Wikisource ptwikisource https://pt.wikisource.org/wiki/Wikisource:P%C3%A1gina_principal MediaWiki 1.47.0-wmf.16 first-letter Multimédia Especial Discussão Utilizador Utilizador Discussão Wikisource Wikisource Discussão Ficheiro Ficheiro Discussão MediaWiki MediaWiki Discussão Predefinição Predefinição Discussão Ajuda Ajuda Discussão Categoria Categoria Discussão Portal Portal Discussão Autor Autor Discussão Galeria Galeria Discussão Página Página Discussão Em Tradução Discussão Em Tradução Anexo Anexo Discussão TimedText TimedText talk Módulo Módulo Discussão Translations Translations talk Evento Evento Discussão A Aia 0 1517 560380 187882 2026-08-24T14:35:17Z ~2026-46009-95 43642 560380 wikitext text/x-wiki {{navegar |obra=A Aia |autor=Eça de Queirós |notas={{integra|conto=[[Contos (Eça de Queirós)|Contos]].}} }} &nbsp;Era uma vez um rei, moço e valente, senhor de um reino abundante em cidades e searas, que partira a batalhar por terras distantes, deixando solitária e triste sua rainha e um filhinho, que ainda vivia no seu berço, dentro das suas faixas. &nbsp;A lua cheia que o vira marchar, levado no seu sonho de conquista e de fama, começava a minguar &mdash; quando um dos seus cavaleiros apareceu, com as armas rotas, negro do sangue seco e do pó dos caminhos, trazendo a amarga nova de uma batalha perdida e da morte do rei, trespassado por sete lanças entre a flor da sua nobreza, à beira de um grande rio. &nbsp;A rainha chorou magnificamente o rei. Chorou ainda desoladamente o esposo, que era formoso e alegre. Mas, sobretudo, chorou ansiosamente o pai que assim deixava o filhinho desamparado, no meio de tantos inimigos da sua frágil vida e do reino que seria seu, sem um braço que o defendesse, forte pela força e forte pelo amor. &nbsp;Desses inimigos o mais temeroso era seu tio, irmão bastardo do rei, homem depravado e bravio, consumido de cobiças grosseiras, desejando só a realeza com uma horda de rebeldes, à maneira de um lobo que, entre a sua atalaia, espera a presa. Ai! a presa agora era aquela criancinha, rei de mama, senhor de tantas províncias, e que dormia no seu berço com o seu guizo de ouro fechado na mão! &nbsp;Ao lado dele, outro menino dormia noutro berço. Mas este era um escravozinho, filho da bela e robusta escrava que amamentava o príncipe. Ambos tinham nascido na mesma noite de Verão. O mesmo seio os criara. Quando a rainha, antes de adormecer, vinha beijar o principezinho, que tinha o cabelo louro e fino, beijava também por amor dele o escravozinho, que tinha o cabelo negro e crespo. Os olhos de ambos reluziam como pedras preciosas. Somente o berço de um magnífico e de marfim entre brocados &mdash; e o berço do outro pobre e de verga. A leal escrava, porém, a ambos cercava de carinho igual, porque se um era seu filho &mdash; o outro seria seu rei. &nbsp;Nascida aquela casa real, ela tinha a paixão, a religião dos seus senhores.<br /> Nenhum pranto correra mais sentidamente do que o seu pelo rei morto à beira do grande rio. Pertencia, porém, a uma raça que acredita que a vida da Terra se continua no Céu. O seu rei amo, decerto, já estaria agora reinando num outro reino, para além das nuvens, abundante também em searas e cidades. O seu cavalo de batalha, as suas armas, os seus pajens tinham subido com ele às alturas. Os seus vassalos, que fossem morrendo, prontamente iriam nesse reino celeste retomar em torno dele a sua vassalagem. E ela um dia, por seu turno, remontaria num raio a habitar o palácio do seu senhor, e a fiar de novo o linho das suas túnicas, e a acender de novo a caçoleta dos seus perfumes; seria no Céu como fora na Terra, e feliz na sua servidão. &nbsp;Todavia, também ela tremia pelo seu principezinho! Quantas vezes, com ele pendurado do peito, pensava na sua fragilidade, na sua longa infância, nos seus anos lentos que correriam antes que ele fosse ao menos do tamanho de uma espada, e naquele tio cruel, de face mais escura que a noite e coração mais escuro que a face, faminto do trono e espreitando de cima do seu rochedo entre os alfanges da sua horda! Pobre principezinho de sua alma! Com uma ternura maior o apertava então nos braços. Mas se o seu filho chorava ao lado &mdash; era para ele que os seus braços corriam com um ardor mais feliz. Esse, na sua indigência, nada tinha a recear da vida. Desgraças, assaltos da sorte má nunca o poderiam deixar mais despido de glórias e bens do mundo do que já estava ali no seu berço, sob o pedaço de linho branco que resguardava a sua nudez. A existência, na verdade, era para ele mais preciosa e digna de ser conservada que a do seu príncipe, porque nenhum dos duros cuidados com ela enegrece a alma dos senhores roçaria sequer a sua alma livre e simples de escravo. E, como se o amasse mais por aquela humilde ditosa, cobria o seu corpinho gordo de beijos pesados e devoradores &mdash; dos beijos que ela fazia ligeiros sobre as mãos do seu príncipe. &nbsp;No entanto, um grande temor enchia o palácio, onde agora reinava uma mulher entre mulheres. O bastardo, o homem de rapina que errava no cimo das serras, descera à planície com a sua horda, e já através de casais e aldeias felizes ia deixando um sulco de matança e ruínas. As portas da cidade tinham sido seguras com cadeias muito fortes. Nas atalaias ardiam lumes mais altos. Mas à defesa faltava disciplina viril. Uma roca não governa com uma espada. Toda a nobreza fiel parecera na grande batalha. E a rainha desventurosa apenas sabia correr a cada instante ao berço do seu filhinho e chorar sobre ele a sua fraqueza de viúva. Só a ama leal parecia segura &mdash; como se os braços em que estreitava o seu príncipe fossem muralhas de uma cidadela que nenhuma audácia pode transpor. &nbsp;Ora uma noite, noite de silêncio e de escuridão, indo ela a adormecer, já despida, no seu catre, entre os seus dois meninos, adivinhou, mais que sentiu, um curto rumor de ferro e de briga, longe, à entrada dos vergéis reais. Embrulhada à pressa num pano, atirando os cabelos para trás, escutou ansiosamente. Na terra areada, entre os jasmineiros, corriam passos pesados e rudes. Depois houve um gemido, um corpo tombando molemente, sobre lajes, como um fardo. Descerrou violentamente a cortina. E além, ao fundo da galeria, avistou homens, um clarão de lanternas, brilhos de armas... Num relance tudo compreendeu &mdash; o palácio surpreendido, o bastardo cruel vindo roubar, matar o seu príncipe! Então, rapidamente sem uma dúvida, arrebatou o príncipe do seu berço de marfim, atirou-o para o pobre berço de verga &mdash; e tirando o seu filho do berço servil, entre beijos desesperados, deitou-o no berço real, que cobriu com um brocado. &nbsp;Bruscamente um homem enorme, de face flamejante, com um manto negro sobre a cota de malha, surgiu à porta da câmara, entre outros, que erguiam lanternas. Olhou &mdash; correu ao berço de marfim onde os brocados luziam, arrancou a criança, como se arranca uma bolsa de oiro, e, abafando os seus gritos no manto, abalou furiosamente. &nbsp;O príncipe dormia no seu novo berço. A ama ficara imóvel no silêncio e na treva. &nbsp;Mas brados de alarme de repente atroaram o palácio.<br /> Pelas vidraças perpassou o longo flamejar das tochas. Os pátios ressoavam com o bater das armas. E desgrenhada, quase nua, a rainha invadiu a câmara, entre as aias, gritando pelo seu filho. Ao avistar o berço de marfim, com as roupas desmanchadas, vazio, caiu sobre as lajes, num choro, despedaçada. Então calada, muito lenta, muito pálida, a ama descobriu o pobre berço de verga... O príncipe lá estava, quieto, adormecido, num sonho que o fazia sorrir, lhe iluminava toda a face entre os seus cabelos de ouro. A mãe caiu sobre o berço, com um suspiro, como cai um corpo morto. &nbsp;E nesse instante um novo clamor abalou a galeria de mármore. Era o capitão das guardas, a sua gente fiel. Nos seus clamores havia, porém, mais tristeza que triunfo. O bastardo morrera! Colhido, ao fugir, entre o palácio e a cidadela, esmagado pela forte legião de archeiros, sucumbira, ele e vinte da sua horda. O seu corpo lá ficara, com flechas no flanco, numa poça de sangue. Mas, ai! dor sem nome! O corpozinho tenro do príncipe lá ficara também, envolto num manto, já frio, roxo ainda das mãos ferozes que o tinham esganado!... Assim tumultuosamente lançavam a nova cruel os homens de armas &mdash; quando a rainha, deslumbrada, com lágrimas entre risos, ergueu nos braços, para lhe mostrar, o príncipe que despertara. &nbsp;Foi um espanto, uma aclamação. Quem o salvara? Quem?... Lá estava junto do berço de marfim vazio, muda e hirta, aquela que o salvara! Serva sublimemente leal! Fora ela, que para conservar a vida ao seu príncipe, mandara à morte o seu filho... Então, só então, a mãe ditosa, emergindo da sua alegria extática, abraçou apaixonadamente a mãe dolorosa, e a beijou, e lhe chamou irmã do seu coração... E entre aquela multidão que se apertava na galeria veio uma nova, ardente aclamação, com súplicas de que fosse recompensada, magnificamente, a serva que salvara o rei e o reino. &nbsp;Mas como? Que bolas de ouro podem pagar um filho? Então, um velho de casta nobre lembrou que ela fosse levada ao tesouro real, e escolhesse de entre essas riquezas, que eram as maiores da Índia, todas as que o seu desejo apetecesse... &nbsp;A rainha tomou a mão da serva. E sem que a sua face de mármore perdesse a rigidez, com um andar de morta, como num sonho, ela foi assim conduzida para a câmara dos tesouros. Senhores, aias, homens de armas, seguiam num respeito tão comovido que apenas se ouvia o roçar das sandálias nas lajes. As espessas portas do tesouro rolaram lentamente. E, quando um servo destrancou as janelas, a luz da madrugada, já clara e rósea, entrando pelos gradeamentos de ferro, acendeu um maravilhoso e faiscante incêndio de ouro e pedrarias! Do chão de rocha até às suas sombrias abóbadas, por toda a câmara, reluziam, cintilavam, refulgiam os seus escudos de ouro, as armas marchetadas, os montões de diamantes, as pilhas de moedas, os longos fios de pérolas, todas as riquezas daquele reino, acumuladas por cem reis durante vinte séculos. Um longo ah, lento e maravilhado, passou sobre a turba que emudecera. Depois houve um silêncio, ansioso. E no meio da câmara, envolta na refulgência preciosa, a ama não se movia... Apenas os seus olhos, brilhantes e secos, se tinham erguido para aquele céu que, além das grades, se tingia de rosa e de ouro. Era lá, nesse céu fresco de madrugada, que estava agora o seu menino. Estava lá, e já o Sol se erguia, e era tarde, e o seu menino chorava decerto, e procurava o seu peito!... Então a ama sorriu e estendeu a mão. Todos seguiam, sem respirar, aquele lento mover da sua mão aberta. Que jóia maravilhosa, que fio de diamantes, que punhado de rubis, ia ela escolher? &nbsp;A ama estendia a mão &mdash; e sobre um escabelo ao lado, entre um molho de armas, agarrou um punhal. Era um punhal de um velho rei, todo cravejado de esmeraldas, e que valia uma província. &nbsp;Agarrara o punhal, e com ele apertado fortemente na mão, apontando para o céu, onde subiam os primeiros raios de Sol, encarou a rainha, a multidão, e gritou: &mdash; Salvei o meu príncipe, e agora &mdash; vou dar de mamar ao meu filho! E cravou o punhal no coração. [[Categoria:Eça de Queirós]] [[Categoria:Contos (Eça de Queirós)]] [[Categoria:Contos portugueses]] 7zz5lxad8l3ed880i6npnvdmudpws6e Wikisource:Esplanada 4 1788 560514 559465 2026-08-25T08:23:40Z Alchimista 2016 560514 wikitext text/x-wiki {{Discussão}}{{Página de Discussão}} {{/topo}}<!--- Please add interwiki links ONLY at [[Wikisource:Esplanada/topo]] ---> {{TOC|font-size: 90%}} {{Discussão2|Pedido de CentralNotice para a WikiCon Portugal}} {{Discussão2|Relatório e pedido de recondução para administrador (2024)}} {{Discussão2|Obra duplicada (Pobres liberais!)}} {{Discussão2|Candidato a administrador}} {{Discussão2|Como faço para conectar uma página de Galeria com uma página sem digitalização?}} {{Discussão2|Tradução Espelhada}} {{Discussão2|Há como controlar a página seguinte ou anterior?}} {{Discussão2|Inserir novos arquivos}} {{Discussão2|Autores portugueses em DP}} {{Discussão2|Recondução à administração}} == <span lang="pt-br" dir="ltr">Em breve: um novo recurso de sub-referência – experimente!</span> == <div lang="pt-br" dir="ltr"> <section begin="Sub-referencing"/> [[File:Sub-referencing reuse visual.png|{{#ifeq:{{#dir}}|ltr|right|left}}|400px]] Olá. Por muitos anos, os membros da comunidade solicitaram uma maneira fácil de reutilizar referências com detalhes diferentes. Agora, uma solução está chegando: o novo recurso de sub-referência, para wikitexto e Editor Visual, aprimorará o sistema de referência existente. Você pode continuar a usar os recursos existentes, mas provavelmente encontrará sub-referências em artigos escritos por outros usuários. Mais informações na [[m:Special:MyLanguage/WMDE Technical Wishes/Sub-referencing|página do projeto]]. '''Queremos sua opinião''' para garantir que esse recurso funcione bem para você: * [[m:Special:MyLanguage/WMDE Technical Wishes/Sub-referencing#Test|Por favor, experimente]] a ferramenta, atualmente em fase beta, e [[m:Talk:WMDE Technical Wishes/Sub-referencing|diga-nos o que você acha]]. * [[m:WMDE Technical Wishes/Sub-referencing/Sign-up|Inscreva-se aqui]] para receber atualizações e/ou convites para participar de pesquisas. A equipe de [[m:Special:MyLanguage/WMDE Technical Wishes|Desejos Técnicos]] da [[m:Special:MyLanguage/Wikimedia Deutschland|Wikimedia Deutschland]] está planejando trazer este recurso para as wikis da Wikimedia ainda este ano. Entraremos em contato com os criadores/mantenedores de ferramentas e predefinições relacionadas a referências com antecedência. Por favor, ajude-nos a espalhar essa mensagem. --[[m:User:Johannes Richter (WMDE)|Johannes Richter (WMDE)]] ([[m:User talk:Johannes Richter (WMDE)|talk]]) 10:36, 19 August 2024 (UTC) <section end="Sub-referencing"/> </div> <!-- Mensagem enviada por User:Johannes Richter (WMDE)@metawiki utilizando a lista em https://meta.wikimedia.org/w/index.php?title=User:Johannes_Richter_(WMDE)/Sub-referencing/massmessage_list&oldid=27309345 --> == Ortografias antigas e atuais == Muitas obras dos séculos XVIII e XIX estão já "atualizadas" com ortografias recentes (de 1943, de 1990, etc.), e eu julgava que tais atualizações seriam a norma no Wikisource. Entretanto, muito recentemente fiquei sabendo que o "correto" é transcrever o mails fielmente possível a grafia original da imagem digitalizada (inclusive mantendo eventuais erors do original). Que fazer com tais obras já modificadas? Deverão elas ser "corrigidas" e retornar à grafia original? Vejo que certas obras possuem duas versões: uma figurando somente com o título, e uma vizinha cujo título contém a frase "(grafia original)". Creio ser esta a maneira desejada de manter ambas as versões. [[Utilizador:Wuopisht|Wuopisht]] ([[Utilizador Discussão:Wuopisht|discussão]]) 00h39min de 20 de agosto de 2024 (UTC) :Sim, o correto é deixar o texto o mais fiel possível do original, incluindo os erros assim como você comentou. Isto está escrito no aviso que aparece assim que você irá criar/editar uma página. :<nowiki>Sobre a prática de colocar duas obras, uma com a grafia original e outra com a grafia atualizada não acho que seja a melhor coisa a se fazer, pois já temos uma predefinição para lidar justamento com esse problema {{</nowiki>[[Predefinição:Modernização automática|Modernização automática]]<nowiki>}}. E acho que não é legal a duplicação das obras, e ainda por cima, gera páginas sem fontes, que são páginas que não podem ser facilmente verificadas por outros usuários no futuro.</nowiki> :Caso você encontre obras que estão com a grafia atualizada, coloque-as nesta [[:Categoria:Originais a serem arcaizados|categoria]]. [[Utilizador:Junglk|Junglk]] ([[Utilizador Discussão:Junglk|discussão]]) 03h14min de 20 de agosto de 2024 (UTC) ::Junglk, obrigado pela dica! Sim, exemplos de obras a que me refiro são ''O Cortiço'' e ''O Matuto''. Ambas já estão na mencionada lista. Mais uma vez agradeço. [[Utilizador:Wuopisht|Wuopisht]] ([[Utilizador Discussão:Wuopisht|discussão]]) 03h33min de 20 de agosto de 2024 (UTC) ::[[Utilizador:Junglk|Junglk]], Graças aos seus conselhos, consegui completar a arcaização de 'O Matuto', obra que consta na lista que você mencionou acima. ::Questão adicional: Vejo que 'Modernização automática' funciona bem no âmbito de uma página individual, mas há alguma maneira simples de fazer esta declaração, uma vez só, no início de uma obra, para que a predefinição se propague automaticamente para o resto dela? [[Utilizador:Wuopisht|Wuopisht]] ([[Utilizador Discussão:Wuopisht|discussão]]) 13h31min de 6 de setembro de 2024 (UTC) :::Para que a modernização seja feita de forma automática é preciso que na página da Galeria você clique em editar a página e selecione a modernização automática, é a penúltima caixa. Assim que você fizer isso, pode ser que não funcione, pois as páginas dos capítulo podem estar utilizando a predefinição {{tl|navegar}}, o que não funciona com a modernização automática (isso é explicado em uma nota no final da página da galeria assim que você ativa modernização automática na obra). Então para que a modernização automática funcione você deve usar <code><nowiki><page index="Nome do arquivo" from="(Número da página inicial do capítulo/seção)" to="(Número da página final do capítulo/seção)" header=1></nowiki></code> na página de cada capítulo ou seção. [[Utilizador:Junglk|Junglk]] ([[Utilizador Discussão:Junglk|discussão]]) 14h00min de 6 de setembro de 2024 (UTC) :::Aqui está um exemplo caso minha explicação tenha ficado confusa: [[Galeria:Iracema - lenda do Ceará.djvu|Iracema]]. :::Vejo que há uma nota abaixo da pagelist, dizendo o seguinte: ''A predefinição {{Modernização automática}} será aplicada automaticamente às páginas transcluídas com cabeçalho (header=1)''. Espero ter ajudado! [[Utilizador:Junglk|Junglk]] ([[Utilizador Discussão:Junglk|discussão]]) 14h05min de 6 de setembro de 2024 (UTC) ::::[[Utilizador:Junglk|Junglk]], Obrigado de novo pelo auxílio. Vi depois que mesmo sem selecionar nada na Galeria, é possível adicionar as opções de Modernização Automática ao menu ''Ferramentas'' de cada capítulo. Estou procedendo de tal maneira com [[O cabelleira]]. Obrigado! [[Utilizador:Wuopisht|Wuopisht]] ([[Utilizador Discussão:Wuopisht|discussão]]) 10h45min de 9 de setembro de 2024 (UTC) :::::Fico feliz que tenha ajudado! 😊 [[Utilizador:Junglk|Junglk]] ([[Utilizador Discussão:Junglk|discussão]]) 12h32min de 9 de setembro de 2024 (UTC) == Travessão == Qual é a maneira recomendada de se grafar o travessão no Wikisource? Por exemplo: (1) '—' parece o suficiente. (2) '& m d a s h ;' parece ser igual. (3) '{ { - - } }' também parece ser idêntico. Nota: inseri espaços nos exemplos anteriores para evitar conversão automática nesta mensagem. [[Utilizador:Wuopisht|Wuopisht]] ([[Utilizador Discussão:Wuopisht|discussão]]) 08h04min de 19 de setembro de 2024 (UTC) :Os três produzem o mesmo resultado. O terceiro é a forma mais fácil de escrever, sem precisar de botões ou atalhos de teclado, e mais fácil de memorizar. É melhor de se usar, inclusive para evitar que seja substituído por acidente por hífens, dependendo do parágrafo da digitalização. [[Usuário:555|Lugusto]] • [[Usuário Discussão:555|&#x203B;]] 12h38min de 19 de setembro de 2024 (UTC) ::👍 [[Utilizador:Wuopisht|Wuopisht]] ([[Utilizador Discussão:Wuopisht|discussão]]) 12h41min de 19 de setembro de 2024 (UTC) {{Discussão2|Invasão nas Mudanças recentes}} == 'Wikidata item' link is moving. Find out where... == <div lang="en" dir="ltr" class="mw-content-ltr"><i>Apologies for cross-posting in English. Please consider translating this message.</i>{{tracked|T66315}} Hello everyone, a small change will soon be coming to the user-interface of your Wikimedia project. The [[d:Q16222597|Wikidata item]] [[w:|sitelink]] currently found under the <span style="color: #54595d;"><u>''General''</u></span> section of the '''Tools''' sidebar menu will move into the <span style="color: #54595d;"><u>''In Other Projects''</u></span> section. We would like the Wiki communities feedback so please let us know or ask questions on the [[m:Talk:Wikidata_For_Wikimedia_Projects/Projects/Move_Wikidata_item_link|Discussion page]] before we enable the change which can take place October 4 2024, circa 15:00 UTC+2. More information can be found on [[m:Wikidata_For_Wikimedia_Projects/Projects/Move_Wikidata_item_link|the project page]].<br><br>We welcome your feedback and questions.<br> [[Utilizador:MediaWiki message delivery|MediaWiki message delivery]] ([[Utilizador Discussão:MediaWiki message delivery|discussão]]) 18h56min de 27 de setembro de 2024 (UTC) </div> <!-- Mensagem enviada por User:Danny Benjafield (WMDE)@metawiki utilizando a lista em https://meta.wikimedia.org/w/index.php?title=User:Danny_Benjafield_(WMDE)/MassMessage_Test_List&oldid=27524260 --> == 'Wikidata item' link is moving, finally. == Hello everyone, I previously wrote on the 27th September to advise that the ''Wikidata item'' sitelink will change places in the sidebar menu, moving from the '''General''' section into the '''In Other Projects''' section. The scheduled rollout date of 04.10.2024 was delayed due to a necessary request for Mobile/MinervaNeue skin. I am happy to inform that the global rollout can now proceed and will occur later today, 22.10.2024 at 15:00 UTC-2. [[m:Talk:Wikidata_For_Wikimedia_Projects/Projects/Move_Wikidata_item_link|Please let us know]] if you notice any problems or bugs after this change. There should be no need for null-edits or purging cache for the changes to occur. Kind regards, -[[m:User:Danny Benjafield (WMDE)|Danny Benjafield (WMDE)]] 11h28min de 22 de outubro de 2024 (UTC) <!-- Mensagem enviada por User:Danny Benjafield (WMDE)@metawiki utilizando a lista em https://meta.wikimedia.org/w/index.php?title=User:Danny_Benjafield_(WMDE)/MassMessage_Test_List&oldid=27535421 --> == Como iniciar no Wikisource? == Saudações, tenho interesse em colaborar com o Wikisource através de traduções de livros, artigos e outras obras literárias que não estão traduzidas para a língua portuguesa. Entretanto, não sei como começar. Quais as predefinições mais importantes? Como estilizar o documento (justificar, centralizar, mudar fonte, etc.)? No aguardo pela resposta. :{{ping|Caesar853}} Olá! Primeiro, é importante assinar seus comentários com <nowiki>~~~~</nowiki> no final; Como um começo, diria para dar uma lida em [[Ajuda:Introdução]]; acho que no geral, as predefinições mais usadas são [[Predefinição:Centralizado|Centralizado]], [[Predefinição:Cabeçalho|Cabeçalho]], [[Predefinição:Larger|Larger]] e mais algumas para [[:Categoria:!Predefinições para títulos|títulos]]. A única outra "fonte" seria [[Predefinição:Cursivo|Cursivo]], mas ficaria ruim deixar a obra toda nesse formato (já "itálico" e "negrito" funcionam da mesma forma que na Wikipédia - no geral, se você já tem experiência na Wikipédia, não terá problema aqui, já que é a mesma tecnologia). Agora, para tradução, tem uma plataforma que ainda não cheguei a usar ({{ping|Saturnow}} usou bastante) chamada [[Wikisource:Tradução espelho]]. Abraços! [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 12h07min de 4 de dezembro de 2024 (UTC) :Obrigado pela resposta, vou seguir o passo-a-passo. Eu tenho uma experiência com o Wikipédia, já criei e aprimorei diversos artigos por lá. Eu olhei de relance a formatação da obras mais recente em publicação que é ''Reparação Historica da Villa de Santo André da Borda do Campo'' e eu entendi mais ou menos como funciona as predefinições de formatação. [[Utilizador:Caesar853|Caesar853]] ([[Utilizador Discussão:Caesar853|discussão]]) 13h03min de 4 de dezembro de 2024 (UTC) ::Bem, não há de quê! E boas edições! [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 14h01min de 4 de dezembro de 2024 (UTC) :::Bom dia, existe alguma forma de criar rascunhos no Wikisource, isto é, conteúdos não publicados para o caso do colaborador estar escrevendo ou traduzindo obras muito longas como livros, legislações, etc.? :::[[Especial:Contribuições/2804:214:93C1:3D57:180F:C5D6:FBE7:C005|2804:214:93C1:3D57:180F:C5D6:FBE7:C005]] 11h59min de 10 de dezembro de 2024 (UTC) ::::{{ping|2804:214:93C1:3D57:180F:C5D6:FBE7:C005}} Bom dia! Acho que em si não terá problema criar uma subpágina de usuário como rascunho, mas para tradução, sugiro que leia [[Wikisource:Tradução espelho]]. [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 11h45min de 11 de dezembro de 2024 (UTC) == Predefinição:Autor == Hoje eu fiz umas alterações na {{tl|Autor}} para buscar mais dados do Wikidata. Tentei ao máximo fazer as alterações necessárias sem causar impacto no leiaute ou na funcionalidade da predefinição. Mas a predefinição chamava funções desatualizadas e foi necessário trazer algumas funções novas que não estavam incluídas nos módulos deste projeto. Fiz todas as atualizações. Agora não é mais necessário informar a data de nascimento ou morte de um autor. Esses dados são buscados do Wikidata e a página é categorizada corretamente. Mas ainda está havendo um erro na geração de categorias por ano de nascimento e falecimento, apenas quando esses parâmetros são informados na {{tl|Autor}}, por meio de {{tl|dni}} ou {{tl|morte}}. Desculpem-me por isso. Vou parar um pouco por hoje, mas vou corrigir esse erro em algumas horas e aviso aqui quando estiver ok. [[Usuário:Castelobranco|<font color="#778899" face="Verdana" size="2">CasteloBranco</font>]]<sup>[[Usuário Discussão:Castelobranco|<font color="#00008b">msg</font>]]</sup> 04h25min de 15 de dezembro de 2024 (UTC) :Muito bom! Nessa linha, acha que seria possível automatizar a categorização em [[:Categoria:Autores brasileiros por data de entrada em domínio público|Autores brasileiros por data de entrada em domínio público]] (além de criar uma versão para Portugal) ou criar um equivalente ao [[:s:en:Category:Authors by license|Category:Authors by license]], dentro do <nowiki>{{</nowiki>[[Predefinição:Morte|morte]]<nowiki>}}</nowiki>? Talvez o Ws possa usar o próprio Wikidata (através da nacionalidade) para identificar quando cada autor entrou em domínio público. [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 11h24min de 15 de dezembro de 2024 (UTC) ::Boa ideia. A princípio, eu estava apenas tentando importar o máximo de informações já existentes na {{tl|Autor}}, mas a ideia era vir aqui e discutir melhorias que essa integração com o Wikidata pode trazer. Como o Wikisource não é uma enciclopédia, a página dos autores não precisa ser uma biografia, então até mesmo o texto de introdução (MiscBio) pode ser gerado automaticamente. Na Wikiquote, já está funcionando assim, mas aguardando quorum para aprovar o uso. A sua sugestão parece ser ainda mais útil. Vou tentar implantar em teste e trago aqui para discussão. [[Usuário:Castelobranco|<font color="#778899" face="Verdana" size="2">CasteloBranco</font>]]<sup>[[Usuário Discussão:Castelobranco|<font color="#00008b">msg</font>]]</sup> 13h09min de 15 de dezembro de 2024 (UTC) :::{{feito}} Resolvido o problema da categorização com {{tl|dni}} e {{tl|morte}}. Vocês podem checar em [[Autor:Monteiro Lobato]] (ou em qualquer página com {{tl|Autor}} que tenha as predefs de nascimento e morte nos respectivos campos). A {{tl|Autor}} '''ignora''' os dados de nascimento/morte fornecido e categoriza a página pelos dados do Wikidata. Então, nesse momento, informar a data de nascimento/morte é <u>desnecessário</u>. Vou atualizar a documentação. [[Usuário:Castelobranco|<font color="#778899" face="Verdana" size="2">CasteloBranco</font>]]<sup>[[Usuário Discussão:Castelobranco|<font color="#00008b">msg</font>]]</sup> 15h24min de 15 de dezembro de 2024 (UTC) ::::{{feito}} Atualizei a documentação. Nesse momento, nenhum parâmetro é obrigatório, basta escrever {{tl|Autor}} em uma página conectada no Wikidata para importar todos os dados necessários de lá. Isso inclui a informação da nacionalidade, abrindo caminho para implementar a sugestão do @[[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]]. Mas vou estudar a árvore de categorias e depois abrimos um novo tópico para esse tema. [[Usuário:Castelobranco|<font color="#778899" face="Verdana" size="2">CasteloBranco</font>]]<sup>[[Usuário Discussão:Castelobranco|<font color="#00008b">msg</font>]]</sup> 20h20min de 15 de dezembro de 2024 (UTC) :::::Concordo com a ideia de automatizar a biografia (algo que é feito nas Ws em francês e espanhol). Quanto a minha sugestão, ela também entra no contexto [[Wikisource:Esplanada/Autores portugueses em DP|dessa discussão]], que pode gerar algo mais prático para os usuários do que as listas presentes [[Wikisource:Autores em língua portuguesa com obras em domínio público|nesta página]]. [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 22h22min de 15 de dezembro de 2024 (UTC) ::::::E lembrando agora, seria interessante se a categorização de [[:Categoria:Autores por nacionalidade|Autores por nacionalidade]] (ou por unidade federativa) também seja automatizada. E, além disso, usando o [[:s:fr:Auteur:Monteiro_Lobato|Lobato]] como exemplo, no Wikisource em francês, tirando "''Auteurs de science-fiction''", todas as categorias relevantes são automáticas. [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 22h28min de 15 de dezembro de 2024 (UTC) :::::::Fiz um teste no Ws em francês onde atualizei o Wikidata e coloquei o "Escritor de ficção científica": a categorização foi imediata. Talvez o único "problema" de uma categorização totalmente dependente do Wikidata seria a quantidade de categorias por criar, mas isso seria feito com o tempo (ou algum bot poderia resolver). [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 22h36min de 15 de dezembro de 2024 (UTC) {{Discussão2|Sonetos sem original digitalisado}} == Transferir "Galeria" == Olá. Eu queria revisar o texto de [[:Galeria:Contos_e_phantasias_(Maria_Amália_Vaz_de_Carvalho,_1905).pdf|Contos e phantasias]], mas o scan que está anexado é realmente muito desagradável. Eu fiz o upload para a Commons de um scan mil vezes melhor ([[:File:Contos e phantasias-2nd.pdf]]). Como que poderíamos passar a usar a "Galeria" ''deste'' no lugar? [[Utilizador:Polomo47|Polomo47]] ([[Utilizador Discussão:Polomo47|discussão]]) 03h54min de 28 de dezembro de 2024 (UTC) {{Discussão2|Alterações para incluir notas laterais}} {{Discussão2|Ajuda com formatação}} == Como fazer a página índice == Olá, Sou iniciante aqui no Wikisource, e gostaria de saber como introduzir conteúdo à página índice de ''S. Bernardo'' de Graciliano Ramos: [[https://pt.wikisource.org/wiki/S._Bernardo]], que no momento encontra-se ainda vazia. Por "conteúdo" quero dizer a página formatada e publicada, com links para os vários capítulos. (Um exemplo seria: [[O Matuto|https://pt.wikisource.org/wiki/O_Matuto]].) Presentemente, estou ainda processando as imagens originais de ''S. Bernardo'', [[https://pt.wikisource.org/wiki/Galeria:Graciliano_Ramos_-_S._Bernardo_(1934).pdf]], mas eu gostaria de poder ver as páginas publicadas. Será que daria para algum de vocês "power users" fazê-lo para mim, ou dar-me instruções? [[Utilizador:Wuopisht|Wuopisht]] ([[Utilizador Discussão:Wuopisht|discussão]]) 05h48min de 22 de fevereiro de 2025 (UTC) :{{ping|Wuopisht}} como exemplo, fiz a [[S. Bernardo (1934)|página inicial]] e o [[S. Bernardo (1934)/Capítulo I|Cap. 1]]: é bem intuitivo, pois você apenas precisa adicionar a primeira e última página do capítulo no código ("from= to="). [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 13h14min de 22 de fevereiro de 2025 (UTC) ::@[[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]], Obrigado! Agora a inserção dos textos se tornou trivial! Uma última pergunta: é preciso ter alguma permissão especial para fazer a página inicial? [[Utilizador:Wuopisht|Wuopisht]] ([[Utilizador Discussão:Wuopisht|discussão]]) 00h16min de 23 de fevereiro de 2025 (UTC) :::Não há de que! Não é preciso de nenhuma permissão especial para fazer uma página inicial (ou qualquer página de obra), só para apagá-la. [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 00h51min de 23 de fevereiro de 2025 (UTC) {{Discussão2|ajuda}} Ola,presiso de ajuda,aqui "não tem cafe dos novatos",por isso vim aquina explanada e preciso de ajuda para criar aguns "artigos". agradeço a todos que me responderem == Como aprimorar a modernização automática == Olá, Notei que introduzindo uma palavra à página dicionário [[Wikisource:Modernização/Dicionário/pt-BR]] tem imediatamente o efeito de "corrigir" qualquer página marcada para modernização (por exemplo, adicionando "*optimismo: otimismo"). No entanto, fico na dúvida se essa é a maneira correta ou recomendada para modernização. É uma tarefa extremamente árdua introduzir palavras uma a uma, especialmente em casos difíceis como em conjugação de verbos. Imagino se não há já algum método mais automático de ampliar o dicionário, ou se não há algum método melhor de modernização. [[Utilizador:Wuopisht|Wuopisht]] ([[Utilizador Discussão:Wuopisht|discussão]]) 12h43min de 24 de fevereiro de 2025 (UTC) :Quanto a um método mais automático não sei lhe dizer, acho que esse infelizmente é o único disponível no momento (da qual tenho conhecimento). É árduo sim, mas a Wikisource é um projeto colaborativo, se cada um ajudar um pouquinho não é tanto trabalho assim. :{{gap}}Agora com relação ao método de realizar a adição de novas palavras, acho que você se confundiu um pouco, por exemplo a palavra ''*ortographia: ortografia'' deveria ter sido adicionado no dicionário pt-PT e não no pt-BR, pois é uma modernização na qual é válida para ambas as variantes (''ortographia'' é ''ortografia'' tanto em pt-PT quanto em pt-BR). O que ocorre é que a verificação é realizada primeiramente no dicionário pt-PT, e o dicionário pt-BR é verificado somente após essa primeira verificação no outro dicionário. Então somente adicione no dicionário pt-BR palavras na qual há um diferença entre a variante pt-PT e pt-BR, como seu próprio exemplo, a palavra ''optimismo'' deve ser mantida dessa forma em pt-PT, mas em pt-BR deve ser alterada para ''otimismo''. Espero que tenha exclarecido a confusão. Abraços! [[Utilizador:Junglk|Junglk]] ([[Utilizador Discussão:Junglk|discussão]]) 14h02min de 24 de fevereiro de 2025 (UTC) ::Obrigado pela dica, [[Utilizador:Junglk|Junglk]]!Sim, tinha me esquecido que o BR é adicional ao PT. [[Utilizador:Wuopisht|Wuopisht]] ([[Utilizador Discussão:Wuopisht|discussão]]) 11h20min de 26 de fevereiro de 2025 (UTC) ::Uma outra dúvida: A conversão "chamarão"->"chamaram" está correta se o verbo estiver no tempo pretérito, mas nenhuma conversão deverá ser feita caso esteja no tempo futuro. Parece-me que não há outro modo de resolução a não ser pelo contexto. A presença da conversão faz com que o tempo futuro esteja incorreto, a sua ausência causa problema no tempo pretérito. [[Utilizador:Wuopisht|Wuopisht]] ([[Utilizador Discussão:Wuopisht|discussão]]) 12h44min de 26 de fevereiro de 2025 (UTC) :::Me parece que nesses casos o que deve ser feito é, caso haja, um entrada com esses tipos de problema, na qual a conversão pode ou não estar certa e o que definirá isto é o contexto, é necessário então remover essa conversão adicionando <code>: (palavra): conversão da remoção// explicação</code> no dicionário em questão. E então para lidar com a conversão desses é necessário utilizar o dicionário local, mais sobre ele e como utilizá-lo pode ser visto aqui [[Predefinição:Modernização automática]], ou então caso você queira manter a palavra da forma que está é só adicionar a predefinição {{tl|Manter ortografia}}. [[Utilizador:Junglk|Junglk]] ([[Utilizador Discussão:Junglk|discussão]]) 13h45min de 26 de fevereiro de 2025 (UTC) ::::Ah, sim, "dicionário local", no sentido de dicionário válido somente para a página onde ele está definido. Já tive oportunidade de ver um desses. Obrigado! [[Utilizador:Wuopisht|Wuopisht]] ([[Utilizador Discussão:Wuopisht|discussão]]) 01h38min de 1 de março de 2025 (UTC) :::::Olá de novo, [[Utilizador:Junglk|Junglk]]. Estou tendo um problema com atualização de páginas. Esperei alguns dias para ver se era apenas uma questão de sincronização, mas parece-me que não. Introduzi um dicionário local para a palavra "perpétuo" (diferenciando com o verbo "eu perpetuo"). A modificação parece estar correta, pois posso vê-la na página individual: <[[Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/26]]>. No entanto, quando vou para o texto final e seleciono "Ferramentas / Ortografia brasileira", o texto mostra-se no original "perpetuo": <[[S. Bernardo (1934)/Capítulo IV]]>. Alguma ideia do que possa estar ocorrendo? [[Utilizador:Wuopisht|Wuopisht]] ([[Utilizador Discussão:Wuopisht|discussão]]) 10h33min de 4 de março de 2025 (UTC) ::::::Nunca utilizei muito essas ferramentes para ser sincero, mas acredito que seja porque o dicionário local só está sendo utilizado no namespace Página e não no Main namespace. Para resolver isso, creio eu, que utilizando o dicionário local em [[S. Bernardo (1934)/Capítulo IV]] resolva, ao invés de usar em [[Página:Graciliano Ramos - S. Bernardo (1934).pdf/26]]. [[Utilizador:Junglk|Junglk]] ([[Utilizador Discussão:Junglk|discussão]]) 14h43min de 4 de março de 2025 (UTC) == Licenciamento de materiais da OCDE == Estou fazendo uma disciplina sobre Ciência Aberta esse semestre na UNICAMP, e percebi que vários dos "documentos fundadores" sobre ciência aberta não estão no Wikisource. Com certa ironia, vários deles foram publicados sob licenças fechadas - incluindo a [[doi:10.1787/9789264034020-en-fr|declaração de 2007]] da OCDE sobre o tema. No entanto, olhando os [https://www.oecd.org/en/about/terms-conditions.html termos e condições] dos conteúdos da OCDE, consta que agora sob uma nova política, todos os conteúdos publicados após julho de 2024 estarão em CC BY 4.0. Além disso, ficou disposta a seguinte resolução, alterando retroativamente o licenseamento para textos anteriores à julho de 2024: * Uso, cópia e distribuição: Livre para fins comerciais e não comerciais, desde que citada a fonte original: "OECD (ano), Título, URL". * Adaptações: Permitidas (comerciais ou não), mas sem uso de logo/identidade visual da OCDE. Adicionar: "Adaptação de obra da OCDE. As opiniões expressas não representam a visão oficial da OCDE ou seus países-membros". * Traduções não comerciais: Permitidas sem autorização, desde que semuso de elementos visuais da OCDE. Incluir aviso: "Em caso de divergências, o texto original prevalece". Tendo isso em vista, fiquei na dúvida se documentos como esse de 2007 estariam compatíveis com a licença que usamos no Wikisource, e resolvi pedir ajuda aqui. Agradeço desde já pra quem puder dar uma luz. [[Utilizador:Parzeus|Parzeus]] ([[Utilizador Discussão:Parzeus|discussão]]) 03h51min de 25 de março de 2025 (UTC) :Olha... eu abriria uma discussão no [[:c:Commons:Village pump]], já que é uma questão mais "internacional". Eu até achei [[:c:Commons:Village pump/Archive/2024/11#Charts built with OECD Data|essa discussão]], mas o assunto não é o mesmo. Se o licenciamento passar no Commons, aí é só transcrever no Wikisource do idioma correspondente. ━ [[User:Albertoleoncio|<span style="font:15px serif; color: #445; text-transform: uppercase;">Albertoleoncio</span>]] [[User talk:Albertoleoncio|<span style="font:italic x-small cursive;color: #777;">Who, me?</span>]] 15h43min de 25 de março de 2025 (UTC) ::{{ping|Parzeus}} também concordo em levar essa discussão para o Commons. Lendo os termos, o fato de precisar de autorização para traduzir (com objetivo comercial) conteúdos anteriores à 1 de julho de 2024 pode ser visto como uma limitação para o Commons (já que em tese, não seria "100% livre"). Mas o de julho de 2024 em diante, pode usar sem problemas. [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 11h30min de 26 de março de 2025 (UTC) :Obrigado pela dica, @[[Utilizador:Albertoleoncio|Albertoleoncio]] e @[[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]], publiquei [https://commons.wikimedia.org/wiki/Commons:Village_pump#c-Parzeus-20250403181100-Clarification_on_OECD's_new_licensing_policy_and_compatibility_with_Commons a discussão] lá. Abraços, [[Utilizador:Parzeus|Parzeus]] ([[Utilizador Discussão:Parzeus|discussão]]) 18h12min de 3 de abril de 2025 (UTC) {{Discussão2|Lançamento da Lista de desejos tecnológicos da lusofonia 2025!}} == Wikidata and Sister Projects: An online community event == ''(Apologies for posting in English)'' Hello everyone, I am excited to share news of an upcoming online event called '''[[d:Event:Wikidata_and_Sister_Projects|Wikidata and Sister Projects]]''' celebrating the different ways Wikidata can be used to support or enhance with another Wikimedia project. The event takes place over 4 days between '''May 29 - June 1st, 2025'''. We would like to invite speakers to present at this community event, to hear success stories, challenges, showcase tools or projects you may be working on, where Wikidata has been involved in Wikipedia, Commons, WikiSource and all other WM projects. If you are interested in attending, please [[d:Special:RegisterForEvent/1291|register here]]. If you would like to speak at the event, please fill out this Session Proposal template on the [[d:Event_talk:Wikidata_and_Sister_Projects|event talk page]], where you can also ask any questions you may have. I hope to see you at the event, in the audience or as a speaker, - [[Utilizador:MediaWiki message delivery|MediaWiki message delivery]] ([[Utilizador Discussão:MediaWiki message delivery|discussão]]) 09h19min de 11 de abril de 2025 (UTC) <!-- Mensagem enviada por User:Danny Benjafield (WMDE)@metawiki utilizando a lista em https://meta.wikimedia.org/w/index.php?title=User:Danny_Benjafield_(WMDE)/MassMessage_Send_List&oldid=28525705 --> {{Discussão2|Candidatura a adminstradora}} {{Discussão2|Vote nas propostas da Lista de Desejos Tecnológicos da Lusofonia 2025!}} == Modernização manual de ortografia == Há como configurar, manualmente, uma versão com ortografia modernizada? Imagino que não na mesma página, mas talvez em páginas separadas? Algum conselho? É praticamente inviável montar um dicionário completo de "grafias arcaicas" para se modernizar automaticamente — no máximo, pode se tentar alguma integração com o Wiktionary em inglês. Eu venho adicionando zilhões de palavras lá. [[Utilizador:Polomo47|Polomo47]] ([[Utilizador Discussão:Polomo47|discussão]]) 20h01min de 12 de maio de 2025 (UTC) {{Discussão2|Plano Estratégico da Wikimedia Portugal para 2026-2028}} {{Discussão2|Tratado de Amizade e Comércio Sino-Português}} {{Discussão2|Tratado descritivo do Brasil em 1587}} == Wikidata Item and Property labels soon displayed in Wiki Watchlist/Recent Changes == ''(Apologies for posting in English, you can help by translating into your language)'' Hello everyone, the [[m:Wikidata_For_Wikimedia_Projects/Clearer_Wikidata_Edit_Summaries/Resolve_Labels|Wikidata For Wikimedia Projects]] team is excited to announce an upcoming change in how Wikidata edit changelogs are displayed in your [[Special:Watchlist|Watchlists]] and [[Special:RecentChanges|Recent Changes]] lists. If an edit is made on Wikidata that affects a page in another Wikimedia Project, the changelog will contain some information about the nature of the edit. This can include a QID (or Q-number), a PID (or P-number) and a value (which can be text, numbers, dates, or also QID or PID’s). Confused by these terms? See the [[d:Special:MyLanguage/Wikidata:Glossary|Wikidata:Glossary]] for further explanations. The upcoming change is scheduled for '''17.07.2025''', between '''1300 - 1500 UTC'''. The change will display the label (item name) alongside any QID or PIDs, as seen in the image below: [[File:Apr10 edit summary on Wikidata.png|An edit sum entry on Wikidata, labels display alongside their P- and Q-no.'s]] These changes will only be visible if you have Wikidata edits enabled in your User Preferences for Watchlists and Recent Changes, or have the active filter ‘Wikidata edits’ checkbox toggled on, directly on the Watchlist and Recent Changes pages. Your bot and gadget may be affected! There are thousands of bots, gadgets and user-scripts and whilst we have researched potential effects to many of them, we cannot guarantee there won’t be some that are broken or affected by this change. Further information and context about this change, including how your bot may be affected can be found on this [[m:Wikidata_For_Wikimedia_Projects/Clearer_Wikidata_Edit_Summaries/Resolve_Labels|project task page]]. We welcome your questions and feedback, please write to us on this dedicated [[m:Talk:Wikidata_For_Wikimedia_Projects/Clearer_Wikidata_Edit_Summaries/Resolve_Labels|Talk page]]. Thank you, - [[m:User:Danny_Benjafield_(WMDE)|Danny Benjafield (WMDE)]] on behalf of the Wikidata For Wikimedia Projects Team. [[Utilizador:MediaWiki message delivery|MediaWiki message delivery]] ([[Utilizador Discussão:MediaWiki message delivery|discussão]]) 12h46min de 14 de julho de 2025 (UTC) <!-- Mensagem enviada por User:Danny Benjafield (WMDE)@metawiki utilizando a lista em https://meta.wikimedia.org/w/index.php?title=User:Danny_Benjafield_(WMDE)/MassMessage_Test_List&oldid=28981877 --> {{Discussão2|Itens por validar na página principal?}} {{Discussão2|Crônica da Companhia de Jesus}} {{Discussão2|Proofreader mobile}} Lá na lista de desejos da comunidade foi iniciada a votação de uma [[meta:Community_Wishlist/W153|proposta]] para a criação de uma versão mobile da ferramenta de proofreading do Wikisource. Acredito que se aceita, poderá atrair mais editores além do desktop (convenhamos que hoje em dia muitos usam mais o celular que o computador)... [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 23h38min de 23 de outubro de 2025 (UTC) == Manutenção == Pra quem puder fazer a manutenção, aqui tem alguns livros que precisam de uma galeria: *[[Alma Cabocla]] ([[:commons:File:Alma Cabocla (1922).pdf|arquivo]]) *[[Constituição do Brasil de 1937]] ([https://imprensa2.in.gov.br/o/biblioteca-digital-internet-lf7_1-ce-theme/pdf/index.html?file=https://imprensa2.in.gov.br/documents/20127/0/Constitui%C3%A7%C3%A3o+dos+Estados+Unidos+do+Brasil+e+Leis+Constitucionais+ns.+1%2C2%2C3+e+4+--1940.pdf/d5900259-f500-fdc1-cf96-585eff50cc93 ed. 2], [https://imprensa2.in.gov.br/iw/pesquisa?p_p_id=com_liferay_portal_search_web_search_results_portlet_SearchResultsPortlet_INSTANCE_xHpQvTWgIGX0&p_p_lifecycle=0&p_p_state=maximized&p_p_mode=view&_com_liferay_portal_search_web_search_results_portlet_SearchResultsPortlet_INSTANCE_xHpQvTWgIGX0_mvcPath=%2Fview_content.jsp&_com_liferay_portal_search_web_search_results_portlet_SearchResultsPortlet_INSTANCE_xHpQvTWgIGX0_redirect=%2Fpesquisa%3Fq%3Dtitle%3A%2522constitui%25C3%25A7%25C3%25A3o%2520%2522&_com_liferay_portal_search_web_search_results_portlet_SearchResultsPortlet_INSTANCE_xHpQvTWgIGX0_assetEntryId=1318210&_com_liferay_portal_search_web_search_results_portlet_SearchResultsPortlet_INSTANCE_xHpQvTWgIGX0_type=content ed. 1]) *[[A Retirada da Laguna]] ([https://www.jstor.org/stable/community.38771372 1]) [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 16h45min de 16 de janeiro de 2026 (UTC) :{{Ping|Junglk}} se quiser adicionar isso na sua lista de manutenção, fique à vontade! Sei que no Ws em inglês tem um bot pra esse tipo de coisa... :/ Aqui tá limitado: no celular não tenho como ajudar no proofreading por muito tempo, mas ainda volto pra trazer algo que encontrei hahaha [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 02h13min de 17 de janeiro de 2026 (UTC) ::Eventualmente seria interessante adicionar o [[:en:User:SnowyCinema/QuickTranscribe|Quick transcribe]] aqui (quem sabe, se acelerando tudo de forma segura, daria pra atrair mais usuários e leitores...). [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 02h18min de 17 de janeiro de 2026 (UTC) :::Olá Erick! Primeiramente obrigado pelos pedidos ;D, adicionei a galeria do Alma Cabocla, a obra A Retirada da Laguna já tem uma galeria ([[Galeria:A Retirada da Laguna.djvu]]) mas mesmo assim adicionei a edição da biblioteca do Oliveira Lima no Commons. Com relação das duas edições da constituição de 37 as adicionei como ficheiro pois não acredito estar em domínio público nos USA, iria adicionar a galeria mas reparei fazendo o pagelist que ambas estão incompletas (a primeira edição falta as páginas 10 e 11 e a segunda omite a Lei Constitucional N. 2. :::{{br}} :::Com relação a esse Quick Transcribe não tinha ouvido falar dele antes, ele é útil assim? Acha que é complicado importar pra cá? Vou dar uma pesquisada nele depois com calma. [[Utilizador:Junglk|Junglk]] ([[Utilizador Discussão:Junglk|discussão]]) 15h18min de 17 de janeiro de 2026 (UTC) ::::{{Ping|Junglk}} A Constituição, enquanto texto legal, jamais teve proteção de copyright (nem na lei de 1916, na dos anos 70 ou na LDA). A edição da Imprensa Nacional ou do Departamento de Imprensa e Propaganda: como obras da União, entraram em domínio público [https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L3071.htm#art662 15 anos após a publicação] (Código Civil de 1916), bem antes da data do URAA (mesma situação de [[Dois discursos]]). Portanto, ela está sim em domínio público tanto no Brasil quanto nos EUA e não existe impedimento de colocar no Commons. Da pra colocar todas as obras do DIP ou do Imprensa Nacional (até os anos 80) no Commons, pois o status como obra governamental vem antes do falecimento do autor. ::::Quanto ao QuickTranscribe, ele ainda é experimental, mas acho que ele pode ser útil, ainda mais se adaptar para as grafias da língua portuguesa. ::::[[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 15h35min de 17 de janeiro de 2026 (UTC) :::::@[[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]]: Poxa preciso melhorar meus conhecimentos de domínio público haha, não sabia desses detalhes! Obrigado por informar, vou colocar no Commons, obrigado pelo aviso. Sobre o QuickTranscribe vi que o último commit do repo deles foi há 2 anos, você sabe se eles ainda estão ativos nessa ferramenta? Pelo GitHub não parece muito não, o que é uma pena. [[Utilizador:Junglk|Junglk]] ([[Utilizador Discussão:Junglk|discussão]]) 15h42min de 17 de janeiro de 2026 (UTC) ::::::{{Ping|Junglk}} não há de quê! Eu meio que me exaltei um pouco, pois me interesso muito por esse assunto (até hoje não entendi pq removeram essa regra de 15 anos da lei de direitos autorais) e existem algumas brechas que aumentam o número de obras liberadas (como a falta de herdeiros). No momento eu tô "enchendo o saco" para o Google Books liberar o material do DIP, como a tradução inglesa da constituição de 1937. Mas até meus conhecimentos tem limites: não se se as traduções inglesa, espanhola e nheengatu que o STF fez da constituição (ou o relatório da explosão do VLS-1 em 2003) cairia na isenção do Art. 8 da LDA (leis e "outros atos oficiais" não teriam proteção). ::::::Acho que faz mais de um ano que falei com o criador do projeto. De toda forma, sei que aqui costumava ter um app (GiroBot?) que tinha o mesmo objetivo, mas caiu em desuso e ficou muito desatualizado. [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 15h55min de 17 de janeiro de 2026 (UTC) :::::::{{Ping|Junglk}} perguntei pro SnowyCinema no Ws em inglês e o projeto ainda é experimental -- e ele está dividindo o tempo com outros projetos, de forma que não teve muito avanço no último ano. [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 17h55min de 18 de janeiro de 2026 (UTC) ::::::::Poxa, uma pena mesmo. Assim que o projeto voltar a ter mais frequentes atualizações ou se estabilizar podemos pensar em migrar para cá. Estava dando uma olhada ontem e parece ser bem útil mesmo, automatiza bastante partes do processo de transcrição. [[Utilizador:Junglk|Junglk]] ([[Utilizador Discussão:Junglk|discussão]]) 18h28min de 18 de janeiro de 2026 (UTC) :::::::::{{Ping|Junglk}} poisé! No mínimo ele poderia ajudar a agilizar obras mais "puxadas", que no geral envolveram listas e materiais bibliográficos, enquanto obras de prosa continuariam tendo uma transcrição mais humana. :::::::::E acordei hoje com uma ótima notícia: o IAI finalmente começou a publicar as [https://resolver.iai.spk-berlin.de/IAI00007A9D00000000 traduções] das obras do Verne (século 19). Até o momento eles liberaram o Da Terra à Lua, A Roda da Lua (continuação) e Volta ao Mundo em 80 Dias. No final eles deverão liberar por volta de 80 exemplares, pelo o que indica o acervo local (não digital). [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 12h11min de 22 de janeiro de 2026 (UTC) ::::::::::Caramba que notícia incrível! Tu é demais cara, conseguir convencer eles de digitalizar tantas obras, vai ser muito legal mesmo para o nosso projeto. Você já quer que eu transfira lá para o Commons? Ou devemos esperar todos os livros? Pelo que vi, acho que adicionaram outro (Os inglezes no Polo Norte) então acho que eles já fizeram um boa parte da digitalização. [[Utilizador:Junglk|Junglk]] ([[Utilizador Discussão:Junglk|discussão]]) 14h20min de 22 de janeiro de 2026 (UTC) :::::::::::{{Ping|Junglk}} obrigado! Eu fiz o pedido há várias semanas e, quando confirmaram que os livros eram antigos o suficiente, falaram que iam digitalizar -- mas demoraria pra liberar. Acho que o ideal é ir já mandando pro Commons, assim evita ficar muito cheio lá na frente (assim já dá pra arrumar o wikidata e relação de idiomas) -- eu só não coloco pq o mobile do Commons é mais pra imagem, e parece que só dá pra achar o PDF no iai pelo desktop. Talvez dê pra usar esses livros para atrair novos usuários, considerando a popularidade do Verne. [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 16h53min de 22 de janeiro de 2026 (UTC) ::::::::::::@[[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]]: Adicionei lá no Commons as edições disponíveis (vê se não fiz alguma besteira, estão [[commons:Category:Books by Jules Verne translated into Portuguese|nessa]] categoria). Só ainda não mexi com o Wikidata, tem como tu dar uma olhada nessa parte? Se não der, me avisa o que preciso fazer pra ajudar! [[Utilizador:Junglk|Junglk]] ([[Utilizador Discussão:Junglk|discussão]]) 19h05min de 22 de janeiro de 2026 (UTC) :::::::::::::{{Ping|Junglk}} Opa! Acabei de ver aqui e parece que está tudo certo (só achei meio redundante categorizar tanto na categoria principal quanto na subcategoria, mas tudo bem). :::::::::::::Quando ao Wikidata: as coisas são facilitadas pela predefinição books. Você consegue ver que ao lado do título da caixa informativa tem alguns links. O último link é do Quickstatments, que importa a informação da caixa para o Wikidata (funciona melhor quando a obra é em inglês). No desktop (eles não adaptaram a interface pro mobile) é algo de poucos segundos e no fim só precisa de algumas correções (data, conexão com a obra original e vice-versa [assim já interliga a tradução e o original] e esse tipo de coisa). Também seria possível adicionar o "código" da fonte original, mas não achei o caminho do IAI. No fim, é só adicionar o código WD (Q***) na predefinição do Commons. Fiz isso no Volta ao Mundo, mas é algo só ágil mesmo no desktop. Caso também for adicionando a galeria, [https://ws-page-game.toolforge.org/ este app] agiliza bastante a listagem de páginas (acho mais intuitivo do que é usado localmente). [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 21h22min de 25 de janeiro de 2026 (UTC) ::::::::::::::Adicionei os PDFs nas subcategorias de [[:Commons:Category:Books by Jules Verne|Category:Books by Jules Verne]]. [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 21h35min de 25 de janeiro de 2026 (UTC) :::::::::::::::{{Ping|Junglk}} só passando pra avisar: eles adicionaram mais algumas coisas desde então. Se tiver um app RSS, da pra acompanhar [https://digital.iai.spk-berlin.de/viewer/api/v1/records/rss/?query=%2B%28%28%2B%28MD_AUTHOR%3A%28jules+AND+verne%29%29%29%29 neste link]. [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 16h36min de 26 de janeiro de 2026 (UTC) ::::::::::::::::@[[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]]: Sim, dei uma olhada hoje de manhã e vi que eles postaram mais! Já upei no Commons, só vou adicionar os templates e mexer no Wikidata desses novas e dos antigos seguindo seus conselhos. Obrigado pelo link RSS, será bem útil. [[Utilizador:Junglk|Junglk]] ([[Utilizador Discussão:Junglk|discussão]]) 16h43min de 26 de janeiro de 2026 (UTC) :::::::::::::::::Entendido e não há de quê! Acho que logo dará pra montar algum tipo de anúncio pra comunidade lusófona: considerando a popularidade do Julio Verne, deve ser a melhor forma de atrair leitores e editores (Da Terra à Lua, 20 mil leguas, Volta ao Mundo e Viagem ao centro da Terra seriam os que tem mais chance de atrair interesse, com os demais ficando pro longo prazo - até deixei algumas sugestões lá no fórum do LibriVox). [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 20h12min de 26 de janeiro de 2026 (UTC) ;Continuando Opa, {{ping|Junglk}}, tudo bem? Tô passando aqui pq a BBM da USP me respondeu com alguns livros que sugeri a digitalização ano passado: *Os Miseráveis: [https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8858 vol 1], [https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8857 2] e [https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8856 3]. *Mais Verne (edições alternativas): [https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8860 Volta ao mundo] (8 ed); [https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/8861 a estrela do sul] (edição brasileira). Aquela fonte de antes já chegou ao fim do que eles tinham na coleção. Infelizmente faltam algumas coisas, mas já é a maior fonte de traduções do Verne que temos. Em breve teremos mais links (acho que faltam outros dois volumes dos Miseráveis). [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 20h14min de 6 de março de 2026 (UTC) :Que massa, uma obra gigantesca do grande Hugo! :Peço perdão pela ausência no projeto nesses últimos meses, ando bem enrolado com outras coisas/projetos (mas sempre entro aqui pra conferir como estão as coisas). Irei upar no Commons essas obras, muito obrigado pelo aviso! Qualquer coisa estou aqui! [[Utilizador:Junglk|Junglk]] ([[Utilizador Discussão:Junglk|discussão]]) 21h51min de 6 de março de 2026 (UTC) ::{{Ping|Junglk}} opa! No fim acabou levando mais do que esperei (eram só aqueles volumes dos Miseráveis mesmo -- fiquei com a impressão que eles iriam digitalizar a primeira edição portuguesa, que é a mais antiga, enquanto focaram na versão brasileira). ::Hoje a brasiliana liberou um punhado de [https://digital.bbm.usp.br/browse?type=author&value=Andrade%2C+Oswald+de%2C+1890-1954 livros] do Oswald de Andrade e nos últimos tempos até mais do [https://digital.bbm.usp.br/browse?type=author&value=Ramos%2C+Graciliano%2C+1892-1953 Graciliano Ramos]. Mais cedo consegui enviar o [[Galeria:Narizinho Arrebitado (1° ed.).pdf|Narizinho arrebitado]] (1921) pelo url2commons no celular -- esse é um dos livros que daria para agilizar rapidamente, e há tempos que estou atrás dessas "edições fundadoras" do Sítio (que possuem um valor imenso para pesquisadores - no caso, esse expande o [[A Menina do Narizinho Arrebitado]]). Em breve a Biblioteca do Senado deve digitalizar os livros do Henry Ford que o Lobato traduziu (infelizmente uma edição posterior a 1930, mas imagino que de para argumentar o uso no Commons pelo fato da primeira edição datar da década de 1920). ::Por curiosidade, encontrei esse [https://www.migalhas.com.br/quentes/314015/ha-90-anos--brasileiro-previu-o-surgimento-da-internet artigo especulativo] (imaginando a internet há mais de 90 anos) de autor falecido em 1928. Se tiver a fim, é daquele tipo que dá para transcrever em pouco tempo. Até! [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 19h30min de 14 de abril de 2026 (UTC) :::{{ping|Junglk}} estou passando pra avisar que agora estou com um notebook novo, e aos poucos voltarei a apoiar o projeto de forma mais profunda. Até! [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 19h01min de 7 de maio de 2026 (UTC) ::::Fala @[[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]]! Peço perdão pela minha ausência no projeto, vou tentar fazer algo pelo menos no final de semana. Adicionei a edição da revista "O Cruzeiro" na qual aquele artigo que você mencionou aparece ([[Galeria:O Cruzeiro (1928 - N001).pdf|fásciculo]]), vou começar a mexer nele assim que possível! ::::Fico feliz que tenha conseguido um note novo, é uma ótima notícia. [[Utilizador:Junglk|Junglk]] ([[Utilizador Discussão:Junglk|discussão]]) 23h18min de 8 de maio de 2026 (UTC) :::::Opa! Tudo bem! Estou encaminhando o inicio de alguns projetos (como o gigantesco Julio Verne e [[Os Miseráveis]]), enquanto fico na espera de outros livros (a Brasiliana da USP deve liberar ainda mais com o tempo). Notado! Muito obrigado! Estou me acostumando com o novo teclado, e me alegro em voltar a ficar ativo por aqui! [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 23h40min de 8 de maio de 2026 (UTC) == Boletim Bibliografico da Biblioteca Nacional == O Boletim Bibliografico da Biblioteca Nacional pode ser tanto um projeto interessante de transcrição (principalmente se for possível automatizar a maior parte do processo) quanto fonte de obras e autores para o Wikisource: *[http://memoria.bn.gov.br/DocReader/001260/1 1918-1921] *[http://memoria.bn.gov.br/docreader/430870/1 1938-1982] Imagino que os exemplares entrem como "PD-Brazil-Gov" (ou equivalente) no Commons. [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 13h47min de 17 de janeiro de 2026 (UTC) :As edições 1918-1921 é possível colocar no commons com o template PD-Brazil-Gov mesmo, entretanto as outras acredito que somente como Ficheiro aqui no pt.wikisource, pois apesar de estar em domínio público no Brasil precisa estar em domínio público lá também. Admito que esse é bem mais trabalhoso pois infelizmente a BN não disponibilizou os PDF então é necessário baixar imagem por imagem... Vou tentar aos poucos fazer os de 1918-1921. [[Utilizador:Junglk|Junglk]] ([[Utilizador Discussão:Junglk|discussão]]) 15h27min de 17 de janeiro de 2026 (UTC) ::Tudo dá pra adicionar como PD-Brasil-Gov, já que 1983 é a última data aceita (caindo em domínio público em 1/1/1998, antes da vigência da LDA atual). Mas para PD-1996, a última data é 1981. De 1916 até 1983 tudo produzido pela união, com excessão de leis e obras do tipo (que não tinha proteção) caia em domínio público após 15 anos da publicação. [[Utilizador:Erick Soares3|Erick Soares3]] ([[Utilizador Discussão:Erick Soares3|discussão]]) 15h44min de 17 de janeiro de 2026 (UTC) {{Discussão2|Escreva aqui o nome do tópico}} == Electro information == Bom Aprendizado [[Especial:Contribuições/&#126;2026-21619-32|&#126;2026-21619-32]] ([[Utilizador Discussão:&#126;2026-21619-32|discussão]]) 11h01min de 8 de abril de 2026 (UTC) {{Discussão2|Tratado de Tordesilhas}} {{Discussão2|Páginas de autor}} {{Discussão2|Nova candidatura a administradora}} {{Discussão2|Validação de Como se deve escrever a história do Brasil, de Carl von Martius}} == <span lang="en" dir="ltr">Migration to Parsoid</span> == <div lang="en" dir="ltr"> <section begin="announcement-content" /> <em>[[m:Special:MyLanguage/Wikimedia Foundation/Product and Technology/Parsoid Read Views/Read View Announcement|Read this in another language]]</em> Hello everyone! I am glad to inform you that as the next step in the [[mw:Special:MyLanguage/Parsoid/Parser Unification|Parser Unification]] project, Parsoid will soon be turned on as the default article renderer on your wiki. We are gradually increasing the number of wikis using Parsoid, with the intention of making it the default wikitext parser for MediaWiki's next long-term support release. This will make our wikis more reliable and consistent for editors, readers, and tools to use, as well as making the development of future wikitext features easier. If this disrupts your workflow, don’t worry! You can still opt out through a user preference or turn Parsoid off on the current page using the Tools submenu, as described in the [[mw:Special:MyLanguage/Help:Extension:ParserMigration|Extension:ParserMigration]] documentation. There is [[mw:Special:MyLanguage/Parsoid/Parser Unification/Confidence Framework|more information about our roll-out strategy]] available, including the testing done before we turn on Parsoid for a new wiki. To report bugs and issues, please look at our [[mw:Special:MyLanguage/Parsoid/Parser Unification/Known Issues|known issues]] documentation and if you found a new bug please create a phab ticket and tag the [[phab:project/view/5846|Content Transform Team in Phabricator]]. <section end="announcement-content" /> </div> [[mw:User:MSantos (WMF)|Content Transform Team]] 16h31min de 3 de agosto de 2026 (UTC) <!-- Mensagem enviada por User:MSantos (WMF)@metawiki utilizando a lista em https://meta.wikimedia.org/w/index.php?title=Distribution_list/Global_message_delivery/Wikisource&oldid=28221043 --> {{Discussão2|Conflito de módulos}} == Pedido de verificação de site - Palácio do Planalto == Olá. Gostaria de solicitar que a página do [https://www.gov.br/planalto/pt-br Palácio do Planalto] seja inclusa na lista de [[Wikisource:Sítios com conteúdos livres|sites avaliados]], já que o mesmo é usado para disponibilizar leis de maneira muito mais simples do que pelo Diário Oficial da União. [[Utilizador:Notsonotoriousbig|Notsonotoriousbig]] ([[Utilizador Discussão:Notsonotoriousbig|discussão]]) 21h25min de 19 de agosto de 2026 (UTC) {{Discussão2|Conferência de Utilizadores com Direitos Estendidos 2026 - candidaturas abertas}} g3hqr69p8ebs4ji82etlfhx83ktun5r Página:Dom João VI no Brazil, vol 1.djvu/308 106 37651 560422 364609 2026-08-24T20:13:50Z Junglk 34905 /* Revista */ 560422 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Junglk" />{{rh|286|DOM JOÃO VI NO BRAZIL|}}</noinclude>que é hoje um lugar commum da critica, assim como do processo judiciario, a escassa fé que merece o testemunho unico, por mais sincera e imparcial que seja a testemunha. Nossos sentidos e nossas reminiscencias são outras tantas fontes de erro, e sómente pela analyse comparativa e prova contradictoria se logra extrahir a particula de verdade envolta na massa enganadora. Outro principio corollario do primeiro, é, no dizer do eminente auctor argentino, o de não aceitarmos, mesmo condicionalmente, qualquer opinião interessada senão na parte que pareça contraria, ou pelo menos indifferente ao seu interesse. Presas offerece todas as condições negativas: é uma testemunha indigna de credito, a quem nenhum impulso levantado instigava e que só agia com a mira no lucro. Contucci o accusava <ref>Cartas de 1809 a 1810, no Arch. do Min. das Rel. Ext. do Brazil.</ref> de contar quanto se passava ao plenipotenciario hespanhol Casa Irujo, o que deve ser tanto mais verdade quanto fazia absolutamente o mesmo esse outro aventureiro com quem Presas aliás se correspondia. N’este ponto, comtudo, o cotejo das informações permitte-nos orientar com certa segurança: os depoimentos são varios e alguns insuspeitos. As intrigas platinas foram uma realidade. E’ inquestionavel que Dona Carlota Joaquina procurou assiduamente captar a boa vontade das colonias hespanholas; que, sem caracter propriamente official, pois pelo casamento perdera os direitos de infanta hespanhola, e pela força das circumstancias assumira a nação a direcção dos seus destinos, iniciou uma copiosa correspondencia com auctoridades e pessoas influentes não só de Buenos Ayres<noinclude>{{lh|5em|align=left}}{{Smallrefs|fs=95%}}</noinclude> acpibc974mmqtbtxy9xkbnbrcc3x4d3 Página:Dom João VI no Brazil, vol 1.djvu/309 106 37652 560423 364610 2026-08-24T20:22:02Z Junglk 34905 /* Revista */ 560423 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Junglk" />{{rh||DOM JOÃO VI NO BRAZIL|287}}</noinclude>como de Montevidéo, Chile, Perú e até Mexico; que sustentou essa propaganda epistolar nos annos de 1808 e 1809 particularmente, sob pretexto de zelar os interesses da sua casa reinante, effectivamente os seus proprios; que fez distribuir profusamente por todas aquellas partes uma proclamação concebida na linguagem emphatica do tempo e da occasião, reivindicando os seus direitos renunciados, porém indestructiveis <ref>A referida proclamação dizia n’alguns dos seus periodos: “Um systema de governo colonial sem metropole, e sem soberano effectivo, a quem recorrer, como a centro de unidade he um absurdo que repugna a toda a sãa politica; he uma verdadeira Anarchia que exporia as Americas a ser divididas em tantos Reis como tem de Vice-Reis; em tantos Regulos como governadores, e em outros tantos facciosos quantos são os homens atrevidos, de que abundão, e faltando aos primeiros aquelle grão de força e respeito que so obtinham pelo poder da Metropole da qual dependiam os premios, e donde se receavam os castigos, tudo se converteria em um cáhos, e viriamos a ser a preza do primeiro, que se nos apresentasse, ao qual nos veriamos talvez obrigados a admittir como um bemfeitor, que serenasse nossas intestinas dissenções, e partidos, o que he de temer que aconteça á desgraçada Hespanha…: para que finalmente se cheguem a ver cumpridos os votos da America, não encontra a sua fidelidade outro meio efficaz, virtuoso e honroso senão acceitar com o mais vivo reconhecimento o precioso dom, que a piedade do Ceo nos apresenta tão de perto, no momento do nosso maior aperto, pondo-nos debaixo da immediata protecção, e governo da Augusta Irmãa do nosso muito amado Soberano Fernando VII, a Senhora Infanta D. Carlota Joaquina de Bourbon, acclamando-a para a Regencia Soberana deste Imperio (pois somente ella, e seu respeitavel nome desvia toda a idéa, que não seja a mais justa, e digna do generoso sangue que a illustra) para que debaixo de nossos foros, e antigas Leis Patrias o administre e desde já o vá organizando: o sustente, e o defenda com a energia propria do seu Real animo, e singulares virtudes, e o conserve intacto para o entregar como um deposito sagrado a seu digno Irmão, nosso Rey D. Fernando,.....”</ref>; que chegou mesmo a induzir o conde de Florida Blanca a publicar em Murcia, com toda a auctoridade do seu nome e do seu passado, um manifesto indicando-a como a necessaria herdeira; finalmente que de todos os modos preparou sua ida para Buenos Ayres, onde prometeu ir celebrar, de conformidade com os antigos usos da monarchia, as Côrtes que unicamente lhe podiam conferir a<noinclude>{{lh|5em|align=left}}{{Smallrefs|fs=95%}}</noinclude> hq90myyhi45u7tqoraklei52ksta53i Página:Dom João VI no Brazil, vol 1.djvu/310 106 37653 560424 364612 2026-08-24T20:25:44Z Junglk 34905 /* Revista */ 560424 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Junglk" />{{rh|288|DOM JOÃO VI NO BRAZIL|}}</noinclude>desejada investidura e legitimar a forçada accessão ao throno. Sondados os animos aos quaes appellara, pudera a Princeza do Brazil verificar que a idéa da sua regencia fôra bem acolhida no Rio da Prata pelos notaveis em geral, e surgira como uma solução quasi popular, repudiando-a com vehemencia pode dizer-se que apenas o vice-rei Jacques Liniers, esse official francez de fortuna a quem a bravura pessoal e o notavel serviço da expulsão dos Inglezes de Buenos Ayres tinham valido aquella elevada posição. A lealdade dynastica era um elemento com que se podia ainda contar de seguro nas colonias e, além d’isso, dos que já sonhavam com a independencia e que mais tarde, descoroçoados de terem-na com Dona Carlota, a estabeleceram com a republica, muitos julgavam então ser mais facil emanciparem-se constituindo uma monarchia que não desafiasse o grande poderio conservador do Rei do Brazil, cem vezes superior ao do Rei de Portugal. Trez causas indica o confidente Presas como podendo ter influido sobre o Principe Regente para o determinarem bruscamente a retirar a permissão, já dada á esposa, de embarcar para o Rio da Prata: as intrigas dos seus validos que, temendo a natureza rancorosa e vingativa de Dona Carlota, não queriam absolutamente enxergal-a no poder, dispondo de auctoridade e de meios de acção e sobretudo de retaliação; a influencia persistente de lord Strangford que, interpretando fielmente as vistas do gabinete inglez e as aspirações do commercio britannico, trabalhava de socapa pela independencia da America Hespanhola; por fim o receio que se apoderou de Dom João, o qual não primava pelo denodo, de que a mulher, valendo-se da força adquirida, pudesse dar<noinclude></noinclude> 0n3319ca8tmzylhrqiuw1i9ahc7bt02 Página:Dom João VI no Brazil, vol 1.djvu/311 106 37654 560425 364613 2026-08-24T20:30:03Z Junglk 34905 /* Revista */ 560425 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Junglk" />{{rh||DOM JOÃO VI NO BRAZIL|289}}</noinclude>largas ao seu odio conjugal e tentar mesmo despojal-o do throno. Quem tiver presente o episodio de 1805 e se recordar de que, depois do regresso para Lisboa, foi a Rainha a alma damnada das conjurações absolutistas contra Dom João VI, não poderá alcunhar de vãos e chimericos os temores então alimentados pelo Principe Regente. Dom João tinha pois razões para saber quem era a esposa, e esta por seu lado conhecia admiravelmente o marido que enganava. Bem conscia era do quão irresoluto e matreiro tinha o animo: na pittoresca expressão de uma carta d’ella a Presas, “{{lang|es|el principe en estos negocios tiene dos caras.}}” Dom João costumava reflectir tanto, pesar tão minuciosamente os prós e os contras das suas resoluções, que a vontade acabava muitas vezes por deixar de servir-lhe os planos. Era porém um Hamlet doseado de Iago, tragedia e ferocidade á parte. E’ provavel que si Dona Carlota alcançasse sentar-se no throno da America Hespanhola, a ambição e o resentimento a levariam a procurar governar tambem a America Portugueza; mas não é menos provavel que o Principe, ainda que desilludido de um primeiro ensaio tentado de afogadilho por Linhares, entrasse a entrever a possibilidade de definitivamente arredondar os seus dominios patrimoniaes, aproveitando a confusão e o esphacelo do imperio hespanhol. Buenos Ayres, no alvor da sua independencia, albergou tanto um emissario de Napoleão a Liniers no intuito de obter a submissão do vice-reinado do Prata á dynastia franceza, como um enviado de confiança mandado pelo Regente de Portugal a estudar em seu dissimulado beneficio a situação politica vigente. De facto, sem que Dona Carlota d’isso tivesse conhecimento, mandou Dom João em 1809 ao Rio da Prata,<noinclude></noinclude> 25rzddfmzvrzq1hhbrqpho0cp6wovll Página:Diccionario Bibliographico Brazileiro v1.pdf/119 106 157532 560489 363081 2026-08-25T02:15:13Z Junglk 34905 /* Revista */ 560489 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Junglk" />{{rh|94|'''AN'''|}}</noinclude><section begin="D. Anna Euqueria Lopes de Cadaval"/>'''D. Anna Euqueria Lopes de Cadaval—''' Faltam-me noticias circumstanciadas desta senhora; sei apenas que tem bastante conhecimento da lingua franceza, da qual traduziu e deu á publicidade: — ''Magdalena:'' romance de Julio Sandeau, traduzido do francez. Rio de Janeiro, 1849. — ''Educação das meninas por Fenelon:'' traducção. Rio de Janeiro, 1862.<section end="D. Anna Euqueria Lopes de Cadaval"/> <section begin="D. Anna Ribeiro de Góes Bittencourt"/>'''D. Anna Ribeiro de Góes Bittencourt —''' Nasceu em Sant’Anna do Catú, provincia da Bahia, a 31 de janeiro de 1843, sendo seus paes o capitão Mathias de Araujo Góes, ali senhor de engenho, e dona Anna Maria da Annunciação Ribeiro Góes, e é casada com o doutor Socrates de Araujo Bittencourt. Recebendo a primeira educação litteraria de sua virtuosissima mãe que, versada na Biblia a ponto de quasi a saber de cór, a instruira nos preceitos deste livro, aprendeu depois com uma mestra, que veio para o engenho de seu pai, a lingua franceza e musica, e mais tarde com outros mestres a lingua italiana, geographia, historia e finalmente as noções preliminares de physica com seu tio, o conselheiro Pedro Ribeiro de Araujo, lente da faculdade de medicina. Deu-se desde muito joven á litteratura, não só de seu paiz como a franceza; cultiva a poesia, e achando um certo encanto na decifração de charadas e logogriphos tem composto um grande numero delles, e publicado alguns no ''Almanak'' luzo-brazileiro de 1880 a 1882, no ''Almanak'' da ''Gazeta de Noticias'' da Bahia de 1883, e na ''Verdade'', periodico de Alagoinhas, em sua provincia. Escreveu mais: — ''A filha de Jephté:'' romance. Bahia, 1882 — Lera dona Anna Bittencourt as tragedias de Racine, ''Esther e Athalia'', que, como ella se exprime no seu prologo, lhe despertaram a idéa deste romance, avivando-lhe as reminiscencias da Biblia. — ''O anjo do perdão:'' romance — Este romance a pedido de Antonio Lopes Cardoso acaba de ser-lhe entregue para ser publicado na ''Gazeta de Noticias'' da Bahia, em folhetins, e depois talvez seja impresso em volume. — ''Amor materno'' — artigo publicado no ''Almanak'' luso-brazileiro de 1882. — ''Avante! A’ excellentissima senhora dona Analia Vieira do Nascimento'', depois da leitura de sua epistola ao Sr. Antonio Xavier Rodrigues Cordeiro — Vem no ''Almanak'' de lembranças luso-brazileiro para 1881. E’ uma composição de oitenta versos de metrificação diversa, que começa: {{Ppoem|end=stanza| Tu dizes, Analia, que as grandes alturas ::::Vedadas te são. Co’o veu da modestia teu estro procuras ::::Velar — mas em vão. }}<noinclude></noinclude> 4uznpp9cctxzrfccaw9braa9wqb0f12 560491 560489 2026-08-25T02:28:20Z Junglk 34905 560491 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Junglk" />{{rh|94|'''AN'''|}}</noinclude><section begin="D. Anna Euqueria Lopes de Cadaval"/>'''D. Anna Euqueria Lopes de Cadaval—''' Faltam-me noticias circumstanciadas desta senhora; sei apenas que tem bastante conhecimento da lingua franceza, da qual traduziu e deu á publicidade: — ''Magdalena:'' romance de Julio Sandeau, traduzido do francez. Rio de Janeiro, 1849. — ''Educação das meninas por Fenelon:'' traducção. Rio de Janeiro, 1862.<section end="D. Anna Euqueria Lopes de Cadaval"/> <section begin="D. Anna Ribeiro de Góes Bittencourt"/>'''D. Anna Ribeiro de Góes Bittencourt —''' Nasceu em Sant’Anna do Catú, provincia da Bahia, a 31 de janeiro de 1843, sendo seus paes o capitão Mathias de Araujo Góes, ali senhor de engenho, e dona Anna Maria da Annunciação Ribeiro Góes, e é casada com o doutor Socrates de Araujo Bittencourt. Recebendo a primeira educação litteraria de sua virtuosissima mãe que, versada na Biblia a ponto de quasi a saber de cór, a instruira nos preceitos deste livro, aprendeu depois com uma mestra, que veio para o engenho de seu pai, a lingua franceza e musica, e mais tarde com outros mestres a lingua italiana, geographia, historia e finalmente as noções preliminares de physica com seu tio, o conselheiro Pedro Ribeiro de Araujo, lente da faculdade de medicina. Deu-se desde muito joven á litteratura, não só de seu paiz como a franceza; cultiva a poesia, e achando um certo encanto na decifração de charadas e logogriphos tem composto um grande numero delles, e publicado alguns no ''Almanak'' luzo-brazileiro de 1880 a 1882, no ''Almanak'' da ''Gazeta de Noticias'' da Bahia de 1883, e na ''Verdade'', periodico de Alagoinhas, em sua provincia. Escreveu mais: — ''A filha de Jephté:'' romance. Bahia, 1882 — Lera dona Anna Bittencourt as tragedias de Racine, ''Esther e Athalia'', que, como ella se exprime no seu prologo, lhe despertaram a idéa deste romance, avivando-lhe as reminiscencias da Biblia. — ''O anjo do perdão:'' romance — Este romance a pedido de Antonio Lopes Cardoso acaba de ser-lhe entregue para ser publicado na ''Gazeta de Noticias'' da Bahia, em folhetins, e depois talvez seja impresso em volume. — ''Amor materno'' — artigo publicado no ''Almanak'' luso-brazileiro de 1882. — ''Avante! A’ excellentissima senhora dona Analia Vieira do Nascimento'', depois da leitura de sua epistola ao Sr. Antonio Xavier Rodrigues Cordeiro — Vem no ''Almanak'' de lembranças luso-brazileiro para 1881. E’ uma composição de oitenta versos de metrificação diversa, que começa: {{Ppoem|end=stanza| Tu dizes, Analia, que as grandes alturas :::::Vedadas te são. Co’o veu da modestia teu estro procuras :::::Velar — mas em vão. }}<noinclude></noinclude> 18j0ehtxscf0bhaizj1rdhci22o8eh4 Página:Diccionario Bibliographico Brazileiro v1.pdf/120 106 157533 560490 495270 2026-08-25T02:23:51Z Junglk 34905 /* Revista */ 560490 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Junglk" />{{rh||'''AN'''|95}}</noinclude>{{Ppoem|start=stanza|end=close| Si attenta perscruto teus passos infantes, :::::Tentando-os seguir, Do genio as faiscas ardentes, brilhantes, :::::Diviso a fulgir. Qual aguia, que as azas novéis agitando, :::::Ensaia a voar, E as aves rasteiras na terra deixando, :::::Se eleva no ar, Assim vais, da gloria nos carros dourados… :::::Brilhando te vi, Emquanto mil outros das muzas amados :::::Deixaste após ti. Teus labios as ondas de um mar de harmonia :::::Derramam a flux. As ondas transforma-as do genio a magia :::::Em jorros de luz! }} Dona Anna Bittencourt possue ineditas muitas producções poeticas, entre as quaes se acham diversos hymnos religiosos.<section end="D. Anna Ribeiro de Góes Bittencourt"/> <section begin="D. Anna da Silva Freire"/>'''D. Anna da Silva Freire —''' Creio que é natural do Maranhão; só conheço este nome por ver que os autores do Mosaico brazileiro fazem de dona Anna Freire menção, inserindo neste livro esta composição sua: — ''A saudade materna:'' elegia — dedicada a seu filho Egidio José da Silva Freire, morto no Maranhão com dezoito annos de idade. Esta composição, de beIla e delicada inspiração, era inedita; e os autores do citado livro a publicam sem data alguma. Parece-me, comtudo, que a autora, viveu no seculo actual.<section end="D. Anna da Silva Freire"/> <section begin="D. Anna Theophila Filgueiras Autran"/>'''D. Anna Theophila Filgueiras Autran —''' Filha do doutor Henrique Antran da Matta Albuquerque e de dona Eduarda de Amorim Filgueiras Autran, nasceu na cidade da Bahia a 28 de dezembro de 1856. Uma das proposições, que escrevi em seguida á minha dissertação inaugural, foi a seguinte: « A firmeza é um apanagio mais do bello sexo do que do homem », proposição em que fui arguido pelo meu illustrado e venerando mestre o conselheiro Manoel Mauricio Rebouças. Depois, porém, desenvolvendo a mesma proposição n’um artigo que publiquei em um dos periodicos litterarios da côrte, eu disse que, si as mulheres não se davam ás sciencias e ás lettras com o mesmo amor ou perseverança com que se dão os homens, era isto devido sómente á sua educação, toda outra; mas não porque não sejam dotadas do mesmo grau de intelligencia; e que, quando cultivada esta, ellas marchavam na vanguarda das sciencias como aquelles que ás sciencias mais se dedicam, citando para o comprovar os nomes das D’Estael, Ricoboni, Sevignac e outras. Dona Anna Autran é mais uma prova do que então aventurei. Não conheço no céo da inteliigencia patria uma estrella que mais cedo brilhasse, sem deixar nunca de ostentar seu brilho. {{nop}}<noinclude></noinclude> 3vjvim5pxhdh3ca0zyci5h04sju8mb2 Página:Diccionario Bibliographico Brazileiro v1.pdf/121 106 157547 560492 363084 2026-08-25T02:35:55Z Junglk 34905 /* Revista */ 560492 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Junglk" />{{rh|96|'''AN'''|}}</noinclude>Dos apontamentos que da Bahia recebi a respeito de dona Anna Autran, subministrados por pessoa de sua familia, e portanto authenticos, consta o seguinte: « Aos quatro annos de idade já apresentava uma notavel aptidão para as lettras, ora decorando com facilidade versos, orações e pequenos discursos, ora argumentando com uma logica nunca vista nesta idade sobre pontos de arithmetica e religião. « Um anno depois já lia qualquer escripto que se lhe apresentasse, e aos nove annos incompletos finalisava os seus primeiros estudos com louvor e admiração de seus proprios mestres. « Aos dez annos começou a sua vida litteraria com a estréa de uma poesia repassada de ternura e melancolia; e aos doze principiou a dar publicidade a alguns escriptos. « Com quatorze sustentou pela imprensa uma renhida discussão litteraria por alguns mezes — A mulher e a litteratura — com uma das primeiras capacidades de sua provincia, etc. » Escreveu: — ''A mulher e a litteratura:'' serie de artigos publicados no ''Diario da Bahia'' de 15 de julho a 15 de novembro de 1871 — São os artigos da discussão a que se referem os apontamentos que possuo. Era seu contendor o distincto e illustrado jornalista Bellarmino Barreto, de quem se trata neste volume. — ''Devaneios:'' poesias. Bahia, 1877, 253 pags. in-8º— Precedem este livro o juizo critico do doutor Filgueiras Sobrinho e de Domingos Joaquim da Fonseca, a dedicatoria a seu pai, e o prologo. Contém 54 composições poeticas. — ''Suspiros hungaros'' — Sahiu este escripto no ''Diario da Bahia'' do 20 de julho de 1878. — ''Os desterrados da Siberia'' — No ''Monitor da Bahia'', de 28, 29, 30 e 31 de outubro e de 1 de novembro de 1879. Das diversas composições poeticas, que dona Anna Autran tem exparsas, umas impressas, outras manuscriptas por mãos diversas, transcrevo a seguinte, que se acha no « Novo almanak de lembranças luso-brazileiro para o anno de 1873 » publicado em 1872, quando tinha a autora quinze para dezeseis annos: — ''Teus olhos''. {{Ppoem|end=stanza| >> ::Ai de mim…… Já não sei qual fiquei sendo ::Depois que os vi. +>({{sc|G. Dias.}}) ::Teus olhos lindos, brilhantes, a fitar meus olhos vi; olhei outra vez, olhei-os, e ainda olhavam para mi… Baixei os melus — e corando, Olhei de novo e tremi… }}<noinclude></noinclude> gzu5fsje6ibi4pc9jrjfh9p7wgejuw3 560493 560492 2026-08-25T02:36:21Z Junglk 34905 560493 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Junglk" />{{rh|96|'''AN'''|}}</noinclude>Dos apontamentos que da Bahia recebi a respeito de dona Anna Autran, subministrados por pessoa de sua familia, e portanto authenticos, consta o seguinte: « Aos quatro annos de idade já apresentava uma notavel aptidão para as lettras, ora decorando com facilidade versos, orações e pequenos discursos, ora argumentando com uma logica nunca vista nesta idade sobre pontos de arithmetica e religião. « Um anno depois já lia qualquer escripto que se lhe apresentasse, e aos nove annos incompletos finalisava os seus primeiros estudos com louvor e admiração de seus proprios mestres. « Aos dez annos começou a sua vida litteraria com a estréa de uma poesia repassada de ternura e melancolia; e aos doze principiou a dar publicidade a alguns escriptos. « Com quatorze sustentou pela imprensa uma renhida discussão litteraria por alguns mezes — A mulher e a litteratura — com uma das primeiras capacidades de sua provincia, etc. » Escreveu: — ''A mulher e a litteratura:'' serie de artigos publicados no ''Diario da Bahia'' de 15 de julho a 15 de novembro de 1871 — São os artigos da discussão a que se referem os apontamentos que possuo. Era seu contendor o distincto e illustrado jornalista Bellarmino Barreto, de quem se trata neste volume. — ''Devaneios:'' poesias. Bahia, 1877, 253 pags. in-8º— Precedem este livro o juizo critico do doutor Filgueiras Sobrinho e de Domingos Joaquim da Fonseca, a dedicatoria a seu pai, e o prologo. Contém 54 composições poeticas. — ''Suspiros hungaros'' — Sahiu este escripto no ''Diario da Bahia'' do 20 de julho de 1878. — ''Os desterrados da Siberia'' — No ''Monitor da Bahia'', de 28, 29, 30 e 31 de outubro e de 1 de novembro de 1879. Das diversas composições poeticas, que dona Anna Autran tem exparsas, umas impressas, outras manuscriptas por mãos diversas, transcrevo a seguinte, que se acha no « Novo almanak de lembranças luso-brazileiro para o anno de 1873 » publicado em 1872, quando tinha a autora quinze para dezeseis annos: — ''Teus olhos''. {{Ppoem|end=stanza| >> ::Ai de mim…… Já não sei qual fiquei sendo ::Depois que os vi. {{d|({{sc|G. 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O subtítulo — «recolhidas e contadas por D. Ana de Castro Osório» — indica não só a autoria literária, ou, melhor, a colaboração literária dada por uma grande Escritora ao génio do Povo, mas também a probidade e a perfeita beleza desta realização. Não carece, por isto, a obra que damos ao público, em edição definitiva e completa, de uma longa apresentação dos Editores. Parece-nos justo, no entanto, inscrever nela algumas palavras liminares, demonstrativas principalmente da consciência com que oferecemos aos Países de Língua Portuguesa, este monumento literário, único em sua vastidão e beleza, o Livro onde ficará sempre vivo o génio de um Povo, através das suas mais belas tradições. Palavras também de justa homenagem à memória de quem com intuição única, lúcido amor pela sua raça, dedicação constante de uma vida e os mais altos dotes literários, pôde realizar esta obra — a escritora D. Ana de Castro Osório. A tradição popular portuguesa é, sem dúvida, uma das mais ricas e de maior elevação de alma. No campo vastíssimo da Literatura Tradicional, por tempo incontável mantida, sucessivamente acrescentada e refeita, e sempre vivida, têm lugar primordial as Histórias Maravilhosas, designação geral que significa toda a narrativa em que se fixou ou recriou um mito, um sentimento do maravilhoso da vida humana e de tudo que a prolonga no mistério. Todo esse maravilhoso tradicional precisava de ser amorosa e inteligentemente recolhido com a intuição do Poeta mais ainda que pela ciência do Folclore. Foi esta obra de recolha da tradição popular realizada, com a dedicação de largo tempo da sua vida, por D. Ana de Castro Osório. Iniciou-a na mocidade, em Mangualde (onde nascera em 18 de Junho de 1872); continuou-a, na juventude, em Setúbal, e ali a terminou, já depois de casada com o poeta Paulino de Oliveira, que muito a animou a prosseguir na realização total do seu empreendimento. Todas estas Histórias foram recolhidas, por um espírito de verdadeira poesia, da tradição oral do grande poeta que é o Povo. Já antes da ilustre escritora, alguns sábios folcloristas haviam começado a obra meritória da recolha, científica, digamos assim, destas e outras mais tradições populares, fixando as suas múltiplas e quase sempre incompletas e imperfeitas versões. Mas não foi aos seus livros de ciência etnográfica ou de folclore que D. Ana de Castro Osório pediu a matéria de sua obra inicial — a criação de uma Literatura Infantil Portuguesa, com base principal nos contos e histórias tradicionais. Foi à matéria, viva e palpitante de sonho, da própria oralidade. Foi a gente do povo que, depois, consagrou numa página literária de grande beleza: «Os narradores das lindas histórias». E com o mesmo espírito de poesia as reviveu e recriou, sentindo com a alma do Povo, na sua maior altura; reconstituindo, pela reunião de várias versões ou a intuição poética, o que fora esquecido; purificando, o que se deturpara na tradição oral, sem desumanizar nem alindar mas procurando sempre a perfeição da beleza perene. Esta recriação literária, no sentido melhor e mais puro da palavra, pode considerar-se única em todo o Mundo. A França conta, é certo, com a obra semelhante de Charles Perrault; a Alemanha com a dos irmãos Grimm. Mas a primeira, pelas próprias qualidades e defeitos de época literária e social, de Classicismo e de muito imperfeita compreensão e escasso amor do Povo, e, a segunda, por mais estreito espírito científico e menor sentimento poético, uma e outra não alcançaram a realização que era necessária. E esta — a reconstituição viva e completa dos mitos de tradição popular e sua recriação com beleza perfeita para todos e para sempre válida — realizou-a D. Ana de Castro Osório. A obra fez-se por este sentimento da Poesia e da grandeza humana. Em 1897, com os primeiros contos e histórias, recolhidos na sua mocidade, iniciou D. Ana de Castro Osório a publicação, em fascículos, comovedores por sua modéstia de apresentação gráfica, da sua Colecção de contos «Para as Crianças». Nela foram publicadas algumas obras de criação exclusivamente pessoal; os contos e facécias que exprimem o bom senso e a sátira risonha ou pungente do Povo; e, constituindo o principal de nove séries de fascículos das dezóito dessa Colecção Para as Crianças, as Histórias Maravilhosas. Com esta obra persistente foi, verdadeiramente, D. Ana de Castro Osório a criadora da Literatura Infantil Portuguesa. Mas a tão alto e realizado intuito um outro, maior ainda, se sobrepunha, o de aperfeiçoar, progressivamente, e com o carinho e o respeito exemplar que merece o génio do Povo, todas essas Histórias maravilhosas e de as reunir e ordenar de modo a constituirem um monumento definitivo da Literatura Portuguesa. Em edições sucessivas e numa revisão final, de grande Artista na plena posse das suas qualidades, antes da sua morte (em 23 de Março de 1935) preparou D. Ana de Castro Osório a obra perfeita que hoje damos ao público. Destina-se a todas as crianças e a todos os adultos; aos indivíduos de cultura superior e ao Povo; aos que procuram a beleza da eterna Poesia humana e aos folcloristas que a desejam estudar em suas origens e permanência na tradição. Em notas finais a estes volumes serão indicadas as fontes orais, a origem local das versões recolhidas, os nomes dos seus narradores populares. Porque esta obra da mais alta e válida literatura é também uma obra com base, a mais firme, na ciência do folclore. Interessará, por isso, estamos certos, não só aos homens de língua portuguesa mas também aos homens cultos de todo o Mundo. Mas é na verdade, para todos que falam o português que ela tem o principal e inexcedível interesse — o de constituir um dos Livros essenciais da sua cultura, fonte de beleza moral e de grandeza espiritual. Por o compreendermos desejámos fazer esta edição definitiva das Histórias Maravilhosas do Povo Português, contadas por D. Ana de Castro Osório, sobre a versão última e perfeita, pela muito ilustre senhora revista e que nos foi confiada pelos seus filhos, os escritores João de Castro Osório e José Osório de Oliveira. Os Editores crêem que melhor não poderiam, do que por esta edição, corresponder ao intuito expresso no seu nome. SOCIEDADE DE EXPANSÃO CULTURAL, LDA. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|*Prefacio]] luoczs6c4qlf3bg0qs251pnlb9lfaal Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O Homem da moca 0 255973 560521 560268 2026-08-25T10:02:32Z Mt516 43586 560521 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O Homem da moca | anterior = [[../Prefácio/]] | posterior = [[../História do careca/]] | notas = }} <big>'''O HOMEM DA MOCA'''</big> HAVIA numa terra, que não vem para aqui dizer o nome, um rapaz dotado duma força tal que nenhum homem se atrevia a lutar com ele. Mas, como era bom e alegre, todos o convidavam e lhe chamavam o Benvindo significando assim o prazer que sentiam com a sua companhia. Um dia aborreceu-se de viver ali e resolveu ir viajar. Mandou fazer uma grande moca de ferro e, encostando-se a ela, partiu sem destino, ao acaso da sua fantasia. Passou por um pinhal e viu um homem que arrancava grandes pinheiros com a maior facilidade e os atava em molho como se fossem ramos secos. O ''Homem da moca'' perguntou ao outro o que andava a fazer e, como lhe respondesse que andava a juntar lenha para o seu lume e tencionava levar duma vez as árvores todas, ficou muito contente de encontrar um homem com tanta força e propôs-lhe serem companheiros, pagando-lhe ele soldada. O ''Arranca-pinheiros'' aceitou logo e, satisfeitos de serem dois valentes sem medo a coisa alguma, continuaram a jornada. Depois de muito caminharem e de verem inúmeras terras sem nunca encontrarem quem os vencesse, viram no meio dum campo um homem só com uma montanha às costas. Admirados, perguntaram: — Olá, tu que fazes aí? — Eu tenho muita força e para me entreter quero mudar esta montanha. — Deixa-te disso — acudiu ''O da moca'' — vem daí connosco ver terras, que eu pago-te soldada como pago a este. O ''Revolve-montes'' aceitou e lá foram os três valentes correr mundo. Eram a admiração de toda a gente e muitos Reis e Imperadores os quiseram fazer generais dos seus exércitos. Mas o ''Homem da moca'' nada mais desejava do que ver terras, correr mundo e conhecer novas gentes. Assim foram andando até que uma noite acharam-se num descampado onde havia uma casa. Não vendo más nem boas, para ali se dirigiram e ficaram verdadeiramente espantados por encontrarem uma boa casa completamente abandonada. Benvindo, que não era homem para meias medidas, entrou por ali dentro, tomou posse de tudo e disse aos companheiros que era preciso fazer a ceia e então que fosse um deles ver se encontrava quem lhe desse ou vendesse coisa que pudessem comer. Saiu o ''Arranca-pinheiros'' e, como visse fogueiras na serra, discorreu que eram os pastores e foi comprar um carneiro e bom leite. Por conversa perguntou de quem era aquela grande casa e porque razão estava assim abandonada. Responderam-lhe os pastores: — A casa lá de baixo?! Ai senhor, Deus o livre de lá ficar! — Mas porquê, homenzinhos?! Digam sempre, que nós somos três companheiros invencíveis, sem medo a coisa alguma. — Pois os senhores serão muito valentes, ninguém diz menos disso (responderam os pastores), mas é que naquela casa anda o Diabo e quem lá ficar morre! — Vamos a ver se ele é mais forte do que nós! Foi ter com os companheiros e, contando o que lhe tinham dito os pastores, pediu a Benvindo que se fosse deitar mais o ''Revolve-montes'', que ele ficaria fazendo a ceia. Assim foi; os dois subiram para os quartos e o ''Arranca-pinheiros'' tratou de esfolar o carneiro e pô-lo a assar no espeto, ao mesmo tempo que deitava o leite num tacho para ferver. Estava nestes preparativos quando ouviu uns ''miaus'' terríveis. Voltou-se e deu de cara com um gatarrão, preto como o azeviche, que abria uma boca enorme miando desesperadamente. Era tão medonho o animal que o ''Arranca-pinheiros'', apesar da sua valentia, fugiu pela escada acima, chamando os companheiros. Entretanto foi o gato ao lume e levantou tal labareda que o carneiro ficou em carvão e o leite em fervura fugiu todo do tacho. Vieram os companheiros ver o gato famoso que havia afugentado o valente, mas nada encontraram. O ''Homem da moca'' muito zangado mandou pôr a ceia na mesa, mas a ceia era uma vez!, tiveram que se deitar sem ela. Ao outro dia quiseram os dois ir-se embora, mas ''O da moca'', tendo empenho de conhecer a coragem dos seus homens, resolveu ficar. Mandou outra vez comprar um carneiro e leite e nessa noite foi o ''Revolve-monte''s quem ficou a fazer a ceia. Mal o homem tinha posto tudo ao lume, ouvindo o sinistro miar do gato, largou barcos e redes e foi acorrer ter com os companheiros gritando que estava ali o Diabo com forma de gato, a deitar lume pelos olhos! Os outros desceram e não viram nada, mas, como na véspera, tiveram que ficar sem ceia — porque tudo estava reduzido a carvões. Na noite seguinte mandou ''O da moca'' deitar os dois e ficou ele a cozinhar a ceia, pondo ao pé de si a arma sua fiel companheira. Tinha já a ceia pronta e estava para chamar os outros dois, quando ouviu o gato a miar. Olhou para o lado, viu o bicho e disse-lhe: — Anda para cá com o teu ''renhau-nhau'', que eu te ensino! O gato, sem fazer caso, ia-se aproximando do lume; e o homem, sempre com olhos nele, pegou na moca e quando o viu ao alcance levantou-a ràpidamente e arrumou-lhe tamanha pancada que o bicho deu um berro medonho e desapareceu. — Então não te dizia eu que me havias de pagar!? Deixares-me duas noites sem ceia!? Ora toma lá para não seres esperto! — dizia ele todo contente. Chamou os companheiros para a ceia, e eles, que já o imaginavam cheio de susto, ficaram envergonhados de o verem a rir muito satisfeito da sua proeza. Cearam com todo o descanso e apetite, e depois disse ''O da moca'': — Agora vamos procurar o gato, que ele deve estar por aí escondido em algum canto. Respondeu o ''Arranca-pinheiros'': — Então como havemos de o encontrar? — Procurando-o, meu bruto! Pois tu não vês que deixou rastro de sangue? ''O da moca'', sempre na frente, foi seguindo e, depois de percorrerem lojas, subterrâneos e velhos casarões abandonados, chegaram a um pátio interior onde havia um poço. Terminava ali o rastro de sangue, que ainda se via na borda. — Bom! (disse Benvindo). Foi por aqui que ele se meteu, e nós vamos lá abaixo procurá-lo. — Como havemos nós de descer? — perguntaram os outros, sempre atrapalhados. — Isso já se arranja. Fiquem vocês aguardar a saída, que eu já volto. Foi à cozinha, onde tinha visto cordas e cestos, escolheu um com quatro asas e trouxe tudo para a borda do poço. Atou as cordas às quatro asas do cesto e fazendo entrar para dentro o ''Arranca-pinheiros'' deu-lhe uma campainha dizendo: Tu vais descer lá ao fundo e ver o que há para vires contar; levas esta campainha, se te vires aflito toca-a com força que nós içamos-te logo. O ''Arranca-pinheiros'' lá se meteu no cesto e os dois começaram a deixá-lo cair devagarinho. Estaria por aí a meio do poço, começou a tocar a campainha com tal fúria que os outros o subiram logo. Perguntou ''O da moca'': — Então para que tocaste? O que viste? — Ih, Jesus! eram tantos os mosquitos que não era possível romper. Até me iam abafando! — És um bruto que só tens força e não tens coragem nenhuma. Agora vai tu, ''Revolve-montes''. Meteu-se este no cesto e foi descendo, mas quando estaria a duas terças partes do caminho desanda a tocar numa tal fúria que não houve mais remédio senão tirá-lo. Chegou acima e disse o mesmo que tinha dito o ''Arranca-pinheiros''. ''O Homem da moca'' ficou tão zangado que ele próprio se meteu no cesto e recomendou que ouvindo tocar não o subissem porque isso apenas queria dizer que precisava descer mais depressa; que só içassem o cesto quando ele abanasse as cordas. Assim foi. A meio do poço, como eram tantos os mosquitos que já o atabafavam, começou a tocar e os de cima vá de largar corda. Foi um instante enquanto se viu com os pés no chão. Saiu do cesto e ficou maravilhado. Dos mosquitos nem sinal! E o fundo do poço não era mais que um palácio, todo de cristal, iluminado como se fosse dia. Começou a percorrer salas e quartos e por toda a parte as riquezas eram tais e tantas que ele se imaginava a sonhar. Assim andou, sem ver ninguém, até encontrar uma Velha que, admirada e compungida, lhe disse: — Que vens aqui fazer, desgraçado? Pois tu não sabes onde estás?! — Para o saber é que venho — respondeu ele arrogante — e se tu não mo dizes, com esta moca te esmago já. Porque é de saber que ele nunca largava a sua arma. A Velha, vendo-se perdida com semelhante ameaça, disse logo: — Espera lá, espera lá, que eu tudo te conto. Olha, naquele quarto está a filha mais velha dum grande Rei, guardada por um leão. Se ele te vê, devora-te. No segundo quarto está a segunda filha do mesmo Rei, guardada por uma serpente, a maior que existe no Mundo. Se lhe apareces, decerto que te engole. E no terceiro quarto está a terceira Princesa que, por ser a mais bela de todas, é guardada pelo próprio Diabo. — Hum! Pois a procurar esse ''figurão'' é que eu vim. Deixa, que ele já provou a minha moca; então vai renovar conhecimentos. — Não — disse a Velha — não fazes nada com isso. Visto que ele já sabe quanto pesa a tua bengala não há-de querer mais brincadeiras dessas. Naturalmente propõe-te um duelo à espada, e tu aceita logo; mas quando ele vier com as espadas, uma muito nova e brilhante, outra muito ferrugenta, escolhe tu esta que a outra é de vidro. — Tu estás a enganar-me? — Não estou, não; previno-te porque assim me vingo dele que me tem presa aqui desde a minha mocidade. Não digas que me viste, é só o que te peço. O rapaz dirigiu-se logo para a primeira porta, abriu-a e encontrou uma linda menina, sentada num banco de oiro, abanando-se com um leque de rendas preciosas. Quando ela o viu entrar, gritou-lhe: — Que vem aqui fazer, desgraçado?! Fuja, que é um leão o meu guarda; se o encontra, mata-o logo. — Pois, minha linda Princesa, eu é que venho para o matar a ele e então já daqui não saio. Mal isto disse, um rugido medonho fez tremer todo o palácio e o homem não teve senão tempo de se meter atrás da porta, enquanto a Princesa, estarrecida de susto, o encomendava a todos os Santos. Abriu-se a porta com formidável estrondo e o leão rugiu: — Aqui há humana criatura!... Mas nem a Princesa teve tempo de responder porque o ''Homem da moca'' descarregou tamanha pancada na cabeça do monstro que ele ficou logo morto. Depois agarrou na Princesa ao colo e foi a correr metê-la no cesto. Deu um grande puxão à corda, que começou logo a subir, e disse à Princesa que mandasse descê-lo, para irem as irmãs. Ela despediu-se, dando-lhe em sinal de reconhecimento o seu precioso leque. Vitorioso daquele primeiro inimigo, dirigiu-se ao segundo quarto. Abriu a porta e deparou com uma menina, se era possível, ainda mais linda do que a primeira. Sentada junto duma mesa, tinha na mão um ramo de mil flores feito de pedras preciosas. Mal viu o rapaz, disse-lhe com tristeza: — Fuja depressa, que a minha guarda é uma serpente, e se aqui o apanha mata-o logo. — Não fugirei, minha linda Infanta, porque já salvei a sua irmã e aqui estou para a salvar também. Mal tinham dito estas palavras ouviram um silvo medonho e uma serpente monstruosa apareceu: — Quem está aqui a falar?! Não respondeu a menina, que Benvindo, rápido como um relâmpago, saiu de trás da porta e deu tal pancada no mostrengo que ele ficou logo ali despedaçado. A menina, doida de contentamento, saltou-lhe ao pescoço e ele pegou nela ao colo e foi acorrer metê-la no cesto. Sacudindo as cordas fortemente, fez-lhe a recomendação de o mandar descer para ir a terceira Princesa. Ela prometeu, e como prova de reconhecimento deu-lhe também o seu ramo. Mal o cesto começou a subir, foi a correr ao terceiro quarto, abriu a porta e ficou deslumbrado vendo a terceira Princesa, que era a mais linda de todas. Nada havia no mundo a que a comparar, porque a sua formosura parecia divina. Sentada num banquinho de marfim, fiava numa roca feita dum só brilhante. Mal deu com os olhos no rapaz ficou muito contente e ao mesmo tempo admirada, porque homens era coisa que nunca vira, tendo sido roubada pelo Diabo logo que nasceu. Depois ficou muito triste, dizendo: — O que vem aqui fazer, infeliz? Não sabe que é o Diabo quem me guarda? Que é ele o senhor deste palácio, que é ele quem aqui tudo manda, e se o apanhar o matará?! — Pois à procura dele venho eu (disse Benvindo). Até já me está tardando encontrar-me com esse sujeito para o ensinar bem ensinado. — É que nem o senhor sabe quem ele é; se cá o apanha mata-o logo. — Veremos isso!... — Olhe, lá vem ele! — E, muito aflita, pôs-se a menina a fiar disfarçadamente, enquanto ''O da moca'' se metia atrás da porta. Nisto sentiu-se um formidável barulho, todo o palácio estremeceu, e, como um furacão, entrou o Diabo a gritar: — Aqui está gente!... O rapaz ia a descarregar-lhe uma violenta pancada, mas o ''inimigo'', que era mais fino do que fora o leão e do que a serpente; desviou-se para o lado com um salto, dizendo: — Nada, lá com a moca é que não! Já uma vez me deste com ela que me ias arrebentando. Entre valentes o caso vai doutra maneira. Havemos de nos bater à espada. — Pois seja; aceito. Vai lá buscar as espadas. Se tu ficares vencedor, matas-me; se eu te vencer a ti, levo esta menina e tu nunca mais te meterás comigo. — Está dito! — respondeu o Diabo. E muito contente foi buscar duas espadas, uma muito reluzente e outra muito ferrugenta. Queria entregar a brilhante ao rapaz, mas ele recordou-se do conselho da Velha, lançou mão da outra, dizendo em ar de graça: — Nada de cerimónias, amigo; eu não sou para essas delicadezas. E levantando a espada começou o combate partindo em mil pedaços a que tinha o Diabo e dando-lhe tal cutilada que lhe cortou uma orelha. Vencedor, nem esperou que voltasse a si da surpresa o seu adversário; apanhou a orelha e meteu-a no bolso. Depois pegou na menina e foi a correr pô-la no cesto, dizendo-lhe que mandasse o descessem, para ele depois subir. A lindíssima Princesa, agradecendo-lhe muito, queria que ele subisse no mesmo cesto, com medo que ainda o Diabo lhe fizesse alguma. Mas o cesto era pequeno para os dois. Benvindo tratou de a sossegar, e ela, em sinal da sua imensa gratidão, deu-lhe a roca. Ali ficou Benvindo à espera; e fartou-se de esperar que lhe deitassem o cesto para ele subir. Mas isso é que não podia acontecer porque mal se viram com as Princesas, os falsos foram-se embora com elas, sem quererem saber do companheiro que as tinha ido libertar. As Princesas não queriam ir, mas não podiam resistir à força deles. Só a mais nova chorou e se afligiu tanto que perdeu a fala. Dirigiram-se para o Reino do pai das Princesas, o qual ficou tão contente que não se pode dizer mais. Em sinal de regozijo decretou logo grandes festas e um torneio esplêndido, para solenizar tão grande ventura e, ao mesmo tempo, fazer público o casamento das duas Princesas mais velhas com os que se inculcavam seus libertadores. Só no meio de tanta felicidade havia o imenso desgosto da Princesa mais nova ter perdido a fala. Por mais que lhe dissessem e fizessem, ela nada respondia e a sua vida era chorar. Por esse motivo resolveu o Rei dar três grandes torneios para reunir na sua capital todos os Príncipes e Cavaleiros do Mundo, a ver se à Princesa lhe voltava a fala e escolhia marido. <p style="text-align: center;">* * *</p> ''O da moca'', que ficou no fundo do poço, farto de esperar e tornar a esperar, convenceu-se de que tinha sido enganado e jurou vingar-se. Sair dali é que era o principal e também o mais difícil. Andou para um lado e para o outro, percorreu todo o maravilhoso palácio subterrâneo, mas ninguém encontrou. Passados três dias, já desesperado, voltou ao fundo do poço, lembrou-se que tinha no bolso a orelha do diabo e cheio de raiva esfregou-a com muita força na parede, dizendo: — Este é que tem a culpa de tudo. Ouviu logo uma voz gritar: — Ai, minha rica orelha, dá-me cá a minha orelha!... — Não dou! Põe-me lá em cima imediatamente, senão ainda farei pior. Não viu o Diabo mais remédio senão aparecer e dizer-lhe que montasse nos seus ombros, que seria um instante enquanto o levaria. O rapaz subiu e ei-los aí vão pela terra acima. A meio do poço diz o Diabo: — Não me apertes tanto, olha que me afogas! — Nada, não hei-de apertar! O que tu agora querias era largar-me. E, apertando ainda mais o pescoço do Diabo, num momento se apanhou em cima. Mal se viu ao ar livre, correu em procura dos companheiros e das Princesas, mas ninguém lhe dava sinais certos da sua passagem. Andando e perguntando, chegou à grande cidade onde eles agora estavam. Logo ali soube as alegrias que iam no Paço, do casamento das duas irmãs mais velhas e dos preparativos que, para o torneio e mais festas, se faziam. De toda a parte do Mundo tinham já chegado Príncipes e Cavaleiros que tomavam parte no torneio. Mas, ao mesmo tempo que havia todo este regozijo, havia também um desgosto enorme porque a Princesa mais nova tinha perdido a fala e não fazia senão chorar. Por mais carinhos de que a rodeassem tudo era baldado, e o pai só tinha esperança de a ver boa se algum dos nobres Cavaleiros que vinham ao torneio conseguisse tocar-lhe o coração. Quem estas informações estava dando ao ''Homem da moca'' era um ourives de grande fama, que, pelos vistos, curava mais das vidas alheias que dos afazeres. Estavam nesta conversa quando lhe vieram dizer que; sem falta, o Rei queria as pinhas no dia seguinte, sob pena de morte. Ficou o homem muito aflito e ''O da moca'' perguntou-lhe o que tinha. — O que hei-de ter?! Decerto que vou à morte, porque Sua Majestade encomendou-me seis pinhas de oiro para mandar colocar na balaustrada da tribuna real; ora as encomendas têm sido tantas que não pude encontrar oficiais que me ajudassem. — Não se apoquente (disse Benvindo), que eu também sou ourives, e sei fazer todas as obras, ainda as mais delicadas. Dê-me o senhor a ferramenta, o oiro e o modelo; deixe-me ir só para um quarto bem fechado, e eu me comprometo a fazer-lhe o que deseja. O ourives deu-lhe tudo quanto ele pediu. O rapaz foi para o quarto, mas, em lugar de trabalhar, meteu-se na cama e dormiu, como um justo, até à noite. À ceia chamaram-no e ele foi logo, comendo com tal apetite que admirava a toda a família da casa. Depois pegou numa luz e foi para o quarto fingir que trabalhava. Antes de se ir deitar foi o ourives ver o adiantamento da obra, e não vendo nada feito desatou a chorar. — Ó homem, vá-se deitar e descanse, que há-de ter as pinhas. — Hei-de ter, hei-de! O senhor fala assim porque não tem a sua vida em perigo. O Rei manda-as buscar amanhã; o que hei-de fazer?! — Já lhe disse que as venha buscar daqui a pouco, pois estarão prontas. O ourives, não se fiando em tais palavras saiu do quarto, desanimado. Mal fechou a porta, ''O da moca'' meteu a mão no bolso e tirando a orelha do Diabo esfregou com ela na parede. Imediatamente o tal sujeito apareceu gritando: — Ai a minha orelha! Dá cá a minha orelha! — Hei-de dar-ta, descansa, mas só quando não precisar de ti. Conta com isto e vai-te portando bem, se a queres!... — Então para que me chamaste? — Para me fazeres seis pinhas de oiro e brilhantes do feitio desta que está aqui. Sentou-se o Diabo à mesa e, pegando no oiro, imediatamente o transformou em seis pinhas cravejadas de brilhantes, feitas com tal perfeição e arte que nada havia a dizer. O rapaz escondeu cinco numa gaveta e, chamando o ourives, mostrou-lhe uma, dizendo com todo o desassombro: — Já acabei esta; diga se está boa para assim fazer as outras. Era tal o seu brilho e beleza que nem o ourives ousou tocar-lhe e, caindo de joelhos, beijou as mãos do artista genial que tinha em sua casa. Ao outro dia mandaram as seis pinhas. Estava o Rei com a sua Corte e numerosos hóspedes quando chegou o portador. Aberta a caixa ficaram todos deslumbrados, não havendo elogios que não fizessem ao ourives. O boato correu logo e, como nas festas que se projectavam todos queriam mostrar o seu gosto e riqueza, foram tantas as encomendas que fizeram ao artista célebre, que ele não tinha mãos a medir. Aceitava-as todas, porque ''O da moca'' encarregava-se de fazer tudo dum dia para o outro. A orelha do diabo é que dessa vez ia ficando em lastimável estado. O ourives ganhava rios de dinheiro, tanto mais que ele quis dividir com Benvindo e este nada aceitou. Chegou finalmente o primeiro dia de torneio. Estava tudo a postos; o Rei, as Princesas, e toda a Corte nas tribunas; os Cavaleiros armados como se fossem para cruel batalha, prestes a lançarem-se uns contra os outros para mostrarem às suas damas como eram valorosos. Acabavam os arautos de tocar as suas trompas, dando o sinal de combate, quando um cavaleiro todo vestido de armas pretas, montando um belo animal preto como azeviche, saltou por cima das barreiras, e, vindo parar em frente da tribuna real, fez uma profunda vénia. Voltou-se para os Cavaleiros e gritou-lhes arrogante: — Para combater-vos vim, senhores! Um a um, dois a dois, dez a dez, ou todos juntos se quiserdes, eu vos receberei na ponta da minha lança. Despeitadíssimos ficaram todos os reptados e todos à uma correram para o desconhecido, ansiosos de tirar vingança dum tal atrevimento. Mas recuaram logo, envergonhados de tal movimento, pois seria caso nunca visto, entre nobres Cavaleiros, irem tantos contra um. Só o ''Arranca-pinheiros'' e o ''Revolve-montes'' — que eram agora dois nobres senhores da Corte, futuros genros do Rei — foram para a frente combater ''O da moca'', que outro não era o desconhecido de armas pretas. Fortes eram eles, mas faltava-lhes a coragem sem a qual a força pouco mais vale do que nada. Benvindo, que bem os conhecia, correu para eles com ímpeto e derribou-os logo das selas. Em vista deste feito, saiu dentre os campeões o Príncipe de maior fama que nesse tempo havia e apresentou-se a desafiar ''O da moca''. Este, sem lhe fazer mal, enfiou a lança pela armadura e fê-lo ir cair no meio da arena. As palmas retumbaram de todos os lados, e o Rei mandou ir à sua presença o vencedor do dia. Quando isto lhe disseram, recusou apresentar-se. Mandou o Rei que logo o prendessem, e ele, com a espada em sarilho, livrou-se de todos, e, chegando defronte da Princesa mais velha, atirou-lhe com o leque para o regaço. Assombrada, gritou amenina: — Meu pai, meu pai, foi este que nos salvou! Irritado com a teimosa recusa do desconhecido, ordenou o Rei que de qualquer modo o agarrassem. Nada importou ao Cavaleiro, que, abrindo passagem por entre o povo, fez saltar o cavalo por cima de tudo e desapareceu. Ficaram desesperados de não terem podido apanhar o famoso Cavaleiro de armas pretas e o seu cavalo, a mais perfeita estampa que todos tinham visto, notando-se-lhe só a falta de uma orelha, coisa que muito dava que pensar. No dia seguinte havia novo combate, e o Rei, para apanhar o desconhecido, mandou altear as balizas e pôr tropa em volta do campo para o prenderem e lho trazerem, vivo ou morto. Mal os arautos deram o sinal de combate, viram todos, com assombro, um cavaleiro vestido de vermelho, montando um cavalo da mesma cor, que parecia deitar chamas pelos olhos e pela boca. Saltou por cima de tudo e de todos e veio estacar em frente da tribuna real. Já ninguém tirava os olhos dele, pois tinham a certeza de que era o mesmo da véspera, porque ao cavalo faltava também uma orelha. Os Cavaleiros, como tinham o apoio do Rei, concordaram em se lançar todos à uma sobre o atrevido campeão, mas o espanto e o desespero foram grandes, vendo-se perdidos diante de tanta coragem e força. Em pouco tempo desarmara todos, sem a nenhum matar. Tinha o Rei dado as suas ordens e a tropa rodeou ''O da moca'' para lhe deitar a mão, mas este com tal destreza e brio se houve que pôde chegar junto da segunda Princesa e atirar-lhe com o ramo para o regaço. A menina, admiradíssima, gritou: — Meu pai, não o deixe fugir, que foi ele quem nos salvou! Mas quem podia ter mão em tal senhor?! Saltando por cima de tudo, ia a desaparecer, quando um soldado atrevido atirou um dardo que se lhe foi cravar na perna direita. Sem parar, foi com a mão para o arrancar, mas tão enterrado estava que se partiu. Atirou com o pedaço fora e continuou a fugir. O soldado deu parte ao Rei do que tinha feito. Foram logo prevenidos todos os cirurgiões da cidade para, sob pena de morte, entregarem o Cavaleiro, se por acaso fossem chamados para o tratar. Mas Benvindo não era homem que se incomodasse com tão pouco. Mal chegou a casa foi para o quarto, acabou de arrancar o ferro, lavou a ferida, e, depois de a ligar, deitou-se e adormeceu. O ourives andava intrigado com as frequentes saídas do seu oficial, e, vendo-o nesse dia entrar a coxear, foi de mansinho espreitar o que ele fazia. Ficou muito admirado de todo aquele aparato, e, quando o rapaz foi chamado para jantar, entrou-lhe no quarto e viu que era parte de um dardo o que ele tinha arrancado da perna. Compreendeu logo que tinha em sua casa o misterioso Cavaleiro e ficou contentíssimo de tal honra, mas fingiu nada saber. Era o dia seguinte o último do torneio e o Rei mandou estar tudo a postos, porque, apesar de o saberem ferido, todos esperavam ver chegar o desconhecido campeão. Mal os arautos tocaram para principiar o combate, viram com espanto um Cavaleiro todo vestido de azul, como sempre de vizeira caída, montando um cavalo também azul e com uma orelha de menos. Saltou por cima de tudo para ir fazer a sua vénia diante da tribuna real. A terceira Princesa — que para nada tinha olhos e que ainda não tinha falado desde que chegara ao palácio — mal ele apareceu ficou outra e nunca mais o perdeu de vista. O ''Arranca-pinheiros'' e o ''Revolve-montes'' é que andavam desconfiados, e, como eram dois traidores e cobardes, deixaram-se ficar na tribuna. Nesse dia desceu à liça o próprio Rei, armado de ponto em branco, e desafiou o desconhecido. — Como te chamas, Cavaleiro? — Benvindo, Senhor, é o meu nome, mas Cavaleiro não sou. Tenho-me apresentado como tal, e, para combater com outros senhores, assim me apresentaria sempre; mas nunca para cruzar o meu ferro com o vosso. Chamai todos os Cavaleiros e dos mais esforçados que a todos vencerei, mas nunca me obrigareis a defender-me da vossa real espada. Em vista disto, mandou o Rei que vinte homens se defrontassem com o desconhecido, dizendo: — Tenho tanto empenho em o conhecer que desejo tê-lo vivo e prisioneiro, ou vencido e morto. Aí estão vinte Cavaleiros dos mais valentes, defendei-vos! É escusado dizer que a todos venceu, ficando ele só no meio da arena e os outros desmontados e sem armas. Depois chegou junto da Princesa mais nova e atirou-lhe com a roca de oiro para o regaço. Mal isto fez, a Princesa, que ainda não tinha falado, gritou: — Ai, meu pai, que é o nosso salvador! E tamanha foi a sua alegria que perdeu os sentidos. O Cavaleiro fugiu. Mas, com o esforço que fez ao saltar por cima das balizas altíssimas, a ferida, mal fechada, abriu-se de novo e deixava um rasto de sangue por onde ele ia passando. Seguindo este sinal foram os soldados ter a casa do ourives, que os recebeu à porta, dizendo que ali não tinha entrado Cavaleiro algum e só com ele tinha o seu ajudante. Como se não pôde apurar nada sobre o destino do misterioso Cavaleiro mandou o Rei que se marcasse o dia do casamento das duas Princesas mais velhas com os seus falsos salvadores. A mais nova é que outra vez perdera a fala e não havia quem a pudesse distrair. No dia marcado para os casamentos foi o ourives ao paço, pedindo para falar imediatamente ao Rei. Chegando junto do Soberano, e, depois de interrogado, disse: — Venho perguntar se ainda quereis saber quem foi o vencedor do torneio. — Decerto que quero; é o meu maior empenho. Por acaso sabes tu onde se esconde esse valente; que desejaria cumular de honras? — Em minha casa está há quatro semanas e foi a minha providência. Contou então tudo o que lhe tinha acontecido. O Rei, muito contente, mandou logo chamar o ajudante do ourives, que se apresentou com o seu fato ordinário e encostado à ''moca'', sem nenhuma aparência de grandeza. Perguntou-lhe o Rei: — Como te chamas? — Benvindo, Senhor. Também outros me chamam o ''Homem da moca'', por causa desta arma que trago sempre comigo. — Para que fugias? — Porque temia desagradar-vos, vindo onde não era chamado. — Agora me lembro — disse o Rei — as minhas três filhas disseram que eras o seu salvador. Foste realmente quem as salvou? — Fui eu e só eu! — Então estes dois?! E o Rei mostrava os traidores, que, tendo reconhecido ''O da moca'', estavam enfiados e confundidos. — Esses dois — respondeu ele — eram meus criados e fugiram com as Princesas, que eu tinha salvo, deixando-me no fundo de um poço. — Mas como provas tu isso? Como podes tu provar que és o Cavaleiro valoroso que apareceu no torneio? — Em primeiro lugar, com o soldado que me feriu; em segundo, com o testemunho das vossas próprias filhas; em terceiro, com o do meu cavalo, que, esteja onde estiver, em eu chamando por ele logo aparece. Mandou o Rei chamar o soldado e perguntou-lhe: — Onde feriste o cavaleiro desconhecido? — Na perna direita, Senhor. Levantou o rapaz acalça e mostrou a ferida ainda mal cicatrizada; depois entregou ao Rei metade do ferro que ajustava perfeitamente ao pedaço que lhe trouxera o soldado. Não de todo convencido, mandou o soldado embora e que chamassem as Princesas. As meninas, mal viram o rapaz, reconheceram-no logo, e, saltando-lhe ao pescoço, começaram a gritar: — Foi este, foi este que nos salvou! À mais nova voltou logo a fala e disse ao pai que morreria senão casasse com aquele corajoso rapaz. Contaram tudo ao Rei, e ele muito contente abraçou-o, chamou-lhe filho, e entregou-lhe os dois mariolas para ele se vingar. Os miseráveis cairam de joelhos, pedindo mil perdões, e ''O da moca'' disse-lhes: — Eu nem vos quero tocar para me não sujar; vou entregar-vos ao meu cavalo. Esfregou na parede a orelha do Diabo e logo todos sentiram um formidável tropel e viram — galgando rios e montes — aparecer o cavalo preto, que diante do dono se pôs quedo e manso. — Bem, agora montem vocês para cima e agarrem-se bem — disse ele a rir aos dois traidores. E dirigindo-se ao cavalo: — Aqui tens estes figurões que eu te dou de presente, em paga dos teus bons serviços. E aqui tens também a orelha que te prometi; mas tu prometes-me também nunca me fazer mal, nem a mim nem a ninguém que eu estime, não é verdade? — Sim! — respondeu em pavoroso grito o diabólico animal. Então, obrigaram os dois a montar, e cavalo e cavaleiros elevaram-se nos ares. O ''Homem da moca'', ''Benvindo'', ou o ''Cavaleiro Desconhecido'', que todas estas designações tinha, casou com a Princesa mais nova e foi o herdeiro do trono, porque as duas Princesas mais velhas nunca quiseram casar, certas de que não havia no Mundo outro homem tão valente e leal. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|O Homem da moca]] rn5fy8na6kf16lpvzwaih008h1msyyv Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/História do careca 0 255974 560522 560251 2026-08-25T10:05:00Z Mt516 43586 560522 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = História do careca | anterior = [[../O Homem da moca|O Homem da moca]] | posterior = [[../A Bela Felicidade|A Bela Felicidade]] | notas = }} '''<big>HISTÓRIA DO CARECA</big>''' ERA uma vez um pobre homem que tinha um único filho, que estimava muito. O seu ofício era ser forneiro, mas tão miseràvelmente vivia que nem tinha dinheiro para comprar lenha, indo ele mesmo cortá-la às matas. Um dia, andando a labutar na sua vida agarrou o pé de uma giesta muito grossa, e tantos esforços fez para a atrancar que caiu para trás. Quando se levantou ficou admiradíssimo vendo diante de si uma senhora muito linda, que tinha saído do buraco deixado pela raiz da giesta. O homem ficou embasbacado a olhar para ela, sem se atrever a mexer pé nem mão. — Eu sou uma Moira encantada (disse-lhe) e tu vieste perturbar o meu silêncio e abrir a porta do meu palácio. O homenzinho deitou-se de joelhos e começou a clamar: — Senhora Moira, eu andava na minha vida arrancando giestas para aquecer o meu forno, que é o meu ganha-pão, e não podia adivinhar que vos incomodava nem tão pouco que esta raiz fosse a porta do vosso palácio. Perdoai o meu crime involuntário, que eu juro guardar este segredo como se estivesse morto. — Pois bem (respondeu a Moira) vai buscar o teu filho, que eu tomo conta dele, e asseguro-te que hei-de fazê-lo mais feliz do que seria vivendo contigo. E a ti não só te perdoarei como te vou enriquecer pois tudo quanto precisares terás de mim. Em prova da verdade aqui tens já esta bolsa de dinheiro, se prometes trazer-me o teu filho. O homem prometeu, pois salvava a sua vida e fazia a felicidade do rapaz, segundo a Moira dizia. Ao outro dia pegou no filho e levou-o ao mesmo sítio. Logo que chegou, a Moira muito linda dirigiu-se para eles e, pegando na mão do pequeno, desapareceram ambos. Olhou o forneiro para o lado onde tinha preso o seu burro e foi buscá-lo para se ir embora. Mas a sua surpresa foi grande vendo-o arreado de novo, com bons alforjes novos e dentro deles uma farta merenda — boa carne, belos pastéis, pão fresco, doces, e duas garrafas de vinho velho. Na outra bolsa encontrou uma grande quantidade de dinheiro em oiro, novinho e reluzente. Satisfeito por se ver tão rico, saltou para cima do burro e dirigiu-se para casa, mas, como esta ainda era um pouco distante e ele desde manhã que andava a girar, foi-lhe de grande conforto a merenda com que a Moira o presenteara. Chegou à sua velha residência e encontrou-a destruída por um incêndio e bem assim o seu forno. Ficou triste e resolveu sair daquela terra. Foi para uma povoação onde ninguém o conhecia, comprou uma boa casa com quintal, e ali se estabeleceu. Depois, foi sempre comprando propriedades e em breve se tornou o mais rico e influente homem da terra, dando leis naquelas redondezas. O rapaz, levado pela Moira, achou-se de repente num maravilhoso palácio subterrâneo. Nunca vira coisa semelhante — o que não admirava, pois sempre vivera na pobreza — e nem por sonhos imaginara nunca coisa assim! Eram galerias majestosas em que as colunas, feitas de brilhantes e rubis e esmeraldas, tinham um tal brilho que cegava. Havia salas feitas de safiras tão azuis como o céu ou como o mar; outra em que todas as pedras preciosas eram combinadas de tal modo que pareciam um jardim de mil flores. Enfim, eram tantas as riquezas e belezas daquele palácio encantado, que não há palavras que as possam descrever! A Moira entregou-lhe então um molho de chaves, dizendo: — Aqui tens. Ficas senhor de tudo: do meu tesouro de surpreendente riqueza, como da minha alma; deste palácio subterrâneo, onde cada pedra vale mais que a fortuna do mais rico Imperador da terra, como da minha beleza eterna e sobre-humana; dos meus cofres recheados de moedas de oiro do tempo dos Califas e tantas que todos os banqueiros do mundo não seriam capazes de as contar ainda que vivessem mil anos. «Em paga de tanto que te dou, só exijo uma coisa: é que nunca vás àquele quarto. Estão lá apenas doze barris de oiro em pó. De nada te podem servir, pois que oiro tens aqui aos montes. «Vê lá! Dou-te a chave para te provar a minha confiança, mas se tocares em qualquer dos barris tudo acabará entre nós! Retiro-te a minha protecção e ficarás abandonado e pobre como eras até aqui. O rapaz ouviu tudo que a Moira disse, prometeu não tocar em tais barris, e, depois de ver todas as maravilhas do palácio, teve uma farta ceia que a Moira lhe serviu, e foi deitar-se. Ali esteve muito tempo sem nunca se aborrecer, pois a Moira não se esquecia de lhe dar tudo quanto ele podia ambicionar para ser feliz. Mas a ideia do quarto fechado e dos doze barris de oiro em pó trabalhava-lhe na cabeça. Nem de noite nem de dia pensava noutra coisa — era uma tentação! Abria a porta do quarto, e, olhando para os barris, dizia consigo: — Mas que terão estes barris, que a Moira não quer que eu lhes toque?! Se fosse oiro não se importava ela, não, porque oiro há aqui aos pontapés. Mas que será?!... E assim andou algum tempo, sem poder dormir nem descansar. Enquanto a Moira estava ao pé, ainda se esquecia, mas quando ela ia para o fundo do palácio tecer no tear de marfim ou cantar, com a suavíssima voz, as tristezas da sua raça exilada da nobre Terra da Península, ia ele, pé-ante-pé, como um ladrão, espreitar os barris. Até que um dia não pôde vencer a curiosidade e foi ao primeiro barril e tirou-lhe o batoque, metendo dois dedos para ver o que estava lá dentro. Sentiu-se logo um formidável abalo de terra. O palácio desmoronou-se estrondosamente, e ele, ficando nas trevas, sentiu que lhe pegavam na mão, e achou-se num volver de olhos, e sem poder explicar como, no meio de um campo. Viu então a Moira em pé, diante dele, e falando-lhe com uma voz muito triste: — Desobedeceste-me! Dobraste-me o encanto! Ele, de joelhos, pedia-lhe perdão, chorando a sua curiosidade. A Moira, que bem sabia quanto ele tinha lutado antes de fazer aquela maldade, respondeu: — Não te quero mal, descansa! Deixarás de me ver, mas eu não deixarei de te proteger. Aqui tens esta varinha de condão. Com ela conseguirás tudo. Dando-lhe uma varinha de junco, que à vista nenhuma particularidade tinha, desapareceu dizendo adeus ao rapaz, que ficou muito contristado. Achando-se só, foi andando ao acaso até que chegou a uma fonte. Como levava muita sede, pois o calor apertava, inclinou-se para beber. Sentiu que lhe caia uma coisa pesada da cabeça e ainda imaginou que fosse o chapéu, mas já o tinha tirado para beber. Muito admirado levou as mãos à cabeça e notou que eram os cabelos que tanto pesavam. Deitou-os para os olhos e viu que eram de oiro. Espantadíssimo com tal coisa, mirou-se na água clara da fonte e viu-se deslumbrante com os seus cabelos doirados. Ficara assim logo que metera os dedos no barril de oiro, mas só agora o sabia porque só agora tinha espelho para se mirar. Entendeu que não era muito conveniente mostrar ao mundo tanta riqueza, e na primeira terra em que entrou dirigiu-se ao matadouro, comprou uma bexiga de boi, lavou-a muito bem lavada, cortou-a ao meio, encaixou-a na cabeça e arranjou-a de tal modo que lha cobria toda parecendo completamente calvo. Depois, assim preparado, e com a varinha na mão, seguiu sua jornada. Por onde passava faziam-lhe muita troça chamando-lhe Careca: — Adeus, ó Careca! Para onde vais, ó Careca?... Ele não se importava. Foi seguindo sempre àvante, até que chegou a uma grande cidade, opulenta e formosa, povoada por toda a casta de gente que ia ao seu vastíssimo porto para comerciar. Ninguém reparou que ele fosse careca, e, mesmo que reparassem, não estranhavam porque estava aquele povo muito acostumado a ver indivíduos de todas as raças e feitios que por ali enxameavam. Eram chineses, de rabicho e olhos em fresta; índios bronzeados e magrinhos; japoneses amáveis; pretos de todas as espécies, uns feios como demónios, outros muito simpáticos, com os seus olhos meigos e os dentes de neve a destacarem-se na face de nanquim. Eram turcos, vestidos de branco, fumando nos longos cachimbos. Eram, enfim, homens de todos os países, não esquecendo o loiro e grave inglês e o elegante francês pondo em voga o último figurino. O Careca, percorrendo a cidade, achou que lhe convinha ficar. Chegando ao palácio real bateu e perguntou se queriam um criado. Como exactamente tinha saido na véspera o jardineiro da Princesa, disseram-lhe que sim. Entrou logo a exercer as suas obrigações. A família real constava apenas do velho Rei, que estava cego, e da filha que era a mais formosa dama do seu tempo. Quando soube que havia entrado um jardineiro novo, foi falar-lhe para dar as suas ordens, pois de tudo quanto possuia o que mais apreciava eram as flores. O Careca logo que a viu ficou encantado, pois beleza como aquela não havia no mundo. Como era muito boa e muito bem educada, falava para toda a gente, por mais humilde que fosse sua condição, sempre com uma graça e uma simplicidade encantadoras. No fim de dar as suas ordens ao jardineiro, disse-lhe: — Trata-me muito bem as minhas flores, porque não há coisa de que eu mais goste! E todas as manhãs quero um ramo bem fresco e bonito. O Careca inclinou-se reverente, respondendo: — Sim, minha Senhora; farei toda a diligência por lhe agradar. Ao outro dia de manhã, quando a Princesa se levantou, a primeira coisa que viu foi um lindíssimo ramo de magníficas rosas, atado com um fio de oiro. No outro dia a mesma coisa, e no outro e no outro. Sempre que se levantava via o seu ramo de rosas, sempre diferentes e cada vez mais lindas, e atadas com o fio de oiro, o que muito dava que pensar à Princesa. Admirada com tamanha variedade de rosas, que nunca vira no jardim, percorria-o todo a ver se descobria onde o Careca tinha as mais belas, mas não encontrava nenhuma igual às que recebia todas as manhãs. Um dia foi ter com o jardineiro e disse-lhe: — Ó Careca, quantas variedades de rosas temos cá no jardim? — Todas quantas há no mundo — respondeu ele. A Princesa não disse mais nada, olhou muito séria para o jardineiro e foi para o seu quarto pensar nos melhoramentos que via no jardim, sem que metessem obreiro nem lhe pedisse dinheiro a rodos, como os outros costumavam fazer. Eram novas ruas de arbustos os mais raros, caramanchões deliciosos, árvores magníficas, e, por fim, até um lago cheio de peixes doirados e de todas cores, e um tanque de mármore para onde a água corria duma cascata enorme e de pequenos repuxos colocados de maneira que as águas se entrelaçavam, fazendo um efeito surpreendente. A Princesa quando viu tal maravilha ficou extasiada e perguntou ao Careca quem tinha mandado fazer uma coisa tão bela. Respondeu-lhe ele: — Saiba Vossa Alteza que fui eu. Logo que cheguei, vi que este jardim tinha uma grande falta de água e então mandei-a explorar e canalizar, fazendo talhar todas as pedras fora. Trabalharam muitos operários toda a noite para fazer esta surpresa. Ela agradeceu, mas não acreditou nem uma palavra de tal história. Já eram muitas as coisas que a admiravam depois que o Careca tinha entrado ao seu serviço. Parecia-lhe bem que ele não era o que queria fingir, mas sim uma pessoa importante disfarçada. Notou que um dos caramanchões mandado fazer pelo Careca era fechado e todo coberto de trepadeiras. Todos os domingos o via entrar para lá e demorar-se uma boa hora. Disse para consigo: — Deixa estar que eu hei-de ver o que tu fazes. Um dia, quando o Careca entrou para o caramanchão desceu ao jardim e foi espreitar por um buraco que tinha propositadamente feito. Qual não foi o seu espanto vendo o jardineiro despir o fato que trazia, e, abrindo um baú, tirar uma camisa de rendas, meias de seda e sapatos com fivelas de diamantes. Depois vestiu um riquíssimo fato de corte, pôs ao lado a espada com os copos cravejados de rubis e o talim bordado de várias pedras preciosas. Tirou a bexiga da cabeça e o cabelo caiu-lhe sobre os hombros como se fosse o resplendor de oiro dum Santo Cavaleiro. No fim, pôs um chapéu de plumas, seguras por uma fivela de esmeraldas e brilhantes, e ficou o mais lindo homem que jamais a Princesa vira. Fugiu dali, mas tão encantada que não pensava noutra coisa. Nem de noite nem de dia lhe saia da cabeça a imagem do formoso Cavaleiro, que andava disfarçado em seu criado. Ora o pai da Princesa era cego, como já disse. Tinha cegado de repente, sem saberem como. Consultados todos os médicos, nenhum lhe deu remédio, mas uma Feiticeira dissera: — Que a doença tinha cura, mas só havia um remédio: que era lavar os olhos com leite duma leitoa que existia numa torre, a algumas léguas de distância. O Rei mandou os seus melhores cavaleiros para matarem a leitoa e trazerem o leite; mas, por mais esforçados que fossem, todos lá ficavam mortos ou tinham que fugir. Logo que chegavam perto da torre surgiam do chão tantos homens armados, que todas as tropas ficavam desbaratadas. Era uma coisa impossível, obter tal remédio. Vendo isto, decretou o Rei grandes torneios na sua capital, mandando convidar todos os príncipes e cavaleiros da Cristandade, não só para a Princesa escolher marido mas também para ver se algum dos mais nobres e corajosos senhores se resolvia a ir matar a leitoa e trazer-lhe o tão desejado remédio. Apareceram muitos príncipes de todos os reinos, nobres barões e cavaleiros andantes, que vinham disputar a mão da mais formosa dama do seu tempo. Todos mais ou menos ficaram apaixonados e desejariam desposá-la. Mas o Rei disse-lhes: — Que a Princesa só casaria com o homem que fosse matar a leitoa e lhe trouxesse o leite. Todos à uma juraram dar morte à leitoa ou morrer. Combinaram o dia da marcha, e o Careca veio pedir licença ao Rei para acompanhar ao combate aqueles senhores. O Rei, apesar de cego, começou a fazer-lhe troça. E os cavaleiros riam muito, escarnecendo o pobre Careca. Mas a Princesa apareceu e perguntou qual a razão de tantos risos. Disseram-lhe o que era, e, em lugar de se rir, como esperavam, pediu ao pai que consentisse no que lhe pediam. O Rei fez-lhe a vontade. Mas o pior é que os cavaleiros, pagens e escudeiros eram muitos e já não havia cavalo para ele. Perguntou então se não havia um burro nas cavalariças, que se contentava com isso. Foram ver, e como existisse lá um burro velho, que já não prestava para nada, deram-lho para montar. No dia da partida lá foi atrás do brilhante exército de cavaleiros montados em soberbos e ricos cavalos. Pelo caminho faziam-lhe muita troça, chamavam-lhe Careca, e diziam: — Ó Careca, tu ficas para trás? Anda, pica as esporas ao teu cavalo de batalha!... Ele, sempre a rir, não fazia caso, respondendo: — Ora! Se eu quiser faço saltar o meu burro por cima dos senhores todos e dos seus belos corcéis. Eles cada vez se riam mais. Então disse ao burro: — Vamos, meu velho, mostra a estes senhores que vales mais do que eles e os seus cavalos de combate. Deu-lhe duas chibatadas, o burro endireitou as orelhas e em dois saltos passou adiante de todos. Mas depois, coitado, como era muito vèlhinho, tropeçou e caiu. Enquanto o Careca ficou a levantar-se, os cavaleiros tomaram tal dianteira que não os via. Então bateu com a varinha que a Moira lhe tinha dado, no chão, e logo lhe apareceu um bonito e valente cavalo de batalha e tudo que era preciso a um guerreiro. Montou imediatamente e partiu a galope, passando como um furacão, pelo exército. Em pouco tempo chegou à torre, sempre com a varinha em punho. Bateu com ela à porta e logo esta se abriu, e a leitoa saltou, numa fúria, para o devorar. Mas o Careca tocou-lhe com a varinha e ela ficou logo morta. Depois apeou-se, ordenhou-lhe o leite todo para um frasco, que já levava para esse fim, rolhou-o muito bem e metendo-o no bolso tornou a montar e partiu. No meio do caminho passou pelos cavaleiros que ainda iam para lá. Chegou ao sítio onde tinha deixado o burro, e tornando a montá-lo ficou outra vez como era. Os cavaleiros chegando à torre encontraram a leitoa morta e sem leite nenhum; ficaram envergonhados e, vendo um pastor com um rebanho de cabras, compraram-lhe um pouco de leite resolvendo levá-lo ao Rei para não darem o seu braço a torcer. Perto do palácio encontraram o Careca montado no seu burro velho, e a troça recomeçou: — Então não quiseste acompanhar-nos, ó Careca? Achaste melhor voltar para trás? Vês, é bem feito! Quem manda um jardineiro meter-se com cavaleiros?!... E ele, muito risonho, respondeu: — Então, que querem? O meu burro ainda mostrou um nadinha da sua graça, depois não quis mais, e eu voltei para ver a figura que os senhores faziam. Então sempre venceram a leitoa e trazem o leite? — Forte parvo! Então não imagina ele que príncipes e cavaleiros, como nós, voltariam sem trazer o que fossem buscar! Cá vai o leite. A Princesa não se tirava da janela, a ver se avistava o Careca, que era o que mais lhe importava. Com efeito, mal que o exército apareceu, viu o jardineiro que vinha muito mais atrasado. Os príncipes apearam-se e entraram, mas a Princesa não saiu da janela sem ele chegar. O Careca fez-lhe sinal para descer ao jardim, e então entregou-lhe o frasco dizendo: — Aqui tem Vossa Alteza o leite da leitoa. Fui eu que a matei e lho tirei. Desejo que pelas vossas mãos o Rei, meu Senhor, seja curado. Ide, Senhora, e ouvi o que eles dizem, porque trazem leite de cabra para fingir que é da leitoa, que já encontraram morta por mim. Deixai-os experimentar primeiro, e, como aquilo não é remédio, o Rei ficará na mesma, e então lavareis vós os seus olhos com este leite que vos dou. Veremos quem merece a recompensa! A Princesa agradeceu-lhe com um sorriso e foi para cima. Quando chegou à sala, ouviu os cavaleiros estarem a contar como tinham morto a leitoa, e não lhes disse nada. Depois lavaram os olhos do Rei, e ele, claro, ficou na mesma. Então foi a Princesa, lavou os olhos do pai com o leite que o Careca lhe tinha dado, e imediatamente ele ficou bom. Olhou para os príncipes e mais cavaleiros e disse: — Qual de vós matou a leitoa e me trouxe o remédio? Responderam todos: — Fui eu, fui eu, fui eu!... Então a Princesa voltou-se para eles e disse: — Enganais-vos; senhores. Quem matou a leitoa e me trouxe o leite foi o Careca! Grande gargalhada dos príncipes, que não podiam tomar a sério o que ela dizia. Chamaram o Careca, e ele, diante de todos, voltou-se para o Rei e falou assim: — Real Senhor, a princesa disse a verdade. Foi eu quem matou a leitoa e trouxe o leite, entregando-o a Sua Alteza. Quando estes senhores lá chegaram e a encontraram morta, envergonharam-se de voltar sem nada e compraram a um pastor leite de cabra. Todos os cavaleiros gritaram que o Careca mentia. — Nem os tinha acompanhado à torre, quanto mais ser ele quem matara a leitoa! Que era um embusteiro atrevido, pois todos o tinham visto ficar para trás. O Careca, assim insultado, desafiou-os a todos para combate singular, e, voltando-se para o rei pediu que o armasse Cavaleiro para combater com os príncipes e nobres senhores, pois o tinham desfeiteado. O Rei não estava muito resolvido, pois nada sabia daquele personagem misterioso, mas a filha pediu muito, contando-lhe o que tinha visto, e ele próprio logo ali, o armou Cavaleiro. O Careca pediu então licença para se preparar e entrando para o caramanchão do jardim em breve saiu de lá vestido de ponto em branco, como se realmente fosse um Cavaleiro. Os cabelos de oiro, caindo-lhe nos hombros, faziam-no deslumbrante de magestade e formosura. Os adversários, o Rei e toda a corte estavam boquiabertos. Só a Princesa batia as palmas, satisfeitíssima, animando-o com sorrisos. Logo quatro príncipes, dos mais considerados e esforçados entre os combatentes, se adiantaram e disseram: — Dizei, Cavaleiro, com qual de nós vos quereis bater, porque não é justo um só homem para tantos. — Venham todos, que a todos farei corpo! — respondeu altivamente o novo Cavaleiro. Então, ele dum lado e os quatro do outro, mediram-se para a luta. O primeiro recontro foi tão violento que dois príncipes ficaram logo no chão. Na segunda arremetida ficaram os outros dois fora de combate, incapazes de levantar mais a espada. Todos os outros iam correr para vingarem os companheiros, mas o Rei, entusiasmado com a façanha, bateu as palmas e a corte imitou-o logo, acabando o combate com todas as honras para o antigo jardineiro. Então a Princesa pediu ao pai que cumprisse a sua palavra, pois muito gostava daquele Cavaleiro e só a ele queria para esposo. O Rei chamou-o, perguntou-lhe quem era, e ele contou toda a sua vida, o que em nada alterou a consideração em que já o tinham. Depois fez-se o casamento com grande pompa, e o Rei, que já estava velho, abdicou nele todos os seus poderes. Foi sempre muito bom e a Princesa muito feliz se considerava em o ter escolhido. E aqui está como o filho dum pobre forneiro chegou a ser Rei, governando o seu reino com muito juizo e acerto. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|História do careca]] 3rltv92yzp6r0r01zcythjk3d0vtcnn Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/A Bela Felicidade 0 256004 560523 560254 2026-08-25T10:06:43Z Mt516 43586 560523 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = A Bela Felicidade | anterior = [[../História do careca/]] | posterior = [[../O porqueiro/]] | notas = }} '''<big>A BELA FELICIDADE</big>''' ERA uma vez um Rei que tinha dois filhos. O mais velho, que devia ser o herdeiro do trono, chamava-se Aleixo. Desde criança que só pensava em divertimentos e festas, principalmente em caçadas. Dizia ao irmão mais novo que estudasse bastante para governar o seu Reino, pois disso não queria saber. Um dia em que ele andava, segundo o seu gosto, numa grande caçada na qual tomavam parte os fidalgos caçadores do Reino, viu passar um belo veado seguido duma enraivada matilha de cães. Meteu esporas ao cavalo e seguiu-os a toda a brida. O veado corria muito e os cães iam ficando para trás, sem fôlego. Mas o Príncipe não desanimava. Corria, corria, sem nunca perder de vista o animal. Assim foram, por montes e vales, até chegarem a um bosque tão embrenhado, tão espesso, que nele o Príncipe viu desaparecer o veado sem saber onde se metera. Olhou para todos os lados e, achando-se perdido, tocou a trompa de caça que trazia ao lado. Mas por mais que escutasse, a ver se lhe respondiam, nenhum ruído lhe chegava aos ouvidos. Já o sol ia a esconder-se e o Príncipe não estava lá muito satisfeito de se ver só, naquele bosque, sem mesmo ter onde se recolhesse. Enfim, como era aventuroso e cheio de ânimo, resolveu seguir sempre em frente — Porque (dizia ele a si próprio) seguindo sempre a direito a alguma parte chegarei. Assim foi. Já alta noite conseguiu sair daquela triste e sombria floresta e achando-se num descampado viu luzir ao longe um pontinho doirado que parecia uma estrela. Para ali se dirigiu, mais esperançado, mas cheio de fome e de frio. À medida que andava a luz ia crescendo, até que chegando perto viu que era numa casa solitária, que estava no meio do campo. Bateu à porta, e veio um velha muito velha perguntar quem era e o que queria. Respondeu o Príncipe Aleixo que era o filho mais velho do Rei e que andando à caça com a sua comitiva se tinha perdido. Depois, vira aquela luz muito ao longe, e para ali se dirigira a pedir pousada. A Velha respondeu: — Por mim, de boa vontade lhe dou agasalho. Mas o pior são os meus filhos que estão a chegar e que têm muito mau génio. O Príncipe, que era valente, não teve nenhum receio com as palavras da mulherzinha e foi entrando, preferindo antes a luta com os filhos da Velha do que passar a noite ao frio, encostado ao cavalo, que nem podia trocar os pés. Estava o Príncipe sentado à lareira, a conversar com a Velha, quando sentiram fora um barulho furioso. Levantou-se a mulher muito aflita e pediu-lhe que se metesse num grande armário porque chegava o seu filho mais velho, que era o Vento Sul. É ele o mais terrível, o mais danoso de todos, aquele que derruba as grandes árvores, que traz as tempestades, que faz naufragar os navios e, trazendo a chuva, tanta miséria faz passar aos pobrezinhos. O Príncipe escondeu-se no armário ao tempo que batia estrondosamente à porta o vento Sul. A velha foi abrir, e ele mal entrou começou a farejar dizendo: — Cheira-me aqui a carne humana e a sangue real! Respondeu a Velha, com muito boa sombra: — Olha, filho, esteve aqui o Príncipe Aleixo, que se tinha perdido no caminho, mas eu, como não sabia se tu o quererias receber, disse-lhe que se fosse embora. — Há muito tempo que isso foi? — perguntou o Vento Sul. — Foi agora mesmo. — Fez muito mal em o deixar partir, e então saio outra vez para o trazer a nossa casa. Nunca se deve negar agasalho a ninguém. A Velha, vendo que seu filho queria receber o Príncipe, foi abrir o armário dizendo que, por não saber se ele o queria em casa, o tinha escondido. O Príncipe apareceu todo contente por se ver bem recebido do terrível Vento Sul. Este fez-lhe muita festa e disse-lhe que sabia que ele se tinha perdido e que já os seus companheiros, depois de o procurarem por toda a parte, tinham ido, muito tristes, dar a notícia ao Rei e ao Infante, que a essa hora estavam desolados imaginando-o morto. Nisto sentiram fora um barulho ainda mais forte do que fora o primeiro. E a Velha, muito aflita, foi dizer ao Príncipe que se escondesse numa arca muito grande que ali tinha, porque chegava o Vento Nordeste, que era o seu filho segundo, e vinha tão bravo que ela receava lhe fizesse algum mal. Escondeu-se o Príncipe Aleixo e a Velha foi abrir. Entrando o Vento Nordeste, começou também a farejar dizendo: — Cheira-me aqui a carne humana e a sangue real! Respondeu-lhe a mãe o mesmo que tinha dito ao Vento Sul, e o Vento Nordeste queria também ir buscá-lo. Então apareceu Aleixo, que foi muito bem tratado por ele. Depois veio o Sudoeste e aconteceu o mesmo. No fim chegou o Vento Norte que, ao entrar, igualmente começou a farejar dizendo: — Cheira-me aqui a carne humana e a sangue real! A Velha respondeu o mesmo que tinha dito aos outros seus três filhos, e o rapaz apareceu, sendo da mesma maneira festejado pelo Vento Norte como tinha sido por seus irmãos. Foi convidado para a ceia, o que aceitou de boamente, pois desde manhã que não comia. Sentaram-se à mesa onde tinham posto um boi inteiro assado no espeto, afora inúmeros pratos de toda a espécie de comida, não falando no vinho, que estava numa pipa ao meio da casa. Como todos tinham apetite, correu a ceia alegremente. No fim de bem fartos e muito alegres, começou cada um a contar o que tinha feito durante o dia. O primeiro foi o Vento Sul, que disse: — Eu hoje estive numa feira e fiz lá o demónio! Quebrei os cântaros às raparigas, voltei-lhes as canastras, parti chapéus de chuva, levantei nuvens de pó — fiz andar tudo num rodopio! Os outros dois ventos disseram também que tinham arrancado árvores, derribado estátuas, destelhado palácios, levantado tempestades de areia... Enfim, tropelias de toda a ordem que estes senhores têm por hábito fazer! Depois chegou a vez ao Vento Norte, que começou a contar: — Eu estive junto do palácio da Bela Felicidade, e como a vi sentada na varanda que deita para o jardim, a bordar com sorrisos a teia da fortuna, fiquei ali a contemplá-la, porque é a mais formosa e esquiva dama que existe no mundo. De vez em quando deitava-lhe uma lufada de ar fresco, coisa de que ela parecia gostar muito. Assim estive todo o dia entretido, pois a ver tão bela Senhora tudo se esquece. O Príncipe, que tinha rido com as histórias do Vento Sul e prestado toda a atenção aos outros dois, quando ouviu o Norte descrever a Bela Felicidade ficou tão perdido da razão que já não pensava noutra coisa nem ouvia mais nada. Chegou a hora de se irem deitar e começaram todos em consultas a ver com quem dormiria o Príncipe, pois na casa só havia cinco camas, que eram dos quatro Ventos e da mãe. Aleixo pediu licença para escolher e foi deitar-se com o Norte. Mas em toda a noite não pregou olho, sempre a pensar na Bela Felicidade. O Vento, vendo que ele não sossegava, perguntou-lhe se queria alguma coisa, ao que o Príncipe respondeu que não podia mais viver, se não visse a Senhora de quem ele tinha falado. O Norte, que era já muito amigo do Príncipe Aleixo, respondeu: — Não há nada mais fácil! Durma descansado, que amanhã o levarei lá. Ficou o Príncipe tão agradecido que nem palavras tinha para dizer a sua alegria. De manhã deu-lhe o Vento Norte uma capa e um chapéu, que tinham a virtude de o tornar invisível aos olhos de todos e leve qual uma pena. Depois, despediu-se o Príncipe dos outros Ventos mandando por eles dizer ao pai que se não afligisse por sua causa, porque estava vivo e são, indo em busca da Bela Felicidade; e ao Príncipe seu irmão que ficasse com o Reino, porque ele já não queria saber de mais nada. Depois, pondo o chapéu e a capa, subiu para os ombros do Vento Norte, que lhe disse: — Agarre-se bem, porque embrulhado nessa capa que lhe dei está leve qual uma folha seca, e pondo o chapéu ficará invisível como nós somos. Dizendo isto saiu a porta da casa e logo se transportou ao palácio da Bela Felicidade. Então, colocando o Príncipe no jardim, disse-lhe: — Agora aqui ficará enquanto quiser. Eu cá o virei ver, de tempos a tempos, e saberei se precisa de alguma coisa. Com esse chapéu e essa capa poderá andar por toda a parte sem perigo. Retirou-se o Vento, não sem receber os maiores agradecimentos. Por ali ficou o Príncipe Aleixo a passear no jardim até que se abriu a varanda e pôde contemplar a mais risonha, a mais bela, a mais encantadora mulher que jamais ele tinha sonhado. E a olhá-la esqueceu tudo e não podia desviar-se dali — tal era o embevecimento em que tinha caído. Assim estaria por toda a eternidade, se a menina não se retirasse da varanda para ir almoçar. Então, sabendo que ninguém o podia ver nem sentir, graças à capa e ao chapéu que o vento Norte lhe tinha dado, dirigiu-se também para a sala de jantar e, sentando-se junto da Bela Felicidade, ia comendo do mesmo prato e bebendo do mesmo copo sem que ela reparasse. Tudo naquele palácio era risonho e agradável. Não o enchiam grandes riquezas mas tornavam-no encantador a paz e harmonia. Tudo eram flores, risos, músicas, alegria e bem-estar. Era a Bela Felicidade servida por pequeninos espíritos subtis e tão alegres, tão vivos, que enchiam a casa de animação. Cada qual trazia o nome escrito sobre o peito. Eram a Bondade, a Graça, a Delicadeza, a Tolerância, a Amizade, a Gentileza, a Elegância, a Generosidade. E o chefe de todos era o Amor. Estava ali o único bem, mas para lá chegar era preciso correr tantos perigos, vencer tanta contrariedade, que nenhum homem ainda se atrevera a ir até ao fim e a Bela Felicidade vivia só desde o princípio do mundo. O Príncipe Aleixo sentia-se tão bem, que na verdade não sabia se estava vivo ou morto, pois a sua existência decorria como um sonho. Acompanhava sempre a Bela Felicidade, sem que ela o presentisse, graças ao chapéu e à capa do Vento Norte. Assim foram passando os meses sem que desse por isso, tal era o bem-estar que gozava! Nem de dia nem de noite se separava dela, dormindo aos pés da sua cama, comendo do mesmo prato, seguindo os mesmos passeios. A Bela Felicidade andava admirada das coisas que lhe aconteciam, sem saber como as explicar. Um dia, por exemplo, disse ela quase falando consigo: — Bebia agora um copo de água bem fresca! Olhou para o lado e viu um copo com água que vinha pelo ar. Muito admirada, pegou-lhe e bebeu, e em seguida deixou-o cair imaginando que se partiria no chão. Mas qual não foi o seu espanto vendo que, em lugar de cair, foi pelo ar colocar-se ao pé dos outros copos, como se alguém o levasse. Outra vez, andando a passear no jardim, caiu-lhe o lenço e, quando o ia levantar, viu que se erguia até à altura da mão. Com estas coisas e outras, que já tinha notado, como a falta de comida no prato e assim casos parecidos, andava a Bela Felicidade muito intrigada. Uma noite de verão estava ela à fresca, no jardim, a pensar no que lhe acontecia havia algum tempo, e nessa meditação levou até mais tarde. Depois foi deitar-se, e o Príncipe, como de costume, ficou aos pés da cama, adormecendo profundamente. A Bela Felicidade, como se tinha deitado mais tarde, também até mais tarde dormiu. Já era alto dia quando acordou e saltando da cama foi abrir a janela, sem que o Príncipe sentisse. Tornou à cama, sacudiu a roupa e, como Aleixo estava dormindo, caiu-lhe o chapéu da cabeça e logo ficou visível, embrulhado na sua capa. A Bela Felicidade ficou admiradíssima, e tão enlevada que não se podia dizer mais. Olhando aquele moço tão lindo como na sua vida não pudera imaginar coisa igual, ficou logo perdida de amor. Perguntava a si mesma como teria ele podido chegar ali, guardada como estava por tantos obstáculos. Depois puxou-lhe pela capa para o acordar. Despertou o Príncipe e, vendo-se descoberto, saltou logo da cama indo ajoelhar diante da menina, contando-lhe tudo o que tinha sucedido. Ela ficou muito contente por se ver amada de tão gentil cavaleiro. Abraçaram-se cheios de alegria, e o Príncipe pôs logo de parte a capa e o chapéu mágicos e ficou junto da Bela Felicidade gozando do maior e mais verdadeiro bem. Corria o tempo sem ele dar por isso, servido pelos espíritos que estavam às ordens da sua doce companheira. Os anos pareciam-lhe segundos. Até que um dia lembrou-se o Príncipe Aleixo dos pais, o irmão, os seus vassalos e Reino e teve saudades de tudo, e desejo de os tornar a ver. Comunicou à Bela Felicidade este desejo e ela respondeu-lhe: — Então há quanto tempo imaginas tu que vives na minha companhia? — Suponho que estarei aqui há um ano — respondeu Aleixo. — Não, meu amigo! Aqui passa o tempo sem se perceber. Tu já aqui estás há tantos séculos que dos teus já não vive ninguém. O Mundo está completamente deserto e nada existe fora daqui. Se teimas em ir, não encontrarás nada, e o Tempo, que te procura por toda a parte, pois só tu é que ainda vives, mata-te logo que lhe apareças. — Não importa! — volveu o Príncipe — quero ir ver se alguma coisa ainda resta, e voltarei logo e não tornarei então mais a sair daqui. A Bela Felicidade ficou muito triste, mas, não o querendo contrariar, disse: — Enfim!... visto que assim o queres, faça-se a tua vontade. Vais, mas hás-de ir montado no meu cavalo branco que te levará, onde o teu pensamento quiser. Nunca te apeies, seja sob que pretexto for, vejas o que vires, sintas o que sentires. Vê lá! Olha que logo o Tempo te mataria se tu caisses em pôr pé em terra. Toma bem sentido! Se fizeres o que te digo, voltarás aqui outra vez; senão, nunca mais nos veremos! Bem; despediram-se com muita mágua. O Príncipe sofria verdadeira pena de deixar a sua boa companheira, mas a curiosidade era mais forte do que esse desgosto. Ao certo queria ele saber o que seria feito do seu Reino e da sua família. Montou o cavalo branco e logo apareceu na sua terra. Não viu ninguém! Todas as cidades arrasadas, tudo destruído. O Mundo era um deserto. Em vista disto resolveu o Príncipe Aleixo voltar imediatamente ao palácio da Bela Felicidade, donde nunca devera ter saído. Ia muito triste de ver tudo morto e, a meio do caminho, encontrou um carro de bois voltado e debaixo um velho a gritar por socorro, parecendo muito aflito. O Príncipe que assim o viu condoeu-se do velho, que imaginou o último habitante da terra, e, desprezando os conselhos da Bela Felicidade, apeou-se e foi livrá-lo do peso do carro. O Tempo, que outro não era o velho, saltou-lhe em cima com agilidade espantosa e matou-o logo. O cavalo desapareceu, chegando só ao palácio. Quando a Bela Felicidade o viu ficou muito triste presumindo desgraça, mas sempre ia esperando pelo seu companheiro de tantos séculos. Até que um dia o Vento Norte, passando pelo sítio onde o Príncipe ficara morto, viu-o e disse: — Coitado! O Tempo andava em tua procura e sempre conseguiu apanhar-te. Para destruir completamente o género humano, faltavas-lhe tu; agora acabou-se tudo! Ao menos não ficarás aqui abandonado. — E pegando no Príncipe Aleixo, de quem fora tão amigo, foi depô-lo no jardim da Bela Felicidade. Quando ela foi dar o passeio do costume, chamando em vão o seu Príncipe, viu-o ali estendido. Sem saber ainda o que pensar, correu para ele ansiosamente e conheceu então que estava morto. Ficou muito triste, muito triste, e chamou todos os seus bons servos, que igualmente lamentaram a morte de tão galante e bom rapaz. Abriram-lhe uma sepultura ali mesmo, e a chorar escreveu ela na pedra: — Não há felicidade completa, nem coisa que o Tempo não acabe! [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|A Bela Felicidade]] ba4hwoyelzd5rn8fwy7zbhv516rxgqj Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O porqueiro 0 256005 560524 560255 2026-08-25T10:08:27Z Mt516 43586 560524 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O porqueiro | anterior = [[../A Bela Felicidade/]] | posterior = [[../O coelho branco/]] | notas = }} '''<big>O PORQUEIRO</big>''' EXISTIU em tempos remotos um Rei que tinha uma filha. Um dia disse-lhe ela: — Meu pai, ando sempre a ter sonhos tão extraordinários, que não imagina! Esta noite tive um em que até faz vontade de rir. Sonhei que meu pai me há-de beijar a mão! O Rei, que tal ouviu, ficou furioso e respondeu irado: — O quê?! Pois eu hei-de beijar-te a mão?! Isso nunca poderia acontecer! — Não (volveu a menina com doçura), nem eu creio que possa ser, mas foi o que sonhei. O Rei, que era muito orgulhoso, não ficou satisfeito com isto; mandou chamar adivinhos e todos lhe disseram que podia muito bem ser verdadeiro o sonho da Princesa. E, levado pelo seu mau génio e por maus conselheiros secretos, resolveu mandar matar a filha. Chamou um criado de confiança e deu-lhe ordem de levar a Princesa para longe, de a matar e de lhe trazer o coração como prova de ter obedecido. Foi o criado com a menina para um bosque, querendo cumprir as ordens do Rei, mas vendo-a tão bonita, tão novinha, tão boa, e tão desgraçada, não teve coragem de a matar. Apareceu por ali um cãozito e ele tirou-lhe o coração para levar ao Rei, como sendo o da filha. À Princesa disse que se escondesse em alguma choupana por essa noite e depois que fugisse para bem longe, de maneira que a imaginassem morta. Mal a Princesa se viu só, foi andando, andando, mas quanto mais andava mais se enredava na floresta até que lhe anoiteceu, sem ver ninguém a quem perguntasse o caminho ou lhe desse uma sede de água! Ouvia os animais selvagens uivando pelos matos e tremia de frio e de medo. Assim foi seguindo, com os pés ensanguentados e os vestidos em farrapos, até que viu ao longe, muito longe, uma luzinha. Bastou isso para lhe encher o coração de esperança e lá se foi arrastando até chegar a uma casa, à porta da qual bateu esperando que lhe dissessem alguma coisa. Como não lhe respondessem, empurrou a porta, vendo o lume aceso, mas ninguém dentro de casa. Foi entrando, resolvida a esperar os donos para pedir licença de passar a noite em qualquer canto. Mas, como era muito arranjada, vendo a casa por varrer, pegou numa vassoura e limpou-a. Tratou do lume, pôs a panela a ferver, e tinha tudo em ordem quando sentiu um tropel fora da porta. Foi ver o que era e viu um velho que trazia um rebanho de porcos, acomodando-os num curral ao lado. Entrou na casa, onde a Princesa o recebeu a chorar, perguntando-lhe com muito bom modo o que estava ali a fazer e qual a razão de tantas lágrimas. A menina contou-lhe toda a sua vida e terminando pediu que a não abandonasse, que a não levasse ao pai, aliás ele a mataria e ao bom criado que a tinha salvo. O porqueiro respondeu-lhe que descansasse, que ali ficaria como sua filha, até que aparecesse um esposo a quem a pudesse entregar. — Por agora (disse-lhe) até me fazes favor em viver comigo, porque eu estava aqui muito só com os meus porcos. Agradeceu a menina, cheia de alegria, ao bom do velho, e daí em diante ficaram os dois a viver como Deus com os anjos. Nunca houve pai e filha que melhor se entendessem. Fazia gosto vê-los. A Princesa acostumara-se àquela vida sossegada e nenhumas saudades tinha do faustuoso viver que deixara. É preciso dizer que a mãe lhe morrera, quando ela abria os olhos ao mundo. Por isso sofrera tanto, e teria morrido, se não fosse um humilde criado! Ora a Princesa era muito linda e muito boa, mas a respeito de sabedoria tinha muito pouca. Naquele tempo nem os reis sabiam escrever, quanto mais as princesas! Mas o porqueiro, que era um grande sábio, não cessava de a ensinar, dizendo-lhe muita vez: — Eu quero um dia apresentar-te a teu pai de tal maneira, que nem ele mesmo te reconhecerá. Mas há-de ser quando tenhas um marido que te ampare e ele não te possa fazer mal. A menina respondia-lhe sempre que era muito feliz, que estava ali muito bem, e não desejava mais do que viver toda a sua vida assim. O velho sorria-se e não dava mais explicações. De dia andava ele pelo montado com os seus porcos, e à noite instruia a Princesa em tudo que uma senhora deve saber para que a considerem mais pela sua inteligência do que pela posição, que duma hora para outra pode mudar. Assim foi passando o tempo até que a Princesa chegou aos vinte anos. Tinha ela o costume de se ir sentar à porta a costurar, enquanto o pai adoptivo andava por fora com os porcos. Ora acontecia que por aqueles sítios passavam muitos fidalgos que andavam à caça; entre eles apareceu um conde de muito galante figura, que se enamorou da filha do porqueiro. Passava e repassava por ali e sempre lhe dizia: — A menina quer ser minha esposa? A Princesa não respondia, mas o cavaleiro não desanimava nem perdia ocasião de repetir o mesmo e mostrar por todos os meios quanto era sincero o seu pedido. Tanto andou, tanto disse, que um dia respondeu-lhe a Princesa, discretamente: — Por mim nenhuma resposta lhe posso dar, cavaleiro. Fale a meu pai. Volveu logo o Conde, muito animado: — Primeiro diga-lhe a menina tudo e amanhã dê-me a resposta. O que ele disser é o que se há-de fazer. O que é verdade é que ele era um lindo rapaz e a Princesa achava-o bastante simpático, mas nada lhe quiz confessar sem o consentimento do bom homem que lhe tinha servido de pai. Quando à noite recolheu, contou-lhe tudo que se tinha passado. O porqueiro ouviu-a atento, respondendo assim: — Minha filha, é esse cavaleiro muito do meu gosto. Conheço-o bem e sei que te fará feliz. De boa vontade; pois, darei o consentimento que me pedem, se ele aceitar a condição que eu ponho. Dize-lhe tu, minha filha, que te deixo casar de muito boa vontade, se ele no jantar de noivado quiser ter como convivas os meus porcos. No outro dia, à hora do costume, chegou o cavaleiro ansioso por saber a resposta que lhe daria a menina, que ele julgava uma simples camponeza, filha dum pobre porqueiro. Ela disse-lhe a condição que seu pai apresentava, e o Conde pensou que, à custa desse sacrifício dum dia, teria a felicidade de toda a vida e, como era uma só vez que jantaria com tão feios companheiros valeria bem a pena. Respondeu à menina que sim, que podia combinar com o pai o dia do casamento, que ele estava por tudo. Ficou a Princesa encantada com uma tão grande prova da sincera afeição do noivo e confessou-lhe como era também grande o amor que lhe dedicava. Separaram-se esperançados e felicíssimos, e o cavaleiro foi dali fazer-se encontrado com o porqueiro, prevenindo-o este de que no dia do casamento, quando os seus porcos estivessem juntos, ele diria uma coisa que causaria muito espanto. O Conde, como nada tinha de que se acusar, ficou por tudo. Chegou o dia marcado e na casa do porqueiro se pôs a mesa, estando os porcos todos em volta. Os parentes e amigos do Conde, que assistiam à festa, não se cansavam de o cumprimentar pelo seu bom gosto, pois a noiva era um encanto de modéstia e discrição, apesar de ser a mais instruída Princesa que nesse tempo se podia encontrar no mundo. E todos concordavam em que valia a pena jantar uma vez na vida com uma ranchada de porcos, para obter uma tão encantadora esposa. Quando estavam à roda da mesa prontos para jantar, dirigiu-se o porqueiro à filha para que lhe cortasse um dedo com uma faca que lhe entregou. Ela não queria de maneira nenhuma fazer tal barbaridade, mas, em vista da insistência do pai, não teve remédio: pegou na faca, voltou a cara para o lado, e descarregou-lhe um golpe, de que o sangue começou a correr em fio. Então o velho foi junto de cada porco e deitando-lhe uma pinga do seu sangue na cabeça logo ele se transformava num cavaleiro ricamente vestido. Quando chegou ao último, os convivas do noivo ficaram pasmados vendo-o transformar-se num homem, com todas as insígnias de imperador. Ao mesmo tempo que isto acontecia, sentiu-se um ligeiro abalo na casa e acharam-se, num abrir e fechar de olhos, no mais sumptuoso palácio. Contou então o porqueiro — que era um bom génio protector dos príncipes infelizes — a história daquele poderoso imperador e seu companheiros, que o menor deles era conde de sangue real. Era um extenso império o daquele poderoso senhor. Ele e seus companheiros foram um dia numa grande armada à conquista da Terra Santa. Mas, indo dar a uma ilha que uma fada muito má governava, transformou-os em porcos e só aquele bom génio podera moderar a pena, que era eterna, fazendo-a terminar no dia em que um nobre senhor quisesse jantar com eles à mesa. Tornemos à história do Conde e da Princesa. O imperador e os seus cavaleiros, como lhes deviam a vida humana a que outra vez se viam restituídos, cheios de reconhecimento os juraram futuros herdeiros do seu império, que, passadas as festas do casamento, iriam todos habitar. No meio da sua grande alegria nem a Princesa já pensava no Rei seu pai, no sonho, e muito menos nas desgraças passadas. Mas estava escrito que o Rei orgulhoso e mau que a mandara matar teria o seu castigo. Como isto tudo se passava no Reino, soube da estada ali do opulento e nobre imperador vivendo num magnífico palácio com a sua corte de príncipes. Resolveu ir visitá-lo, seguido duma soberba comitiva, para mostrar como ele também era rico e poderoso. Ficou, apesar disso, maravilhado com o luxo e riqueza que viu no palácio do imperador. Na sala do trono onde este o recebeu rodeado dos seus cavaleiros e pagens, escudeiros e homens de armas, entre muitas e gentis damas estava uma que, sobre todas, brilhava pela sua nunca vista formosura e riqueza de vestido. O Rei, imaginando que seria a filha do imperador, que sabia viúvo, dirigiu-se para ela e amàvelmente lhe beijou a mão, sem, nem por sombras, lhe passar pela cabeça que fosse a sua própria filha. Também a Princesa não reconheceu o pai senão quando o porqueiro veio contar diante de todos a história daquele mau e orgulhoso Rei, que mandara matar a sua própria filha só por um sonho, que nada valia. Tanto numa como na outra corte ficaram indignados e ele tão furioso, por ter beijado a mão à filha, que teve um ataque de desespero morrendo logo ali, sem ninguém ter pena. Como não tinha mais herdeiros ficaram reis a Princesa e o Conde, combinando dar o primeiro filho que tivessem para herdar o império do piedoso soberano que tinham desencantado. E o segundo filho ficaria herdeiro deles. Assim se fez, como combinaram, tudo na paz e grande amizade que desde então ligam aqueles grandes estados. E, por fim, sempre é bom dizer que viveram muitos anos; que foram o mais felizes que na terra se pode ser, e nunca a Princesa consentiu em separar-se do porqueiro, o bom génio que lhe tinha servido de pai. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|O porqueiro]] 1wzhxlazc0qoiogzdancmd1457vrur4 Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O coelho branco 0 256018 560525 560256 2026-08-25T10:09:51Z Mt516 43586 560525 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O coelho branco | anterior = [[../O porqueiro/]] | posterior = [[../Branca-Flor/]] | notas = }} '''<big>O COELHO BRANCO</big>''' EM tempos que já lá vão, havia um Rei que tinha uma única filha. Chamava-se ela Clarinda e ele o Rei Poderoso, tão vastos e ricos eram os seus estados, tão fortes e bem equipados os seus exércitos. O Rei estimava muito a filha, fazia-lhe todas as vontades, e decerto não havia no Mundo outra princesa tão feliz como aquela. E linda, boa e amável era Clarinda como nenhuma outra. Ora um dia foi esta Princesa passear para o seu jardim, que era o mais belo de quantos jardins havia naquele tempo. Sentou-se junto duma fonte e, despregando os seus abundantes cabelos, começou a penteá-los com um riquíssimo pente de ouro cravejado de diamantes. Enquanto prendia o cabelo no alto da cabeça com ganchos de pérolas, veio um coelhinho branco muito lindo, tão lindo e tão branco que só parecia uma bola de neve a caminhar, e roubou-lhe o pente que ela tinha posto sobre as guardas da fonte. A Princesa achou muito engraçado o coelhinho e correu atrás dele, mas por mais que procurasse, não o tornou a ver naquele dia. Na manhã seguinte veio muito cedo sentar-se junto da fonte, e, como toda a noite não dormira a pensar no coelhinho branco, sentiu que o sono ia invadi-la e tirou do pescoço um colar de rubis que lhe apertava alguma coisa. Mal tinha fechado os olhos aparece o coelhinho branco e rouba-lhe o colar. A princesa Clarinda, acordada em sobressalto, correu atrás dele, procurou-o em todo o jardim, chamou criados e pagens, mas, por mais que procurassem, tal coelho não apareceu. Se não fosse faltar o colar e o pente, imaginaria a Princesa que tinha sonhado. Vem o terceiro dia e a bela Clarinda logo de manhã saltou do leito, vestiu o mais rico vestido do seu guarda-roupa, calçou burzeguins de fino coiro, pôs as suas mais artísticas jóias, e foi a correr para o jardim. Sentou-se junto da fonte à espera do coelhinho branco, porque a todo o custo o queria possuir. Já a Princesa estava cansada de esperar, quando se lembrou de meter as mãos na água muito clara, que caía num doce murmúrio na bacia de jaspe em forma de concha. Tirou dos dedos os anéis e pô-los na borda do tanque. Imediatamente vem o coelho a correr, e rouba-lhe um anel de esmeraldas, o mais lindo de quantos ela tinha, e foge numa corrida tal que a Princesa nem viu para que lado ele se meteu. Chamou toda a gente do palácio, procuraram, viram tudo, mas de tal coelhinho nem novas nem mandados! Imaginavam todos que a Princesa tinha querido brincar e fizera aquele reboliço sem ter visto nenhum coelho. Ao outro dia voltou ela ao jardim e no outro e no outro também, mas do coelhinho nunca mais soube. Teve a Princesa Clarinda um tal desgosto com isto, que perdeu a fala. O pai quando assim a viu, ia endoidecendo de desgosto. Mandou chamar todos os médicos do seu Reino e do estrangeiro, mas com a cura da Princesa ninguém acertou! E ela, deitada na cama, nem comia nem falava. O bom do Rei Poderoso oferecia tudo quanto tinha a quem lhe salvasse a vida da filha. Todos os seus vastos domínios lhe pareceriam uma miséria se lhos pedissem em troca da saúde da bela Clarinda. Mandou um arauto apregoar pelo mundo fora que daria a Princesa em casamento ao homem que lhe desse fala, fosse ele quem fosse. E, se alguma mulher conseguisse tal milagre, sob palavra de rei lhe prometia tudo quanto quisesse. É claro, foi toda a gente ao palácio, mas nada se conseguiu. Estavam as coisas neste ponto — e a Princesa cada vez pior e o Rei cada vez mais aflito — quando uma lavadeira se apresentou à porta do paço pedindo para falar à Princesa. Como havia ordem de deixar entrar toda a gente também a lavadeira entrou, desembaraçada, mãos na cinta, faladora e alegre. Chegou ao quarto onde a linda Princesa ia morrendo de saudade a cada hora, e vendo-a tão magrinha, tão diferente do que fora, nem a boa mulher pôde suster as lágrimas. Clarinda não dava por coisa alguma, mas a lavadeira não desanimou. Fez sair toda a gente do quarto, sentou-se à cabeceira do leito, e, pegando com as suas rudes mãos calosas na mãozinha branca da Princesa, começou a contar: — Olhe, minha menina, quando ontem à tarde recolhia a casa, já com a minha tarefa acabada, vi diante de mim um burro com umas cangalhas carregadas de barris, e ouvi uma voz que dizia: ''Arre, burro, para nossa casa!'' — Olhei para todos os lados e não vi ninguém; mais adiante a mesma voz a falar! Admirada com isto, resolvi seguir o burro. Fomos andando, andando, ele sempre adiante e eu atrás, seguindo a voz que repetia: ''Arre, burro, para nossa casa! Arre, burro para nossa casa!...'' — Assim fui andando até chegar a um grande bosque. No meio havia um magnífico palácio, mil vezes mais lindo e mais rico do que este. — De repente vi que os barris saíam de cima do burro, mas não sei quem lhe pegava, e ele foi meter-se na estrebaria. Eu, como estava cansada e vi luz dentro do palácio, fui entrando sem encontrar ninguém até chegar à cozinha. Aí vi um grande fogão cheio de caçarolas, frigideiras e panelas com diversos manjares, e havia por toda a parte um mexer de coisas como se muitos cozinheiros tratassem dum grande banquete. Mas, por mais que olhasse, não via ninguém. — Como estava ali só, fui-me chegando para o fogão a ver se comia um dos bolos muito loirinhos, muito apetitosos, que da frigideira iam saltando para uma travessa que estava ao lado. Mal lhe toquei, senti uma pancada na mão e a voz que dizia: «Olha a lavadeira o que é de atrevida!». A lavadeira contava a sua história, mas a Princesa nada parecia ouvir. Tinha os olhos fechados e estava tão imóvel como se estivesse dormindo. A mulherzinha não desanimou e foi sempre contando: — Olhe, Princesa, isto foi assim até à meia-noite; depois, à última badalada das doze horas, abriram-se alçapões e portas com muito estrondo e eu escondi-me a um canto. Ouviu-se um grande barulho e entrou na cozinha uma quantidade de coelhos de todas as cores; entre eles vinha um todo branco; tão lindo, tão lindo, que eu fiquei encantada. Nunca vi um coelho assim! Mal que a Princesa ouviu isto, abriu os olhos e sentou-se na cama. A lavadeira, contentíssima com tal resultado, foi continuando: — Trouxeram uma bacia de prata cheia de água e puzeram-na no meio da cozinha. Então o coelhinho branco meteu-se dentro, espanejou-se muito, e, saltando para fora da bacia, fez-se num Príncipe ricamente vestido e tão belo que não espero ver outro que o iguale. Depois foi a um armário, e, pegando num cofre de cristal, tirou de dentro um pente de oiro cravejado de brilhantes, um colar de rubis e um anel de esmeraldas, e disse: «Pente, colar, anel da minha Senhora: vejo-te a ti, não a vejo a ela. Ai de mim, que morro por ela!» — E, a chorar que fazia pena, tornava: «Pente, colar, anel da minha Senhora: vejo-te a ti, não a vejo a ela. Ai de mim, que morro por ela!». E depois repetiu ainda, antes de fechar o cofre: — «Pente, colar, anel da minha Senhora: vejo-te a ti, não a vejo a ela. Ai de mim, que morro por ela!». Arrumou tudo como estava antes, tornou a meter-se na bacia, espanejou-se muito e ficou outra vez feito em coelho branco. &nbsp; Quando a lavadeira acabou a história, já a Princesa estava em pé no meio do quarto. Abraçou-a como a uma amiga e agradeceu-lhe as boas novas que lhe dava do seu querido coelhinho branco, combinando ir essa tarde com ela para o ver. Foi logo chamado o Rei e pedida a necessária licença para a Princesa sair. O pobre pai tão contente ficou ao ver a filha quase boa, que consentiu em tudo que lhe pediram, para a ter como era antes da doença. À tarde veio a lavadeira buscar a Princesa e lá foram as duas para o rio, encontrando o mesmo burro com as cangalhas e ouvindo a voz que dizia: ''Arre, burro, para nossa casa! Arre, burro, para nossa casa!'' A Princesa caminhava ao pé da lavadeira, e ninguém diria que tinha estado doente, pelo desembaraço que levava. Assim foram seguindo até chegar ao palácio; entraram, e, como na véspera, foi a lavadeira para cozinha e a menina com ela. Havia a mesma faina do dia anterior, e a mulher, para experimentar, fingia mexer nos guisados, e logo uma pancada na mão e a voz que gritava: — Olha a lavadeira o que é de atrevida! — Ia a Princesa, mexia em tudo, e não lhe faziam nenhum mal nem diziam nada. Assim estiveram até que o relógio deu as doze horas. Então, sentindo o mesmo barulho da véspera, esconderam-se as duas e logo viram chegar uma quantidade de coelhinhos e entre eles o branco, que a Princesa tanto amava. Veio a bacia, e ele, metendo-se dentro, espanejou-se muito e saiu um belo cavaleiro. Clarinda por sua vontade teria saído logo do esconderijo, mas a lavadeira não a deixou. Então foi o Príncipe ao armário, abriu o cofre, e, tirando as jóias da Princesa disse: — «Pente, colar, anel da minha Senhora: vejo-te a ti; não a vejo a ela. Ai de mim, que morro por ela!» — E repetiu isto segunda e terceira vez. Então a menina nem o deixou terminar; correu para ele de braços abertos, gritando: — Aqui estou, aqui estou, meu Príncipe! Só a ti quero para marido! Mal acabou de dizer isto, todos os coelhos se transformaram em homens e senhoras ricamente vestidas à corte. O palácio iluminou-se como para a mais esplêndida festa, e o Príncipe, levando a bela Clarinda pela mão, passou por entre os seus respeitosos cortezãos até à sala do trono. Aí esperava-os a linda Fada dos Lilazes, toda vestida de branco. A sua túnica era muito perfumada e fresca, e tão clara que parecia um foco de luz. O penteado tinha a forma do lilaz e no cimo coroava-a um diadema de pérolas semelhando a flor do seu nome. Na mão trazia uma varinha feita dum só brilhante. Estava muito alegre a boa Fada, e, quando os Príncipes chegaram junto dela, estendeu a sua varinha de condão e logo caiu sobre as suas lindas cabeças uma chuva de flores. Depois dirigiu-se à jovem Clarinda nestes termos: — Minha Princesa, aqui tens o mais nobre, o mais belo e o mais esforçado cavaleiro da Terra. Quis destinar-to, minha filha, por seres também a melhor, a mais bela e fiel das Princesas. Ele foi encantado pela minha mortal inimiga, a Fada Negra, ùnicamente por ser meu afilhado e saber quanto me mortificava fazendo mal a este Príncipe e aos seus. Assim foi transformado em coelho e juntamente todos os seus vassalos. — O seu vasto império foi também transformado numa grande floresta, até que uma jovem e linda Princesa o quisesse para marido. Ora isso seria impossível, se eu não te dotasse com todas as perfeições no dia do teu baptizado. A Princesa agradeceu muito à boa Fada e pediu licença para ir prevenir o pai, que a essa hora devia já estar cheio de cuidado. O Príncipe queria logo mandar cavaleiros e carruagens para trazer o velho Rei Poderoso, mas a Fada começou a rir e não consentiu em tal. Desde que estava desencantado o Príncipe todo o seu reino ficara o que tinha sido, e, portanto, tão longe da capital dos estados da Princesa que para lá ir era preciso fazer uma jornada dum mês montando camelos e elefantes. Como os noivos ficassem tristes com aquela contrariedade, que devia fazer morrer de pena o pobre Rei, a Fada sossegou-os, pois já tinha pensado nisso mandando logo o seu pagem — que era o anão das botas de sete léguas — chamar o Rei, que devia estar a chegar. Efectivamente, mal acabava de dizer isto, sentiram ruído fora, correram à janela, e a Princesa reconheceu o pai sentado num carro de oiro e puxado por grandes cisnes brancos, e, atrás dele, toda a sua comitiva igualmente trazida por enormes cisnes, que a um sinal da Fada dos Lilazes desapareceram logo. O velho Rei, abraçado à filha, nem queria acreditar em tamanha felicidade e desfazia-se em agradecimentos à boa Fada. Poucos dias depois fez-se o casamento no meio das mais esplêndidas festas, às quais a bela Fada dos Lilazes presidiu. Depois juntaram-se os dois reinos e ficou o maior império do mundo. Ainda por muitos anos viveu o bom Rei Poderoso, e, quando já era tão velhinho que não podia mais, morreu, deixando muitas saudades aos filhos e netos. A Imperatriz Clarinda e o seu nobre esposo, o Príncipe Branco, — que assim se ficou chamando por causa do encanto — viveram largos e felizes anos, tendo muitos filhos e amando-se sempre como no primeiro dia. Todos os anos a Fada dos Lilazes vinha passar com eles o aniversário do casamento, trazendo-lhes muitas e ricas prendas. Foi madrinha de todos os filhos que tiveram e não havia bem que lhes não fizesse. E a Fada Negra, condenada pela Rainha das Fadas a viver fora do Mundo, nunca mais lhes pôde fazer mal. Esquecia dizer que a lavadeira, autora de tanto bem, foi largamente recompensada. Deram-lhe tudo quanto ela quis, fizeram-na primeira dama da corte, e casaram-na com um nobre e rico cavaleiro; foi sempre muito feliz e a melhor amiga da bela Clarinda, que a estimava como irmã. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|O coelho branco]] d0noshkp9cup0rzbq20vxiw4zknz9g3 Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/História do Príncipe Luís 0 256722 560517 560253 2026-08-25T09:45:47Z Mt516 43586 560517 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = História do Príncipe Luís | anterior = [[../A Princesa da Áustria/]] | posterior = [[../O Bicho-de-sete-cabeças/]] | notas = }} '''<big>HISTÓRIA DO PRÍNCIPE LUÍS</big>''' HAVIA, um Rei e uma Rainha que não tinham filhos. Sentia o Rei grande desgosto com isso, e tanto que queria desmanchar o casamento por esse motivo. A Rainha, quando o soube foi ter com a mulher dum catraeiro que morava defronte do palácio e disse-lhe que lhe entregasse o filho que esperava, pois o queria fazer passar por seu levando-o para o palácio. E, dando muito dinheiro à mulher, tudo se combinou no mais absoluto segredo. Passado tempo, disse a Rainha ao marido que iam ter um herdeiro. O Rei, de contente que ficou, não houve a quem não participasse a sua felicidade. Veio o menino de casa do catraeiro e escondidamente o levaram para o quarto da Rainha, a qual, combinada com uma velha aia confidente, conseguiu enganar a todos. E — como quem mal não usa mal não cuida — o Rei amou a criança como se realmente fosse seu filho. Fizeram grandes festas por ocasião do baptizado do herdeiro do trono, que se ficou chamando Pedro. Pouco tempo antes tinha este Rei ido a uma caçada, perdendo-se no caminho. Andou para trás e para diante até que chegou à porta duma quinta. Como a visse aberta, entrou para descansar e ao mesmo tempo inquirir onde estava e a quem pertencia aquela propriedade tão linda. Qual não foi a sua surpresa vendo junto duma fonte, debaixo dum chorão, uma formosa menina. Dirigiu-se-lhe com toda a delicadeza, perguntando a razão de estar ali só. Ela respondeu, contando-lhe a sua história. Era filha dum poderoso Rei, que a mandou com uma aia para aquela quinta, longe de tudo, com proibição expressa de que a fossem ver, porque a sua sina dizia que havia de dar aos pais um grande desgosto. Imaginava o pobre Rei furtar-se à desgraça e à dor. Queixava-se a Princesinha de que vivia muito aborrecida, que lhe pareciam séculos os dias. Imagine-se pois como ela não estimaria a inesperada visita do amável Rei. Contou-lhe ele também que era senhor dum grande Reino, que era poderoso e rico mas que também vivia triste. Que de nome conhecia o pai dela, e que dali ia pedi-la em casamento. Passaram-se quatro dias na mais completa alegria e, no fim deles, despediu-se o Rei da Princesa, deixando-lhe uma caixa com o seu retrato e dentro o colar que os Reis do seu país costumavam usar nos dias de grande gala, dizendo-lhe que guardasse aquela prenda até que ele a fosse buscar, para a apresentar na corte como sua mulher. A Princesa ficou muito triste, esperando o Rei que nunca mais voltou! É que nesse tempo tinha a mulher feito o que dissemos, e ele, entretido com a criança que julgara seu filho, nunca mais se lembrou da pobre menina. Esta, muito desconsolada e saudosa, não fazia senão chorar a desgraça da sua triste vida. Por, mais que a aia a quisesse consolar dizendo-lhe que o Rei havia de voltar, ela já não podia ter esperança. Passado tempo, nasceu um menino, que era a criança mais linda que se tinha visto. A aia pegou nele, vestiu-o com a maior riqueza, e, metendo-o dentro dum cestinho, foi pô-lo à porta do palácio, onde viviam os pais da Princesa. Quando de manhã os guardas viram aquele cesto contendo uma criança, linda como os amores, foram logo a correr dar parte a Suas Majestades. O Rei, que primeiro o viu, mandou-o levar à Rainha e disse-lhe: — Ora aqui está uma coisa que eu estimava muito ver no palácio! Se a nossa filha se não escandalizasse, ficávamos com esta criança como se fosse nossa. Respondeu-lhe logo a Rainha: — Pois eu também o estimava e então vai tu perguntar à nossa filha a sua opinião e se ela consentir ficaremos todos bem. Montou o Rei a cavalo e foi à quinta onde a Princesa estava escondida; depois de o cumprimentar com muito afecto, perguntou ela: — Real Senhor, que prazer é o meu em o ver nesta casa! A que devo tal honra? — Minha filha — respondeu o Rei — vim visitar-te, porque já tinha saudades. Esta foi a primeira razão; mas também te queria dizer, em meu nome e da Rainha tua mãe, que apareceu um menino à porta do palácio, a coisa mais bonita que se tem visto e nós desejamos adoptá-lo, se tu consentires. A Princesa ficou muito contente por saber a criança tão bem entregue, e disse-lhe: — Tudo o que for da vossa vontade é também da minha. Despediu-se o velho rei deixando a filha consumida de saudades, mas descansada sobre a sorte do filho e voltou alegre ao palácio. Imediatamente procuraram ama, fizeram um rico enxoval ao menino, e com grande festa o baptizaram, dando-lhe o nome de Luís. Era uma criança muito bonita, muito inteligente e estudiosa de maneira que todos no palácio o adoravam e os professores não tinham nunca motivo de o castigar. Assim, quando ele chegou à idade de doze anos, o Rei, que o estremecia resolveu ir fazer uma viagem aos reinos vizinhos e levá-lo na sua companhia. Chegaram ao palácio do Rei, que era nem mais nem menos do que o pai do príncipe Luís — segredo que ninguém no mundo sabia. E vai, perguntou ele ao velho: — É seu filho? — Vive comigo como tal — respondeu o Rei. Mandou chamar o Pedro, para lhe apresentar também o seu herdeiro. Os pequenos, que eram da mesma idade, começaram a brincar. Mas não se podia comparar a graça do pequeno Luís com a rudeza do filho do catraeiro. O Rei ficou muito agradado dele e pediu ao avô que lho deixasse ali ficar uns dias, av er se o seu filho aprendia as maneiras dum verdadeiro Príncipe, pois tinha uma grande desconsolação de o ver tão grosseiro e ignorante, por mais mestres que lhe desse. O velho Rei consentiu em deixar o Luís, mas sòmente quatro dias, porque tanto ele como a Rainha não podiam viver longe do seu filho adoptivo. Ficou pois o menino que em breve era estimado por todos. Ora, andando uma vez a brincar com Pedro propôs-lhe irem simular um duelo. Dirigiram-se à sala de armas, escolheram duas espadas próprias e começaram a esgrimir. O Pedro não sabia nada daquele exercício, apesar de ter tido os melhores professores, enquanto o Luís jogava como um mestre. Assim foi que levou de vencida o amigo e, sem querer, lhe deu uma forte pancada nas costas quando ele fugia. Desesperado voltou-se o Pedro e gritou: — Tu não és Príncipe como eu, és um enjeitado que apareceu à porta do palácio do teu benfeitor. Luís, que se imaginava filho dos Reis que o tinham criado, não pôde sofrer que assim o insultassem e deu-lhe uma tremenda bofetada. Ele começou a gritar de tal maneira que toda a gente do palácio correu para ali, a saber o que tinha havido. Contou o Pedro que o menino Luís lhe tinha batido. Disse este que o outro o tinha insultado e por isso lhe batera, que era um cobarde e que, se não sabia jogar a espada, se não metesse nisso. Ficou o Rei muito desgostoso, mas, por conselho de toda a corte, disse para o menino Luís que ele o tinha desacatado na pessoa de seu filho e então que tinha de o mandar matar se, no fim de quatro dias, lhe não viesse dizer quem eram seus pais. Em vista do que montou o menino a cavalo e foi ter com os velhos Reis contando o que lhe tinha sucedido e pedindo-lhes que lhe dissessem se eram ou não seus pais. Os pobres velhos começaram a chorar e responderam, na maior aflição, que não só eles não eram seus pais como nem mesmo sabiam quem eles fossem. — Então — disse o menino cheio de coragem — dê-me Vossa Majestade um cavalo e um criado, que eu vou em busca de meus pais. Deram-lhe o que pediu, abraçaram-no cheios de desgosto, e ele pôs-se a caminho. Ia pela estrada fora, ao acaso, sem bem saber o que fizesse, quando deu de cara com uma velha muito velha, muito encarquilhada, com o cabelo branco de neve, mas airosa e elegante como uma jovem. Vestida do mais precioso brocado, levava riquíssimas joias e montava um branco palafrém, vistosamente ajaezado. Quando o Príncipe passou, disse-lhe ela: — Onde vai o menino, tão triste? Aborrecido, vendo-a assim tão velha de cara e tão tola com seus fatos de menina, respondeu-lhe: — Deixe-me, que eu não estou para conversas. — Eu bem sei onde o menino vai! — tornou a velha — vai perguntar por seus pais. Mas não saberá se eu lho não disser. — Então diga lá! — Se casar comigo logo lho digo. O Príncipe deu uma gargalhada, dizendo em tom de mofa: — Eu casava lá com uma velha tão encarquilhada, que até parece a avó da minha avó! E, dando de esporas ao cavalo, deixou-a para trás. O criado, um bom e fiel servo que de pequenino o servia e estimava como filho, dizia-lhe: — Menino, olhe que a vida vale muito... Case com a velha. — Isso é que nunca! Antes morrer. Mais adiante, ele a imaginar que a velha ficava para trás sai-lhe ela ao caminho: — Então, menino, não quer casar comigo? Pois irá a morrer, porque só eu lhe posso descobrir este segredo. — Ora deixe-me em paz! — respondeu muito aborrecido. — Ai menino! Já só faltam três dias e vai a morrer! Ele não fez caso, continuou a andar. O criado quase a chorar, suplicava: — Menino, case com a velha, que a vida vale muito!... Lembre-se dos Reis que tão desgostosos ficaram de o ver partir! Diga que sim, menino Luís! Mais adiante aparece de novo a velha, cada vez mais direita sobre a sela. — Menino, olhe que todo o tempo próprio uma hora passa. Vai a morrer senão casa comigo! Para se ver livre da perseguição, respondeu enfastiado: — Pois sim, eu caso consigo; diga lá quem são os meus pais. — Olhe o menino não diga que casa para depois não querer, porque onde estiver lá lhe hei-de aparecer. E ele, consigo: — Sim, eu digo que caso e não casarei. Mas a velha não era pessoa a quem se enganasse, e disse logo: — Então há-de jurar, com palavra de Príncipe, cumprir o que disser. — Príncipe? Pois eu sou Príncipe?! — Sim, é Príncipe, e dos de melhor sangue de quantos reinam agora no Mundo. Jura casar? — Juro! — Então volte para trás e vá ao palácio dos Reis que o criaram. Eles são os seus avós, mas não lho diga, porque eles próprios o ignoram. Pergunte-lhes onde está a filha e vá lá ter com ela, que é essa a sua mãe. E, chamando-o de parte, ensinou-lhe o que devia fazer e desapareceu. Voltou o Príncipe Luís ao palácio e perguntou aos velhos Reis onde era a quinta em que morava a filha, pois queria ir despedir-se e agradecer o consentimento que ela tinha dado para o educarem no palácio. Lá lhe indicaram o caminho e partiu a todo o galope. Chegou ao portão, que encontrou aberto, desmontou-se e foi andando até dar com uma senhora muito triste, sentada debaixo dum chorão, junto duma fonte. Ele foi muito de manso, ajoelhou e beijou-lhe a mão, dizendo: — Minha mãe, dê-me a sua benção. A Princesa, sobressaltada, levantou-se. — Sua mãe?! — Sim! E se não me valer serei morto. Então contou à Princesa tudo o que sabia, e ela, reconhecendo que era o filho por quem tanto tinha chorado, imediatamente lhe entregou a caixa com o retrato do Rei e o colar que lhe tinha deixado. Despediu-se o Príncipe Luís, prometendo voltar um dia cedo. Foi dali ao palácio do velho Rei, que o tinha criado, e sabia agora ser o seu próprio avô, e disse-lhe: — Real Senhor, já sei quem são os meus pais; e posso dizer que sou filho de um grande Rei; peço-lhe, e à Rainha, minha senhora, que venham assistir à minha defesa. Ficaram os Reis muito contentes e, mandando logo aprontar os coches, partiram, seguidos de numerosa e brilhante comitiva, em direcção ao palácio do vizinho. Mal este os viu chegar, perguntou ao Príncipe Luís: — Espero que venhas dizer-me quem são os teus pais, pois teria grande desgosto se fosse obrigado a mandar-te matar. — Saiba Vossa Majestade que não posso dizer nada senão diante do Príncipe Pedro, a quem ofendi, da Rainha e da corte. Chamem o algoz, que eu estou pronto. O Rei ficou muito triste, pois tinha simpatizado muito com o Príncipe Luís, mas não havia remédio. O Pedro, a Rainha e toda a corte, que tinham notado esta preferência e por isso invejavam o Príncipe Luís, ficaram regozijados. Estava o quarto, onde a execução devia ser feita, forrado de preto, o algoz de cutelo na mão, tudo a postos, quando o menino entrou e, dirigindo-se ao Rei, pediu que mandasse chamar a mulherzinha do catraeiro que vivia defronte do palácio. Ficaram muito admirados, mas foram chamar a mulherzinha porque a vontade dum condenado é sagrada. Depois voltou-se para o Rei, que devia julgá-lo e disse: — Senhor, há treze anos existia um Rei de nobre carácter e leal coração, que foi a uma caçada e se perdeu dos companheiros. Era novo e aventuroso. Por isso, em lugar de se apoquentar com a contrariedade, foi andando alegremente até chegar a uma quinta muito afastada, onde encontrou uma jovem senhora, formosa como poucas, e Princesa também, herdeira dum grande reino. Por ordem do pai ali estava escondida, porque uma fada lhe tinha predito que daria grande desgosto aos pais. O nobre e valoroso Rei foi recebido pela Princesa e quatro dias ali esteve com ela. Depois partiu e os juramentos e promessas que à triste e bela senhora tinha feito não lhe tornaram a lembrar. Nunca mais procurou saber o que tinha sido feito da gentil menina, tendo jurado, à fé de cavaleiro, que a viria buscar em poucos dias, apenas os precisos para ir ao seu reino buscar carruagens e comitiva. Para prova da verdade lhe deixou o seu retrato e o colar que nos dias de gala era posto sobre a púrpura do seu manto real. Calou-se o Príncipe, e o Rei, muito ansiado, perguntou: — Mas que tens tu com esse deslembrado Príncipe? — Senhor, esse foi o meu pai. A desgraçada que, há treze anos, chora todas lágrimas da sua alma, essa é a minha mãe. O Rei correu para ele e abraçou-o a chorar, chamando-o filho. Todos estavam admiradíssimos com aquela cena, porque eram coisas que ninguém sabia senão os dois. Chamou o Príncipe Pedro para abraçar o irmão, mas o Príncipe Luís disse: — Abraçar o abraço eu, porque lhe não tenho raiva, mas não o chamarei irmão, porque não o é! — Não é, ora essa! — Não é. Pergunte ali à mulher do catraeiro de quem ele é filho. A mulher não queria dizer nada, mas com a ameaça que o Rei fez de a mandar pôr a ferros contou tudo o que nós sabemos. A Rainha, presa do mais violento ataque de fúria, fugiu e o Rei, tão escandalizado ficou de ter sido enganado, que imediatamente a mandou sair do seu reino para nunca mais lá entrar. Depois foi com o Príncipe Luís beijar a mão aos velhos Reis, pais da Princesa, e, pedindo-lhes perdão das suas culpas, logo combinaram ir à quinta buscá-la para ela ficar Rainha. Pedro, o filho do catraeiro, vendo que não era Príncipe como imaginava, não quis continuar no palácio; foi para casa de seus pais que muito o amaram, e na sua humilde e honesta posição foi sempre muito ditoso, tornando-se o maior amigo do Príncipe Luís. <div style="text-align: center; line-height: 1.1; margin: 1.5em 0;"> &#42;<br> &#42;&nbsp;&#42; </div> Quando a Princesa viu chegar à quinta os coches onde iam os pais, o filho e o Rei, sentiu uma alegria tão grande que a tiveram muito tempo por morta. Depois veio a si, e na maior satisfação se dirigiram todos à capital. Estavam na capela, e o patriarca pronto a deitar a bênção a toda a corte presente, quando sentiram um grande barulho de carruagens e viram entrar uma senhora riquissimamente vestida e muito elegante de corpo, mas tão rugosa e encarquilhada na cara que a todos causava riso. Dirigiu-se ao Príncipe Luís e disse-lhe: — Aqui me tens para cumprires a tua palavra. Perguntaram todos o que queria aquilo dizer, e ele contou como tinha sido e disse a promessa que fizera de casar com aquela dama, que o tinha livrado da morte e ensinado a conhecer os seus pais. Todos disseram que a palavra dum homem honrado não volta atrás e então que devia casar. O Príncipe não estava lá muito contente, mas, não havendo outro remédio, ali mesmo se fez o casamento. Passaram-se oito dias e o Príncipe Luís muito desconsolado com a noiva, nem para ela olhava nem lhe falava. Uma noite estava a dormir e ouve um ruído tão grande que todo o palácio estremeceu. Acordou sobressaltado e ouviu a voz da esposa que lhe dizia: — Não te assustes! Dize qual queres: mulher bonita para a toda a gente ver, ou feia para os outros e bonita só para ti? — Quero bonita só para mim. — Então acende a luz. O Príncipe fez o que ela disse e ficou maravilhado com a sua beleza. — Aqui me tens — disse ela — tal qual eu sou, pois um encanto mau, e só ele, me tornou feia e velha. O Príncipe ficou contentíssimo e loucamente apaixonado pela formosa esposa. De dia ficava ela outra vez com a cara encarquilhada, mas disso já o Príncipe se não importava, pois sabia que era assim só para os outros. Quando os viam, muito alegres, andarem sempre juntos, todos se admiravam do mau gosto do Príncipe, e ele ria-se com os seus botões. Assim se passaram oito dias. Uma noite, tinha o Príncipe Luís adormecido, ouviu outra vez um grande barulho e disse-lhe a Princesa: — Não te assustes! Dize qual queres: mulher bonita para toda a gente ver, ou feia para os outros e bonita só para ti? — Já disse que te prefiro bonita só para mim! — Agradeço-te, que por tua palavra me quebraste o mau encanto. Aqui tens mulher bonita para os outros e bonita para ti. Menina de quinze anos, filha do mais poderoso monarca do Mundo, senhora de sete Impérios, só tu me soubeste desencantar. Sete fadas me fadaram ao nascer para ter a cara de velha que tu viste, enquanto um nobre Príncipe me não quisesse desposar. Ora isso bem vês que seria impossível se não fosse a minha madrinha, a fada de melhor coração que existe, que me disse os segredos da tua vida. Assim, posso agora ser a mulher mais feliz que há na terra. — E eu também — disse o Príncipe — me considero o mais feliz dos homens. Ao outro dia, quando o Príncipe apareceu com a jovem e lindíssima esposa pela mão, todos ficaram extasiados, porque real mente nunca tinham visto uma tão linda cara. Mandaram logo portadores para prevenir o pai da Princesa, fizeram-se grandes festejos em acção de graças e foram estes os Príncipes mais felizes do Mundo inteiro. Seja Deus louvado, está o conto acabado. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|História do Príncipe Luís]] q88eqivkagwm6o3ofgpffx67jhmh0jz Página:"Olha a terra, meu amigo, como é que ela é?".pdf/14 106 256756 560382 560333 2026-08-24T15:21:19Z Erick Soares3 19404 560382 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rh||{{smaller|MARIA DE FÁTIMA ROSA, ISABEL GOMES DE ALMEIDA}}|}} {{rule|40em|align=right}}</noinclude><poem> {{nota lateral esquerda|50}}Ela [baixou-o] no chão, à altura de um metro e meio<ref>''nikkas'' é uma medida que no período neobabilónico equivalia a “3.5 cubits” (''CDA'', p. 253).</ref>. A águia desceu e [amparou-o das suas asas]. [...] a águia palpitava. {{dhr}} ''Segue-se um conjunto de linhas demasiado fragmentadas, impossibilitando a leitura, e quebras no'' ''texto de várias linhas. Quando se recupera a narrativa, percebe-se que Etana está de regresso à sua'' ''cidade, Kiš, e através de vários sonhos é encorajado a retomar a viagem.'' {{dhr}} {{nota lateral esquerda|100}}[Etana] abriu a sua boca [e disse à águia]: {{gap}}“[Minha amiga,] esse deus [revelou-me um sonho] {{gap}}Nós<ref>Segue-se o relato desse sonho.</ref> passávamos pela entrada da porta de Sîn<ref>Nanna/Sîn é, na mitologia mesopotâmica, o deus lunar.</ref>, de Šamaš, de Enlil<ref>Enlil é, na mitologia mesopotâmica, o deus responsável pelo ar, pela aragem fresca e pelos ventos. No fundo, Enlil correspondia à atmosfera, ao espaço que se desenvolvia entre o céu e a terra. Diacronicamente, foi considerado um dos deuses mais importantes.</ref> e de Ea<ref>Enki/Ea é o deus responsável pelas águas doces, também associado à sabedoria e à magia.</ref>, {{gap}}E ajoelhávamo-nos, eu e tu. {{gap}}Nós passávamos pela entrada da porta de Sîn, de Šamaš, de Enlil e de Ea, {{nota lateral esquerda|105}}{{gap}}E ajoelhávamo-nos, eu e tu {{gap}}Eu vi uma casa cuja janela [não estava] selada, {{gap}}Empurrei a sua porta e entrei. {{gap}}Lá dentro, estava sentada [uma jovem mulher], {{gap}}(Tinha) uma coroa; toda a sua aparência era majestosa. {{gap}}{{nota lateral esquerda|110}}Um trono (aí) instalado revelava a sua natureza divina<ref>''ilūtu'' (substantivo abstracto de ''ilu'', “deus”).</ref>. {{gap}}Debaixo do trono, estavam deitados leōes. {{gap}}Eu ergui-me e os lebes [atacaram-me]. {{gap}}(Então) acordei apavorado”<ref>A letra, “acordei e senti medo”.</ref>. A águia [disse-lhe], a ele, a Etana: {{gap}}{{nota lateral esquerda|115}}“Meu amigo, [o teu sonho] é claro! {{gap}}Vem, deixa-me levar-te até ao céu [de Anum<ref>Referência ao deus céu An/Anum, um dos deuses cimeiros do universo divino mesopotâmico.</ref>]<ref>HOROWITZ, Wayne — Two notes on Etanaʼs flight to heaven. ''Orientalio''. 59:4 (1990) 516-517, indica que, a julgar por duas tabuinhas do I milénio a.C. de teor religioso e astrológico, onde é possível identificar os vários céus que compunham o universo segundo os antigos mesopotâmios, Etana e a águia teriam alcançado, provavelmente, aquele que se afigura como o patamar/camada celeste mais elevada muitas vezes referida como “céu de Anum”.</ref>, {{gap}}Põe [o teu peito] sobre o meu peito, {{gap}}Põe [as tuas mãos] sobre as minhas penas, {{gap}}Põe [os teus braços] sobre as minhas asas.” {{nota lateral esquerda|120}}Ele pôs [o seu peito] sobre o seu peito, Pôs [as suas mãos] sobre as suas penas, Pôs os [seus braços] sobre as suas asas. </poem> {{nop}}<noinclude>{{rule}} {{smallrefs}} {{left|'''178'''}}</noinclude> ckn24ybf3gnqv082oxtfkltcqzv4tb3 Página:Júlio Verne - À Roda da Lua (1886).pdf/170 106 256769 560368 2026-08-24T13:21:03Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 560368 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|162|{{sc|á roda da lua}}|{{sc|viagens maravilhosas}}}}{{rule}}</noinclude>Elle e os companheiros iam tornar a ver a face illuminada do disco lunar. Talvez mesmo que se lhes prolongasse a existencia sufficientemente para poderem ver pela ultima vez a Terra-cheia magnificamente illuminada pelos raios do Sol! Talvez podessem dizer um ultimo adeus a esse globo que nāo tinham de tornar a ver. E depois, o projectil, que ficava sendo? Uma massa apagada, morta, similhante a esses inertes asteroides que circulam no ether. Só uma consolaçāo lhes restava : era que iam emfim deixar essas trevas insondaveis, era que iam voltar á luz, que iam entrar nas zonas banhadas pela irradiaçāo solar! No entretanto, as montanhas que Barbicane reconhecera, iam saindo cada vez mais da massa escura. Eram os montes Dôerfel e Leibnitz que se erguem ao sul, na regiāo circumpolar da Lua. Todas as montanhas do hemisperio visivel estāo actualmente medidas com rigorosa exactidāo. Esta perfeiçāo de medida póde talvez causar admiraçāo, mas, no entretanto, a verdade é que os methodos hypsometricos sāo rigorosos. Póde mesmo affirmar-se que a altitude das montahas da Lua está determinada com exactidāo nāo inferior á das montanhas da Terra. O methodo mais geralmente, seguido é o que mede a sombra propria das montanhas, attendendo á altura do Sol no momento da observaçāo. Esta medida obtem-se facilmente por meio de uma luneta que tenha um reticulo de dois fios parallelos, suppondo admittido que o diametro real do disco lunar é exactamente conhecido. Este methodo ministra tambem meio de calcular a profundidade das cratéras e das mais cavidades da Lua. Já Galileu o empregou, e mais tarde os srs. Beer e Moedler tambem dʼelle usaram com perfeito exito. Ha ainda outro methodo, chamado dos raios tangentes, que tambem pode applicar-se á medida dos relevos lunares. Applica-se este no momento em que as montanhas formam pontos luminosos destacados da linha de separaçāo de sombra e luz, e que brilham na parte obscura do disco. Estes pontos luminosos sāo produzidos pelos raios solares superiores aos que<noinclude></noinclude> qjc4jgpoz8rxdw8b9mqxewe75ozw06a Página:Júlio Verne - À Roda da Lua (1886).pdf/171 106 256770 560369 2026-08-24T13:33:08Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 560369 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|163|{{sc|á roda da lua}}|{{sc|viagens maravilhosas}}}}{{rule}}</noinclude>determinam o limite da phase. Por consequencia, a medida de intervallos obscuros que ha entre cada ponto luminoso destacado e a parte luminosa da phase mais proxima, dá a altura exacta dʼesse ponto. Comprehende-se, porém, que este processo nāo pode ser applicado senāo ás montanhas que estāo na proximidade da linha de separaçāo de sombra e luz. Póde imaginar-se um terceiro methodo, que consistiria em medir por meio de micrometro o perfil das montanhas que se desenham sobre o fundo da abobada celeste; este, porém, nāo seria applicavel senāo as alturas proximas do bordo do astro. Deve notar-se que, em qualquer dos casos, esta medida das sombras, dos intervallos ou dos perfis, nāo póde realisar-se senāo quando os raios solares incidem obliquamente na Lua em relaçāo ao observador. Quando os raios batem directamente na Lua, ou, o que é o mesmo, quando a Lua é cheia, as sombras sāo todas imperiosamente expulsas do disco, e a observaçāo nāo se pode fazer. Galileu foi o primeiro que reconheceu a existencia de montanhas lunares, e o primeiro tambem que empregou o methodo das sombras proprias para lhes calcular as alturas e attribuir-lhes, como já dissemos, uma altura média de quatro mil e quinhentas toezas. Hevelius fez descer singularmente estes algarismos, Riccioli, pelo contrario, duplicou-os. Tanto de um lado como do outro houve exageraçāo. Herschell, armado de instrumentos aperfeiçoados, aproximou-se mais da verdade hypsometrica. Mas onde a devemos a final procurar é nos escriptos dos observadores modernos. Os srs. Beer e Moedler, os mais perfeitos selenographos do mundo inteiro, mediram mil e noventa e cinco montanhas lunares. Dos calculos dʼestes senhores resulta, que seis dʼestas montanhas se erguem acima de cinco mil e oitocentos metros, e vinte e duas a mais de quatro mil e oitocentos. O mais alto cume da Lua mede sete mil seiscentos e tres metros; e é portanto inferior a alguns da Terra, onde os ha que o excedem em quinhentas a seiseentas toezas. Uma cousa, porém, deve notar-se, e é que se compararmos as montanhas lunares e as ter-<noinclude></noinclude> nbhj1l1a6in7ho6ynj1u7cfvwaac1tg Página:Júlio Verne - À Roda da Lua (1886).pdf/172 106 256771 560370 2026-08-24T13:36:49Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 560370 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|164|{{sc|á roda da lua}}|{{sc|viagens maravilhosas}}}}{{rule}}</noinclude>restres com os volumes respectivos dos dois astros, são as primeiras relativamente mais altas do que as segundas. A somma das alturas das primeiras é 1/470 avos do diametro da Lua, e das segundas apenas 1/1440 avos do diametro da Terra. Para que alguma montanha terrestre attingisse as proporções relativas de uma montanha lunar, era necessario que a sua altitude perpendicular medisse seis leguas e meia. E a mais alta de todas tem menos de nove kilometros. Assim, pois, para proceder por comparação, a corda do Himalaya tem tres picos superiores aos picos lunares; o monte Everest, de oito mil oitocentos e trinta e sete metros de altura, o Kunchinjuga, com oito mil quinhentos e oitenta e oito metros eo Dwalagiri, com oito mil cento e oitenta e sete metros. Os montes Dœrfel e Leibnitz da Lua têem uma altitude igual á do Jewahir da mesma corda terrestre, isto é, sete mil seiscentos e tres metros. Newton, Casatus, Curtius, Short, Tycho, Clavius, Blancanus, Endymião, e os cumes principaes do Caucaso e dos Apenninos lunares, são mais altos que o Monte Branco, que tem quatro mil oitocentos e dez metros de altura. São iguaes em altura: ao Monte Branco, Moret, Theophylo e Catharnia; ao Monte Róseo, isto é, a quatro mil seiscentos e trinta e seis metros, Piccolomini, Werner e Harpalus; ao monte Cervino, de quatro mil quinhentos e vinte e dois metros de altura, Macrobio, Eratosthenes, Albateco e Delambre; ao pr{{gap}}de Teneriffe, de tres mil e setecentos metros de elevação, Bacon, Cysatus, Philolaus e os picos dos Alpes; ao Monte Perdido dos Pyrenéus, isto é, a tres mil trezentos e cincoenta e um metros, Roemer e Boguslawski; ao Etna, de tres mil trezentos e trinta e sete metros, Hercules, Atlas e Furnerius. Taes são os pontos de comparação que permittem apreciar a altura das montanhas lunares. A trajectoria seguida pelo projectil arrastava-o precisamente para aquella região montanhosa do hemispherio sul, onde se erguem os mais bellos exemplares da orographia lunar. {{nop}}<noinclude></noinclude> pq9f2ave8m6zu2pl95u4ndi4d3b39g3 Á Roda da Lua (5ª edição)/XVI 0 256772 560371 2026-08-24T13:38:28Z Erick Soares3 19404 [[Ajuda:SEA|←]] nova página: <pages index="Júlio Verne - À Roda da Lua (1886).pdf" from=167 to=172 header=1/> {{rule|5em|align=left}} {{smallrefs}} {{Modernização}} {{DP-3}} [[pl:Podróż Naokoło Księżyca/XVI]] [[ru:Вокруг_Луны_(Верн;_1869)/ДО#ГЛАВА_XVI._Южное_полушаріе.]] [[cs:Cesta kolem měsíce/Kapitola šestnáctá]] [[en:Around the Moon/Chapter XVI]] [[fr:Autour de la Lune/16]] 560371 wikitext text/x-wiki <pages index="Júlio Verne - À Roda da Lua (1886).pdf" from=167 to=172 header=1/> {{rule|5em|align=left}} {{smallrefs}} {{Modernização}} {{DP-3}} [[pl:Podróż Naokoło Księżyca/XVI]] [[ru:Вокруг_Луны_(Верн;_1869)/ДО#ГЛАВА_XVI._Южное_полушаріе.]] [[cs:Cesta kolem měsíce/Kapitola šestnáctá]] [[en:Around the Moon/Chapter XVI]] [[fr:Autour de la Lune/16]] fnxl9wcx28a05iuf5itpyadd2i77d2g 560372 560371 2026-08-24T13:38:45Z Erick Soares3 19404 560372 wikitext text/x-wiki <pages index="Júlio Verne - À Roda da Lua (1886).pdf" from=167 to=172 header=1/> {{Modernização}} {{DP-3}} [[pl:Podróż Naokoło Księżyca/XVI]] [[ru:Вокруг_Луны_(Верн;_1869)/ДО#ГЛАВА_XVI._Южное_полушаріе.]] [[cs:Cesta kolem měsíce/Kapitola šestnáctá]] [[en:Around the Moon/Chapter XVI]] [[fr:Autour de la Lune/16]] ljv9vfro39yegt7cnscdfg0ycoawoah Página:Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano, Tomo XI (1904).pdf/652 106 256773 560373 2026-08-24T13:47:55Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 560373 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|602|REV. DO INST. ARCH. E GEOG. PERN.|REV. DO INST. ARCH. E GEOG. PERN.}}{{rule}}</noinclude>observei debaixo da arcia uma pingue terra preta, cheia de materias vegetaes em decomposição e que provavelmente torna esta ilha, arenosa na apparencia, tão fertil. Os viveiros estavam em parte cobertos de lyrios brancos e outras plantas aquaticas do paiz. Toda a ilha é abundante em bonitos arbustos e flores brilhantes <ref>O tervo de Madagascar é o mais commum, e quasi todas as trepadeiras papilonaceas e em forma de campana; os maracujás eão tambem abundantes.</ref>, sobre as quaes o colibri, aqui chamado ''beija-flor'', com as suas azas de saphira e peito de rubim, paira constantemente, e as borboletas multicores rivalisam com elle e as suas flores em colorido e belleza. Os proprios reptis eram ali bonitos, com especialidade a cobra e o lagarto, pelo menos na côr. Achamos uma grande lagarta hirsuta, cada um de cujos pellos se dividia em cinco ou seis hastes; os anneis do corpo eram vermelhos, amarellos e brunos, e o povo do logar crê que ferem os peitos das vaccas e impedem-pas de dar leite, se não é que o sugam; por isto são aqui muito detestadas, porquanto, a parte da ilha que não contém hortas, serve de pastagens e fornece grande parte do leite para o consumo do Recife. Emquanto procuravamos illudir a fome examinando a ilha e bebendo agua de côco e admirando muitas couzas vulgares, comquanto novas aos nossos olhos inexperientes—e taes eram os da maioria do grupo—os nossos botes faziam uma grande volta e finalmente as dez horas desembarcaram as nossas provisões, quando almoçamos alegremente sob uma vela estendida á sombra dos coqueiros. Em seguida os rapazes mais velhos, com as suas espingardas, acompanharam Mr. Dance e o capitão dʼum navio mercante, que se offereceu para ''cicerone'', afim de passarinhar; os mais jovens ficaram commigo a colher flores, apanhar legumes e, com o auxilio da tripolação dos botes, a dirigir os preparativos do jantar. Aʼs quatro horas os caçadores voltaram trazendo pica-paus de crista vermelha, pintasilgos de varias cores, beija- {{nop}}<noinclude>{{rule|5em|align=left}} {{smallrefs}}</noinclude> 10xm1c6zzjmmlky7rsdo2gsrs7ogusp 560376 560373 2026-08-24T13:53:36Z Erick Soares3 19404 560376 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|602|REV. DO INST. ARCH. E GEOG. PERN.|REV. DO INST. ARCH. E GEOG. PERN.}}{{rule}}</noinclude>observei debaixo da arcia uma pingue terra preta, cheia de materias vegetaes em decomposição e que provavelmente torna esta ilha, arenosa na apparencia, tão fertil. Os viveiros estavam em parte cobertos de lyrios brancos e outras plantas aquaticas do paiz. Toda a ilha é abundante em bonitos arbustos e flores brilhantes <ref>O tervo de Madagascar é o mais commum, e quasi todas as trepadeiras papilonaceas e em forma de campana; os maracujás eão tambem abundantes.</ref>, sobre as quaes o colibri, aqui chamado ''beija-flor'', com as suas azas de saphira e peito de rubim, paira constantemente, e as borboletas multicores rivalisam com elle e as suas flores em colorido e belleza. Os proprios reptis eram ali bonitos, com especialidade a cobra e o lagarto, pelo menos na côr. Achamos uma grande lagarta hirsuta, cada um de cujos pellos se dividia em cinco ou seis hastes; os anneis do corpo eram vermelhos, amarellos e brunos, e o povo do logar crê que ferem os peitos das vaccas e impedem-pas de dar leite, se não é que o sugam; por isto são aqui muito detestadas, porquanto, a parte da ilha que não contém hortas, serve de pastagens e fornece grande parte do leite para o consumo do Recife. Emquanto procuravamos illudir a fome examinando a ilha e bebendo agua de côco e admirando muitas couzas vulgares, comquanto novas aos nossos olhos inexperientes—e taes eram os da maioria do grupo—os nossos botes faziam uma grande volta e finalmente as dez horas desembarcaram as nossas provisões, quando almoçamos alegremente sob uma vela estendida á sombra dos coqueiros. Em seguida os rapazes mais velhos, com as suas espingardas, acompanharam Mr. Dance e o capitão dʼum navio mercante, que se offereceu para ''cicerone'', afim de passarinhar; os mais jovens ficaram commigo a colher flores, apanhar legumes e, com o auxilio da tripolação dos botes, a dirigir os preparativos do jantar. Aʼs quatro horas os caçadores voltaram trazendo pica-paus de crista vermelha, pintasilgos de varias cores, beija-{{PT||flores, pegas amarellas e pretas, e outros passaros de brilhante plumagem e formas delicadas, inteiramente novos para nós.}} {{nop}}<noinclude>{{rule|5em|align=left}} {{smallrefs}}</noinclude> dmqxj7tsqcqflly8xajea6312cukub0 Página:Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano, Tomo XI (1904).pdf/653 106 256774 560374 2026-08-24T13:52:34Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 560374 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" /></noinclude>[[File:Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano, Tomo XI (1904) (page 653 crop).jpg|centro|400px]] {{c|'''UMA VENDA NO RECIFE EM 1821''' {{c|(''Auud : {{sc|Rugendas}}. — Mal. Reise in Bras. '')}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 2qxz1b6mf51042h3pneuvjl2iqdfwi7 560375 560374 2026-08-24T13:52:46Z Erick Soares3 19404 560375 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" /></noinclude>[[File:Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano, Tomo XI (1904) (page 653 crop).jpg|centro|400px]] {{c|'''UMA VENDA NO RECIFE EM 1821'''}} {{c|(''Auud : {{sc|Rugendas}}. — Mal. Reise in Bras. '')}} {{nop}}<noinclude></noinclude> 5vpunoqxfw9zx19skeaixaqjsxdunug Página:Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano, Tomo XI (1904).pdf/655 106 256775 560377 2026-08-24T13:56:08Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 560377 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|603|REV. DO INST. ARCH. E GEOG. PERN.|REV. DO INST. ARCH. E GEOG. PERN.}}{{rule}}</noinclude>{{PT|flores, pegas amarellas e pretas, e outros passaros de brilhante plumagem e formas delicadas, inteiramente novos para nós.}} Uma reunião mais jovial jamais se viu, mas, o melhor da expedição ainda nos aguardava. A maré era então favoravel, e deliberamos commetter um acto de loucura; em vez de voltarmos para bordo pelo porto interior, o que nos tomaria mais tempo do que o ainda disponivel, varamos pelo abertura do recife conhecida por Passagem das Gaivotas, porque poucas couzas além dos passaros podem transpol-a. Em primeiro logar seguio o bote do navio mercante, depois a nossa canôa, e como eu estivésse na popa do bote grande que devia seguilos, foi bello, comquanto um pouco tremendo, vél-os se precipitarem atravez da resaca espumante entre as rochas, e reapparecerem além em segurança sobre a vaga, nem foi menos intensa a sensação quando tivemos de imital-os. Ha sempre uma certa sensação de triumpho em vogar sobre as aguas; mas, quando se acham agitadas por tempestades ou rochas e escolhos as tornam perigosas, o triumpho attinge ao sublime, e ha nelle um secreto temor, se bem que não do oceano, e um exalçamento dʼalma para aquelle que fez o oceano e deu ao homem intelligencia para dominal-o. Não me envergonho de dizer que, ao olhar para os meus jovens protegidos, quando Mr. Dance murmurou: «Fiquem quietos e nada digam» e avançando para a prôa gritou para o homem do leme: «Firme !», tive um momento, comquanto só um momento, de extranha anciedade. Mas, num instante operamos a passagem e em breve abordavamos a fragata, onde fomos louvados por ter realisado o que dantes poucos haviam feito, e mostrado a possibilidade de fazel-o com segurança, podendo de futuro vir a ter importancia saber-se que é possivel fazel-o. ''Quarta-feira, 10 de Outubro''.—Fomos a terra pela primeira vez depois do armisticio. Os canhões foram removidos das ruas e algumas lojas reabriram; os negros não são mais detidos portas a dentro e os padres reappareceram; os seus largos chapéos e amplos capotes dão-lhes importancia em meio da multidão, agora atarefada e activa, parecendo querer rehaver para o commercio o tempo perdido durante o assedio. {{nop}}<noinclude></noinclude> 1j1yzzzumv5mvil6mzw6n9hgi4lgljh Página:Contos e phantasias-2nd.pdf/320 106 256776 560379 2026-08-24T14:23:30Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 560379 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" /></noinclude>{{C|{{Serifa|{{xx-larger|Parceria {{uc|Antonio Maria Pereira}}}}}}}} {{C|{{larger|{{uc|Livraria editora}}}}}} {{C|{{xx-larger|Rua Augusta, 50, 52 e 54}}}} {{C|{{larger|{{uc|'''Lisboa'''}}}}}} {{lh|6em}} {{C|'''[[Autor:Afonso Botelho|Affonso Botelho]]'''}} {{Dtpl||Contos|200}} {{Dtpl||Azul e negro, novos contos, 1 vol|500}} {{C|'''[[Autor:António de Serpa Pimentel|A. de Serpa Pimentel]]'''}} {{Dtpl||Portugal moderno|500}} {{C|'''[[Autor:Alberto Pimentel|Alberto Pimentel]]'''}} {{Dtpl||A guerrilha de Frei Simão|500}} {{Dtpl||Vida mundana d'um frade virtuoso|300}} {{Dtpl||Vinte annos de vida litteraria|200}} {{Dtpl||Noites de Cintra|200}} {{Dtpl||As netas do Padre Eterno|200}} {{C|'''[[Autor:Alves Mendes|Alves Mendes]]'''}} {{Dtpl||Discursos|1$000}} {{dtpl||Herculano|300}} {{dtpl||Santo Antonio, discurso|500}} {{C|'''[[Autor:Antero de Figueiredo|Anthero de Figueiredo]]'''}} {{dtpl||Além, 1 vol|400}} {{c|'''[[Autor:António Cândido|Antonio Candido]]'''}} {{Dtpl||Elogio historico D'El-Rei D. 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Miguel de Alarcão]]'''}} {{dtpl||Velocipedia pratica|300}} {{dtpl||Manual de gymnastica|800}} {{C|'''[[Autor:Padre Patricio|Padre Patricio]]'''}} {{dtpl||Sermões|700}}<noinclude></noinclude> evvqzrain273cnplu14c65wqt2tpdi1 Página:"Olha a terra, meu amigo, como é que ela é?".pdf/16 106 256777 560383 2026-08-24T15:27:29Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 560383 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rh||{{smaller|MARIA DE FÁTIMA ROSA, ISABEL GOMES DE ALMEIDA}}|}} {{rule|40em|align=right}}</noinclude>possíveis ligações a outras narrativas literárias mesopotâmicas, assim como às marcas culturais que a narrativa parece ter deixado. {{dhr|2}} {{left|'''a) A realeza desce do céu, ao céu sobe o rei'''}} {{dhr|2}} Um dos temas mais importantes e aos quais a narrativa dá maior destaque é o voo de Etana. Para o entendermos melhor é necessário compreender primeiramente a natureza desta personagem. Como refere Koubková<ref>Fortune, p. 376-377.</ref>, no início da narrativa, a realeza ainda não está estabelecida, as insignias reais ainda não foram outorgadas. Como a necessidade de entronar alguém que pudesse operar como um mediador entre a obra divina criada, ie, entre o mundo terreno, e o mundo celeste, era impreterível, Ištar procura avidamente por um homem que possa levar a cabo esta missão. Desta feita, très questões importantes sobressaem logo nas primeiras linhas da composição: o facto de a realeza descer dos céus sobre o domínio humano por ordem divina, tal como patente noutros textos de cariz literário (“After the...... of kingship had descended from heaven”<ref>''Estória do diluvio'' (''ETCSL'' 1.7.4).</ref>), o facto de o rei ter como tarefa conduzir a população e mediar entre estes dois planos e, por fim, o papel fulcral da deusa Ištar neste contexto. Tradicionalmente, considera-se que Etana é escolhido como soberano de Kiš logo na abertura do texto. De facto, e embora este se torne bastante fragmentário à medida que as linhas vão avançando, é possível identificar a palavra “rei” (''šarru'') associada ao nome próprio Etana ainda na linha 62. Este aspeto parece corroborado pelo selo cilíndrico ao qual aludimos anteriormente, onde se pode observar, junto à árvore em cuja copa se eleva uma águia, um pastor de braço erguido, seguido do seu rebanho. Ora, tendo em conta que uma das metáforas reais mais frequentes na antiga Mesopotâmia é precisamente a do pastor, uma possível identificação de Etana com a figura representada parece bastante verosímil. Assim, a esfera celeste, representada pela deusa Ištar, divindade que tutela a governança<ref>Acerca da ligação ancestral entre esta divindade e o poder governativo veja se ALMEIDA, Isabel Gomes de — ''A construção'' ''do figura do INANNA/IŠTAR no Mesopotamia: IV-II milenios a. C''. Tese de Doutoramento apresentada à Universidade Nova de Lisboa, 2015, p. 129-214.</ref>, teria procurado e instituído Etana como monarca da terra entre os dois rios. Koubková<ref>Vide nota 90.</ref> propõe, no entanto, uma interpretação diferente. Para a autora, o voo que é efetuado por Etana não tem meramente como intuito o alcance da planta do nascimento, mas sim a aquisição de plenos poderes reais. Só após o encontro com Ištar, já no domínio celeste, o protagonista teria de facto recebido as tão almejadas insígnias. {{nop}}<noinclude>{{rule}} {{smallrefs}} {{left|'''180'''}}</noinclude> ehw1cx84gnw6ghu6n5p72ujt48zg5ab 560384 560383 2026-08-24T15:27:58Z Erick Soares3 19404 560384 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rh||{{smaller|MARIA DE FÁTIMA ROSA, ISABEL GOMES DE ALMEIDA}}|}} {{rule|40em|align=right}}</noinclude>possíveis ligações a outras narrativas literárias mesopotâmicas, assim como às marcas culturais que a narrativa parece ter deixado. {{dhr|2}} {{left|'''a) A realeza desce do céu, ao céu sobe o rei'''}} {{dhr|2}} Um dos temas mais importantes e aos quais a narrativa dá maior destaque é o voo de Etana. Para o entendermos melhor é necessário compreender primeiramente a natureza desta personagem. Como refere Koubková<ref>Fortune, p. 376-377.</ref>, no início da narrativa, a realeza ainda não está estabelecida, as insignias reais ainda não foram outorgadas. Como a necessidade de entronar alguém que pudesse operar como um mediador entre a obra divina criada, ie, entre o mundo terreno, e o mundo celeste, era impreterível, Ištar procura avidamente por um homem que possa levar a cabo esta missão. Desta feita, très questões importantes sobressaem logo nas primeiras linhas da composição: o facto de a realeza descer dos céus sobre o domínio humano por ordem divina, tal como patente noutros textos de cariz literário (“After the...... of kingship had descended from heaven”<ref>''Estória do diluvio'' (''ETCSL'' 1.7.4).</ref>), o facto de o rei ter como tarefa conduzir a população e mediar entre estes dois planos e, por fim, o papel fulcral da deusa Ištar neste contexto. Tradicionalmente, considera-se que Etana é escolhido como soberano de Kiš logo na abertura do texto. De facto, e embora este se torne bastante fragmentário à medida que as linhas vão avançando, é possível identificar a palavra “rei” (''šarru'') associada ao nome próprio Etana ainda na linha 62. Este aspeto parece corroborado pelo selo cilíndrico ao qual aludimos anteriormente, onde se pode observar, junto à árvore em cuja copa se eleva uma águia, um pastor de braço erguido, seguido do seu rebanho. Ora, tendo em conta que uma das metáforas reais mais frequentes na antiga Mesopotâmia é precisamente a do pastor, uma possível identificação de Etana com a figura representada parece bastante verosímil. Assim, a esfera celeste, representada pela deusa Ištar, divindade que tutela a governança<ref>Acerca da ligação ancestral entre esta divindade e o poder governativo veja se ALMEIDA, Isabel Gomes de — ''A construção'' ''da figura da INANNA/IŠTAR no Mesopotamia: IV-II milenios a. C''. Tese de Doutoramento apresentada à Universidade Nova de Lisboa, 2015, p. 129-214.</ref>, teria procurado e instituído Etana como monarca da terra entre os dois rios. Koubková<ref>Vide nota 90.</ref> propõe, no entanto, uma interpretação diferente. Para a autora, o voo que é efetuado por Etana não tem meramente como intuito o alcance da planta do nascimento, mas sim a aquisição de plenos poderes reais. Só após o encontro com Ištar, já no domínio celeste, o protagonista teria de facto recebido as tão almejadas insígnias. {{nop}}<noinclude>{{rule}} {{smallrefs}} {{left|'''180'''}}</noinclude> lyszvartko8zx2v8x51v60q9nxu9uhr Página:"Olha a terra, meu amigo, como é que ela é?".pdf/17 106 256778 560385 2026-08-24T15:34:44Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 560385 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rule}} {{rh|||{{smaller|“Olha a terra, meu amigo, como é que ela é?”: tradução e análise do mito mesopotâmico ''Etana''}}}}</noinclude>Esta interpretação parece ficar, contudo, aquém do tom e do enredo da narrativa. Os receios apresentados pelo protagonista e as suas súplicas a Šamaš, a partir da linha 134 da segunda tabuinha, compreendem-se no âmbito da manutenção da família reinante e da asseveração da estabilidade no território. A angústia que a falta de um herdeiro causa ao herói seria compreensível em relação a qualquer indivíduo, independentemente da sua situação, visto impedir a perpetuação do seu nome e a preservação do seu património. No entanto, a nível dinástico, afirmar-se-ia como uma verdadeira catástrofe, uma vez que levaria ao desmembramento da casa real e eventualmente ao colapso estatal. Etana é, assim, um rei que teme não poder ofertar à sua população uma solução de continuidade, sem demais sobressaltos, e que sente uma verdadeira vergonha (tab. II, 1. 143) por não poder “Gaze on the child who holds your hand”<ref>''Epopeia de Gilgameš'' OB, conselhos da taberneira a Gilgameš sobre os princípios aos quais aspirar, GEORGE, Andrew — ''The'' ''Epic of Gilgamesh''. London: Penguin Classics, 2003, p. 124.</ref>. Essencial para a sua nomeação é Ištar. Encontramo-la no início e no fim da composição. É a deusa quem, como referimos, procura um governante e é também ela quem tem a posse da planta do nascimento (tab. III, Is. 24 e 25). Assim sendo, nesta narrativa, como em tantos outros testemunhos mesopotâmicos<ref>A título de exemplo, referimos a designada ''Pintura da Investidura'' do palácio real de Mari (sécs. XIX-XVIII a.c.), onde Ištar concede os símbolos da realeza (a vara de medição e o anel) ao rei mariota (MARGUERON, Jean-Claude — ''Mari: Capital of'' ''northern Mesopotamia in the third millennium. The archaeology of Tell Hariri on the Euphrates''. Oxford: Oxbow Books, 2014, p. 152-153).</ref>, a deusa afirma-se como a responsável pela atribuição das ''regalia''. O seu carácter multifacetado e a sua postura liminar fazem-na igualmente deter a planta que possibilitará a formação de uma nova geração, dada a sua associação ao amor e, sobretudo, ao sexo. Ademais, sendo Ištar uma deusa de fronteira<ref>ALMEIDA — ''A construção'', p. 217 e ss.</ref>, que frequentemente se desloca por diferentes domínios cósmicos, não estranhamos a sua presença num mito que trata precisamente da dialética entre o céu, a terra e o solo abaixo desta. O sonho de Etana, relatado na terceira tabuinha, parece reafirmar a sua posição soberana e vital na história. A jovem senhora sentada mum trono rodeado por leões não pode ser senão Ištar. Sabemos que um dos animais que lhe estava associado e com o qual se faz acompanhar frequentemente na iconografia era precisamente o leão<ref>Sobre a ligação desta deusa com o felino, veja se idem, p. 173-174</ref>. A deusa aparece, então, como que entronizada e detentora do poder celeste, estabelecendo uma simetria com o herói da narrativa. É a Ištar que Etana pretende chegar, já que foi a deusa quem lhe outorgou a missão real, quem possui a planta do nascimento e quem pode reverter a sua situação. Etana sonha em alcançar a planta. Mas para tal é preciso dirigir-se a um domínio, à partida, interdito aos seres humanos: o céu. A localização da planta neste<noinclude>{{rule}} {{smallrefs}} {{right|'''181'''}}</noinclude> jsoty26q4jdv70muzmv1yswx5t68esi 560386 560385 2026-08-24T15:34:58Z Erick Soares3 19404 560386 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rule}} {{rh|||{{smaller|“Olha a terra, meu amigo, como é que ela é?”: tradução e análise do mito mesopotâmico ''Etana''}}}}</noinclude>Esta interpretação parece ficar, contudo, aquém do tom e do enredo da narrativa. Os receios apresentados pelo protagonista e as suas súplicas a Šamaš, a partir da linha 134 da segunda tabuinha, compreendem-se no âmbito da manutenção da família reinante e da asseveração da estabilidade no território. A angústia que a falta de um herdeiro causa ao herói seria compreensível em relação a qualquer indivíduo, independentemente da sua situação, visto impedir a perpetuação do seu nome e a preservação do seu património. No entanto, a nível dinástico, afirmar-se-ia como uma verdadeira catástrofe, uma vez que levaria ao desmembramento da casa real e eventualmente ao colapso estatal. Etana é, assim, um rei que teme não poder ofertar à sua população uma solução de continuidade, sem demais sobressaltos, e que sente uma verdadeira vergonha (tab. II, 1. 143) por não poder “Gaze on the child who holds your hand”<ref>''Epopeia de Gilgameš'' OB, conselhos da taberneira a Gilgameš sobre os princípios aos quais aspirar, GEORGE, Andrew — ''The'' ''Epic of Gilgamesh''. London: Penguin Classics, 2003, p. 124.</ref>. Essencial para a sua nomeação é Ištar. Encontramo-la no início e no fim da composição. É a deusa quem, como referimos, procura um governante e é também ela quem tem a posse da planta do nascimento (tab. III, Is. 24 e 25). Assim sendo, nesta narrativa, como em tantos outros testemunhos mesopotâmicos<ref>A título de exemplo, referimos a designada ''Pintura da Investidura'' do palácio real de Mari (sécs. XIX-XVIII a.c.), onde Ištar concede os símbolos da realeza (a vara de medição e o anel) ao rei mariota (MARGUERON, Jean-Claude — ''Mari: Capital of'' ''northern Mesopotamia in the third millennium. The archaeology of Tell Hariri on the Euphrates''. Oxford: Oxbow Books, 2014, p. 152-153).</ref>, a deusa afirma-se como a responsável pela atribuição das ''regalia''. O seu carácter multifacetado e a sua postura liminar fazem-na igualmente deter a planta que possibilitará a formação de uma nova geração, dada a sua associação ao amor e, sobretudo, ao sexo. Ademais, sendo Ištar uma deusa de fronteira<ref>ALMEIDA — ''A construção'', p. 217 e ss.</ref>, que frequentemente se desloca por diferentes domínios cósmicos, não estranhamos a sua presença num mito que trata precisamente da dialética entre o céu, a terra e o solo abaixo desta. O sonho de Etana, relatado na terceira tabuinha, parece reafirmar a sua posição soberana e vital na história. A jovem senhora sentada mum trono rodeado por leões não pode ser senão Ištar. Sabemos que um dos animais que lhe estava associado e com o qual se faz acompanhar frequentemente na iconografia era precisamente o leão<ref>Sobre a ligação desta deusa com o felino, veja se idem, p. 173-174</ref>. A deusa aparece, então, como que entronizada e detentora do poder celeste, estabelecendo uma simetria com o herói da narrativa. É a Ištar que Etana pretende chegar, já que foi a deusa quem lhe outorgou a missão real, quem possui a planta do nascimento e quem pode reverter a sua situação. Etana sonha em alcançar a planta. Mas para tal é preciso dirigir-se a um domínio, à partida, interdito aos seres humanos: o céu. A localização da planta neste<noinclude>{{rule}} {{smallrefs}} {{right|'''181'''}}</noinclude> jsslzhik6hsf3g4guli74r06yg6skgk Página:"Olha a terra, meu amigo, como é que ela é?".pdf/18 106 256779 560387 2026-08-24T15:46:09Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 560387 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rh||{{smaller|MARIA DE FÁTIMA ROSA, ISABEL GOMES DE ALMEIDA}}|}} {{rule|40em|align=right}}</noinclude>lugar preciso compreende-se porventura pelo facto de se tratar de um alimento divino. Só os deuses podiam determinar a possibilidade extraordinária<ref>As divindades influenciavam todos os acontecimentos da vida humana, e, no limite, da realidade, pelo que também interferiam nos nascimentos bem-sucedidos, os nados·mortos e as causas de infertilidade.</ref> de vir a ter um descendente<ref>Recorde-se que só os deuses podem criar (SAPORETTI — Dieci appunti, p. 66).</ref>. A viagem em si e a comida divina encontram paralelo numa outra história mesopotâmica, o ''Mito de Adapa''<ref>Sobre os vários temas e as várias cópias desta composição (as primeiras constituem recensões sumérias do início do II milénio a. C.), vide SASSON, Jack M. — Another wrinkle on old Adapa. In VAN DER SPEK, R. J., ed. — ''Studies in Ancient Near'' ''Eastern world view and society presented to Morten Stol on the occasion of his 65th birthday''. Bethesda, MD: CDL Press, 2008, p. 1-10.</ref>. Também neste caso um herói tem possibilidade de ascender ao domínio celeste<ref>Vide ALSTER — The textual history, p. 83, sobre o facto de o motivo do voo ser comum na mitologia mesopotâmica e sobre as similaridades com Adapa.</ref>. Adapa é um sábio que quebra a asa do vento causando uma disrupção cósmica. Devido à sua atitude é chamado a comparecer junto do deus céu, Anu. Antes de efetuar a viagem, contudo, o deus da sabedoria, Ea, adverte-o a não aceitar qualquer bebida ou comida que lhe seja apresentada pelos restantes deuses, pois é a ''akala ša mūti'' (“comida da morte”). Seguindo estes conselhos, Adapa recusa os alimentos ofertados, desconhecendo que, ao fazê-lo, está na realidade a abdicar da ''akal balāṭi'' (“comida da vida”), ie., provavelmente da imortalidade<ref>SASSON discorda desta visão, referindo que não é necessariamente uma vida eterna que está aqui em jogo, mas simplesmente uma regeneração (Another wrinkle, p. 7).</ref>, Também Gilgameš, na epopeia homónima, procura obter os “dias duradouros” que Ut-napištim parece ter alcançado. No entanto, este afirma que a sua eternidade decorreu da sobrevivência ao evento diluviano, não podendo o rei de Uruk repetir tal feito. O desafio que lhe propõe vai no sentido de encontrar e consumir a ''šammu niqitti''<ref>A palavra ''niqittu/nikittu'' pode ser traduzida como “fear”, “worry”, “concern” (''CAD'' N/2, p. 223). Pode igualmente expressar a ideia de ansiedade ou desespero, aludindo certamente ao batimento cardíaco mais forte. GEORGE — ''The Epic of Gilgamesh'', p. 98, traduz a expressão como “Plant of Heartbeat”, embora outra opção, seguindo ''CAD'', seja “plant of rejuvenation”.</ref> (“a planta do batimento cardíaco”) que se encontra no fundo do oceano. Gilgameš cumpre o desafio, mas, para seu grande desgosto, perde inadvertidamente a planta que com tanto esforço havia obtido para uma serpente. Três heróis, trés alimentos. Só um parece de facto consumir a comida divina. Adapa recusa-a, Gilgameš perde-a. Etana, considerando a ''Lista Real Suméria'', poderá ter usufruído dela. Há, no entanto, diferenças a assinalar quanto à natureza dos alimentos em causa. Tanto na ''akal balāṭi'' quanto na ''šammu niqitti'' transparece a ideia de uma provisão com qualidades extraordinárias que permitiriam prolongar a vida, quer pelo facto de o alimento em si ser sinónimo de existência e de bem-estar, quer pela ideia subjacente ao mesmo de que o coração manteria a sua cadência natural, presurivelmente, ''ad eternum''. Assim, podemos colocar a hipótese de, a ambas, estar implícita uma noção de imutabilidade/eternidade. Já a ''šammu ša alādi'' de Etana não pressupõe a perpetuidade daquele que a consumir, mas sim uma imortalidade<noinclude>{{rule}} {{smallrefs}} {{left|'''182'''}}</noinclude> ttl5udjtf07edaugu3lcj7nsc0hbpmw 560388 560387 2026-08-24T15:46:45Z Erick Soares3 19404 560388 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rh||{{smaller|MARIA DE FÁTIMA ROSA, ISABEL GOMES DE ALMEIDA}}|}} {{rule|40em|align=right}}</noinclude>lugar preciso compreende-se porventura pelo facto de se tratar de um alimento divino. Só os deuses podiam determinar a possibilidade extraordinária<ref>As divindades influenciavam todos os acontecimentos da vida humana, e, no limite, da realidade, pelo que também interferiam nos nascimentos bem-sucedidos, os nados·mortos e as causas de infertilidade.</ref> de vir a ter um descendente<ref>Recorde-se que só os deuses podem criar (SAPORETTI — Dieci appunti, p. 66).</ref>. A viagem em si e a comida divina encontram paralelo numa outra história mesopotâmica, o ''Mito de Adapa''<ref>Sobre os vários temas e as várias cópias desta composição (as primeiras constituem recensões sumérias do início do II milénio a. C.), vide SASSON, Jack M. — Another wrinkle on old Adapa. In VAN DER SPEK, R. J., ed. — ''Studies in Ancient Near'' ''Eastern world view and society presented to Morten Stol on the occasion of his 65th birthday''. Bethesda, MD: CDL Press, 2008, p. 1-10.</ref>. Também neste caso um herói tem possibilidade de ascender ao domínio celeste<ref>Vide ALSTER — The textual history, p. 83, sobre o facto de o motivo do voo ser comum na mitologia mesopotâmica e sobre as similaridades com Adapa.</ref>. Adapa é um sábio que quebra a asa do vento causando uma disrupção cósmica. Devido à sua atitude é chamado a comparecer junto do deus céu, Anu. Antes de efetuar a viagem, contudo, o deus da sabedoria, Ea, adverte-o a não aceitar qualquer bebida ou comida que lhe seja apresentada pelos restantes deuses, pois é a ''akala ša mūti'' (“comida da morte”). Seguindo estes conselhos, Adapa recusa os alimentos ofertados, desconhecendo que, ao fazê-lo, está na realidade a abdicar da ''akal balāṭi'' (“comida da vida”), ie., provavelmente da imortalidade<ref>SASSON discorda desta visão, referindo que não é necessariamente uma vida eterna que está aqui em jogo, mas simplesmente uma regeneração (Another wrinkle, p. 7).</ref>, Também Gilgameš, na epopeia homónima, procura obter os “dias duradouros” que Ut-napištim parece ter alcançado. No entanto, este afirma que a sua eternidade decorreu da sobrevivência ao evento diluviano, não podendo o rei de Uruk repetir tal feito. O desafio que lhe propõe vai no sentido de encontrar e consumir a ''šammu niqitti''<ref>A palavra ''niqittu/nikittu'' pode ser traduzida como “fear”, “worry”, “concern” (''CAD'' N/2, p. 223). Pode igualmente expressar a ideia de ansiedade ou desespero, aludindo certamente ao batimento cardíaco mais forte. GEORGE — ''The Epic of Gilgamesh'', p. 98, traduz a expressão como “Plant of Heartbeat”, embora outra opção, seguindo ''CAD'', seja “plant of rejuvenation”.</ref> (“a planta do batimento cardíaco”) que se encontra no fundo do oceano. Gilgameš cumpre o desafio, mas, para seu grande desgosto, perde inadvertidamente a planta que com tanto esforço havia obtido para uma serpente. Três heróis, trés alimentos. Só um parece de facto consumir a comida divina. Adapa recusa-a, Gilgameš perde-a. Etana, considerando a ''Lista Real Suméria'', poderá ter usufruído dela. Há, no entanto, diferenças a assinalar quanto à natureza dos alimentos em causa. Tanto na ''akal balāṭi'' quanto na ''šammu niqitti'' transparece a ideia de uma provisão com qualidades extraordinárias que permitiriam prolongar a vida, quer pelo facto de o alimento em si ser sinónimo de existência e de bem-estar, quer pela ideia subjacente ao mesmo de que o coração manteria a sua cadência natural, presurivelmente, ''ad eternum''. Assim, podemos colocar a hipótese de, a ambas, estar implícita uma noção de imutabilidade/eternidade. Já a ''šammu ša alādi'' de Etana não pressupõe a perpetuidade daquele que a consumir, mas sim uma imortalidade<noinclude>{{rule}} {{smallrefs}} {{left|'''182'''}}</noinclude> er6oar69zej9c23ds7c4ryk6l4bbl44 Página:Contos amazonicos.djvu/25 106 256780 560390 2026-08-24T17:01:24Z ~2026-46124-56 43645 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: das estâncias rio-grandenses e das aldeolas de Mato Grosso. Narravam diariamente os periódicos casos espantosos, reclamações enérgicas contra o arbítrio das autoridades locais, mas o governo a tudo cerrava os ouvidos, por necessitar de fornecer vítimas às disenterias do Passo da Pátria e carne brasileira aos canhões vorazes de Humaitá. Foi então que se mostrou em toda a sua hediondez a tirania dos mandões de aldeia. Os graúdos não perd... 560390 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="201.75.186.157" /></noinclude>das estâncias rio-grandenses e das aldeolas de Mato Grosso. Narravam diariamente os periódicos casos espantosos, reclamações enérgicas contra o arbítrio das autoridades locais, mas o governo a tudo cerrava os ouvidos, por necessitar de fornecer vítimas às disenterias do Passo da Pátria e carne brasileira aos canhões vorazes de Humaitá. Foi então que se mostrou em toda a sua hediondez a tirania dos mandões de aldeia. Os graúdos não perderam a ocasião de satisfazer ódios e caprichos, oprimindo os adversários políticos que não sabiam procurar, ao serviço de abastados e poderosos fazendeiros, proteção e amparo contra o recrutamento, à custa do sacrifício da própria liberdade e da honra das mulheres, das filhas e das irmãs. Sim. Não pretendo carregar os tons sombrios do quadro da miséria do proletário brasileiro naqueles tempos calamitosos, em que o pobre só se julgava a salvo do despotismo quando nas mãos do senhor do engenho, do fazendeiro, do comandante do batalhão da guarda-nacional abdicava a sua independência, pela sujeição a trabalho forçado<noinclude></noinclude> 5naw589r3zv3poh3db38mliptlrbdgz Página:Contos amazonicos.djvu/26 106 256781 560391 2026-08-24T17:12:06Z ~2026-46124-56 43645 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: mal ou nada remunerado a sua dignidade pela resignação aos castigos corporais e aos maus tratos; e a honra da família pela obrigada complacência com a violação das mulheres. Em Alenquer, por exemplo, o capitão Fabrício, nomeado recrutador, alardeando serviços ao partido de cima, praticou as maiores atrocidades, tendo por única lei o seu capricho. De toda a parte se levantavam clamores contra o rico e perverso fazendeiro do igarapé, mas... 560391 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="~2026-46124-56" /></noinclude>mal ou nada remunerado a sua dignidade pela resignação aos castigos corporais e aos maus tratos; e a honra da família pela obrigada complacência com a violação das mulheres. Em Alenquer, por exemplo, o capitão Fabrício, nomeado recrutador, alardeando serviços ao partido de cima, praticou as maiores atrocidades, tendo por única lei o seu capricho. De toda a parte se levantavam clamores contra o rico e perverso fazendeiro do igarapé, mas cônscio do apoio dos chefes do seu grupo político, continuava Fabrício obrando as maiores atrocidades, que constituíram a sua vida até que o filho do Anselmo Marques, com um salutar tiro de espingarda, pôs-lhe termo à ominosa existência. Descuidado e contente, Pedro labutava em paz, apesar das desgraças do tempo, ouvidas aos domingos, depois da missa, no adro da matriz. E quando lhe perguntavam se não receava o recrutamento, dizia com a candura habitual, que nunca fizera mal a ninguém, e era filho único de mulher viúva. Não contava, porém, com a má vontade de Manuel de Andrade, mulato<noinclude></noinclude> ldnc4c2grkk92ms6pvm0avbfgwurh4l Página:Contos amazonicos.djvu/27 106 256782 560392 2026-08-24T17:14:44Z ~2026-46124-56 43645 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: que era seu rival na pesca das tartarugas. Manuel era a alma danada do capitão Fabrício, em cuja fazenda vivia como agregado. Toda a gente o acusava de desapiedado executor das maldades do fazendeiro. Era tido como homem sem escrúpulos, que matava por prazer. E as proezas pacíficas do filho da velha Rosa enchiam-lhe o coração de inveja. Numa tarde de Dezembro de 1865 ou de Janeiro do ano seguinte (já não me recordo bem da data), Pedro... 560392 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="~2026-46124-56" /></noinclude>que era seu rival na pesca das tartarugas. Manuel era a alma danada do capitão Fabrício, em cuja fazenda vivia como agregado. Toda a gente o acusava de desapiedado executor das maldades do fazendeiro. Era tido como homem sem escrúpulos, que matava por prazer. E as proezas pacíficas do filho da velha Rosa enchiam-lhe o coração de inveja. Numa tarde de Dezembro de 1865 ou de Janeiro do ano seguinte (já não me recordo bem da data), Pedro, ao voltar da pesca, passando pelo porto da fazenda, notara um movimento desusado, e, observando, pensara ter visto o Manuel de Andrade e dois ou três soldados, de farda e baioneta, entidades não vulgares naquelas paragens. Sem saber explicar o estranho caso, continuara a remar, e em breve aportara ao sítio, e puxando a canoa para terra fora dar parte da pescaria à mãe, sem lhe falar do que vira na casa do vizinho. Na manhã do dia seguinte, entretinha-se o rapaz a fazer uma cerca de varas no terreiro, quando lhe aparecera pelo cacaual o velho Inácio Mendes, vizinho e amigo, o<noinclude></noinclude> 81dynk486auzdd0xuz71vf1lywnr8ke Página:Contos amazonicos.djvu/28 106 256783 560393 2026-08-24T17:18:09Z ~2026-46124-56 43645 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: mesmo que morreu o ano passado afogado no Nhamundá, tentando salvar o filho, atraído pela mãe d’água. Como o assunto de todas as conversas da beira do rio era a guerra, falou-se do recrutamento. Inácio dizia-se portador de notícias frescas. O capitão Fabrício, nomeado recrutador em todo o termo de Alenquer, recebera ordem terminante do presidente da província para mandar pelo primeiro vapor um contingente de voluntários, custasse o qu... 560393 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="~2026-46124-56" /></noinclude>mesmo que morreu o ano passado afogado no Nhamundá, tentando salvar o filho, atraído pela mãe d’água. Como o assunto de todas as conversas da beira do rio era a guerra, falou-se do recrutamento. Inácio dizia-se portador de notícias frescas. O capitão Fabrício, nomeado recrutador em todo o termo de Alenquer, recebera ordem terminante do presidente da província para mandar pelo primeiro vapor um contingente de voluntários, custasse o que custasse. Essa ordem, transmitida pelo delegado de polícia de Santarém, fora trazida a toda pressa pelo sargento Moura, acompanhado de cinco guardas nacionais que aquela autoridade pusera à disposição do recrutador, prometendo enviar-lhe logo maior força, se fosse necessário. — O capitão, — acrescentou Inácio em em voz baixa, — não é lá homem para hesitar em se tratando de maldades. E continuara, narrando as desgraças da época. Já o Antônio da Silva fugira a todo o pano para Vila Bela, onde mora um negociante que é seu compadre. Na casa do Pantaleão Soares, português legítimo, o sargento Moura varejara os quartos em<noinclude></noinclude> nxauvscdjflz3jczi5n3o5yu8q4u6ml Página:Contos amazonicos.djvu/29 106 256784 560394 2026-08-24T17:21:52Z ~2026-46124-56 43645 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: que dormiam as filhas do pobre homem, e levara o atrevimento ao ponto de revistá-las, dizendo que podiam ser homens disfarçados. O Raimundo Nonato e o filho da tia Rita haviam-se metido pelo mato dentro, sem que se soubesse o seu paradeiro. Um tapuio dos lagos, tendo vindo à vila comprar mantimentos, vira-se perseguido pelos guardas, e fora comido por jacarés, querendo salvar-se a nado. E terminou entre risonho e triste o velho Inácio... 560394 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="~2026-46124-56" /></noinclude>que dormiam as filhas do pobre homem, e levara o atrevimento ao ponto de revistá-las, dizendo que podiam ser homens disfarçados. O Raimundo Nonato e o filho da tia Rita haviam-se metido pelo mato dentro, sem que se soubesse o seu paradeiro. Um tapuio dos lagos, tendo vindo à vila comprar mantimentos, vira-se perseguido pelos guardas, e fora comido por jacarés, querendo salvar-se a nado. E terminou entre risonho e triste o velho Inácio: — Que quer, seu Pedro? Nestes tempos nem os pobres velhos têm a certeza de escapar. O que vale é que Deus é grande... e o mato maior. Três dias depois da visita de Inácio Mendes, pelas 7 horas da manhã, a velha Rosa tratava do almoço, e Pedro, sentado à soleira da porta, preparava-se para caçar papagaios, limpando uma bela espingarda de dois canos, quando viu adiantar-se para o seu lado o capitão Fabrício, com os modos risonhos e corteses de um bom vizinho. Pedro ergueu-se surpreso e acanhado e pôs-se a balbuciar cumprimentos ao fazendeiro, cujo sorriso o enleava.<noinclude></noinclude> gvuaqgml83shx7ja86q93yn18mawjsu Página:Contos amazonicos.djvu/30 106 256785 560395 2026-08-24T17:26:31Z ~2026-46124-56 43645 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: — Ora bom dia, seu Pedro. Então já sei que vai à caça? E está com uma bonita arma! Quer vendê-la? E foi lha tirando das mãos, sem que o pescador, admirado de tão grande afabilidade, pensasse em contrariar-lhe o gesto. — Eh, eh! seu Pedro, você está um rapaz robusto, e devia ser voluntário da pátria. O governo precisa de gente forte lá no sul para dar cabo do demônio do López. Ora é uma vergonha que você esteja a matar os pobrezinhos... 560395 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="~2026-46124-56" /></noinclude>— Ora bom dia, seu Pedro. Então já sei que vai à caça? E está com uma bonita arma! Quer vendê-la? E foi lha tirando das mãos, sem que o pescador, admirado de tão grande afabilidade, pensasse em contrariar-lhe o gesto. — Eh, eh! seu Pedro, você está um rapaz robusto, e devia ser voluntário da pátria. O governo precisa de gente forte lá no sul para dar cabo do demônio do López. Ora é uma vergonha que você esteja a matar os pobrezinhos dos papagaios e a arpoar os inocentes dos pirarucus, quando melhor quebraria a proa aos paraguaios, que são brutos também e inimigos dos cristãos. Pedro balbuciava negativas e desculpas. Era filho único... não tinha êxito para a guerra... quem tomaria conta da pobre velhinha? Mas o capitão pôs-lhe a mão no ombro, dizendo em voz repassada de mel: — Pois então tenha paciência. Se não quer ser voluntário, está recrutado. Pedro deu um pulo para trás, como se fora mordido por uma cobra. Recrutado, ele! A palavra fatídica soou-lhe aos<noinclude></noinclude> fba8nku8zo6rkmptebk09gmpa1uql19 Página:A Dança do Destino - Lutegarda Guimarães de Caires (1913).pdf/125 106 256786 560398 2026-08-24T18:02:56Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 560398 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{lh}} {{rh||{{uc|A dança do destino}}|123}} {{lh}}</noinclude>Que cousa tão surpreendente e incompreensivel! A sua vida tinha sido sempre d'uma pacatez rára. Vivia com duas tias velhas, porque os paes mal osconhecera. Esta orfandade não tinha verdadeiramente constituido uma infelicidade para o nosso Miguel, porque as tias eram tão boas e dedicadas, tinham-no enchido tanto de mimos, que ele nem quasi déra pela falta dos paes. Uma irmã da mãe, outra irmã do pae. Tinham-se unido, feridas por egual desgosto, dedicando-se ao orfão que de 3 annos o destino lhes atirara aos braços, sendo a sua missão no mundo, desde então, a educação do pequeno Miguel. Ele era fraquito e bom; dobrado motivo para os cuidados e desvelos das boas creaturas. Aos 18 anos arrumaram-no como amanuense no Monte Pio Geral. Que dia aquele de alegria! Era um empregado, entrava na vida do homem que trabalha, que se torna util e independente. E elas, as boas velhitas, rejuvenesciam de orgulho. Foram convidados parentes e amigos, houve jantar lauto, doces, flores e à noite foram todos para o teatro. Foi uma linda festa aquela. D'ahi em diante, o Miguel saia invariavelmente ás 9 horas, já almoçadinho e muito barbeado, muito limpo, sempre com lindas gravatas, lá ia alegre e satisfeito para a sua repartição. Voltava ás quatro e meia em ponto. E lá estavam as velhinhas, atentas, se teria apanhado sol, que estava constipado, que devia ter levado chapeu, porque de manhã choviscára, que talvez fosse melhor não tornar a sair naquele dia...<noinclude></noinclude> g7uika67y53ebs2e2rm28v61u0umsyf Página:A Dança do Destino - Lutegarda Guimarães de Caires (1913).pdf/126 106 256787 560400 2026-08-24T18:05:35Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 560400 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{lh}} {{rh|124|{{uc|Collecção Antonio Maria Pereira}}|}} {{lh}}</noinclude>e ele sorrindo para ambas, dizendo-se sempre optimo, explendido, que a tosse não tinha importancia, e fazendo-as rir com as suas facecias, com a sua verve dos 19 anos. Ás noites, quasi sempre, ia ao animatografo, era a sua extravagancia. Uma hora aprasivel que ele passava. Recolhia ás 11 horas, e ainda até à meia noite, a hora do chá, tinha de contar às velhotas as fitas que tinha visto, recreando-as imenso com aquelas narrativas. Ao domingo levantava-se mais tarde. Não, que eram os unicos dias que tinha para descansar! Ao meio dia o banho pronto e perfumado, em agua morna para se não constipar. Á uma hora o almoço e depois tudo ia passear. A creada tinha licença para o resto do dia, e eles lá iam jantar ao Estoril, outras vezes a Cintra. Podia afirmar-se que o Miguel era um rapaz feliz. Amabilissimo com as raparigas, adorando-as a todas, um pouco timido talvez, mas os namoricos sucediam se ainda que, até então, paixão, não havia por nenhuma. Era preciso que ele não escutasse os conselhos das velhas tias, que o cumulavam de desconfiança contra a mulher moderna! Nada! Passar o tempo sim, casar, isso não; pelo menos por emquanto. Estava tão novo ainda! Pobre Miguel! Quem havia de dizer que este bom rapaz, iria assim parar aquele imundo Limoeiro! E então assim, de repente, como se fosse a cousa mais natural do mundo... Ainda poderia ter sido por uma pegadilha com<noinclude></noinclude> t8mnn3tvhlg4ixgrjs7f2i3529pkui3 Página:A Dança do Destino - Lutegarda Guimarães de Caires (1913).pdf/127 106 256788 560401 2026-08-24T18:07:16Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 560401 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{lh}} {{rh||{{uc|A dança do destino}}|125}} {{lh}}</noinclude>qualquer atrevido, um mão encontro com alguma d'estas creaturas que só vêm ao mundo para implicar com os outros, que armam conflitos a cada passo, e a quem se lhe tornasse necessario dar algum correctivo, mas não, não foi nada d'isso. Foi preso justamente por uma cousa que o pacifico Miguel nunca faria, nem que vivesse 100 anos! por conspirador!{{dhr}} {{ch|{{serifa|II}} Deus nos livre de máus visinhos ao pé da porta! Parece que o Miguel nunca se importou com esse terrivel flagelo, porque se esqueceu de pedir, nas suas orações, para que Deus o livrasse d'esse mal. Pois não foi porque as tias lh'o não tivessem ensi- nado! Isso é que é verdade. Mas contemos o caso: No 8.º andar da escada de Miguel morava um cocheiro da casa real, tratava-se bem e comquanto se mostrasse orgulhoso com a privança ― aliás bem reduzida — com os grandes do paço, passava por boa pessoa, embora se embriagasse bastas vezes, o que o tornava reinadio, segundo a opinião dos visinhos, para quem se tornava mais familiar, deixando de parte os modos altivos de uma pessoa que sempre tinha a honra de guiar os carros onde iam quasi sempre os criados do rei. O que este ilustre varão não podia, em todo caso, suportar, eram os republicanos. — Isso é que não;<noinclude></noinclude> d93ae9vqnjxkrmnfeuhaj5r6c14mu3b 560402 560401 2026-08-24T18:07:26Z BlitzkriegBoop 37692 560402 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{lh}} {{rh||{{uc|A dança do destino}}|125}} {{lh}}</noinclude>qualquer atrevido, um mão encontro com alguma d'estas creaturas que só vêm ao mundo para implicar com os outros, que armam conflitos a cada passo, e a quem se lhe tornasse necessario dar algum correctivo, mas não, não foi nada d'isso. Foi preso justamente por uma cousa que o pacifico Miguel nunca faria, nem que vivesse 100 anos! por conspirador!{{dhr}} {{ch|{{serifa|II}}}} Deus nos livre de máus visinhos ao pé da porta! Parece que o Miguel nunca se importou com esse terrivel flagelo, porque se esqueceu de pedir, nas suas orações, para que Deus o livrasse d'esse mal. Pois não foi porque as tias lh'o não tivessem ensi- nado! Isso é que é verdade. Mas contemos o caso: No 8.º andar da escada de Miguel morava um cocheiro da casa real, tratava-se bem e comquanto se mostrasse orgulhoso com a privança ― aliás bem reduzida — com os grandes do paço, passava por boa pessoa, embora se embriagasse bastas vezes, o que o tornava reinadio, segundo a opinião dos visinhos, para quem se tornava mais familiar, deixando de parte os modos altivos de uma pessoa que sempre tinha a honra de guiar os carros onde iam quasi sempre os criados do rei. O que este ilustre varão não podia, em todo caso, suportar, eram os republicanos. — Isso é que não;<noinclude></noinclude> trup99re5u45omnh9n4txn8bpz6ucc0 Página:A Dança do Destino - Lutegarda Guimarães de Caires (1913).pdf/128 106 256789 560404 2026-08-24T18:10:16Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 560404 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{lh}} {{rh|126|{{uc|Collecção Antonio Maria Pereira}}|}} {{lh}}</noinclude>dizia ele a quem o queria ouvir, batendo grandes murros sobre aa mesas da taberna, onde em geral abancava, e, mais ou menos, frequentada por serviçaes e moços das cavalariças da casa real, o que o nosso governo devia fazer era mandar enforcar a todos. Corja! Ora o conhecimento d'esta importante creatura com o nosso Miguel, era muito superficial, porque o rapaz, por uma repugnancia instintiva, evitava-o sempre que podia. Mas algumas vezes se encontravam à porta, e então falavam-se cordealmente e subiam juntos até à porta do Miguel, que era no 2.º andar, e ahi se despediam, subindo o cocheiro ao 3.º, onde morava. Um dia chegou-lhe lá abaixo a mulher do visinho, muito aflita e chorosa. O cocheiro fôra preso por ter atirado com os cavalos para cima d'um homem que deixara estendido na rua. — Coitadinho! diziam as tias. O pobre homem é que ficou peior! como fez êle isso? — Ora — dizia a mulher — ''não foi por querer''. Ele estava embriagado, e depois o homem era um republicano e chamou-lhe lacaio real, e como ele tem um odio enorme a essa canalha, atirou-lhe com os cavalos para cima. — Mas isso é infame! — exclamou o Miguel, ― bem sei que a senhora não tem culpa, mas um republicano é um homem como outro qualquer. E passeava pela casa muito agitado. Então a mulher voltou-se para as velhitas e {{hífen|dis|disse-lhes}}<noinclude></noinclude> 5efesx56ummvbx2apwlmqjofspeedhw Página:A Dança do Destino - Lutegarda Guimarães de Caires (1913).pdf/129 106 256790 560405 2026-08-24T18:12:35Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 560405 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{lh}} {{rh||{{uc|A dança do destino}}|127}} {{lh}}</noinclude>{{hífen-fim|se-lhes|disse-lhes}}, entre soluços, que aquilo fora uma desgraça, que êle gastava tudo na taverna e agora nem sequer tinha dinheiro para lhe pagar a fiança. Se as suas boas visinhas lhe emprestassem essa quantia, se lhe valessem naquala aflição, servi-las-ia de joelhos toda a vida. Elas desculpavam-se que não podiam valer-lhe, que tambem viviam com dificuldades. Ela então abraçou-se aos pés do Miguel, dizendo-lhe que ficaria sem pão, pois se o marido não sahisse logo e lá no paço o viessem a saber, seria immediatamente despedido. O Miguel sentiu um dó imenso pela pobre creatura, que lhe chorava aos pés e como tinha algumas economias, porque do seu ordenado pouco ou nada gastava, foi buscar 20$000) e deu-os à mulher, exclamando: olhe que faço isto só por si, porque o seu homem não merece nada. As tias comoveram-so com o bom coração do sobrinho e não ralharam. A mulher partiu radiante, e o cocheiro, à noite, foi dar-lhe um abraço mostrando-se muito grato e prometendo pagar logo que tivesse dinheiro. Veio a Republica. O cocheiro dançou na rua, de regosijo. Por covardia, ou por bebedeira? Talvez por ambos os motivos. A verdade é que, com pasmo de toda a visinhança, deu morras à monarquia, de quem tinha vivido e deu vivas aos republicanos, que o seu odio d'antes esmagava. Dentro em poucos mêses tinha um logar qualquer de confiança do governo, onde auferia bons lucros. {{nop}}<noinclude></noinclude> 9atq94iofinaayotk8ihk13j114qk0m A Dança do Destino/O Conspirador 0 256791 560406 2026-08-24T18:13:42Z BlitzkriegBoop 37692 Página criada 560406 wikitext text/x-wiki <pages index="A Dança do Destino - Lutegarda Guimarães de Caires (1913).pdf" from=120 to=137 header=1 /> [[Categoria:A dança do destino| 09]] lkv52ub073j5mtunjhpi31my26q8tdr 560416 560406 2026-08-24T18:38:31Z BlitzkriegBoop 37692 560416 wikitext text/x-wiki <pages index="A Dança do Destino - Lutegarda Guimarães de Caires (1913).pdf" from=120 to=138 header=1 /> [[Categoria:A dança do destino| 09]] n0jwc0pgkrh6r2gu6iy0mr5d2e912an Página:A Dança do Destino - Lutegarda Guimarães de Caires (1913).pdf/130 106 256792 560407 2026-08-24T18:19:36Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 560407 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{lh}} {{rh|128|{{uc|Collecção Antonio Maria Pereira}}|}} {{lh}}</noinclude>É claro que o Miguel ainda não estava pago dos seus 20$000 réis, embora por mais d'uma vez, timidamente, lh'os tivesse lembrado, ao que o outro sempre lhe respondia com evasivas ou desculpas. Agora porém que o ex-cocheiro estava um figurão, o rapaz apertava mais com êle, porque emfim, não era rico e estava a juntar para uma viagenzita a Paris. Mas qual! o ''grato'' visinho, agora, já lhe respondia altivamente. ― Que esperasse, que diabo! uma porcaria d'aquelas, nem valia a pena falar-se nisso. Ultimamente, quando lhe passava por pé da porta, escarrava com força, e a mulher, a que se abraçara a chorar aos joelhos do Miguel, tinha risos ironicos e trocistas quando encontrava a criada do 2.º andar no talho, a comprar meio kilo de carne para coser. ― Que pelintrice! dizia ela, levando sobraçada uma perna de carneiro. Quando alguma das velhinhas punha á janela a secar umas camisas do rapaz, muito bem engomadas, a antiga monarquica deitava-lhes agua, ou cuspia-lhes em cima, o que afligia imenso as pobres creaturas, principalmente a mais nova, que era quem as engomava, tinha 65 anos e sofria do coração. Um dia o Miguel, já farto de ouvir queixas, encontrando-se com o recente republicano, disse-lhe que ainda iam ter um desgosto, se as coisas continuassem assim. Terminou acusando-o de ingrato. ― Que me não pague — exclamava o rapaz — vá,<noinclude></noinclude> c38bxmmfjt1hwn4bc0k1wqrkh5cfg75 Página:A Dança do Destino - Lutegarda Guimarães de Caires (1913).pdf/131 106 256793 560408 2026-08-24T18:21:42Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 560408 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{lh}}{{rh||{{uc|A dança do destino}}|129}} {{lh}}</noinclude>já nem penso nisso, mas que, ainda por cima, insulte as minhas pobres tias, é repugnante e reles: e eu, com risco de ir preso, ainda lhe parto a cára. Entendeu bem? E olhe que se não o fiz já, é por amor d'elas, para não lhes dar mais desgostos. O outro era covarde, olhou-o torvo e casquinou num riso máu: — Tudo isto por uns porcos 20$000 réis... até mete nojo! deixe estar que os não perde! ― Sabe que mais? — Volta o Miguel, com uma pronunciada expressão de despreso ― afinal, nem me posso admirar que isto succeda. Que diabo lhe fiz eu comparativamente com os favores que recebeu dos seus amos? A ingratidão foi sempre apanagio das almas baixas; guarde o dinheiro e faça de conta que nunca me conheceu. Já é favor. E voltou-lhe as costas. O outro ameaçou-o já de longe, de punho cerrado e gritou-lhe: Deixa estar!... Thalassa! {{dhr}} {{Ch|{{serifa|III}}}} Agora, ali sósinho, quando as velhinhas saíam de o visitar e êle via afastarem-se aquelas figurinhas, vestidas de preto, muito pálidas e lacrimosas, que lhe haviam contado quanto as fazia sofrer a atmosfera de ódio em que os vizinhos malditos do 3.° {{hífen|an|andar}}<noinclude>{{D|9}}</noinclude> fhj50cllf6r9nuw517ydrm4dzelb7f1 Página:A Dança do Destino - Lutegarda Guimarães de Caires (1913).pdf/132 106 256794 560409 2026-08-24T18:23:17Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 560409 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{lh}} {{rh|130|{{uc|Collecção Antonio Maria Pereira}}|}}{{lh}}</noinclude>dar ainda as envolviam, ao pobre rapaz, levantava-se-lhe o peito em ancias sufocantes de reprezálias contidas, sentindo todo o horror da sua fraqueza e impotencia. Uma noite, encostado à pequena mesa de pinho que guarnecia o seu exiguo quarto, numa trapeira do sujo casarão que se chama cadeia central de Lisboa, rememorando as scenas doces e harmoniosas da sua vida passada, com os olhos humidos de lagrimas, na recordação dêsses anos tranquilos, decorridos entre os dois afectos que o acalentavam, tempos ainda tão proximos, mas que a situação presente lh'os afigurava tão longinquos, quando foi despertado daquela espécie de sonho, por um barulho inesperado e confuso. Gritos, imprecações, gente que parecia fugir, corpos rolando no chão, nivos, gemidos, como que um montão de pessoas que se esmagam, esfaqueiam, estrangulam, on fogem espavoridas ante um perigo qualquer inesperado... um sinistro talvez. Os cabelos puzeram-se-lhe em pé. A ideia dum incendio acudiu-lhe ao pensamento como um latego a fustigar-lhe o cerebro. Correu para a janela, numa angustia indescriptivel, os dedos enclavinharam-se-lhe nas grades, ao sentir o contacto d'essa barreira invencivel. Do Tejo, centos de olhos fosforescentes pareciam olhál-o com terror!... Luzinhas oscilando nos barcos como se estremecessem pelo perigo que o ameaçava a êle... O suor inundava-lhe a fronte numa agonia inconfundível.<noinclude></noinclude> o8bwvz0jdntihfze7492ebyrehlw2s9 Página:A Dança do Destino - Lutegarda Guimarães de Caires (1913).pdf/133 106 256795 560410 2026-08-24T18:25:05Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 560410 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{lh}} {{rh||{{uc|A dança do destino}}|131}} {{lh}}</noinclude>Voltou, cambaleando, para a porta, abriu-a, e logo deparou com uma scena de inqualificavel horror: Guardas levavam creaturas ensanguentadas que se tinham esfaqueado, presos, que numa lucta de animaes ferozes, liquidavam odios de momento, questões de ocasião, saldadas ali, a murro e à facada. Nessa noite não dormiu, numa agitação febril revolvia-se na enxerga de palha, não podendo conciliar o somno. Só quando os pálidos clarões da aurora começavam a invadir o quarto, entrou nesse amargo torpor que precede os somnos pesados do infortunio. Mas procedia-se à contagem dos presos: umas pancadas secas á porta avizaram-no que tinha de entrar na fórma, como todas as madrugadas. E o misero Miguel lá foi, nessa manhã, a tiritar num frio nervoso, embrulhado no comprido casaco que as tias lhe tinham mandado para a prisão. Ao voltar para a cela, atirou-se para cima da cama, prostrado, sem forças quasi para pensar. Mas como uma infelicidade nunca vem só, estava escripto que o infeliz ''conspirador'' não poderia dormir nessa manhã. Era dia de banho. ― Toca para o banho! ― grita-lhe uma voz grossa e áspera. Agora é quo foram elas. Agulheta em riste, zás! Um esguicho medonho fê-lo dar um grito, e era tão forte e gelado, tão intenso para aquele pobre corpo franzino, espreitado pela tuberculose, que o fez cambalear, gelando-o até aos ossos, obrigando-o a erguer os braços numa sufocação que o punha louco de sofrimento. {{nop}}<noinclude>{{D|<nowiki>*</nowiki>}}</noinclude> p5ekpootesmyqqw07ow067nyo3fa78p Página:A Dança do Destino - Lutegarda Guimarães de Caires (1913).pdf/134 106 256796 560411 2026-08-24T18:27:00Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 560411 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{lh}} {{rh|132|{{uc|Collecção Antonio Maria Pereira}}|}} {{lh}}</noinclude>Ao chegar ao quarto, desatou a chorar; não podia mais. Nesse dia, quando as velhinhas, muito pálidas, o abraçavam, naquela visita regulamentar do meio dia ás duas horas, ficaram muito aflictas porque o pobre Miguel ardia em febre e tinha os olhos vermelhos das lagrimas. Á saida ainda as acompanhou até ao fim do corredor, querendo fazer-se forte para as não molestar mais. E elas, todas tremulas, caminhando entre aquele bando enorme de gente, que tem de sair junta e á mesma hora, empurradas por creaturas asquerosas, que as troçavam e magoavam, que lhes batiam com os cestos nas costas, casquinando facecias ignobeis, comentando os seus modos recoiosos e a limpeza do seu vestuario, agarravam-se uma á outra, no balanço d'aquela onda humana, sentindo, cheias de nojo e angustia, o contacto de todas aquelas sujidades, e o bafo fétido e nanseante do vinho azedo e das bocas mal tratadas. E isto todos os dias, todos os dias! Muito unidas, muito juntinhas, as duas fracas creaturas, que eram, em todo o caso, o unico amparo do desgraçado rapaz, respiravam emfim ao chegarem cá fóra, quando se abría a ultima jaula á saida d'aquela massa de gente mas voltando os olhos para o tenebroso edificio, soltavam o mesmo suspiro doloroso, caminhando ambas chorosas e desalentadas com a lembrança do seu filho, do seu pequeno Miguel, que ali lhes ficava sofrendo. E todos os dias este calvario inconcebivel, mas<noinclude></noinclude> gwxv8pl4f1dofst2u0g78itfb851nfc Página:A Dança do Destino - Lutegarda Guimarães de Caires (1913).pdf/135 106 256797 560412 2026-08-24T18:29:14Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 560412 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{lh}} {{rh||{{uc|A dança do destino}}|133}} {{lh}}</noinclude>naquele mais horrivel ainda, porque êle lá ficava doente e sem lhe poderem valer. Os viandantes passavam indiferentes, e alguns riam... Duas velhas a chorar!... que cousa tão ratona! Se fôsse numa fita de animatografo, talvez despertassom interesse, mas ali, nas ruas, que disparate! E já tinham sorte em não serem apupadas... No outro dia, lá estava o Miguel na enfermaria; o infeliz delirava na intensidade da febre. Julgava-se então o Paiva Conceiro, sim, era êle, a desfazer soldados da Republica, a tentar incursões, rodeádo de conspiradores e, entrando, por fim, triunfante na capital, a gritar: ― Abaixo os rebeldes! Corramos ao Limoeiro. Abaixo esso maldito antro do vicio e da desgraça! Não deixem pedra sobre pedra. Soltem os presos, todos, todos! Que não fique lá o nosso Miguel! Tudo para a rua... A Bastilha tambem caiu. O Limoeiro cairá emfim!.... Como era possivel agora, ás pobres velhinhas, que o ouviam aterradas, provarem, com a simplicidade das suas lagrimas e queixumes, que êle não era, depois d'aquelas palavras subversivas, o mais temivel dos conspiradores? Oh! não, pobres creaturas, não valia a pena cansarem-se! Tudo impossivel, tudo inutil. Pois se êle havia confessado! Se a febre o tinha atraiçoado e... mosmo sem querer, tinha dito tudo... {{nop}}<noinclude></noinclude> hab8hbp9q34ncn158rcfhsvcbpgmba0 Página:A Dança do Destino - Lutegarda Guimarães de Caires (1913).pdf/136 106 256798 560413 2026-08-24T18:34:57Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 560413 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{lh}} {{rh|134|{{uc|Collecção Antonio Maria Pereira}}|}} {{lh}}</noinclude>{{ch|{{serifa|IV}}}} No dia do julgamento lá estava o denunciante. O antigo lacaio da casa real. Com um sorriso satisfeito, o seu escuro bigode, á semelhança d'um rato imundo, sobre uns beiços delgados e lividos, irriçava-se-lhe de vez em quando, na alegria selvagem e cruel de vêr o antigo bemfeitor perdido, a pobre creança que o salvara da fome, em troco dos 20$000 reis, agora roubados e que já não lhe seriam exigidos. É claro que a carga que lhe fez foi medonha. Em casa das velhas reuniam-se pessoas finas, tudo thalassas. O rapaz recebia cartas dos conspiradores, uma das quaes, interceptada pelo ex-cocheiro, era terrivelmente comprometedora. Pudéra! Pois fôra o proprio Paiva Couceiro quem a escrevera, o imprudente! Tão parvo e ingenuo que apenas disfarçou a letra e mandou-lh'a, muito naturalmente, pelo correio de Lisboa, quando uma vez por aqui passou, oculto. Pois então? Era uma revelação importante! O antigo lacaio sabia cousas inauditas! Era um homem prestimoso! Estava mais que provado que o Miguel era um dissimulado e por isso mesmo, um temivel conspirador. Tinha 19 anos, é verdade, mas que importava isso? {{nop}}<noinclude></noinclude> i7ys2xu4juyzvmv8emxg8431mu8z1ny Página:A Dança do Destino - Lutegarda Guimarães de Caires (1913).pdf/137 106 256799 560414 2026-08-24T18:36:47Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 560414 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{lh}}{{rh||{{uc|A dança do destino}}|135}} {{lh}}</noinclude>Essa edade tambem a tiveram os maiores criminosos. Não houve meio de o salvar. A carta escrita pelo proprio cocheiro, que fôra o seu unico autor, era esmagadora. O advogado, se continuava a defendê-lo com muito calor, seria tozádo à saída. Era preciso cuidado. O juri tambem não esteve para se meter em trabalhos... O rapaz foi condenado em dois anos de prisão maior celular, seguidos de oito de degredo. Miguel, uma sombra do que fora, tão palido e abatido que mais parecia um velhinho do que um rapaz na flor da vida, cambaleava ao levantar-se do banco maldito, ouvindo a sua sentença de morte... Olhou para as pobres velhinhas, que soluçavam e levou aos labios o lenço que ficou tinto de sangue. Elas tremiam, caminhavam atraz d'ele, d'olhos esgaziados, faces lividas, as mãositas, descarnadas, apertando-se convulsamente... Á porta, quando o meteram no carro celular, a mais nova tombou docemente... e a outra, a mais velhinha e enrugada, só encontrou de encontro ao peito o cadaver da irmã, da outra mãe do seu Miguel que com êle lhe desapparecia tambem, para sempre... {{tracejado}} Passados dias, nada restava do pobre amanuense, senão mais um numero na Penitenciaria e uns olhos, quasi cegos de chorar, que se divisavam, embaciados, atravez dos buracos da mascara maldita. {{nop}}<noinclude></noinclude> ge97x50obidn4ytiqlyf7gq26ui7jvw Página:A Dança do Destino - Lutegarda Guimarães de Caires (1913).pdf/138 106 256800 560415 2026-08-24T18:38:12Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 560415 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" />{{lh}} {{rh|136|{{uc|Collecção Antonio Maria Pereira}}|}} {{lh}}</noinclude>E emquanto a mais nova das velhinhas dormia o sou ultimo somno, á sombra dos ciprestes, ali, no cemiterio dos Prazeres, mais proxima do sou Miguel, a outra, a que sobrevivera, vagueava, mais distante, por aquela casinha solitaria e desconfortada, outr'ora tão feliz, sorrindo vagamente para o retrato do sobrinho que o representava aos 15 anos, todo sorridente e gracioso e ali estava a segui-la com o seu olhar meigo e bom. Lampejos do passado que surgiam, por vezes, no cerebro adormecido da pobre idiota... E êle? Êle... que importa saber?... Tinha sido feita justiça e a sociedade estava satisfeita. {{nop}} {{dhr|6em}} {{lh|5em}}<noinclude></noinclude> d2wfgu03uikzzzfe1r83zm6kmol1yd3 Página:A Dança do Destino - Lutegarda Guimarães de Caires (1913).pdf/156 106 256801 560417 2026-08-24T18:44:13Z BlitzkriegBoop 37692 /* Sem texto */ 560417 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="0" user="BlitzkriegBoop" /></noinclude><noinclude></noinclude> ltg9mtpefm08n2h0k9e81m08dk0hzmr Página:A Dança do Destino - Lutegarda Guimarães de Caires (1913).pdf/158 106 256802 560418 2026-08-24T18:44:24Z BlitzkriegBoop 37692 /* Revista */ 560418 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="BlitzkriegBoop" /></noinclude><noinclude></noinclude> njvguwjolg1hpju24rha37ear4uypra 560419 560418 2026-08-24T18:44:35Z BlitzkriegBoop 37692 /* Sem texto */ 560419 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="0" user="BlitzkriegBoop" /></noinclude><noinclude></noinclude> ltg9mtpefm08n2h0k9e81m08dk0hzmr Página:A Dança do Destino - Lutegarda Guimarães de Caires (1913).pdf/165 106 256803 560420 2026-08-24T18:45:22Z BlitzkriegBoop 37692 /* Problemática */ 560420 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="2" user="BlitzkriegBoop" /></noinclude>OUTRAS OBRAS Azevedo (Domingos de) ]j Historia de TortagaJ, 10. "> ed.— Diccionario, "^"•<»«'l«> raneo íran 2.» ediçãj eitremanj University oi Toronto Grammatict no pra — Grammat Library aprender tre. Lições pral iranceza^ OllendorI aprenderi (2vol.).| DO NOT REMOVE THE CARD FROM Carrallio Ao correr Arte de v Aventura ^ mes). Cérebros a Coisas d'a Contos e J Em Portui Figuras ài Impressõej CO O IO to No meu q Nossas filj Pelo mani Raphael, («d. de O a •H +3 Oliveira Brazil (O (D guezas Cartas p Cd tD O ^ tu -P Hespa^ Circulaçi — 1 T( Element( •> (( Hellenia cti Acme «aí •H chriítft Library Card Pocket LOWE-MARTIN CQ. od ene. Historia POCKET o» (J ed.— Filhos THIS W Ctí 6.» edl Historia da republica 3.* ed. — '2 vols. br. ; ruuiautW ene. Yelba historia. Limited<noinclude></noinclude> rvf8kyqh8gxvolsc6ygh79athhj5bwf Galeria:Carta Regia 26-08-1814.pdf 104 256804 560427 2026-08-24T21:56:20Z Notsonotoriousbig 43614 [[Ajuda:SEA|←]] nova página: 560427 proofread-index text/x-wiki {{:MediaWiki:Proofreadpage_index_template |Type=book |Título=Carta Régia de 26 de Agosto de 1864 |Subtítulo= |Language=pt |Autor=João VI de Portugal |Tradutor= |Editor= |Ilustrador= |Edição= |Volume= |Editora=Regia Typographia Silviana |Gráfica= |Local=Brasil |Ano=1864 |ISBN= |Fonte=https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/174473 |Imagem= |Capa=1 |Progresso=X |Páginas=<pagelist /> |Tomos= |Volumes= |Notas=Carta régia destinada ao juiz do povo da cidade de Lisboa, com data de 26 de agosto de 1814, em que o príncipe regente de Portugal agradece as expressões de saudade do povo e o desejo de vê-lo juntamente com a família real restituído a Portugal. Carta real confirmando a lealdade do Juiz Antonio Joaquim Mendes, em Lisboa. |Sumário= |Epígrafe= |Width= |Css= |Header= |Footer= |Modernização=N }} [[Categoria:Cartas régias]] [[Categoria:Originais de edições impressas em 1864]] 57k1j6kkmeopy5c3u4fan1r282p3xym 560428 560427 2026-08-24T21:59:04Z Notsonotoriousbig 43614 560428 proofread-index text/x-wiki {{:MediaWiki:Proofreadpage_index_template |Type=book |Título=Carta Régia de 26 de Agosto de 1864 |Subtítulo= |Language=pt |Autor=João VI de Portugal |Tradutor= |Editor= |Ilustrador= |Edição= |Volume= |Editora=Regia Typographia Silviana |Gráfica= |Local=Brasil |Ano=1864 |ISBN= |Fonte={{commons|Carta Regia 26-08-1814.pdf}} |Imagem= |Capa=1 |Progresso=X |Páginas=<pagelist 1=4 /> |Tomos= |Volumes= |Notas=Carta régia destinada ao juiz do povo da cidade de Lisboa, com data de 26 de agosto de 1814, em que o príncipe regente de Portugal agradece as expressões de saudade do povo e o desejo de vê-lo juntamente com a família real restituído a Portugal. Carta real confirmando a lealdade do Juiz Antonio Joaquim Mendes, em Lisboa. |Sumário= |Epígrafe= |Width= |Css= |Header= |Footer= |Modernização=N }} [[Categoria:Cartas régias]] [[Categoria:Originais de edições impressas em 1864]] onluo6z6isxgagqf8pl3fayu244idij 560429 560428 2026-08-24T22:01:22Z Notsonotoriousbig 43614 560429 proofread-index text/x-wiki {{:MediaWiki:Proofreadpage_index_template |Type=book |Título=Carta Régia de 26 de Agosto de 1864 |Subtítulo= |Language=pt |Autor=João VI de Portugal |Tradutor= |Editor= |Ilustrador= |Edição= |Volume= |Editora=Regia Typographia Silviana |Gráfica= |Local=Brasil |Ano=1864 |ISBN= |Fonte={{commons|Carta Regia 26-08-1814.pdf}} |Imagem= |Capa=1 |Progresso=X |Páginas=<pagelist/> |Tomos= |Volumes= |Notas=Carta régia destinada ao juiz do povo da cidade de Lisboa, com data de 26 de agosto de 1814, em que o príncipe regente de Portugal agradece as expressões de saudade do povo e o desejo de vê-lo juntamente com a família real restituído a Portugal. Carta real confirmando a lealdade do Juiz Antonio Joaquim Mendes, em Lisboa. |Sumário= |Epígrafe= |Width= |Css= |Header= |Footer= |Modernização=N }} [[Categoria:Cartas régias]] [[Categoria:Originais de edições impressas em 1864]] foyy9gyed17v26d1qhwiw42qsdyelm5 560430 560429 2026-08-24T22:03:43Z Notsonotoriousbig 43614 560430 proofread-index text/x-wiki {{:MediaWiki:Proofreadpage_index_template |Type=book |Título=Carta Régia de 26 de Agosto de 1864 |Subtítulo= |Language=pt |Autor=[[Autor:João VI de Portugal|João VI de Portugal]] |Tradutor= |Editor= |Ilustrador= |Edição= |Volume= |Editora=Regia Typographia Silviana |Gráfica= |Local=Brasil |Ano=1864 |ISBN= |Fonte={{commons|Carta Regia 26-08-1814.pdf}} |Imagem= |Capa=1 |Progresso=X |Páginas=<pagelist/> |Tomos= |Volumes= |Notas=Carta régia destinada ao juiz do povo da cidade de Lisboa, com data de 26 de agosto de 1814, em que o príncipe regente de Portugal agradece as expressões de saudade do povo e o desejo de vê-lo juntamente com a família real restituído a Portugal. 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Carta real confirmando a lealdade do Juiz Antonio Joaquim Mendes, em Lisboa. |Sumário= |Epígrafe= |Width= |Css= |Header= |Footer= |Modernização=N }} [[Categoria:Cartas régias]] [[Categoria:Originais de edições impressas em 1864]] l9nn742tm0gc4nr13u8w80myrxfpbzd 560437 560436 2026-08-24T23:32:13Z Notsonotoriousbig 43614 Notsonotoriousbig moveu [[Galeria:Carta régia 26 08 1874 pdf]] para [[Galeria:Carta Regia 26-08-1814.pdf]]: Título com erros ortográficos 560436 proofread-index text/x-wiki {{:MediaWiki:Proofreadpage_index_template |Type=book |Título=Carta Régia de 26 de Agosto de 1864 |Subtítulo= |Language=pt |Autor=[[Autor:João VI de Portugal|João VI de Portugal]] |Tradutor= |Editor= |Ilustrador= |Edição= |Volume= |Editora=Regia Typographia Silviana |Gráfica= |Local=Brasil |Ano=1864 |ISBN= |Fonte={{commons|Carta Regia 26-08-1814.pdf}} |Imagem= |Capa=1 |Progresso=X |Páginas=<pagelist 1="[Capa]" 2to4=- /> |Tomos= |Volumes= |Notas=Carta régia destinada ao juiz do povo da cidade de Lisboa, com data de 26 de agosto de 1814, em que o príncipe regente de Portugal agradece as expressões de saudade do povo e o desejo de vê-lo juntamente com a família real restituído a Portugal. 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Carta real confirmando a lealdade do Juiz Antonio Joaquim Mendes, em Lisboa. |Sumário= |Epígrafe= |Width= |Css= |Header= |Footer= |Modernização=N }} [[Categoria:Cartas régias]] [[Categoria:Originais de edições impressas em 1864]] dars0ht2q901o9gsdj0jic4uzzj0262 Página:Contos amazonicos.djvu/31 106 256805 560431 2026-08-24T22:58:19Z ~2026-46124-56 43645 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: ouvidos como anúncio de irreparável desgraça. O seu ar de candura e de bondade desapareceu por encanto, e o rapaz ficou todo transformado, como o pai, quando lutava braço a braço com alguma onça traiçoeira. Os olhos injetaram-se-lhe de sangue. Os lábios entreabriram-se para deixar sair a palavra rebelde, mas só descobriram os alvíssimos dentes, cerrados por um esforço violento. O corpo todo tremia, como se maleitas o sacudissem e um úl... 560431 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="~2026-46124-56" /></noinclude>ouvidos como anúncio de irreparável desgraça. O seu ar de candura e de bondade desapareceu por encanto, e o rapaz ficou todo transformado, como o pai, quando lutava braço a braço com alguma onça traiçoeira. Os olhos injetaram-se-lhe de sangue. Os lábios entreabriram-se para deixar sair a palavra rebelde, mas só descobriram os alvíssimos dentes, cerrados por um esforço violento. O corpo todo tremia, como se maleitas o sacudissem e um último lampejo de razão o impediu de atirar-se ao recrutador e de o afogar nas mãos robustas. Mas o capitão prosseguia com brandura hipócrita: — Ora deixe-se de tolices... afinal que é que tem ser soldado? É até muito bonito, e as mulheres pelam-se pela farda azul ferrete e pelos botões amarelos. Não será uma honra para a tapuia velha o ter um filho oficial? Pois é o que pode muito bem acontecer, se você tiver juízo, não beber, não furtar, não fizer nenhuma má criação, e resolver-se a aprender a leitura e a escrita, que não é lá bicho de sete cabeças. É verdade que você pode ficar prisioneiro<noinclude></noinclude> bwv9fyfrw6ti2pfksc18sja21wuevh9 Página:Contos amazonicos.djvu/32 106 256806 560433 2026-08-24T23:02:47Z ~2026-46124-56 43645 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: dos paraguaios e mesmo morrer de uma bala na cabeça, mas isso... são fatalidades. Também se morre na cama e até... pescando pirarucus e caçando papagaios. Por isso deixe-se de asneiras, carinha alegre e marche-marche para o sul. Mesmo porque você está recrutadinho da silva e o que não tem remédio remediado está. O rapaz soltou um grito surdo, avançou contra Fabrício, arrancou-lhe a espingarda das mãos e brandiu a sobre a cabeça do cap... 560433 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="~2026-46124-56" /></noinclude>dos paraguaios e mesmo morrer de uma bala na cabeça, mas isso... são fatalidades. Também se morre na cama e até... pescando pirarucus e caçando papagaios. Por isso deixe-se de asneiras, carinha alegre e marche-marche para o sul. Mesmo porque você está recrutadinho da silva e o que não tem remédio remediado está. O rapaz soltou um grito surdo, avançou contra Fabrício, arrancou-lhe a espingarda das mãos e brandiu a sobre a cabeça do capitão, como se fora uma bengala. Quando ia descarregar o golpe, sentiu-se agarrado. Eram o sargento Moura e dois soldados, que, saindo de um matagal próximo, se haviam aproximado sem ser vistos. Ao ruído da luta, acudiu a velha Rosa, que soltando brados lamentosos, tentou arrancar o filho aos soldados, mas o capitão Fabrício segurou-a por um braço e atirou-a de encontro a um esteio da casa. A tapuia, caindo, feriu a cabeça, mas erguendo-se de súbito e levantando a espingarda que estava no chão, fez pontaria contra o sargento. A arma não estava carregada. Foi uma cena terrível que teve lugar então. A velha Rosa, desgrenhada, com os<noinclude></noinclude> 3i6btcppk5n5gl6x6yunxjo4nkyhq7m Página:Contos amazonicos.djvu/33 106 256807 560434 2026-08-24T23:19:22Z ~2026-46124-56 43645 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: vestidos rotos, coberta de sangue, soltava bramidos de fera parida. Pedro estorcia-se em convulsões violentas, e os soldados não conseguiam arredá-lo da mãe. Fabrício, ordenando que levassem o preso, lançara ambas as mãos aos cabelos da velha e puxando por eles, procurava conseguir que largasse as roupas do filho. Os guardas, impacientes e coléricos, desembainharam a baioneta, e começaram a espancar alternativamente a mãe e o filho, an... 560434 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="~2026-46124-56" /></noinclude>vestidos rotos, coberta de sangue, soltava bramidos de fera parida. Pedro estorcia-se em convulsões violentas, e os soldados não conseguiam arredá-lo da mãe. Fabrício, ordenando que levassem o preso, lançara ambas as mãos aos cabelos da velha e puxando por eles, procurava conseguir que largasse as roupas do filho. Os guardas, impacientes e coléricos, desembainharam a baioneta, e começaram a espancar alternativamente a mãe e o filho, animados pela voz e pelo exemplo do sargento, ainda pálido do susto que sofrera. Muito tempo teria durado a luta, se não tivessem aparecido alguns agregados do capitão, dirigidos pelo Manuel de Andrade, em cuja larga face morena se lia a satisfação de um ódio, até ali contido a custo. O mulato adiantou-se com ar resoluto: — Ó gentes! Temos cerimônias? E voltando-se para os que o seguiam. — Amarra porco, rapaziada! Ou pela sua profissão de vaqueiros, ou porque já se achassem prevenidos, traziam cordas consigo. Pedro e Rosa foram deitados por terra, e amarrados de pés e mãos. Depois a gente do Manuel Andrade,<noinclude></noinclude> 7mejyh11rmh0iezmysdx3rwkkmk6lsa Página:Contos amazonicos.djvu/34 106 256808 560435 2026-08-24T23:23:42Z ~2026-46124-56 43645 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: carregou o rapaz e foi depô-lo numa grande montaria que o capitão mandara buscar à fazenda. Quando o preso, o sargento e os soldados se acharam dentro da canoa, Fabrício ordenou ao Manuel de Andrade e a outro agregado que tomassem os remos e seguissem para Alenquer. Depois dando um pontapé na velha tapuia estendida em meio do terreiro, seguiu com o resto da sua gente, a caminho da fazenda. Ela desmaiara. Não dera acordo de si quando l... 560435 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="~2026-46124-56" /></noinclude>carregou o rapaz e foi depô-lo numa grande montaria que o capitão mandara buscar à fazenda. Quando o preso, o sargento e os soldados se acharam dentro da canoa, Fabrício ordenou ao Manuel de Andrade e a outro agregado que tomassem os remos e seguissem para Alenquer. Depois dando um pontapé na velha tapuia estendida em meio do terreiro, seguiu com o resto da sua gente, a caminho da fazenda. Ela desmaiara. Não dera acordo de si quando lhe levaram o filho para a canoa, nem sequer sentira a última e bestial expansão da irado recrutador. Mas quando o sol adiantando-se na carreira, veio ferir-lhe em cheio os olhos amortecidos, tornou a si, olhou em derredor, e recordando o que se passara, começou a agitar-se e a dar gritos que ecoavam lugubremente na floresta. Procurava pôr-se de pé, mas não o conseguia. Não podia também desprender os braços e as pernas; as cordas eram sólidas e os nós apertados. Sozinha, abandonada no sítio deserto, exposta no terreiro, ferida e quase nua aos raios ardentíssimos do sol, a velha Rosa,<noinclude></noinclude> e2rzpje6b235qblnba6yefhnqo7la83 Galeria:Carta régia 26 08 1874 pdf 104 256809 560438 2026-08-24T23:32:13Z Notsonotoriousbig 43614 Notsonotoriousbig moveu [[Galeria:Carta régia 26 08 1874 pdf]] para [[Galeria:Carta Regia 26-08-1814.pdf]]: Título com erros ortográficos 560438 proofread-index text/x-wiki #REDIRECT [[Galeria:Carta Regia 26-08-1814.pdf]] 52lxlgw2fuzav733dpw186nxg1drika Página:Carta Regia 26-08-1814.pdf/1 106 256810 560440 2026-08-24T23:45:43Z Notsonotoriousbig 43614 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: {{c|class=capa|1= {{x-larger|CARTA REGIA}} <br> <br> <br> <br> [[Ficheiro:Brasão oficial do Império do Brasil (1822 - 1853).png|60px|miniaturadaimagem|centro]] <br> <br> <br> <br> 26.8.1814 }} 560440 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Notsonotoriousbig" /></noinclude>{{c|class=capa|1= {{x-larger|CARTA REGIA}} <br> <br> <br> <br> [[Ficheiro:Brasão oficial do Império do Brasil (1822 - 1853).png|60px|miniaturadaimagem|centro]] <br> <br> <br> <br> 26.8.1814 }}<noinclude></noinclude> tctwcb5g46t29teheqx6xoe63onejvk Página:Carta Regia 26-08-1814.pdf/2 106 256811 560441 2026-08-24T23:53:30Z Notsonotoriousbig 43614 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: Muito Honrado Juiz do Povo de Minha Cidade de Lisboa: Eu o PRINCIPE REGENTE vos envio muito a Saudar. Com a mais viva sensibilidade, e grata complacencia acolhi no meu Paternal e Real Coraçaõ o verdadeiro testemunho de lealdade, e amor, que em nome do Povo dessa Cidade dirigiste á Minha Augusta Presença, nas fieis expressões da sua saudade, e dos fervorosos desejos de me ver ali restituido com a Minha Real Familia. Taõ nobres e puros s... 560441 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Notsonotoriousbig" /></noinclude>Muito Honrado Juiz do Povo de Minha Cidade de Lisboa: Eu o PRINCIPE REGENTE vos envio muito a Saudar. Com a mais viva sensibilidade, e grata complacencia acolhi no meu Paternal e Real Coraçaõ o verdadeiro testemunho de lealdade, e amor, que em nome do Povo dessa Cidade dirigiste á Minha Augusta Presença, nas fieis expressões da sua saudade, e dos fervorosos desejos de me ver ali restituido com a Minha Real Familia. Taõ nobres e puros sentimentos saõ bem dignos de hum Povo, que tem por timbre o mais firme e constante apego ao seu legitimo Soberano; e Eu os recebo como a mais preciosa recompença dos sacrificios, que tenho feito para segurar-lhe a conservaçaõ de huma Soberania, que o tem feito feliz, e que o tem regido com suavidade e doçura verdadeiramente Paternal. A Divina Providencia, que visivelmente tem protegido os unanimes esforços das Potencias Alliadas, e que destruindo o grande obstaculo, que se oppunha á Paz do Mundo, affiança felizmente o restabelecimento da ordem, e da antiga prosperidade, se dignará também remunerar-me pela grande parte que nelles tive com a desejada satisfaçaõ de me achar, quando as circunstancias o permittirem, entre esse Povo, que tantos titulos tem acrescentado para merecer a Minha Real Consideraçaõ, e poder segurar-lhe com a Minha Augusta Presença o quanto me tem agradado a sua exemplar e heroica conducta. Participai-o assim, e lembrai-lhe que o seu Soberano naõ tem outras vistas senaõ a de fazello feliz. Escrita no Palacio do Rio de Janeiro em 26 de Agosto de 1815. =PRINCIPE.= Para o Muito Honrado Juiz do Povo da Minha Cidade de Lisboa.<noinclude></noinclude> b7g4f5msxw94zzcj3ik9dvenu36yum2 Página:Carta Regia 26-08-1814.pdf/3 106 256812 560443 2026-08-25T00:02:33Z Notsonotoriousbig 43614 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: Naõ podião as Classes que formaõ o Povo da Capital, representado pelo actual Juiz do Povo, Antonio Joaquim Mendes e Casa dos Vinte-Quatro, no meio dos públicos e extraordinarios acontecimentos da epoca presente em que adquiro tanta gloria a Naçaõ Portugueza, assegurando a sua independencia com a manifestaçaõ do antigo valor e heroismo, deixar de levar suas devidas homenagens aos degráos do Throno do PRINCIPE REGENTE Nosso Senhor, const... 560443 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Notsonotoriousbig" /></noinclude>Naõ podião as Classes que formaõ o Povo da Capital, representado pelo actual Juiz do Povo, Antonio Joaquim Mendes e Casa dos Vinte-Quatro, no meio dos públicos e extraordinarios acontecimentos da epoca presente em que adquiro tanta gloria a Naçaõ Portugueza, assegurando a sua independencia com a manifestaçaõ do antigo valor e heroismo, deixar de levar suas devidas homenagens aos degráos do Throno do PRINCIPE REGENTE Nosso Senhor, constituindo-se interprete da congratulaçaõ universal, e quando humildmente dirigio aos Pés do Soberano seus votos Patrioticos, com huma exhalaçaõ de seu amor, e testemunho de sua fidelidade, ousou supplicar lhe quinzesse tornar a encher de bens, e venturas, com sua Presença aquella Corte, onde levantára primeiro o seu Solio; porque a maior consolaçaõ, a maior gloria, e até o maior premio para os fieis Vassallos Portuguezes, será o momento em que descubraõ que o Soberano vê com seus Olhos, que lhe restauráraõ, defendêraõ, sustentáraõ, e glorificáraõ seu Reino. S. A. R. naõ só se dignou receber benignamente os testemunhos da fidelidade publica, mas responder com a Carta Regia junta, em que se admira a sua Paternal Bondade; porque nunca se verá hum Rei Portuguez, que se naõ veja hum Pai. Os verdadeiros Portuguezes desejaráõ ver hum e outro momento estampado; o Juiz do Povo e Casa dos Vinte-Quatro se apressa a fazello, para que esta, e a futura idade vejaõ cheias de assombro e reconhecimento tanto o amor e a fidelidade dos Vassallos, como a magestosa Clemencia, e sublimes Virtudes de taõ Grande Principe. Na Régia Typografia Silvana.<noinclude></noinclude> dppxqbospw9cgw28bck5i57g72ndwki Página:Carta Regia 26-08-1814.pdf/4 106 256813 560447 2026-08-25T00:07:29Z Notsonotoriousbig 43614 /* !Páginas não revisadas */ Página em branco criada 560447 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Notsonotoriousbig" /></noinclude><noinclude></noinclude> g0hkr54a1emfepzbk0kiqclzs9om4ei Página:Contos amazonicos.djvu/35 106 256814 560448 2026-08-25T00:11:19Z ~2026-46124-56 43645 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: a boa e generosa velhinha teria sucumbido miseravelmente, se por volta de meio-dia não tivesse ali chegado o vizinho Inácio Mendes. O português vira do seu porto passar a canoa que levava o recruta, e, desconfiando do que sucedera, viera, logo que pudera furtar algum tempo aos seus afazeres, informar-se do ocorrido. Pobre tia Rosa! Em que miserando estado a encontrara! Seria possível que Deus permitisse tão grande injustiça! O Inácio... 560448 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="~2026-46124-56" /></noinclude>a boa e generosa velhinha teria sucumbido miseravelmente, se por volta de meio-dia não tivesse ali chegado o vizinho Inácio Mendes. O português vira do seu porto passar a canoa que levava o recruta, e, desconfiando do que sucedera, viera, logo que pudera furtar algum tempo aos seus afazeres, informar-se do ocorrido. Pobre tia Rosa! Em que miserando estado a encontrara! Seria possível que Deus permitisse tão grande injustiça! O Inácio cortou-lhe as cordas, lavou-lhe a ferida com água avinagrada, e teve de empregar a força para obrigá-la a deitar-se, pois ardia em febre. Depois que a viu mais sossegada, o bom do português correu à casa em busca da mulher para fazer companhia aquela noite à doente, recomendando-lhe que não dormisse, velasse toda a noite, pois o estado da tapuia era melindroso. Apesar da advertência do marido, a enfermeira adormecera pela madrugada, e quando acordara, a claridade de um dia esplendido entrava pela transparência do japá. A rede da velha Rosa estava vazia. A mulher do Inácio<noinclude></noinclude> d2apxwmlhm5hiwq7zuhephkxf2pupwm Página:Contos amazonicos.djvu/36 106 256815 560449 2026-08-25T00:14:03Z ~2026-46124-56 43645 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: Mendes correu ao porto e não achou a montaria de pesca de Pedro. Estava eu a esse tempo em Santarém, preparando uma viagem a Itaituba, a serviço da minha advocacia. Passeando uma tarde na praia do Tapajós, abeirou-se de mim uma cabocla velha em quem a custo reconheci a industriosa e boa velhinha do igarapé de Alenquer, em cuja hospitaleira casa dormira algumas vezes de passagem pelo sítio. Ela, porém, me reconhecera facilmente, e par... 560449 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="~2026-46124-56" /></noinclude>Mendes correu ao porto e não achou a montaria de pesca de Pedro. Estava eu a esse tempo em Santarém, preparando uma viagem a Itaituba, a serviço da minha advocacia. Passeando uma tarde na praia do Tapajós, abeirou-se de mim uma cabocla velha em quem a custo reconheci a industriosa e boa velhinha do igarapé de Alenquer, em cuja hospitaleira casa dormira algumas vezes de passagem pelo sítio. Ela, porém, me reconhecera facilmente, e parece até que, a conselho de algumas pessoas, me procurava como o único doutor da terra que exercia a profissão de advogado. Contou-me a sua história, interrompendo-se a miúdo para limpar na manga do vestido as lágrimas que lhe corriam, e finalizou entregando-me um embrulho com dinheiro, duzentos e poucos mil réis, tudo quanto tinha, para que lhe livrasse o filho de jurar bandeira. Voltei imediatamente à cidade, e por intermédio de um amigo comum obtive do delegado de polícia a licença de ver o recruta na cadeia, mas por uma só vez, e como exceção rara. O tapuio estava<noinclude></noinclude> ix3g3c9rveclkv4rhf4to7xrrw52m6w Página:Contos amazonicos.djvu/37 106 256816 560450 2026-08-25T00:21:18Z ~2026-46124-56 43645 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: mergulhado num silêncio apático, de que nada o fazia sair. O fatalismo do amazonense o convencera de que não se poderia arrancar à irreparável desgraça que o abatia. Ou não me reconheceu, ou não quis falar-me. Requeri habeas corpus em favor de Pedro, alegando a sua qualidade de filho único de mulher viúva. O juiz de direito ordenou o seu comparecimento, inqueriu o comandante do destacamento e algumas testemunhas, e exigiu informações... 560450 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="~2026-46124-56" /></noinclude>mergulhado num silêncio apático, de que nada o fazia sair. O fatalismo do amazonense o convencera de que não se poderia arrancar à irreparável desgraça que o abatia. Ou não me reconheceu, ou não quis falar-me. Requeri habeas corpus em favor de Pedro, alegando a sua qualidade de filho único de mulher viúva. O juiz de direito ordenou o seu comparecimento, inqueriu o comandante do destacamento e algumas testemunhas, e exigiu informações do delegado. Empreguei a maior atividade nas diligências necessárias, por que sabia que era esperado a toda a hora o vapor da Companhia do Amazonas, que devia levar o contingente de recrutas para a capital. Uma manhã vinha eu da casa do juiz com as melhores esperanças de êxito, pois se mostrava crente do direito que assistia ao meu cliente, e compadecido da sorte da velha que lhe não deixava a soleira da porta, onde dormia. Vinha pensando na minha viagem pelo Tapajós acima logo que terminasse a obra de humanidade que queria praticar, quando me encontrei com o Agente da Companhia.<noinclude></noinclude> 5pgtky1romtbx5d18qb47fzn4c0qrnj Página:Contos amazonicos.djvu/38 106 256817 560451 2026-08-25T00:24:03Z ~2026-46124-56 43645 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: — Olhe, doutor, o vapor está entrando. Os voluntários estão prontos. Corri imediatamente à cadeia, e notei o movimento que produzira a ordem de embarque. Corri à praia, onde era imensa a aglomeração de povo à espera do vapor que vinha entrando a boca do largo Tapajós, em busca dos futuros defensores da pátria. Começou logo o embarque dos recrutas. Eram vinte rapazes tapuios os que a autoridade obrigava a representar a comédia do vol... 560451 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="~2026-46124-56" /></noinclude>— Olhe, doutor, o vapor está entrando. Os voluntários estão prontos. Corri imediatamente à cadeia, e notei o movimento que produzira a ordem de embarque. Corri à praia, onde era imensa a aglomeração de povo à espera do vapor que vinha entrando a boca do largo Tapajós, em busca dos futuros defensores da pátria. Começou logo o embarque dos recrutas. Eram vinte rapazes tapuios os que a autoridade obrigava a representar a comédia do voluntariado. Vi-os sair da cadeia, entre duas filas de guardas nacionais, e encaminharem-se para o porto, seguidos dos parentes, dos amigos e de simples curiosos. Iam cabisbaixos, uns corridos de vergonha, como criminosos obrigados a percorrer as ruas da cidade nas garras da justiça; outros resignados e imbecis como bois caminhando para o matadouro; outros ainda procurando encobrir sob uma jovialidade triste as amarguras íntimas; todos marchando maquinalmente, alheios ao que se passava e dizia em redor de si, e oferecendo um aspecto de apatia covarde e<noinclude></noinclude> ltbmcntecq8y110y75d3fwfaelykeos Página:Contos amazonicos.djvu/39 106 256818 560452 2026-08-25T00:26:48Z ~2026-46124-56 43645 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: idiota. Vestiam calça e camisa de algodão riscado, a mesma roupa com que uma semana antes arpoavam pirarucus ou plantavam mandioca nas roças da beira do rio. Alguns, aqueles de quem se desconfiava, por mais valentes e ágeis, traziam algemas. As portas e as janelas das ruas por onde passava a nova leva de recrutas, estavam apinhadas de gente. As mulheres e as crianças corriam a vê-los de perto, conservando-se, porém, a uma distância re... 560452 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="~2026-46124-56" /></noinclude>idiota. Vestiam calça e camisa de algodão riscado, a mesma roupa com que uma semana antes arpoavam pirarucus ou plantavam mandioca nas roças da beira do rio. Alguns, aqueles de quem se desconfiava, por mais valentes e ágeis, traziam algemas. As portas e as janelas das ruas por onde passava a nova leva de recrutas, estavam apinhadas de gente. As mulheres e as crianças corriam a vê-los de perto, conservando-se, porém, a uma distância respeitável dos guardas nacionais, que marchavam pesadamente, acanhados, vestidos na sua jaqueta de velho pano azul, quase vermelho, e vexados com a comprida baioneta colocada muito atrás, a bater-lhes os rins num compasso irregular, conforme com os acidentes das ruas mal calçadas. O povo comentava o caso, analisava a fisionomia dos novos soldados, daqueles heroicos defensores da pátria, carneiros levados em récua para o açougue. As exclamações cruzavam-se, as pilhérias atravessavam a rua e caíam duras como pedras sobre as cabeças impassíveis dos guardas nacionais, pobres operários,<noinclude></noinclude> g3yjkaglyeaxph1t9kum50ic1jqfyzx Página:Contos amazonicos.djvu/40 106 256819 560453 2026-08-25T00:28:52Z ~2026-46124-56 43645 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: honrados roceiros, arrancados à oficina ou à lavoura para guarnecerem a cidade e fazerem o serviço da polícia ausente. Outras vezes eram lamentações e condolências da sorte daqueles pobres diabos que nem sabiam naquele momento se voltariam a ver a terra adorada do Amazonas. Os curumins anunciavam os recrutas à medida que se aproximavam: — Os voluntários! Os voluntários! — Voluntários de pau e corda! — disse causticamente o vigário p... 560453 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="~2026-46124-56" /></noinclude>honrados roceiros, arrancados à oficina ou à lavoura para guarnecerem a cidade e fazerem o serviço da polícia ausente. Outras vezes eram lamentações e condolências da sorte daqueles pobres diabos que nem sabiam naquele momento se voltariam a ver a terra adorada do Amazonas. Os curumins anunciavam os recrutas à medida que se aproximavam: — Os voluntários! Os voluntários! — Voluntários de pau e corda! — disse causticamente o vigário padre Pereira, fumando cigarros à porta de uma loja. Já mais adiante os curumins repetiam numa ironia inconsciente: — Os voluntários, olha os voluntários! Os recrutas caminhavam sob um sol ardente, seguidos das mães, das irmãs e das noivas, que soluçavam alto, numa prantina desordenada, chamando a atenção do povo. Os homens iam silenciosos como se acompanhassem um enterro. Ninguém se atrevia a levantar a voz contra a autoridade. Se a fuga fosse possível, nenhum daqueles homens deixaria de facilitá-la. Mas como fugir em pleno dia,<noinclude></noinclude> 5pgvwpx4d7ko5hos640sl3a9u7faini Página:Contos amazonicos.djvu/41 106 256820 560454 2026-08-25T00:30:57Z ~2026-46124-56 43645 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: no meio de tantos guardas nacionais armados e prevenidos? Nada, mais valia resignar-se e sofrer calado, que sempre se lucrava alguma coisa. Chegaram ao porto e avistaram o vapor que fumegava, prestes a partir. As canoas que os deviam conduzir para o paquete estavam prontas. Começou o embarque em boa ordem. Nenhum dos recrutas abraçou amigos e parentes; os adeuses trocaram-se com os olhos e com as mãos, de longe. Quando as canoas larg... 560454 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="~2026-46124-56" /></noinclude>no meio de tantos guardas nacionais armados e prevenidos? Nada, mais valia resignar-se e sofrer calado, que sempre se lucrava alguma coisa. Chegaram ao porto e avistaram o vapor que fumegava, prestes a partir. As canoas que os deviam conduzir para o paquete estavam prontas. Começou o embarque em boa ordem. Nenhum dos recrutas abraçou amigos e parentes; os adeuses trocaram-se com os olhos e com as mãos, de longe. Quando as canoas largaram da praia, as mulheres romperam num clamor; e os tapuios, acocorados ao fundo da igarité que os separava da ribanceira, seguiam com a vista a terra que recuava, fugindo deles. Tinham os olhos secos, mas amortecidos. Um deixava naquela saudosa praia a mãe doente e entrevada, arrastada até ali para soluçar a última despedida ao filho que partia para a guerra. E o voluntário, resignado à morte com que contava nos sertões do sul, tinha o coração apertado, pensando na miséria em que deixava a velhinha, obrigada dali em diante a viver de esmolas. Outro pensava<noinclude></noinclude> b0u1fsr4mtq5clda2e5o79qf93ucahq Página:Contos amazonicos.djvu/42 106 256821 560455 2026-08-25T00:33:38Z ~2026-46124-56 43645 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: na sua roça nova, aberta pelo São João, havia seis meses apenas, com tanto amor e trabalho, e que seria dentro em breve pasto de capivaras daninhas e de macacos gulosos; ou na montaria de pesca, abandonada no porto, para presa do primeiro ladrão que passasse. Este sonhava com as longas horas de imobilidade ansiosa, nas brumas da antemanhã, de pé na canoa, esperando o primeiro respirar do pirarucu possante; aquele com a gentil namorada,... 560455 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="~2026-46124-56" /></noinclude>na sua roça nova, aberta pelo São João, havia seis meses apenas, com tanto amor e trabalho, e que seria dentro em breve pasto de capivaras daninhas e de macacos gulosos; ou na montaria de pesca, abandonada no porto, para presa do primeiro ladrão que passasse. Este sonhava com as longas horas de imobilidade ansiosa, nas brumas da antemanhã, de pé na canoa, esperando o primeiro respirar do pirarucu possante; aquele com a gentil namorada, tanto tempo cobiçada e quase noiva, que não teria paciência para esperar-lhe a volta incerta. E todos pálidos, desesperados, sombrios, sentiam no supremo momento da separação, que tudo estava perdido, e a morte, uma morte terrível e misteriosa os esperava lá nas terras em que dominava o monstro do Paraguai, devorador de carne humana. Apesar da tristeza do espetáculo que me compungia o coração, não pude deixar de alegrar-me por não ver entre os recrutas o filho da velha Rosa. Acompanhei a leva desde o quartel até a praia, vi-a embarcar, não me afastei enquanto o vapor não<noinclude></noinclude> 22nezsu9j6wdyyz7ij6kvaf8rvab78n Página:Contos amazonicos.djvu/43 106 256822 560456 2026-08-25T00:35:46Z ~2026-46124-56 43645 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: levantou ferros, e procurou a barra do Tapajós, soltando um silvo rouco e prolongado. Adquiri então a certeza de que Pedro não embarcara, de que ficara em terra, e dessa convicção augurei as melhores esperanças. Se o delegado o não enviara por aquele vapor, fora certamente por não haver ainda jurado bandeira, e duvidoso se fazia o caso do seu recrutamento, em face dos fundamentos do habeas corpus requerido. Em todo o caso, mesmo consid... 560456 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="~2026-46124-56" /></noinclude>levantou ferros, e procurou a barra do Tapajós, soltando um silvo rouco e prolongado. Adquiri então a certeza de que Pedro não embarcara, de que ficara em terra, e dessa convicção augurei as melhores esperanças. Se o delegado o não enviara por aquele vapor, fora certamente por não haver ainda jurado bandeira, e duvidoso se fazia o caso do seu recrutamento, em face dos fundamentos do habeas corpus requerido. Em todo o caso, mesmo considerando a polícia bem recrutado o tapuio, tinha diante de mim oito ou dez dias, o intervalo de uma chegada de paquete a outra, para trabalhar em seu favor. Comuniquei a nova à tia Rosa que fui encontrar sentada à porta do juiz de direito, onde passara a noite. Não partilhou da minha convicção. Na sua opinião, eu estava enfeitiçado. Pedro não estava no quartel, e, portanto, seguira naquele mesmo vapor para a capital. Levei à conta de demência a incredulidade da velha, e entrei na casa do juiz para informar-me do resultado do habeas corpus.<noinclude></noinclude> d6qklfpyyx9liz2qod3lpmr56lee121 Página:Contos amazonicos.djvu/44 106 256823 560457 2026-08-25T00:37:42Z ~2026-46124-56 43645 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: O magistrado disse-me com alguma tristeza; — Escusado é tentar mais nada. O rapaz já embarcou. E como me visse atônito, sem ânimo de proferir palavra, compreendeu o meu espanto, e acrescentou: — Desconfiaram de mim. Ontem à noite mandaram-no numa canoa bem tripulada, esperar o vapor a meia légua da boca do rio. A indignação fez-me ultrapassar os limites da conveniência. Perguntei, irado, ao juiz como se deixara ele assim burlar pel... 560457 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="~2026-46124-56" /></noinclude>O magistrado disse-me com alguma tristeza; — Escusado é tentar mais nada. O rapaz já embarcou. E como me visse atônito, sem ânimo de proferir palavra, compreendeu o meu espanto, e acrescentou: — Desconfiaram de mim. Ontem à noite mandaram-no numa canoa bem tripulada, esperar o vapor a meia légua da boca do rio. A indignação fez-me ultrapassar os limites da conveniência. Perguntei, irado, ao juiz como se deixara ele assim burlar pela polícia, expondo a dignidade do seu cargo ao menosprezo de um funcionário subalterno. Mas ele sorrindo misteriosamente, bateu-me no ombro, e disse em tom paternal: — Colega, você ainda é muito moço. Manda quem pode. Não queira ser palmatória do mundo. E acrescentou alegremente: — Olhe, sabe uma coisa? vamos tomar café. Ainda há bem pouco tempo vagava pela cidade de Santarém uma pobre tapuia<noinclude></noinclude> 6h4hdo9patgv3i3u78evxoeob3ck1sn Página:Contos amazonicos.djvu/45 106 256824 560458 2026-08-25T00:39:26Z ~2026-46124-56 43645 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: doida. A maior parte do dia passava-o a percorrer a praia, com o olhar perdido no horizonte, cantando com voz trêmula e desenxabida a quadrinha popular: Meu anel de diamantes caiu na água e foi ao fundo; os peixinhos me disseram: viva Dom Pedro Segundo! 560458 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="~2026-46124-56" /></noinclude>doida. A maior parte do dia passava-o a percorrer a praia, com o olhar perdido no horizonte, cantando com voz trêmula e desenxabida a quadrinha popular: Meu anel de diamantes caiu na água e foi ao fundo; os peixinhos me disseram: viva Dom Pedro Segundo!<noinclude></noinclude> rqb9d5x6styry71eqju05ha3u6sdr18 Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/157 106 256825 560459 2026-08-25T00:39:39Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560459 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" /></noinclude>{{t2|POOL (palavra ingleza que se pronuncia ''pul'')}}{{traço}}{{ch|IX}} Arrasta a cada um dos frageis mortaes sua inclinação; {{lang|la|''trahit sua quemque voluptas''}}. Ha quem seja ''ornithophilo''; os passaros são sua exclusiva paixão; outros gostam, e chegam até a votar amor platonico ás flores; são os ''anthophilos''; (não falo dos insectos que assim se denominam por se alimentarem de flores) mas dos que com todo o carinho e zelo as cultivam, embora habitem em aguas-furtadas. Os cães têm igualmente seos apaixonados, que denominarei ''cynophilos''; finalmente os cavallos, si nos homens encontraram domadores, nelles tambem açharam adoradores. Mas esta adoração ao cavallo não é como a que outr{{'}}ora se votava a certos animaes, por motivo de religão, o bôi Apis, por exemplo, no Egypto. Povo, que se ufana de estar no auge da civilisação, tem-se no seculo actual tornado notavel pelo amor que á raça cavallar dedica, pelo seo ''hippophilismo''.<noinclude>{{d|8}}</noinclude> la2vy2ftie8fq3ik3oztseqmr7hou60 560464 560459 2026-08-25T00:45:13Z Trooper57 24584 A adicionar {{nop}} para quebra de parágrafo. 560464 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" /></noinclude>{{t2|POOL (palavra ingleza que se pronuncia ''pul'')}}{{traço}}{{ch|IX}} Arrasta a cada um dos frageis mortaes sua inclinação; {{lang|la|''trahit sua quemque voluptas''}}. Ha quem seja ''ornithophilo''; os passaros são sua exclusiva paixão; outros gostam, e chegam até a votar amor platonico ás flores; são os ''anthophilos''; (não falo dos insectos que assim se denominam por se alimentarem de flores) mas dos que com todo o carinho e zelo as cultivam, embora habitem em aguas-furtadas. Os cães têm igualmente seos apaixonados, que denominarei ''cynophilos''; finalmente os cavallos, si nos homens encontraram domadores, nelles tambem açharam adoradores. Mas esta adoração ao cavallo não é como a que outr{{'}}ora se votava a certos animaes, por motivo de religão, o bôi Apis, por exemplo, no Egypto. Povo, que se ufana de estar no auge da civilisação, tem-se no seculo actual tornado notavel pelo amor que á raça cavallar dedica, pelo seo ''hippophilismo''. {{nop}}<noinclude>{{d|8}}</noinclude> a82nfxklpm4dck9dydd6t1owyrxbw36 Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/158 106 256826 560460 2026-08-25T00:42:12Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560460 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />114</noinclude>«Os inglezes, os inglezes!» já todos os que acabaram de ler estas linhas, com certeza exclamaram. Sim; são os inglezes: são os altivos inglezes os ''hippophilos'' por excellencia. Elles têm registros, em que com a maior fidelidade inscrevem a ascendencia e filiação de seos cavallos, principalmente dos destinados ás corridas. Póde-se, portanto, dizer sem zombaria que existe entre os inglezes ''um escrivão da nobreza cavallar''. As corridas de cavallos são para os inglezes o seo maior prazer; talvez ainda maior do que para os hespanhões, e portuguezes uma tauromachia. Não quero me transformar em moralista, e por isso não vituperarei o abuso, que de tal divertimento se faz, convertendo-o em jogo, em que se escoam e dissipam grossas quantias. Meo fim unico é, visto que se tracta de expurgar de barbarismos a lingua vernacula, abolir a palavra ingleza — {{lang|en|''pool''}}, que outra cousa. não significa mais do que — ''parada'', termo proprio de jogo. Não ha diccionario inglez-portuguez, que não traga a conhecida significação do vocabulo. Em vez de dizer-se ''á ingleza'' — comprei dez {{lang|en|''pool''}}s (pules) diga-se em portuguez ''fiz dez paradas''. Mas qual! Não ha nada como {{lang|en|''pool''}}; (pul) a palavra portugueza — ''parada'' —, que é a especial {{nop}}<noinclude></noinclude> 521xtr07dzvu07tmbgdgtzr3qxry8at 560462 560460 2026-08-25T00:43:58Z Trooper57 24584 560462 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />114</noinclude>«Os inglezes, os inglezes!» já todos os que acabaram de ler estas linhas, com certeza exclamaram. Sim; são os inglezes: são os altivos inglezes os ''hippophilos'' por excellencia. Elles têm registros, em que com a maior fidelidade inscrevem a ascendencia e filiação de seos cavallos, principalmente dos destinados ás corridas. Póde-se, portanto, dizer sem zombaria que existe entre os inglezes ''um escrivão da nobreza cavallar''. As corridas de cavallos são para os inglezes o seo maior prazer; talvez ainda maior do que para os hespanhões, e portuguezes uma tauromachia. Não quero me transformar em moralista, e por isso não vituperarei o abuso, que de tal divertimento se faz, convertendo-o em jogo, em que se escoam e dissipam grossas quantias. Meo fim unico é, visto que se tracta de expurgar de barbarismos a lingua vernacula, abolir a palavra ingleza — {{lang|en|''pool''}}, que outra cousa. não significa mais do que — ''parada'', termo proprio de jogo. Não ha diccionario inglez-portuguez, que não traga a conhecida significação do vocabulo. Em vez de dizer-se ''á ingleza'' — comprei dez {{lang|en|''pool''}}s (pules) diga-se em portuguez ''fiz dez paradas''. Mas qual! Não ha nada como {{lang|en|''pool''}}; (pul) a palavra portugueza — ''parada'' —, que é a especial de todos os jogos, não serve para este. {{nop}}<noinclude></noinclude> q3rfb5hb72axnpk399ghzumdlgcojlk Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/159 106 256827 560461 2026-08-25T00:43:30Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560461 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />115</noinclude>Mais uma circumstancia, de que me ia esquecendo. Os francezes admittiram o britannismo {{lang|''pool''}}; mas, figurando na propria lingua a pronuncia ingleza, escreveram — {{lang|fr|''poule''}} — (que se pronuncia — ''pule'', sendo o — ''e'' — final mudo). Daqui procedeu então que portuguezes e brazileiros adoptassem o barbarismo. Ah! que si houvesse um tribunal tambem para os infractores do purismo linguistico...<noinclude>{{traço}}</noinclude> 4y58x7yy40r6k0gp7q5rtxefed954zd Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/II/IX 0 256828 560463 2026-08-25T00:44:55Z Trooper57 24584 [[Ajuda:SEA|←]] nova página: <pages index="Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf" from=157 to=159 header=1 /> 560463 wikitext text/x-wiki <pages index="Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf" from=157 to=159 header=1 /> qd8gt4pyn2oa88ilymuh9f81va5efcp Página:"Olha a terra, meu amigo, como é que ela é?".pdf/19 106 256829 560465 2026-08-25T00:46:38Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 560465 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rule}} {{rh|||{{smaller|“Olha a terra, meu amigo, como é que ela é?”: tradução e análise do mito mesopotâmico ''Etana''}}}}</noinclude>nominal, na forma de uma descendência. Afinal, esta é precisamente a moral da história de Gilgameš: a imortalidade está reservada à esfera divina, mas é possível chegar a uma espécie de eternidade através dos feitos alcançados em vida e da lembrança contínua do individuo por parte das gerações vindouras. Regressamos à máxima: “Gaze on the child who holds your hand”. Sublinhe-se que a viagem de Etana no sentido de obter a planta é sofrida. Numa primeira tentativa, o afastamento do mundo terreno, do seu domínio de ação, amedronta-o. Em pleno voo e com a terra fora do seu alcance, o rei de Kiš sente-se deslocado, fora do seu espaço, aquele onde se assume como soberano, aquele que representa a sua essência e ao qual está umbilicalmente ligado. O medo fá-lo recuar: “Minha amiga, não quero subir até ao céu!” (tab. III, 1. 42). A existência de Etana só faz sentido na sua cidade (tab. III, I. 43). O céu pertence aos deuses, não aos seres humanos. É precisamente a companheira de viagem que o encoraja. A águia que auxilia o rei de Kiš transportando-o tem um papel essencial. Ao longo da narrativa, passa por várias etapas distintas: primeiramente, destaca-se como malfeitora, transgredindo os designios divinos e afligindo a vida de outrem; posteriormente, vê-se na posição de sofredora, situação da qual acaba por sair regenerada, e, finalmente, termina o conto com um ato beneficente. Assim, a águia e Etana parecem ter algo em comum. Para além de o rei ajudar a ave a pôr um fim ao seu martírio, restituindo-lhe as asas quebradas, tal como a águia o ajuda a alcançar o patamar superior, os dois atravessam espaços cósmicos aos quais não pertencem por natureza. Se Etana sobe aos céus, a águia cai num poço fundo, vendo-se subitamente privada da sua capacidade de voar. O domínio ao qual ambos acabam, num esforço conjunto, por aceder, é o diametralmente oposto<ref>Vide KOUBKOVA — Fortune and misfortune, p. 379.</ref> àquele onde se dá o seu primeiro encontro, o “buraco onde não (entra a luz) de Šamaš”. O firmamento amplamente iluminado pelo sol, que os pássaros cruzavam diariamente, está, assim, nos antípodas do mundo subterrâneo onde a escuridão é o elemento predominante. No final da narrativa, e aqui entramos num terreno meramente especulativo dado o estado fragmentário do texto, a harmonia terá sido reposta: Etana regressa de vez a Kiš e a sua esposa dá à luz um filho; a águia retoma a sua existência batendo asas ao sabor do vento. Esta composição mítica, cujas raízes se perderam, poderá ter influenciado outras narrativas em vários quadrantes do mundo antigo. Assim, também Alexandre, o Grande, teria, de acordo com a obra de pseudo-Calístenes<ref>Vide CURRIE, Bruno — Etana in Greece. In KELLY, Adrian e METCALF, Christopher, ed. — ''Gods and mortals in early Greek and'' ''Near Eastern mythology''. Cambridge: Cambridge University Press, 2021, p. 133.</ref>, cujas versões mais antigas datam do séc. III d.C, subido aos céus<ref>SAPORETTI — Dieci appunti, p. 63, relembra ainda a semelhança entre a narrativa de Alexandre e a do mítico rei persa Kaikus.</ref> auxiliado por dois abutres.<noinclude>{{rule}} {{smallrefs}} {{right|'''183'''}}</noinclude> 7b1ydbv033x2q7cnayrppob6oa5d3rv 560466 560465 2026-08-25T00:47:35Z Erick Soares3 19404 560466 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rule}} {{rh|||{{smaller|“Olha a terra, meu amigo, como é que ela é?”: tradução e análise do mito mesopotâmico ''Etana''}}}}</noinclude>nominal, na forma de uma descendência. Afinal, esta é precisamente a moral da história de Gilgameš: a imortalidade está reservada à esfera divina, mas é possível chegar a uma espécie de eternidade através dos feitos alcançados em vida e da lembrança contínua do individuo por parte das gerações vindouras. Regressamos à máxima: “Gaze on the child who holds your hand”. Sublinhe-se que a viagem de Etana no sentido de obter a planta é sofrida. Numa primeira tentativa, o afastamento do mundo terreno, do seu domínio de ação, amedronta-o. Em pleno voo e com a terra fora do seu alcance, o rei de Kiš sente-se deslocado, fora do seu espaço, aquele onde se assume como soberano, aquele que representa a sua essência e ao qual está umbilicalmente ligado. O medo fá-lo recuar: “Minha amiga, não quero subir até ao céu!” (tab. III, 1. 42). A existência de Etana só faz sentido na sua cidade (tab. III, I. 43). O céu pertence aos deuses, não aos seres humanos. É precisamente a companheira de viagem que o encoraja. A águia que auxilia o rei de Kiš transportando-o tem um papel essencial. Ao longo da narrativa, passa por várias etapas distintas: primeiramente, destaca-se como malfeitora, transgredindo os designios divinos e afligindo a vida de outrem; posteriormente, vê-se na posição de sofredora, situação da qual acaba por sair regenerada, e, finalmente, termina o conto com um ato beneficente. Assim, a águia e Etana parecem ter algo em comum. Para além de o rei ajudar a ave a pôr um fim ao seu martírio, restituindo-lhe as asas quebradas, tal como a águia o ajuda a alcançar o patamar superior, os dois atravessam espaços cósmicos aos quais não pertencem por natureza. Se Etana sobe aos céus, a águia cai num poço fundo, vendo-se subitamente privada da sua capacidade de voar. O domínio ao qual ambos acabam, num esforço conjunto, por aceder, é o diametralmente oposto<ref>Vide KOUBKOVA — Fortune and misfortune, p. 379.</ref> àquele onde se dá o seu primeiro encontro, o “buraco onde não (entra a luz) de Šamaš”. O firmamento amplamente iluminado pelo sol, que os pássaros cruzavam diariamente, está, assim, nos antípodas do mundo subterrâneo onde a escuridão é o elemento predominante. No final da narrativa, e aqui entramos num terreno meramente especulativo dado o estado fragmentário do texto, a harmonia terá sido reposta: Etana regressa de vez a Kiš e a sua esposa dá à luz um filho; a águia retoma a sua existência batendo asas ao sabor do vento. Esta composição mítica, cujas raízes se perderam, poderá ter influenciado outras narrativas em vários quadrantes do mundo antigo. Assim, também Alexandre, o Grande, teria, de acordo com a obra de pseudo-Calístenes<ref>Vide CURRIE, Bruno — Etana in Greece. In KELLY, Adrian e METCALF, Christopher, ed. — ''Gods and mortals in early Greek and'' ''Near Eastern mythology''. Cambridge: Cambridge University Press, 2021, p. 133.</ref>, cujas versões mais antigas datam do séc. III d.C, subido aos céus<ref>SAPORETTI — Dieci appunti, p. 63, relembra ainda a semelhança entre a narrativa de Alexandre e a do mítico rei persa Kaikus.</ref> auxiliado por dois abutres.<noinclude>{{rule}} {{smallrefs}} {{right|'''183'''}}</noinclude> av31lw1to7qa7bx6s8fkym3j9sponl6 Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/161 106 256830 560467 2026-08-25T00:54:54Z Trooper57 24584 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: ETIQUETA (ÉTIQUETTE) X Entre as fontes, de que manam em largo jorro os barbarismos, occupam um dos primeiros logares os logistas, e empregados no commercio. Recebem do estrangeiro as mercadorias, que trazem, como é natural , o nome respectivo na lingua do país, de que são exportadas ; e quando o objecto, a que se refere o nome estrangeiro , não é d'aquelles geralmente conhecidos, lá se vae repetindo a palavra estrangeira, que passa... 560467 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>ETIQUETA (ÉTIQUETTE) X Entre as fontes, de que manam em largo jorro os barbarismos, occupam um dos primeiros logares os logistas, e empregados no commercio. Recebem do estrangeiro as mercadorias, que trazem, como é natural , o nome respectivo na lingua do país, de que são exportadas ; e quando o objecto, a que se refere o nome estrangeiro , não é d'aquelles geralmente conhecidos, lá se vae repetindo a palavra estrangeira, que passa de bocca em bocca . Si é, por exemplo, uma fazenda, um tecido differente de todos os outros conhecidos, e si o fabricante lhe deu alguma denominação especial, alludindo a tal ou tal qualidade, ou a alguma particular circumstancia, é o caso de introduzir- se o barbarismo, que alastra como herva damninha. Succede tambem que por negligencia, ou ignorancia chamam os vendedores de mercadorias - Etiquetas - cousa muito differente do que em portuguez se conhece por - etiqueta.<noinclude></noinclude> 26kv7rdzitvdnl98t7it0om7mb29qfe 560495 560467 2026-08-25T03:15:25Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560495 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" /></noinclude>{{t2|ETIQUETA (ÉTIQUETTE)}}{{traço}}{{ch|X}} Entre as fontes, de que manam em largo jorro os barbarismos, occupam um dos primeiros logares os logistas, e empregados no commercio. Recebem do estrangeiro as mercadorias, que trazem, como é natural, o nome respectivo na lingua do país, de que são exportadas; e quando o objecto, a que se refere o nome estrangeiro, não é d{{'}}aquelles geralmente conhecidos, lá se vae repetindo a palavra estrangeira, que passa de bocca em bocca. Si é, por exemplo, uma fazenda, um tecido differente de todos os outros conhecidos, e si o fabricante lhe deu alguma denominação especial, alludindo a tal ou tal qualidade, ou a alguma particular circumstancia, é o caso de introduzir-se o barbarismo, que alastra como herva damninha. Succede tambem que por negligencia, ou ignorancia çhamam os vendedores de mercadorias — ''Etiquetas'' — cousa muito differente do que em portuguez se conhece por — etiqueta. {{nop}}<noinclude></noinclude> acpsn9wulch6lvlanrhtvykurytomlm Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/162 106 256831 560468 2026-08-25T00:55:04Z Trooper57 24584 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: 118 Etiqueta na lingua portugueza, ou etiquetas no plural, significa ceremonial proprio das igrejas, dos palacios, formalidades usadas entre a gente da côrte ; entretanto por este contacto quotidiano do povo com os empregados do commercio, nos tractos de compras, e vendas, já a palavra etiqueta é empregada como = rotulo, letreiro ; accepção que não tem, nem nunca teve na lingua portugueza . Em francez étiquette é sem duvida alguma r... 560468 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>118 Etiqueta na lingua portugueza, ou etiquetas no plural, significa ceremonial proprio das igrejas, dos palacios, formalidades usadas entre a gente da côrte ; entretanto por este contacto quotidiano do povo com os empregados do commercio, nos tractos de compras, e vendas, já a palavra etiqueta é empregada como = rotulo, letreiro ; accepção que não tem, nem nunca teve na lingua portugueza . Em francez étiquette é sem duvida alguma rotulo, letreiro ; mas em portuguez nunca, nunca se deve dizer semelhante barbarismo . Não é isto a confirmação do que tenho já dicto; isto é, que grande numero de barbarismos têm por causa a preguiça, e a negligencia ? Açharão tambem que étiquette, palavra franceza, seja tão expressiva, que não haja em portuguez outra, que lhe corresponda, e dê idéa perfeita do que o tal vocabulo representa ? É só o que me falta ouvir. Isto causa indignação, e nojo ; prova preguiça, tolice, em uma palavra, a Advenomania linguistica no seo maior gráo.<noinclude></noinclude> rt7z2850nova7j63u24krghqmh0av29 560496 560468 2026-08-25T03:17:39Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560496 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />118</noinclude>''Etiqueta'' na lingua portugueza, ou ''etiquetas'' no plural, significa ceremonial proprio das igrejas, dos palacios, formalidades usadas entre a gente da côrte; entretanto por este contacto quotidiano do povo com os empregados do commercio, nos tractos de compras, e vendas, já a palavra ''etiqueta'' é empregada como = ''rotulo, letreiro;'' accepção que não tem, nem nunca teve na lingua portugueza. Em francez {{lang|fr|''étiquette''}} é sem duvida alguma ''rotulo, letreiro;'' mas em portuguez ''nunca, nunca se deve dizer semelhante barbarismo.'' Não é isto a confirmação do que tenho já dicto; isto é, que grande numero de barbarismos têm por causa a preguiça, e a negligencia? Açharão tambem que {{lang|fr|''étiquette''}}, palavra franceza, seja tão expressiva, que não haja em portuguez outra, que lhe corresponda, e dê idéa perfeita do que o tal vocabulo representa? É só o que me falta ouvir. Isto causa indignação, e nojo; prova preguiça, tolice, em uma palavra, a ''Advenomania linguistica'' no seo maior gráo.<noinclude>{{traço}}</noinclude> 3nd0ey3t4qfirbc8jk3641xf625n67s Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/163 106 256832 560469 2026-08-25T00:55:14Z Trooper57 24584 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: ATELIER XI Na minha qualidade de medico tenho muitas vezes chegado a pensar que esta decidida tendencia para preferir e adoptar palavras francezas e inglezas, não obstante possuirmos ás vezes melhores vocabulos do que os exoticos preferidos, revela no organismo do portuguez e do brazileiro certa aberração, que bem poderia na Psychiatria ser classificada-Advenomania linguistica. Tanto mais fundada é esta minha suspeita, quanto vejo... 560469 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>ATELIER XI Na minha qualidade de medico tenho muitas vezes chegado a pensar que esta decidida tendencia para preferir e adoptar palavras francezas e inglezas, não obstante possuirmos ás vezes melhores vocabulos do que os exoticos preferidos, revela no organismo do portuguez e do brazileiro certa aberração, que bem poderia na Psychiatria ser classificada-Advenomania linguistica. Tanto mais fundada é esta minha suspeita, quanto vejo que muita gente ha de certo gráo de instrucção, a qual, não obstante reconhecer o vicio, em que incorre, é comtudo arrastada a commettel-o. Para de alguma sorte attenuarem o culposo procedimento, inventam então differenças subtís, esforçando-se por provar que a palavra estrangeira, melhor do que a vernacula, exprime mais completamente o pensamento . E' curioso investigar o modo, por que em nossa lingua taes barbarismos se insinuam .<noinclude></noinclude> fycl8oat0nl2zeawb03s0v1oakd5vzf 560498 560469 2026-08-25T03:22:41Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560498 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" /></noinclude>{{t2|ATELIER}}{{traço}}{{ch|XI}} Na minha qualidade de medico tenho muitas vezes çhegado a pensar que esta decidida tendencia para preferir e adoptar palavras francezas e inglezas, não obstante possuirmos ás vezes melhores vocabulos do que os exoticos preferidos, revela no organismo do portuguez e do brazileiro certa aberração, que bem poderia na Psychiatria ser classificada — ''Advenomania linguistica''. Tanto mais fundada é esta minha suspeita, quanto vejo que muĩta gente ha de certo gráo de instrucção, a qual, não obstante reconhecer o vicio, em que incorre, é comtudo arrastada a commettel-o. Para de alguma sorte attenuarem o culposo procedimento, inventam então differenças subtís, esforçando-se por provar que a palavra estrangeira, melhor do que a vernacula, exprime mais completamente o pensamento. E' curioso investigar o modo, por que em nossa lingua taes barbarismos se insinuam. {{nop}}<noinclude></noinclude> 9ixb58je06yxzq902qifv787q75axde Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/164 106 256833 560470 2026-08-25T00:55:25Z Trooper57 24584 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: 120 A mim se me affigura que umas vezes é a pre- guiça de ir aos diccionarios ver a significação do termo ; o qual pelo sentido do discurso mais ou menos se adivinha, julgando-se por isso o preguiçoso dispensado de lhe dar a palavra correspondente em portuguez . Outras vezes a residencia mais ou menos longa em países estrangeiros é o motivo do peregrinismo ; finalmente o gosto de dizer em francez ou inglez o que podiam dizer em por... 560470 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>120 A mim se me affigura que umas vezes é a pre- guiça de ir aos diccionarios ver a significação do termo ; o qual pelo sentido do discurso mais ou menos se adivinha, julgando-se por isso o preguiçoso dispensado de lhe dar a palavra correspondente em portuguez . Outras vezes a residencia mais ou menos longa em países estrangeiros é o motivo do peregrinismo ; finalmente o gosto de dizer em francez ou inglez o que podiam dizer em portuguez, porque conhecem perfeitamente a significação da palavra . Foi o que succedeu com o vocabulo francez Atelier. Os que o empregam bem sabem o que a pa- lavra significa ; mas, ou França ; ou porque ouviram rario francez dizer Atelier, lavra, não obstante saberem porque estiveram em algum artista, ou opeforam repetindo a paque Atelier não é mais do que Officina. Já me está parecendo que hão de querer crear differenças entre Oficina e Atelier Atelier ; mas por toda a resposta a esses offereço a leitura do artigo Ate- lier no diccionario de Bescherelle, que define Atelier : Logar, em que trabalham artistas liberaes, e operarios mechanicos : ora, é isto o que em portuguez se çhama Officina. E' verdade que o illustre lexicographo accressob a direcção do mestre ; e como hoje centa<noinclude></noinclude> 89dcwzscr8qzoql9eepayzy9b48ndza 560499 560470 2026-08-25T03:29:32Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560499 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />120</noinclude>A mim se me affigura que umas vezes é a preguiça de ir aos diccionarios ver a significação do termo; o qual pelo sentido do discurso mais ou menos se adivinha, julgando-se por isso o preguiçoso dispensado de lhe dar a palavra correspondente em portuguez. Outras vezes a residencia mais ou menos longa em países estrangeiros é o motivo do peregrinismo; finalmente o gosto de dizer em francez ou inglez o que podiam dizer em portuguez, porque conhecem perfeitamente a significação da palavra. Foi o que succedeu com o vocabulo francez {{lang|fr|''Atelier''}}. Os que o empregam bem sabem o que a palavra significa; mas, ou porque estiveram em França; ou porque ouviram algum artista, ou operario francez dizer {{lang|fr|''Atelier''}}, foram repetindo a palavra, não obstante saberem que {{lang|fr|''Atelier''}} não é mais do que ''Officina''. Já me está parecendo que hão de querer crear differenças entre ''Officina'' e {{lang|fr|''Atelier''}}; mas por toda a resposta a esses offereço a leitura do artigo {{lang|fr|''Atelier''}} no diccionario de Bescherelle, que define ''{{lang|fr|Atelier}}: Logar, em que trabalham artistas liberaes, e operarios mechanicos'': ora, é isto o que em portuguez se çhama ''Officina''. E' verdade que o illustre lexicographo accrescenta — sob a direcção do mestre; — e como hoje<noinclude></noinclude> 1d7d62qli4ror0frc84p07a3zocur3w Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/165 106 256834 560471 2026-08-25T00:55:42Z Trooper57 24584 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: 121 indifferentemente se chama tanto em portuguez, como em francez, Atelier, a sala, em que trabalham os que já não precisam de mestre, talvez queiram fundar nisto a differença entre Atelier e Officina. Isso porém não constitue differença essencial ; porque ainda assim o artista, e o operario estão fazendo obras ( Officium vem de- opus, trabalho, e facio, eu faço) de sua profissão . Não ha necessidade de Atelier; o termo por- tugue... 560471 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>121 indifferentemente se chama tanto em portuguez, como em francez, Atelier, a sala, em que trabalham os que já não precisam de mestre, talvez queiram fundar nisto a differença entre Atelier e Officina. Isso porém não constitue differença essencial ; porque ainda assim o artista, e o operario estão fazendo obras ( Officium vem de- opus, trabalho, e facio, eu faço) de sua profissão . Não ha necessidade de Atelier; o termo por- tuguez é Officina, casa, sala de trabalho.<noinclude></noinclude> ppqt7fbcwzucrfmenzcs3m9ntsnc5au 560500 560471 2026-08-25T03:31:14Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560500 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />{{d|121}}</noinclude>indifferentemente se chama tanto em portuguez, como em francez, {{lang|fr|''Atelier''}}, a sala, em que trabalham os que já não precisam de mestre, talvez queiram fundar nisto a differença entre {{lang|fr|''Atelier''}} e ''Officina''. Isso porém não constitue differença essencial; porque ainda assim o artista, e o operario estão ''fazendo obras'' ({{lang|la|''Officium''}} vem de — {{lang|la|''opus''}}, trabalho, e {{lang|la|''facio''}}, eu faço) de sua profissão. Não ha necessidade de {{lang|fr|''Atelier''}}; o termo portuguez é ''Officina'', casa, sala de trabalho.<noinclude>{{traço}}</noinclude> 6e6q6niy5fb31mhh0a7vub9a8g1ravu Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/167 106 256835 560472 2026-08-25T00:55:56Z Trooper57 24584 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: PENDANT XII Si eu fosse competente para escrever um di- ccionario da lingua portugueza, o que pensam os meos leitores que faria, afim de ver bem acceito, e com avidez comprado o meo trabalho ? Estou bem certo de que me responderiam : « Procurarias expungil-o de todos os vocabulos bar- baros ; darias definições lexicologicas com todo o acêrto ; explicarias a origem de grande numero de termos, que por ignorancia da respectiva etymolo... 560472 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>PENDANT XII Si eu fosse competente para escrever um di- ccionario da lingua portugueza, o que pensam os meos leitores que faria, afim de ver bem acceito, e com avidez comprado o meo trabalho ? Estou bem certo de que me responderiam : « Procurarias expungil-o de todos os vocabulos bar- baros ; darias definições lexicologicas com todo o acêrto ; explicarias a origem de grande numero de termos, que por ignorancia da respectiva etymologia são mal orthographados ; não acceitarias accepções erroneas dadas a esmo pelo vulgo, e a esmo admittidas por certos lexicographos ; finalmente empregarias todo o cuidado, evitando omissões, e não esquecendo palavra algunia, que genuinamente á lingua pertencesse » . E' verdade ; assim parece que deveria proceder ; mas a experiencia é grande mestra ; e a experiencia me tem mostrado que não seria esse o maior merito do vocabulario. Vós vos admirais ? ... Não nos devemos ad- mirar de cousa alguma ; nihil admirari, diziam os antigos.<noinclude></noinclude> 42i33mbh51ozi7a9r8b8g1wh0281q6o 560502 560472 2026-08-25T03:33:20Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560502 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" /></noinclude>{{t2|PENDANT}}{{traço}}{{ch|XII}} Si eu fosse competente para escrever um diccionario da lingua portugueza, o que pensam os meos leitores que faria, afim de ver bem acceito, e com avidez comprado o mco trabalho? Estou bem certo de que me responderiam: «Procurarias expungil-o de todos os vocabulos barbaros darias definições lexicologicas com todo o acerto; explicarias a origem de grande numero de termos, que por ignorancia da respectiva etymologia são mal orthographados; não acceitarias accepções erroneas dadas a esmo pelo vulgo, e a esmo admittidas por certos lexicographos; finalmente empregarias todo o cuidado, evitando omissões, e não esquecendo palavra alguma, que genuinamente á lingua pertencesse». E' verdade; assim parece que deveria proceder; mas a experiencia é grande mestra; e a experiencia me tem mostrado que não seria esse o maior merito do vocabulario. Vós vos admirais?... Não nos devemos admirar de cousa alguma; {{lang|la|''nihil admirari''}}, diziam os antigos. {{nop}}<noinclude></noinclude> 1pbzue8nkw8x4kweefcn7w6tw8qh81f Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/168 106 256836 560473 2026-08-25T00:56:03Z Trooper57 24584 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: 124 Outro seria o meo plano . Tenho notado muitas vezes que, quando entre duas ou mais pessoas, se discute sobre a significação de tal ou tal palavra, recorre-se a um diccionario ; e com quanto, nem sempre seja auctor de boa nota o lexicographo, para quem appella um dos contendores, exulta este ultimo, si no tal diccio- nario encontra o vocabulo com a significação embora errada, mas que elle suppunha verdadeira. Sirva de exemplo o v... 560473 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>124 Outro seria o meo plano . Tenho notado muitas vezes que, quando entre duas ou mais pessoas, se discute sobre a significação de tal ou tal palavra, recorre-se a um diccionario ; e com quanto, nem sempre seja auctor de boa nota o lexicographo, para quem appella um dos contendores, exulta este ultimo, si no tal diccio- nario encontra o vocabulo com a significação embora errada, mas que elle suppunha verdadeira. Sirva de exemplo o vocabulo -prosapia - , que significando-ascendencia, é pelo vulgo tomado erradamente como-jactancia, philaucia, amor proprio: quem, como o vulgo, sustentasse a erronea significação, julgar-se-hia victorioso, mostrando no diccionario de Aulete esse dislate. D'aqui se infere que nem sempre o optimo é o melhor; e é por isso que eu, dada a hypothese de ser capaz de compôr um diccionario da lingua portugueza, substituiria por palavras francezas e inglezas muitos vocabulos vernaculos : tenho para mim que os francelhos, que são in magna quantitate, elevar- me-hiam ao maximo gráo em materia de Philologia. O diccionario de Aulete não só traz os bar- barismos -lanche, e lanchar, mas até a propria palavra ingleza-lunch ! Eu portanto imitando-o, baniria de uma vez para sempre, por exemplo, a palavra - Symetria<noinclude></noinclude> 93stgrgrfj7rcuhkbi48oj58hosl11s 560503 560473 2026-08-25T03:35:50Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560503 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />124</noinclude>Outro seria o meo plano. Tenho notado muitas vezes que, quando entre duas ou mais pessoas, se discute sobre a significação de tal ou tal palavra, recorre-se a um diccionario; e com quanto, nem sempre seja auctor de boa nota o lexicographo, para quem appella um dos contendores, exulta este ultimo, si no tal diccionario encontra o vocabulo com a significação embora errada, mas que elle suppunha verdadeira. Sirva de exemplo o vocabulo — ''prosapia'' —, que significando — ''ascendencia'', é pelo vulgo tomado erradamente como — ''jactancia, philaucia, amor proprio:'' quem, como o vulgo, sustentasse a erronea significação, julgar-se-hia victorioso, mostrando no diccionario de Aulete esse dislate. D'aqui se infere que nem sempre ''o optimo é o melhor;'' e é por isso que eu, dada a hypothese de ser capaz de compôr um diccionario da lingua portugueza, substituiria por palavras francezas e inglezas muitos vocabulos vernaculos: tenho para mim que os francelhos, que são {{lang|la|''in magna quantitate''}}, elevar-me-hiam ao maximo grão em materia de Philologia. O diccionario de Aulete não só traz os barbarismos — ''lanche'', e ''lanchar'', mas até a propria palavra ingleza — ''{{lang|en|lunch}}!'' Eu portanto imitando-o, baniria de uma vez para sempre, por exemplo, a palavra — ''Symetria''<noinclude></noinclude> bwdafod4nllnn3eig8o3g9u7sn3qp5m Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/169 106 256837 560474 2026-08-25T00:56:09Z Trooper57 24584 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: 125 (por ser de origem grega) e na lettra-P-encaixaria desassombradamente o lindo -pendant-fran- cez. Oh ! o pendant ! que graça, que mimo ! Sy- metria é pesadão, termozinho da moda empregado pelos gafanhotos litterarios para classificar os vocabulos portuguezes por elles desconhecidos, e o estylo classico, correcto, e de periodos ciceronianos . Não ha necessidade alguma do tal pendant; symetria é a palavra portugueza, que lhe cor... 560474 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>125 (por ser de origem grega) e na lettra-P-encaixaria desassombradamente o lindo -pendant-fran- cez. Oh ! o pendant ! que graça, que mimo ! Sy- metria é pesadão, termozinho da moda empregado pelos gafanhotos litterarios para classificar os vocabulos portuguezes por elles desconhecidos, e o estylo classico, correcto, e de periodos ciceronianos . Não ha necessidade alguma do tal pendant; symetria é a palavra portugueza, que lhe corresponde, ou respondencia, como diziam os classicos. Ah ! manes de Filinto Elysio ! ...<noinclude></noinclude> j013nv1l7w8v4ffk47sm2z4emjygkv9 560504 560474 2026-08-25T03:37:42Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560504 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />{{d|125}}</noinclude>(por ser de origem grega) e na lettra — ''P'' — encaixaria desassombradamente o lindo — {{lang|fr|''pendant''}} — francez. Oh! o {{lang|fr|''pendant''}}! que graça, que mimo! ''Symetria'' é ''pesadão'', termozinho da moda empregado pelos gafanhotos litterarios para classificar os vocabulos portuguezes por elles desconhecidos, e o estylo classico, correcto, e de periodos ciceronianos. Não ha necessidade alguma do tal {{lang|fr|''pendant''}}; ''symetria'' é a palavra portugueza, que lhe corresponde, ou respondencia, como diziam os classicos. Ah! manes de Filinto Elysio!...<noinclude>{{traço}}</noinclude> sssk3bo2ruubqj5675pce1nc5yiilxx Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/171 106 256838 560475 2026-08-25T00:56:18Z Trooper57 24584 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: CHALET XIII A lei do progresso domina e governa a ordem moral, intellectual e material . Tudo melhora, tudo se aperfeiçoa ; o povo em sua linguagem despretenciosa repete a sentença de hora em hora Deos melhora ; - o philo- sopho e o litterato dizem como Eugenio Pelletan Le monde marche . A cidade do Rio de Janeiro, a bella Potamo- polis, a linda capital do Imperio brazileiro, obedece, e não poderia deixar de obedecer tambem a ess... 560475 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>CHALET XIII A lei do progresso domina e governa a ordem moral, intellectual e material . Tudo melhora, tudo se aperfeiçoa ; o povo em sua linguagem despretenciosa repete a sentença de hora em hora Deos melhora ; - o philo- sopho e o litterato dizem como Eugenio Pelletan Le monde marche . A cidade do Rio de Janeiro, a bella Potamo- polis, a linda capital do Imperio brazileiro, obedece, e não poderia deixar de obedecer tambem a essa universal lei, cujos effeitos mais se hão manifestado na ordem material. Dezenas de novas e espaçosas ruas com formosas casarias de ambos os lados, renques de arvores plantadas em todo o seo comprimento, dando com seos esparaveis fresca sombra ás habitações, teem de tal sorte mudado o aspecto da cidade, que desconhecel-a-hia quem depois de alguns annos de ausencia a ella hoje voltasse. Entre as novas edificações notam-se, principalmente nos suburbios, casas elegantes, umas mais<noinclude></noinclude> 9jtek37fvuakozzml1r7ipvfz6o3q78 560506 560475 2026-08-25T03:48:39Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560506 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" /></noinclude>{{t2|CHALET}}{{traço}}{{ch|XIII}} A lei do progresso domina e governa a ordem moral, intellectual e material. Tudo melhora, tudo se aperfeiçoa; o povo em sua linguagem despretenciosa repete a sentença — ''de hora em hora Deos melhora;'' — o philosopho e o litterato dizem como Eugenio Pelletan — {{lang|fr|''Le monde marche''}}. A cidade do Rio de Janeiro, a bella Potamopolis, a linda capital do Imperio brazileiro, obedece, e não poderia deixar de obedecer tambem a essa universal lei, cujos effeitos mais se hão manifestado na ordem material. Dezenas de novas e espaçosas ruas com formosas casarias de ambos os lados, renques de arvores plantadas em todo o seo comprimento, dando com seos esparaveis fresca sombra ás habitações, teem de tal sorte mudado o aspecto da cidade, que desconhecel-a-hia quem depois de alguns annos de ausencia a ella hoje voltasse. Entre as novas edificações notam-se, principalmente nos suburbios, casas elegantes, umas mais<noinclude></noinclude> ibhwacsptg1s8izihro9gyd4lmf7pzk Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/172 106 256839 560476 2026-08-25T00:56:24Z Trooper57 24584 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: 128 vastas que outras, com ornatos de madeira rendilhada, acompanhando a frente e os lados do telhado . Dá-se aqui, e julgo que tambem em Portugal, á casa deste gosto architectonico o nome francez de Chalet. Não é por certo de Chalé, vocabulo asiatico, que é um palmar, em que residem aldeados os officiaes mechanicos, que lhe vem a denominação : tão pouco, creio eu, que assim se çhamem estas edificações, tomando como typo o Chalet, q... 560476 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>128 vastas que outras, com ornatos de madeira rendilhada, acompanhando a frente e os lados do telhado . Dá-se aqui, e julgo que tambem em Portugal, á casa deste gosto architectonico o nome francez de Chalet. Não é por certo de Chalé, vocabulo asiatico, que é um palmar, em que residem aldeados os officiaes mechanicos, que lhe vem a denominação : tão pouco, creio eu, que assim se çhamem estas edificações, tomando como typo o Chalet, que na Suissa não é mais que uma cabana rustica, em que se estabelecem queijarias . O mais provavel, sinão certo, é que assim como em França e na Suissa se chamam Chalets as casas de recreio, as habitações situadas no campo ; assim tambem deu-se o mesmo nome, embora estrangeiro, a estas novas construcções , Mas nós, que nem de Helvecios, nem de Gau- lezes descendemos, porque havemos de usar de uma palavra d'elles, tendo em nossa lingua, casa de campo, quinta, çhacara ? ... Si se admittir que Chalet seja corruptela de Chatelet, (perdida a syllaba media te -) como me parece que é ; por que motivo não chamaremos a esta moderna habitação Castellete ou Cas- tellejo ; (parte superior dos antigos castellos) pois que algumas dessas modernas casas teem tal ou<noinclude></noinclude> cv13fa7e4f6bwpropn6ytx9th0rswfw 560507 560476 2026-08-25T03:55:43Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560507 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />128</noinclude>vastas que outras, com ornatos de madeira rendilhada, acompanhando a frente e os lados do telhado. Dá-se aqui, e julgo que tambem em Portugal, á casa deste gosto architectonico o nome francez de {{lang|fr|''Chalet''}}. Não é por certo de ''Chalé'', vocabulo asiatico, que é um palmar, em que residem aldeados os officiaes mechanicos, que lhe vem a denominação: tão pouco, creio eu, que assim se çhamem estas edificações; tomando como typo o {{lang|fr|''Chalet''}}, que na Suissa não é mais que uma cabana rustica, em que se estabelecem queijarias. O mais provavel, sinão certo, é que assim como em França e na Suissa se çhamam {{lang|fr|''Chalets''}} as casas de recreio, as habitações situadas no campo; assim tambem deu-se o mesmo nome, embora estrangeiro, a estas novas construcções. Mas nós, que nem de Helvecios, nem de Gaulezes descendemos, porque havemos de usar de uma palavra d'elles, tendo em nossa lingua, ''casa de campo, quinta, çhacara?''... Si se admittir que {{lang|fr|''Chalet''}} seja corruptela de {{lang|fr|''Chatelet''}}, (perdida a syllaba media — te —) como me parece que é; por que motivo não çhamaremos a esta moderna habitação ''Castellete'' ou ''Castellejo''; (parte superior dos antigos castellos) pois que algumas dessas modernas casas teem tal ou<noinclude></noinclude> 0d2r7dqqpgxtkagxat9y2mf0kxqc46h Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/173 106 256840 560477 2026-08-25T00:56:30Z Trooper57 24584 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: 129 qual semelhança, são um longiquo arremêdo de um castellinho ? Casa de campo é o vocabulo generico ; quinta só se diz em referencia ás casas de campo em Por- tugal ; a chacara tem casa com a apparencia das casas communs ; parece então que para designar esta especie de construcção moderna, Castellete é o melhor termo, não só por que já a lingua o possue, como por que o que se chama Chalet traz uma recordação, posto que fraquissim... 560477 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>129 qual semelhança, são um longiquo arremêdo de um castellinho ? Casa de campo é o vocabulo generico ; quinta só se diz em referencia ás casas de campo em Por- tugal ; a chacara tem casa com a apparencia das casas communs ; parece então que para designar esta especie de construcção moderna, Castellete é o melhor termo, não só por que já a lingua o possue, como por que o que se chama Chalet traz uma recordação, posto que fraquissima, do antigo Castellete. Eu direi Castellete, e não Chalet, quando estiver falando portuguez . 9<noinclude></noinclude> 148lyuixh32r0evz2ijpvgjwikv41c5 560508 560477 2026-08-25T03:57:57Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560508 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" />{{d|129}}</noinclude>qual semelhança, são um longiquo arremêdo de um ''castellinho''? ''Casa de campo'' é o vocabulo generico; ''quinta'' só se diz em referencia ás casas de campo em Portugal; a ''çhacara'' tem casa com a apparencia das casas communs; parece então que para designar esta especie de construcção moderna, ''Castellete'' é o melhor termo, não só por que já a lingua o possue, como por que o que se çhama {{lang|fr|''Chalet''}} traz uma recordação, posto que fraquissima, do antigo ''Castellete''. Eu direi ''Castellete'', e não {{lang|fr|''Chalet''}}, quando estiver falando portuguez.<noinclude>{{traço}}</noinclude> og3bnkv7tc4a6x86t2s4rqdbutuxg20 Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/175 106 256841 560478 2026-08-25T00:56:41Z Trooper57 24584 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: SPLEEN ( palavra ingleza, que se pronuncia- Splin.) XIV E' necessario antes de tractar deste britannico barbarismo, dizer algumas palavras, que se referem á anatomia e physiologia do corpo humano. Chamam-se hypocondrios os lados direito, e esquerdo do ventre, por estarem debaixo ( hypo, em grego) das cartilagens (condros) das falsas costellas. No hypocondrio direito, e internamente está situado o figado, no esquerdo o baço. Acredita... 560478 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>SPLEEN ( palavra ingleza, que se pronuncia- Splin.) XIV E' necessario antes de tractar deste britannico barbarismo, dizer algumas palavras, que se referem á anatomia e physiologia do corpo humano. Chamam-se hypocondrios os lados direito, e esquerdo do ventre, por estarem debaixo ( hypo, em grego) das cartilagens (condros) das falsas costellas. No hypocondrio direito, e internamente está situado o figado, no esquerdo o baço. Acreditavam os antigos que certas faculdades, e paixões se localizavam em algumas visceras do corpo humano. No cerebro collocavam a intelligencia, no coração o amor, no baço o riso, no figado a colera, etc. Sabem todos, pois que é frequentissimo o seo emprego, qual o sentido da palavra Spleen, (splin) que podemos dispensar, sem que o estado, que ella exprime, deixe de ser indicado . Hypocondria é o vocabulo, que corresponde exactamente ao inglez Spleen (splin) ; além de me-<noinclude></noinclude> 44gna785qnwimu84mt9xjd3gv9z6v84 560511 560478 2026-08-25T04:29:44Z Trooper57 24584 /* Revista */ 560511 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Trooper57" /></noinclude>{{t2|SPLEEN (palavra ingleza, que se pronuncia — ''Splin''.)}}{{traço}}{{ch|XIV}} E' necessario antes de tractar deste britannico barbarismo, dizer algumas palavras, que se referem á anatomia e physiologia do corpo humano. Çhamam-se ''hypocondrios'' os lados direito, e esquerdo do ventre, por estarem ''debaixo'' (''hypo'', em grego) das ''cartilagens (condros)'' das falsas costellas. No ''hypocondrio'' direito, e internamente está situado o figado, no esquerdo o baço. Acreditavam os antigos que certas faculdades, e paixões se localizavam em algumas visceras do corpo humano. No cerebro collocavam a intelligencia, no coração o amor, no baço o riso, no figado a colera, etc. Sabem todos, pois que é frequentissimo o seo emprego, qual o sentido da palavra {{lang|en|''Spleen''}}, (splin) que podemos dispensar, sem que o estado, que ella exprime, deixe de ser indicado. ''Hypocondria'' é o vocabulo, que corresponde exactamente ao inglez {{lang|en|''Spleen''}} (splin); além de {{pt|''me-''|''melancolia'' }}<noinclude></noinclude> lb7onvtwe2n7dtbkiv4tq2ymji7mhgp Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/176 106 256842 560479 2026-08-25T00:56:47Z Trooper57 24584 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: 132 lancolia e taciturnidade, que muito se approximam do primeiro. Comquanto julgavam os antigos medicos e philosophos que no baço está localizado o riso, (Persio e Horacio nos seos versos o confirmam) comtudo, como esta viscera tem relação com o figado, onde se acreditava residir a colera, a ira, e sendo na opinião dos mesmos antigos a atra bilis causa da melancolia (melas, negro em grego, e kole, bilis), tomaram os inglezes a palav... 560479 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>132 lancolia e taciturnidade, que muito se approximam do primeiro. Comquanto julgavam os antigos medicos e philosophos que no baço está localizado o riso, (Persio e Horacio nos seos versos o confirmam) comtudo, como esta viscera tem relação com o figado, onde se acreditava residir a colera, a ira, e sendo na opinião dos mesmos antigos a atra bilis causa da melancolia (melas, negro em grego, e kole, bilis), tomaram os inglezes a palavra Spleen ( splín ) da latina Splen ( baço ) para exprimir melancolia, taciturnidade, hypocondria. O latim porém, e as linguas que delle se derivam, formaram o termo para exprimir aquelle estado da alma, buscando-o na palavra que significa as regiões do ventre, hypocondrios, e fizeram o vocabulo hypocondria. Tendo portanto nós a palavra hypocondria, já existente na lingua, empregada no latim, e em todos os idiomas descendentes do latim, porque usaremos do barbarismo ? Dirão os britannelhos que hypocondria não é tão expressivo, como Spleen (splin) ? Tal não se póde admittir; porque, si os inglezes formaram o seo vocabulo, tomando-o do nome da viscera que está no hypocondrio esquerdo - o baço - (Splen) , tambem os latinos, e os povos, que falam linguas derivadas da latina, exprimiram a<noinclude></noinclude> tavep9sv6u4f8l4r2vjpfc0ir955fl5 Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/177 106 256843 560480 2026-08-25T00:57:02Z Trooper57 24584 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: 133 mesma idéa, engendrando o vocabulo hypocondria do termo hypocondrios, onde estão situados á direita o figado, e á esquerda o baço ; além de que a origem buscada pelos inglezes não é muito correcta, por ser opinião dos antigos que no baço (splen) estava localizado o riso e no figado a colera, a ira, etc. Não ha portanto, motivo de esquecer hypocondria, e de empregar spleen (splin) . E como me foram concedidas as altas prerogativa... 560480 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>133 mesma idéa, engendrando o vocabulo hypocondria do termo hypocondrios, onde estão situados á direita o figado, e á esquerda o baço ; além de que a origem buscada pelos inglezes não é muito correcta, por ser opinião dos antigos que no baço (splen) estava localizado o riso e no figado a colera, a ira, etc. Não ha portanto, motivo de esquecer hypocondria, e de empregar spleen (splin) . E como me foram concedidas as altas prerogativas da Curia Romana, neste meo Index ver- borum prohibitorum fica lançada mais esta palavra, e portanto excommungada, até por ser protestante.<noinclude></noinclude> a9bhnsznvjm331lfwyhg17j4qh6eawb Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/183 106 256844 560481 2026-08-25T00:57:18Z Trooper57 24584 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: PEIGNOIR XVI Eu bem vejo que na minha qualidade de representante do sexo forte, e sendo, como sou, velho, hei de ter tractado com desaso (não digo gaucherie, porque estou escrevendo portuguez) os assumptos que exclusivamente ás flores da humanidade pertencem ; mas como é bôa a intenção, espero merecer perdão . Vou fazer uma supplica ao bello sexo. É supplica facil de ser attendida ; nem eu ousaria pedir impossiveis. Sei que pela pu... 560481 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>PEIGNOIR XVI Eu bem vejo que na minha qualidade de representante do sexo forte, e sendo, como sou, velho, hei de ter tractado com desaso (não digo gaucherie, porque estou escrevendo portuguez) os assumptos que exclusivamente ás flores da humanidade pertencem ; mas como é bôa a intenção, espero merecer perdão . Vou fazer uma supplica ao bello sexo. É supplica facil de ser attendida ; nem eu ousaria pedir impossiveis. Sei que pela publicação, que d'estes neologismos tenho feito nos jornaes, muitos têm sido os casos de emenda e correcção, principalmente por parte do bello sexo ; razão pela qual espero que elle agora se mostrará exoravel ao pedido, que com o maior respeito lhe dirijo. O sexo, a que pertenço, é vaidoso ; como se denomina forte, não dá o braço a torcer ; e embora reconheça o erro, no erro insiste e persiste.<noinclude></noinclude> jn8d8isfmkt0kvsegt3zi3ky70eigq0 Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/184 106 256845 560482 2026-08-25T00:57:26Z Trooper57 24584 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: 140 Vós, porém, meigas e doceis por natureza, sem fatuidade litteraria, uma vez convencidas da bôa razão, que me assiste para aponctar os vocabulos portuguezes correspondentes aos barbarismos detur- padores da lingua vernacula, não hesitaes um momento, e daes um exemplo de docilidade, que é para mim o mais seguro penhor de triumpho n'esta revolução linguistica. Sereis, portanto, vós as heroinas d'esta batalha, as que marchando na va... 560482 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>140 Vós, porém, meigas e doceis por natureza, sem fatuidade litteraria, uma vez convencidas da bôa razão, que me assiste para aponctar os vocabulos portuguezes correspondentes aos barbarismos detur- padores da lingua vernacula, não hesitaes um momento, e daes um exemplo de docilidade, que é para mim o mais seguro penhor de triumpho n'esta revolução linguistica. Sereis, portanto, vós as heroinas d'esta batalha, as que marchando na vanguarda plantareis no campo dos invasores o estandarte da restauração do nosso formoso idioma. Diante de tão invencivel cohorte não ficará barbarismo por destruir ; serão todos rebatidos e aniquilados. Mas vamos a expor a supplica. Aquelle traje caseiro, que impropriamente chamaes peignoir, e que algumas vezes traduzís por penteador, tem em portuguez nome especial. Denomina-se sem erro penteador (peignoir em francez ) uma especie de camisa de largas mangas, que é vestida pela pessoa, a quem se corta e penteia o cabello. Deram tambem os francezes a mesma deno- minação (peignoir) ao vestido ancho, e folgado, que as senhoras usam nas primeiras horas da manhã, e que muitas vezes durante servam. todo Ο dia con<noinclude></noinclude> oh467v0j1pbrsk2ybxtx6qzkkz8d8mv Página:Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf/185 106 256846 560483 2026-08-25T00:57:31Z Trooper57 24584 /* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: 141 A esse traje chama-se em portuguez, e muito apropriadamente-roupão-(augmentativo de roupa) . Por que dareis então o nome de penteador, e ainda mais por que empregareis o termo francez peignoir, quando esse traje não serve para o fim, que o nome indica ? Despi , portanto, eu vos supplico, o peignoir francez, e vesti o vosso roupão. 560483 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" /></noinclude>141 A esse traje chama-se em portuguez, e muito apropriadamente-roupão-(augmentativo de roupa) . Por que dareis então o nome de penteador, e ainda mais por que empregareis o termo francez peignoir, quando esse traje não serve para o fim, que o nome indica ? Despi , portanto, eu vos supplico, o peignoir francez, e vesti o vosso roupão.<noinclude></noinclude> 0t7380nfrqgzprb6hrb6hqwo4sa084g Página:"Olha a terra, meu amigo, como é que ela é?".pdf/20 106 256847 560485 2026-08-25T01:03:15Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 560485 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rh||{{smaller|MARIA DE FÁTIMA ROSA, ISABEL GOMES DE ALMEIDA}}|}} {{rule|40em|align=right}}</noinclude>Neste caso, no entanto, o rei macedónico teria construído uma espécie de cesta com o intuito de ser transportado<ref>A versão mais antiga deste voo aparece mais tardiamente, por volta dos sécs. V-VI d.C. (KONSTANTAKOS, loannis M. — The flying king: the novelistic Alexander (Pseudo-Callisthenes 2.41) and the traditions of the ancient Orient. ''Classico''. 33:1 (2020) 107).</ref>. A analogia mais evidente dá-se, porventura, durante o voo, quando uma ave com forma humana chama a atenção de Alexandre, tal como a águia teria feito em relação a Etana, para o aspeto da terra vista de tão longe: “Look down on the earth, Alexander!” I looked down, somewhat afraid, and behold, I saw a great snake curled up, and in the middle of the snake a tiny circle like a threshing-floor. Then my companion said to me, “Point your spear at the threshing-floor, for that is the world. The snake is the sea that surrounds the world”<ref>STONEMAN, Richard — ''The Greek Alexander romance''. London: Penguin Classics, 1991, p. 123.</ref>. Não obstante este paralelo, talvez a narrativa com mais ligações a ''Etana'' seja a de Ganimedes, mais antiga, datada de cerca do séc. VI a.C. Na mitologia grega, este jovem herói de Troia é raptado por uma “eagle fell, and his strong talons snatched from Ida far the royal boy, whose aged servitors reached helpless hands to heaven”<ref>Virgílio, Eneida, A. 5.244 (''Perseus Digitallibrary'', https://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc-Perseus%3Atext%3A1999.02.0054%3Abook%3DS%3Acard%3D244, consultado em 02 de Julho de 2022).</ref>, a mando de Zeus<ref>Noutras versões, o próprio deus Zeus se transforma em águia, como em Ovídio.</ref>, Segundo Currie, “there may be some genetic relationship between Ganymedes and Etana myths, but it is unclear, and polygenesis seems as plausible”<ref>Etana in Greece, p. 132.</ref>, uma vez que o topos de um homem transportado por um pássaro seria comum e estaria amplamente difundido. Em ''Etana'', é possível que a águia tenha sido escolhida propositadamente, associando-se simbolicamente a ave, cujo nome acádico seria ''erû/arû'', à ideia de “preparar/despir uma mulher tendo em vista o parto”<ref>''CDA'', p. 80. Ou simplesmente “to be pregnant” (''CAD'' E. p. 325).</ref>, traduzida pelo verbo homófono ''erû''<ref>Cf. KOUBKOVÁ — Fortune and misfortune, p. 378 e WINITZER, Abraham — Etana in Eden: new light on the mesopotamian and biblical tales in their semitic context. ''Journal of the American Oriental Society''. 133:3 (2013) 451.</ref>, Neste sentido, a águia afigurava-se como o veículo perfeito para a obtenção da planta do nascimento. {{dhr|2}} {{left|'''b) A descendência como caminho para a imortalidade'''}} {{dhr|2}} A desgraça que aflige Etana é expressa pelo próprio a Šamaš quando o mesmo lhe suplica “concede-me um filho!” (tab. II, 1. 143). Como referido anteriormente, só através da descendência o comum mortal podia lograr a perpetuidade do seu nome e uma lembrança perene. Os rituais em honra dos antepassados<ref>O ''kispum'' era o ritual em honra dos mortos mais importante. Vide ROSA, Maria de Fátima — ''A percepção do ordem e a'' ''consciência do tempo em Mori no período Paleo-Bobilónico (séc. XIX- XVIII a. C.)''. Tese de Doutoramento apresentada à Universidade Nova de Lisboa, 2014, p. 123, 126-27.</ref>, tão<noinclude> {{rule}} {{smallrefs}} {{left|'''184'''}}</noinclude> pkf8i07jlb47nv01q6bzepvuv4pj2k0 Página:"Olha a terra, meu amigo, como é que ela é?".pdf/21 106 256848 560486 2026-08-25T01:17:45Z Erick Soares3 19404 /* Revistas e corrigidas */ 560486 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rh||{{smaller|MARIA DE FÁTIMA ROSA, ISABEL GOMES DE ALMEIDA}}|}} {{rule|40em|align=right}}</noinclude>comuns na antiga Mesopotâmia, constatam a importância da memória e traduzem a ideia de que a família era pensada como uma unidade complexa e dinâmica. Esta não era apenas constituída pelos membros vivos, mas igualmente por aqueles que ainda estavam por vir e pelos antepassados defuntos, recorrentemente relembrados em celebrações. Assim, o desejo expresso por Etana ao deus sol preve, por via do filho, a sua própria perpetuidade, diríamos mesmo, ''imortalidade''. A ausência de descendentes e os transtornos que esta causava é um ''topos'' relativamente comum no mundo semítico. Não estranhamos, pois, ouvir da boca de Kirta, rei de Habura, servo de Ilu, protagonista do texto épico epónimo, semelhante exortação: “Para qué quiero yo plata y oro amarillo? (...) [Concédeme] que consiga procriar hijos, [dame] que pueda multiplicar [la parentela]”<ref>OLMO LETE, Gregorio del — ''Mitos y leyendas de Canaan según la tradición de Ugarit''. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1981, p. 292.</ref>. Para alguns autores, o motivo principal da composição ugarítica conhecida como ''Epopeia de Kirta'' é precisamente a continuidade dinástica<ref>CAQUOT, A.; HERDNER, A.; SZNYCER, M. — ''Textes ougaritiques: Tome I: mythes et légendes''. Paris: Les Éditions du Cerf, 1974, p. 496.</ref>. Embora o poema tenha contornos muito distintos daqueles que são apresentados em ''Etana'', a sua ''leitmotiv'' parece semelhante: a ideologia real semítica pressupunha a existência de um herdeiro (novamente, sublinhamos que os anseios de Etana se justificam sobretudo pelo facto de ser rei) e, quando tal não se verificava, só o recurso à divindade (Šamaš ou Ilu) podia facilitar a sua conceção. Neste âmbito, a sorte de Etana contrasta com a da águia. Se o rei não tinha filhos, já a águia não só dispunha de uma ninhada própria como ainda cobiçava a da serpente. Curiosamente, como em tantos outras narrativas míticas mesopotâmicas, os animais são, nesta composição, humanizados, comportando-se como se de verdadeiros seres humanos se tratassem. Assim, o redator do texto opta deliberadamente por usar frequentemente a palavra DUMU.MEŠ, “filhos”, ao mencionar as crias nascidas da águia e da serpente<ref>Outras opções seriam ''atmū'' ou ''lidānū'', usadas noutras ocasiões.</ref>. Não obstante, uma diferença abissal persiste, acentuando as dicotomias entre os mundos divino, humano e animal — a língua (tab. III, 1. 2). A águia e Etana não se entendem, não se compreendem, não são capazes, por si só, de ultrapassar a barreira que os impede de conjugar esforços no sentido de superarem as suas dificuldades. Šamaš, ao invés, relembrando a acção das divindades no momento antropogónico — “We, un dieu qui a de lʼentendement (''tēmu''),... De la chair do dieu il y eut un et ''eṭemmu''"<ref>Sobre o jogo de palavras ''ṭēmu/eṭemmu'', vide SEUX, Marie-Joseph — La création du monde et de lʼhomme dans la littérature suméro·akkadienne. In DEROUSSEAUX, Louis, dir. — ''La création dans lʼOrient Ancient: Congrès de lʼACFED, Lille (1985), (LD'' ''127)''. Paris: Les Éditions du Cerf, 1987, p. 72. Através da carne do deus sacrificado, o ser humano criado no ''Mito de Atra·Hasīs'' é capaz de entender, de raciocinar.</ref> — é o único que pode conferir<noinclude>{{rule}} {{smallrefs}} {{right|'''185'''}}</noinclude> hdijcmw21nrlt4eo650ei8qzydcypjw 560487 560486 2026-08-25T01:18:36Z Erick Soares3 19404 560487 proofread-page text/x-wiki <noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rh||{{smaller|MARIA DE FÁTIMA ROSA, ISABEL GOMES DE ALMEIDA}}|}} {{rule|40em|align=right}}</noinclude>comuns na antiga Mesopotâmia, constatam a importância da memória e traduzem a ideia de que a família era pensada como uma unidade complexa e dinâmica. Esta não era apenas constituída pelos membros vivos, mas igualmente por aqueles que ainda estavam por vir e pelos antepassados defuntos, recorrentemente relembrados em celebrações. Assim, o desejo expresso por Etana ao deus sol preve, por via do filho, a sua própria perpetuidade, diríamos mesmo, ''imortalidade''. A ausência de descendentes e os transtornos que esta causava é um ''topos'' relativamente comum no mundo semítico. Não estranhamos, pois, ouvir da boca de Kirta, rei de Habura, servo de Ilu, protagonista do texto épico epónimo, semelhante exortação: “Para qué quiero yo plata y oro amarillo? (...) [Concédeme] que consiga procriar hijos, [dame] que pueda multiplicar [la parentela]”<ref>OLMO LETE, Gregorio del — ''Mitos y leyendas de Canaan según la tradición de Ugarit''. Madrid: Ediciones Cristiandad, 1981, p. 292.</ref>. Para alguns autores, o motivo principal da composição ugarítica conhecida como ''Epopeia de Kirta'' é precisamente a continuidade dinástica<ref>CAQUOT, A.; HERDNER, A.; SZNYCER, M. — ''Textes ougaritiques: Tome I: mythes et légendes''. Paris: Les Éditions du Cerf, 1974, p. 496.</ref>. Embora o poema tenha contornos muito distintos daqueles que são apresentados em ''Etana'', a sua ''leitmotiv'' parece semelhante: a ideologia real semítica pressupunha a existência de um herdeiro (novamente, sublinhamos que os anseios de Etana se justificam sobretudo pelo facto de ser rei) e, quando tal não se verificava, só o recurso à divindade (Šamaš ou Ilu) podia facilitar a sua conceção. Neste âmbito, a sorte de Etana contrasta com a da águia. Se o rei não tinha filhos, já a águia não só dispunha de uma ninhada própria como ainda cobiçava a da serpente. Curiosamente, como em tantos outras narrativas míticas mesopotâmicas, os animais são, nesta composição, humanizados, comportando-se como se de verdadeiros seres humanos se tratassem. Assim, o redator do texto opta deliberadamente por usar frequentemente a palavra DUMU.MEŠ, “filhos”, ao mencionar as crias nascidas da águia e da serpente<ref>Outras opções seriam ''atmū'' ou ''lidānū'', usadas noutras ocasiões.</ref>. Não obstante, uma diferença abissal persiste, acentuando as dicotomias entre os mundos divino, humano e animal — a língua (tab. III, 1. 2). A águia e Etana não se entendem, não se compreendem, não são capazes, por si só, de ultrapassar a barreira que os impede de conjugar esforços no sentido de superarem as suas dificuldades. Šamaš, ao invés, relembrando a acção das divindades no momento antropogónico — “We, un dieu qui a de lʼentendement (''tēmu''),... De la chair do dieu il y eut un et ''eṭemmu''"<ref>Sobre o jogo de palavras ''ṭēmu/eṭemmu'', vide SEUX, Marie-Joseph — La création du monde et de lʼhomme dans la littérature suméro·akkadienne. In DEROUSSEAUX, Louis, dir. — ''La création dans lʼOrient Ancient: Congrès de lʼACFED, Lille (1985), (LD 127)''. Paris: Les Éditions du Cerf, 1987, p. 72. Através da carne do deus sacrificado, o ser humano criado no ''Mito de Atra·Hasīs'' é capaz de entender, de raciocinar.</ref> — é o único que pode conferir<noinclude>{{rule}} {{smallrefs}} {{right|'''185'''}}</noinclude> 46nnlv9aogtujagqpw4jk36wn002nd0 Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/II/X 0 256849 560497 2026-08-25T03:18:45Z Trooper57 24584 [[Ajuda:SEA|←]] nova página: <pages index="Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf" from=161 to=162 header=1 /> 560497 wikitext text/x-wiki <pages index="Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf" from=161 to=162 header=1 /> gglnqfas3oyne95sbzvdu3cbgu9p927 Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/II/XI 0 256850 560501 2026-08-25T03:31:46Z Trooper57 24584 [[Ajuda:SEA|←]] nova página: <pages index="Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf" from=163 to=165 header=1 /> 560501 wikitext text/x-wiki <pages index="Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf" from=163 to=165 header=1 /> 88we4coa3yliivrd6dkok3jk7tt8xv7 Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/II/XII 0 256851 560505 2026-08-25T03:38:05Z Trooper57 24584 [[Ajuda:SEA|←]] nova página: <pages index="Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf" from=167 to=169 header=1 /> 560505 wikitext text/x-wiki <pages index="Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf" from=167 to=169 header=1 /> hankwvimuyzwbey64b9bm1hr00sikq5 Neologismos indispensaveis e barbarismos dispensaveis/II/XIII 0 256852 560510 2026-08-25T04:00:33Z Trooper57 24584 [[Ajuda:SEA|←]] nova página: <pages index="Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf" from=171 to=173 header=1 /> 560510 wikitext text/x-wiki <pages index="Neologismos indispensaveis e barbarismos.pdf" from=171 to=173 header=1 /> shmcod59racqytdzuaxh0qth8tzem7b Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O Bicho-de-sete-cabeças 0 256853 560513 2026-08-25T08:06:28Z Mt516 43586 [[Ajuda:SEA|←]] nova página: {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O Bicho-de-sete-cabeças | anterior = [[../História do Príncipe Luís/]] | posterior = [[../História maravilhosa do Príncipe Urso Doce de Laranja/]] | notas = }} '''<big>O BICHO-DE-SETE-CABEÇAS</big>''' HAVIA noutro tempo um homem que passava a sua vida a pescar e, com o produto do seu trabalho, sustentava a casa e a família. Um dia... 560513 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = O Bicho-de-sete-cabeças | anterior = [[../História do Príncipe Luís/]] | posterior = [[../História maravilhosa do Príncipe Urso Doce de Laranja/]] | notas = }} '''<big>O BICHO-DE-SETE-CABEÇAS</big>''' HAVIA noutro tempo um homem que passava a sua vida a pescar e, com o produto do seu trabalho, sustentava a casa e a família. Um dia, deitando a rede ao mar, apanhou um peixe tão grande como ainda não tinha visto na sua vida já longa de pescador. — Homem — disse-lhe o Peixe — deixa-me ir outra vez para o mar. — Não, bom Peixe, isso não te posso fazer. Quero levar-te à minha mulher, que te há-de cozinhar para a ceia, visto que não pesquei hoje mais nada. — Homem, deixa-me ir embora, que eu ensino-te um lugar onde poderás apanhar tanto peixe quanto quiseres. O homem, ouvindo isto, entendeu que o melhor era deitar o Peixe ao mar, depois de saber o sítio onde devia lançar a rede, a qual veio tão cheia que até se ia rompendo. No dia seguinte voltou à pesca, tornando a vir na rede o mesmo Peixe grande. — Homem — disse-lhe ele — deixa-me ir embora! — Não te farei tal coisa, Grande Peixe, porque ontem vendi tudo quanto pesquei e tenho que te levar para eu comer mais a minha mulher. — Homem, deixa-me ir embora, que eu te ensinarei, em paga, um sítio onde poderás apanhar ainda mais peixe do que ontem. Então o pescador largou o Peixe Grande que lhe ensinou onde pôde pescar tanto quanto a rede podia conter. Quando entrou em casa, ajoujado com o pescado, disse-lhe a mulher: — Ó homem, que fizeste, ontem e hoje, para trazer tanta pesca? — Olha, mulher, ontem e hoje deitei a rede e, num primeiro lanço, só trouxe um peixe, mas tão grande como ainda não tinha visto nenhum. Vai ele pediu-me que o tornasse a deitar à água e em paga ensinou-me o lugar onde pesquei tanto quanto quis. Tu não imaginas, mulher, a quantidade de peixes que vi ontem e hoje! — Escuta, homem, tenho de mim para mim que esse Grande Peixe é um génio do mar, que nos daria felicidade, se tu o apanhasses. Se voltar às redes hás-de trazê-lo. No terceiro dia voltou o homem à pesca e, logo que levantou a rede, veio o Peixe Grande que lhe disse: — Homem, deixa-me ir embora! — Não, não farei isso. — Homem, deixa-me ir embora, que eu em paga te indicarei o lugar onde podes pescar tanto quanto quiseres. — Não, bom Peixe, isso não te posso fazer, porque a minha mulher diz que tu és um génio do mar e então que nos darás felicidade, se te comermos. — É verdade isso, bom homem. A tua mulher tem razão! Eu sou um génio dos mares que fui mandado pelo ''Rei dos Génios'' para te dar felicidade. Em vão quis evitar a sorte. Visto que a tua mulher me quer comer, não há remédio senão levares-me. Logo que chegues a casa, faz-me em postas e dá a cabeça à tua cadela, o rabo à tua burra e o corpo à tua mulher. A cadela há-de ter dois leões, a burra dois cavalos e a tua mulher dois meninos gémeos, lindos como dois sóis. O homem agarrou no Peixe Grande conforme pôde e lá o arrastou até casa. Partiu-o em postas e deu a cabeça à cadela, o rabo à burra e aposta do meio à mulher. Continuou depois a ir todos os dias ao mar e era sempre tão feliz na pesca e na venda do peixe que a sua casa em breve se tornou rica e farta como nenhuma outra do lugar. Passado tempo, a cadela teve dois leõezinhos, a jumenta dois lindos cavalos e a mulher do pescador dois meninos gémeos formosos como dois sóis. A parecença entre os gémeos era tão grande que se tornava impossível distinguir um menino do outro, um leão do companheiro, um cavalo do outro cavalo. Parece que a Fortuna entrara em casa do pescador, com a protecção dos génios do mar. Feito armador de navios e negociando com longes terras, enriqueceu e pôde instruir e educar os seus filhos nas obrigações e ciências da nobre cavalaria. Quando os irmãos se viram com a idade de quinze anos, disseram aos pais que iam ver terras. Despediram-se, montaram os seus bonitos cavalos e, seguidos dos leões, partiram ao acaso pela primeira estrada que viram. Andaram muito tempo, muito tempo, atravessaram muitas cidades e países desconhecidos, sendo o espanto das gentes que jamais tinham visto meninos tão belos e tão semelhantes em tudo. Mas, como as aventuras de um eram as aventuras do outro, resolveram separar-se para depois terem mais que contar. Chegando pois a uma encruzilhada, onde havia uma cruz de pedra, disse o primeiro dos gémeos para o outro: — Irmão, é aqui que nos devemos separar. Tu vais para o Poente e eu irei para o Nascente. Daqui a um ano e um dia havemos de nos juntar neste mesmo sítio. Se eu faltar, tu baterás com a tua espada nesta cruz: se correr sangue, quer dizer que estou em grande perigo e então vai salvar-me; se não correr sangue, poderás ir para casa, que lá nos encontraremos. — O mesmo farás se eu faltar — respondeu o outro — E espero em Deus que se precisares te valerei. Abraçaram-se e partiram cada um para o seu lado. O primeiro seguiu para o Oriente e o segundo para o Ocidente. Durante três dias e três noites seguiu o primeiro por um espesso bosque, onde só ouvia os passarinhos cantar e as terríveis vozes dos animais selvagens. No fim dos três dias chegou às portas duma opulenta cidade onde tudo estava de luto e não se ouviam senão choros e lamentações. O rapaz entrou por ali dentro, seguido do leão, seu fiel companheiro, e perguntou: — Gente da cidade, dizei-me por que razão vos vestis de tão rigoroso dó e não ouço senão prantos adentro destes muros? — Belo estrangeiro, nós temos razão para chorar todas as lágrimas dos nossos olhos e nos carregarmos do mais pesado luto, porque em verdade não há povo mais miserável do que nós somos! — Qual a razão, dizei. Que eu talvez possa dar remédio a vossos males e aflições. — Ah, nobre estrangeiro! Quem poderá ser tão valente que vença o ''Bicho-de-sete-cabeças'' que vive no bosque e cada ano nos leva uma das nossas filhas para a devorar. Hoje termina o prazo e já ontem soubemos que tudo se arrazaria se lhe não levássemos a filha do Rei, pois foi a ela que este ano caiu a sorte. A Princesa é bela como o dia mais belo, e tão boa que todos nos queríamos antes deixar matar do que vê-la partir para o bosque maldito. Ela é que não consentiu em tal e, surda a todos os nossos rogos, foi para o bosque esperar o monstro que a há-de tragar. Os nossos Reis estão à morte com o desgosto. Vêde, nobre cavaleiro, se não temos forte motivo para chorar! — Boa gente desta infeliz cidade — respondeu ele — podeis despir o vosso luto e enxugar essas lágrimas, que eu irei matar o ''Bicho-de-sete-cabeças'' e livrarei a vossa Princesa. — Que Deus vos acompanhe, bravo e belo cavaleiro, e vos guarde de todo o perigo! Enquanto não voltardes nós não sairemos da igreja a rezar pelo bom resultado da vossa audaz empresa. O mancebo sorriu, todo vaidoso da confiança que nele punham, e chamou o leão, gritando: Avança, leão! Depois clamou para o cavalo: Meu bom cavalo, ganha a tua ração! Desembainhou a espada e a galope rasgado do seu valente animal dirigiu-se para o tenebroso bosque, só habitado por génios maus e medonhos bichos. Depois de ter andado três horas por entre o mato sem ver ninguém, encontrou a Princesa bela como o dia, que estava atada a uma árvore. Apeou-se logo e cortejou-a galantemente, como se a encontrasse em sala de palácio, rodeada das suas damas e pagens, e não ali, no bosque maldito, esperando a todo o momento ver chegar o ''Bicho-de-sete-cabeças'' para a devorar. Quando a Princesa viu aquele cavaleiro formoso como o sol, ficou admirada e ao mesmo tempo aflita, e disse-lhe: — Ó nobre estrangeiro, que vindes aqui fazer? Não sabeis que este bosque é para sempre maldito e eu estou esperando o ''Bicho-de-sete-cabeças'' que me há-de comer? Fugi depressa, que já lhe ouço os rugidos. Enquanto ele me comer, podeis vós escapar. — Não me digais isso, Senhora, que me ofendeis! Não vim aqui para fugir como qualquer poltrão, mas sim para matar esse monstro e salvar-vos a vida, que me é mais preciosa que a minha própria. Mal acabara de falar um rugido medonho fez tremer toda a terra. As árvores davam umas nas outras, como se um furação as sacudisse. E o monstro horroroso, sem forma de nenhum animal conhecido, mas tendo parecenças com todos, apareceu. Só vê-lo faria morrer de susto outro menos destemido. A pobre Princesa fechou os olhos perdendo os sentidos. O corpo enorme era escamoso qual o dos peixes; a cauda parecia uma grande serpente; as patas, com garras aduncas, escavavam no chão, como se ali quisesse enterrar o adversário. E tinha sete cabeças de leão, que se abriam já para devorar a menina. Pôs-se o rapaz em guarda, de espada em punho, gritando: Avança, leão! E sete horas contadas ali esteve, ajudado pelo leão, a combater com o terrível ''Bicho-de-sete-cabeças'', acabando por lhe enterrar a espada até ao coração e deixá-lo sem vida. Quando o viu bem morto, foi-se a ele e, com o punhal que trazia ao cinto, cortou-lhe as sete línguas, que meteu num lenço e guardou. Depois desamarrou a Princesa, levou-a para junto dum ribeiro que ali perto corria e, deitando-lhe água no rosto, conseguiu fazê-la voltar à vida. Imagine-se a alegria da pobre menina, quando se viu salva e junto de tão belo cavaleiro. Muito contentes, montaram ambos a cavalo e voltaram à cidade. Quando os viram chegar às portas, o povo todo veio em turbamulta aclamá-los e logo dali os levaram ao colo até ao palácio, onde os Reis, pais da menina, não queriam ver nem falar a ninguém, mergulhados no mais profundo desespero. A menina entrou e foi ter com eles, que iam morrendo de alegria. Agradeceram ao estrangeiro e logo lhe deram a Princesa como esposa. A cidade iluminou-se e toda a noite se passou em descantes e folgares. Ao outro dia houve na Sé um ''Te-Deum'' em acção de graças pela salvação da Princesa e a morte do terrível ''Bicho-de-sete-cabeças'', que apavorava os pobres habitantes daquela rica cidade. Começou depois a cerimónia do casamento da Princesa com o estrangeiro formoso como um sol. Mas havia na cidade um fidalgo que, à força, queria casar com a herdeira do trono, para vir a ser rei daquele povo. Nem a ambição lhe deu a coragem necessária para a salvar. Mas, quando a viu salva, intentou aproveitar-se da obra que não fora capaz de fazer. De manhã muito cedo foi ao bosque e logo encontrou o enorme corpo morto do ''Bicho-de-sete-cabeças''. Cortou-lhe as cabeças, meteu-as num saco e voltou para a cidade. Dizendo o estrangeiro um impostor, afirmava que tinha sido ele quem salvara a Princesa e para prova ali trazia as cabeças do bicho. Clamava que o estrangeiro o deixara a combater com o monstro e fugira com a menina. O povo, que dava mais crédito ao fidalgo seu conhecido que ao estrangeiro, e que está sempre pronto a levar-se pelas últimas impressões, já começava a bradar, querendo matar o noivo, o que faria se não fosse o temor que lhe inspirava o leão. Os Reis perguntaram à filha, e ela, muito apoquentada, porque era seu gosto salvar o estrangeiro, disse que só a ele vira diante do ''Bicho-de-sete-cabeças''. E depois só a ele encontrara, quando voltou a si do desmaio. Não vira o combate, porque de medo desmaiara e desmaiada estivera durante o tempo que ele durou. Mas o fidalgo, amotinando o povo, dizia que a Princesa estava combinada com o estrangeiro. Então o rapaz, que nunca deixara de sorrir e dizia à noiva que não se apoquentasse, voltou-se para a multidão e disse: — O fidalgo trouxe as sete cabeças do bicho, mas o que me admira é que esse monstro não tivesse línguas! — É verdade!... E todos ficaram a olhar para as bocas, sem língua, do bicho, num espanto e indecisão. — Pois as línguas aqui estão — disse, mostrando o lenço onde as guardara. — Como fui eu, e só eu, que matei o monstro, tive o cuidado de lhe cortar as línguas, como agora vou cortar a daquele fidalgo que assim a usa para dizer mentiras. E chegando junto do mentiroso, cortou-lhe a ponta da língua. O povo aclamou-o com delírio e perseguiu o fidalgo com vaias e apupos, até que ele se meteu em casa, cheio de vergonha, e não mais de lá quis sair. O casamento fez-se e os Reis logo mandaram que o estrangeiro fosse jurado herdeiro da coroa. E a Princesa e ele viveram tão felizes que mais se não pode dizer. Um dia o novo Príncipe andava a passear a cavalo, viu ao longe um grande castelo negro e triste. Quando veio para o palácio perguntou à Princesa quem o habitava. — Ó meu querido amigo, Deus te livre de lhe chegares à porta! Ali é a ''Torre da Madorna, onde quem vai não torna!'' — Pois eu hei-de lá ir e hei-de voltar. — Ó meu amado marido, não irás, que não voltarias! Para me dares tal desgosto não valia a pena teres salvo da morte quem então menos a temia do que hoje o perder-te. Chorou muito, mas o Príncipe não desistiu e, partindo em duas partes um anel que trazia, deu-lhe uma metade e disse-lhe que a guardasse, que era o sinal da sua eterna ligação, e ele levou a outra metade. Ao outro dia levantou-se muito cedo, mandou aparelhar o seu cavalo; e incitou o leão e o cavalo, gritando: Meu bom cavalo, ganha a tua ração; e tu avança, leão! E partiu a galope em direcção à ''Torre da Madorna''. Chegou à porta, que era do mais rijo carvalho, chapeada de ferro, e bateu com os copos da espada. — Quem está lá? — perguntou de dentro uma velha, abrindo o postigo. — Sou eu. Abra a porta já, senão arrombo-a. — A porta não a podereis arrombar, que é feita do mais rijo carvalho e chapeada de ferro. Mas eu a abro, meu lindo rapaz, se tu quiseres prender o teu leão com um cabelo da minha cabeça. — O meu leão não faz mal sem eu o mandar; mas, se tem medo, dê cá o cabelo que eu o prendo. A velha meteu um cabelo pelo buraco da fechadura e o rapaz prendeu o leão. Então abriu a porta e disse-lhe: — Ó meu lindo rapaz, quanto eu estimo vê-lo! Olhe, vamos a jogar uma luta! — Eu não me bato com uma mulher, demais a mais já velha como vossemecê. O que eu quero é ver a ''Torre da Madorna, onde quem vem não torna.'' — Mas isto da luta é só por brincadeira. Logo te mostro o castelo. — Pois então aceito, de brincadeira. Começaram uma luta e o Príncipe, que tinha vencido o ''Bicho-de-sete-cabeças'' e era muito valente, viu-se tão aflito com as unhas da feiticeira que gritou: — Avança, leão! — ''Avançará ou não, que os cabelos de velha em cadeias se farão!'' E logo o leão ficou preso e o Príncipe vencido. Depois a velha gelou-lhe o sangue nas veias e fê-lo de pedra e sumiu-o pela terra abaixo, indo juntar-se a muitos outros infelizes que, num subterrâneo, jaziam eternamente encantados. E ficou a Princesa chorando todas as lágrimas do seu coração por o não ver voltar da ''Torre da Madorna''. O outro gémeo, passado um ano e um dia após a separação, chegou à encruzilhada. Não vendo o irmão, bateu com a espada na cruz de pedra e logo o sangue começou a correr. — Ai que meu irmão está em perigo! E metendo logo pelo caminho do Oriente, gritou: Meu cavalo, ganha a tua ração; e tu avança, leão! E a galope através da floresta fez a mesma jornada que tinha feito o primeiro. Mal chegou à cidade e o viram, foram todos a correr dizer à Princesa que ali vinha o esposo montando o cavalo e seguido pelo leão. Eram tão parecidos os gémeos que todos julgavam ter voltado o seu Príncipe. A própria Princesa, quando o viu, correu para ele de braços abertos, imaginando que era o marido. O rapaz, logo que se viu a sós com ela, disse-lhe a verdade, quis saber o que se tinha passado e jurou depois à cunhada que lhe iria desencantar o marido à ''Torre da Madorna''. Quando amanheceu montou a cavalo, gritando: — Meu bom cavalo, ganha a tua ração; e tu avança, leão! E, a galope, chegou à ''Torre da Madorna'' e bateu com os copos da espada na porta de carvalho chapeada de ferro. Como da primeira vez, apareceu a velha feiticeira ao postigo, dizendo: — Quem está lá? — Sou eu que hei-de entrar para ver a ''Torre da Madorna'' e livrar o meu irmão. Venha-me abrir a porta ou eu a arrombo. — Ah! Isso não é possível, porque é de bem rija madeira chapeada de bom ferro. Mas eu lha vou abrir, meu lindo cavaleiro, se prender com um cabelo da minha cabeça o leão que traz consigo. — Pois isso faço eu, que me não custa nada. Passe para cá o cabelo. A velha, muito contente, meteu logo o cabelo pelo buraco da fechadura e ele, fingindo que atava o leão, deitou o cabelo fora. Abriu então a velha as enormes portas que faziam um barulho arrepiador e logo se dirigiu ao cavaleiro com grandes festas, convidando-o para jogarem uma luta. Ele aceitou e lutaram. Quando se viu aflito gritou: — Avança, leão! — ''Avançará ou não, que os cabelos de velha em cadeias se farão!'' Mas o leão, que não estava preso pelo cabelo da feiticeira, deitou-se a ela e já a tinha quase morta quando o dono o mandou parar, pois não lhe fazia conta matá-la sem que lhe apresentasse o irmão. Foi um momento enquanto ela se pôs em pé e muito humilde disse que faria tudo que lhe mandasse. Ordenou-lhe ele que imediatamente lhe entregasse o irmão, e a feiticeira levou-o a um subterrâneo escuro e feio como pode ser a prisão onde uma velha feiticeira prende as suas vítimas. O Príncipe estava ali encantado, assim como outros muitos cavaleiros e damas que tinham batido à porta da ''Torre da Madorna'' a pedir hospitalidade e nunca mais de lá tinham saído. Então disse o cavaleiro: — Quero toda esta gente desencantada! E a maldosa mulher não teve remédio senão fazer voltar à vida todos os infelizes que ali tinha. O primeiro foi o irmão do salvador, que logo o reconheceu e, abraçando-o ternamente, não sabia como agradecer-lhe. Ele e o seu leão eram mais um perigo para a velha, que num instante desencantou toda a gente. Então voltaram todos para cima e não se cansavam de agradecer ao moço cavaleiro que generosamente os tinha salvo. A Torre estava cheia de tanta riqueza em jóias, dinheiro, sedas e tudo quanto de bom há no Mundo, que valia bem um reino. Todos concordaram em que tais preciosidades pertenciam de direito ao segundo gémeo e ele então ofereceu-as, com a sua mão de esposo, a uma linda e boa menina que, com os outros, ali estivera encantada. Era uma humilde pastora que, seguindo uma cabra que lhe fugira, a má sorte levara à ''Torre da Madorna''. Mas para a melhor das boas sortes foi, que encontrou o amor, a riqueza e a felicidade. Resolveram prender a velha, mas já os leões tinham feito justiça por suas próprias garras, pois a haviam morto e devorado. O primeiro irmão estava ansioso por ver a esposa e por isto se puseram os dois a caminho, seguidos de todos os que na ''Torre da Madorna'' penavam havia muito. Quando chegaram à cidade, toda a gente de boca aberta contemplava os dois irmãos sem saber como explicar o caso, pois viam dois homens, dois leões e dois cavalos tão semelhantes, que só pareciam as sombras uns dos outros. Veio a Princesa a correr e, sem saber qual havia de abraçar, disse: — Qual de vós é o meu esposo, que enfim me é restituído? — Senhora, que sinal tendes para o reconhecer? Dizei! — responderam os dois. — Este anel que ele comigo repartiu. Então o Príncipe, seu marido, apresentou a outra parte do anel e abraçou-a. Os dois gémeos mandaram vir os velhos pais que, em casa ora de um, ora de outro, passaram o resto da vida. E todos viveram a melhor felicidade, a que se conquista sofrendo trabalhos. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|O Bicho-de-sete-cabeças]] q22gvjfebcnbatv1pw21rox4d9cu2sd Wikisource:Esplanada/Conferência de Utilizadores com Direitos Estendidos 2026 - candidaturas abertas 4 256854 560515 2026-08-25T08:27:11Z Alchimista 2016 [[Ajuda:SEA|←]] nova página: <div style="float: right; font-family: Calibri; border-style: solid; border-width: 1px; padding: 10px; margin-bottom: 30px; margin-left: 10px;"> [[Ficheiro:Moppy x Baby Globe – barnstar.png|ligação=|centro|200x200px|Moppy x Baby Globe]] <center style="background-color: slategray; color: white; margin-top: 20px;">'''Dados úteis'''</center> ; Data : 11-13 de Dezembro de 2026 ; Local : [[w:Porto|]], [[w:Portugal|]] ; Candidaturas : Abertas até 4 de Setem... 560515 wikitext text/x-wiki <div style="float: right; font-family: Calibri; border-style: solid; border-width: 1px; padding: 10px; margin-bottom: 30px; margin-left: 10px;"> [[Ficheiro:Moppy x Baby Globe – barnstar.png|ligação=|centro|200x200px|Moppy x Baby Globe]] <center style="background-color: slategray; color: white; margin-top: 20px;">'''Dados úteis'''</center> ; Data : 11-13 de Dezembro de 2026 ; Local : [[w:Porto|Porto]], [[w:Portugal|Portugal]] ; Candidaturas : Abertas até 4 de Setembro : Link: [https://wikimediafoundation.limesurvey.net/uwercon2026 Formulário de candidatura] <center style="background-color: slategray; color: white;">'''Contacto'''</center> : <center>uwercon@wikimedia.org</center> ---- </div> ---- Em dezembro de 2026, a [[:wmpt:Wikimedia Portugal|Wikimedia Portugal]] e a Fundação Wikimedia irão organizar a [[m:Users with Extended Rights Conference 2026/pt|Conferência de Utilizadores com Direitos Estendidos 2026]], um encontro inédito destinado a utilizadores com direitos alargados (UwERs). Ao contrário das pré-conferências anteriores, com a duração de um dia, realizadas na Wikimania 2025 e 2026, este será um evento autónomo com a duração de três dias. Este encontro surge na sequência do sucesso dessas duas pré-conferências dedicadas aos UwERs, que incluíram palestras e workshops sobre temas como o recrutamento de administradores, saúde mental e mediação de conflitos, ferramentas de administração e inteligência artificial, entre muitos outros. Construindo sobre essa experiência, este novo evento representa um passo em frente na criação de um espaço dedicado à comunidade de UwERs a nível global. === Processo de candidatura e informações === As candidaturas estão abertas a Wikimedistas com direitos alargados em wikis de conteúdo ou a nível global — incluindo administradores, burocratas, verificadores, supervisores, administradores de sistema, árbitros e membros da U4C —, bem como a utilizadores com funções administrativas semelhantes que participem ativamente na governança de projetos wiki. O processo de seleção dará prioridade a candidatos com experiência demonstrada no trabalho com direitos alargados, que estejam a inovar nas suas áreas e que possam beneficiar da partilha de conhecimentos entre administradores de todas as wikis. [https://wikimediafoundation.limesurvey.net/uwercon2026 Candidata-te já!] Boas contribuições! [[Utilizador:Alchimista|Alchimista]] ([[Utilizador Discussão:Alchimista|discussão]]) 08h26min de 25 de agosto de 2026 (UTC) d5bockndsp16u246h1ra16w97avl42n Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/História maravilhosa do Príncipe Urso Doce de Laranja 0 256855 560516 2026-08-25T09:30:37Z Mt516 43586 [[Ajuda:SEA|←]] nova página: {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = História maravilhosa do Príncipe Urso Doce de Laranja | anterior = [[../O Bicho-de-sete-cabeças/]] | posterior = [[../O homem de pedra/]] | notas = }} '''<big>HISTÓRIA MARAVILHOSA DO PRÍNCIPE URSO DOCE DE LARANJA</big>''' HAVIA uma vez um Rei e uma Rainha, que tinham três filhas. 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Chamaram a Infanta e o Rei interrogou-a sobre o que desejava que lhe trouxesse. — Real Senhor, estou admirada por me perguntar uma coisa que nunca me perguntou! Eu não desejo prenda nenhuma. — Não; hás-de querer forçosamente alguma coisa, ainda que seja pouco. — Pois então, se Vossa Majestade ordena, eu só desejo um ''ramo de flores sem flores''. O Rei despediu-se de todos e partiu para a sua viagem, mas, por mais que procurasse, ninguém lhe sabia dizer onde encontrar a prenda que a filha mais nova pedira. De volta para o seu Reino ia por uma estrada fora, seguido do seu pagem, e já sem esperança de encontrar o que buscava, quando viu uma coisa que em extremo o admirou. Era uma carruagem de ouro, puxada por dois bois também de ouro e dentro um homem com pele e cabeça de urso. — Que tens, bom Rei, que vais tão agoniado? — perguntou. — O que hei-de ter?! A primeira coisa que a minha filha mais nova me pediu não lha posso levar. — Então o que é? — É ''um ramo de flores sem flores''. — Isso sei eu onde existe. Olha, vai andando até encontrar um muro; salta para dentro, que é um jardim; lá encontrarás o que procuras. O Rei assim fez. Foi andando até se lhe deparar o muro e ordenou ao pagem que lhe segurasse o cavalo, enquanto ele saltava dentro. Qual não foi a sua admiração, vendo a mais completa e formosa colecção de flores de todos os países e climas, e, no meio, uma grande e frondosa árvore com o ''ramo de flores sem flores'' — a coisa mais delicada e linda que jamais tinha aparecido aos seus olhos. Deitou-lhe a mão e já lhe chamava sua, quando surgiu debaixo da terra um Gigante, um monstro muito feio, dizendo em voz irada que céus e terra fez tremer: — Há! ladrão! quem te deu ordem para vires tirar a flor mais preciosa do meu jardim?! O rei, mais pequeno que um feijão frade, respondeu cheio de medo: — Sr. Gigante, perdoe o meu atrevimento. Se entrei neste jardim foi porque encontrei um urso dentro dum carro de ouro e ele me disse que só aqui podia encontrar o que a minha filha me pediu. Mas, visto que faz falta, aqui tem o seu ramo. — Não! Já agora que está cortado, podes levá-lo, mas com a condição de me trazeres a dona, no prazo de oito dias. Se isto não fizeres tudo será arrazado no teu reino. O Rei não teve remédio senão prometer que trazia a filha. Foi dali muito triste, tão triste que a Rainha o notou logo e disse: — Real Senhor, qual a causa da vossa tristeza? Dir-se-á que é desgosto por trazerdes a prenda à nossa filha mais nova. — Por causa dela é o meu desgosto, mas não por lhe trazer a prenda — e contou-lhe o acontecido. Depois chamaram as Princesas, deram-lhes os presentes e, quando elas se retiraram, disse a Rainha para o marido: — Não se rale Vossa Majestade com isso. Temos ali a rapariga que guarda os patos, que é muito bonita; manda-se lavar, vestir e preparar e V. Majestade leva-a ao Gigante, como se fosse a nossa filha. — E se ele conhece? — Não conhece, que eu ensino-lhe bem o recado. Combinado isto, mandaram vestir a rapariga com as ricas vestes da Infanta, cobriram-na de jóias, e a Rainha recomendou-lhe: — Olha que tu vais casar com um rei e então não digas que andavas a guardar patos. Hás-de dizer que eras Princesa e passavas o tempo a bordar a sedas. A rapariga, estava por tudo quanto quisessem, contanto que a não tornassem a mandar para os patos. A Princesa mais nova tudo via, mas nada dizia, nem parecia notar. Passados os oito dias, meteu-se o Rei com a rapariga numa carruagem e dirigiram-se para o jardim do Gigante. — Bom — disse este — o que te valeu foi não faltares; deixa a Princesa e podes ir. Foi o que o Rei quis ouvir. Meteu-se na carruagem e tratou de se ir embora, antes que o Gigante desse pelo engano. Pegou o Gigante na mão da falsa Princesa e levou-a ao palácio onde habitava, que era o mais rico e bonito que se pode imaginar. Numa sala luxuosamente mobilada estavam três Princesas a trabalhar. Uma costurava com dedal de ouro e agulha de prata, numa túnica de seda leve. Outra bordava ao bastidor uma tapeçaria onde figuravam cavaleiros e fadas. A terceira fiava numa roca de ouro a lã branca como a neve. Mal o Gigante entrou com a rapariga pela mão, levantaram-se as três damas e delicadamente a cumprimentaram, mas a pobre e ignorante guardadora de patos nem corresponder sabia ao amável acolhimento. Disse-lhes o Gigante: — Manas, aqui vos trago a Princesa; comei, bebei e conversai com ela; levai-a ao jardim e perguniai-lhe se está melhor aqui, se em casa do Rei seu pai. Responderam as três senhoras: — Ai! mano, que ela não é Princesa. Nem sabe cumprimentar. — Vamos a ver! Levaram-na para a sala de jantar, deram-lhe os mais saborosos manjares e os mais delicados vinhos e licores e depois foram para outra sala onde as três tocaram no cravo e cantaram as modas do tempo, pedindo à rapariga que fizesse o mesmo. Ela, que nunca vira coisa semelhante, disse-lhes que não sabia. Foram para o jardim e perguntaram-lhe: — Princesa, onde melhor: aqui ou em casa do Rei seu pai? — Aqui; porque vejo coisas bonitas, que nunca tinha visto, e as Senhoras são muito boas para mim. Lá só via os patos que andava a guardar. As três olharam umas para as outras e, quando à noite veio o Urso — pois ele e o Gigante eram a mesma pessoa — logo lhe disseram: — Então, mano, que lhe dizíamos nós? O Rei esteve a mangar consigo, porque ela é guardadora de patos e não uma Princesa. — Amanhã o ensinarei. Tratem bem a rapariga, deem-lhe as joias e dinheiro que ela quiser, que amanhã voltará para a sua terra. No outro dia apareceu logo de manhã feito urso, meteu-se com a fingida princesa no carro de ouro e dirigiu-se para o palácio do Rei. O pagem, que já o conhecia, mal o avistou, foi a correr ao palácio. — Real Senhor, lá vem o Urso no carro de ouro e traz a guardadora de patos consigo. — Ai que estamos perdidos! — gritaram todos no palácio. Mas o Urso ainda daquela vez não resolvera fazer mal. Entregou a rapariga ao Rei, dizendo: — Como as Princesas não costumam guardar patos não me serve esta que me levaste. Aqui a tens e, daqui a oito dias, ou me levas a tua filha mais nova ou tudo será arrazado neste Reino. Foi-se embora, deixando o Rei muito contrariado. A rapariga é que logo tratou de comprar um palácio e, com o dinheiro que trouxera de casa do Urso, em breve se tornou uma grande dama. Foi a Rainha ter com o Rei e disse-lhe: — Real Senhor, não se amofine! A pequena que anda a guardar perus é mais bonita e mais esperta que a dos patos. Bem vestida e arranjada, pode passar por nossa filha. Combinado isto, trataram de a preparar e de lhe ensinar o recado, para melhor fingir de Princesa. Como da primeira vez, foi o Rei com ela a casa do Urso, que lhe apareceu feito Gigante, numa carruagem de gala. — Aqui está a minha filha! — Vê lá se me enganas! — Não engano! Esta é a verdadeira. — Então podes ir-te embora. E, pegando na mão da rapariga, levou-a aonde as irmãs se encontravam, dizendo: — Manas, esta é que é a Princesa. Mas, como a guardadora de perus não fosse mais civilizada do que a dos patos, logo as três Senhoras se olharam e disseram baixo: — É tão Princesa como a primeira. Levaram-na para a mesa e ela nem sabia pegar no talher, nem comer como senhora. Pediram-lhe que tocasse no cravo e respondeu que não tinha nunca visto tal coisa. Foram para o jardim, andaram passeando e no fim perguntaram-lhe se gostava mais de ali estar, se em casa do Rei seu pai. — Aqui é que eu estou bem, porque só vejo coisas lindas e as Senhoras são muito boas para mim; lá a minha vida era cozer ortigas para os perus. À noite veio o Gigante saber o que se tinha passado e as irmãs disseram-lhe: — Ai! mano, que o Rei anda a enganá-lo! A outra era guardadora de patos, esta guardava perus. — Não importa! Deem à rapariga o que ela quiser, que amanhã lá vou arrazar-lhe o palácio e tudo que pertença a esse homem sem palavra. Mal alvoreceu, transformou-se em Urso, e, mandando vestir a guardadora de perus, meteu-se com ela no carro de ouro e dirigiu-se para o palácio do Rei. Os criados, que já estavam de vigia, quando o avistaram, correram à sala do trono onde o Rei presidia ao conselho e gritaram: — Senhor, Senhor, estamos perdidos, que lá vem o Urso no carro de ouro! Ainda o Rei apertava as mãos à cabeça, a Rainha chorava e os cortesãos procuravam meio de fugir e já o Urso surgia à porta, gritando: — Homem sem palavra, venho arrazar o teu palácio, e tudo que te pertence será destruído, porque me tens enganado! Mas não acabou, que a Princesa mais nova, inocente causa de tudo, apareceu ao cimo da escadaria de mármore, já vestida e preparada para partir. Arrastando nobremente a cauda dos seus vestidos de brocado e segurando nas brancas mãos, cheias de anéis, o ramo de ''flores sem flores'', disse para o Urso, com o melhor dos seus sorrisos: — Senhor, não fareis tal, que eu sou a Princesa que desejais e convosco vou de boa vontade. Despediu-se da mãe, que muito e muito a estimava, do pai, das irmãs e de toda a gente da sua casa — que de todos era querida pela sua muita bondade e delicadeza. O Urso apeou-se e, depois de cavalheirosamente ajudar a jovem senhora a subir para o carro de ouro, voltou-se para o Rei e disse-lhe: — Não o merecias, mas por causa dela serás feliz na guerra e na paz. Depois subiu também e partiram. Quando chegaram ao seu palácio, pegou na mão da Princesa e levou-a até junto das irmãs: — Manas, esta é que é a verdadeira noiva que eu esperava. Comei e bebei com ela e perguntai-lhe onde gosta mais de viver se aqui, se no palácio do seu pai. O Urso foi-se embora e as três damas logo se levantaram e receberam a Princesa com toda a cortezia, a que ela correspondeu devidamente. Sentaram-se à mesa e tão encantadas ficaram com as suas maneiras distintas e conversa interessante, que nenhuma dúvida lhes restava de que fosse uma verdadeira senhora. Sentaram-se ao cravo, cada uma por sua vez; tocaram e cantaram pedindo à menina que fizesse outro tanto, ao que ela acedeu graciosamente, sem se fazer rogada. Tocou e cantou de tal maneira que as três Senhoras não se cansavam de a elogiar. Foram passear ao jardim e perguntaram-lhe então se gostava mais de estar ali, se em casa do Rei seu pai. — Princesas, aqui estou muito bem e esplêndidamente acompanhada. O vosso palácio é muito rico e bonito, sei que me não faltará nada, mas lá sempre estava no que é meu. — Oh! não se apoquente, Princesa! Que mais lhe pertencerá esta do que a casa da sua família. À noite levaram-na para uma câmara elegantíssima, onde nada faltava do que uma senhora precisa e deseja nos seus aposentos. Ajudaram-na a despir e a meter na cama e retiraram-se. Fora, estava o Príncipe Urso Doce de Laranja — que este era o seu nome, mas que de urso nada tinha agora, antes se apresentava como formoso cavaleiro. Perguntou logo: — Então, manas, que dizeis? — Esta sim, esta é uma verdadeira Princesa! E logo lhe contaram o que se tinha passado, com o que ficou muito contente. Ao outro dia disseram elas à menina que tinha de casar com o Príncipe Urso, para que tudo ali lhe pertencesse. Vestiram-na e levaram-na à capela do palácio, mas taparam-lhe os olhos, porque o Príncipe não podia ser visto pela noiva. Assim, casou como o mais lindo homem do seu tempo, imaginando que casava com um feio urso. Depois, só lhe aparecia, quando as luzes já estavam apagadas, de maneira que já tinha três meninas e ainda não conhecia o marido. Um dia, andando a passear com as cunhadas pelo jardim, disse: — Ora também nunca vejo o meu Urso! Eu gostava tanto de o ver! Imediatamente lhe apareceu o Urso e tão feio era que ficou sobressaltada. Mas fingiu que não e fez-lhe muitas festas, com o que ele ficou todo satisfeito. — Agora hás-de dizer-me como te chamas, porque ainda não sei o teu nome — dizia a Princesa. — Chamo-me Príncipe Urso Doce de Laranja, senhor dum grande reino, que tu um dia hás-de ver. — E como se hão-de chamar as nossas três filhas, que ainda não têm nome? — Hão-de chamar-se Fé, Esperança e Caridade. Daí em diante todos os dias se reuniam ali. A Princesa cada vez tratava melhor o marido e eram muito amigos. Uma vez disse-lhe ela: — Deita a cabeça aqui no meu regaço e descansa. Enquanto dormia, passava-lhe as mãos pelas costas, a fazer-lhe festas, e sentiu debaixo dos dedos como que uma abotoadura. Desabotoou quatro botões e viu o corpo branco do Príncipe. Ficou muito contente com a descoberta e daí para diante julgou-se a mais feliz das mulheres. Um dia, estando ambos no jardim, principiou o Urso a abrir a boca como se estivesse a rir com muita vontade, e ela, intrigada, perguntou-lhe: — O que tens, meu Príncipe que tanto riso te causa? — Mal sabes tu porque me rio. — Dize o que é, para também eu me rir. — Não digo, que tu podes fugir-me. — Não fujo, não, que eu gosto muito de ti. — Pois então fica sabendo que é a tua irmã mais velha que se casa. — Não me deixas ir à festa? — Não, porque vais contar o que por cá vês. — Ah! isso não faria eu! Juro que não farei tal. — Vê lá o que dizes! Levo-te lá com as nossas filhas, mas com a condição de te levantares ao primeiro assobio que ouvires, estejas onde estiveres. Ao segundo despedes-te da tua família e ao terceiro hás-de já estar dentro do nosso coche. A Princesa prometeu fazer o que ele mandasse e logo se foi preparar e às três filhas, a mais velha das quais tinha sete anos, a segunda seis e a terceira cinco. Quando os criados do palácio viram chegar o carro de ouro, foram a correr dizer ao Rei e à Rainha que ali vinha o Urso e com ele a Princesa e as três filhas, lindas como três estrelas. Parou o carro, a Princesa apeou-se com as filhas e mandou-as cumprimentar os avós e as tias. A Rainha, que estimava muito aquela filha, recebeu as meninas com grande afecto; agora o Rei, todo zangado, disse: — Minhas netas as filhas dum bicho, isso nunca! — Sim, meu pai! Minhas filhas e do Urso que me faz a mais feliz das mulheres, porque me adora como eu não mereço! O Rei não teve remédio senão calar-se e a filha assistiu ao casamento da irmã, a quem deu muitos e valiosos presentes. Passadas as festas ouviu um grande assobio e imediatamente se pôs em pé, ao segundo despediu-se e ao terceiro estava com as três filhas dentro do carro de ouro onde o Urso as esperava. Partiram para o palácio e continuaram a viver muito contentes como até aí. Passado tempo, tornavam a estar no jardim e viu ela o Urso a rir. Perguntou-lhe logo: — Que tens, meu Príncipe, que te faz rir? — Não digo, por me podes fugir. — Dize, que eu gosto muito de ti; não fujo. — É a tua segunda irmã que se vai casar. — Deixas-me lá ir? — Não deixo, porque vais contar o que por cá se passa. — Não conto nada, juro! — Então vamos. Meteram-se no carro de ouro puxado pelos bois de ouro e dirigiram-se para o palácio do Rei. Mal os avistaram ao longe, correu toda a família a recebê-los e a Rainha disse para a filha que estimava que também o marido entrasse. Ele aceitou o convite e, descendo da carruagem, apresentou-se com toda a nobreza entre os mais cavaleiros da corte. Quando veio a noite, disse a Rainha à filha que pedisse ao marido para ali passarem três dias. Foi-lhe pedir ele disse que sim; ficaram. Depois, foi ainda a Rainha ter com ela e disse-lhe: — Tu hás-de dizer-me uma coisa, dizes? — Se puder, direi, porque muito lhe devo e a estimo, minha senhora mãe. — Pois se tu és minha amiga, hás-de dizer-me se teu marido é um bicho ou se é um homem que anda encantado. A Princesa não queria dizer, mas a mãe tanto pediu, tanto pediu, que ela sempre caíu na tolice de contar que era um homem e a criatura mais perfeita do Mundo. — Pois então, quando ele estiver a dormir, tu hás-de abrir-me a porta do quarto para eu o ver. À noite, quando o Príncipe Urso Doce de Laranja estava dormindo, chamou ela a mãe, que entrou com uma luz e viu que ele era na verdade o homem mais perfeito de quantos conhecia. E depois, vendo aos pés da cama a pele que ele tinha despido, deitou-lhe fogo. Imediatamente se sentiu um grande tremor em todo o palácio e o Príncipe, acordando sobressaltado, viu a sogra e a mulher e disse-lhes: — Ai! desgraçadas que me dobraram o encanto por mais sete anos! E, voltando-se para a esposa, acrescentou: — Agora, se me quiseres ver, hás-de ir procurar-me ao palácio das Janelas Verdes, e só voltas a ser minha mulher, quando tirares da manga desta camisa estes três pingos de sangue. Dizendo isto, desapareceu, deixando a Rainha arrependida do que fizera. Chorou muito a boa Princesa, mas convenceu-se por fim de que as lágrimas só lhe acarretavam lágrimas e mais nenhum remédio traziam à tristeza do seu abandono. Então, despediu-se dos pais e irmãs e acompanhada pela filhas, seguida pela saudade dos que ficavam, partiu em busca do seu Príncipe encantado. Andaram por muitos países, percorreram muitas cidades e em toda a parte lhe diziam não terem nunca ouvido falar no Príncipe Urso Doce de Laranja nem no seu palácio das Janelas Verdes. Até que um dia se meteram por uma estrada deserta e andaram, andaram, por charneca raza, sem sombra de árvore nem frescura de fonte que as confortasse. Só lá para o fim da tarde viram ao longe uma choupana pobre e para lá se dirigiram. À porta estava uma velhinha a quem a Princesa disse: — Minha Senhora, por quem é dê-nos abrigo por esta noite! Pela estrada deserta é hoje a primeira pessoa que encontramos e não podemos ir mais longe, que nos falecem as forças e temos medo de que algum animal bravio nos devore. — Entrai, entrai, que a porta do pobre é sempre aberta ao pobre; assim o fosse às vezes a do rico!... Fê-las entrar, acendeu lume, deu-lhes água para se lavarem e cozinhou a ceia do melhor que tinha. Depois fez duas camas, ficando a menina mais velha com ela e as duas com a mãe. De manhã almoçaram e depois do almoço começou a velha a amolar uma grande faca, dizendo para a pobre mãe: — Qual queres tu, que eu te mate, ou dares-mes a tua Fé? — Isso nem se pergunta, antes quero morrer. Mas as meninas começaram a chorar que não queriam que a sua mãe morresse, e, como a velha parecia incapaz de tratar mal a criança, ela disse: — Pois já que assim o quereis, que fique a minha Fé. Paciência! Por minha culpa perdi o pai e por castigo perco agora a minha rica filha! Chorava que cortava o coração. — Não! Tem fé que a não perdes — disse a velha — Ainda hás-de ser feliz. Atrás de tempo, tempo vem. Toma esta castanha, mas não a abras senão quando te vires em aflição. Despediu-se da filha, cheia de mágoa, e, com a merenda que a velha lhe forneceu para todo o dia, pôs-se a caminho com as outras duas meninas mais novas. Depois de muito andar, e quando já quase não podiam mais, vendo que a noite se avizinhava, dirigiram-se para uma choupana exactamente igual à que primeiro encontraram. Lá lhes apareceu uma velha em tudo semelhante à outra e que as recebeu com o mesmo agrado. Mas de manhã também, depois de ter dormido com a menina Esperança, disse para a Princesa que a ia matar, se lhe não deixasse aquela filha. E, como da primeira vez, a mãe queria morrer, mas as filhas não o consentiram e teve que deixar a segunda menina entregue à segunda velha. Chorando muito, dizia: — Ai! triste de mim, que tão miserável me vejo! Já tive pais e irmãs, boas cunhadas que me queriam como do seu sangue, um esposo que me adorava e filhas que eram a inveja de todos! Agora, que só elas me restavam, também mas vêm roubar e deixam-me mais só e triste, que uma casa em ruinas. E a velha, chorando de pena, deu-lhe uma bolota, consolando-a: — Tem esperança, que sempre o sol vem depois da tempestade! Aqui tens este presente, mas só o hás-de abrir quando te vires nammaior aflição. Depois de receber farnel para a viagem, partiu com a filha mais nova. Andaram sem descanço todo o dia e, quando o sol ia já a declinar e elas quase se não podiam mexer, viram ao longe uma cabana em tudo igual às duas primeiras e uma velha também como as outras. Disse a Princesa para a menina: — Minha filha, não vejo neste campo deserto senão aquela choupana igual às duas onde as tuas irmãs ficaram. Se lá vamos pedir agasalho, roubam-te; se aqui ficamos, seremos devoradas pelas feras! — Minha senhora mãe — respondeu a Caridade, que era de todas a mais esperta e também aquela que a mãe mais estimava — cada qual deve ir ao seu destino. Se o meu é de ficar com outra velha, como as minhas irmãs, a ele me hei-de sujeitar. E o seu, minha mãe, é de procurar desencantar meu pai no palácio das Janelas Verdes. Levada por tão boas razões, foi a Princesa pedir abrigo para essa noite e tudo se passou como das outras vezes. De manhã, quando a velha estava afiando a faca, disse-lhe a menina: — Não se canse, minha Senhora, que eu não quero que a minha mãesinha morra e então de boa vontade fico na sua companhia. Despediu-se a Princesa, mas eram tantas as lágrimas e lamentações que mais parecia que a filha morrera. A velha consolou-a e deu-lhe uma laranja, dizendo: — Descança, que o bom tempo há-de voltar e então darás por bem empregadas as lágrimas que tens chorado para alcançar a felicidade. Aqui tens esta laranja, mas só a podes abrir, quando te vires na maior aflição. Sozinha e triste foi andando até chegar a uma grande cidade entre laranjais, e vendo um palácio com janelas verdes para lá se dirigiu. Logo à entrada estava um grande tanque onde muitas lavadeiras lavavam e palravam como é seu costume. E disse uma: — Parece incrível! Há sete anos a lavar esta camisa do Príncipe e ainda não fui capaz de lhe tirar os três pingos de sangue que tem nesta manga! Respondeu a Princesa, que vinha vestida de peregrina: — Deixe-me lavar a mim, a ver se eu sou mais feliz! — Como é esperta! Eu há sete anos ainda não consegui e ela ainda agora chega e já quer fazer tudo. — Dá-lha lá — disseram as outras lavadeiras — vamos a ver o que faz. Mal que a Princesa meteu a camisa na água, logo desapareceram os três pingos de sangue. A lavadeira quando viu isto, começou a chamá-la feiticeira e deu-lhe tantas pancadas que a Princesa já estava toda coberta de sangue. Como as outras lavadeiras fizeram grande motim a ralhar àquela atrevida que em cima de receber um favor ainda tratava mal quem a servia, chegaram à janela três aias e chamaram a peregrina. Trataram-na muito bem, deram-lhe água para se lavar e fato para se vestir e ela no fim perguntou a quem pertencia aquele palácio. — A senhora vem então de muito longe, para não saber que este é o palácio das Janelas Verdes, residência do mais formoso, rico e sábio soberano do mundo, o Príncipe Urso Doce de Laranja. Hoje acaba o seu encanto e amanhã é o casamento com a Princesa nossa ama. Para isso viemos com o maior séquito que tem atravessado as estradas deste reino. — Ai de mim! — disse a peregrina — que em grande aflição me vejo! Abriu a castanha e saíu de dentro um cãosinho de ouro com os olhos feitos de carbúnculos e a língua dum rubi e todo o pelo de brilhantes e topázios. Saltando para o chão começou a correr e a ladrar atrás das aias, coisa que muito as divertiu. Disse a mais velha: — Ó peregrina não me vende essa prenda? — Não vendo, não, minha senhora; dou-lha se arranjar meio de eu estar a sós com o seu senhor. Combinaram as aias deitar dormideiras no vinho que ele bebia e meter a peregrina no quarto do Príncipe. À noite, quando ele dormia a bom dormir, chamaram-na e fizeram-na entrar para a câmara. Ela, chorando, dizia: — Príncipe Urso Doce de Laranja, tu não me queres ouvir? Olha que por tua causa ando há sete anos a peregrinar; por tua causa perdi as nossas filhas e levei pancadas da lavadeira, quando tirei da manga da tua camisa os três pingos de sangue!... Chorou e gritou toda a noite, mas o Príncipe não se mexeu. Quando as aias a vieram buscar, estava ela ainda mais triste. Abrindo a bolota, saíu de dentro um cavalinho branco feito dum só brilhante, a coisa mais perfeita e graciosa que se tinha visto. Relinchava, corria, andava a passo, tal qual um animal verdadeiro. A segunda aia consentiu em meter a peregrina no quarto do Príncipe para ela lhe dar tão preciosa prenda. Mas também, como a outra, deitou dormideiras no vinho, de maneira que a Princesa chorou e gritou toda a noite sem conseguir acordar o marido. No dia seguinte, vendo que não conseguira nada, abriu a laranja e saiu de dentro um papagaio feito de esmeraldas, a coisa mais formosa que jamais se imaginara. Começou a gritar e a dizer: Papagaio real, papagaio real, o Rei vai casar! A aia ficou louca ao ver coisa tão bela e, para a obter, prometeu meter a peregrina essa noite no quarto do Príncipe. Ora no palácio estavam três alfaiates fazendo três maravilhosas capas, para o Príncipe vestir no dia do casamento. Os artistas trabalhavam de dia e de noite sem descansar e, como ouviram as lamentações daquelas duas noites contaram tudo ao Príncipe. — É ela — pensou — É ela que enfim chegou para acabar com o meu encantamento! E, dizendo aos alfaiates, que se não apoquentassem, mas que não repetissem a ninguém o que tinham ouvido, fingiu nada saber. À noite, em lugar de beber o vinho, deitou-o fora, disfarçadamente. Depois meteu-se na cama e pôs-se a ressonar para imaginarem que dormia a sono solto. Vieram as aias abrir a porta à Princesa e foram-se embora. Começou ela a chamá-lo e a contar as suas tristezas e desgraças e, no fim de tudo ouvir, ele abriu os olhos e abraçaram-se cheios de alegria. Então também ele lhe contou que era ali o seu reino, que no dia seguinte acabava o encanto de que o tinham salvo as irmãs, por terem aprendido para fadas, mas que havia de casar forçosamente, senão ficava outra vez encantado. Por isso, na incerteza se ela chegaria ou não, viera aquela Princesa que era muito boa e não ficaria zangada, quando tudo soubesse; pois ele só queria agora a sua mulher, a mãe das suas filhas, que chegariam também. Saíu do quarto e fechou-o à chave. Quando as aias vieram, deram com o nariz na porta e disseram umas para as outras: — Olhai, já cá não está! Bem dizia a lavadeira que ela era uma bruxa! O Príncipe mandou dizer à noiva que se não podia realizar nesse dia o casamento, por as capas não estarem prontas, mas que dava um grande jantar. No fim do banquete disse ele: — Senhores, quero fazer-lhes uma pergunta. Na minha mocidade fiz uma chave de ouro. Nela trabalhei com amor durante sete anos. Um dia, por fatalidade, perdi-a e depois, desconsolado, mandei fazer uma de prata: Hoje apareceu-me a de ouro. Qual hei-de preferir? Respondeu-lhe a Princesa: — Real Senhor, a chave de ouro éque é a verdadeira. — Obrigado, Senhora, farei como dizeis! Levantando-se, foi buscar a mulher e, trazendo-a pela mão, apresentou-a a toda a corte, ficando todos muito agradados dela, porque na verdade não havia quem lhe ganhasse em simpatia e bondade. Nisto apareceram as três velhas e disse ela para o marido: — As nossas meninas não vêm com quem as deixei! Então é que morreram!... — Nenhum mal lhes aconteceu — responderam as velhas. Batendo com as varinhas de condão, logo surgiram da terra as três meninas, Fé, Esperança e Caridade, feitas em pedra. — Manas — disse para as velhas o Príncipe Urso Doce de Laranja — entreguei-lhes as nossas filhas com vida e com vida as quero, outra vez. — Sim — respondeu a mais velha — em carne nos foram entregues e em pedra as transformámos para melhor as guardar. Endireitaram-se e, de velhas que pareciam ser, ficaram outra vez as belas damas que a Princesa conhecera e estimava como irmãs. Depois tocaram com as varinhas nas estátuas e logo as meninas ficaram vivas e saltaram ao pescoço do pai e da mãe cheias de alvoroço. Mandaram então emissários ao reino da Princesa contar o que se tinha passado e todos, mas principalmente a Rainha, ficaram contentíssimos, por poderem tornar a abraçar aqueles que julgavam perdidos. A lavadeira, arrependida, fugiu e ninguém mais a viu. Acabados todos os maus encantos foi o Príncipe Urso Doce de Laranja o mais feliz dos Príncipes — que nem sempre é a gente mais feliz — e assim terminou a sua história maravilhosa. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|História maravilhosa do Príncipe Urso Doce de Laranja]] m2l3ecnlmabvchzp8vcexxa5alqf374 560518 560516 2026-08-25T09:49:00Z Mt516 43586 560518 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = História maravilhosa do Príncipe Urso Doce de Laranja | anterior = [[../O Bicho-de-sete-cabeças/]] | posterior = [[../O homem de pedra/]] | notas = }} '''<big>HISTÓRIA MARAVILHOSA DO PRÍNCIPE URSO DOCE DE LARANJA</big>''' HAVIA uma vez um Rei e uma Rainha, que tinham três filhas. O Rei todos os anos costumava fazer uma viagem e, quando saía, perguntava sempre às duas filhas mais velhas que prenda queriam que lhes trouxesse, mas sempre se esquecia de perguntar à Princesinha mais nova. Ora a mãe tinha com isto grande desgosto. Uma vez que ele estava para seguir viagem, a Rainha queixou-se amargamente de tal proceder. Respondeu-lhe o Rei: — Tem-me esquecido, mas vou agora perguntar-lhe o que quer, pois não tem sido propósito. Chamaram a Infanta e o Rei interrogou-a sobre o que desejava que lhe trouxesse. — Real Senhor, estou admirada por me perguntar uma coisa que nunca me perguntou! Eu não desejo prenda nenhuma. — Não; hás-de querer forçosamente alguma coisa, ainda que seja pouco. — Pois então, se Vossa Majestade ordena, eu só desejo um ''ramo de flores sem flores''. O Rei despediu-se de todos e partiu para a sua viagem, mas, por mais que procurasse, ninguém lhe sabia dizer onde encontrar a prenda que a filha mais nova pedira. De volta para o seu Reino ia por uma estrada fora, seguido do seu pagem, e já sem esperança de encontrar o que buscava, quando viu uma coisa que em extremo o admirou. Era uma carruagem de ouro, puxada por dois bois também de ouro e dentro um homem com pele e cabeça de urso. — Que tens, bom Rei, que vais tão agoniado? — perguntou. — O que hei-de ter?! A primeira coisa que a minha filha mais nova me pediu não lha posso levar. — Então o que é? — É ''um ramo de flores sem flores''. — Isso sei eu onde existe. Olha, vai andando até encontrar um muro; salta para dentro, que é um jardim; lá encontrarás o que procuras. O Rei assim fez. Foi andando até se lhe deparar o muro e ordenou ao pagem que lhe segurasse o cavalo, enquanto ele saltava dentro. Qual não foi a sua admiração, vendo a mais completa e formosa colecção de flores de todos os países e climas, e, no meio, uma grande e frondosa árvore com o ''ramo de flores sem flores'' — a coisa mais delicada e linda que jamais tinha aparecido aos seus olhos. Deitou-lhe a mão e já lhe chamava sua, quando surgiu debaixo da terra um Gigante, um monstro muito feio, dizendo em voz irada que céus e terra fez tremer: — Há! ladrão! quem te deu ordem para vires tirar a flor mais preciosa do meu jardim?! O rei, mais pequeno que um feijão frade, respondeu cheio de medo: — Sr. Gigante, perdoe o meu atrevimento. Se entrei neste jardim foi porque encontrei um urso dentro dum carro de ouro e ele me disse que só aqui podia encontrar o que a minha filha me pediu. Mas, visto que faz falta, aqui tem o seu ramo. — Não! Já agora que está cortado, podes levá-lo, mas com a condição de me trazeres a dona, no prazo de oito dias. Se isto não fizeres tudo será arrazado no teu reino. O Rei não teve remédio senão prometer que trazia a filha. Foi dali muito triste, tão triste que a Rainha o notou logo e disse: — Real Senhor, qual a causa da vossa tristeza? Dir-se-á que é desgosto por trazerdes a prenda à nossa filha mais nova. — Por causa dela é o meu desgosto, mas não por lhe trazer a prenda — e contou-lhe o acontecido. Depois chamaram as Princesas, deram-lhes os presentes e, quando elas se retiraram, disse a Rainha para o marido: — Não se rale Vossa Majestade com isso. Temos ali a rapariga que guarda os patos, que é muito bonita; manda-se lavar, vestir e preparar e V. Majestade leva-a ao Gigante, como se fosse a nossa filha. — E se ele conhece? — Não conhece, que eu ensino-lhe bem o recado. Combinado isto, mandaram vestir a rapariga com as ricas vestes da Infanta, cobriram-na de jóias, e a Rainha recomendou-lhe: — Olha que tu vais casar com um rei e então não digas que andavas a guardar patos. Hás-de dizer que eras Princesa e passavas o tempo a bordar a sedas. A rapariga, estava por tudo quanto quisessem, contanto que a não tornassem a mandar para os patos. A Princesa mais nova tudo via, mas nada dizia, nem parecia notar. Passados os oito dias, meteu-se o Rei com a rapariga numa carruagem e dirigiram-se para o jardim do Gigante. — Bom — disse este — o que te valeu foi não faltares; deixa a Princesa e podes ir. Foi o que o Rei quis ouvir. Meteu-se na carruagem e tratou de se ir embora, antes que o Gigante desse pelo engano. Pegou o Gigante na mão da falsa Princesa e levou-a ao palácio onde habitava, que era o mais rico e bonito que se pode imaginar. Numa sala luxuosamente mobilada estavam três Princesas a trabalhar. Uma costurava com dedal de ouro e agulha de prata, numa túnica de seda leve. Outra bordava ao bastidor uma tapeçaria onde figuravam cavaleiros e fadas. A terceira fiava numa roca de ouro a lã branca como a neve. Mal o Gigante entrou com a rapariga pela mão, levantaram-se as três damas e delicadamente a cumprimentaram, mas a pobre e ignorante guardadora de patos nem corresponder sabia ao amável acolhimento. Disse-lhes o Gigante: — Manas, aqui vos trago a Princesa; comei, bebei e conversai com ela; levai-a ao jardim e perguntai-lhe se está melhor aqui, se em casa do Rei seu pai. Responderam as três senhoras: — Ai! mano, que ela não é Princesa. Nem sabe cumprimentar. — Vamos a ver! Levaram-na para a sala de jantar, deram-lhe os mais saborosos manjares e os mais delicados vinhos e licores e depois foram para outra sala onde as três tocaram no cravo e cantaram as modas do tempo, pedindo à rapariga que fizesse o mesmo. Ela, que nunca vira coisa semelhante, disse-lhes que não sabia. Foram para o jardim e perguntaram-lhe: — Princesa, onde melhor: aqui ou em casa do Rei seu pai? — Aqui; porque vejo coisas bonitas, que nunca tinha visto, e as Senhoras são muito boas para mim. Lá só via os patos que andava a guardar. As três olharam umas para as outras e, quando à noite veio o Urso — pois ele e o Gigante eram a mesma pessoa — logo lhe disseram: — Então, mano, que lhe dizíamos nós? O Rei esteve a mangar consigo, porque ela é guardadora de patos e não uma Princesa. — Amanhã o ensinarei. Tratem bem a rapariga, deem-lhe as joias e dinheiro que ela quiser, que amanhã voltará para a sua terra. No outro dia apareceu logo de manhã feito urso, meteu-se com a fingida princesa no carro de ouro e dirigiu-se para o palácio do Rei. O pagem, que já o conhecia, mal o avistou, foi a correr ao palácio. — Real Senhor, lá vem o Urso no carro de ouro e traz a guardadora de patos consigo. — Ai que estamos perdidos! — gritaram todos no palácio. Mas o Urso ainda daquela vez não resolvera fazer mal. Entregou a rapariga ao Rei, dizendo: — Como as Princesas não costumam guardar patos não me serve esta que me levaste. Aqui a tens e, daqui a oito dias, ou me levas a tua filha mais nova ou tudo será arrazado neste Reino. Foi-se embora, deixando o Rei muito contrariado. A rapariga é que logo tratou de comprar um palácio e, com o dinheiro que trouxera de casa do Urso, em breve se tornou uma grande dama. Foi a Rainha ter com o Rei e disse-lhe: — Real Senhor, não se amofine! A pequena que anda a guardar perus é mais bonita e mais esperta que a dos patos. Bem vestida e arranjada, pode passar por nossa filha. Combinado isto, trataram de a preparar e de lhe ensinar o recado, para melhor fingir de Princesa. Como da primeira vez, foi o Rei com ela a casa do Urso, que lhe apareceu feito Gigante, numa carruagem de gala. — Aqui está a minha filha! — Vê lá se me enganas! — Não engano! Esta é a verdadeira. — Então podes ir-te embora. E, pegando na mão da rapariga, levou-a aonde as irmãs se encontravam, dizendo: — Manas, esta é que é a Princesa. Mas, como a guardadora de perus não fosse mais civilizada do que a dos patos, logo as três Senhoras se olharam e disseram baixo: — É tão Princesa como a primeira. Levaram-na para a mesa e ela nem sabia pegar no talher, nem comer como senhora. Pediram-lhe que tocasse no cravo e respondeu que não tinha nunca visto tal coisa. Foram para o jardim, andaram passeando e no fim perguntaram-lhe se gostava mais de ali estar, se em casa do Rei seu pai. — Aqui é que eu estou bem, porque só vejo coisas lindas e as Senhoras são muito boas para mim; lá a minha vida era cozer ortigas para os perus. À noite veio o Gigante saber o que se tinha passado e as irmãs disseram-lhe: — Ai! mano, que o Rei anda a enganá-lo! A outra era guardadora de patos, esta guardava perus. — Não importa! Deem à rapariga o que ela quiser, que amanhã lá vou arrazar-lhe o palácio e tudo que pertença a esse homem sem palavra. Mal alvoreceu, transformou-se em Urso, e, mandando vestir a guardadora de perus, meteu-se com ela no carro de ouro e dirigiu-se para o palácio do Rei. Os criados, que já estavam de vigia, quando o avistaram, correram à sala do trono onde o Rei presidia ao conselho e gritaram: — Senhor, Senhor, estamos perdidos, que lá vem o Urso no carro de ouro! Ainda o Rei apertava as mãos à cabeça, a Rainha chorava e os cortesãos procuravam meio de fugir e já o Urso surgia à porta, gritando: — Homem sem palavra, venho arrazar o teu palácio, e tudo que te pertence será destruído, porque me tens enganado! Mas não acabou, que a Princesa mais nova, inocente causa de tudo, apareceu ao cimo da escadaria de mármore, já vestida e preparada para partir. Arrastando nobremente a cauda dos seus vestidos de brocado e segurando nas brancas mãos, cheias de anéis, o ramo de ''flores sem flores'', disse para o Urso, com o melhor dos seus sorrisos: — Senhor, não fareis tal, que eu sou a Princesa que desejais e convosco vou de boa vontade. Despediu-se da mãe, que muito e muito a estimava, do pai, das irmãs e de toda a gente da sua casa — que de todos era querida pela sua muita bondade e delicadeza. O Urso apeou-se e, depois de cavalheirosamente ajudar a jovem senhora a subir para o carro de ouro, voltou-se para o Rei e disse-lhe: — Não o merecias, mas por causa dela serás feliz na guerra e na paz. Depois subiu também e partiram. Quando chegaram ao seu palácio, pegou na mão da Princesa e levou-a até junto das irmãs: — Manas, esta é que é a verdadeira noiva que eu esperava. Comei e bebei com ela e perguntai-lhe onde gosta mais de viver se aqui, se no palácio do seu pai. O Urso foi-se embora e as três damas logo se levantaram e receberam a Princesa com toda a cortezia, a que ela correspondeu devidamente. Sentaram-se à mesa e tão encantadas ficaram com as suas maneiras distintas e conversa interessante, que nenhuma dúvida lhes restava de que fosse uma verdadeira senhora. Sentaram-se ao cravo, cada uma por sua vez; tocaram e cantaram pedindo à menina que fizesse outro tanto, ao que ela acedeu graciosamente, sem se fazer rogada. Tocou e cantou de tal maneira que as três Senhoras não se cansavam de a elogiar. Foram passear ao jardim e perguntaram-lhe então se gostava mais de estar ali, se em casa do Rei seu pai. — Princesas, aqui estou muito bem e esplêndidamente acompanhada. O vosso palácio é muito rico e bonito, sei que me não faltará nada, mas lá sempre estava no que é meu. — Oh! não se apoquente, Princesa! Que mais lhe pertencerá esta do que a casa da sua família. À noite levaram-na para uma câmara elegantíssima, onde nada faltava do que uma senhora precisa e deseja nos seus aposentos. Ajudaram-na a despir e a meter na cama e retiraram-se. Fora, estava o Príncipe Urso Doce de Laranja — que este era o seu nome, mas que de urso nada tinha agora, antes se apresentava como formoso cavaleiro. Perguntou logo: — Então, manas, que dizeis? — Esta sim, esta é uma verdadeira Princesa! E logo lhe contaram o que se tinha passado, com o que ficou muito contente. Ao outro dia disseram elas à menina que tinha de casar com o Príncipe Urso, para que tudo ali lhe pertencesse. Vestiram-na e levaram-na à capela do palácio, mas taparam-lhe os olhos, porque o Príncipe não podia ser visto pela noiva. Assim, casou como o mais lindo homem do seu tempo, imaginando que casava com um feio urso. Depois, só lhe aparecia, quando as luzes já estavam apagadas, de maneira que já tinha três meninas e ainda não conhecia o marido. Um dia, andando a passear com as cunhadas pelo jardim, disse: — Ora também nunca vejo o meu Urso! Eu gostava tanto de o ver! Imediatamente lhe apareceu o Urso e tão feio era que ficou sobressaltada. Mas fingiu que não e fez-lhe muitas festas, com o que ele ficou todo satisfeito. — Agora hás-de dizer-me como te chamas, porque ainda não sei o teu nome — dizia a Princesa. — Chamo-me Príncipe Urso Doce de Laranja, senhor dum grande reino, que tu um dia hás-de ver. — E como se hão-de chamar as nossas três filhas, que ainda não têm nome? — Hão-de chamar-se Fé, Esperança e Caridade. Daí em diante todos os dias se reuniam ali. A Princesa cada vez tratava melhor o marido e eram muito amigos. Uma vez disse-lhe ela: — Deita a cabeça aqui no meu regaço e descansa. Enquanto dormia, passava-lhe as mãos pelas costas, a fazer-lhe festas, e sentiu debaixo dos dedos como que uma abotoadura. Desabotoou quatro botões e viu o corpo branco do Príncipe. Ficou muito contente com a descoberta e daí para diante julgou-se a mais feliz das mulheres. Um dia, estando ambos no jardim, principiou o Urso a abrir a boca como se estivesse a rir com muita vontade, e ela, intrigada, perguntou-lhe: — O que tens, meu Príncipe que tanto riso te causa? — Mal sabes tu porque me rio. — Dize o que é, para também eu me rir. — Não digo, que tu podes fugir-me. — Não fujo, não, que eu gosto muito de ti. — Pois então fica sabendo que é a tua irmã mais velha que se casa. — Não me deixas ir à festa? — Não, porque vais contar o que por cá vês. — Ah! isso não faria eu! Juro que não farei tal. — Vê lá o que dizes! Levo-te lá com as nossas filhas, mas com a condição de te levantares ao primeiro assobio que ouvires, estejas onde estiveres. Ao segundo despedes-te da tua família e ao terceiro hás-de já estar dentro do nosso coche. A Princesa prometeu fazer o que ele mandasse e logo se foi preparar e às três filhas, a mais velha das quais tinha sete anos, a segunda seis e a terceira cinco. Quando os criados do palácio viram chegar o carro de ouro, foram a correr dizer ao Rei e à Rainha que ali vinha o Urso e com ele a Princesa e as três filhas, lindas como três estrelas. Parou o carro, a Princesa apeou-se com as filhas e mandou-as cumprimentar os avós e as tias. A Rainha, que estimava muito aquela filha, recebeu as meninas com grande afecto; agora o Rei, todo zangado, disse: — Minhas netas as filhas dum bicho, isso nunca! — Sim, meu pai! Minhas filhas e do Urso que me faz a mais feliz das mulheres, porque me adora como eu não mereço! O Rei não teve remédio senão calar-se e a filha assistiu ao casamento da irmã, a quem deu muitos e valiosos presentes. Passadas as festas ouviu um grande assobio e imediatamente se pôs em pé, ao segundo despediu-se e ao terceiro estava com as três filhas dentro do carro de ouro onde o Urso as esperava. Partiram para o palácio e continuaram a viver muito contentes como até aí. Passado tempo, tornavam a estar no jardim e viu ela o Urso a rir. Perguntou-lhe logo: — Que tens, meu Príncipe, que te faz rir? — Não digo, por me podes fugir. — Dize, que eu gosto muito de ti; não fujo. — É a tua segunda irmã que se vai casar. — Deixas-me lá ir? — Não deixo, porque vais contar o que por cá se passa. — Não conto nada, juro! — Então vamos. Meteram-se no carro de ouro puxado pelos bois de ouro e dirigiram-se para o palácio do Rei. Mal os avistaram ao longe, correu toda a família a recebê-los e a Rainha disse para a filha que estimava que também o marido entrasse. Ele aceitou o convite e, descendo da carruagem, apresentou-se com toda a nobreza entre os mais cavaleiros da corte. Quando veio a noite, disse a Rainha à filha que pedisse ao marido para ali passarem três dias. Foi-lhe pedir ele disse que sim; ficaram. Depois, foi ainda a Rainha ter com ela e disse-lhe: — Tu hás-de dizer-me uma coisa, dizes? — Se puder, direi, porque muito lhe devo e a estimo, minha senhora mãe. — Pois se tu és minha amiga, hás-de dizer-me se teu marido é um bicho ou se é um homem que anda encantado. A Princesa não queria dizer, mas a mãe tanto pediu, tanto pediu, que ela sempre caíu na tolice de contar que era um homem e a criatura mais perfeita do Mundo. — Pois então, quando ele estiver a dormir, tu hás-de abrir-me a porta do quarto para eu o ver. À noite, quando o Príncipe Urso Doce de Laranja estava dormindo, chamou ela a mãe, que entrou com uma luz e viu que ele era na verdade o homem mais perfeito de quantos conhecia. E depois, vendo aos pés da cama a pele que ele tinha despido, deitou-lhe fogo. Imediatamente se sentiu um grande tremor em todo o palácio e o Príncipe, acordando sobressaltado, viu a sogra e a mulher e disse-lhes: — Ai! desgraçadas que me dobraram o encanto por mais sete anos! E, voltando-se para a esposa, acrescentou: — Agora, se me quiseres ver, hás-de ir procurar-me ao palácio das Janelas Verdes, e só voltas a ser minha mulher, quando tirares da manga desta camisa estes três pingos de sangue. Dizendo isto, desapareceu, deixando a Rainha arrependida do que fizera. Chorou muito a boa Princesa, mas convenceu-se por fim de que as lágrimas só lhe acarretavam lágrimas e mais nenhum remédio traziam à tristeza do seu abandono. Então, despediu-se dos pais e irmãs e acompanhada pela filhas, seguida pela saudade dos que ficavam, partiu em busca do seu Príncipe encantado. Andaram por muitos países, percorreram muitas cidades e em toda a parte lhe diziam não terem nunca ouvido falar no Príncipe Urso Doce de Laranja nem no seu palácio das Janelas Verdes. Até que um dia se meteram por uma estrada deserta e andaram, andaram, por charneca raza, sem sombra de árvore nem frescura de fonte que as confortasse. Só lá para o fim da tarde viram ao longe uma choupana pobre e para lá se dirigiram. À porta estava uma velhinha a quem a Princesa disse: — Minha Senhora, por quem é dê-nos abrigo por esta noite! Pela estrada deserta é hoje a primeira pessoa que encontramos e não podemos ir mais longe, que nos falecem as forças e temos medo de que algum animal bravio nos devore. — Entrai, entrai, que a porta do pobre é sempre aberta ao pobre; assim o fosse às vezes a do rico!... Fê-las entrar, acendeu lume, deu-lhes água para se lavarem e cozinhou a ceia do melhor que tinha. Depois fez duas camas, ficando a menina mais velha com ela e as duas com a mãe. De manhã almoçaram e depois do almoço começou a velha a amolar uma grande faca, dizendo para a pobre mãe: — Qual queres tu, que eu te mate, ou dares-mes a tua Fé? — Isso nem se pergunta, antes quero morrer. Mas as meninas começaram a chorar que não queriam que a sua mãe morresse, e, como a velha parecia incapaz de tratar mal a criança, ela disse: — Pois já que assim o quereis, que fique a minha Fé. Paciência! Por minha culpa perdi o pai e por castigo perco agora a minha rica filha! Chorava que cortava o coração. — Não! Tem fé que a não perdes — disse a velha — Ainda hás-de ser feliz. Atrás de tempo, tempo vem. Toma esta castanha, mas não a abras senão quando te vires em aflição. Despediu-se da filha, cheia de mágoa, e, com a merenda que a velha lhe forneceu para todo o dia, pôs-se a caminho com as outras duas meninas mais novas. Depois de muito andar, e quando já quase não podiam mais, vendo que a noite se avizinhava, dirigiram-se para uma choupana exactamente igual à que primeiro encontraram. Lá lhes apareceu uma velha em tudo semelhante à outra e que as recebeu com o mesmo agrado. Mas de manhã também, depois de ter dormido com a menina Esperança, disse para a Princesa que a ia matar, se lhe não deixasse aquela filha. E, como da primeira vez, a mãe queria morrer, mas as filhas não o consentiram e teve que deixar a segunda menina entregue à segunda velha. Chorando muito, dizia: — Ai! triste de mim, que tão miserável me vejo! Já tive pais e irmãs, boas cunhadas que me queriam como do seu sangue, um esposo que me adorava e filhas que eram a inveja de todos! Agora, que só elas me restavam, também mas vêm roubar e deixam-me mais só e triste, que uma casa em ruinas. E a velha, chorando de pena, deu-lhe uma bolota, consolando-a: — Tem esperança, que sempre o sol vem depois da tempestade! Aqui tens este presente, mas só o hás-de abrir quando te vires na maior aflição. Depois de receber farnel para a viagem, partiu com a filha mais nova. Andaram sem descanço todo o dia e, quando o sol ia já a declinar e elas quase se não podiam mexer, viram ao longe uma cabana em tudo igual às duas primeiras e uma velha também como as outras. Disse a Princesa para a menina: — Minha filha, não vejo neste campo deserto senão aquela choupana igual às duas onde as tuas irmãs ficaram. Se lá vamos pedir agasalho, roubam-te; se aqui ficamos, seremos devoradas pelas feras! — Minha senhora mãe — respondeu a Caridade, que era de todas a mais esperta e também aquela que a mãe mais estimava — cada qual deve ir ao seu destino. Se o meu é de ficar com outra velha, como as minhas irmãs, a ele me hei-de sujeitar. E o seu, minha mãe, é de procurar desencantar meu pai no palácio das Janelas Verdes. Levada por tão boas razões, foi a Princesa pedir abrigo para essa noite e tudo se passou como das outras vezes. De manhã, quando a velha estava afiando a faca, disse-lhe a menina: — Não se canse, minha Senhora, que eu não quero que a minha mãesinha morra e então de boa vontade fico na sua companhia. Despediu-se a Princesa, mas eram tantas as lágrimas e lamentações que mais parecia que a filha morrera. A velha consolou-a e deu-lhe uma laranja, dizendo: — Descança, que o bom tempo há-de voltar e então darás por bem empregadas as lágrimas que tens chorado para alcançar a felicidade. Aqui tens esta laranja, mas só a podes abrir, quando te vires na maior aflição. Sozinha e triste foi andando até chegar a uma grande cidade entre laranjais, e vendo um palácio com janelas verdes para lá se dirigiu. Logo à entrada estava um grande tanque onde muitas lavadeiras lavavam e palravam como é seu costume. E disse uma: — Parece incrível! Há sete anos a lavar esta camisa do Príncipe e ainda não fui capaz de lhe tirar os três pingos de sangue que tem nesta manga! Respondeu a Princesa, que vinha vestida de peregrina: — Deixe-me lavar a mim, a ver se eu sou mais feliz! — Como é esperta! Eu há sete anos ainda não consegui e ela ainda agora chega e já quer fazer tudo. — Dá-lha lá — disseram as outras lavadeiras — vamos a ver o que faz. Mal que a Princesa meteu a camisa na água, logo desapareceram os três pingos de sangue. A lavadeira quando viu isto, começou a chamá-la feiticeira e deu-lhe tantas pancadas que a Princesa já estava toda coberta de sangue. Como as outras lavadeiras fizeram grande motim a ralhar àquela atrevida que em cima de receber um favor ainda tratava mal quem a servia, chegaram à janela três aias e chamaram a peregrina. Trataram-na muito bem, deram-lhe água para se lavar e fato para se vestir e ela no fim perguntou a quem pertencia aquele palácio. — A senhora vem então de muito longe, para não saber que este é o palácio das Janelas Verdes, residência do mais formoso, rico e sábio soberano do mundo, o Príncipe Urso Doce de Laranja. Hoje acaba o seu encanto e amanhã é o casamento com a Princesa nossa ama. Para isso viemos com o maior séquito que tem atravessado as estradas deste reino. — Ai de mim! — disse a peregrina — que em grande aflição me vejo! Abriu a castanha e saíu de dentro um cãosinho de ouro com os olhos feitos de carbúnculos e a língua dum rubi e todo o pelo de brilhantes e topázios. Saltando para o chão começou a correr e a ladrar atrás das aias, coisa que muito as divertiu. Disse a mais velha: — Ó peregrina não me vende essa prenda? — Não vendo, não, minha senhora; dou-lha se arranjar meio de eu estar a sós com o seu senhor. Combinaram as aias deitar dormideiras no vinho que ele bebia e meter a peregrina no quarto do Príncipe. À noite, quando ele dormia a bom dormir, chamaram-na e fizeram-na entrar para a câmara. Ela, chorando, dizia: — Príncipe Urso Doce de Laranja, tu não me queres ouvir? Olha que por tua causa ando há sete anos a peregrinar; por tua causa perdi as nossas filhas e levei pancadas da lavadeira, quando tirei da manga da tua camisa os três pingos de sangue!... Chorou e gritou toda a noite, mas o Príncipe não se mexeu. Quando as aias a vieram buscar, estava ela ainda mais triste. Abrindo a bolota, saíu de dentro um cavalinho branco feito dum só brilhante, a coisa mais perfeita e graciosa que se tinha visto. Relinchava, corria, andava a passo, tal qual um animal verdadeiro. A segunda aia consentiu em meter a peregrina no quarto do Príncipe para ela lhe dar tão preciosa prenda. Mas também, como a outra, deitou dormideiras no vinho, de maneira que a Princesa chorou e gritou toda a noite sem conseguir acordar o marido. No dia seguinte, vendo que não conseguira nada, abriu a laranja e saiu de dentro um papagaio feito de esmeraldas, a coisa mais formosa que jamais se imaginara. Começou a gritar e a dizer: Papagaio real, papagaio real, o Rei vai casar! A aia ficou louca ao ver coisa tão bela e, para a obter, prometeu meter a peregrina essa noite no quarto do Príncipe. Ora no palácio estavam três alfaiates fazendo três maravilhosas capas, para o Príncipe vestir no dia do casamento. Os artistas trabalhavam de dia e de noite sem descansar e, como ouviram as lamentações daquelas duas noites contaram tudo ao Príncipe. — É ela — pensou — É ela que enfim chegou para acabar com o meu encantamento! E, dizendo aos alfaiates, que se não apoquentassem, mas que não repetissem a ninguém o que tinham ouvido, fingiu nada saber. À noite, em lugar de beber o vinho, deitou-o fora, disfarçadamente. Depois meteu-se na cama e pôs-se a ressonar para imaginarem que dormia a sono solto. Vieram as aias abrir a porta à Princesa e foram-se embora. Começou ela a chamá-lo e a contar as suas tristezas e desgraças e, no fim de tudo ouvir, ele abriu os olhos e abraçaram-se cheios de alegria. Então também ele lhe contou que era ali o seu reino, que no dia seguinte acabava o encanto de que o tinham salvo as irmãs, por terem aprendido para fadas, mas que havia de casar forçosamente, senão ficava outra vez encantado. Por isso, na incerteza se ela chegaria ou não, viera aquela Princesa que era muito boa e não ficaria zangada, quando tudo soubesse; pois ele só queria agora a sua mulher, a mãe das suas filhas, que chegariam também. Saíu do quarto e fechou-o à chave. Quando as aias vieram, deram com o nariz na porta e disseram umas para as outras: — Olhai, já cá não está! Bem dizia a lavadeira que ela era uma bruxa! O Príncipe mandou dizer à noiva que se não podia realizar nesse dia o casamento, por as capas não estarem prontas, mas que dava um grande jantar. No fim do banquete disse ele: — Senhores, quero fazer-lhes uma pergunta. Na minha mocidade fiz uma chave de ouro. Nela trabalhei com amor durante sete anos. Um dia, por fatalidade, perdi-a e depois, desconsolado, mandei fazer uma de prata: Hoje apareceu-me a de ouro. Qual hei-de preferir? Respondeu-lhe a Princesa: — Real Senhor, a chave de ouro éque é a verdadeira. — Obrigado, Senhora, farei como dizeis! Levantando-se, foi buscar a mulher e, trazendo-a pela mão, apresentou-a a toda a corte, ficando todos muito agradados dela, porque na verdade não havia quem lhe ganhasse em simpatia e bondade. Nisto apareceram as três velhas e disse ela para o marido: — As nossas meninas não vêm com quem as deixei! Então é que morreram!... — Nenhum mal lhes aconteceu — responderam as velhas. Batendo com as varinhas de condão, logo surgiram da terra as três meninas, Fé, Esperança e Caridade, feitas em pedra. — Manas — disse para as velhas o Príncipe Urso Doce de Laranja — entreguei-lhes as nossas filhas com vida e com vida as quero, outra vez. — Sim — respondeu a mais velha — em carne nos foram entregues e em pedra as transformámos para melhor as guardar. Endireitaram-se e, de velhas que pareciam ser, ficaram outra vez as belas damas que a Princesa conhecera e estimava como irmãs. Depois tocaram com as varinhas nas estátuas e logo as meninas ficaram vivas e saltaram ao pescoço do pai e da mãe cheias de alvoroço. Mandaram então emissários ao reino da Princesa contar o que se tinha passado e todos, mas principalmente a Rainha, ficaram contentíssimos, por poderem tornar a abraçar aqueles que julgavam perdidos. A lavadeira, arrependida, fugiu e ninguém mais a viu. Acabados todos os maus encantos foi o Príncipe Urso Doce de Laranja o mais feliz dos Príncipes — que nem sempre é a gente mais feliz — e assim terminou a sua história maravilhosa. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|História maravilhosa do Príncipe Urso Doce de Laranja]] f46k4h97ypjpailpe4u11v5h6w4yzal 560519 560518 2026-08-25T09:54:21Z Mt516 43586 560519 wikitext text/x-wiki {{navegar | título = [[../]] | autor = Ana de Castro Osório | tradutor = | seção = História maravilhosa do Príncipe Urso Doce de Laranja | anterior = [[../O Bicho-de-sete-cabeças/]] | posterior = [[../O homem de pedra/]] | notas = }} '''<big>HISTÓRIA MARAVILHOSA DO PRÍNCIPE URSO DOCE DE LARANJA</big>''' HAVIA uma vez um Rei e uma Rainha, que tinham três filhas. O Rei todos os anos costumava fazer uma viagem e, quando saía, perguntava sempre às duas filhas mais velhas que prenda queriam que lhes trouxesse, mas sempre se esquecia de perguntar à Princesinha mais nova. Ora a mãe tinha com isto grande desgosto. Uma vez que ele estava para seguir viagem, a Rainha queixou-se amargamente de tal proceder. Respondeu-lhe o Rei: — Tem-me esquecido, mas vou agora perguntar-lhe o que quer, pois não tem sido propósito. Chamaram a Infanta e o Rei interrogou-a sobre o que desejava que lhe trouxesse. — Real Senhor, estou admirada por me perguntar uma coisa que nunca me perguntou! Eu não desejo prenda nenhuma. — Não; hás-de querer forçosamente alguma coisa, ainda que seja pouco. — Pois então, se Vossa Majestade ordena, eu só desejo um ''ramo de flores sem flores''. O Rei despediu-se de todos e partiu para a sua viagem, mas, por mais que procurasse, ninguém lhe sabia dizer onde encontrar a prenda que a filha mais nova pedira. De volta para o seu Reino ia por uma estrada fora, seguido do seu pagem, e já sem esperança de encontrar o que buscava, quando viu uma coisa que em extremo o admirou. Era uma carruagem de ouro, puxada por dois bois também de ouro e dentro um homem com pele e cabeça de urso. — Que tens, bom Rei, que vais tão agoniado? — perguntou. — O que hei-de ter?! A primeira coisa que a minha filha mais nova me pediu não lha posso levar. — Então o que é? — É ''um ramo de flores sem flores''. — Isso sei eu onde existe. Olha, vai andando até encontrar um muro; salta para dentro, que é um jardim; lá encontrarás o que procuras. O Rei assim fez. Foi andando até se lhe deparar o muro e ordenou ao pagem que lhe segurasse o cavalo, enquanto ele saltava dentro. Qual não foi a sua admiração, vendo a mais completa e formosa colecção de flores de todos os países e climas, e, no meio, uma grande e frondosa árvore com o ''ramo de flores sem flores'' — a coisa mais delicada e linda que jamais tinha aparecido aos seus olhos. Deitou-lhe a mão e já lhe chamava sua, quando surgiu debaixo da terra um Gigante, um monstro muito feio, dizendo em voz irada que céus e terra fez tremer: — Há! ladrão! quem te deu ordem para vires tirar a flor mais preciosa do meu jardim?! O rei, mais pequeno que um feijão frade, respondeu cheio de medo: — Sr. Gigante, perdoe o meu atrevimento. Se entrei neste jardim foi porque encontrei um urso dentro dum carro de ouro e ele me disse que só aqui podia encontrar o que a minha filha me pediu. Mas, visto que faz falta, aqui tem o seu ramo. — Não! Já agora que está cortado, podes levá-lo, mas com a condição de me trazeres a dona, no prazo de oito dias. Se isto não fizeres tudo será arrazado no teu reino. O Rei não teve remédio senão prometer que trazia a filha. Foi dali muito triste, tão triste que a Rainha o notou logo e disse: — Real Senhor, qual a causa da vossa tristeza? Dir-se-á que é desgosto por trazerdes a prenda à nossa filha mais nova. — Por causa dela é o meu desgosto, mas não por lhe trazer a prenda — e contou-lhe o acontecido. Depois chamaram as Princesas, deram-lhes os presentes e, quando elas se retiraram, disse a Rainha para o marido: — Não se rale Vossa Majestade com isso. Temos ali a rapariga que guarda os patos, que é muito bonita; manda-se lavar, vestir e preparar e V. Majestade leva-a ao Gigante, como se fosse a nossa filha. — E se ele conhece? — Não conhece, que eu ensino-lhe bem o recado. Combinado isto, mandaram vestir a rapariga com as ricas vestes da Infanta, cobriram-na de jóias, e a Rainha recomendou-lhe: — Olha que tu vais casar com um rei e então não digas que andavas a guardar patos. Hás-de dizer que eras Princesa e passavas o tempo a bordar a sedas. A rapariga, estava por tudo quanto quisessem, contanto que a não tornassem a mandar para os patos. A Princesa mais nova tudo via, mas nada dizia, nem parecia notar. Passados os oito dias, meteu-se o Rei com a rapariga numa carruagem e dirigiram-se para o jardim do Gigante. — Bom — disse este — o que te valeu foi não faltares; deixa a Princesa e podes ir. Foi o que o Rei quis ouvir. Meteu-se na carruagem e tratou de se ir embora, antes que o Gigante desse pelo engano. Pegou o Gigante na mão da falsa Princesa e levou-a ao palácio onde habitava, que era o mais rico e bonito que se pode imaginar. Numa sala luxuosamente mobilada estavam três Princesas a trabalhar. Uma costurava com dedal de ouro e agulha de prata, numa túnica de seda leve. Outra bordava ao bastidor uma tapeçaria onde figuravam cavaleiros e fadas. A terceira fiava numa roca de ouro a lã branca como a neve. Mal o Gigante entrou com a rapariga pela mão, levantaram-se as três damas e delicadamente a cumprimentaram, mas a pobre e ignorante guardadora de patos nem corresponder sabia ao amável acolhimento. Disse-lhes o Gigante: — Manas, aqui vos trago a Princesa; comei, bebei e conversai com ela; levai-a ao jardim e perguntai-lhe se está melhor aqui, se em casa do Rei seu pai. Responderam as três senhoras: — Ai! mano, que ela não é Princesa. Nem sabe cumprimentar. — Vamos a ver! Levaram-na para a sala de jantar, deram-lhe os mais saborosos manjares e os mais delicados vinhos e licores e depois foram para outra sala onde as três tocaram no cravo e cantaram as modas do tempo, pedindo à rapariga que fizesse o mesmo. Ela, que nunca vira coisa semelhante, disse-lhes que não sabia. Foram para o jardim e perguntaram-lhe: — Princesa, onde melhor: aqui ou em casa do Rei seu pai? — Aqui; porque vejo coisas bonitas, que nunca tinha visto, e as Senhoras são muito boas para mim. Lá só via os patos que andava a guardar. As três olharam umas para as outras e, quando à noite veio o Urso — pois ele e o Gigante eram a mesma pessoa — logo lhe disseram: — Então, mano, que lhe dizíamos nós? O Rei esteve a mangar consigo, porque ela é guardadora de patos e não uma Princesa. — Amanhã o ensinarei. Tratem bem a rapariga, deem-lhe as joias e dinheiro que ela quiser, que amanhã voltará para a sua terra. No outro dia apareceu logo de manhã feito urso, meteu-se com a fingida princesa no carro de ouro e dirigiu-se para o palácio do Rei. O pagem, que já o conhecia, mal o avistou, foi a correr ao palácio. — Real Senhor, lá vem o Urso no carro de ouro e traz a guardadora de patos consigo. — Ai que estamos perdidos! — gritaram todos no palácio. Mas o Urso ainda daquela vez não resolvera fazer mal. Entregou a rapariga ao Rei, dizendo: — Como as Princesas não costumam guardar patos não me serve esta que me levaste. Aqui a tens e, daqui a oito dias, ou me levas a tua filha mais nova ou tudo será arrazado neste Reino. Foi-se embora, deixando o Rei muito contrariado. A rapariga é que logo tratou de comprar um palácio e, com o dinheiro que trouxera de casa do Urso, em breve se tornou uma grande dama. Foi a Rainha ter com o Rei e disse-lhe: — Real Senhor, não se amofine! A pequena que anda a guardar perus é mais bonita e mais esperta que a dos patos. Bem vestida e arranjada, pode passar por nossa filha. Combinado isto, trataram de a preparar e de lhe ensinar o recado, para melhor fingir de Princesa. Como da primeira vez, foi o Rei com ela a casa do Urso, que lhe apareceu feito Gigante, numa carruagem de gala. — Aqui está a minha filha! — Vê lá se me enganas! — Não engano! Esta é a verdadeira. — Então podes ir-te embora. E, pegando na mão da rapariga, levou-a aonde as irmãs se encontravam, dizendo: — Manas, esta é que é a Princesa. Mas, como a guardadora de perus não fosse mais civilizada do que a dos patos, logo as três Senhoras se olharam e disseram baixo: — É tão Princesa como a primeira. Levaram-na para a mesa e ela nem sabia pegar no talher, nem comer como senhora. Pediram-lhe que tocasse no cravo e respondeu que não tinha nunca visto tal coisa. Foram para o jardim, andaram passeando e no fim perguntaram-lhe se gostava mais de ali estar, se em casa do Rei seu pai. — Aqui é que eu estou bem, porque só vejo coisas lindas e as Senhoras são muito boas para mim; lá a minha vida era cozer ortigas para os perus. À noite veio o Gigante saber o que se tinha passado e as irmãs disseram-lhe: — Ai! mano, que o Rei anda a enganá-lo! A outra era guardadora de patos, esta guardava perus. — Não importa! Deem à rapariga o que ela quiser, que amanhã lá vou arrazar-lhe o palácio e tudo que pertença a esse homem sem palavra. Mal alvoreceu, transformou-se em Urso, e, mandando vestir a guardadora de perus, meteu-se com ela no carro de ouro e dirigiu-se para o palácio do Rei. Os criados, que já estavam de vigia, quando o avistaram, correram à sala do trono onde o Rei presidia ao conselho e gritaram: — Senhor, Senhor, estamos perdidos, que lá vem o Urso no carro de ouro! Ainda o Rei apertava as mãos à cabeça, a Rainha chorava e os cortesãos procuravam meio de fugir e já o Urso surgia à porta, gritando: — Homem sem palavra, venho arrazar o teu palácio, e tudo que te pertence será destruído, porque me tens enganado! Mas não acabou, que a Princesa mais nova, inocente causa de tudo, apareceu ao cimo da escadaria de mármore, já vestida e preparada para partir. Arrastando nobremente a cauda dos seus vestidos de brocado e segurando nas brancas mãos, cheias de anéis, o ramo de ''flores sem flores'', disse para o Urso, com o melhor dos seus sorrisos: — Senhor, não fareis tal, que eu sou a Princesa que desejais e convosco vou de boa vontade. Despediu-se da mãe, que muito e muito a estimava, do pai, das irmãs e de toda a gente da sua casa — que de todos era querida pela sua muita bondade e delicadeza. O Urso apeou-se e, depois de cavalheirosamente ajudar a jovem senhora a subir para o carro de ouro, voltou-se para o Rei e disse-lhe: — Não o merecias, mas por causa dela serás feliz na guerra e na paz. Depois subiu também e partiram. Quando chegaram ao seu palácio, pegou na mão da Princesa e levou-a até junto das irmãs: — Manas, esta é que é a verdadeira noiva que eu esperava. Comei e bebei com ela e perguntai-lhe onde gosta mais de viver se aqui, se no palácio do seu pai. O Urso foi-se embora e as três damas logo se levantaram e receberam a Princesa com toda a cortezia, a que ela correspondeu devidamente. Sentaram-se à mesa e tão encantadas ficaram com as suas maneiras distintas e conversa interessante, que nenhuma dúvida lhes restava de que fosse uma verdadeira senhora. Sentaram-se ao cravo, cada uma por sua vez; tocaram e cantaram pedindo à menina que fizesse outro tanto, ao que ela acedeu graciosamente, sem se fazer rogada. Tocou e cantou de tal maneira que as três Senhoras não se cansavam de a elogiar. Foram passear ao jardim e perguntaram-lhe então se gostava mais de estar ali, se em casa do Rei seu pai. — Princesas, aqui estou muito bem e esplêndidamente acompanhada. O vosso palácio é muito rico e bonito, sei que me não faltará nada, mas lá sempre estava no que é meu. — Oh! não se apoquente, Princesa! Que mais lhe pertencerá esta do que a casa da sua família. À noite levaram-na para uma câmara elegantíssima, onde nada faltava do que uma senhora precisa e deseja nos seus aposentos. Ajudaram-na a despir e a meter na cama e retiraram-se. Fora, estava o Príncipe Urso Doce de Laranja — que este era o seu nome, mas que de urso nada tinha agora, antes se apresentava como formoso cavaleiro. Perguntou logo: — Então, manas, que dizeis? — Esta sim, esta é uma verdadeira Princesa! E logo lhe contaram o que se tinha passado, com o que ficou muito contente. Ao outro dia disseram elas à menina que tinha de casar com o Príncipe Urso, para que tudo ali lhe pertencesse. Vestiram-na e levaram-na à capela do palácio, mas taparam-lhe os olhos, porque o Príncipe não podia ser visto pela noiva. Assim, casou como o mais lindo homem do seu tempo, imaginando que casava com um feio urso. Depois, só lhe aparecia, quando as luzes já estavam apagadas, de maneira que já tinha três meninas e ainda não conhecia o marido. Um dia, andando a passear com as cunhadas pelo jardim, disse: — Ora também nunca vejo o meu Urso! Eu gostava tanto de o ver! Imediatamente lhe apareceu o Urso e tão feio era que ficou sobressaltada. Mas fingiu que não e fez-lhe muitas festas, com o que ele ficou todo satisfeito. — Agora hás-de dizer-me como te chamas, porque ainda não sei o teu nome — dizia a Princesa. — Chamo-me Príncipe Urso Doce de Laranja, senhor dum grande reino, que tu um dia hás-de ver. — E como se hão-de chamar as nossas três filhas, que ainda não têm nome? — Hão-de chamar-se Fé, Esperança e Caridade. Daí em diante todos os dias se reuniam ali. A Princesa cada vez tratava melhor o marido e eram muito amigos. Uma vez disse-lhe ela: — Deita a cabeça aqui no meu regaço e descansa. Enquanto dormia, passava-lhe as mãos pelas costas, a fazer-lhe festas, e sentiu debaixo dos dedos como que uma abotoadura. Desabotoou quatro botões e viu o corpo branco do Príncipe. Ficou muito contente com a descoberta e daí para diante julgou-se a mais feliz das mulheres. Um dia, estando ambos no jardim, principiou o Urso a abrir a boca como se estivesse a rir com muita vontade, e ela, intrigada, perguntou-lhe: — O que tens, meu Príncipe que tanto riso te causa? — Mal sabes tu porque me rio. — Dize o que é, para também eu me rir. — Não digo, que tu podes fugir-me. — Não fujo, não, que eu gosto muito de ti. — Pois então fica sabendo que é a tua irmã mais velha que se casa. — Não me deixas ir à festa? — Não, porque vais contar o que por cá vês. — Ah! isso não faria eu! Juro que não farei tal. — Vê lá o que dizes! Levo-te lá com as nossas filhas, mas com a condição de te levantares ao primeiro assobio que ouvires, estejas onde estiveres. Ao segundo despedes-te da tua família e ao terceiro hás-de já estar dentro do nosso coche. A Princesa prometeu fazer o que ele mandasse e logo se foi preparar e às três filhas, a mais velha das quais tinha sete anos, a segunda seis e a terceira cinco. Quando os criados do palácio viram chegar o carro de ouro, foram a correr dizer ao Rei e à Rainha que ali vinha o Urso e com ele a Princesa e as três filhas, lindas como três estrelas. Parou o carro, a Princesa apeou-se com as filhas e mandou-as cumprimentar os avós e as tias. A Rainha, que estimava muito aquela filha, recebeu as meninas com grande afecto; agora o Rei, todo zangado, disse: — Minhas netas as filhas dum bicho, isso nunca! — Sim, meu pai! Minhas filhas e do Urso que me faz a mais feliz das mulheres, porque me adora como eu não mereço! O Rei não teve remédio senão calar-se e a filha assistiu ao casamento da irmã, a quem deu muitos e valiosos presentes. Passadas as festas ouviu um grande assobio e imediatamente se pôs em pé, ao segundo despediu-se e ao terceiro estava com as três filhas dentro do carro de ouro onde o Urso as esperava. Partiram para o palácio e continuaram a viver muito contentes como até aí. Passado tempo, tornavam a estar no jardim e viu ela o Urso a rir. Perguntou-lhe logo: — Que tens, meu Príncipe, que te faz rir? — Não digo, por me podes fugir. — Dize, que eu gosto muito de ti; não fujo. — É a tua segunda irmã que se vai casar. — Deixas-me lá ir? — Não deixo, porque vais contar o que por cá se passa. — Não conto nada, juro! — Então vamos. Meteram-se no carro de ouro puxado pelos bois de ouro e dirigiram-se para o palácio do Rei. Mal os avistaram ao longe, correu toda a família a recebê-los e a Rainha disse para a filha que estimava que também o marido entrasse. Ele aceitou o convite e, descendo da carruagem, apresentou-se com toda a nobreza entre os mais cavaleiros da corte. Quando veio a noite, disse a Rainha à filha que pedisse ao marido para ali passarem três dias. Foi-lhe pedir ele disse que sim; ficaram. Depois, foi ainda a Rainha ter com ela e disse-lhe: — Tu hás-de dizer-me uma coisa, dizes? — Se puder, direi, porque muito lhe devo e a estimo, minha senhora mãe. — Pois se tu és minha amiga, hás-de dizer-me se teu marido é um bicho ou se é um homem que anda encantado. A Princesa não queria dizer, mas a mãe tanto pediu, tanto pediu, que ela sempre caíu na tolice de contar que era um homem e a criatura mais perfeita do Mundo. — Pois então, quando ele estiver a dormir, tu hás-de abrir-me a porta do quarto para eu o ver. À noite, quando o Príncipe Urso Doce de Laranja estava dormindo, chamou ela a mãe, que entrou com uma luz e viu que ele era na verdade o homem mais perfeito de quantos conhecia. E depois, vendo aos pés da cama a pele que ele tinha despido, deitou-lhe fogo. Imediatamente se sentiu um grande tremor em todo o palácio e o Príncipe, acordando sobressaltado, viu a sogra e a mulher e disse-lhes: — Ai! desgraçadas que me dobraram o encanto por mais sete anos! E, voltando-se para a esposa, acrescentou: — Agora, se me quiseres ver, hás-de ir procurar-me ao palácio das Janelas Verdes, e só voltas a ser minha mulher, quando tirares da manga desta camisa estes três pingos de sangue. Dizendo isto, desapareceu, deixando a Rainha arrependida do que fizera. Chorou muito a boa Princesa, mas convenceu-se por fim de que as lágrimas só lhe acarretavam lágrimas e mais nenhum remédio traziam à tristeza do seu abandono. Então, despediu-se dos pais e irmãs e acompanhada pela filhas, seguida pela saudade dos que ficavam, partiu em busca do seu Príncipe encantado. Andaram por muitos países, percorreram muitas cidades e em toda a parte lhe diziam não terem nunca ouvido falar no Príncipe Urso Doce de Laranja nem no seu palácio das Janelas Verdes. Até que um dia se meteram por uma estrada deserta e andaram, andaram, por charneca raza, sem sombra de árvore nem frescura de fonte que as confortasse. Só lá para o fim da tarde viram ao longe uma choupana pobre e para lá se dirigiram. À porta estava uma velhinha a quem a Princesa disse: — Minha Senhora, por quem é dê-nos abrigo por esta noite! Pela estrada deserta é hoje a primeira pessoa que encontramos e não podemos ir mais longe, que nos falecem as forças e temos medo de que algum animal bravio nos devore. — Entrai, entrai, que a porta do pobre é sempre aberta ao pobre; assim o fosse às vezes a do rico!... Fê-las entrar, acendeu lume, deu-lhes água para se lavarem e cozinhou a ceia do melhor que tinha. Depois fez duas camas, ficando a menina mais velha com ela e as duas com a mãe. De manhã almoçaram e depois do almoço começou a velha a amolar uma grande faca, dizendo para a pobre mãe: — Qual queres tu, que eu te mate, ou dares-mes a tua Fé? — Isso nem se pergunta, antes quero morrer. Mas as meninas começaram a chorar que não queriam que a sua mãe morresse, e, como a velha parecia incapaz de tratar mal a criança, ela disse: — Pois já que assim o quereis, que fique a minha Fé. Paciência! Por minha culpa perdi o pai e por castigo perco agora a minha rica filha! Chorava que cortava o coração. — Não! Tem fé que a não perdes — disse a velha — Ainda hás-de ser feliz. Atrás de tempo, tempo vem. Toma esta castanha, mas não a abras senão quando te vires em aflição. Despediu-se da filha, cheia de mágoa, e, com a merenda que a velha lhe forneceu para todo o dia, pôs-se a caminho com as outras duas meninas mais novas. Depois de muito andar, e quando já quase não podiam mais, vendo que a noite se avizinhava, dirigiram-se para uma choupana exactamente igual à que primeiro encontraram. Lá lhes apareceu uma velha em tudo semelhante à outra e que as recebeu com o mesmo agrado. Mas de manhã também, depois de ter dormido com a menina Esperança, disse para a Princesa que a ia matar, se lhe não deixasse aquela filha. E, como da primeira vez, a mãe queria morrer, mas as filhas não o consentiram e teve que deixar a segunda menina entregue à segunda velha. Chorando muito, dizia: — Ai! triste de mim, que tão miserável me vejo! Já tive pais e irmãs, boas cunhadas que me queriam como do seu sangue, um esposo que me adorava e filhas que eram a inveja de todos! Agora, que só elas me restavam, também mas vêm roubar e deixam-me mais só e triste, que uma casa em ruinas. E a velha, chorando de pena, deu-lhe uma bolota, consolando-a: — Tem esperança, que sempre o sol vem depois da tempestade! Aqui tens este presente, mas só o hás-de abrir quando te vires na maior aflição. Depois de receber farnel para a viagem, partiu com a filha mais nova. Andaram sem descanço todo o dia e, quando o sol ia já a declinar e elas quase se não podiam mexer, viram ao longe uma cabana em tudo igual às duas primeiras e uma velha também como as outras. Disse a Princesa para a menina: — Minha filha, não vejo neste campo deserto senão aquela choupana igual às duas onde as tuas irmãs ficaram. Se lá vamos pedir agasalho, roubam-te; se aqui ficamos, seremos devoradas pelas feras! — Minha senhora mãe — respondeu a Caridade, que era de todas a mais esperta e também aquela que a mãe mais estimava — cada qual deve ir ao seu destino. Se o meu é de ficar com outra velha, como as minhas irmãs, a ele me hei-de sujeitar. E o seu, minha mãe, é de procurar desencantar meu pai no palácio das Janelas Verdes. Levada por tão boas razões, foi a Princesa pedir abrigo para essa noite e tudo se passou como das outras vezes. De manhã, quando a velha estava afiando a faca, disse-lhe a menina: — Não se canse, minha Senhora, que eu não quero que a minha mãesinha morra e então de boa vontade fico na sua companhia. Despediu-se a Princesa, mas eram tantas as lágrimas e lamentações que mais parecia que a filha morrera. A velha consolou-a e deu-lhe uma laranja, dizendo: — Descança, que o bom tempo há-de voltar e então darás por bem empregadas as lágrimas que tens chorado para alcançar a felicidade. Aqui tens esta laranja, mas só a podes abrir, quando te vires na maior aflição. Sozinha e triste foi andando até chegar a uma grande cidade entre laranjais, e vendo um palácio com janelas verdes para lá se dirigiu. Logo à entrada estava um grande tanque onde muitas lavadeiras lavavam e palravam como é seu costume. E disse uma: — Parece incrível! Há sete anos a lavar esta camisa do Príncipe e ainda não fui capaz de lhe tirar os três pingos de sangue que tem nesta manga! Respondeu a Princesa, que vinha vestida de peregrina: — Deixe-me lavar a mim, a ver se eu sou mais feliz! — Como é esperta! Eu há sete anos ainda não consegui e ela ainda agora chega e já quer fazer tudo. — Dá-lha lá — disseram as outras lavadeiras — vamos a ver o que faz. Mal que a Princesa meteu a camisa na água, logo desapareceram os três pingos de sangue. A lavadeira quando viu isto, começou a chamá-la feiticeira e deu-lhe tantas pancadas que a Princesa já estava toda coberta de sangue. Como as outras lavadeiras fizeram grande motim a ralhar àquela atrevida que em cima de receber um favor ainda tratava mal quem a servia, chegaram à janela três aias e chamaram a peregrina. Trataram-na muito bem, deram-lhe água para se lavar e fato para se vestir e ela no fim perguntou a quem pertencia aquele palácio. — A senhora vem então de muito longe, para não saber que este é o palácio das Janelas Verdes, residência do mais formoso, rico e sábio soberano do mundo, o Príncipe Urso Doce de Laranja. Hoje acaba o seu encanto e amanhã é o casamento com a Princesa nossa ama. Para isso viemos com o maior séquito que tem atravessado as estradas deste reino. — Ai de mim! — disse a peregrina — que em grande aflição me vejo! Abriu a castanha e saíu de dentro um cãosinho de ouro com os olhos feitos de carbúnculos e a língua dum rubi e todo o pelo de brilhantes e topázios. Saltando para o chão começou a correr e a ladrar atrás das aias, coisa que muito as divertiu. Disse a mais velha: — Ó peregrina não me vende essa prenda? — Não vendo, não, minha senhora; dou-lha se arranjar meio de eu estar a sós com o seu senhor. Combinaram as aias deitar dormideiras no vinho que ele bebia e meter a peregrina no quarto do Príncipe. À noite, quando ele dormia a bom dormir, chamaram-na e fizeram-na entrar para a câmara. Ela, chorando, dizia: — Príncipe Urso Doce de Laranja, tu não me queres ouvir? Olha que por tua causa ando há sete anos a peregrinar; por tua causa perdi as nossas filhas e levei pancadas da lavadeira, quando tirei da manga da tua camisa os três pingos de sangue!... Chorou e gritou toda a noite, mas o Príncipe não se mexeu. Quando as aias a vieram buscar, estava ela ainda mais triste. Abrindo a bolota, saíu de dentro um cavalinho branco feito dum só brilhante, a coisa mais perfeita e graciosa que se tinha visto. Relinchava, corria, andava a passo, tal qual um animal verdadeiro. A segunda aia consentiu em meter a peregrina no quarto do Príncipe para ela lhe dar tão preciosa prenda. Mas também, como a outra, deitou dormideiras no vinho, de maneira que a Princesa chorou e gritou toda a noite sem conseguir acordar o marido. No dia seguinte, vendo que não conseguira nada, abriu a laranja e saiu de dentro um papagaio feito de esmeraldas, a coisa mais formosa que jamais se imaginara. Começou a gritar e a dizer: Papagaio real, papagaio real, o Rei vai casar! A aia ficou louca ao ver coisa tão bela e, para a obter, prometeu meter a peregrina essa noite no quarto do Príncipe. Ora no palácio estavam três alfaiates fazendo três maravilhosas capas, para o Príncipe vestir no dia do casamento. Os artistas trabalhavam de dia e de noite sem descansar e, como ouviram as lamentações daquelas duas noites contaram tudo ao Príncipe. — É ela — pensou — É ela que enfim chegou para acabar com o meu encantamento! E, dizendo aos alfaiates, que se não apoquentassem, mas que não repetissem a ninguém o que tinham ouvido, fingiu nada saber. À noite, em lugar de beber o vinho, deitou-o fora, disfarçadamente. Depois meteu-se na cama e pôs-se a ressonar para imaginarem que dormia a sono solto. Vieram as aias abrir a porta à Princesa e foram-se embora. Começou ela a chamá-lo e a contar as suas tristezas e desgraças e, no fim de tudo ouvir, ele abriu os olhos e abraçaram-se cheios de alegria. Então também ele lhe contou que era ali o seu reino, que no dia seguinte acabava o encanto de que o tinham salvo as irmãs, por terem aprendido para fadas, mas que havia de casar forçosamente, senão ficava outra vez encantado. Por isso, na incerteza se ela chegaria ou não, viera aquela Princesa que era muito boa e não ficaria zangada, quando tudo soubesse; pois ele só queria agora a sua mulher, a mãe das suas filhas, que chegariam também. Saíu do quarto e fechou-o à chave. Quando as aias vieram, deram com o nariz na porta e disseram umas para as outras: — Olhai, já cá não está! Bem dizia a lavadeira que ela era uma bruxa! O Príncipe mandou dizer à noiva que se não podia realizar nesse dia o casamento, por as capas não estarem prontas, mas que dava um grande jantar. No fim do banquete disse ele: — Senhores, quero fazer-lhes uma pergunta. Na minha mocidade fiz uma chave de ouro. Nela trabalhei com amor durante sete anos. Um dia, por fatalidade, perdi-a e depois, desconsolado, mandei fazer uma de prata: Hoje apareceu-me a de ouro. Qual hei-de preferir? Respondeu-lhe a Princesa: — Real Senhor, a chave de ouro é que é a verdadeira. — Obrigado, Senhora, farei como dizeis! Levantando-se, foi buscar a mulher e, trazendo-a pela mão, apresentou-a a toda a corte, ficando todos muito agradados dela, porque na verdade não havia quem lhe ganhasse em simpatia e bondade. Nisto apareceram as três velhas e disse ela para o marido: — As nossas meninas não vêm com quem as deixei! Então é que morreram!... — Nenhum mal lhes aconteceu — responderam as velhas. Batendo com as varinhas de condão, logo surgiram da terra as três meninas, Fé, Esperança e Caridade, feitas em pedra. — Manas — disse para as velhas o Príncipe Urso Doce de Laranja — entreguei-lhes as nossas filhas com vida e com vida as quero, outra vez. — Sim — respondeu a mais velha — em carne nos foram entregues e em pedra as transformámos para melhor as guardar. Endireitaram-se e, de velhas que pareciam ser, ficaram outra vez as belas damas que a Princesa conhecera e estimava como irmãs. Depois tocaram com as varinhas nas estátuas e logo as meninas ficaram vivas e saltaram ao pescoço do pai e da mãe cheias de alvoroço. Mandaram então emissários ao reino da Princesa contar o que se tinha passado e todos, mas principalmente a Rainha, ficaram contentíssimos, por poderem tornar a abraçar aqueles que julgavam perdidos. A lavadeira, arrependida, fugiu e ninguém mais a viu. Acabados todos os maus encantos foi o Príncipe Urso Doce de Laranja o mais feliz dos Príncipes — que nem sempre é a gente mais feliz — e assim terminou a sua história maravilhosa. [[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|História maravilhosa do Príncipe Urso Doce de Laranja]] gq179q1hjteu6e7rzikojshc2i7ygzb