uma forte pancada nas costas quando ele fugia. Desesperado voltou-se o Pedro e gritou: — Tu não és Príncipe como eu, és um enjeitado que apareceu à porta do palácio do teu benfeitor. Luís, que se imaginava filho dos Reis que o tinham criado, não pôde sofrer que assim o insultassem e deu-lhe uma tremenda bofetada. Ele começou a gritar de tal maneira que toda a gente do palácio correu para ali, a saber o que tinha havido. Contou o Pedro que o menino Luís lhe tinha batido. Disse este que o outro o tinha insultado e por isso lhe batera, que era um cobarde e que, se não sabia jogar a espada, se não metesse nisso. Ficou o Rei muito desgostoso, mas, por conselho de toda a corte, disse para o menino Luís que ele o tinha desacatado na pessoa de seu filho e então que tinha de o mandar matar se, no fim de quatro dias, lhe não viesse dizer quem eram seus pais. Em vista do que montou o menino a cavalo e foi ter com os velhos Reis contando o que lhe tinha sucedido e pedindo-lhes que lhe dissessem se eram ou não seus pais. Os pobres velhos começaram a chorar e responderam, na maior aflição, que não só eles não eram seus pais como nem mesmo sabiam quem eles fossem. — Então — disse o menino cheio de coragem — dê-me Vossa Majestade um cavalo e um criado, que eu vou em busca de meus pais. Deram-lhe o que pediu, abraçaram-no cheios de desgosto, e ele pôs-se a caminho. Ia pela estrada fora, ao acaso, sem bem saber o que fizesse, quando deu de cara com uma velha muito velha, muito encarquilhada, com o cabelo branco de neve, mas airosa e elegante como uma jovem. Vestida do mais precioso brocado, levava riquíssimas joias e montava um branco palafrém, vistosamente ajaezado. Quando o Príncipe passou, disse-lhe ela: — Onde vai o menino, tão triste? Aborrecido, vendo-a assim tão velha de cara e tão tola com seus fatos de menina, respondeu-lhe: — Deixe-me, que eu não estou para conversas. — Eu bem sei onde o menino vai! — tornou a velha — vai perguntar por seus pais. Mas não saberá se eu lho não disser. — Então diga lá! — Se casar comigo logo lho digo. O Príncipe deu uma gargalhada, dizendo em tom de mofa: — Eu casava lá com uma velha tão encarquilhada, que até parece a avó da minha avó! E, dando de esporas ao cavalo, deixou-a para trás. O criado, um bom e fiel servo que de pequenino o servia e estimava como filho, dizia-lhe: — Menino, olhe que a vida vale muito... Case com a velha. — Isso é que nunca! Antes morrer. Mais adiante, ele a imaginar que a velha ficava para trás sai-lhe ela ao caminho: — Então, menino, não quer casar comigo? Pois irá a morrer, porque só eu lhe posso descobrir este segredo. — Ora deixe-me em paz! — respondeu muito aborrecido. — Ai menino! Já só faltam três dias e vai a morrer! Ele não fez caso, continuou a andar. O criado quase a chorar, suplicava: — Menino, case com a velha, que a vida vale muito!... Lembre-se dos Reis que tão desgostosos ficaram de o ver partir! Diga que sim, menino Luís! Mais adiante aparece de novo a velha, cada vez mais direita sobre a sela. — Menino, olhe que todo o tempo próprio uma hora passa. Vai a morrer senão casa comigo! Para se ver livre da perseguição, respondeu enfastiado: — Pois sim, eu caso consigo; diga lá quem são os meus pais. — Olhe o menino não diga que casa para depois não querer, porque onde estiver lá lhe hei-de aparecer. E ele, consigo: — Sim, eu digo que caso e não casarei. Mas a velha não era pessoa a quem se enganasse, e disse logo: — Então há-de jurar, com palavra de Príncipe, cumprir o que disser. — Príncipe? Pois eu sou Príncipe?! — Sim, é Príncipe, e dos de melhor sangue de quantos reinam agora no Mundo. Jura casar? — Juro! — Então volte para trás e vá ao palácio dos Reis que o criaram. Eles são os seus avós, mas não lho diga, porque eles próprios o ignoram. Pergunte-lhes onde está a filha e vá lá ter com ela, que é essa a sua mãe. E, chamando-o de parte, ensinou-lhe o que devia fazer e desapareceu. Voltou o Príncipe Luís ao palácio e perguntou aos velhos Reis onde era a quinta em que morava a filha, pois queria ir despedir-se e agradecer o consentimento que ela tinha dado para o educarem no palácio. Lá lhe indicaram o caminho e partiu a todo o galope. Chegou ao portão, que encontrou aberto, desmontou-se e foi andando até dar com uma senhora muito triste, sentada debaixo dum chorão, junto duma fonte. Ele foi muito de manso, ajoelhou e beijou-lhe a mão, dizendo: — Minha mãe, dê-me a sua benção. A Princesa, sobressaltada, levantou-se. — Sua mãe?! — Sim! E se não me valer serei morto. Então contou à Princesa tudo o que sabia, e ela, reconhecendo que era o filho por quem tanto tinha chorado, imediatamente lhe entregou a caixa com o retrato do Rei e o colar que lhe tinha deixado. Despediu-se o Príncipe Luís, prometendo voltar um dia cedo. Foi dali ao palácio do velho Rei, que o tinha criado, e sabia agora ser o seu próprio avô, e disse-lhe: — Real Senhor, já sei quem são os meus pais; e posso dizer que sou filho de um grande Rei; peço-lhe, e à Rainha, minha senhora, que venham assistir à minha defesa. Ficaram os Reis muito contentes e, mandando logo aprontar os coches, partiram, seguidos de numerosa e brilhante comitiva, em direcção ao palácio do vizinho. Mal este os viu chegar, perguntou ao Príncipe Luís: — Espero que venhas dizer-me quem são os teus pais, pois teria grande desgosto se fosse obrigado a mandar-te matar. — Saiba Vossa Majestade que não posso dizer nada senão diante do Príncipe Pedro, a quem ofendi, da Rainha e da corte. Chamem o algoz, que eu estou pronto. O Rei ficou muito triste, pois tinha simpatizado muito com o Príncipe Luís, mas não havia remédio. O Pedro, a Rainha e toda a corte, que tinham notado esta preferência e por isso invejavam o Príncipe Luís, ficaram regozijados. Estava o quarto, onde a execução devia ser feita, forrado de preto, o algoz de cutelo na mão, tudo a postos, quando o menino entrou e, dirigindo-se ao Rei, pediu que mandasse chamar a mulherzinha do catraeiro que vivia defronte do palácio. Ficaram muito admirados, mas foram chamar a mulherzinha porque a vontade dum condenado é sagrada. Depois voltou-se para o Rei, que devia julgá-lo e disse: — Senhor, há treze anos existia um Rei de nobre carácter e leal coração, que foi a uma caçada e se perdeu dos companheiros. Era novo e aventuroso. Por isso, em lugar de se apoquentar com a contrariedade, foi andando alegremente até chegar a uma quinta muito afastada, onde encontrou uma jovem senhora, formosa como poucas, e Princesa também, herdeira dum grande reino. Por ordem do pai ali estava escondida, porque uma fada lhe tinha predito que daria grande desgosto aos pais. O nobre e valoroso Rei foi recebido pela Princesa e quatro dias ali esteve com ela. Depois partiu e os juramentos e promessas que à triste e bela senhora tinha feito não lhe tornaram a lembrar. Nunca mais procurou saber o que tinha sido feito da gentil menina, tendo jurado, à fé de cavaleiro, que a viria buscar em poucos dias, apenas os precisos para ir ao seu reino buscar carruagens e comitiva. Para prova da verdade lhe deixou o seu retrato e o colar que nos dias de gala era posto sobre a púrpura do seu manto real. Calou-se o Príncipe, e o Rei, muito ansiado, perguntou: — Mas que tens tu com esse deslembrado Príncipe? — Senhor, esse foi o meu pai. A desgraçada que, há treze anos, chora todas lágrimas da sua alma, essa é a minha mãe. O Rei correu para ele e abraçou-o a chorar, chamando-o filho. Todos estavam admiradíssimos com aquela cena, porque eram coisas que ninguém sabia senão os dois. Chamou o Príncipe Pedro para abraçar o irmão, mas o Príncipe Luís disse: — Abraçar o abraço eu, porque lhe não tenho raiva, mas não o chamarei irmão, porque não o é! — Não é, ora essa! — Não é. Pergunte ali à mulher do catraeiro de quem ele é filho. A mulher não queria dizer nada, mas com a ameaça que o Rei fez de a mandar pôr a ferros contou tudo o que nós sabemos. A Rainha, presa do mais violento ataque de fúria, fugiu e o Rei, tão escandalizado ficou de ter sido enganado, que imediatamente a mandou sair do seu reino para nunca mais lá entrar. Depois foi com o Príncipe Luís beijar a mão aos velhos Reis, pais da Princesa, e, pedindo-lhes perdão das suas culpas, logo combinaram ir à quinta buscá-la para ela ficar Rainha. Pedro, o filho do catraeiro, vendo que não era Príncipe como imaginava, não quis continuar no palácio; foi para casa de seus pais que muito o amaram, e na sua humilde e honesta posição foi sempre muito ditoso, tornando-se o maior amigo do Príncipe Luís. <div style="text-align: center; line-height: 1.1; margin: 1.5em 0;"> &#42;<br> &#42;&nbsp;&#42; </div> Quando a Princesa viu chegar à quinta os coches onde iam os pais, o filho e o Rei, sentiu uma alegria tão grande que a tiveram muito tempo por morta. Depois veio a si, e na maior satisfação se dirigiram todos à capital. Estavam na capela, e o patriarca pronto a deitar a bênção a toda a corte presente, quando sentiram um grande barulho de carruagens e viram entrar uma senhora riquissimamente vestida e muito elegante de corpo, mas tão rugosa e encarquilhada na cara que a todos causava riso. Dirigiu-se ao Príncipe Luís e disse-lhe: — Aqui me tens para cumprires a tua palavra. Perguntaram todos o que queria aquilo dizer, e ele contou como tinha sido e disse a promessa que fizera de casar com aquela dama, que o tinha livrado da morte e ensinado a conhecer os seus pais. Todos disseram que a palavra dum homem honrado não volta atrás e então que devia casar. O Príncipe não estava lá muito contente, mas, não havendo outro remédio, ali mesmo se fez o casamento. Passaram-se oito dias e o Príncipe Luís muito desconsolado com a noiva, nem para ela olhava nem lhe falava. Uma noite estava a dormir e ouve um ruído tão grande que todo o palácio estremeceu. Acordou sobressaltado e ouviu a voz da esposa que lhe dizia: — Não te assustes! Dize qual queres: mulher bonita para a toda a gente ver, ou feia para os outros e bonita só para ti? — Quero bonita só para mim. — Então acende a luz. O Príncipe fez o que ela disse e ficou maravilhado com a sua beleza. — Aqui me tens — disse ela — tal qual eu sou, pois um encanto mau, e só ele, me tornou feia e velha. O Príncipe ficou contentíssimo e loucamente apaixonado pela formosa esposa. De dia ficava ela outra vez com a cara encarquilhada, mas disso já o Príncipe se não importava, pois sabia que era assim só para os outros. Quando os viam, muito alegres, andarem sempre juntos, todos se admiravam do mau gosto do Príncipe, e ele ria-se com os seus botões. Assim se passaram oito dias. Uma noite, tinha o Príncipe Luís adormecido, ouviu outra vez um grande barulho e disse-lhe a Princesa: — Não te assustes! Dize qual queres: mulher bonita para toda a gente ver, ou feia para os outros e bonita só para ti? — Já disse que te prefiro bonita só para mim! — Agradeço-te, que por tua palavra me quebraste o mau encanto. Aqui tens mulher bonita para os outros e bonita para ti. Menina de quinze anos, filha do mais poderoso monarca do Mundo, senhora de sete Impérios, só tu me soubeste desencantar. Sete fadas me fadaram ao nascer para ter a cara de velha que tu viste, enquanto um nobre Príncipe me não quisesse desposar. Ora isso bem vês que seria impossível se não fosse a minha madrinha, a fada de melhor coração que existe, que me disse os segredos da tua vida. Assim, posso agora ser a mulher mais feliz que há na terra. — E eu também — disse o Príncipe — me considero o mais feliz dos homens. Ao outro dia, quando o Príncipe apareceu com a jovem e lindíssima esposa pela mão, todos ficaram extasiados, porque real mente nunca tinham visto uma tão linda cara. Mandaram logo portadores para prevenir o pai da Princesa, fizeram-se grandes festejos em acção de graças e foram estes os Príncipes mais felizes do Mundo inteiro. Seja Deus louvado, está o conto acabado. [[Categoria:Contos portugueses|História do Príncipe Luís]] 07vswvkmkea17vembl0a0tbe7c94kjc 560253 560245 2026-08-23T08:07:33Z Mt516 43586 560253 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = História do Príncipe Luís | anterior = [[../A Princesa da Áustria/]] | posterior = [[..//O Bicho-de-sete-cabeças]] | notas = }} '''<big>HISTÓRIA DO PRÍNCIPE LUÍS</big>''' HAVIA, um Rei e uma Rainha que não tinham filhos. Sentia o Rei grande desgosto com isso, e tanto que queria desmanchar o casamento por esse motivo. A Rainha, quando o soube foi ter com a mulher dum catraeiro que morava defronte do palácio e disse-lhe que lhe entregasse o filho que esperava, pois o queria fazer passar por seu levando-o para o palácio. E, dando muito dinheiro à mulher, tudo se combinou no mais absoluto segredo. Passado tempo, disse a Rainha ao marido que iam ter um herdeiro. O Rei, de contente que ficou, não houve a quem não participasse a sua felicidade. Veio o menino de casa do catraeiro e escondidamente o levaram para o quarto da Rainha, a qual, combinada com uma velha aia confidente, conseguiu enganar a todos. E — como quem mal não usa mal não cuida — o Rei amou a criança como se realmente fosse seu filho. Fizeram grandes festas por ocasião do baptizado do herdeiro do trono, que se ficou chamando Pedro. Pouco tempo antes tinha este Rei ido a uma caçada, perdendo-se no caminho. Andou para trás e para diante até que chegou à porta duma quinta. Como a visse aberta, entrou para descansar e ao mesmo tempo inquirir onde estava e a quem pertencia aquela propriedade tão linda. Qual não foi a sua surpresa vendo junto duma fonte, debaixo dum chorão, uma formosa menina. Dirigiu-se-lhe com toda a delicadeza, perguntando a razão de estar ali só. Ela respondeu, contando-lhe a sua história. Era filha dum poderoso Rei, que a mandou com uma aia para aquela quinta, longe de tudo, com proibição expressa de que a fossem ver, porque a sua sina dizia que havia de dar aos pais um grande desgosto. Imaginava o pobre Rei furtar-se à desgraça e à dor. Queixava-se a Princesinha de que vivia muito aborrecida, que lhe pareciam séculos os dias. Imagine-se pois como ela não estimaria a inesperada visita do amável Rei. Contou-lhe ele também que era senhor dum grande Reino, que era poderoso e rico mas que também vivia triste. Que de nome conhecia o pai dela, e que dali ia pedi-la em casamento. Passaram-se quatro dias na mais completa alegria e, no fim deles, despediu-se o Rei da Princesa, deixando-lhe uma caixa com o seu retrato e dentro o colar que os Reis do seu país costumavam usar nos dias de grande gala, dizendo-lhe que guardasse aquela prenda até que ele a fosse buscar, para a apresentar na corte como sua mulher. A Princesa ficou muito triste, esperando o Rei que nunca mais voltou! É que nesse tempo tinha a mulher feito o que dissemos, e ele, entretido com a criança que julgara seu filho, nunca mais se lembrou da pobre menina. Esta, muito desconsolada e saudosa, não fazia senão chorar a desgraça da sua triste vida. Por, mais que a aia a quisesse consolar dizendo-lhe que o Rei havia de voltar, ela já não podia ter esperança. Passado tempo, nasceu um menino, que era a criança mais linda que se tinha visto. A aia pegou nele, vestiu-o com a maior riqueza, e, metendo-o dentro dum cestinho, foi pô-lo à porta do palácio, onde viviam os pais da Princesa. Quando de manhã os guardas viram aquele cesto contendo uma criança, linda como os amores, foram logo a correr dar parte a Suas Majestades. O Rei, que primeiro o viu, mandou-o levar à Rainha e disse-lhe: — Ora aqui está uma coisa que eu estimava muito ver no palácio! Se a nossa filha se não escandalizasse, ficávamos com esta criança como se fosse nossa. Respondeu-lhe logo a Rainha: — Pois eu também o estimava e então vai tu perguntar à nossa filha a sua opinião e se ela consentir ficaremos todos bem. Montou o Rei a cavalo e foi à quinta onde a Princesa estava escondida; depois de o cumprimentar com muito afecto, perguntou ela: — Real Senhor, que prazer é o meu em o ver nesta casa! A que devo tal honra? — Minha filha — respondeu o Rei — vim visitar-te, porque já tinha saudades. Esta foi a primeira razão; mas também te queria dizer, em meu nome e da Rainha tua mãe, que apareceu um menino à porta do palácio, a coisa mais bonita que se tem visto e nós desejamos adoptá-lo, se tu consentires. A Princesa ficou muito contente por saber a criança tão bem entregue, e disse-lhe: — Tudo o que for da vossa vontade é também da minha. Despediu-se o velho rei deixando a filha consumida de saudades, mas descansada sobre a sorte do filho e voltou alegre ao palácio. Imediatamente procuraram ama, fizeram um rico enxoval ao menino, e com grande festa o baptizaram, dando-lhe o nome de Luís. Era uma criança muito bonita, muito inteligente e estudiosa de maneira que todos no palácio o adoravam e os professores não tinham nunca motivo de o castigar. Assim, quando ele chegou à idade de doze anos, o Rei, que o estremecia resolveu ir fazer uma viagem aos reinos vizinhos e levá-lo na sua companhia. Chegaram ao palácio do Rei, que era nem mais nem menos do que o pai do príncipe Luís — segredo que ninguém no mundo sabia. E vai, perguntou ele ao velho: — É seu filho? — Vive comigo como tal — respondeu o Rei. Mandou chamar o Pedro, para lhe apresentar também o seu herdeiro. Os pequenos, que eram da mesma idade, começaram a brincar. Mas não se podia comparar a graça do pequeno Luís com a rudeza do filho do catraeiro. O Rei ficou muito agradado dele e pediu ao avô que lho deixasse ali ficar uns dias, av er se o seu filho aprendia as maneiras dum verdadeiro Príncipe, pois tinha uma grande desconsolação de o ver tão grosseiro e ignorante, por mais mestres que lhe desse. O velho Rei consentiu em deixar o Luís, mas sòmente quatro dias, porque tanto ele como a Rainha não podiam viver longe do seu filho adoptivo. Ficou pois o menino que em breve era estimado por todos. Ora, andando uma vez a brincar com Pedro propôs-lhe irem simular um duelo. Dirigiram-se à sala de armas, escolheram duas espadas próprias e começaram a esgrimir. O Pedro não sabia nada daquele exercício, apesar de ter tido os melhores professores, enquanto o Luís jogava como um mestre. Assim foi que levou de vencida o amigo e, sem querer, lhe deu uma forte pancada nas costas quando ele fugia. Desesperado voltou-se o Pedro e gritou: — Tu não és Príncipe como eu, és um enjeitado que apareceu à porta do palácio do teu benfeitor. Luís, que se imaginava filho dos Reis que o tinham criado, não pôde sofrer que assim o insultassem e deu-lhe uma tremenda bofetada. Ele começou a gritar de tal maneira que toda a gente do palácio correu para ali, a saber o que tinha havido. Contou o Pedro que o menino Luís lhe tinha batido. Disse este que o outro o tinha insultado e por isso lhe batera, que era um cobarde e que, se não sabia jogar a espada, se não metesse nisso. Ficou o Rei muito desgostoso, mas, por conselho de toda a corte, disse para o menino Luís que ele o tinha desacatado na pessoa de seu filho e então que tinha de o mandar matar se, no fim de quatro dias, lhe não viesse dizer quem eram seus pais. Em vista do que montou o menino a cavalo e foi ter com os velhos Reis contando o que lhe tinha sucedido e pedindo-lhes que lhe dissessem se eram ou não seus pais. Os pobres velhos começaram a chorar e responderam, na maior aflição, que não só eles não eram seus pais como nem mesmo sabiam quem eles fossem. — Então — disse o menino cheio de coragem — dê-me Vossa Majestade um cavalo e um criado, que eu vou em busca de meus pais. Deram-lhe o que pediu, abraçaram-no cheios de desgosto, e ele pôs-se a caminho. Ia pela estrada fora, ao acaso, sem bem saber o que fizesse, quando deu de cara com uma velha muito velha, muito encarquilhada, com o cabelo branco de neve, mas airosa e elegante como uma jovem. Vestida do mais precioso brocado, levava riquíssimas joias e montava um branco palafrém, vistosamente ajaezado. Quando o Príncipe passou, disse-lhe ela: — Onde vai o menino, tão triste? Aborrecido, vendo-a assim tão velha de cara e tão tola com seus fatos de menina, respondeu-lhe: — Deixe-me, que eu não estou para conversas. — Eu bem sei onde o menino vai! — tornou a velha — vai perguntar por seus pais. Mas não saberá se eu lho não disser. — Então diga lá! — Se casar comigo logo lho digo. O Príncipe deu uma gargalhada, dizendo em tom de mofa: — Eu casava lá com uma velha tão encarquilhada, que até parece a avó da minha avó! E, dando de esporas ao cavalo, deixou-a para trás. O criado, um bom e fiel servo que de pequenino o servia e estimava como filho, dizia-lhe: — Menino, olhe que a vida vale muito... Case com a velha. — Isso é que nunca! Antes morrer. Mais adiante, ele a imaginar que a velha ficava para trás sai-lhe ela ao caminho: — Então, menino, não quer casar comigo? Pois irá a morrer, porque só eu lhe posso descobrir este segredo. — Ora deixe-me em paz! — respondeu muito aborrecido. — Ai menino! Já só faltam três dias e vai a morrer! Ele não fez caso, continuou a andar. O criado quase a chorar, suplicava: — Menino, case com a velha, que a vida vale muito!... Lembre-se dos Reis que tão desgostosos ficaram de o ver partir! Diga que sim, menino Luís! Mais adiante aparece de novo a velha, cada vez mais direita sobre a sela. — Menino, olhe que todo o tempo próprio uma hora passa. Vai a morrer senão casa comigo! Para se ver livre da perseguição, respondeu enfastiado: — Pois sim, eu caso consigo; diga lá quem são os meus pais. — Olhe o menino não diga que casa para depois não querer, porque onde estiver lá lhe hei-de aparecer. E ele, consigo: — Sim, eu digo que caso e não casarei. Mas a velha não era pessoa a quem se enganasse, e disse logo: — Então há-de jurar, com palavra de Príncipe, cumprir o que disser. — Príncipe? Pois eu sou Príncipe?! — Sim, é Príncipe, e dos de melhor sangue de quantos reinam agora no Mundo. Jura casar? — Juro! — Então volte para trás e vá ao palácio dos Reis que o criaram. Eles são os seus avós, mas não lho diga, porque eles próprios o ignoram. Pergunte-lhes onde está a filha e vá lá ter com ela, que é essa a sua mãe. E, chamando-o de parte, ensinou-lhe o que devia fazer e desapareceu. Voltou o Príncipe Luís ao palácio e perguntou aos velhos Reis onde era a quinta em que morava a filha, pois queria ir despedir-se e agradecer o consentimento que ela tinha dado para o educarem no palácio. Lá lhe indicaram o caminho e partiu a todo o galope. Chegou ao portão, que encontrou aberto, desmontou-se e foi andando até dar com uma senhora muito triste, sentada debaixo dum chorão, junto duma fonte. Ele foi muito de manso, ajoelhou e beijou-lhe a mão, dizendo: — Minha mãe, dê-me a sua benção. A Princesa, sobressaltada, levantou-se. — Sua mãe?! — Sim! E se não me valer serei morto. Então contou à Princesa tudo o que sabia, e ela, reconhecendo que era o filho por quem tanto tinha chorado, imediatamente lhe entregou a caixa com o retrato do Rei e o colar que lhe tinha deixado. Despediu-se o Príncipe Luís, prometendo voltar um dia cedo. Foi dali ao palácio do velho Rei, que o tinha criado, e sabia agora ser o seu próprio avô, e disse-lhe: — Real Senhor, já sei quem são os meus pais; e posso dizer que sou filho de um grande Rei; peço-lhe, e à Rainha, minha senhora, que venham assistir à minha defesa. Ficaram os Reis muito contentes e, mandando logo aprontar os coches, partiram, seguidos de numerosa e brilhante comitiva, em direcção ao palácio do vizinho. Mal este os viu chegar, perguntou ao Príncipe Luís: — Espero que venhas dizer-me quem são os teus pais, pois teria grande desgosto se fosse obrigado a mandar-te matar. — Saiba Vossa Majestade que não posso dizer nada senão diante do Príncipe Pedro, a quem ofendi, da Rainha e da corte. Chamem o algoz, que eu estou pronto. O Rei ficou muito triste, pois tinha simpatizado muito com o Príncipe Luís, mas não havia remédio. O Pedro, a Rainha e toda a corte, que tinham notado esta preferência e por isso invejavam o Príncipe Luís, ficaram regozijados. Estava o quarto, onde a execução devia ser feita, forrado de preto, o algoz de cutelo na mão, tudo a postos, quando o menino entrou e, dirigindo-se ao Rei, pediu que mandasse chamar a mulherzinha do catraeiro que vivia defronte do palácio. Ficaram muito admirados, mas foram chamar a mulherzinha porque a vontade dum condenado é sagrada. Depois voltou-se para o Rei, que devia julgá-lo e disse: — Senhor, há treze anos existia um Rei de nobre carácter e leal coração, que foi a uma caçada e se perdeu dos companheiros. Era novo e aventuroso. Por isso, em lugar de se apoquentar com a contrariedade, foi andando alegremente até chegar a uma quinta muito afastada, onde encontrou uma jovem senhora, formosa como poucas, e Princesa também, herdeira dum grande reino. Por ordem do pai ali estava escondida, porque uma fada lhe tinha predito que daria grande desgosto aos pais. O nobre e valoroso Rei foi recebido pela Princesa e quatro dias ali esteve com ela. Depois partiu e os juramentos e promessas que à triste e bela senhora tinha feito não lhe tornaram a lembrar. Nunca mais procurou saber o que tinha sido feito da gentil menina, tendo jurado, à fé de cavaleiro, que a viria buscar em poucos dias, apenas os precisos para ir ao seu reino buscar carruagens e comitiva. Para prova da verdade lhe deixou o seu retrato e o colar que nos dias de gala era posto sobre a púrpura do seu manto real. Calou-se o Príncipe, e o Rei, muito ansiado, perguntou: — Mas que tens tu com esse deslembrado Príncipe? — Senhor, esse foi o meu pai. A desgraçada que, há treze anos, chora todas lágrimas da sua alma, essa é a minha mãe. O Rei correu para ele e abraçou-o a chorar, chamando-o filho. Todos estavam admiradíssimos com aquela cena, porque eram coisas que ninguém sabia senão os dois. Chamou o Príncipe Pedro para abraçar o irmão, mas o Príncipe Luís disse: — Abraçar o abraço eu, porque lhe não tenho raiva, mas não o chamarei irmão, porque não o é! — Não é, ora essa! — Não é. Pergunte ali à mulher do catraeiro de quem ele é filho. A mulher não queria dizer nada, mas com a ameaça que o Rei fez de a mandar pôr a ferros contou tudo o que nós sabemos. A Rainha, presa do mais violento ataque de fúria, fugiu e o Rei, tão escandalizado ficou de ter sido enganado, que imediatamente a mandou sair do seu reino para nunca mais lá entrar. Depois foi com o Príncipe Luís beijar a mão aos velhos Reis, pais da Princesa, e, pedindo-lhes perdão das suas culpas, logo combinaram ir à quinta buscá-la para ela ficar Rainha. Pedro, o filho do catraeiro, vendo que não era Príncipe como imaginava, não quis continuar no palácio; foi para casa de seus pais que muito o amaram, e na sua humilde e honesta posição foi sempre muito ditoso, tornando-se o maior amigo do Príncipe Luís. <div style="text-align: center; line-height: 1.1; margin: 1.5em 0;"> &#42;<br> &#42;&nbsp;&#42; </div> Quando a Princesa viu chegar à quinta os coches onde iam os pais, o filho e o Rei, sentiu uma alegria tão grande que a tiveram muito tempo por morta. Depois veio a si, e na maior satisfação se dirigiram todos à capital. Estavam na capela, e o patriarca pronto a deitar a bênção a toda a corte presente, quando sentiram um grande barulho de carruagens e viram entrar uma senhora riquissimamente vestida e muito elegante de corpo, mas tão rugosa e encarquilhada na cara que a todos causava riso. Dirigiu-se ao Príncipe Luís e disse-lhe: — Aqui me tens para cumprires a tua palavra. Perguntaram todos o que queria aquilo dizer, e ele contou como tinha sido e disse a promessa que fizera de casar com aquela dama, que o tinha livrado da morte e ensinado a conhecer os seus pais. Todos disseram que a palavra dum homem honrado não volta atrás e então que devia casar. O Príncipe não estava lá muito contente, mas, não havendo outro remédio, ali mesmo se fez o casamento. Passaram-se oito dias e o Príncipe Luís muito desconsolado com a noiva, nem para ela olhava nem lhe falava. Uma noite estava a dormir e ouve um ruído tão grande que todo o palácio estremeceu. Acordou sobressaltado e ouviu a voz da esposa que lhe dizia: — Não te assustes! Dize qual queres: mulher bonita para a toda a gente ver, ou feia para os outros e bonita só para ti? — Quero bonita só para mim. — Então acende a luz. O Príncipe fez o que ela disse e ficou maravilhado com a sua beleza. — Aqui me tens — disse ela — tal qual eu sou, pois um encanto mau, e só ele, me tornou feia e velha. O Príncipe ficou contentíssimo e loucamente apaixonado pela formosa esposa. De dia ficava ela outra vez com a cara encarquilhada, mas disso já o Príncipe se não importava, pois sabia que era assim só para os outros. Quando os viam, muito alegres, andarem sempre juntos, todos se admiravam do mau gosto do Príncipe, e ele ria-se com os seus botões. Assim se passaram oito dias. Uma noite, tinha o Príncipe Luís adormecido, ouviu outra vez um grande barulho e disse-lhe a Princesa: — Não te assustes! Dize qual queres: mulher bonita para toda a gente ver, ou feia para os outros e bonita só para ti? — Já disse que te prefiro bonita só para mim! — Agradeço-te, que por tua palavra me quebraste o mau encanto. Aqui tens mulher bonita para os outros e bonita para ti. Menina de quinze anos, filha do mais poderoso monarca do Mundo, senhora de sete Impérios, só tu me soubeste desencantar. Sete fadas me fadaram ao nascer para ter a cara de velha que tu viste, enquanto um nobre Príncipe me não quisesse desposar. Ora isso bem vês que seria impossível se não fosse a minha madrinha, a fada de melhor coração que existe, que me disse os segredos da tua vida. Assim, posso agora ser a mulher mais feliz que há na terra. — E eu também — disse o Príncipe — me considero o mais feliz dos homens. Ao outro dia, quando o Príncipe apareceu com a jovem e lindíssima esposa pela mão, todos ficaram extasiados, porque real mente nunca tinham visto uma tão linda cara. Mandaram logo portadores para prevenir o pai da Princesa, fizeram-se grandes festejos em acção de graças e foram estes os Príncipes mais felizes do Mundo inteiro. Seja Deus louvado, está o conto acabado. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|História do Príncipe Luís]] inx21fsu0acmy4fh8a1n7hpdm9nrkb2 Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O leão de ouro 0 256723 560247 2026-08-23T07:57:38Z Mt516 43586 [[Ajuda:SEA|←]] nova página: {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O leão de ouro | anterior = [[../A mão de finado/]] | posterior = [[../A Princesa Macaca/]] | notas = }} '''<big>O LEÃO DE OURO</big>''' UM poderoso Rei de outrora viveu casado com a mais bela senhora do Mundo. A sua formosura tinha sido cantada por trovadores e poetas que lhe deram fama universal e imorredoura. O marido gostava tanto... 560247 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O leão de ouro | anterior = [[../A mão de finado/]] | posterior = [[../A Princesa Macaca/]] | notas = }} '''<big>O LEÃO DE OURO</big>''' UM poderoso Rei de outrora viveu casado com a mais bela senhora do Mundo. A sua formosura tinha sido cantada por trovadores e poetas que lhe deram fama universal e imorredoura. O marido gostava tanto dela, que não havia memória dum casal tão feliz. Mas um dia a pobre Rainha começou a sentir-se doente, e, por mais remédios e cuidados de que a rodeassem, o mal não cedeu a coisa alguma. Pressentiu que ia morrer e chamou o esposo para lhe fazer um pedido. Lavado em lágrimas, sufocado com os soluços, veio o triste do Rei junto do leito, jurando por sua coroa e fé de cavaleiro fazer tudo que ela pedisse. Então, já com voz de quem vai morrer, disse a Rainha entre suspiros: — Se jurais pela vossa coroa de Rei e fé de cavaleiro fazer o que vos peço, Senhor, eu morro satisfeita. Pois a minha última vontade é que vós não tomeis a casar depois da minha morte, salvo se encontrardes uma senhora que me exceda ou iguale em beleza e espírito, e tenha dedos tão delicados que lhe possais oferecer este anel que vos entrego. O Rei, muito consternado, nem queria ouvir falar de segundo casamento, mas a moribunda exigiu, e não houve remédio senão jurar solenemente tudo quanto ela quis. Feito isto, morreu a desditosa Rainha descansada, pois tinha a certeza que deixaria um viúvo eterno, pois milagre seria encontrar no Mundo uma mulher que a igualasse em formosura, bondade, graça e delicadeza. O Rei chorou e afligiu-se tanto que toda a gente imaginou que ele iria atrás da morta ou endoideceria de dor. Mas, como tal não aconteceu, bem cedo se consolou, porque é certo que as mais fortes tempestades são as de menos dura. Mal o desgosto abrandou, sentiu que era preciso arranjar noiva e casar segunda vez, porque só casado ele fora completamente feliz. Por sua vontade não se prenderia a procurar uma beleza rara, porque a morte ainda leva mais depressa os que têm merecimentos. Mas que remédio havia senão procurá-la, senão ousaria quebrar o juramento e a palavra dum Rei não pode voltar atrás. Tratou por isso de mandar os seus emissários a todos os Reinos do Mundo e de toda a parte lhe vinham retratos de lindas Princesas, umas louras e brancas de neve, outras morenas e de grandes olhos tão negros como a noite, mas nenhum veio que se pudesse comparar ao lindo retrato da Rainha morta, que na grande sala do trono parecia desafiar todas as comparações e não temer o concurso de todas as formosuras. Fiel à beleza da Rainha morta andava o Rei tão descoroçoado que prometia casar com aquela a quem servisse o anel da defunta, fosse embora mais feia. Mas o pequenino aro de ouro era de tal delicadeza que nenhuma Princesa ou dama conseguiu fazê-lo entrar no dedo. Enchia o Rei o paço com as fúrias da sua raiva e pensava em mandar os seus bispos a Roma para que o Santo Padre lhe relevasse o juramento, quando lhe lembrou que a Princesa sua filha era ainda mais formosa do que fora a mãe e tinha tão delicadas mãos que nem os anjos nem as fadas as teriam iguais. Chamou-a e disse-lhe: — Minha filha, hás-de casar comigo, para que eu possa cumprir o juramento que fiz a tua mãe. — Senhor, que isso não vos passe pela cabeça! — Filha, hás-de casar comigo ou morrerás. — Morrerei, Senhor. Foi o que pôde responder, que as lágrimas lhe embargaram a voz. Retirou-se aos seus aposentos e chorou tanto, tanto, que um pequeno pagem que a servia e lhe era muito dedicado, se ofereceu para ir ao reino das fadas chamar a madrinha da Princesa, fada Safira. — Como poderias tu fazer tal, meu pobre amigo, se o reino das fadas é tão longe e de tão difícil caminho, que nenhum mortal ainda lá chegou?! Mas o teu oferecimento me faz lembrar que minha mãe me entregou uma vara de condão com a qual poderei chamar a minha madrinha. Ai de mim! Tão feliz tenho sido que nunca me lembrou de chamar as fadas e até me esquecera de que elas existiam. Correndo a um cofre de ouro marchetado, tirou uma pequenina vara de diamante e disse: — Varinha de condão, pelo condão que Deus te deu, faze com que a minha boa madrinha aqui apareça já. Imediatamente o chão estremeceu, e a formosa fada Safira apareceu diante da Princesa enchendo-a de admiração pela graça aérea do seu porte e riqueza inexcedível do trajar. — Já sei o que te apoquenta, minha afilhada, mas não quero que penses em morrer. Dize a teu pai que o aceitas para marido se ele te der um vestido que seja semelhante a um campo de flores. A Princesa beijou a mão à boa fada e foi logo ter com o Rei para lhe dizer a condição que punha ao seu intento. O Rei chamou os melhores artistas da sua capital e ameaçou-os com pena de morte se em oito dias lhe não entregassem o vestido tal como a Princesa o pedia. Já a menina estava muito satisfeita julgando tal coisa impossível de realizar, quando, passados oito dias, o pai lhe mandou apresentar o vestido de campo de flores, que era a mais bela e magnificente obra que até então saíra de mãos de artistas. Voltou ela para o quarto a chorar, mais triste do que nunca, porque prometera casar se lhe dessem o que lhe davam e não sabia livrar-se do compromisso. A madrinha apareceu logo e com estas palavras a consolou: — Teu pai pôde conseguir esta maravilha, mas de certo não terá artistas que lhe façam um vestido que seja como as estrelas do céu. Vai lá dizer que só casarás em o tendo. Foi a Princesa, toda satisfeita, pedir ao pai o vestido cor das estrelas do céu, e ele imediatamente mandou vir os melhores artistas do reino para o encomendar. Pôs à sua disposição dinheiro e jóias sem conto e ameaçou-os de pena de morte se o não fizessem no prazo de oito dias. A Princesa, muito aflita, não fazia senão mandar o pagenzito ver em que ponto ia o trabalho, e quando ele lhe dizia que estava adiantado, cuidava morrer de desgosto. No fim dos fatais oito dias estava o vestido pronto. Se o do campo de flores era lindo, aquele era um verdadeiro deslumbramento. Representava um céu todo recamado de estrelas, umas mais pequenas, outras maiores, umas mais brilhantes, outras menos; enfim, ninguém dizia senão que o Rei mandara cortar um pedaço do firmamento para satisfazer a jovem Princesa. E ela, apesar do seu desgosto, ficou maravilhada como toda a gente que via um trabalho tão perfeito e rico. Mas o seu desgosto era cada vez maior. De novo se escondeu no seu quarto a chorar e chamou a fada Safira, que apareceu instantâneamente. Aconselhou-a ainda a pedir ao pai um vestido que representasse todas as qualidades de peixes quantas há nó mar. A menina foi dizer o que desejava e o Rei logo mandou vir à sua presença não só os artistas do seu país mas também muitos de outros reinos, pois esse era o mais difícil de todos os trabalhos. Já a Princesa estava esperançada em que a dificuldade do trabalho a livraria de mais penas, quando o pagem lhe veio dizer que a obra estava principiada e excedia tudo quanto se poderia sonhar. Passados oito dias, estava pronto, e a menina não sabia se havia de chorar por se ver sem pretextos para recusar cumprir a vontade louca do pai, ou se havia de admirar o encantador trabalho que lhe punham diante dos olhos. Mal chegou ao quarto chorou à vontade, e chamou a madrinha que a consolou, dizendo-lhe: — Não te apoquentes. Agora que sabemos que a nenhuma despesa teu pai se furta para realizar seu louco intento, vai pedir-lhe que te mande fazer um leão de ouro. Depois vai falar com o artista encarregado de o fazer e dize-lhe que o faça oco e bastante grande e largo, para tu lá caberes. Que lhe ponha um segredo que só tu conheças para se abrir e fechar de dentro e depois mete-te lá dentro com os teus vestidos e comida para alguns dias, e deixa o resto por minha conta. A Princesinha tudo executou como a madrinha ordenara. Mal soube o nome do artista encarregado da obra, mandou o seu fiel pagem chamá-lo e comprou-lhe o segredo por tudo quanto ele quis. Passados oito dias, veio o leão de ouro para casa e a todos causou espanto pelo seu valor e merecimento artístico. A menina mandou-o pôr no seu quarto, meteu-lhe dentro os vestidos, jóias e comer para uns poucos de dias, e depois de se despedir do seu fiel pagem entrou para o esconderijo e fechou-se com o segredo que só ela e o artista sabiam. Quando ao outro dia as aias iam vestir a Princesa para o casamento, apenas encontraram no quarto o leão de ouro. Correram a dar parte ao Rei, que ficou como doido de fúria. Mandou soldados por todas as estradas e pregões por todas as terras para que a pessoa que tivesse a Princesa fosse imediatamente entregá-la, sob pena de morte se não o cumprisse. E ela dentro do leão de ouro tudo via e ouvia pelos olhos e ouvidos da estátua e louvava Deus pela boa ideia da fada. Tanto se desesperou o Rei, que nem mais quis ter a estátua no palácio, e mandou-a pôr à venda. Quando estavam executando as suas ordens apareceu um Príncipe, herdeiro dum reino amigo, que andava a conhecer o Mundo, e tanto gostou daquela obra de arte que a comprou e levou para o seu palácio. Quando o Príncipe voltou ao seu país fizeram-se grandes demonstrações de regozijo e deram-se três festas em acção de graças pelo feliz regresso. A primeira foi religiosa. Estava o Príncipe com toda a corte assistindo à missa na Catedral, quando entrou uma senhora tão linda que até imaginaram que era alguma santa do altar e ricamente vestida com o vestido do campo de flores. O Príncipe não mais tirou os olhos dela e quando saíram esperou-a à porta e perguntou-lhe: — Senhora, de que país é? — Sou do país das flores do campo. — Em toda a parte há campo e flores; percorri todo o Mundo e em país algum encontrei mulher tão linda. A Princesa sorriu e tratou de fugir indo depressa meter-se no seu esconderijo. No dia seguinte era uma romaria. Vestiu o vestido do céu estrelado, e, quando já todos tinham partido para a festa, foi ela. O Príncipe, que ansioso esperava, mal a viu correu ao seu encontro, acompanhou-a sempre, e no fim perguntou-lhe de que país era. — Sou do país das estrelas do céu — respondeu a menina. — Em toda a parte o céu estrelado cobre a terra, gentil senhora. Dizei-me pois o nome da região ditosa que vos viu nascer, ou então onde habitais, para que eu vos possa procurar. A jovem sorriu da tristeza do moço cavaleiro, e, sem dar mais resposta, desapareceu. No terceiro dia era baile no paço, e ela deixou que a festa estivesse na maior animação para sair de dentro do leão de ouro sem ser pressentida, e apareceu mais deslumbrante do que nunca, com o seu vestido dos peixes. O Príncipe só com ela dançou em toda a noite e no fim perguntou-lhe de que país era. — Sou do país onde o mar tem peixes, cavaleiro — respondeu-lhe com graça. — Vejo que estais mangando comigo, bela dama, pois todo o mar tem peixes. A Princesa não quis dizer mais e escapou-se para o seu esconderijo, onde ninguém seria capaz de a encontrar. O moço Príncipe mandou-a procurar por toda aparte, e, como ninguém lhe dava conta de tal senhora, adoeceu de paixão. Não houve remédio que lhe não fizessem e ele ia de mal a pior. Os médicos, sem saberem o que haviam de fazer, mandavam-no sair para se distrair — velho costume da medicina quando não atina com a moléstia. Um dia, porém, vinha ele da caça com a comitiva de fidalgos moços, que sempre o acompanhavam, e todos viram a formosa desconhecida que apareceu à janela do paço com o vestido de campo de flores. O Príncipe, que não levantava os olhos do chão, não viu, mas, ouvindo o que os outros diziam, correu até onde estava a Rainha-mãe e perguntou-lhe se lá estava hospedada a menina. Respondeu-lhe que não, e que por força tinham sonhado, porque no palácio não entrara ninguém. Segunda vez foi ele passear e aconteceu o mesmo, mostrando-se então a menina com o vestido das estrelas do céu. Todos a viram, menos o Príncipe, que se finava de mágoa. Passados dias volta ele à caça e quando recolhiam pôs-se mais atento, e teve o prazer de ver a linda Princesa com o seu fato de peixes. Correu ao palácio, percorreu-o todo inùtilmente, e, já estava desanimado, quando por acaso olhou para o leão de ouro e viu uma pontinha do vestido de fora. Pediu então que saísse, que ele não queria outra para esposa. A Princesa saiu do esconderijo, contou tudo que lhe tinha sucedido e de bom grado o aceitou para esposo. Fizeram-se grandes festas e a menina pediu para ser convidado o Rei seu pai. Já a esse tempo ele tinha casado com a fada Safira, que não encontrou outro meio de sossegar aquele espírito. Só uma verdadeira fada poderia substituir a infeliz e formosíssima Rainha morta ou a não menos formosa filha. No dia do casamento apareceram os monarcas, trazidos num carro de fogo puxado por dois dragões que vomitavam chamas. Quando o Rei reconheceu a filha, pediu-lhe perdão por tudo quanto a fizera sofrer, mas a Princesa, junto do Príncipe, sorrindo ao seu amor e felicidade, mostrou-lhe que, mesmo no mal, pode haver o motivo para um grande bem. [[Categoria:Contos portugueses|O leão de ouro]] d4t7909eblenkylrht9b6x5z12ugrgi 560263 560247 2026-08-23T08:12:42Z Mt516 43586 560263 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O leão de ouro | anterior = [[../A mão de finado/]] | posterior = [[../A Princesa Macaca/]] | notas = }} '''<big>O LEÃO DE OURO</big>''' UM poderoso Rei de outrora viveu casado com a mais bela senhora do Mundo. A sua formosura tinha sido cantada por trovadores e poetas que lhe deram fama universal e imorredoura. O marido gostava tanto dela, que não havia memória dum casal tão feliz. Mas um dia a pobre Rainha começou a sentir-se doente, e, por mais remédios e cuidados de que a rodeassem, o mal não cedeu a coisa alguma. Pressentiu que ia morrer e chamou o esposo para lhe fazer um pedido. Lavado em lágrimas, sufocado com os soluços, veio o triste do Rei junto do leito, jurando por sua coroa e fé de cavaleiro fazer tudo que ela pedisse. Então, já com voz de quem vai morrer, disse a Rainha entre suspiros: — Se jurais pela vossa coroa de Rei e fé de cavaleiro fazer o que vos peço, Senhor, eu morro satisfeita. Pois a minha última vontade é que vós não tomeis a casar depois da minha morte, salvo se encontrardes uma senhora que me exceda ou iguale em beleza e espírito, e tenha dedos tão delicados que lhe possais oferecer este anel que vos entrego. O Rei, muito consternado, nem queria ouvir falar de segundo casamento, mas a moribunda exigiu, e não houve remédio senão jurar solenemente tudo quanto ela quis. Feito isto, morreu a desditosa Rainha descansada, pois tinha a certeza que deixaria um viúvo eterno, pois milagre seria encontrar no Mundo uma mulher que a igualasse em formosura, bondade, graça e delicadeza. O Rei chorou e afligiu-se tanto que toda a gente imaginou que ele iria atrás da morta ou endoideceria de dor. Mas, como tal não aconteceu, bem cedo se consolou, porque é certo que as mais fortes tempestades são as de menos dura. Mal o desgosto abrandou, sentiu que era preciso arranjar noiva e casar segunda vez, porque só casado ele fora completamente feliz. Por sua vontade não se prenderia a procurar uma beleza rara, porque a morte ainda leva mais depressa os que têm merecimentos. Mas que remédio havia senão procurá-la, senão ousaria quebrar o juramento e a palavra dum Rei não pode voltar atrás. Tratou por isso de mandar os seus emissários a todos os Reinos do Mundo e de toda a parte lhe vinham retratos de lindas Princesas, umas louras e brancas de neve, outras morenas e de grandes olhos tão negros como a noite, mas nenhum veio que se pudesse comparar ao lindo retrato da Rainha morta, que na grande sala do trono parecia desafiar todas as comparações e não temer o concurso de todas as formosuras. Fiel à beleza da Rainha morta andava o Rei tão descoroçoado que prometia casar com aquela a quem servisse o anel da defunta, fosse embora mais feia. Mas o pequenino aro de ouro era de tal delicadeza que nenhuma Princesa ou dama conseguiu fazê-lo entrar no dedo. Enchia o Rei o paço com as fúrias da sua raiva e pensava em mandar os seus bispos a Roma para que o Santo Padre lhe relevasse o juramento, quando lhe lembrou que a Princesa sua filha era ainda mais formosa do que fora a mãe e tinha tão delicadas mãos que nem os anjos nem as fadas as teriam iguais. Chamou-a e disse-lhe: — Minha filha, hás-de casar comigo, para que eu possa cumprir o juramento que fiz a tua mãe. — Senhor, que isso não vos passe pela cabeça! — Filha, hás-de casar comigo ou morrerás. — Morrerei, Senhor. Foi o que pôde responder, que as lágrimas lhe embargaram a voz. Retirou-se aos seus aposentos e chorou tanto, tanto, que um pequeno pagem que a servia e lhe era muito dedicado, se ofereceu para ir ao reino das fadas chamar a madrinha da Princesa, fada Safira. — Como poderias tu fazer tal, meu pobre amigo, se o reino das fadas é tão longe e de tão difícil caminho, que nenhum mortal ainda lá chegou?! Mas o teu oferecimento me faz lembrar que minha mãe me entregou uma vara de condão com a qual poderei chamar a minha madrinha. Ai de mim! Tão feliz tenho sido que nunca me lembrou de chamar as fadas e até me esquecera de que elas existiam. Correndo a um cofre de ouro marchetado, tirou uma pequenina vara de diamante e disse: — Varinha de condão, pelo condão que Deus te deu, faze com que a minha boa madrinha aqui apareça já. Imediatamente o chão estremeceu, e a formosa fada Safira apareceu diante da Princesa enchendo-a de admiração pela graça aérea do seu porte e riqueza inexcedível do trajar. — Já sei o que te apoquenta, minha afilhada, mas não quero que penses em morrer. Dize a teu pai que o aceitas para marido se ele te der um vestido que seja semelhante a um campo de flores. A Princesa beijou a mão à boa fada e foi logo ter com o Rei para lhe dizer a condição que punha ao seu intento. O Rei chamou os melhores artistas da sua capital e ameaçou-os com pena de morte se em oito dias lhe não entregassem o vestido tal como a Princesa o pedia. Já a menina estava muito satisfeita julgando tal coisa impossível de realizar, quando, passados oito dias, o pai lhe mandou apresentar o vestido de campo de flores, que era a mais bela e magnificente obra que até então saíra de mãos de artistas. Voltou ela para o quarto a chorar, mais triste do que nunca, porque prometera casar se lhe dessem o que lhe davam e não sabia livrar-se do compromisso. A madrinha apareceu logo e com estas palavras a consolou: — Teu pai pôde conseguir esta maravilha, mas de certo não terá artistas que lhe façam um vestido que seja como as estrelas do céu. Vai lá dizer que só casarás em o tendo. Foi a Princesa, toda satisfeita, pedir ao pai o vestido cor das estrelas do céu, e ele imediatamente mandou vir os melhores artistas do reino para o encomendar. Pôs à sua disposição dinheiro e jóias sem conto e ameaçou-os de pena de morte se o não fizessem no prazo de oito dias. A Princesa, muito aflita, não fazia senão mandar o pagenzito ver em que ponto ia o trabalho, e quando ele lhe dizia que estava adiantado, cuidava morrer de desgosto. No fim dos fatais oito dias estava o vestido pronto. Se o do campo de flores era lindo, aquele era um verdadeiro deslumbramento. Representava um céu todo recamado de estrelas, umas mais pequenas, outras maiores, umas mais brilhantes, outras menos; enfim, ninguém dizia senão que o Rei mandara cortar um pedaço do firmamento para satisfazer a jovem Princesa. E ela, apesar do seu desgosto, ficou maravilhada como toda a gente que via um trabalho tão perfeito e rico. Mas o seu desgosto era cada vez maior. De novo se escondeu no seu quarto a chorar e chamou a fada Safira, que apareceu instantâneamente. Aconselhou-a ainda a pedir ao pai um vestido que representasse todas as qualidades de peixes quantas há nó mar. A menina foi dizer o que desejava e o Rei logo mandou vir à sua presença não só os artistas do seu país mas também muitos de outros reinos, pois esse era o mais difícil de todos os trabalhos. Já a Princesa estava esperançada em que a dificuldade do trabalho a livraria de mais penas, quando o pagem lhe veio dizer que a obra estava principiada e excedia tudo quanto se poderia sonhar. Passados oito dias, estava pronto, e a menina não sabia se havia de chorar por se ver sem pretextos para recusar cumprir a vontade louca do pai, ou se havia de admirar o encantador trabalho que lhe punham diante dos olhos. Mal chegou ao quarto chorou à vontade, e chamou a madrinha que a consolou, dizendo-lhe: — Não te apoquentes. Agora que sabemos que a nenhuma despesa teu pai se furta para realizar seu louco intento, vai pedir-lhe que te mande fazer um leão de ouro. Depois vai falar com o artista encarregado de o fazer e dize-lhe que o faça oco e bastante grande e largo, para tu lá caberes. Que lhe ponha um segredo que só tu conheças para se abrir e fechar de dentro e depois mete-te lá dentro com os teus vestidos e comida para alguns dias, e deixa o resto por minha conta. A Princesinha tudo executou como a madrinha ordenara. Mal soube o nome do artista encarregado da obra, mandou o seu fiel pagem chamá-lo e comprou-lhe o segredo por tudo quanto ele quis. Passados oito dias, veio o leão de ouro para casa e a todos causou espanto pelo seu valor e merecimento artístico. A menina mandou-o pôr no seu quarto, meteu-lhe dentro os vestidos, jóias e comer para uns poucos de dias, e depois de se despedir do seu fiel pagem entrou para o esconderijo e fechou-se com o segredo que só ela e o artista sabiam. Quando ao outro dia as aias iam vestir a Princesa para o casamento, apenas encontraram no quarto o leão de ouro. Correram a dar parte ao Rei, que ficou como doido de fúria. Mandou soldados por todas as estradas e pregões por todas as terras para que a pessoa que tivesse a Princesa fosse imediatamente entregá-la, sob pena de morte se não o cumprisse. E ela dentro do leão de ouro tudo via e ouvia pelos olhos e ouvidos da estátua e louvava Deus pela boa ideia da fada. Tanto se desesperou o Rei, que nem mais quis ter a estátua no palácio, e mandou-a pôr à venda. Quando estavam executando as suas ordens apareceu um Príncipe, herdeiro dum reino amigo, que andava a conhecer o Mundo, e tanto gostou daquela obra de arte que a comprou e levou para o seu palácio. Quando o Príncipe voltou ao seu país fizeram-se grandes demonstrações de regozijo e deram-se três festas em acção de graças pelo feliz regresso. A primeira foi religiosa. Estava o Príncipe com toda a corte assistindo à missa na Catedral, quando entrou uma senhora tão linda que até imaginaram que era alguma santa do altar e ricamente vestida com o vestido do campo de flores. O Príncipe não mais tirou os olhos dela e quando saíram esperou-a à porta e perguntou-lhe: — Senhora, de que país é? — Sou do país das flores do campo. — Em toda a parte há campo e flores; percorri todo o Mundo e em país algum encontrei mulher tão linda. A Princesa sorriu e tratou de fugir indo depressa meter-se no seu esconderijo. No dia seguinte era uma romaria. Vestiu o vestido do céu estrelado, e, quando já todos tinham partido para a festa, foi ela. O Príncipe, que ansioso esperava, mal a viu correu ao seu encontro, acompanhou-a sempre, e no fim perguntou-lhe de que país era. — Sou do país das estrelas do céu — respondeu a menina. — Em toda a parte o céu estrelado cobre a terra, gentil senhora. Dizei-me pois o nome da região ditosa que vos viu nascer, ou então onde habitais, para que eu vos possa procurar. A jovem sorriu da tristeza do moço cavaleiro, e, sem dar mais resposta, desapareceu. No terceiro dia era baile no paço, e ela deixou que a festa estivesse na maior animação para sair de dentro do leão de ouro sem ser pressentida, e apareceu mais deslumbrante do que nunca, com o seu vestido dos peixes. O Príncipe só com ela dançou em toda a noite e no fim perguntou-lhe de que país era. — Sou do país onde o mar tem peixes, cavaleiro — respondeu-lhe com graça. — Vejo que estais mangando comigo, bela dama, pois todo o mar tem peixes. A Princesa não quis dizer mais e escapou-se para o seu esconderijo, onde ninguém seria capaz de a encontrar. O moço Príncipe mandou-a procurar por toda aparte, e, como ninguém lhe dava conta de tal senhora, adoeceu de paixão. Não houve remédio que lhe não fizessem e ele ia de mal a pior. Os médicos, sem saberem o que haviam de fazer, mandavam-no sair para se distrair — velho costume da medicina quando não atina com a moléstia. Um dia, porém, vinha ele da caça com a comitiva de fidalgos moços, que sempre o acompanhavam, e todos viram a formosa desconhecida que apareceu à janela do paço com o vestido de campo de flores. O Príncipe, que não levantava os olhos do chão, não viu, mas, ouvindo o que os outros diziam, correu até onde estava a Rainha-mãe e perguntou-lhe se lá estava hospedada a menina. Respondeu-lhe que não, e que por força tinham sonhado, porque no palácio não entrara ninguém. Segunda vez foi ele passear e aconteceu o mesmo, mostrando-se então a menina com o vestido das estrelas do céu. Todos a viram, menos o Príncipe, que se finava de mágoa. Passados dias volta ele à caça e quando recolhiam pôs-se mais atento, e teve o prazer de ver a linda Princesa com o seu fato de peixes. Correu ao palácio, percorreu-o todo inùtilmente, e, já estava desanimado, quando por acaso olhou para o leão de ouro e viu uma pontinha do vestido de fora. Pediu então que saísse, que ele não queria outra para esposa. A Princesa saiu do esconderijo, contou tudo que lhe tinha sucedido e de bom grado o aceitou para esposo. Fizeram-se grandes festas e a menina pediu para ser convidado o Rei seu pai. Já a esse tempo ele tinha casado com a fada Safira, que não encontrou outro meio de sossegar aquele espírito. Só uma verdadeira fada poderia substituir a infeliz e formosíssima Rainha morta ou a não menos formosa filha. No dia do casamento apareceram os monarcas, trazidos num carro de fogo puxado por dois dragões que vomitavam chamas. Quando o Rei reconheceu a filha, pediu-lhe perdão por tudo quanto a fizera sofrer, mas a Princesa, junto do Príncipe, sorrindo ao seu amor e felicidade, mostrou-lhe que, mesmo no mal, pode haver o motivo para um grande bem. 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