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Obras completas de Luis de Camões/Alma minha gentil, que te partiste
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<noinclude><pagequality level="3" user="Junglk" />{{rh||DOM JOÃO VI NO BRAZIL|299}}</noinclude>o clero para a apregoar pelas ruas e praças como a legitima successora do irmão captivo <ref>Depoimento de D. Cornelio Saavedra, publicado no referido App. do Tomo I da ''Vida de Belgrano''. Concordam de resto muitos testemunhos. Contucci escrevia a Linhares a 18 de Setembro de 1809: “Muito, Senhor Conde, he o partido que tem aqui a Senhora Princeza, já não ha pessoa que desconheça os seus direitos, e a não deseje; menos o Governo e os seus Sectarios, os quaes só querem seguir a sorte da Metropole, e assaltão descaradamente a todos que defendem esta justa causa. He preciso, Exmo. Senhor, cautela.” (Arch. do Min. das Rel. Ext. do Brazil).</ref>, e n’ella se encarnando as incipientes aspirações separatistas.
O destino assim o não quiz, e pouco provavel seria a sua permanencia no poder, quando mesmo o tivesse empolgado. Belgrano em todo caso trabalhou por ella com o inteiro ardor da sua natureza expansiva e chegou a procurar conquistar para o rol dos partidarios da Princeza Liniers, a esse tempo ameaçado de substituição de ordem e por auctoridade da Junta Central de Sevilha, onde intrigaram seus inimigos, despeitados com o fracasso do motim hespanhol de 1º de Janeiro de 1809, suffocado pelo vice-rei graças ao concurso efficaz do regimento de patricios ao mando de D. Cornelio Saavedra.
Liniers é que não acquiesceu em permanecer illegalmente no poder, encabeçando a resistencia nacional contra o novo vice-rei Cisneros, despachado de Sevilha, e entrando na combinação de emancipação figurada pela Princeza do Brazil, cuja causa estava sendo advogada com exito e se reanimara, apoz uns mezes de desanimo, pelos esforços do seu emissario e favorito D. Felipe Contucci <ref name="p299">Mitre, ''ob. cit.'' Formigavam aliás emissarios e confidentes, n’uma grande azafama. Contucci era um d’esses muitos aventureiros que se costumava então empregar como agentes clandestinos e que não raro se tornavam factores consideraveis das negociações diplomaticas</ref>.
O movimento, patrocinado muito embora pelos chefes militares locaes, indignados contra a Junta Central da me-<noinclude>{{lh|5em|align=left}}{{Smallrefs|fs=95%}}</noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Junglk" />{{rh|300|DOM JOÃO VI NO BRAZIL|}}</noinclude>tropole, que se mostrara parcial aos rebeldes hespanhoes de 1º de Janeiro, não logrou assentar. O conhecimento que d’elle se espalhou, porventura por delação, provocou reacção official da parte das auctoridades ainda constituidas e, não podendo ir a Princeza pessoalmente reaccender as coragens e impedir as defecções, a marcha da libertação na sua trajectoria fatal encaminhou-se para a solução democratica.
Entre os meios a que recorreram para vulgarizar sua idéa os propagandistas da candidatura da Infanta Dona Carlota, contava-se um fantasiado dilogo entre um Castelhano da gemma e um Hispano-americano, no qual se passava revista ás differentes hypotheses do destino futuro do vice-reinado platino, ou melhor das possessões hespanholas no Novo Mundo. Arredava-se por antipatriotica a hypothese da sujeição á dynastia napoleonica. Criticava-se amargamente a da republica nos seguintes dizeres: “{{lang|es|Nos faltan las bases principales en que ha de cimentar-se, como U. no ignora, quales son los conocimientos, y las riquezas reales, y verdaderas; de aqui naceria la división constante entre Europeos y Americanos, y la ambicion del mando, despues de una guerra civil la mas sanguinaria, y cruel nos pondria em estado de ser subjugados, o por quien tiene legitimos de-<noinclude>}}</noinclude>
<ref follow="p299">e dos resultados obtidos. Atraiçoando facilmente a parte que os empregava, por vezes mesmo servindo com zelo as duas partes contrarias, olhavam sobretudo para o seu interesse pessoal. Esse Contucci, por exemplo, meio espião, meio militar, um condottiere anachronico mas com toda a immoralidade de um contemporaneo do Renascimento, recebia instrucções de Dona Carlota e carteava-se com Presas, ao mesmo tempo que se correspondia a cada momento com o conde de Linhares, cujas vistas platinas, irmanadas embora na apparencia, divergiam no proposito das de sua Ama.''Algumas'' das cartas remettidas á Princeza iam abertas para que Linhares d’ellas tomasse conhecimento, fechando-as antes de as entregar conforme recommendação de Contucci, afim de Dona Carlota continuar na ignorancia de que a sua correspondencia transitava d’aquella forma pela Secretaria d’Estado.</ref><noinclude>{{lh|5em|align=left}}{{Smallrefs|fs=95%}}</noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Junglk" />{{rh||DOM JOÃO VI NO BRAZIL|301}}</noinclude><noinclude>{{lang|es|</noinclude>rechos á la Representacion de la Soberania, o por quien viendra con el titulo de patrocinarnos.}}” Desdenhava-se a continuação da auctoridade dos vice-reis: “{{lang|es|Por lo que respeta a que el Gefe actual continue gobernando hasta la buelta de Fernando 7º es pensamiento que solo puede tener lugar en cabezas mui vacias: bastará que consideren que el Vassallo quedaria sin recursos para la prosecucion de sus Derechos, y que ademas la Soberania no puede existir en sus manos, em un caso en que se deve contemplar que las autoridades caducan, y que solo pueden sostenerse por quien representa a la nacion en fuerza de su institucion, y leyes.}}”
Restava a unica hypothese possivel: “{{lang|es|Lo unico que puede hacernos felices es reconocer a la Infanta D. Carlota Joaquina de Borbon, por Regenta de estos Dominios… haciendo reviver en estos dominios la España con su constitucion y leyes, esto es, siguiendo la Monarquia espanola baxo el gobierno representativo que le constituye con arreglo a los fundamentos primordiales de Castilla.}}” E interrogando o Castelhano se não surgiria com tal solução o perigo de ficarem sendo Portuguezes os Hespanhoes das colonias, respondia promptamente o Americano: “{{lang|es|Mal podemos ser Portugueses, si la España revive en todos sentidos, y si nosotros guardamos los fueros y privilegios de nuestra nacion, y asi como los Castellanos no fueron Aragoneses, ni estos Castellanos, porque la Reyna de Castilla Isabel, casó com el Rey de Aragón Fernando, asi tampoco nosotros seremos Portuguezes porque nuestra Infanta está casada con el Principe Regente de Portugal, y Brasil: supongo que bien claramente lo expuso en su manifiesto, que apoyó el mismo P. Regente.}}”
{{nop}}<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Junglk" />{{rh|302|DOM JOÃO VI NO BRAZIL|}}</noinclude>Ainda o Castelhano formulava uma ultima objecção ao governo de Dona Carlota, provocada pelo facto inquestionavel de intrigarem os Inglezes pela independencia das colonias hespanholas, e portanto virtualmente pela solução democratica: “{{lang|es|Verdad es, y estoi persuadido de lo mismo; pero acaso los Ingleses se opondran}}” —ao que o seu interlocutor replicava com vivacidade “{{lang|es|que es un temor vano, i injurioso á la Inglaterra; esta se ha sacrificado por nosotros y por nuestra Dinastia, y no seria regular, antes es opuesto a toda razon el que veniese a batallar en America en contra de aquellos que protegio en Europa: si adoptasemos qualesquiera otro partido, que no sea este entonces si, que seria en el campo con nosotros, y sufririamos todo el peso de una conquista, despues de haber hollado las más sagradas obligaciones}}”. <ref>Este dialogo foi remettido em manuscripto á Princeza do Brazil pelo seu agente Contucci, e encontra-se entre os Papeis avulsos do Arch. do Min. das Rel. Ext.</ref>
O dialogo em questão encerra uma allusão historica que exprime fielmente o fundo do pensamento do conde de Linhares n’estes assumptos platinos e offerece a razão da sua concordancia com o projecto ambicioso de Dona Carlota Joaquina, emquanto lhe pareceu viavel: é o simile de Fernando e Izabel. Aragonezes e Castelhanos conservaram-se na verdade distanciados, no goso da sua autonomia respectiva durante a união conjugal e administrativa dos seus dous soberanos, mas para se approximarem e fundirem sob a sua descendencia. Carlos V já foi o monarcha da Hespanha una e indivisa: assim, na visão de Dom João de Bragança, o seu filho ou neto poderia vir a ser o Imperador da America unificada pela reunião das possessões das duas metropoles peninsulares, graças aos esforços de um estadista de genio,<noinclude>{{lh|5em|align=left}}{{Smallrefs|fs=95%}}</noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Junglk" />{{rh||DOM JOÃO VI NO BRAZIL|303}}</noinclude>maior do que Richelieu, pois que a sua acção se extenderia a continente e meio.
Nem seria para tanto preciso fazer resurgirem as tenebrosas intrigas de Fernando de Aragão contra a filha ameaçada de demencia. A ordem natural dos acontecimentos determinaria fatalmente o resultado anticipado, “{{lang|es|pues que al fin la empreza}} — conforme se expressava Contucci <ref>Carta a Linhares de 2 de Junho de 1809, ''ibidem''.</ref> — {{lang|es|tiene por objecto adornar con las quinas los Leones y Castillos y dar al suelo americano el grado de felicidad de que es capaz la prudencia humana}}”. Havia apenas a differença, esta porém capital, de que com a fusão de Aragão e Castella lucravam estes dous pequenos e populosos reinos europeus, que assim sentiam extendidos os seus dominios exiguos e os seus recursos modestos, ao passo que encorporação da enorme e despovoada America Hespanhola, com seus nucleos separados e distinctos, na America Portugueza muito mais compacta e unida, se realizaria, ao envez da união iberica, antes em proveito do imperialismo luzitano, que para semelhante fim se acobertava com os suppostos direitos da Princeza do Brazil.
O aventureiro que de 1808 a 1812 foi um dos confidentes politicos do conde de Linhares, sabia fazer scintilar o futuro aos olhos fascinados do seu patrono: “{{lang|es|No hai obstaculos que vencer, ó son casi ningunos, y ello es cierta que es digna de qualesquiera sacrificios: De todos se vera resarcida nuestra Nacion <ref>Contucci dizia-se portuguez, escrevendo alternadamente n’este idioma e em hespanhol, posto que igualmente mal em ambas as linguas.</ref> con la importante adquisicion de unos ricos dominios, quien seguramente solo falta la mano directora de V. E. para llevarlos a su maior explendor.<noinclude>}}</noinclude><noinclude>{{lh|5em|align=left}}{{Smallrefs|fs=95%}}</noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Junglk" />{{rh|304|DOM JOÃO VI NO BRAZIL|}}</noinclude><noinclude>{{lang|es|</noinclude>Talves no se ha presentado a ningun monarca una ocasion como esta tan favorable para hacerse Señor de unas posiciones inmensas, y de unos Vassalos puestos ya en estado de una elevacion sublime, y de causar un gran respeto en todas las naciones del globo, con tan poca costa y cuidados y protegiendo un acto sagrado de justicia}}”. De facto, pouco lhe importava no fundo que governasse com independencia a Princeza Dona Carlota, ou que não passasse de uma vice-rainha cujo soberano fosse o monarcha portuguez. O essencial era retirar lucros dos serviços reaes ou imaginarios e para isto o melhor caminho sempre foi a lisonja. Proseguia, pois, Contucci: “{{lang|es|V. E. lo sabe y no me atrevo a seguir importunandolo. Creame V. E. un Portuguez amante de mi patria, y al mismo tiempo de los Dominios Españoles y Americanos por los lazos que me unen a ellos, y que hoy contemplo que no son con los del Brasil sino un mismo Estado; puesto que se que la alma de este negocio es V. E…}}” <ref>Carta datada de Buenos Ayres aos 16 de Junho de 1809, nos Papeis avulsos do Arch. do Min. das Rel. Ext.</ref>
Desde a chegada da côrte ao Brazil que Contucci prodigalizava os seus bons conselhos a quem tinha gosto e interesse em escutal-os. E’ de 1808 a carta em que elle diz a D. Rodrigo, trazendo mais achas para a fogueira: “Todos os negocios que se apresentarem a V. E. dos governos destas provincias (indistinctamente) nunca nos poderão fazer conta. Elles terão apparencia de pureza, hé porém ficção, medo, e maneiras de que usão em iguaes circumstancias, mas quando estas varião, sabem sem vergonha e sem respeito faltar aos seus mais sagrados deveres. V. E. não o duvida, eu vivo aqui ha 7 annos… V. E. conseguirá o que quizer destes paizes, se manda com Imperio.” <ref>''Ibidem''.</ref>
{{nop}}<noinclude>{{lh|5em|align=left}}{{Smallrefs|fs=95%}}</noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Junglk" />{{rh||DOM JOÃO VI NO BRAZIL|305}}</noinclude>Não se deu comtudo bem D. Rodrigo com o systema da intimidação, nem as cartas de Contucci podiam jámais traduzir sinceridade. O que tinham era o talento de andarem sempre afinadas pelo diapasão do destinatario, constituindo na sua abundancia e variedade o reflexo conjuncto de todos os modos de sentir da epocha no tocante ao problema momentoso do futuro da America Hispano-Portugueza. O ladino aventureiro não só costumava acompanhar seus enredos de mimos, remettendo exemplares novos para a collecção mineralogica do Principe Regente, perdizes para a meza de Dona Carlota, cestas de peras para a meza de D. Rodrigo, como sabia tocar em cada espirito a corda mais vibratil, protestando constantemente não querer premio algum pelos seus serviços. “Trata-se de servir a Patria, e o Soberano, e eu só exijo, o que he de absoluta necessidade, para levar ao fim com felicidade um negocio de tanta grandeza” <ref>Carta de 19 de Junho de 1810, ''ibidem''.</ref>. Nos gastos indispensaveis teria elle de certo o cuidado de incluir a sua propina, e a todos entoaria a mesma canção com as variantes precisas para a tornar perfeitamente adequada.
Contucci estava em contacto e em correspondencia com todos os interessados no negocio, cujos fios era elle o unico a ter por completo nas mãos. Lel-o é ler a historia intima d’esse momento historico pelo que diz respeito á candidatura, objecto das intrigas em acção. A Belgrano, partidario então decidido da Princeza, escrevia elle <ref>Carta de 13 de Março de 1810, ''ibidem''.</ref>, para o animar, n’um tom dithyrambico, assegurando-lhe, e aos demais amigos, que “{{lang|es|brevemente gosarán Ustedes de aquella felicidad, por cuyo logro han echo tan senalados sacrificios; y yo desde ahora doy a Ustedes la enhora buena por la fortuna que se<noinclude>}}</noinclude><noinclude>{{lh|5em|align=left}}{{Smallrefs|fs=95%}}</noinclude>
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Autor:Júlio Verne
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| MiscBio = Júlio Verne foi o filho mais velho dos cinco filhos de Pierre Verne, advogado (avoué), e Sophie Allote de la Fuÿe, esta de uma família burguesa de Nantes. É considerado por críticos literários o precursor do género de ficção científica, tendo feito predições em seus livros sobre o aparecimento de novos avanços científicos, como os submarinos, máquinas voadoras e viagem à Lua.
}}
== Obras ==
=== Viagens Extraordinárias ===
{{Lista de documentos início|tn}}
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=== Atribuição desmentida ===
* {{livro digitalizado|Descobrimento Prodigioso e suas Incalculaveis Consequências para o Futuro da Humanidade|Descobrimento prodigioso e suas incalculaveis consequências para o futuro da humanidade.pdf}}, traduzido por [[Autor:Salvador de Mendonça|Salvador de Mendonça]]
===Gutenberg===
* [https://www.gutenberg.org/ebooks/62101 Robur, O Conquistador] (1890)
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| Wikicommons = Jules Verne
| MiscBio = Júlio Verne foi o filho mais velho dos cinco filhos de Pierre Verne, advogado (avoué), e Sophie Allote de la Fuÿe, esta de uma família burguesa de Nantes. É considerado por críticos literários o precursor do género de ficção científica, tendo feito predições em seus livros sobre o aparecimento de novos avanços científicos, como os submarinos, máquinas voadoras e viagem à Lua.
}}
== Obras ==
=== Viagens Extraordinárias ===
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=== Atribuição desmentida ===
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===Gutenberg===
* [https://www.gutenberg.org/ebooks/62101 Robur, O Conquistador] (1890)
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Erick Soares3
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== Obras ==
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* [https://www.gutenberg.org/ebooks/62101 Robur, O Conquistador] (1890)
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<poem>
{{larger|D}}oces lembranças da passada gloria,
Que me tirou fortuna roubadora,
Deixai-me descansar em paz hum'hora,
Que comigo ganhais pouca victoria.
:Impressa tenho na alma larga historia
Deste passado bem, que nunca fôra;
Ou fôra, e não passára: mas ja agora
Em mi não póde haver mais que a memoria.
:Vivo em lembranças, morro de esquecido
De quem sempre devêra ser lembrado,
Se lhe lembrára estado tão contente.
:Oh quem tornar pudéra a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
Se conhecer soubera o mal presente.
</poem>
<section end="XVIII"/>
<section begin="XIX"/>{{c|{{sc2|'''XIX'''}}}}
<poem>
{{larger|A}}lma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Ceo eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.
:Se lá no assento Ethereo, onde subiste,
Memoria desta vida se consente,
Não te esqueças de aquelle amor ardente,
Que ja nos olhos meus tão puro viste.
:E se vires que póde merecer-te
Algũa cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remedio, de perder-te;
:Roga a Deos que teus annos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
</poem>
<section end="XIX"/><noinclude></noinclude>
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Deste passado bem, que nunca fôra;
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:Vivo em lembranças, morro de esquecido
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E viva eu cá na terra sempre triste.
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Não te esqueças de aquelle amor ardente,
Que ja nos olhos meus tão puro viste.
:E se vires que póde merecer-te
Algũa cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remedio, de perder-te;
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Autor:Pinheiro Chagas
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| Wikipedia = Manuel Pinheiro Chagas
| Wikiquote =
| Wikicommons =
| MiscBio = '''Manuel Joaquim Pinheiro Chagas''' foi um prolífico escritor, jornalista e político português. Destacou-se como romancista, historiador e dramaturgo, tendo escrito inúmeros romances históricos e diversas peças de teatro, algumas das quais se mantiveram em cena por mais de um século.
}}
== Obras ==
* [[Astúcias de namorada]]
* [[Um melodrama em Santo Tirso]]
* {{livro digitalizado|Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo|Os descobrimentos portuguezes e os de Colombo.djvu}} (1892)
;[[Portal:Questão Coimbrã|Questão Coimbrã]]
* {{livro digitalizado|Folhetim a proposito da carta que o senhor Anthero do Quental dirigiu ao senhor Antonio Feliciano de Castilho|Encadernado da Harvard University sobre a Questão Coimbrã.djvu}} (1865)
;Tradução
*[[A Descoberta da Terra]]
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|título=[[Agora toma a espada, agora a penna]] <ref>Conjectura [[Autor:Manuel de Faria e Sousa|Faria e Sousa]] que este Soneto fosse feito a seu avô [[Autor:Estácio de Faria|Estacio de Faria]], amigo de Camões, e como elle poeta e soldado.</ref>
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|título=[[Ah Fortuna cruel! ah duros Fados]]
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|título=[[Ah minha Dinamene! assi deixaste]]
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|título=[[Ai amiga cruel! que apartamento]]
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Autor:Lutegarda Guimarães de Caires
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| Wikipedia = Lutegarda Guimarães de Caires
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| MiscBio = '''Lutegarda do Livramento Guimarães de Caires''' (Vila Real de Santo António, 17 de novembro de 1858 — Lisboa, 30 de março de 1935), mais conhecida por '''Lutegarda Guimarães de Caires''', foi uma escritora, poetisa e activista portuguesa pelos direitos da mulher e da criança.
}}{{autora}}
==Obras publicadas==
* ''Glicínias'' (1910)
* ''Papoulas'' (1912)
* {{livro digitalizado|A Dança do Destino|A Dança do Destino - Lutegarda Guimarães de Caires (1913).pdf|''A Dança do Destino: contos e narrativas''}} (1913)
* ''Bandeira Portuguesa'' (1910)
* ''Dança do Destino'' (1911)
* ''Pombas Feridas'' (1914)
* ''Vagamundo'' (Libretto da ópera musicada por {{a|Rui Coelho}}, 1914)
* ''Sombras e Cinzas'' (1916)
* ''Doutor Vampiro'' (1921, romance)
* ''Violetas'' (1922)
* ''Cavalinho Branco'' (1930)
* ''Palácio das Três Estrelas'' (1930)
* ''Inês'' (peça de teatro em co-autoria com {{a|Manuel Vieira Natividade}} e {{a|Virgínia Vitorino}})
[[Categoria:Lutegarda Guimarães de Caires]]
[[Categoria:Autores portugueses]]
[[Categoria:Autoras]]
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Autor:Maria Rita Chiappe Cadet
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| Wikipedia = Maria Rita Colaço Chiappe Cadet
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| Wikicommons = Category:Maria Rita Chiappe Cadet
| MiscBio = '''Maria Rita Colaço Chiappe Cadet''' (1836 - 5 de dezembro 1885, Lisboa) foi uma poeta, contista, romancista, e dramaturga portuguesa. Foi também professora e responsável pela livraria Lallemant (Lisboa).
}}{{autora}}
== Obras ==
* ({{ano|1862}}) Hymno de S.M. El Rei D. Luiz I : composto para a sua acclamação poesia de D. Maria Rita Chiappe Cadet ; musica de Manoel Innocencio Liberato dos Santos, mestre de sua Magestade, Lisboa, Sassetti & Cia
* ({{ano|1870}}) Versos, Lisboa, Typographia de Castro Irmão,
* ({{ano|1875}}) Sorrisos e Lágrimas. Poesias de D. Maria Rita Chiappe Cadet, Lisboa, Typ. Lallemant Frères
* ({{ano|1880}}) Flores da Infância. Contos e Poesias Moraes dedicados a Mocidade Portuguesa, Lisboa, Typ. de Marie Françoise Lallemant
* ({{ano|1883}}) Contos de mamã, Lisboa, Livraria Editora Marie Françoise Lallemant
* ({{ano|1883}}) {{livro digitalizado|A mascarada infantil (comédia em um acto)|Maria Rita Chiappe Cadet - A mascarada infantil; comedia em um acto (1883).djvu}}, Lisboa, Livraria Editora Marie Françoise Lallemant
* ({{ano|1883}}) Caprichos do Luizinho, Lisboa, Livraria Editora Marie Françoise Lallemant
* ({{ano|1884}}) A Boneca (comédia em um acto), Lisboa, Livraria Editora Marie Françoise Lallemant
* ({{ano|1884}}) O Último dia de Férias, Lisboa, Livraria Editora Marie Françoise Lallemant
* ({{ano|1884}}) {{livro digitalizado|As fadas improvisadas (comedia em um acto)|Maria Rita Chiappe Cadet - As fadas improvisadas; comedia em um acto (1884).djvu}}, Lisboa, Livraria Editora Marie Françoise Lallemant
* ({{ano|1884}}) {{livro digitalizado|O lunch na quinta (comédia em um acto)|Maria Rita Chiappe Cadet - O lunch na quinta; comedia em um acto (1884).djvu}}, Lisboa, Livraria Editora Marie Françoise Lallemant
* ({{ano|1884}}) {{livro digitalizado|O primeiro baile (monólogo em um acto)|Maria Rita Chiappe Cadet - O primeiro baile; monologo em um acto (1884).djvu }}, Lisboa, Livraria Editora Marie Françoise Lallemant, 1884
* ({{ano|1884}}) {{livro digitalizado|O segredo de Helena (monólogo em verso)|Maria Rita Chiappe Cadet - O segredo de Helena; monologo em verso (1884).djvu}} , Lisboa, Livraria Editora Marie Françoise Lallemant
* ({{ano|1885}}) A Preguiça e a Mentira (comédia em um acto), Lisboa, Livraria Editora Marie Françoise Lallemant
* ({{ano|1860}}) "A Estrella (Poema em oitavas)" Almanaque de Lembranças Luso Brasileiro para o anno de 1861 com 428 artigos e 94 gravuras por Alexandre Magno de Castilho, Lisboa, Typographia Franco-Portugueza, pp. 218-219.
"O Anjo da Charidade" Archivo Pitoresco, 1861, pp. 244-245; 250-251; 262-264; 361-364
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[[Categoria:Maria Rita Chiappe Cadet| ]]
[[Categoria:Autores portugueses]]
[[Categoria:Autoras]]
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Galeria:Maria Rita Chiappe Cadet - O lunch na quinta; comedia em um acto (1884).djvu
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[[Categoria:Originais de edições impressas em 1884]]
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Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/Prefácio
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| autor = Ana de Castro Osório
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O título desta obra — «Histórias Maravilhosas da Tradição Popular» — exprime fielmente o seu alto e perene valor e o seu significado poético e cultural.
O subtítulo — «recolhidas e contadas por D. Ana de Castro Osório» — indica não só a autoria literária, ou, melhor, a colaboração literária dada por uma grande Escritora ao génio do Povo, mas também a probidade e a perfeita beleza desta realização.
Não carece, por isto, a obra que damos ao público, em edição definitiva e completa, de uma longa apresentação dos Editores.
Parece-nos justo, no entanto, inscrever nela algumas palavras liminares, demonstrativas principalmente da consciência com que oferecemos aos Países de Língua Portuguesa, este monumento literário, único em sua vastidão e beleza, o Livro onde ficará sempre vivo o génio de um Povo, através das suas mais belas tradições.
Palavras também de justa homenagem à memória de quem com intuição única, lúcido amor pela sua raça, dedicação constante de uma vida e os mais altos dotes literários, pôde realizar esta obra — a escritora D. Ana de Castro Osório.
A tradição popular portuguesa é, sem dúvida, uma das mais ricas e de maior elevação de alma. No campo vastíssimo da Literatura Tradicional, por tempo incontável mantida, sucessivamente acrescentada e refeita, e sempre vivida, têm lugar primordial as Histórias Maravilhosas, designação geral que significa toda a narrativa em que se fixou ou recriou um mito, um sentimento do maravilhoso da vida humana e de tudo que a prolonga no mistério.
Todo esse maravilhoso tradicional precisava de ser amorosa e inteligentemente recolhido com a intuição do Poeta mais ainda que pela ciência do Folclore.
Foi esta obra de recolha da tradição popular realizada, com a dedicação de largo tempo da sua vida, por D. Ana de Castro Osório.
Iniciou-a na mocidade, em Mangualde (onde nascera em 18 de Junho de 1872); continuou-a, na juventude, em Setúbal, e ali a terminou, já depois de casada com o poeta Paulino de Oliveira, que muito a animou a prosseguir na realização total do seu empreendimento.
Todas estas Histórias foram recolhidas, por um espírito de verdadeira poesia, da tradição oral do grande poeta que é o Povo.
Já antes da ilustre escritora, alguns sábios folcloristas haviam começado a obra meritória da recolha, científica, digamos assim, destas e outras mais tradições populares, fixando as suas múltiplas e quase sempre incompletas e imperfeitas versões.
Mas não foi aos seus livros de ciência etnográfica ou de folclore que D. Ana de Castro Osório pediu a matéria de sua obra inicial — a criação de uma Literatura Infantil Portuguesa, com base principal nos contos e histórias tradicionais.
Foi à matéria, viva e palpitante de sonho, da própria oralidade.
Foi a gente do povo que, depois, consagrou numa página literária de grande beleza: «Os narradores das lindas histórias».
E com o mesmo espírito de poesia as reviveu e recriou, sentindo com a alma do Povo, na sua maior altura; reconstituindo, pela reunião de várias versões ou a intuição poética, o que fora esquecido; purificando, o que se deturpara na tradição oral, sem desumanizar nem alindar mas procurando sempre a perfeição da beleza perene. Esta recriação literária, no sentido melhor e mais puro da palavra, pode considerar-se única em todo o Mundo.
A França conta, é certo, com a obra semelhante de Charles Perrault; a Alemanha com a dos irmãos Grimm. Mas a primeira, pelas próprias qualidades e defeitos de época literária e social, de Classicismo e de muito imperfeita compreensão e escasso amor do Povo, e, a segunda, por mais estreito espírito científico e menor sentimento poético, uma e outra não alcançaram a realização que era necessária.
E esta — a reconstituição viva e completa dos mitos de tradição popular e sua recriação com beleza perfeita para todos e para sempre válida — realizou-a D. Ana de Castro Osório.
A obra fez-se por este sentimento da Poesia e da grandeza humana.
Em 1897, com os primeiros contos e histórias, recolhidos na sua mocidade, iniciou D. Ana de Castro Osório a publicação, em fascículos, comovedores por sua modéstia de apresentação gráfica, da sua Colecção de contos «Para as Crianças». Nela foram publicadas algumas obras de criação exclusivamente pessoal; os contos e facécias que exprimem o bom senso e a sátira risonha ou pungente do Povo; e, constituindo o principal de nove séries de fascículos das dezóito dessa Colecção Para as Crianças, as Histórias Maravilhosas.
Com esta obra persistente foi, verdadeiramente, D. Ana de Castro Osório a criadora da Literatura Infantil Portuguesa. Mas a tão alto e realizado intuito um outro, maior ainda, se sobrepunha, o de aperfeiçoar, progressivamente, e com o carinho e o respeito exemplar que merece o génio do Povo, todas essas Histórias maravilhosas e de as reunir e ordenar de modo a constituirem um monumento definitivo da Literatura Portuguesa.
Em edições sucessivas e numa revisão final, de grande Artista na plena posse das suas qualidades, antes da sua morte (em 23 de Março de 1935) preparou D. Ana de Castro Osório a obra perfeita que hoje damos ao público.
Destina-se a todas as crianças e a todos os adultos; aos indivíduos de cultura superior e ao Povo; aos que procuram a beleza da eterna Poesia humana e aos folcloristas que a desejam estudar em suas origens e permanência na tradição.
Em notas finais a estes volumes serão indicadas as fontes orais, a origem local das versões recolhidas, os nomes dos seus narradores populares.
Porque esta obra da mais alta e válida literatura é também uma obra com base, a mais firme, na ciência do folclore. Interessará, por isso, estamos certos, não só aos homens de língua portuguesa mas também aos homens cultos de todo o Mundo. Mas é na verdade, para todos que falam o português que ela tem o principal e inexcedível interesse — o de constituir um dos Livros essenciais da sua cultura, fonte de beleza moral e de grandeza espiritual.
Por o compreendermos desejámos fazer esta edição definitiva das Histórias Maravilhosas do Povo Português, contadas por D. Ana de Castro Osório, sobre a versão última e perfeita, pela muito ilustre senhora revista e que nos foi confiada pelos seus filhos, os escritores João de Castro Osório e José Osório de Oliveira.
Os Editores crêem que melhor não poderiam, do que por esta edição, corresponder ao intuito expresso no seu nome.
SOCIEDADE DE EXPANSÃO CULTURAL, LDA.
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<big>'''PREFÁCIO'''</big>
O título desta obra — «Histórias Maravilhosas da Tradição Popular» — exprime fielmente o seu alto e perene valor e o seu significado poético e cultural.
O subtítulo — «recolhidas e contadas por D. Ana de Castro Osório» — indica não só a autoria literária, ou, melhor, a colaboração literária dada por uma grande Escritora ao génio do Povo, mas também a probidade e a perfeita beleza desta realização.
Não carece, por isto, a obra que damos ao público, em edição definitiva e completa, de uma longa apresentação dos Editores.
Parece-nos justo, no entanto, inscrever nela algumas palavras liminares, demonstrativas principalmente da consciência com que oferecemos aos Países de Língua Portuguesa, este monumento literário, único em sua vastidão e beleza, o Livro onde ficará sempre vivo o génio de um Povo, através das suas mais belas tradições.
Palavras também de justa homenagem à memória de quem com intuição única, lúcido amor pela sua raça, dedicação constante de uma vida e os mais altos dotes literários, pôde realizar esta obra — a escritora D. Ana de Castro Osório.
A tradição popular portuguesa é, sem dúvida, uma das mais ricas e de maior elevação de alma. No campo vastíssimo da Literatura Tradicional, por tempo incontável mantida, sucessivamente acrescentada e refeita, e sempre vivida, têm lugar primordial as Histórias Maravilhosas, designação geral que significa toda a narrativa em que se fixou ou recriou um mito, um sentimento do maravilhoso da vida humana e de tudo que a prolonga no mistério.
Todo esse maravilhoso tradicional precisava de ser amorosa e inteligentemente recolhido com a intuição do Poeta mais ainda que pela ciência do Folclore.
Foi esta obra de recolha da tradição popular realizada, com a dedicação de largo tempo da sua vida, por D. Ana de Castro Osório.
Iniciou-a na mocidade, em Mangualde (onde nascera em 18 de Junho de 1872); continuou-a, na juventude, em Setúbal, e ali a terminou, já depois de casada com o poeta Paulino de Oliveira, que muito a animou a prosseguir na realização total do seu empreendimento.
Todas estas Histórias foram recolhidas, por um espírito de verdadeira poesia, da tradição oral do grande poeta que é o Povo.
Já antes da ilustre escritora, alguns sábios folcloristas haviam começado a obra meritória da recolha, científica, digamos assim, destas e outras mais tradições populares, fixando as suas múltiplas e quase sempre incompletas e imperfeitas versões.
Mas não foi aos seus livros de ciência etnográfica ou de folclore que D. Ana de Castro Osório pediu a matéria de sua obra inicial — a criação de uma Literatura Infantil Portuguesa, com base principal nos contos e histórias tradicionais.
Foi à matéria, viva e palpitante de sonho, da própria oralidade.
Foi a gente do povo que, depois, consagrou numa página literária de grande beleza: «Os narradores das lindas histórias».
E com o mesmo espírito de poesia as reviveu e recriou, sentindo com a alma do Povo, na sua maior altura; reconstituindo, pela reunião de várias versões ou a intuição poética, o que fora esquecido; purificando, o que se deturpara na tradição oral, sem desumanizar nem alindar mas procurando sempre a perfeição da beleza perene. Esta recriação literária, no sentido melhor e mais puro da palavra, pode considerar-se única em todo o Mundo.
A França conta, é certo, com a obra semelhante de Charles Perrault; a Alemanha com a dos irmãos Grimm. Mas a primeira, pelas próprias qualidades e defeitos de época literária e social, de Classicismo e de muito imperfeita compreensão e escasso amor do Povo, e, a segunda, por mais estreito espírito científico e menor sentimento poético, uma e outra não alcançaram a realização que era necessária.
E esta — a reconstituição viva e completa dos mitos de tradição popular e sua recriação com beleza perfeita para todos e para sempre válida — realizou-a D. Ana de Castro Osório.
A obra fez-se por este sentimento da Poesia e da grandeza humana.
Em 1897, com os primeiros contos e histórias, recolhidos na sua mocidade, iniciou D. Ana de Castro Osório a publicação, em fascículos, comovedores por sua modéstia de apresentação gráfica, da sua Colecção de contos «Para as Crianças». Nela foram publicadas algumas obras de criação exclusivamente pessoal; os contos e facécias que exprimem o bom senso e a sátira risonha ou pungente do Povo; e, constituindo o principal de nove séries de fascículos das dezóito dessa Colecção Para as Crianças, as Histórias Maravilhosas.
Com esta obra persistente foi, verdadeiramente, D. Ana de Castro Osório a criadora da Literatura Infantil Portuguesa. Mas a tão alto e realizado intuito um outro, maior ainda, se sobrepunha, o de aperfeiçoar, progressivamente, e com o carinho e o respeito exemplar que merece o génio do Povo, todas essas Histórias maravilhosas e de as reunir e ordenar de modo a constituirem um monumento definitivo da Literatura Portuguesa.
Em edições sucessivas e numa revisão final, de grande Artista na plena posse das suas qualidades, antes da sua morte (em 23 de Março de 1935) preparou D. Ana de Castro Osório a obra perfeita que hoje damos ao público.
Destina-se a todas as crianças e a todos os adultos; aos indivíduos de cultura superior e ao Povo; aos que procuram a beleza da eterna Poesia humana e aos folcloristas que a desejam estudar em suas origens e permanência na tradição.
Em notas finais a estes volumes serão indicadas as fontes orais, a origem local das versões recolhidas, os nomes dos seus narradores populares.
Porque esta obra da mais alta e válida literatura é também uma obra com base, a mais firme, na ciência do folclore. Interessará, por isso, estamos certos, não só aos homens de língua portuguesa mas também aos homens cultos de todo o Mundo. Mas é na verdade, para todos que falam o português que ela tem o principal e inexcedível interesse — o de constituir um dos Livros essenciais da sua cultura, fonte de beleza moral e de grandeza espiritual.
Por o compreendermos desejámos fazer esta edição definitiva das Histórias Maravilhosas do Povo Português, contadas por D. Ana de Castro Osório, sobre a versão última e perfeita, pela muito ilustre senhora revista e que nos foi confiada pelos seus filhos, os escritores João de Castro Osório e José Osório de Oliveira.
Os Editores crêem que melhor não poderiam, do que por esta edição, corresponder ao intuito expresso no seu nome.
SOCIEDADE DE EXPANSÃO CULTURAL, LDA.
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Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O Homem da moca
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| autor = Ana de Castro Osório
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| seção = O Homem da moca
| anterior = [[../Prefácio/]]
| posterior = [[../História do careca/]]
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<big>'''O HOMEM DA MOCA'''</big>
HAVIA numa terra, que não vem para aqui dizer o nome, um rapaz dotado duma força tal que nenhum homem se atrevia a lutar com ele. Mas, como era bom e alegre, todos o convidavam e lhe chamavam o Benvindo significando assim o prazer que sentiam com a sua companhia.
Um dia aborreceu-se de viver ali e resolveu ir viajar. Mandou fazer uma grande moca de ferro e, encostando-se a ela, partiu sem destino, ao acaso da sua fantasia.
Passou por um pinhal e viu um homem que arrancava grandes pinheiros com a maior facilidade e os atava em molho como se fossem ramos secos. O ''Homem da moca'' perguntou ao outro o que andava a fazer e, como lhe respondesse que andava a juntar lenha para o seu lume e tencionava levar duma vez as árvores todas, ficou muito contente de encontrar um homem com tanta força e propôs-lhe serem companheiros, pagando-lhe ele soldada.
O ''Arranca-pinheiros'' aceitou logo e, satisfeitos de serem dois valentes sem medo a coisa alguma, continuaram a jornada. Depois de muito caminharem e de verem inúmeras terras sem nunca encontrarem quem os vencesse, viram no meio dum campo um homem só com uma montanha às costas. Admirados, perguntaram:
— Olá, tu que fazes aí?
— Eu tenho muita força e para me entreter quero mudar esta montanha.
— Deixa-te disso — acudiu ''O da moca'' — vem daí connosco ver terras, que eu pago-te soldada como pago a este.
O ''Revolve-montes'' aceitou e lá foram os três valentes correr mundo.
Eram a admiração de toda a gente e muitos Reis e Imperadores os quiseram fazer generais dos seus exércitos. Mas o ''Homem da moca'' nada mais desejava do que ver terras, correr mundo e conhecer novas gentes.
Assim foram andando até que uma noite acharam-se num descampado onde havia uma casa. Não vendo más nem boas, para
ali se dirigiram e ficaram verdadeiramente espantados por encontrarem uma boa casa completamente abandonada.
Benvindo, que não era homem para meias medidas, entrou por ali dentro, tomou posse de tudo e disse aos companheiros
que era preciso fazer a ceia e então que fosse um deles ver se encontrava quem lhe desse ou vendesse coisa que pudessem comer.
Saiu o ''Arranca-pinheiros'' e, como visse fogueiras na serra, discorreu que eram os pastores e foi comprar um carneiro e bom leite. Por conversa perguntou de quem era aquela grande casa e porque razão estava assim abandonada. Responderam-lhe os pastores:
— A casa lá de baixo?! Ai senhor, Deus o livre de lá ficar!
— Mas porquê, homenzinhos?! Digam sempre, que nós somos três companheiros invencíveis, sem medo a coisa alguma.
— Pois os senhores serão muito valentes, ninguém diz menos disso (responderam os pastores), mas é que naquela casa anda o Diabo e quem lá ficar morre!
— Vamos a ver se ele é mais forte do que nós!
Foi ter com os companheiros e, contando o que lhe tinham dito os pastores, pediu a Benvindo que se fosse deitar mais o ''Revolve-montes'', que ele ficaria fazendo a ceia.
Assim foi; os dois subiram para os quartos e o ''Arranca-pinheiros'' tratou de esfolar o carneiro e pô-lo a assar no espeto, ao mesmo tempo que deitava o leite num tacho para ferver.
Estava nestes preparativos quando ouviu uns ''miaus'' terríveis. Voltou-se e deu de cara com um gatarrão, preto como o azeviche, que abria uma boca enorme miando desesperadamente. Era tão medonho o animal que o ''Arranca-pinheiros'', apesar da sua valentia, fugiu pela escada acima, chamando os companheiros. Entretanto foi o gato ao lume e levantou tal labareda que o carneiro ficou em carvão e o leite em fervura fugiu todo do tacho. Vieram os companheiros ver o gato famoso que havia afugentado o valente, mas nada encontraram.
O ''Homem da moca'' muito zangado mandou pôr a ceia na mesa, mas a ceia era uma vez!, tiveram que se deitar sem ela.
Ao outro dia quiseram os dois ir-se embora, mas ''O da moca'', tendo empenho de conhecer a coragem dos seus homens, resolveu ficar.
Mandou outra vez comprar um carneiro e leite e nessa noite foi o ''Revolve-monte''s quem ficou a fazer a ceia. Mal o homem tinha posto tudo ao lume, ouvindo o sinistro miar do gato, largou barcos e redes e foi acorrer ter com os companheiros gritando que estava ali o Diabo com forma de gato, a deitar lume pelos olhos! Os outros desceram e não viram nada, mas, como na véspera, tiveram que ficar sem ceia — porque tudo estava reduzido a carvões.
Na noite seguinte mandou ''O da moca'' deitar os dois e ficou ele a cozinhar a ceia, pondo ao pé de si a arma sua fiel companheira. Tinha já a ceia pronta e estava para chamar os outros dois, quando ouviu o gato a miar. Olhou para o lado, viu o bicho e disse-lhe:
— Anda para cá com o teu ''renhau-nhau'', que eu te ensino!
O gato, sem fazer caso, ia-se aproximando do lume; e o homem, sempre com olhos nele, pegou na moca e quando o viu ao alcance levantou-a ràpidamente e arrumou-lhe tamanha pancada que o bicho deu um berro medonho e desapareceu.
— Então não te dizia eu que me havias de pagar!? Deixares-me duas noites sem ceia!? Ora toma lá para não seres esperto! — dizia ele todo contente.
Chamou os companheiros para a ceia, e eles, que já o imaginavam cheio de susto, ficaram envergonhados de o verem a rir muito satisfeito da sua proeza.
Cearam com todo o descanso e apetite, e depois disse ''O da moca'':
— Agora vamos procurar o gato, que ele deve estar por aí escondido em algum canto.
Respondeu o ''Arranca-pinheiros'':
— Então como havemos de o encontrar?
— Procurando-o, meu bruto! Pois tu não vês que deixou rastro de sangue?
''O da moca'', sempre na frente, foi seguindo e, depois de percorrerem lojas, subterrâneos e velhos casarões abandonados, chegaram a um pátio interior onde havia um poço. Terminava ali o rastro de sangue, que ainda se via na borda.
— Bom! (disse Benvindo). Foi por aqui que ele se meteu, e nós vamos lá abaixo procurá-lo.
— Como havemos nós de descer? — perguntaram os outros, sempre atrapalhados.
— Isso já se arranja. Fiquem vocês aguardar a saída, que eu já volto.
Foi à cozinha, onde tinha visto cordas e cestos, escolheu um com quatro asas e trouxe tudo para a borda do poço. Atou as cordas às quatro asas do cesto e fazendo entrar para dentro o ''Arranca-pinheiros'' deu-lhe uma campainha dizendo: Tu vais descer lá ao fundo e ver o que há para vires contar; levas esta campainha, se te vires aflito toca-a com força que nós içamos-te logo.
O ''Arranca-pinheiros'' lá se meteu no cesto e os dois começaram a deixá-lo cair devagarinho.
Estaria por aí a meio do poço, começou a tocar a campainha com tal fúria que os outros o subiram logo. Perguntou ''O da moca'':
— Então para que tocaste? O que viste?
— Ih, Jesus! eram tantos os mosquitos que não era possível romper. Até me iam abafando!
— És um bruto que só tens força e não tens coragem nenhuma. Agora vai tu, ''Revolve-montes''.
Meteu-se este no cesto e foi descendo, mas quando estaria a duas terças partes do caminho desanda a tocar numa tal fúria que não houve mais remédio senão tirá-lo. Chegou acima e disse o mesmo que tinha dito o ''Arranca-pinheiros''.
''O Homem da moca'' ficou tão zangado que ele próprio se meteu no cesto e recomendou que ouvindo tocar não o subissem porque isso apenas queria dizer que precisava descer mais depressa; que só içassem o cesto quando ele abanasse as cordas.
Assim foi. A meio do poço, como eram tantos os mosquitos que já o atabafavam, começou a tocar e os de cima vá de largar corda. Foi um instante enquanto se viu com os pés no chão.
Saiu do cesto e ficou maravilhado. Dos mosquitos nem sinal! E o fundo do poço não era mais que um palácio, todo de cristal, iluminado como se fosse dia.
Começou a percorrer salas e quartos e por toda a parte as riquezas eram tais e tantas que ele se imaginava a sonhar. Assim andou, sem ver ninguém, até encontrar uma Velha que, admirada e compungida, lhe disse:
— Que vens aqui fazer, desgraçado? Pois tu não sabes onde estás?!
— Para o saber é que venho — respondeu ele arrogante — e se tu não mo dizes, com esta moca te esmago já.
Porque é de saber que ele nunca largava a sua arma.
A Velha, vendo-se perdida com semelhante ameaça, disse logo:
— Espera lá, espera lá, que eu tudo te conto. Olha, naquele quarto está a filha mais velha dum grande Rei, guardada por um leão. Se ele te vê, devora-te. No segundo quarto está a segunda filha do mesmo Rei, guardada por uma serpente, a maior que existe no Mundo. Se lhe apareces, decerto que te engole. E no terceiro quarto está a terceira Princesa que, por ser a mais bela de todas, é guardada pelo próprio Diabo.
— Hum! Pois a procurar esse ''figurão'' é que eu vim. Deixa, que ele já provou a minha moca; então vai renovar conhecimentos.
— Não — disse a Velha — não fazes nada com isso. Visto que ele já sabe quanto pesa a tua bengala não há-de querer mais brincadeiras dessas. Naturalmente propõe-te um duelo à espada, e tu aceita logo; mas quando ele vier com as espadas, uma muito nova e brilhante, outra muito ferrugenta, escolhe tu esta que a outra é de vidro.
— Tu estás a enganar-me?
— Não estou, não; previno-te porque assim me vingo dele que me tem presa aqui desde a minha mocidade. Não digas que me viste, é só o que te peço.
O rapaz dirigiu-se logo para a primeira porta, abriu-a e encontrou uma linda menina, sentada num banco de oiro, abanando-se com um leque de rendas preciosas. Quando ela o viu entrar, gritou-lhe:
— Que vem aqui fazer, desgraçado?! Fuja, que é um leão o meu guarda; se o encontra, mata-o logo.
— Pois, minha linda Princesa, eu é que venho para o matar a ele e então já daqui não saio.
Mal isto disse, um rugido medonho fez tremer todo o palácio e o homem não teve senão tempo de se meter atrás da porta, enquanto a Princesa, estarrecida de susto, o encomendava a todos os Santos. Abriu-se a porta com formidável estrondo e o leão rugiu:
— Aqui há humana criatura!...
Mas nem a Princesa teve tempo de responder porque o ''Homem da moca'' descarregou tamanha pancada na cabeça do monstro que ele ficou logo morto.
Depois agarrou na Princesa ao colo e foi a correr metê-la no cesto. Deu um grande puxão à corda, que começou logo a subir, e disse à Princesa que mandasse descê-lo, para irem as irmãs. Ela despediu-se, dando-lhe em sinal de reconhecimento o seu precioso leque.
Vitorioso daquele primeiro inimigo, dirigiu-se ao segundo quarto. Abriu a porta e deparou com uma menina, se era possível, ainda mais linda do que a primeira. Sentada junto duma mesa, tinha na mão um ramo de mil flores feito de pedras preciosas. Mal viu o rapaz, disse-lhe com tristeza:
— Fuja depressa, que a minha guarda é uma serpente, e se aqui o apanha mata-o logo.
— Não fugirei, minha linda Infanta, porque já salvei a sua irmã e aqui estou para a salvar também.
Mal tinham dito estas palavras ouviram um silvo medonho e uma serpente monstruosa apareceu: — Quem está aqui a falar?!
Não respondeu a menina, que Benvindo, rápido como um relâmpago, saiu de trás da porta e deu tal pancada no mostrengo que ele ficou logo ali despedaçado.
A menina, doida de contentamento, saltou-lhe ao pescoço e ele pegou nela ao colo e foi acorrer metê-la no cesto. Sacudindo as cordas fortemente, fez-lhe a recomendação de o mandar descer para ir a terceira Princesa. Ela prometeu, e como prova de reconhecimento deu-lhe também o seu ramo.
Mal o cesto começou a subir, foi a correr ao terceiro quarto, abriu a porta e ficou deslumbrado vendo a terceira Princesa, que era a mais linda de todas. Nada havia no mundo a que a comparar, porque a sua formosura parecia divina.
Sentada num banquinho de marfim, fiava numa roca feita dum só brilhante. Mal deu com os olhos no rapaz ficou muito contente e ao mesmo tempo admirada, porque homens era coisa que nunca vira, tendo sido roubada pelo Diabo logo que nasceu.
Depois ficou muito triste, dizendo:
— O que vem aqui fazer, infeliz? Não sabe que é o Diabo quem me guarda? Que é ele o senhor deste palácio, que é ele quem aqui tudo manda, e se o apanhar o matará?!
— Pois à procura dele venho eu (disse Benvindo). Até já me está tardando encontrar-me com esse sujeito para o ensinar bem ensinado.
— É que nem o senhor sabe quem ele é; se cá o apanha mata-o logo.
— Veremos isso!...
— Olhe, lá vem ele! — E, muito aflita, pôs-se a menina a fiar disfarçadamente, enquanto ''O da moca'' se metia atrás da porta. Nisto sentiu-se um formidável barulho, todo o palácio estremeceu, e, como um furacão, entrou o Diabo a gritar: — Aqui está gente!...
O rapaz ia a descarregar-lhe uma violenta pancada, mas o ''inimigo'', que era mais fino do que fora o leão e do que a serpente; desviou-se para o lado com um salto, dizendo:
— Nada, lá com a moca é que não! Já uma vez me deste com ela que me ias arrebentando. Entre valentes o caso vai doutra
maneira. Havemos de nos bater à espada.
— Pois seja; aceito. Vai lá buscar as espadas. Se tu ficares vencedor, matas-me; se eu te vencer a ti, levo esta menina e tu nunca mais te meterás comigo.
— Está dito! — respondeu o Diabo.
E muito contente foi buscar duas espadas, uma muito reluzente e outra muito ferrugenta. Queria entregar a brilhante ao rapaz, mas ele recordou-se do conselho da Velha, lançou mão da outra, dizendo em ar de graça:
— Nada de cerimónias, amigo; eu não sou para essas delicadezas.
E levantando a espada começou o combate partindo em mil pedaços a que tinha o Diabo e dando-lhe tal cutilada que lhe cortou uma orelha.
Vencedor, nem esperou que voltasse a si da surpresa o seu adversário; apanhou a orelha e meteu-a no bolso. Depois pegou na menina e foi a correr pô-la no cesto, dizendo-lhe que mandasse o descessem, para ele depois subir. A lindíssima Princesa, agradecendo-lhe muito, queria que ele subisse no mesmo cesto, com medo que ainda o Diabo lhe fizesse alguma. Mas o cesto era pequeno para os dois.
Benvindo tratou de a sossegar, e ela, em sinal da sua imensa gratidão, deu-lhe a roca.
Ali ficou Benvindo à espera; e fartou-se de esperar que lhe deitassem o cesto para ele subir. Mas isso é que não podia acontecer porque mal se viram com as Princesas, os falsos foram-se embora com elas, sem quererem saber do companheiro que as tinha ido libertar.
As Princesas não queriam ir, mas não podiam resistir à força deles. Só a mais nova chorou e se afligiu tanto que perdeu a fala.
Dirigiram-se para o Reino do pai das Princesas, o qual ficou tão contente que não se pode dizer mais.
Em sinal de regozijo decretou logo grandes festas e um torneio esplêndido, para solenizar tão grande ventura e, ao mesmo tempo, fazer público o casamento das duas Princesas mais velhas com os que se inculcavam seus libertadores. Só no meio de tanta felicidade havia o imenso desgosto da Princesa mais nova ter perdido a fala.
Por mais que lhe dissessem e fizessem, ela nada respondia e a sua vida era chorar. Por esse motivo resolveu o Rei dar três grandes torneios para reunir na sua capital todos os Príncipes e Cavaleiros do Mundo, a ver se à Princesa lhe voltava a fala e escolhia marido.
<p style="text-align: center;">* * *</p>
''O da moca'', que ficou no fundo do poço, farto de esperar e tornar a esperar, convenceu-se de que tinha sido enganado e jurou vingar-se. Sair dali é que era o principal e também o mais difícil. Andou para um lado e para o outro, percorreu todo o maravilhoso palácio subterrâneo, mas ninguém encontrou.
Passados três dias, já desesperado, voltou ao fundo do poço, lembrou-se que tinha no bolso a orelha do diabo e cheio de raiva esfregou-a com muita força na parede, dizendo:
— Este é que tem a culpa de tudo.
Ouviu logo uma voz gritar:
— Ai, minha rica orelha, dá-me cá a minha orelha!...
— Não dou! Põe-me lá em cima imediatamente, senão ainda farei pior.
Não viu o Diabo mais remédio senão aparecer e dizer-lhe que montasse nos seus ombros, que seria um instante enquanto o levaria. O rapaz subiu e ei-los aí vão pela terra acima.
A meio do poço diz o Diabo:
— Não me apertes tanto, olha que me afogas!
— Nada, não hei-de apertar! O que tu agora querias era largar-me.
E, apertando ainda mais o pescoço do Diabo, num momento se apanhou em cima.
Mal se viu ao ar livre, correu em procura dos companheiros e das Princesas, mas ninguém lhe dava sinais certos da sua passagem. Andando e perguntando, chegou à grande cidade onde eles agora estavam. Logo ali soube as alegrias que iam no Paço, do casamento das duas irmãs mais velhas e dos preparativos que, para o torneio e mais festas, se faziam.
De toda a parte do Mundo tinham já chegado Príncipes e Cavaleiros que tomavam parte no torneio. Mas, ao mesmo tempo que havia todo este regozijo, havia também um desgosto enorme porque a Princesa mais nova tinha perdido a fala e não fazia senão chorar. Por mais carinhos de que a rodeassem tudo era baldado, e o pai só tinha esperança de a ver boa se algum dos nobres Cavaleiros que vinham ao torneio conseguisse tocar-lhe o coração.
Quem estas informações estava dando ao ''Homem da moca'' era um ourives de grande fama, que, pelos vistos, curava mais das vidas alheias que dos afazeres.
Estavam nesta conversa quando lhe vieram dizer que; sem falta, o Rei queria as pinhas no dia seguinte, sob pena de morte. Ficou o homem muito aflito e ''O da moca'' perguntou-lhe o que tinha.
— O que hei-de ter?! Decerto que vou à morte, porque Sua Majestade encomendou-me seis pinhas de oiro para mandar colocar na balaustrada da tribuna real; ora as encomendas têm sido tantas que não pude encontrar oficiais que me ajudassem.
— Não se apoquente (disse Benvindo), que eu também sou ourives, e sei fazer todas as obras, ainda as mais delicadas. Dê-me o senhor a ferramenta, o oiro e o modelo; deixe-me ir só para um quarto bem fechado, e eu me comprometo a fazer-lhe o que deseja.
O ourives deu-lhe tudo quanto ele pediu. O rapaz foi para o quarto, mas, em lugar de trabalhar, meteu-se na cama e dormiu, como um justo, até à noite. À ceia chamaram-no e ele foi logo, comendo com tal apetite que admirava a toda a família da casa. Depois pegou numa luz e foi para o quarto fingir que trabalhava.
Antes de se ir deitar foi o ourives ver o adiantamento da obra, e não vendo nada feito desatou a chorar.
— Ó homem, vá-se deitar e descanse, que há-de ter as pinhas.
— Hei-de ter, hei-de! O senhor fala assim porque não tem a sua vida em perigo. O Rei manda-as buscar amanhã; o que hei-de fazer?!
— Já lhe disse que as venha buscar daqui a pouco, pois estarão prontas.
O ourives, não se fiando em tais palavras saiu do quarto, desanimado.
Mal fechou a porta, ''O da moca'' meteu a mão no bolso e tirando a orelha do Diabo esfregou com ela na parede. Imediatamente o tal sujeito apareceu gritando: — Ai a minha orelha! Dá cá a minha orelha!
— Hei-de dar-ta, descansa, mas só quando não precisar de ti. Conta com isto e vai-te portando bem, se a queres!...
— Então para que me chamaste?
— Para me fazeres seis pinhas de oiro e brilhantes do feitio desta que está aqui.
Sentou-se o Diabo à mesa e, pegando no oiro, imediatamente o transformou em seis pinhas cravejadas de brilhantes, feitas com tal perfeição e arte que nada havia a dizer. O rapaz escondeu cinco numa gaveta e, chamando o ourives, mostrou-lhe uma, dizendo com todo o desassombro:
— Já acabei esta; diga se está boa para assim fazer as outras.
Era tal o seu brilho e beleza que nem o ourives ousou tocar-lhe e, caindo de joelhos, beijou as mãos do artista genial que tinha em sua casa.
Ao outro dia mandaram as seis pinhas.
Estava o Rei com a sua Corte e numerosos hóspedes quando chegou o portador. Aberta a caixa ficaram todos deslumbrados, não havendo elogios que não fizessem ao ourives.
O boato correu logo e, como nas festas que se projectavam todos queriam mostrar o seu gosto e riqueza, foram tantas as encomendas que fizeram ao artista célebre, que ele não tinha mãos a medir. Aceitava-as todas, porque ''O da moca'' encarregava-se de fazer tudo dum dia para o outro. A orelha do diabo é que dessa vez ia ficando em lastimável estado. O ourives ganhava rios de dinheiro, tanto mais que ele quis dividir com Benvindo e este nada aceitou.
Chegou finalmente o primeiro dia de torneio. Estava tudo a postos; o Rei, as Princesas, e toda a Corte nas tribunas; os Cavaleiros armados como se fossem para cruel batalha, prestes a lançarem-se uns contra os outros para mostrarem às suas damas como eram valorosos.
Acabavam os arautos de tocar as suas trompas, dando o sinal de combate, quando um cavaleiro todo vestido de armas pretas, montando um belo animal preto como azeviche, saltou por cima das barreiras, e, vindo parar em frente da tribuna real, fez uma profunda vénia. Voltou-se para os Cavaleiros e gritou-lhes arrogante:
— Para combater-vos vim, senhores! Um a um, dois a dois, dez a dez, ou todos juntos se quiserdes, eu vos receberei na ponta da minha lança.
Despeitadíssimos ficaram todos os reptados e todos à uma correram para o desconhecido, ansiosos de tirar vingança dum tal atrevimento. Mas recuaram logo, envergonhados de tal movimento, pois seria caso nunca visto, entre nobres Cavaleiros, irem tantos contra um.
Só o ''Arranca-pinheiros'' e o ''Revolve-montes'' — que eram agora dois nobres senhores da Corte, futuros genros do Rei — foram para a frente combater ''O da moca'', que outro não era o desconhecido de armas pretas.
Fortes eram eles, mas faltava-lhes a coragem sem a qual a força pouco mais vale do que nada.
Benvindo, que bem os conhecia, correu para eles com ímpeto e derribou-os logo das selas.
Em vista deste feito, saiu dentre os campeões o Príncipe de maior fama que nesse tempo havia e apresentou-se a desafiar ''O da moca''. Este, sem lhe fazer mal, enfiou a lança pela armadura e fê-lo ir cair no meio da arena. As palmas retumbaram de todos os lados, e o Rei mandou ir à sua presença o vencedor do dia.
Quando isto lhe disseram, recusou apresentar-se. Mandou o Rei que logo o prendessem, e ele, com a espada em sarilho, livrou-se de todos, e, chegando defronte da Princesa mais velha, atirou-lhe com o leque para o regaço. Assombrada, gritou amenina:
— Meu pai, meu pai, foi este que nos salvou!
Irritado com a teimosa recusa do desconhecido, ordenou o Rei que de qualquer modo o agarrassem. Nada importou ao Cavaleiro, que, abrindo passagem por entre o povo, fez saltar o cavalo por cima de tudo e desapareceu.
Ficaram desesperados de não terem podido apanhar o famoso Cavaleiro de armas pretas e o seu cavalo, a mais perfeita estampa que todos tinham visto, notando-se-lhe só a falta de uma orelha, coisa que muito dava que pensar.
No dia seguinte havia novo combate, e o Rei, para apanhar o desconhecido, mandou altear as balizas e pôr tropa em volta do campo para o prenderem e lho trazerem, vivo ou morto.
Mal os arautos deram o sinal de combate, viram todos, com assombro, um cavaleiro vestido de vermelho, montando um cavalo da mesma cor, que parecia deitar chamas pelos olhos e pela boca. Saltou por cima de tudo e de todos e veio estacar em frente da tribuna real. Já ninguém tirava os olhos dele, pois tinham a certeza de que era o mesmo da véspera, porque ao cavalo faltava também uma orelha.
Os Cavaleiros, como tinham o apoio do Rei, concordaram em se lançar todos à uma sobre o atrevido campeão, mas o espanto e o desespero foram grandes, vendo-se perdidos diante de tanta coragem e força. Em pouco tempo desarmara todos, sem a nenhum matar.
Tinha o Rei dado as suas ordens e a tropa rodeou ''O da moca'' para lhe deitar a mão, mas este com tal destreza e brio se houve que pôde chegar junto da segunda Princesa e atirar-lhe com o ramo para o regaço. A menina, admiradíssima, gritou:
— Meu pai, não o deixe fugir, que foi ele quem nos salvou!
Mas quem podia ter mão em tal senhor?! Saltando por cima de tudo, ia a desaparecer, quando um soldado atrevido atirou um dardo que se lhe foi cravar na perna direita. Sem parar, foi com a mão para o arrancar, mas tão enterrado estava que se partiu. Atirou com o pedaço fora e continuou a fugir.
O soldado deu parte ao Rei do que tinha feito. Foram logo prevenidos todos os cirurgiões da cidade para, sob pena de morte, entregarem o Cavaleiro, se por acaso fossem chamados para o tratar. Mas Benvindo não era homem que se incomodasse com tão pouco. Mal chegou a casa foi para o quarto, acabou de arrancar o ferro, lavou a ferida, e, depois de a ligar, deitou-se e adormeceu.
O ourives andava intrigado com as frequentes saídas do seu oficial, e, vendo-o nesse dia entrar a coxear, foi de mansinho espreitar o que ele fazia. Ficou muito admirado de todo aquele aparato, e, quando o rapaz foi chamado para jantar, entrou-lhe no quarto e viu que era parte de um dardo o que ele tinha arrancado da perna. Compreendeu logo que tinha em sua casa o misterioso Cavaleiro e ficou contentíssimo de tal honra, mas fingiu nada saber.
Era o dia seguinte o último do torneio e o Rei mandou estar tudo a postos, porque, apesar de o saberem ferido, todos esperavam ver chegar o desconhecido campeão.
Mal os arautos tocaram para principiar o combate, viram com espanto um Cavaleiro todo vestido de azul, como sempre de vizeira caída, montando um cavalo também azul e com uma orelha de menos. Saltou por cima de tudo para ir fazer a sua vénia diante da tribuna real. A terceira Princesa — que para nada tinha olhos e que ainda não tinha falado desde que chegara ao palácio — mal ele apareceu ficou outra e nunca mais o perdeu de vista.
O ''Arranca-pinheiros'' e o ''Revolve-montes'' é que andavam desconfiados, e, como eram dois traidores e cobardes, deixaram-se ficar na tribuna.
Nesse dia desceu à liça o próprio Rei, armado de ponto em branco, e desafiou o desconhecido.
— Como te chamas, Cavaleiro?
— Benvindo, Senhor, é o meu nome, mas Cavaleiro não sou. Tenho-me apresentado como tal, e, para combater com outros
senhores, assim me apresentaria sempre; mas nunca para cruzar o meu ferro com o vosso.
Chamai todos os Cavaleiros e dos mais esforçados que a todos vencerei, mas nunca me obrigareis a defender-me da vossa real espada.
Em vista disto, mandou o Rei que vinte homens se defrontassem com o desconhecido, dizendo:
— Tenho tanto empenho em o conhecer que desejo tê-lo vivo e prisioneiro, ou vencido e morto. Aí estão vinte Cavaleiros dos mais valentes, defendei-vos!
É escusado dizer que a todos venceu, ficando ele só no meio da arena e os outros desmontados e sem armas. Depois chegou junto da Princesa mais nova e atirou-lhe com a roca de oiro para o regaço. Mal isto fez, a Princesa, que ainda não tinha falado, gritou:
— Ai, meu pai, que é o nosso salvador!
E tamanha foi a sua alegria que perdeu os sentidos.
O Cavaleiro fugiu. Mas, com o esforço que fez ao saltar por cima das balizas altíssimas, a ferida, mal fechada, abriu-se de novo e deixava um rasto de sangue por onde ele ia passando.
Seguindo este sinal foram os soldados ter a casa do ourives, que os recebeu à porta, dizendo que ali não tinha entrado Cavaleiro algum e só com ele tinha o seu ajudante.
Como se não pôde apurar nada sobre o destino do misterioso Cavaleiro mandou o Rei que se marcasse o dia do casamento das duas Princesas mais velhas com os seus falsos salvadores. A mais nova é que outra vez perdera a fala e não havia quem a pudesse distrair.
No dia marcado para os casamentos foi o ourives ao paço, pedindo para falar imediatamente ao Rei. Chegando junto do Soberano, e, depois de interrogado, disse:
— Venho perguntar se ainda quereis saber quem foi o vencedor do torneio.
— Decerto que quero; é o meu maior empenho. Por acaso sabes tu onde se esconde esse valente; que desejaria cumular de honras?
— Em minha casa está há quatro semanas e foi a minha providência.
Contou então tudo o que lhe tinha acontecido.
O Rei, muito contente, mandou logo chamar o ajudante do ourives, que se apresentou com o seu fato ordinário e encostado à ''moca'', sem nenhuma aparência de grandeza. Perguntou-lhe o Rei:
— Como te chamas?
— Benvindo, Senhor. Também outros me chamam o ''Homem da moca'', por causa desta arma que trago sempre comigo.
— Para que fugias?
— Porque temia desagradar-vos, vindo onde não era chamado.
— Agora me lembro — disse o Rei — as minhas três filhas disseram que eras o seu salvador. Foste realmente quem as salvou?
— Fui eu e só eu!
— Então estes dois?!
E o Rei mostrava os traidores, que, tendo reconhecido ''O da moca'', estavam enfiados e confundidos.
— Esses dois — respondeu ele — eram meus criados e fugiram com as Princesas, que eu tinha salvo, deixando-me no fundo de um poço.
— Mas como provas tu isso? Como podes tu provar que és o Cavaleiro valoroso que apareceu no torneio?
— Em primeiro lugar, com o soldado que me feriu; em segundo, com o testemunho das vossas próprias filhas; em terceiro, com o do meu cavalo, que, esteja onde estiver, em eu chamando por ele logo aparece.
Mandou o Rei chamar o soldado e perguntou-lhe:
— Onde feriste o cavaleiro desconhecido?
— Na perna direita, Senhor.
Levantou o rapaz acalça e mostrou a ferida ainda mal cicatrizada; depois entregou ao Rei metade do ferro que ajustava perfeitamente ao pedaço que lhe trouxera o soldado.
Não de todo convencido, mandou o soldado embora e que chamassem as Princesas. As meninas, mal viram o rapaz, reconheceram-no logo, e, saltando-lhe ao pescoço, começaram a gritar:
— Foi este, foi este que nos salvou!
À mais nova voltou logo a fala e disse ao pai que morreria senão casasse com aquele corajoso rapaz.
Contaram tudo ao Rei, e ele muito contente abraçou-o, chamou-lhe filho, e entregou-lhe os dois mariolas para ele se vingar.
Os miseráveis cairam de joelhos, pedindo mil perdões, e ''O da moca'' disse-lhes:
— Eu nem vos quero tocar para me não sujar; vou entregar-vos ao meu cavalo.
Esfregou na parede a orelha do Diabo e logo todos sentiram um formidável tropel e viram — galgando rios e montes — aparecer o cavalo preto, que diante do dono se pôs quedo e manso.
— Bem, agora montem vocês para cima e agarrem-se bem — disse ele a rir aos dois traidores. E dirigindo-se ao cavalo: — Aqui tens estes figurões que eu te dou de presente, em paga dos teus bons serviços. E aqui tens também a orelha que te prometi; mas tu prometes-me também nunca me fazer mal, nem a mim nem a ninguém que eu estime, não é verdade?
— Sim! — respondeu em pavoroso grito o diabólico animal.
Então, obrigaram os dois a montar, e cavalo e cavaleiros elevaram-se nos ares.
O ''Homem da moca'', ''Benvindo'', ou o ''Cavaleiro Desconhecido'', que todas estas designações tinha, casou com a Princesa mais nova e foi o herdeiro do trono, porque as duas Princesas mais velhas nunca quiseram casar, certas de que não havia no Mundo outro homem tão valente e leal.
[[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|O Homem da moca]]
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Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/História do careca
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| autor = Ana de Castro Osório
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'''<big>HISTÓRIA DO CARECA</big>'''
ERA uma vez um pobre homem que tinha um único filho, que estimava muito. O seu ofício era ser forneiro, mas tão miseràvelmente vivia que nem tinha dinheiro para comprar lenha, indo ele mesmo cortá-la às matas.
Um dia, andando a labutar na sua vida agarrou o pé de uma giesta muito grossa, e tantos esforços fez para a atrancar que caiu para trás. Quando se levantou ficou admiradíssimo vendo diante de si uma senhora muito linda, que tinha saído do buraco deixado pela raiz da giesta.
O homem ficou embasbacado a olhar para ela, sem se atrever a mexer pé nem mão. — Eu sou uma Moira encantada (disse-lhe) e tu vieste perturbar o meu silêncio e abrir a porta do meu palácio.
O homenzinho deitou-se de joelhos e começou a clamar:
— Senhora Moira, eu andava na minha vida arrancando giestas para aquecer o meu forno, que é o meu ganha-pão, e não podia adivinhar que vos incomodava nem tão pouco que esta raiz fosse a porta do vosso palácio. Perdoai o meu crime involuntário, que eu juro guardar este segredo como se estivesse morto.
— Pois bem (respondeu a Moira) vai buscar o teu filho, que eu tomo conta dele, e asseguro-te que hei-de fazê-lo mais feliz do que seria vivendo contigo. E a ti não só te perdoarei como te vou enriquecer pois tudo quanto precisares terás de mim. Em prova da verdade aqui tens já esta bolsa de dinheiro, se prometes trazer-me o teu filho.
O homem prometeu, pois salvava a sua vida e fazia a felicidade do rapaz, segundo a Moira dizia.
Ao outro dia pegou no filho e levou-o ao mesmo sítio. Logo que chegou, a Moira muito linda dirigiu-se para eles e, pegando na mão do pequeno, desapareceram ambos.
Olhou o forneiro para o lado onde tinha preso o seu burro e foi buscá-lo para se ir embora. Mas a sua surpresa foi grande vendo-o arreado de novo, com bons alforjes novos e dentro deles uma farta merenda — boa carne, belos pastéis, pão fresco, doces, e duas garrafas de vinho velho. Na outra bolsa encontrou uma grande quantidade de dinheiro em oiro, novinho e reluzente.
Satisfeito por se ver tão rico, saltou para cima do burro e dirigiu-se para casa, mas, como esta ainda era um pouco distante e ele desde manhã que andava a girar, foi-lhe de grande conforto a merenda com que a Moira o presenteara.
Chegou à sua velha residência e encontrou-a destruída por um incêndio e bem assim o seu forno. Ficou triste e resolveu sair daquela terra. Foi para uma povoação onde ninguém o conhecia, comprou uma boa casa com quintal, e ali se estabeleceu. Depois, foi sempre comprando propriedades e em breve se tornou o mais rico e influente homem da terra, dando leis naquelas redondezas.
O rapaz, levado pela Moira, achou-se de repente num maravilhoso palácio subterrâneo. Nunca vira coisa semelhante — o que não admirava, pois sempre vivera na pobreza — e nem por sonhos imaginara nunca coisa assim!
Eram galerias majestosas em que as colunas, feitas de brilhantes e rubis e esmeraldas, tinham um tal brilho que cegava. Havia salas feitas de safiras tão azuis como o céu ou como o mar; outra em que todas as pedras preciosas eram combinadas de tal modo que pareciam um jardim de mil flores. Enfim, eram tantas as riquezas e belezas daquele palácio encantado, que não há palavras que as possam descrever!
A Moira entregou-lhe então um molho de chaves, dizendo:
— Aqui tens. Ficas senhor de tudo: do meu tesouro de surpreendente riqueza, como da minha alma; deste palácio subterrâneo, onde cada pedra vale mais que a fortuna do mais rico Imperador da terra, como da minha beleza eterna e sobre-humana; dos meus cofres recheados de moedas de oiro do tempo dos Califas e tantas que todos os banqueiros do mundo não seriam capazes de as contar ainda que vivessem mil anos.
«Em paga de tanto que te dou, só exijo uma coisa: é que nunca vás àquele quarto. Estão lá apenas doze barris de oiro em pó. De nada te podem servir, pois que oiro tens aqui aos montes.
«Vê lá! Dou-te a chave para te provar a minha confiança, mas se tocares em qualquer dos barris tudo acabará entre nós! Retiro-te a minha protecção e ficarás abandonado e pobre como eras até aqui.
O rapaz ouviu tudo que a Moira disse, prometeu não tocar em tais barris, e, depois de ver todas as maravilhas do palácio, teve uma farta ceia que a Moira lhe serviu, e foi deitar-se.
Ali esteve muito tempo sem nunca se aborrecer, pois a Moira não se esquecia de lhe dar tudo quanto ele podia ambicionar para ser feliz.
Mas a ideia do quarto fechado e dos doze barris de oiro em pó trabalhava-lhe na cabeça. Nem de noite nem de dia pensava noutra coisa — era uma tentação! Abria a porta do quarto, e, olhando para os barris, dizia consigo: — Mas que terão estes barris, que a Moira não quer que eu lhes toque?! Se fosse oiro não se importava ela, não, porque oiro há aqui aos pontapés. Mas que será?!...
E assim andou algum tempo, sem poder dormir nem descansar. Enquanto a Moira estava ao pé, ainda se esquecia, mas quando ela ia para o fundo do palácio tecer no tear de marfim ou cantar, com a suavíssima voz, as tristezas da sua raça exilada da nobre Terra da Península, ia ele, pé-ante-pé, como um ladrão, espreitar os barris.
Até que um dia não pôde vencer a curiosidade e foi ao primeiro barril e tirou-lhe o batoque, metendo dois dedos para ver o que estava lá dentro.
Sentiu-se logo um formidável abalo de terra. O palácio desmoronou-se estrondosamente, e ele, ficando nas trevas, sentiu que lhe pegavam na mão, e achou-se num volver de olhos, e sem poder explicar como, no meio de um campo.
Viu então a Moira em pé, diante dele, e falando-lhe com uma voz muito triste: — Desobedeceste-me! Dobraste-me o encanto!
Ele, de joelhos, pedia-lhe perdão, chorando a sua curiosidade. A Moira, que bem sabia quanto ele tinha lutado antes de fazer aquela maldade, respondeu:
— Não te quero mal, descansa! Deixarás de me ver, mas eu não deixarei de te proteger. Aqui tens esta varinha de condão. Com ela conseguirás tudo.
Dando-lhe uma varinha de junco, que à vista nenhuma particularidade tinha, desapareceu dizendo adeus ao rapaz, que ficou muito contristado.
Achando-se só, foi andando ao acaso até que chegou a uma fonte. Como levava muita sede, pois o calor apertava, inclinou-se para beber. Sentiu que lhe caia uma coisa pesada da cabeça e ainda imaginou que fosse o chapéu, mas já o tinha tirado para beber.
Muito admirado levou as mãos à cabeça e notou que eram os cabelos que tanto pesavam. Deitou-os para os olhos e viu que eram de oiro. Espantadíssimo com tal coisa, mirou-se na água clara da fonte e viu-se deslumbrante com os seus cabelos doirados.
Ficara assim logo que metera os dedos no barril de oiro, mas só agora o sabia porque só agora tinha espelho para se mirar. Entendeu que não era muito conveniente mostrar ao mundo tanta riqueza, e na primeira terra em que entrou dirigiu-se ao matadouro, comprou uma bexiga de boi, lavou-a muito bem lavada, cortou-a ao meio, encaixou-a na cabeça e arranjou-a de tal modo que lha cobria toda parecendo completamente calvo.
Depois, assim preparado, e com a varinha na mão, seguiu sua jornada.
Por onde passava faziam-lhe muita troça chamando-lhe Careca: — Adeus, ó Careca! Para onde vais, ó Careca?...
Ele não se importava. Foi seguindo sempre àvante, até que chegou a uma grande cidade, opulenta e formosa, povoada por toda a casta de gente que ia ao seu vastíssimo porto para comerciar.
Ninguém reparou que ele fosse careca, e, mesmo que reparassem, não estranhavam porque estava aquele povo muito acostumado a ver indivíduos de todas as raças e feitios que por ali enxameavam.
Eram chineses, de rabicho e olhos em fresta; índios bronzeados e magrinhos; japoneses amáveis; pretos de todas as espécies, uns feios como demónios, outros muito simpáticos, com os seus olhos meigos e os dentes de neve a destacarem-se na face de nanquim. Eram turcos, vestidos de branco, fumando nos longos cachimbos. Eram, enfim, homens de todos os países, não esquecendo o loiro e grave inglês e o elegante francês pondo em voga o último figurino.
O Careca, percorrendo a cidade, achou que lhe convinha ficar. Chegando ao palácio real bateu e perguntou se queriam um criado. Como exactamente tinha saido na véspera o jardineiro da Princesa, disseram-lhe que sim. Entrou logo a exercer as suas obrigações.
A família real constava apenas do velho Rei, que estava cego, e da filha que era a mais formosa dama do seu tempo. Quando soube que havia entrado um jardineiro novo, foi falar-lhe para dar as suas ordens, pois de tudo quanto possuia o que mais apreciava eram as flores.
O Careca logo que a viu ficou encantado, pois beleza como aquela não havia no mundo. Como era muito boa e muito bem educada, falava para toda a gente, por mais humilde que fosse sua condição, sempre com uma graça e uma simplicidade encantadoras. No fim de dar as suas ordens ao jardineiro, disse-lhe:
— Trata-me muito bem as minhas flores, porque não há coisa de que eu mais goste! E todas as manhãs quero um ramo bem fresco e bonito.
O Careca inclinou-se reverente, respondendo: — Sim, minha Senhora; farei toda a diligência por lhe agradar.
Ao outro dia de manhã, quando a Princesa se levantou, a primeira coisa que viu foi um lindíssimo ramo de magníficas rosas, atado com um fio de oiro. No outro dia a mesma coisa, e no outro e no outro.
Sempre que se levantava via o seu ramo de rosas, sempre diferentes e cada vez mais lindas, e atadas com o fio de oiro, o que muito dava que pensar à Princesa.
Admirada com tamanha variedade de rosas, que nunca vira no jardim, percorria-o todo a ver se descobria onde o Careca tinha as mais belas, mas não encontrava nenhuma igual às que recebia todas as manhãs.
Um dia foi ter com o jardineiro e disse-lhe:
— Ó Careca, quantas variedades de rosas temos cá no jardim?
— Todas quantas há no mundo — respondeu ele.
A Princesa não disse mais nada, olhou muito séria para o jardineiro e foi para o seu quarto pensar nos melhoramentos que via no jardim, sem que metessem obreiro nem lhe pedisse dinheiro a rodos, como os outros costumavam fazer.
Eram novas ruas de arbustos os mais raros, caramanchões deliciosos, árvores magníficas, e, por fim, até um lago cheio de peixes doirados e de todas cores, e um tanque de mármore para onde a água corria duma cascata enorme e de pequenos repuxos colocados de maneira que as águas se entrelaçavam, fazendo um efeito surpreendente.
A Princesa quando viu tal maravilha ficou extasiada e perguntou ao Careca quem tinha mandado fazer uma coisa tão bela.
Respondeu-lhe ele: — Saiba Vossa Alteza que fui eu. Logo que cheguei, vi que este jardim tinha uma grande falta de água e então mandei-a explorar e canalizar, fazendo talhar todas as pedras fora. Trabalharam muitos operários toda a noite para fazer esta surpresa.
Ela agradeceu, mas não acreditou nem uma palavra de tal história. Já eram muitas as coisas que a admiravam depois que o Careca tinha entrado ao seu serviço. Parecia-lhe bem que ele não era o que queria fingir, mas sim uma pessoa importante disfarçada.
Notou que um dos caramanchões mandado fazer pelo Careca era fechado e todo coberto de trepadeiras. Todos os domingos o via entrar para lá e demorar-se uma boa hora. Disse para consigo: — Deixa estar que eu hei-de ver o que tu fazes.
Um dia, quando o Careca entrou para o caramanchão desceu ao jardim e foi espreitar por um buraco que tinha propositadamente feito.
Qual não foi o seu espanto vendo o jardineiro despir o fato que trazia, e, abrindo um baú, tirar uma camisa de rendas, meias de seda e sapatos com fivelas de diamantes. Depois vestiu um riquíssimo fato de corte, pôs ao lado a espada com os copos cravejados de rubis e o talim bordado de várias pedras preciosas.
Tirou a bexiga da cabeça e o cabelo caiu-lhe sobre os hombros como se fosse o resplendor de oiro dum Santo Cavaleiro. No fim, pôs um chapéu de plumas, seguras por uma fivela de esmeraldas e brilhantes, e ficou o mais lindo homem que jamais a Princesa vira.
Fugiu dali, mas tão encantada que não pensava noutra coisa. Nem de noite nem de dia lhe saia da cabeça a imagem do formoso Cavaleiro, que andava disfarçado em seu criado.
Ora o pai da Princesa era cego, como já disse. Tinha cegado de repente, sem saberem como. Consultados todos os médicos, nenhum lhe deu remédio, mas uma Feiticeira dissera: — Que a doença tinha cura, mas só havia um remédio: que era lavar os olhos com leite duma leitoa que existia numa torre, a algumas léguas de distância.
O Rei mandou os seus melhores cavaleiros para matarem a leitoa e trazerem o leite; mas, por mais esforçados que fossem, todos lá ficavam mortos ou tinham que fugir.
Logo que chegavam perto da torre surgiam do chão tantos homens armados, que todas as tropas ficavam desbaratadas. Era
uma coisa impossível, obter tal remédio.
Vendo isto, decretou o Rei grandes torneios na sua capital, mandando convidar todos os príncipes e cavaleiros da Cristandade, não só para a Princesa escolher marido mas também para ver se algum dos mais nobres e corajosos senhores se resolvia a ir matar a leitoa e trazer-lhe o tão desejado remédio.
Apareceram muitos príncipes de todos os reinos, nobres barões e cavaleiros andantes, que vinham disputar a mão da mais formosa dama do seu tempo.
Todos mais ou menos ficaram apaixonados e desejariam desposá-la. Mas o Rei disse-lhes: — Que a Princesa só casaria com o homem que fosse matar a leitoa e lhe trouxesse o leite.
Todos à uma juraram dar morte à leitoa ou morrer.
Combinaram o dia da marcha, e o Careca veio pedir licença ao Rei para acompanhar ao combate aqueles senhores. O Rei, apesar de cego, começou a fazer-lhe troça. E os cavaleiros riam muito, escarnecendo o pobre Careca. Mas a Princesa apareceu e perguntou qual a razão de tantos risos. Disseram-lhe o que era, e, em lugar de se rir, como esperavam, pediu ao pai que consentisse no que lhe pediam.
O Rei fez-lhe a vontade. Mas o pior é que os cavaleiros, pagens e escudeiros eram muitos e já não havia cavalo para ele. Perguntou então se não havia um burro nas cavalariças, que se contentava com isso. Foram ver, e como existisse lá um burro velho, que já não prestava para nada, deram-lho para montar.
No dia da partida lá foi atrás do brilhante exército de cavaleiros montados em soberbos e ricos cavalos. Pelo caminho faziam-lhe muita troça, chamavam-lhe Careca, e diziam:
— Ó Careca, tu ficas para trás? Anda, pica as esporas ao teu cavalo de batalha!...
Ele, sempre a rir, não fazia caso, respondendo:
— Ora! Se eu quiser faço saltar o meu burro por cima dos senhores todos e dos seus belos corcéis.
Eles cada vez se riam mais. Então disse ao burro: — Vamos, meu velho, mostra a estes senhores que vales mais do que eles e os seus cavalos de combate.
Deu-lhe duas chibatadas, o burro endireitou as orelhas e em dois saltos passou adiante de todos. Mas depois, coitado, como era muito vèlhinho, tropeçou e caiu.
Enquanto o Careca ficou a levantar-se, os cavaleiros tomaram tal dianteira que não os via.
Então bateu com a varinha que a Moira lhe tinha dado, no chão, e logo lhe apareceu um bonito e valente cavalo de batalha e tudo que era preciso a um guerreiro.
Montou imediatamente e partiu a galope, passando como um furacão, pelo exército. Em pouco tempo chegou à torre, sempre com a varinha em punho. Bateu com ela à porta e logo esta se abriu, e a leitoa saltou, numa fúria, para o devorar. Mas o Careca tocou-lhe com a varinha e ela ficou logo morta.
Depois apeou-se, ordenhou-lhe o leite todo para um frasco, que já levava para esse fim, rolhou-o muito bem e metendo-o no bolso tornou a montar e partiu. No meio do caminho passou pelos cavaleiros que ainda iam para lá. Chegou ao sítio onde tinha deixado o burro, e tornando a montá-lo ficou outra vez como era.
Os cavaleiros chegando à torre encontraram a leitoa morta e sem leite nenhum; ficaram envergonhados e, vendo um pastor com um rebanho de cabras, compraram-lhe um pouco de leite resolvendo levá-lo ao Rei para não darem o seu braço a torcer.
Perto do palácio encontraram o Careca montado no seu burro velho, e a troça recomeçou: — Então não quiseste acompanhar-nos, ó Careca? Achaste melhor voltar para trás? Vês, é bem feito! Quem manda um jardineiro meter-se com cavaleiros?!...
E ele, muito risonho, respondeu:
— Então, que querem? O meu burro ainda mostrou um nadinha da sua graça, depois não quis mais, e eu voltei para ver a figura que os senhores faziam. Então sempre venceram a leitoa e trazem o leite?
— Forte parvo! Então não imagina ele que príncipes e cavaleiros, como nós, voltariam sem trazer o que fossem buscar! Cá vai o leite.
A Princesa não se tirava da janela, a ver se avistava o Careca, que era o que mais lhe importava.
Com efeito, mal que o exército apareceu, viu o jardineiro que vinha muito mais atrasado. Os príncipes apearam-se e entraram, mas a Princesa não saiu da janela sem ele chegar.
O Careca fez-lhe sinal para descer ao jardim, e então entregou-lhe o frasco dizendo: — Aqui tem Vossa Alteza o leite da leitoa. Fui eu que a matei e lho tirei. Desejo que pelas vossas mãos o Rei, meu Senhor, seja curado. Ide, Senhora, e ouvi o que eles dizem, porque trazem leite de cabra para fingir que é da leitoa, que já encontraram morta por mim. Deixai-os experimentar primeiro, e, como aquilo não é remédio, o Rei ficará na mesma, e então lavareis vós os seus olhos com este leite que vos dou. Veremos quem merece a recompensa!
A Princesa agradeceu-lhe com um sorriso e foi para cima. Quando chegou à sala, ouviu os cavaleiros estarem a contar como tinham morto a leitoa, e não lhes disse nada. Depois lavaram os olhos do Rei, e ele, claro, ficou na mesma.
Então foi a Princesa, lavou os olhos do pai com o leite que o Careca lhe tinha dado, e imediatamente ele ficou bom. Olhou para os príncipes e mais cavaleiros e disse: — Qual de vós matou a leitoa e me trouxe o remédio?
Responderam todos: — Fui eu, fui eu, fui eu!...
Então a Princesa voltou-se para eles e disse: — Enganais-vos; senhores. Quem matou a leitoa e me trouxe o leite foi o Careca!
Grande gargalhada dos príncipes, que não podiam tomar a sério o que ela dizia.
Chamaram o Careca, e ele, diante de todos, voltou-se para o Rei e falou assim:
— Real Senhor, a princesa disse a verdade. Foi eu quem matou a leitoa e trouxe o leite, entregando-o a Sua Alteza. Quando estes senhores lá chegaram e a encontraram morta, envergonharam-se de voltar sem nada e compraram a um pastor leite de cabra.
Todos os cavaleiros gritaram que o Careca mentia. — Nem os tinha acompanhado à torre, quanto mais ser ele quem matara a leitoa! Que era um embusteiro atrevido, pois todos o tinham visto ficar para trás.
O Careca, assim insultado, desafiou-os a todos para combate singular, e, voltando-se para o rei pediu que o armasse Cavaleiro para combater com os príncipes e nobres senhores, pois o tinham desfeiteado.
O Rei não estava muito resolvido, pois nada sabia daquele personagem misterioso, mas a filha pediu muito, contando-lhe o que tinha visto, e ele próprio logo ali, o armou Cavaleiro.
O Careca pediu então licença para se preparar e entrando para o caramanchão do jardim em breve saiu de lá vestido de ponto em branco, como se realmente fosse um Cavaleiro. Os cabelos de oiro, caindo-lhe nos hombros, faziam-no deslumbrante de magestade e formosura. Os adversários, o Rei e toda a corte estavam boquiabertos. Só a Princesa batia as palmas, satisfeitíssima, animando-o com sorrisos.
Logo quatro príncipes, dos mais considerados e esforçados entre os combatentes, se adiantaram e disseram: — Dizei, Cavaleiro, com qual de nós vos quereis bater, porque não é justo um só homem para tantos.
— Venham todos, que a todos farei corpo! — respondeu altivamente o novo Cavaleiro.
Então, ele dum lado e os quatro do outro, mediram-se para a luta. O primeiro recontro foi tão violento que dois príncipes ficaram logo no chão. Na segunda arremetida ficaram os outros dois fora de combate, incapazes de levantar mais a espada.
Todos os outros iam correr para vingarem os companheiros, mas o Rei, entusiasmado com a façanha, bateu as palmas e a corte imitou-o logo, acabando o combate com todas as honras para o antigo jardineiro.
Então a Princesa pediu ao pai que cumprisse a sua palavra, pois muito gostava daquele Cavaleiro e só a ele queria para esposo.
O Rei chamou-o, perguntou-lhe quem era, e ele contou toda a sua vida, o que em nada alterou a consideração em que já o tinham.
Depois fez-se o casamento com grande pompa, e o Rei, que já
estava velho, abdicou nele todos os seus poderes.
Foi sempre muito bom e a Princesa muito feliz se considerava em o ter escolhido.
E aqui está como o filho dum pobre forneiro chegou a ser Rei, governando o seu reino com muito juizo e acerto.
[[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|História do careca]]
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Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O porqueiro
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{{navegar
| título = [[../]]
| autor = Ana de Castro Osório
| tradutor =
| seção = O porqueiro
| anterior = [[../A Bela Felicidade/]]
| posterior = [[../O coelho branco/]]
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}}
'''<big>O PORQUEIRO</big>'''
EXISTIU em tempos remotos um Rei que tinha uma filha. Um dia disse-lhe ela: — Meu pai, ando sempre a ter sonhos tão extraordinários, que não imagina! Esta noite tive um em que até faz vontade de rir. Sonhei que meu pai me há-de beijar a mão!
O Rei, que tal ouviu, ficou furioso e respondeu irado:
— O quê?! Pois eu hei-de beijar-te a mão?! Isso nunca poderia acontecer!
— Não (volveu a menina com doçura), nem eu creio que possa ser, mas foi o que sonhei.
O Rei, que era muito orgulhoso, não ficou satisfeito com isto; mandou chamar adivinhos e todos lhe disseram que podia muito bem ser verdadeiro o sonho da Princesa. E, levado pelo seu mau génio e por maus conselheiros secretos, resolveu mandar matar a filha.
Chamou um criado de confiança e deu-lhe ordem de levar a Princesa para longe, de a matar e de lhe trazer o coração como prova de ter obedecido.
Foi o criado com a menina para um bosque, querendo cumprir as ordens do Rei, mas vendo-a tão bonita, tão novinha, tão boa, e tão desgraçada, não teve coragem de a matar. Apareceu por ali um cãozito e ele tirou-lhe o coração para levar ao Rei, como sendo o da filha. À Princesa disse que se escondesse em alguma choupana por essa noite e depois que fugisse para bem longe, de maneira que a imaginassem morta.
Mal a Princesa se viu só, foi andando, andando, mas quanto mais andava mais se enredava na floresta até que lhe anoiteceu, sem ver ninguém a quem perguntasse o caminho ou lhe desse uma sede de água!
Ouvia os animais selvagens uivando pelos matos e tremia de frio e de medo. Assim foi seguindo, com os pés ensanguentados e os vestidos em farrapos, até que viu ao longe, muito longe, uma luzinha.
Bastou isso para lhe encher o coração de esperança e lá se foi arrastando até chegar a uma casa, à porta da qual bateu esperando que lhe dissessem alguma coisa. Como não lhe respondessem, empurrou a porta, vendo o lume aceso, mas ninguém dentro de casa.
Foi entrando, resolvida a esperar os donos para pedir licença de passar a noite em qualquer canto. Mas, como era muito arranjada, vendo a casa por varrer, pegou numa vassoura e limpou-a. Tratou do lume, pôs a panela a ferver, e tinha tudo em ordem quando sentiu um tropel fora da porta. Foi ver o que era e viu um velho que trazia um rebanho de porcos, acomodando-os num curral ao lado.
Entrou na casa, onde a Princesa o recebeu a chorar, perguntando-lhe com muito bom modo o que estava ali a fazer e qual a razão de tantas lágrimas. A menina contou-lhe toda a sua vida e terminando pediu que a não abandonasse, que a não levasse ao pai, aliás ele a mataria e ao bom criado que a tinha salvo.
O porqueiro respondeu-lhe que descansasse, que ali ficaria como sua filha, até que aparecesse um esposo a quem a pudesse entregar.
— Por agora (disse-lhe) até me fazes favor em viver comigo, porque eu estava aqui muito só com os meus porcos.
Agradeceu a menina, cheia de alegria, ao bom do velho, e daí em diante ficaram os dois a viver como Deus com os anjos. Nunca houve pai e filha que melhor se entendessem. Fazia gosto vê-los. A Princesa acostumara-se àquela vida sossegada e nenhumas saudades tinha do faustuoso viver que deixara.
É preciso dizer que a mãe lhe morrera, quando ela abria os olhos ao mundo. Por isso sofrera tanto, e teria morrido, se não fosse um humilde criado!
Ora a Princesa era muito linda e muito boa, mas a respeito de sabedoria tinha muito pouca. Naquele tempo nem os reis sabiam escrever, quanto mais as princesas! Mas o porqueiro, que era um grande sábio, não cessava de a ensinar, dizendo-lhe muita vez: — Eu quero um dia apresentar-te a teu pai de tal maneira, que nem ele mesmo te reconhecerá. Mas há-de ser quando tenhas um marido que te ampare e ele não te possa fazer mal.
A menina respondia-lhe sempre que era muito feliz, que estava ali muito bem, e não desejava mais do que viver toda a sua vida assim.
O velho sorria-se e não dava mais explicações. De dia andava ele pelo montado com os seus porcos, e à noite instruia a Princesa em tudo que uma senhora deve saber para que a considerem mais pela sua inteligência do que pela posição, que duma hora para outra pode mudar. Assim foi passando o tempo até que a Princesa chegou aos vinte anos.
Tinha ela o costume de se ir sentar à porta a costurar, enquanto o pai adoptivo andava por fora com os porcos. Ora acontecia que por aqueles sítios passavam muitos fidalgos que andavam à caça; entre eles apareceu um conde de muito galante figura, que se enamorou da filha do porqueiro. Passava e repassava por ali e sempre lhe dizia:
— A menina quer ser minha esposa?
A Princesa não respondia, mas o cavaleiro não desanimava nem perdia ocasião de repetir o mesmo e mostrar por todos os meios quanto era sincero o seu pedido. Tanto andou, tanto disse, que um dia respondeu-lhe a Princesa, discretamente:
— Por mim nenhuma resposta lhe posso dar, cavaleiro. Fale a meu pai.
Volveu logo o Conde, muito animado:
— Primeiro diga-lhe a menina tudo e amanhã dê-me a resposta. O que ele disser é o que se há-de fazer.
O que é verdade é que ele era um lindo rapaz e a Princesa achava-o bastante simpático, mas nada lhe quiz confessar sem o consentimento do bom homem que lhe tinha servido de pai. Quando à noite recolheu, contou-lhe tudo que se tinha passado. O porqueiro ouviu-a atento, respondendo assim:
— Minha filha, é esse cavaleiro muito do meu gosto. Conheço-o bem e sei que te fará feliz. De boa vontade; pois, darei o consentimento que me pedem, se ele aceitar a condição que eu ponho. Dize-lhe tu, minha filha, que te deixo casar de muito boa vontade, se ele no jantar de noivado quiser ter como convivas os meus porcos.
No outro dia, à hora do costume, chegou o cavaleiro ansioso por saber a resposta que lhe daria a menina, que ele julgava uma simples camponeza, filha dum pobre porqueiro. Ela disse-lhe a condição que seu pai apresentava, e o Conde pensou que, à custa desse sacrifício dum dia, teria a felicidade de toda a vida e, como era uma só vez que jantaria com tão feios companheiros valeria bem a pena. Respondeu à menina que sim, que podia combinar com o pai o dia do casamento, que ele estava por tudo.
Ficou a Princesa encantada com uma tão grande prova da sincera afeição do noivo e confessou-lhe como era também grande o amor que lhe dedicava.
Separaram-se esperançados e felicíssimos, e o cavaleiro foi dali fazer-se encontrado com o porqueiro, prevenindo-o este de que no dia do casamento, quando os seus porcos estivessem juntos, ele diria uma coisa que causaria muito espanto. O Conde, como nada tinha de que se acusar, ficou por tudo.
Chegou o dia marcado e na casa do porqueiro se pôs a mesa, estando os porcos todos em volta.
Os parentes e amigos do Conde, que assistiam à festa, não se cansavam de o cumprimentar pelo seu bom gosto, pois a noiva era um encanto de modéstia e discrição, apesar de ser a mais instruída Princesa que nesse tempo se podia encontrar no mundo. E todos concordavam em que valia a pena jantar uma vez na vida com uma ranchada de porcos, para obter uma tão encantadora esposa.
Quando estavam à roda da mesa prontos para jantar, dirigiu-se o porqueiro à filha para que lhe cortasse um dedo com uma faca que lhe entregou.
Ela não queria de maneira nenhuma fazer tal barbaridade, mas, em vista da insistência do pai, não teve remédio: pegou na faca, voltou a cara para o lado, e descarregou-lhe um golpe, de que o sangue começou a correr em fio. Então o velho foi junto de cada porco e deitando-lhe uma pinga do seu sangue na cabeça logo ele se transformava num cavaleiro ricamente vestido. Quando chegou ao último, os convivas do noivo ficaram pasmados vendo-o transformar-se num homem, com todas as insígnias de imperador.
Ao mesmo tempo que isto acontecia, sentiu-se um ligeiro abalo na casa e acharam-se, num abrir e fechar de olhos, no mais sumptuoso palácio. Contou então o porqueiro — que era um bom génio protector dos príncipes infelizes — a história daquele poderoso imperador e seu companheiros, que o menor deles era conde de sangue real.
Era um extenso império o daquele poderoso senhor. Ele e seus companheiros foram um dia numa grande armada à conquista da Terra Santa. Mas, indo dar a uma ilha que uma fada muito má governava, transformou-os em porcos e só aquele bom génio podera moderar a pena, que era eterna, fazendo-a terminar no dia em que um nobre senhor quisesse jantar com eles à mesa.
Tornemos à história do Conde e da Princesa. O imperador e os seus cavaleiros, como lhes deviam a vida humana a que outra vez se viam restituídos, cheios de reconhecimento os juraram futuros herdeiros do seu império, que, passadas as festas do casamento, iriam todos habitar.
No meio da sua grande alegria nem a Princesa já pensava no Rei seu pai, no sonho, e muito menos nas desgraças passadas. Mas estava escrito que o Rei orgulhoso e mau que a mandara matar teria o seu castigo.
Como isto tudo se passava no Reino, soube da estada ali do opulento e nobre imperador vivendo num magnífico palácio com a sua corte de príncipes. Resolveu ir visitá-lo, seguido duma soberba comitiva, para mostrar como ele também era rico e poderoso.
Ficou, apesar disso, maravilhado com o luxo e riqueza que viu no palácio do imperador. Na sala do trono onde este o recebeu rodeado dos seus cavaleiros e pagens, escudeiros e homens de armas, entre muitas e gentis damas estava uma que, sobre todas, brilhava pela sua nunca vista formosura e riqueza de vestido.
O Rei, imaginando que seria a filha do imperador, que sabia viúvo, dirigiu-se para ela e amàvelmente lhe beijou a mão, sem, nem por sombras, lhe passar pela cabeça que fosse a sua própria filha.
Também a Princesa não reconheceu o pai senão quando o porqueiro veio contar diante de todos a história daquele mau e orgulhoso Rei, que mandara matar a sua própria filha só por um sonho, que nada valia.
Tanto numa como na outra corte ficaram indignados e ele tão furioso, por ter beijado a mão à filha, que teve um ataque de desespero morrendo logo ali, sem ninguém ter pena.
Como não tinha mais herdeiros ficaram reis a Princesa e o Conde, combinando dar o primeiro filho que tivessem para herdar o império do piedoso soberano que tinham desencantado. E o segundo filho ficaria herdeiro deles. Assim se fez, como combinaram, tudo na paz e grande amizade que desde então ligam aqueles grandes estados. E, por fim, sempre é bom dizer que viveram muitos anos; que foram o mais felizes que na terra se pode ser, e nunca a Princesa consentiu em separar-se do porqueiro, o bom génio que lhe tinha servido de pai.
[[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|O porqueiro]]
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Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/Branca-Flor
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'''<big>BRANCA-FLOR</big>'''
ERA uma vez um homem e uma mulher que tinham muitos filhos, tantos que não havia na terra quem quisesse baptizar-lhes uma menina que tiveram por fim. Eram muito pobres, pois o que ganhavam mal chegava para comer, e todos temiam encargos.
Ia o homem muito triste pelo caminho fora, a ver se encontrava quem lhe quisesse baptizar a filha, quando de repente lhe apareceu um cavaleiro muito bem vestido, que lhe perguntou a razão da sua tristeza.
— Meu senhor, temos uma menina para baptizar, e, como somos muito pobres e temos já muitos filhos, não há quem aceite mais encargos lá na terra. Venho à procura de alguém que me queira fazer essa esmola.
— Não te aflijas, homem! Vou eu ser padrinho da menina e nada há-de faltar, mas com a condição de ma entregares em ela tendo doze anos.
Ao homenzinho pareceu-lhe uma grande fortuna aquele oferecimento e disse logo que sim, acrescentando:
— Falta madrinha, vou ainda procurá-la.
— Para madrinha vai convidar a senhora Morgada, que ela aceita.
— Isso sim! Já lá fui e ela disse que não!
— Vai outra vez e dize-lhe que não é preciso que ela faça despesa alguma, porque o padrinho é que tudo quer pagar.
Ficou o homem saltando de contente e foi logo a casa da Morgada, uma avarenta que mais depressa veria alguém morrer de fome do que ela dar cinco réis de esmola! Já era conhecida em todo o país a sua avareza, e por isso ninguém se lhe dirigia para pedir. Mas também não havia quem lhe fizesse o mais pequeno serviço senão por muito bom dinheiro.
Foi baptizada a menina e chamou-se Guiomar.
O cavaleiro pagava generosamente todas as despesas e nunca na terra se tinha feito uma tão grande festa.
Começou a menina a crescer, linda como os amores. Tão bonita era, que a chamavam Branca-Flor, não havendo outra que a igualasse em bondade e beleza. O seu nascimento tinha trazido a felicidade à família, pois ia crescendo em bens, sempre ajudada pelo cavaleiro, que todos os anos aparecia misteriosamente, montado num cavalo que a ninguém mais obedecia.
No dia em que Guiomar fazia doze anos, estavam todos em casa muito tristes com a lembrança de que ele a viria buscar, como tinha sido combinado quando se oferecera para padrinho.
Ora Branca-Flor era muito devota, e nesse dia, mais que em nenhum outro, ela esteve rezando na igreja. Quando vinha para casa encontrou uma senhora muito linda, que lhe falou com bom modo, perguntando porque estava triste.
Contou a menina o que lhe acontecia e a senhora disse-lhe: — que fosse a casa pôr a mesa para o jantar, e que colocasse os garfos e facas em cruz. Aconselhou-a a ter muita paciência, que muitos trabalhos lhe estavam reservados, mas que Deus era com ela; que fizesse sempre o bem que pudesse, porque entre os maus é que é merecimento ser bom.
Desapareceu a senhora, e Branca-Flor foi para casa pensando no que tinha ouvido e, já resignada a tudo sofrer com paciência amparada por quem a aconselhava agora e não a abandonaria nunca.
À hora marcada chegou o cavaleiro vestido e armado de ponto em branco. Receberam-no com todos os respeitos, como era costume, e levaram-no para a sala de jantar.
Mal entrou e viu os garfos e facas postos em cruz deu um berro que atormentou tudo; A parede da casa abriu-se, e ele, crescendo espantosamente, agarrou Branca-Flor, que se escondia junto da mãe, e saltou para o cavalo que o esperava relinchando, saltando, às upas, num tal furor que todos tinham fugido para longe.
Cavalo e cavaleiro começaram a crescer, a crescer, tão altos, tão altos, que nem se ouvia a pobre menina chorando nos braços do padrinho. É escusado dizer quem era ele — nem mais nem menos de que o Demónio!
Montado no cavalo Pensamento, como ia, foi um instante enquanto chegou ao inferno, sua morada.
E lá não teve Branca-Flor de que se queixar. Era muito bem tratada pelo padrinho e pela mulher (mais fina e mais cruel do que ele), pelas filhas (duas diabitas espertas qual azougue e piores que a peçonha), por todos os ''facanitos'' que são diabos menores, enfim, por todos os habitantes do palácio infernal.
Um dia viu ela andar tudo em festa. Vinham cadeiras brilhantes, como se fossem de ouro e pratos, garfos, facas, tudo reluzia que era um deslumbramento. Como criança, que era, ia pegar naquelas coisas bonitas para as ver mais de perto; mas o padrinho corria logo para ela:
— Não pegues nisso, olha que te queimai, não vês que tudo é de fogo?!
— De fogo, meu padrinho?! Então o padrinho não se queima?
— Não, eu não me queimo, porque sou também fogo. Tu é que ficavas perdida. Mal sabes tu para quem é isto tudo!... E, dizendo isto, ia brincando com as facas e os garfos e os pratos como no circo um chinês joga com navalhas reluzentes.
— Ó meu padrinho, então para quem é a festa?! Eu conheço?...
— Conheces, sim. É para a avarenta da tua madrinha.
— Ai, meu padrinho, coitada dela! Então não há meio de se salvar?...
— Há só um. A única acção boa que fez na sua vida foi ser tua madrinha; por ela se poderia salvar; se tu pedisses numa oração que eu sei.
Branca-Flor, que era muito boa, já não largou o Demónio sem ele lha ensinar. Era um martírio para a pobre menina saber que alguém sofria, e que ela podia remediar o mal e não sabia como!
Tanto pediu, tanto pediu, que o padrinho lha ensinou, dizendo-lhe que a não repetisse, porque a madrinha não merecia, que a deixasse sofrer pela sua vida avarenta. Branca-Flor não o entendeu assim, e logo que a alma apareceu, chorando o seu feio pecado, pedindo misericórdia, ela disse a oração:
— Valha-lhe o Santo Nome de Jesus.
Filho de Deus vivo!
Virgem Maria seja comigo!
Arredai ''facanitos'' e diabos maiorais,
Que esta alma não sofre mais.
Logo tudo se afastou, e a alma foi-se fazendo branca, branca como luar, e a subir, a subir para o céu, ia sorrindo à menina caridosa, que assim a salvara das penas eternas, pela única acção boa que na vida fizera.
<div style="text-align: center; line-height: 1.1; margin: 1.5em 0;">
*<br>
* *
</div>
Havia nesse tempo um rei, que tinha um filho muito jogador. O Príncipe D. Pedro era muito bonito, muito esperto e muito bom; mas tinha aquele grande defeito, que era uma desconsolação para o pai.
Em se lhe falando em jogo, perdia a cabeça e não havia tolice que não fizesse. Um dia, pediu ao pai um saco de dinheiro e foi pelo Mundo jogar. Ganhava sempre, e tanto, que ninguém queria jogar com ele. Desconsolado, foi o Príncipe andando até que um dia encontrou o Demónio e começou uma partida com ele. Mas aqui já o caso mudava de figura: tudo quanto jogasse, tudo perdia! As cartas de valor desapareciam-lhe das mãos, sem ele saber como nem mesmo dar por isso. Desesperado, jogava cada vez mais. Até que ficou de todo vazio o saco.
— E agora (disse o Demónio) que jogas?
— Agora já não tenho nada.
— Tens a tua alma; se a quiseres jogar contra este dinheiro todo, eu aceito.
O Príncipe ainda hesitava; mas a paixão do jogo é tão violenta, que já de si se pode considerar um tormento do inferno. Aceitou — e perdeu, é claro.
— E agora (tornou o Demónio) hás-de vir ter comigo à cidade de Bijo-ó-bijo, ''ao palácio onde irás e não virás.''
— E quem me ensina o caminho?
— Vai perguntando sempre, sempre, que eu não te posso levar.
Desapareceu o Demónio, e o Príncipe foi andando o seu caminho, mais triste do que a noite. Arrependido do que fizera, ia lamentando a sorte que lhe dera um tão horrível vício. Se ele pudesse voltar com a palavra atrás, nunca mais tornaria a pegar em cartas.
E, como ia andando sem encontrar ninguém a quem perguntar por seu caminho, dirigiu-se às formigas:
— Formigas, vós que andais por toda a parte, podereis dizer-me onde é a cidade de Bijo-ó-bijo, ''o palácio onde irás e não virás?''
— Nós não sabemos, nem nunca ouvimos falar nela. Pergunta às abelhas. Como voam, talvez tenham visto mais.
Foi o Príncipe andando até encontrar um enxame de abelhas, que zumbiam, alegremente, voando de flor em flor.
— Abelhas, vós que voais por toda a parte, podeis dizer-me onde é a cidade de Bijo-ó-bijo, ''o palácio onde irás e não virás?''
— Nada, nós não sabemos. Nunca ouvimos falar nela. Olha, vai perguntar às aves, que voam mais alto e mais longe.
E ele dirigiu-se às aves:
— Dizei-me se sabeis onde é a cidade de Bijo-ó-bijo, ''o palácio onde irás e não virás?''
— Não, nós não sabemos; mas vem ali uma águia, que talvez saiba.
Chegou a águia, batendo as asas, muito satisfeita. As mais disseram-lhe:
— Donde vens tu?
— Venho da cidade de Bijo-ó-bijo, ''do palácio onde irás e não virás''. Vão lá grandes festas, porque esperam um Príncipe, que deve ir já em viagem.
— Pois olha, ele aí está a perguntar o caminho.
Foi o Príncipe ter com a águia, que lhe disse:
— Eu levo-te montado nas minhas costas, mas hás-de ir buscar o maior boi que encontrares e uma grande pipa cheia de vinho que me prenderás às asas. Quando eu te pedir vinho dás-me carne, e quando pedir carne dás-me vinho.
Foi o Príncipe arranjar tudo. E a águia, depois de carregada e com o Príncipe montado, abriu as asas e voou, voou pelos espaços fora.
Palácios, cidades, mares, países estranhos, de árvores e animais nunca vistos, passavam, como num sonho, debaixo dos olhos maravilhados do Príncipe. E a águia ia comendo e bebendo, até que por fim o Príncipe lhe disse que nada havia já. Então começou a águia a descer vertiginosamente, vindo pousar numa praia deserta onde deixou o Príncipe. Este, mal se viu ali, olhou para todos os lados e ficou muito triste por se ver abandonado naquela solidão.
De repente vê ao pé de si uma Senhora muito doce e linda. Era Nossa Senhora, que também consolara Branca-Flor no dia em que ela tinha de ser entregue ao Demónio. Dirigiu-se a sorrir para o Príncipe dizendo-lhe:
— Não estejas triste. Ainda podes salvar-te. Em breve aqui virão três meninas tomar banho. À última que entrar na água, que será também a última a sair, tira-lhe o fato e não lho dês senão quando ela te prometer ser boa para ti.
A Senhora foi-se embora e o Príncipe ficou mais animado.
Daí a pouco viu chegar três meninas; a que vinha atrás, e era a mais bonita de todas, foi a última que entrou na água. O Príncipe, sem que elas o vissem, escondeu-lhe o fato. As outras duas sairam, vestiram-se e foram-se embora, e ela quando quis fazer o mesmo não tinha que vestir.
D. Pedro apareceu então dizendo que lhe daria o fato se pro metesse protegê-lo.
— De boa vontade, respondeu Branca-Flor, pois era ela, e o seu coração estava sempre disposto a fazer bem.
E começou por aconselhar:
— Vai ter ao palácio e finge sempre que me não conheces. No banquete que irão dar-te verás facas reluzentes e facas muito feias, garfos brilhantes e garfos ferrugentos, cadeiras muito lindas e carunchosos bancos... Não te sirvas de nada que brilhe e seja bonito, porque é fogo em que tocas. Quando te vires aflito, chama por mim.
O Príncipe agradeceu muito e ficou encantado com a menina. Meteu-se pelo caminho que ela lhe ensinou e foi ter ao palácio ''onde irás e não virás''. Lá o esperava o Demónio e toda a sua corte em festa.
Apresentaram-lhe um grande jantar e ele, seguindo o conselho de Branca-Flor, só tocou no que não brilhava, coisa que bastante admirou o Demónio e seus diabos todos.
No fim de jantar, aquele chamou o Príncipe e disse-lhe:
— Aqui tens esta cepa; vai plantá-la no campo que além vês e hás-de trazer-me para a ceia um pichel de vinho da uva que ela der. Se não fizeres isto, morrerás.
D. Pedro foi para o monte muito aflito e espantado com tal ordem. Como poderia fazer sòmente que a videira pegasse?! Sentou-se muito triste, clamando:
— Valha-me aqui Branca-Flor!
Veio ela imediatamente e perguntou o que desejava.
— Foi o Demónio que, sob pena de morte, me mandou levar-lhe para a ceia vinho produzido por esta cepa!
E mostrava uma raiz torcida e feia, com toda a aparência de seca. Sorrindo, respondeu a menina:
— Não te aflijas. Deita a cabeça no meu regaço e dorme.
Logo que ele adormeceu, vieram homens plantar a cepa, que logo se cobriu de folha, flor e fruto. Vindimaram, pisaram e fizeram um vinho lindo de ver e delicioso de beber.
Então Branca-Flor acordou o Príncipe e entregou-lhe um pichel de vinho, que ele levou, maravilhado. E o Demónio, desconfiando:
— Ou tu estiveste com Branca-Flor ou Branca-Flor contigo!
Resposta, pronta, do Príncipe:
— Nem eu com Branca-Flor, nem Branca-Flor comigo.
O Demónio mandou-o deitar e ao outro dia logo de manhã deu-lhe três grãos de trigo, dizendo:
— Vai semear estes grãos e ainda hoje me hás-de trazer o pão cozido para o meu jantar. Se isto não fizeres, morrerás.
D. Pedro foi ao campo e chamou:
— Valha-me aqui Branca-Flor!
E logo ela apareceu, perguntando:
— Então que temos agora?
— Agora manda-me semear, colher, moer, amassar e levar-lhe pão para o jantar, destes grãozitos de trigo!
— Descansa, dorme como ontem, que tudo se há-de arranjar.
Logo que ele fechou os olhos, atirou com os grãos à terra, nasceu uma linda seara muito verde, que logo amadureceu, vindo muitos homens ceifá-la, malhar e moer o trigo. Fizeram dois pães, que a menina entregou a D. Pedro, cada vez mais agradecido e maravilhado.
À hora do jantar lá estava ele com os pães. O Demónio torceu o nariz:
— Ou tu estiveste com Branca-Flor ou Branca-Flor contigo.
E o Príncipe:
— Nem eu com Branca-Flor, nem Branca-Flor comigo.
Mandou-o deitar, e ao outro dia disse-lhe:
— Prepara-te, que hás-de ir ao fundo do mar buscar um anel que lá perdeu o bisavô do teu bisavô. Se não o trouxeres, morrerás.
Foi D. Pedro para a praia e começou a chorar. Ele não tinha razão de se afligir, pois que a menina tudo remediava, mas esta ordem parecia-lhe de tal dificuldade que não contava já com a vida. Muito triste, chamou:
— Valha-me aqui Branca-Flor!
Apareceu logo Branca-Flor e depois de o ouvir sossegou-o. Arranjou um alguidar, um garrafão e uma faca e mandou ao Príncipe que a cortasse aos bocados sobre aquele alguidar, que a metesse no garrafão e que a deitasse ao mar, ficando ele na praia sentado num banco a tocar viola, até o garrafão vir ao lume da água.
— Mas tem cautela! Não deixes cair nenhum sangue fora do alguidar e não deixes de tocar enquanto eu estiver debaixo da água, senão corro grande risco.
O Príncipe de maneira nenhuma queria obedecer-lhe mas Branca-Flor afiançou-lhe que era para bem de ambos e começou ela mesma a cortar os pés. Em vista disto, o Príncipe fez tudo que ela mandou. Depois atirou o garrafão às ondas e esperou-o, começando a tocar mas, porque se demorasse muito em vira acima, adormeceu, de cansado. Estava a dormir profundamente quando o garrafão surgiu.
Levantou-se uma onda, que lhe veiu molhar os pés, e o Príncipe não acordou. Torna o garrafão a ir ao fundo e a voltar ao cimo, e o Príncipe, a dormir, nada via. Levantou-se outra onda e veio tocar-lhe o corpo e ele não acordou.
Terceira vez foi o garrafão ao fundo e veio acima, levantando-se então uma onda que lhe beijou a face. Só então acordou sobressaltado e com a aflição de ter feito a desgraça da sua amiga.
Agarrou o garrafão e deitou os pedaços do corpo no alguidar, ficando logo a menina tal qual era antes, menos a ponta do dedo mínimo, porque uma gota de sangue tinha caído fora.
Disse ela ao Príncipe:
— Se não acordasses à terceira vez que vim à tona de água, morreríamos ambos.
Pediu-lhe o Príncipe muito perdão e abraçaram-se felizes por terem escapado à morte daquela vez. Deu-lhe Branca-Flor o anel para entregar ao Demónio, e com um bocadinho de cera arranjaram o dedo de que lhe faltava a pontinha.
Quando D. Pedro entregou o anel ao Demónio, ele exclamou furioso:
— Ou tu estiveste com Branca-Flor ou Branca-Flor contigo!
— Nem eu com Branca-Flor, nem Branca-Flor comigo.
— Bem, vai deitar-te e amanhã falaremos.
Ao outro dia chamou-o.
— Hás-de ir amansar a mula que aí tenho. É alguma coisa brava e então quero que a ensines.
D. Pedro, que nada queria fazer sem consultar Branca-Flor, chamou-a, e ela, depois de o ouvir, disse:
— Olha que a mula é o próprio Demónio, a mulher dele o selim, as filhas os estribos, e eu a cabeçada e o freio. Tu levas um chicote bem grosso e bate com quanta força tiveres em tudo, menos na cabeçada e no freio. Quanto mais bateres, melhor, e não te deixes desmontar, senão estás perdido.
Daí a pouco apresentou-se pronto para montar. E a mula parecia de todo o sossego. Mas, logo que D. Pedro se firmou no selim não se imagina o que foi! Subia a mula para as fragas, saltava, parava de repente, fazia quanto podia para o desmontar, mas o Príncipe era bom calção e melhor pulso ainda tinha. Com o cabo do chicote deu tanta pancada na mula, no selim e nos estribos que, à noite, quando chegou ao palácio, todos andavam a gemer, menos Branca-Flor.
Ao outro dia chamou-o o Demónio e disse-lhe:
— Visto que não caiste da mula e tens feito sempre quanto eu tenho mandado, quero-te para genro. E agora mesmo hás-de escolher uma das minhas filhas para casares.
Mandou pôr as três raparigas detrás de uma cortina e disse ao Príncipe que escolhesse a que queria, vendo só a mão esquerda de cada uma.
D. Pedro conheceu Branca-Flor pela ponta de cera do dedo mínimo e foi a que escolheu.
O Demónio estava furioso, mas nada podia dizer, e o Príncipe e a menina ficaram contentíssimos, porque gostavam muito um do outro.
No dia seguinte casaram, houve grande festa, grande banquete e depois foram deitar-se.
Alta noite chamava o Demónio:
— Branca-Flor!...
— Senhor!?...
— Dorme e descansa.
E disse Branca-Flor, muito baixinho, para o Príncipe:
— Olha que ele quer-nos matar logo que nos saiba a dormir, e então precisamos de fugir. Vai à estrebaria e encontrarás lá três cavalos: o mais gordo e bonito é o ''Tempo'', não lhe toques porque é tão vagaroso que para nada nos serviria, o segundo é o ''Vento'', e o terceiro, magro e feio, é o ''Pensamento''. Esse é que hás-de trazer.
D. Pedro levantou-se de manso e foi à estrebaria, mas vendo o cavalo ''Pensamento'' tão magro e o ''Vento'' muito alegre e bonito, foi este o que trouxe, apesar da recomendação de Branca-Flor. Ela ficou aflita, mas não havia tempo a perder. Levantou-se muito devagarinho, cuspiu na travesseira e partiram.
De quando em quando tornava o Demónio:
— Branca-Flor!...
E o cuspo respondia:
— Senhor!?...
— Dorme e descansa.
Quando o cuspo secou deixou de responder, e então vai o Demónio, com uma grande moca de ferro, bateu sobre a cama até partir tudo. Depois foi deitar-se muito satisfeito, imaginando ter morto o Príncipe e Branca-Flor.
De manhã veio a mulher ter com ele aos berros: — que tinham fugido, que não estavam mortos, nem na estrebaria estava o cavalo ''Vento''.
Pior ainda que ele e queixosa da pancadaria que levara, não largou o Demónio enquanto ele não montou no cavalo ''Pensamento'' para perseguir os fugitivos.
<div style="text-align: center; line-height: 1.1; margin: 1.5em 0;">
*<br>
* *
</div>
O Príncipe e Branca-Flor correram, ou antes, voaram toda a noite e toda amanhã. Já iam bem longe da cidade de Bijo-ó-bijo, ''do palácio onde irás e não virás'', quando viram o Demónio a persegui-los, montado no cavalo ''Pensamento''.
Então Branca-Flor tirou do bolso um agulheiro com agulhas e deitou-as para trás. Fez-se logo um pinhal tão espesso que julgou o Demónio não poder passar. Deu de rédeas ao cavalo e foi-se embora.
— Olha, mulher, não os encontrei, nem pude atravessar um pinhal que se pôs diante de mim — disse ele ao voltar a casa.
A mulher que por magia tudo vira a distância gritou-lhe:
— Ó grande estúpido, olha que foram eles que fizeram isso! Torna lá e hás-de trazê-los.
Foi o Demónio persegui-los outra vez. Branca-Flor quando o viu deitou um copo de água para trás. Logo ali se formou um mar tão largo que não ousou o Demónio passá-lo. Voltou, e foi ter com a mulher.
— Olha que não os encontrei. Só vi um grande mar, que não atravessei porque eles decerto o não poderiam também ter passado.
— Estás cada vez pior, homem! Eles é que fizeram isso e agora até se hão-de rir de ti. Torna lá e hás-de trazê-los.
Foi ele outra vez, e, mal Branca-Flor o viu, transformou o cavalo numa horta, a ela própria em hortaliça e o Príncipe em hortelão. Dirigiu-se-lhe o Demónio, gritando:
— Olá, ó amigo, não viu por aqui passar um homem e uma mulher a cavalo?
— As couves vendem-se, sim senhor! São a vintém e a trinta réis.
— Não é isso. É se viu passar por aqui um homem e uma mulher, a cavalo?
— Já lhe disse que se vendem. Se as quer, leve-as; se não, deixe-me em paz!
— Ó homem, não é isso!
E explicava. Mas a resposta era sempre a mesma.
Desesperado, foi-se embora.
— Mulher, não os encontrei. Perguntei a um hortelão, mas era surdo, não me disse coisa com coisa.
— Pois eram eles. Torna lá e hás-de trazê-los.
Tornou o Demónio, encontrando muito mais adiante um jardim, que era o cavalo, as flores a Princesa, e o Príncipe o jardineiro. Dirigiu-se a este, a perguntar:
— Ó amigo, viu por aqui passar um homem e uma mulher, a cavalo?
Respondeu-lhe o jardineiro:
— Ando a regar, ando, sim senhor! Está uma calma que não sei como as flores hão-de resistir!
— Não é isso, homem! É se viu passar um homem e uma mulher a cavalo?
— É verdade, é! Esta seca é uma desgraça, mata as florinhas todas.
— Não é isso que eu digo! Veja se me entende. — E repetia. Mas nada conseguiu.
Desesperado, foi o Demónio ter com a mulher:
— Olha que não os encontrei. Estive com um homem ainda mais bruto que uma porta, e como me não entendia vim-me embora!
— Estás cada vez mais estúpido, digo-te eu! Pois não viste que eram eles?! Torna lá e hás-de trazê-los.
— Pois olha que é a última vez; se os não encontrar, não volto lá — respondeu ele, de muito mau humor.
Foi e Branca-Flor mal o viu transformou o cavalo numa igreja, a ela em sinos, e o Príncipe em sacristão. Quando o Demónio chegou ao pé da igreja estava o sacristão a tocar desesperadamente. Começou o Demónio a gritar cá de baixo:
— Eh lá, ó amigo! Viu por aqui passar um homem e uma mulher a cavalo?
E o outro, de cima, a tocar os sinos com toda a força, respondeu:
— Sim, senhor, a missa vai começar. Já o Senhor Cura se está a vestir.
E o Demónio :
— Não é isso que eu digo! É se viu por aqui passar um homem e uma mulher a cavalo?
— Já lhe disse que vai começar a missa! Se quer entrar, entre; se não quer entrar, deixe-me em paz!
Desesperado, foi-se o Demónio embora, e, logo que chegou ao palácio ''onde irás e não virás'', disse à mulher:
— Não os vi, nem me deram novas deles. Perguntei a um sacristão, mas com o barulho dos sinos não percebeu nada.
— Eram eles mesmos!
— Pois acabou-se. Que vão em paz, que eu é que não estou para mais correrias!
E, por mais que a mulher pregasse, ele é que não esteve para mais.
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*<br>
* *
</div>
Logo que se viu perto do seu Reino, disse o Príncipe a Branca-Flor que por ele esperasse ali; que ele ia buscar carruagens, vestidos e toda a sua corte, para ela ser recebida como merecia pois agora era sua mulher, só para ele Branca-Flor e para todos a Princesa Guiomar.
— Vai — respondeu a Princesa — mas tem cautela; não te deixes abraçar por ninguém, senão esqueces-te de mim sete anos.
Despediram-se com muitas lágrimas e tristezas e ele partiu.
Quando chegou à corte os pais iam morrendo quase de alegria. Há muito havia o Príncipe desaparecido, sem ninguém dar novas dele. Filho único e herdeiro do trono, todo o povo chorava com os pais o futuro Rei. Por isso, quando o viram chegar são e salvo, o entusiasmo foi tão grande, houve tantas festas, que já ninguém se entendia na grande capital. Todos o queriam abraçar, mas o Príncipe pedia que não o fizessem. De maneira nenhuma queria esquecer quem tanto bem lhe tinha feito. Mas, como estivesse cansado de tantas festas, sentou-se num banco do jardim. De repente sentiu-se abraçado pelas costas, deu um grito e de nada mais se lembrou.
Foi a boa da sua bisavó, que era já muito velhinha e mal se podia mexer. Desde que ele deixara o Reino a velha Rainha nunca mais saira do seu antigo palácio onde vivia entre damas e cortezãos, tão velhos como ela, rodeada de coisas antigas, recordando factos que presenceara e tão remotos que só nos livros se poderiam saber. O bisneto era a pessoa que mais amava no Mundo, por isso, logo que soube da sua chegada, não quis esperar que ele a fosse ver. Quis ir ela visitá-lo e abraçá-lo, causando assim muito mal à pobre Princesa Guiomar.
Sete anos se passaram sem que jamais o Príncipe se lembrasse da sua vida antiga.
Ao fim desses sete anos foi a uma grande caçada, como era costume de todos os Reis, Príncipes e Cavaleiros. Andando em montaria a perseguir um veado afastou-se dos cavaleiros que mais de perto o acompanhavam. Foi correndo, correndo, numa galopada doida, e quanto mais corria mais o veado fugia sem se mostrar cansado e olhando para trás a ver se era seguido.
Assim foram correndo até chegar a um bosque muito espesso. Ai, como o cavalo não podia continuar por não ter caminho nem atalho, o Príncipe apeou-se e foi seguindo o veado, que também ia mais devagar.
Numa clareira do bosque havia uma cabaninha. O Príncipe já muito fatigado, sentou-se ali, e então viu uma menina muito formosa e ricamente vestida, que ia passando com um porco espinho preso por um cordão de seda. E tocando-lhe com uma varinha dizia:
<div style="text-align: center; margin: 1.5em 0;">
<poem>
«Anda, anda, porco espinho
nunca te esqueças de andar,
— como o Príncipe D. Pedro
se esqueceu de Guiomar»
</poem>
</div>
Mal ouviu isto, lembrou-se o Príncipe de tudo. Correu para a menina, abraçaram-se e ficaram contentíssimos. O porco-espinho transformou-se no cavalo ''Vento''. Nele montaram os dois e foram ter com os outros caçadores. Mas ainda tiveram que andar um par de léguas porque, perseguindo o milagroso veado, o Príncipe andara muito, sem dar por isso.
Depois foram todos para o Palácio. Os velhos Reis ficaram muito contentes quando viram Branca-Flor e souberam tudo quanto ela tinha feito para salvação do Príncipe seu filho.
Fizeram-se grandes festas, que duraram uns poucos de meses. O povo ficou encantado com a linda e santa Princesa, que viera de mais longe que as terras do fim do Mundo, da cidade e palácio do mal que vencera por sua bondade.
[[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|Branca-Flor]]
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Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/História do Príncipe encantado no palácio de ferro no reino da escuridão
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| autor = Ana de Castro Osório
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| seção = História do Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão
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'''<big>HISTÓRIA DO PRÍNCIPE ENCANTADO NO PALÁCIO DE FERRO NO REINO DA ESCURIDÃO</big>'''
HAVIA um velho negociante muito rico, que tinha uma filha, uma criança linda, boa e inteligente como dificilmente se encontraria outra.
A mulher do opulento negociante morrera quando a menina veio ao mundo, sendo então entregue a uma bondosa mulherzinha, que lhe serviu de ama e de mãe. Não havia, decerto, mãe que mais gostasse de sua filha do que ela gostava da pequenina Maria — assim se chamava a menina.
O Rei era muito amigo do negociante, que já por vezes tinha emprestado grandes quantias ao Governo, por isso o tratava como amigo e até fora o padrinho de Maria.
Quando esta chegou à idade de começar a estudar, o pai, que se não queria separar dela, arranjou uma mestra para casa. A menina afeiçoou-se de tal maneira à professora que a tratava por mãe, e por irmãs a duas irmãs que ela tinha.
Viveram muito bem, muito felizes e alegres, até que à mestra se lhe meteu em cabeça casar com o negociante. Não era por gostar dele, mas sòmente por ser muito rico e ela ambiciosa e má. Combinou então com as irmãs iludir a pequena Maria, que as tinha na conta de suas verdadeiras amigas. Começou a mestra a fingir que andava muito triste. Quando via a pequena punha-se a chorar, e, por mais que ela lhe suplicasse que dissesse o que tinha, nada conseguia.
Foi perguntar às irmãs se sabiam o motivo que a fazia andar tão desconsolada, e elas, fingindo-se muito penalizadas, disseram:
— A nossa irmã anda assim triste porque gosta muito de teu pai e ele não gosta dela. Se tu quisesses, como seríamos todos felizes! Tu já nos chamas irmãs e a ela mãe, mas se arranjasses o casamento é que verdadeiramente ficávamos uma só família.
Estavam nesta conversa quando entrou a mestra. Maria correu para ela de braços abertos, dizendo que sabia a causa das suas mágoas.
— Então se já sabes o que eu não queria de modo nenhum confessar-te — disse a ''finória'' — podes avaliar se tenho ou não razão para andar triste!
A pequena, que era muito boazinha e muito sincera, acreditou em tudo aquilo e pôs-se a chorar porque não sabia o que havia de fazer. Tantas coisas lhe disseram, tanto a atormentaram, que foi pedir ao pai que casasse com a mestra.
O velho negociante percebeu que andava ali intriga e não queria aceder, mas a pobre criança afligiu-se tanto com as lamentações das três que adoeceu. O pai, muito aflito, disse então que sim, que casaria com a professora, mas que havia de comprar primeiro umas botas de montar e quando se rompessem é que se realizaria a festa.
Ficou tudo muito contente; o homem comprou as botas julgando-se livre do compromisso — pois quanto tempo não é preciso para romper umas botas de montar!
A mestra, que era muito esperta, logo que as botas vieram para casa e foram postas no quarto do negociante, foi com uma pá de cinza ainda quente e deitou-lha dentro. Quando o velho estava para voltar, limpou-as muito bem e pô-las no seu lugar como se nada houvesse. Mas, já se vê, estavam queimadas e, quando o negociante precisou de as calçar, logo as encontrou rotas. Percebeu que tinha sido enganado, mas não teve remédio senão cumprir o que prometera. A filha ficou contentíssima, mas ele sempre lhe disse:
— Deixa estar que te hás-de arrepender, mas quando já não houver remédio!
Houve grandes festas, tendo o Rei assistido ao baile, e todos andavam muito alegres menos o negociante.
Ao princípio tudo ia bem e viviam na mais santa paz, mas a ''espertalhona'', logo que se viu senhora da casa, juntou-se com as irmãs para apoquentarem a Maria, não havendo desgosto que lhe não causassem. Começou ela a ver que seu pai tinha razão, mas já era tarde! Não querendo afligi-lo com a narração das suas mágoas, só lhe pediu que a deixasse ir viver com a ama.
O pai deu-lhe muito dinheiro e ela arranjou uma casita de campo e para lá foram as duas. Comprou só o indispensável para viverem como pobres e o resto do dinheiro repartiu com os infelizes.
O negociante, desconsolado com a sua vida, só tinha alegria quando ia visitar a filha, mas essa mesma alegria era paga por mil desgostos e sensaborias, porque a mulher logo o sabia e o atormentava por isso. Era uma vida tão horrível que ele nem já tinha coragem para trabalhar e resolveu retirar-se de todo dos negócios.
Começou a tratar da liquidação da sua grande fortuna e o que podia mandava para a filha, mas a menina era tão caridosa que chegava a passar privações para dar aos pobres.
Um dia, em que ela e a ama estavam completamente sem recursos, bateu um mendigo à porta pedindo agasalho e esmola. Em casa não havia nada e a ama ia despedir o pobrezinho quando a Maria a chamou de parte e lhe disse:
— Não podemos fazer tal! Pois onde queres tu que o velhinho vá a estas horas? Nem força terá para andar pelos caminhos!
— Ó minha rica menina — respondeu a ama, aflita — pois se não temos para nós cearmos o que havemos de dar ao pobre?!
— Olha, toma lá este lenço de seda e vai vendê-lo; sempre há-de render para se comprar carvão e alguma coisa para a ceia.
Tirou do pescoço um riquíssimo lenço, que lhe dera o pai, e entregou-o à ama para que o fosse vender e com o dinheiro trouxesse de comer para o pobre.
Daí a pouco voltou a ama com tudo que precisavam, e principiou a fazer a ceia. O mendigo, sentado à lareira, conversava com a criada, enquanto a menina trabalhava para os pobres. Além das esmolas dava o seu trabalho, que às vezes é ainda esmola maior.
No meio da conversa disse o velho:
— Ora eu imaginava que a menina era muito rica!... Tinham-me dito que era a única filha do grande negociante, compadre do Rei, mas vejo que me enganaram.
— Não o enganaram, não —respondeu a ama — a minha menina é muito rica e se está nesta miséria é porque dá tudo aos pobres.
— Não digas tal, ama, eu dou aos pobrezinhos o que não me faz falta.
— E o pai da menina vem aqui? — perguntou ainda o velho.
— Vem pouco — respondeu logo a ama que era boa mulher mas faladora — porque é casado com uma mulher muito má.
— Ó ama, não digas mal da minha madrasta, deixa-a lá! Meu pai não vem porque não pode.
— Ouvi dizer na cidade que o pai da menina ia ao Rio de Janeiro liquidar a sua fortuna — continuou o mendigo — Eu sei muito bem onde é o Rio de Janeiro, porque já lá estive. Há lá um jardim maravilhoso na Quinta chamada da Permissão, que tem as mais lindas rosas do mundo, brancas, encarnadas e azuis.
Maria ouviu isto e ficou pensativa. Depois da ceia pronta foram para a mesa e a menina disse ao ouvido da ama que comesse pouco para que o pobre não tivesse falta. Mandaram-no deitar no próprio quarto delas e ficaram ao lume. A ama depressa adormeceu, mas quando a menina ia também a pegar no sono ouviu uma voz dizer:
— Maria, se te vires aflita, chama pelo ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão!''
Ficou surpreendida de se ouvir assim chamar pelo seu nome, mas, como não visse nem ouvisse mais nada, adormeceu. De manhã, ficaram admiradas não vendo o pobre e encontrando as portas fechadas por dentro como na véspera as tinham deixado. Procuraram todos os cantos da casa, mas de tal pobre nem sinal!
Andavam nestas pesquisas quando ouviram bater à porta. A menina foi abrir e ficou contentíssima quando viu o pai. Abraçaram-se e ele preveniu a filha de que vinha despedir-se porque ia ao Rio de Janeiro liquidar parte da sua fortuna.
Reparando na pobreza da casa e dos fatos com que as duas estavam vestidas, ralhou com a menina e deu-lhe mais dinheiro. Depois perguntou o que desejava lhe trouxesse de presente. Maria lembrou-se do que lhe dissera o velhinho e pediu:
— Eu, meu pai, só desejava três ramos de rosas: um branco, outro encarnado e outro azul, da Quinta da Permissão.
O negociante tomou nota da encomenda da filha, abraçou-a, beijou-a muito e partiu.
Chegou ao Rio de Janeiro onde era esperado pelos negociantes que tinham relações com a sua casa, sendo por todos muito bem tratado. Mas o que desejava era liquidar tudo ràpidamente e voltar para junto da filha; por isso, logo que chegou, pediu o levassem à Quinta da Permissão para comprar os ramos maravilhosos que Maria lhe tinha pedido. Foi preciso montar a cavalo e andar quinze dias pelo interior para chegar à magnífica Quinta. Lá encontrou um velho, que lhe perguntou o que desejava:
— Três ramos de rosas para a minha filha; um branco, um encarnado e outro azul.
O homem foi com ele ao jardim cortar as flores e fez-lhe três ramos que eram um encanto. Perguntou o negociante o preço e o velho disse-lho tão grande que seria para afugentar outro menos rico.
Voltou para o Rio, muito contente por levar o que a filha desejava, arranjou os negócios ràpidamente e, no mesmo navio que o havia levado, regressou à Pátria. Mal pôs o pé em terra, correu a casa da filha para lhe entregar os ramos.
Depois foi para casa e a mulher e as cunhadas, admiradas de o verem voltar tão depressa, perguntaram se lhes trazia algum presente. O pobre homem respondeu que nada lhes trouxera porque não tivera tempo. As três ''fúrias'' logo que isto ouviram iam dando cabo dele, e a mulher disse:
— Aposto que se não esqueceu da sua filha!
Resolveram para saber o que ele lhe tinha dado, ir a casa de Maria, fingindo que iam passear. Bateram à porta e foi a própria Maria quem veio abrir. Tratou-as muito bem e disse-lhes que entrassem.
— Não, não nos demoramos — disse a madrasta. — Como passámos por aqui batemos à porta para te ver.
Fingindo que não queriam entrar, foram sempre entrando e daí a pouco perguntaram:
— Já viste o teu pai, que chegou hoje do Rio? Vem mais alegre e melhor de saúde. É bonita a prenda que ele te trouxe?
A Maria, que era muito sincera, respondeu-lhes:
— Já o vi, sim; trouxe-me três ramos de rosas, qual deles o mais lindo, brancas, azuis e encarnadas! E à mãe e às manas o que trouxe?
— A nós?! A nós não trouxe nada! Nem sequer nos perguntou o que queríamos. Não admira, não somos suas filhas!...
E foram-se embora, desesperadas, deixando a pobre menina muito aflita pelo mal que involuntàriamente tinha causado ao bom pai. As três chegaram a casa e disseram tais coisas ao pobre negociante que nem é bom imaginar!
Combinaram então afligir a Maria destruindo-lhe as flores. No dia seguinte foi a mais velha delas visitá-la; conversaram largo tempo e no fim disse-lhe:
— Deixas-me ver de perto o teu ramo de rosas brancas?
Na maior boa fé o foi buscar e entregou-lho; depois de muito o gabar fingiu-se distraída e num instante o desfolhou, sem dar tempo à menina para evitar tal desastre.
Ficou esta muito desgostosa, ouvindo então uma voz que dizia:
— Ai, Maria, que deixaste desfolhar o ramo de rosas brancas onde estava a tua felicidade! Quando te vires aflita chama pelo ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão!...''
Ouvia esta voz, mas, naturalmente por encanto, era como se nada ouvisse, esquecia-lhe imediatamente, e quando se via apoquentada não chamava o seu protector.
No outro dia veio a segunda irmã da madrasta e pediu para ver o ramo de rosas encarnadas. A Maria, que já se tinha esquecido do que a outra lhe fizera, foi prontamente buscá-lo. Logo que a malvada o apanhou às mãos, desfolhou-o todo.
A menina soltou um grito angustiado, mas já não havia remédio: as pobres florinhas estavam perdidas. E por cima de fazer uma acção tão feia ainda escarneceu, dizendo:
— Ah, tu querias receber presentes e nós não termos nada?! Pois agora aí te ficam as tuas lindas rosas.
Saiu a rir, enquanto a menina ficava a chorar, ouvindo a mesma voz:
— Ai, Maria, que deixaste desfolhar as rosas encarnadas onde estava a tua riqueza; Quando te vires aflita chama pelo ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão.''
Mas ouvia isto e logo se esquecia, assim como das más acções que lhe faziam.
No dia seguinte veio a madrasta e ela tratou-a muito bem. Como já vinha com más tenções, pediu-lhe logo que mostrasse o ramo das rosas azuis.
Desfolhou-o, deitou-o no chão e pisou as flores, dizendo ainda por cima mil impropérios à enteada.
E logo a menina ouviu a mesma voz:
— Ai, Maria, que deixaste desfolhar as rosas azuis onde estava o teu amor! Quando te vires aflita chama pelo ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão.''
Entrou a ama e, vendo-a chorar, quis saber o que acontecera, consolando-a como pôde.
A menina nessa noite sonhou que era transportada para um país muito distante e que estava defronte de um grande palácio e não conhecia ali ninguém! Muito sobressaltada acordou e foi grande o seu espanto e aflição vendo-se, exactamente como tinha sonhado, num país estranho!
Achava-se no meio duma grande praça, defronte do palácio real, rodeada de povo e soldados, e uns se riam, outros a lamentavam, por ser tão nova, tão bonita e não ter ali quem a protegesse.
Era tal o alarido que a Rainha chegou à janela do palácio e perguntou o que era. Responderam-lhe logo que aparecera ali adormecida uma estrangeira muito bonita e que se pusera a chorar sem dizer quem era nem o que desejava.
A Rainha mandou ir a menina à sua presença e, tratando-a com todo o carinho, perguntou-lhe quem era e porque se encontrava na sua capital. Como fora muito bem educada e sabia umas poucas de línguas, compreendeu o que lhe diziam e respondeu à Rainha contando a sua vida e pedindo que a não abandonasse. Então a Rainha perguntou-lhe o que sabia fazer para a empregar no palácio. Ela respondeu modestamente:
— Sei coser e bordar, Senhora.
— Bem, ficarás encarregada do enxoval do Príncipe meu filho.
Era este menino a única família da Soberana, pois o filho mais velho, o herdeiro do trono e das suas inúmeras riquezas, esse Príncipe que era a flor da Cavalaria e a esperança dos bons, desaparecera um dia misteriosamente.
Só depois de o procurarem por todo o Mundo e consultarem todas as Fadas e Génios do seu conhecimento, conseguiram saber que estava encantado no ''Palácio de ferro no Reino da Escuridão.'' Imenso foi o desgosto da Rainha e de todo o povo, pois o Príncipe era muitíssimo estimado.
Maria tomou conta da obrigação e tão bem se houve que a Rainha estava contentíssima. Cosia e bordava maravilhosamente e era tão modesta e calada que não havia dela a menor razão de queixa.
Como tinha muito talento e desenhava esplêndidamente do natural, os seus bordados eram feitos sobre esses desenhos, com tanta perfeição que chegavam a iludir. Um dia quis fazer uma surpresa à Rainha e bordou, num lençol do berço, a figura do Principezito deitado, de perninhas para o ar, a rir. A perfeição do bordado era tal que o pequenino parecia vivo. Foi a roupa a lavar e ela, sem dizer nada a ninguém, meteu o lençol entre o enxoval do Príncipe. Quando as lavadeiras espalharam a roupa na praia para começar o trabalho, deram com os olhos no bordado e ficaram aflitíssimas, pois julgaram ser o Príncipe que por engano tivesse vindo no saco. Conhecido o engano riram a valer e foram ao palácio levando o lençol nos braços como se realmente fosse uma criança. A Rainha correu, alarmada, mas, vendo que era um retrato, ficou admirada e contente por ter uma obra daquelas.
Começou a perguntar quem seria e quem não seria a autora do trabalho e como a Maria era a encarregada da roupa do Principezito foi chamada para dizer o que sabia. Sorriu-se e disse que tinha feito aquele bordado para oferecer à sua Rainha. Esta ficou reconhecida a tanta delicadeza e logo ali a nomeou sua primeira dama.
Apesar de ser bondosa e meiga, a menina levantou contra si os ódios e más vontades das outras damas da corte, que não tendo os seus méritos invejavam furiosamente a maneira como a Rainha a tratava. Principalmente três, das mais velhas, tinham-lhe um ódio de morte e reuniram-se um dia para discutirem o mal que lhe haviam de fazer. Pensaram em mandá-la matar, mas isso levantaria suspeitas. Uma delas, mais prudente, disse:
— O melhor é intrigá-la com a Soberana e obrigar esta a expulsá-la.
Combinado isto, foi logo dali dizer à Rainha, com grandes admirações e comentários, que a Maria se gabara de lavar e engomar toda a roupa do palácio em três dias.
A Rainha, que sabia o desembaraço da sua primeira dama, acreditou tudo que lhe contaram e chamando-a perguntou-lhe se era capaz de cumprir o que dissera.
Ela afirmou que tal não tinha dito. Mas a Rainha, querendo ver até onde chegava a sua habilidade, respondeu-lhe:
— Pois minha amiga, hás-de fazê-lo, sob pena de morte, se não cumprires o que disseste.
Acto contínuo, mandou encaixotar toda a roupa que havia no palácio, que em carroças foi para o rio, para Maria começar o seu trabalho.
Esta, mal se viu só desatou a chorar amargamente a sua desgraça e, descorçoada de todo, ia deitar-se à água quando ouviu a mesma voz que já lhe tinha falado:
— Maria, Maria, que vais tu fazer, infeliz?! Não te tenho já dito que chames pelo ''Príncipe encantado no palácio de ferro no
Reino da Escuridão'', todas as vezes que te vires em perigo?!
Olhou para todos os lados a procurar quem lhe falava e ficou admiradíssima de ver a roupa já lavada, dobrada e engomada dentro das caixas e tudo pronto a partir.
Voltou ao palácio e foi recebida pela Rainha com grandes festas, redobrando assim o ódio que as três damas lhe tinham. Já é coisa sabida: quanto melhor é uma pessoa, mais inimigos tem; e quanto maior é o seu merecimento, maior o ódio dos ignorantes e dos maus.
Passado pouco tempo voltaram as damas a dizer à Rainha que a menina jurara, sob pena de morte, ser capaz de limpar num dia toda a prata e ouro da casa real.
A Rainha, convencida de que ela fazia tudo quanto queria, mandou-a chamar e perguntou-lhe se era verdade ter dito aquilo. Ela respondeu que não, que tal não tinha dito, porque era uma coisa impossível de fazer.
— Embora — disse a Rainha — eu creio que tu o podes fazer e então, sob pena de morte, hás-de cumprir.
E mandou levar a menina ao tesouro real onde estavam arrecadados tantos objectos de prata e ouro que não era possível uma só pessoa limpá-los, nem que estivesse muitos anos a trabalhar.
Desanimada, desatou a chorar, e então, como das outras vezes, ouviu a voz:
— Maria, Maria, porque não chamas o ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão?!'' Olha e não te aflijas.
A menina olhou e viu tudo tão limpo, tão brilhante, como se naquele momento tivesse saído das mãos dos ourives.
Doida de contente, voltou aonde a Rainha estava e disse-lhe que as suas ordens estavam cumpridas. Esta ficou satisfeitíssima e, para pagar tanto trabalho e boa vontade, nomeou-a sua dama camareira, que é o mesmo que dizer: a primeira abaixo dela.
Se odiada era pelas três damas, pior foi então! Andavam desesperadas por não saber que nova intriga inventariam. Tanto pensaram, que resolveram ir dizer à Rainha que a menina tinha dito ser capaz de ir desencantar o ''Príncipe ao palácio de ferro no Reino da Escuridão.''
A Rainha ficou louca de alegria e mandou logo chamar a Maria, dizendo-lhe:
— Sob pena de morte, hás-de ir desencantar o meu filho. Se o fizeres, tudo quanto desejares tudo te darei! O meu Reino, todas as minhas riquezas, são nada para pagar esse serviço.
— Senhora, eu não disse tal coisa, mas irei de boa vontade procurar o vosso filho. A minha vida darei para vos causar tamanha felicidade.
— Vai, vai, minha filha — volveu a Rainha, lavada em lágrimas e enchendo a menina de carícias — leva um exército, leva dois, leva toda a minha gente, mas traz-me o meu filho amado!
— Não levarei ninguém, prefiro ir só.
Vendo o desespero da Rainha e achando-se incapaz de lhe valer, a menina perdeu toda a coragem. Saiu do palácio a correr e ia deitar-se da ponte abaixo, quando ouviu a mesma voz.
— Maria, Maria, o que fazes?! Quantas vezes te hei-de dizer que chames o ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão?!'' Olha que sou eu mesmo o filho da tua Rainha. Volta para trás e, sem que ninguém te veja, vai ao meu quarto e tira da gaveta do meio do contador um punhal e uma vassoura que lá hás-de encontrar. Pega neles, tendo todo o cuidado em não seres vista por ninguém, e segue o caminho que tiveres em frente até encontrares um palácio de ferro muito grande e muito escuro, com as portas sempre a bater umas contra as outras. Não tenhas medo! Chega lá e crava o punhal na porta principal. Entra sem receio e hás-de ver uma Moura encantada a varrer a casa com uma giesta; atira-lhe com a vassoura e segue para a frente. Hás-de encontrar depois dois leões com palha defronte e mais adiante dois cavalos com ossos na mangedoura. Tu pegarás na palha e hás-de dá-la aos cavalos e aos leões darás os ossos. Depois continua sempre a percorrer o palácio até encontrares um leitãozinho. Pega nele ao colo e foge. Sintas o que sentires, não te voltes para trás. Ainda que te chamem, não olhes! Vê o que fazes! Se olhares ficaremos separados e sabe Deus o que nos acontecerá!
A menina ouviu e tomou muito sentido em tudo. Voltou ao palácio e, sem ser pressentida por ninguém, foi ao quarto do Príncipe, que estava fechado desde que ele desaparecera, e abrindo a gaveta do contador logo encontrou o que desejava. Pegou no punhal e na vassoura e partiu.
Andou, fartou-se de andar por um caminho deserto, até que, no fim de muitos dias de marcha, se viu diante dum grande palácio de ferro com as portas a abrir e a fechar. Sem medo nenhum foi cravar o punhal na porta principal e logo todas ficaram quietas, abertas de par em par.
Entrou e viu uma pobre Moura encantada a varrer a casa com uma giesta. Atirou-lhe com a vassoura e caminhou para a frente.
No meio dum pátio, todo revestido de mármore preto, viu dois leões presos por cadeias de ferro a uma coluna. Tinham um molho de palha na frente e rugiam com fome. Adiante, deparou com dois lindos cavalos quase mortos porque estavam presos a uma mangedoura onde só tinham ossos. Foi buscar a palha e deu-a aos cavalos e pegou nos ossos e deitou-os aos leões.
Feito isto, caminhou para a frente e percorreu todo o palácio de ferro até chegar a uma sala muito escura onde deparou com o leitãozinho. Pegou-lhe ao colo e voltou a correr por onde tinha ido. Ouviu uma gritaria horrível atrás de si e quando passou junto dos cavalos ouviu uma voz tremenda que dizia:
— Cavalos, correi atrás dela que nos quer roubar o nosso tesouro!
— Não! Porque estávamos a morrer de fome e ela deu-nos sustento.
Passou junto dos leões e a voz gritou ainda mais terrível:
— Leões, devorai-a, que nos rouba a felicidade!
— Não! Porque tínhamos fome e deu-nos de comer.
Passou pela Moura e ouviu:
— Moura, não a deixes fugir que leva o nosso bem-estar!
— Não lhe farei mal porque me veio dar alívio na minha tarefa.
E à saída ouviu, mais tremenda que nunca, a medonha voz:
— Portas, fechai-vos e esmagai-a, que nos leva o nosso futuro.
— Não! Porque estávamos num eterno tormento e ela deu-nos descanso.
Continuou a correr, mas, quando tinha dado alguns passos, ouviu atrás de si tamanho estrondo que não se conteve e voltou a cabeça. Não viu já o palácio de ferro nem coisa nenhuma no campo deserto, mas ao mesmo tempo desaparecia-lhe dos braços o leitãozinho.
Vendo-se abandonada começou a andar, a andar, mais triste do que a morte! O caminho não tinha fim e, passados muitos dias, faminta e morta de sede, com os pés em chaga, os vestidos em farrapos, encontrou uma pequena gruta onde se refugiou para morrer.
O Príncipe, desencantado, tinha aparecido logo no palácio, pois o leitão não era senão a forma do seu encanto. A Rainha, quando viu o filho, ia morrendo de alegria, e o regozijo foi imenso tanto na corte como no povo, pois era muito querido de todos. Mandou a Soberana fazer grandes festas, decretou regozijos e esplendores sem par, mas o Príncipe disse que não consentia que se fizessem as festas sem aparecer quem o salvara.
Montou logo a cavalo acompanhado por todos os fidalgos do Reino e grande multidão de povo. A própria Rainha e muitas damas o seguiram nas suas carruagens de gala. Assim foram, campo fora, em procura da menina. Tanto andaram que chegaram à grutazinha onde ela estava quase a morrer. Um cão que, ao ser desencantado, o Príncipe viera encontrar tão bom e fiel como antes, entrou por ali dentro e com os seus latidos chamou o dono.
Logo que ele entrou e a viu quase morta, teve um grande susto e pegando-lhe ao colo a trouxe para fora mandando chamar médicos que a tratassem e aias que a vestissem. Doente apenas de fome e cansaço depressa melhorou, ficando envergonhada e ao mesmo tempo satisfeitíssima de se ver junto de um tão lindo moço.
Disse-lhe ele quem era e quanto a estimava, desde o dia em que a fora visitar disfarçado num pobre velho que tão generosamente socorrera. Que desde esse dia a seguira por toda aparte.
A menina agradeceu tanta bondade e delicadeza, confessando também que já o estimava muito antes de o conhecer pelo bem que a todos ouvia dizer dele. E, mais do que tudo isso, pelas consolações que lhe dera nas suas horas de tormento.
Estavam nesta conversa e tão enlevados que mais nada viam e decerto nem se lembrariam de partir, se não chegasse a carruagem dourada, onde vinha a Rainha e toda a régia comitiva. Quando viu a Maria junto do Príncipe, apeou-se logo e, abraçando-os a ambos, chamou à menina sua filha querida. Depois obrigou-a a subir para a sua própria carruagem e partiram.
Ao lado ia o Príncipe no seu belo cavalo de batalha e, escusado será dizer, que não tinha olhos senão para a noiva. Atrás seguiam os cavaleiros, pagens, escudeiros, nobres damas, em suas equipagens, e grande quantidade de povo que os tinha seguido.
Quando nesta ordem entraram na cidade a alegria e o entusiasmo foram enormes. Marcado o dia para o casamento, mandaram vir o negociante, pai da menina, a mulher dele, as cunhadas e a ama. O pobre pai, quando viu a filha, nem sabia se havia de rir se chorar, pois a alegria foi imensa.
A ama abraçou a sua querida menina e pegou nela ao colo como se fosse uma criancinha, com tal contentamento que a todos alegrava. A madrasta e as irmãs, arrependidas, pediram mil perdões que de boa vontade lhes concedeu. Mas, envergonhadas da sua maldade, recolheram-se todas a um convento.
As damas que tanta inveja tinham tido e tão mal lhe tinham querido fazer, arrependidas também, fugiram da corte apesar da Maria lhes ter dito que podiam ficar, que nenhum ódio lhes tinha, pois até lhes devia a sua felicidade e a do Príncipe, visto que das suas maldades só isso resultara.
Fez-se o casamento com grande pompa, sendo padrinho da menina o Rei do seu país, que para esse fim empreendeu uma longa viagem.
O Infante cresceu e foi, como o irmão, um primor de cortesia, bondade e valor.
É escusado dizer que o ''Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão'' e Maria foram os melhores dos Reis e também os mais felizes, como pela sua bondade mereciam.
[[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|História do Príncipe encantado no palácio de ferro no Reino da Escuridão]]
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Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O corvo
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'''<big>O CORVO</big>'''
ERA uma vez um Génio, que, pela sua insuportável arrogância, fora condenado pelo Rei dos Génios a tomar a forma dum corvo e a viver longe do convívio dos outros Génios e Fadas, num castelo solitário dependurado numa rocha bravia sobre as verdas águas do mar.
Vivia tão aborrecido naquela solidão que resolveu casar-se. Mas qual seria a mulher, camponesa ou grande dama, mendiga ou Princesa, que havia de querer um Génio mau para marido, e demais a mais feito corvo por toda a eternidade?!
E ele também não se contentava com qualquer. Altivo como um poderoso Génio que fora, resolveu casar com filha de Imperador ou Rei.
Rondou os palácios de todos os Monarcas existentes no seu tempo e em nenhum encontrou formosura que lhe parecesse digna da sua soberba. Até que num longínquo Império do Oriente nasceu uma Princesa linda como as estrelas.
Grandes alegrias iam no palácio, pois era a menina a única herdeira da coroa. O Imperador seu pai, sentado no trono de ouro e pedrarias refulgentes, esperava cheio de júbilo que lha viessem apresentar sobre uma almofada de brocado. O Corvo, que esperava ocasião propícia para realizar o seu intento, entrou por uma janela que tinha ficado aberta, e quando a grande dama camareira apresentava ao Imperador a Princesinha, veio ele e arrebatou-lha.
Depois, aproveitando a confusão em que todos ficaram, voou para o seu castelo encantado.
No paço só se ouviam gritos e ais de aflição.
A Imperatriz, quando teve conhecimento do desaparecimento da filha, chorou muito e disse ao marido que partisse imediatamente em busca dela, senão que morreria de desgosto.
O bom do Imperador apertava as mãos na cabeça: onde estaria a Princesinha e quem seria esse mau corvo que a tinha raptado?! Passava as noites a meditar e não sabia que fazer à sua vida, pois grande era o seu empenho em encontrar a filha e em consolar a Imperatriz, que não fazia senão chorar e gemer.
No fim de muito pensar resolveu reunir o Conselho e, todos à uma, foram de voto que se convidasse a boa Fada Urgélia, protectora da família, e ela que dissesse o que se devia fazer.
Logo que o Imperador formulou o seu desejo, apareceu a Fada, num carrinho tecido de fios de ouro puxado por muitas pombas brancas. O Imperador e a Imperatriz correram para ela de braços abertos, e a formosa Fada, a sorrir, inclinou-se numa grácil mesura.
Explicaram os aflitos pais o desgosto em que viviam com a perda da Princesinha. Quedou-se em profundo silêncio a Fada Urgélia e todos se calaram, respeitando aquela meditação. Depois como que voltou a si e disse:
— Meus amigos, fui agora mesmo ao palácio da minha Rainha para ela me dizer qual o espírito malfazejo que roubou a minha bela afilhada, vossa filha. Sei onde está. Mas para lá ir é preciso reunir todos os exércitos do Império e escolher entre os soldados aquele que Deus destinou a ir livrar a Princesa do poder do Corvo, que é um poderoso Génio hoje castigado pelo seu Rei.
Indicou o sítio onde estava o castelo do Corvo, predisse o bom resultado da empresa e, despedindo-se dos Imperadores, mostrou-lhes em boas e sábias palavras quanto os estimava.
Os Imperadores desfizeram-se em agradecimentos e acompanharam-na até ao terraço, onde a esperava a sua leve carruagem. Metendo-se dentro foi um instante enquanto desapareceu aos olhos de todos, levada pelo rápido voo das pombas.
Mandou então o Imperador reunir na capital as tropas do seu Império, a ver se entre tantos homens encontrava aquele que Deus destinava a salvar a Princesinha. Mandou armar uma caravela para ir também, pois não queria que se dissesse que ele mandava outros livrar a filha e ficava no bom descanso.
Vinham os soldados dum regimento da província em direcção à cidade, segundo as ordens imperiais, e entre eles um rapaz chamado Florêncio. Era bom e valente e todos gostavam muito dele, porque estava sempre pronto a fazer vontades. No meio do caminho encontraram um homem morto e três vivos com grandes paus a baterem-lhe. Os soldados viram aquilo e passaram adiante, mas o Florêncio ficou indignado, pediu licença ao Comandante para sair da forma e depois foi perguntar àqueles homens porque razão desacatavam assim um morto.
— É que este homem — responderam eles — era muito caloteiro e então, como em vida nos pediu dinheiro que não pagou, vingamo-nos agora dando-lhe esta sova.
O rapaz não quis ouvir mais; tirou-lhes o cadáver das mãos, enterrou-o com grande piedade e depois foi a correr juntar-se ao seu regimento.
Chegaram à capital, onde estavam todos os corpos do exército e era tanta a quantidade de gente que não havia onde se instalassem. Ao outro dia mandou o Imperador tocar a reunir e passou revista a todas as suas tropas, a ver se escolhia um homem capaz de ir buscar a Princesa.
Entre todos notou a beleza e força de Florêncio e foi o que escolheu. O rapaz ficou contentíssimo e pôs-se logo às ordens do Imperador. Nisto, viram no campo um cavalo já aparelhado e pronto para ser montado. O Imperador mandou que lho agarrassem e trouxessem, mas o lindo animal corria tanto que não era possível apanhá-lo. Depois veio até junto de Florêncio, deixando-se montar sem custo algum.
Ficaram todos admirados e o Imperador disse ao rapaz que o cavalo lhe pertencia, pois que só a ele obedecera, e então que fosse ao outro dia ter à praia para embarcarem na caravela, que já estava aparelhada.
Como só partia no dia seguinte, resolveu Florêncio ir despedir-se da mãe, que era já muito velhinha. Montou no seu belo cavalo e partiu a galope. Abraçou a mãe, e, não se demorando nada, tornou a montar e dirigiu-se para a cidade. No meio do caminho viu um ramo de ouro caído no chão; ia apear-se para o apanhar e disse-lhe o cavalo: — «Deixa, que ouro e prata terás tu à farta!» — O rapaz não se apeou. Mais adiante viu um ramo de penas de todas as cores; pareceu-lhe bonito para pôr no chapéu e ia apanhá-lo, mas o cavalo disse: — «Não apanhes, penas tens tu contigo!» — E não se apeou.
Chegou à cidade e dirigiu-se logo à praia para embarcar, mas a caravela já tinha partido com o Imperador.
O rapaz ficou muito triste, mas o cavalo começou num galope tal que chegou à fronteira do Império primeiro que o Imperador. Ali pediu desculpa de não estar à hora do embarque, e, aconselhado pelo cavalo, disse que lhe dessem um navio, cinquenta fardas, cinquenta bonés e cinquenta armas. Depois meteu-se no navio com o seu cavalo e foi ancorar mesmo em frente do castelo do Corvo.
Mal este os viu arremeteu contra eles, mas o Florêncio mostrou-lhe as fardas, os bonés e as armas e disse-lhe que todos os seus homens tinham morrido e então que tivesse dó dele e do cavalo e o deixasse dormir no castelo. O Corvo consentiu nisso, com a condição de não entrarem numa torre que tinha fechada.
Mal se apanhou lá dentro, tratou o Florêncio de ver onde ficaria a torre, pois nela certamente é que estaria a prisioneira. Daí a bocado viu o Corvo a dormir sobre uma árvore, foi pé-ante-pé, abriu a porta e, pegando na Princesinha, que estava deitada num berço de ouro, montou a cavalo e partiu.
Quando o Corvo acordou do seu pesado sono de comilão, entrou na torre para ver a Princesa, e a Fada Urgélia, que tinha seguido invisível a aventura, foi por trás e fechou-lhe a porta com fechadura encantada, de maneira que lá ficou encerrado para sempre.
Quando o Florêncio apareceu com a Princesinha, foi uma alegria doida por todo o Império. Os Imperadores, muito agradecidos, quiseram que ele ficasse no palácio e fosse considerado como pessoa de família.
A Princesinha ia crescendo e tornando-se cada vez mais linda, de maneira que aos quinze anos era a senhora mais formosa do Mundo.
Gostava tanto do seu salvador que não podia passar sem o ter sempre a seu lado, o que era motivo de muitas invejas. Os cortezãos não o podiam ver e raro era o dia em que não inventavam histórias que iam contar ao Imperador. Este, por muito tempo, não fez caso, mas um dia enraiveceu-se porque lhe vieram contar que ele tinha dito que assim como tinha ido buscar a Princesa, também era capaz de se meter numa caldeira de azeite a ferver.
— Então — respondeu o Imperador — já que disse tal coisa, agora há-de cumprir a sua palavra!
Chamaram o Florêncio, e ele, coitado, jurava e tornava a jurar que tal coisa não dissera nem mesmo lhe podia vir à cabeça. Lamentava-se muito dizendo: — «O cavalo é que tinha razão! Penas tenho eu comigo».
O Imperador não quis ouvir desculpas; teimou em que ele fizesse a experiência, e, se se saísse bem, casaria com a Princesa e assim acabariam todas as intrigas.
Em vista disto não havia remédio senão resignar-se a morrer cozido em azeite e foi à cavalariça na intenção de despedir-se do seu bom companheiro. O cavalo falou-lhe, então, assim:
— Não te aflijas; pega num pau e bate-me até que eu fique a suar e depois limpa-me com uma toalha e diz à Princesa que te embrulhe nela.
O Florêncio não queria bater-lhe, mas o cavalo tanto teimou que ele obedeceu. Depois foi buscar a Princesa que estava fechada no quarto a chorar, sem querer ver ninguém, desde que soubera da desgraça do seu salvador. Fizeram tudo quanto o animal mandou e o rapaz foi meter-se em uma grande caldeira cheia de azeite, que estava a ferver a um lume muito forte, mesmo em frente do palácio imperial, onde toda a corte assistia ao espectáculo.
Três vezes mergulhou no azeite, e os seus inimigos, esfregando as mãos de contentes, imaginavam que dessa vez se veriam livres dele; mas tiveram logo que se morder de raiva, porque saiu do banho tão fresco como se o tivesse tomado de água fria.
A Princesa ficou doida de contente e quis que um Arcebispo, que andava na corte, os casasse imediatamente. Assim se fez, com grande alegria dos Imperadores e de todo o povo, que muito gostava do novo Príncipe. Depois foi o cavalo ter com ele e disse-lhe:
— Venho despedir-me de ti.
Ele ficou muito aflito, respondendo:
— Ó meu bom cavalo, se tu me deixas o que há-de ser de mim?!
— Agora já não corres perigo; como futuro Imperador, todos te hão-de respeitar. Trata de ser sempre bom, como até aqui, e serás feliz.
O Príncipe, que se não podia resignar, perguntou:
— Mas qual é a razão de me deixares? Que mal te fiz eu?!
— Nenhum mal me fizeste, nem eras capaz de fazer, porque és bom como poucos. Se te deixo é porque Deus assim o quer. Fica sabendo que eu sou a alma daquele morto que encontraste no caminho e piedosamente enterraste, livrando-me das pancadas dos meus credores. Não pagava as dívidas porque era pobre, e então elas foram-me perdoadas por Deus. Em paga da tua boa acção, mandou-me à Terra sob esta forma para te servir e aconselhar enquanto precisasses.
Dito isto, desapareceu e nunca mais foi visto.
Os Imperadores ainda viveram largo tempo muito queridos da filha e do genro, e quando morreram governaram estes, com geral contentamento do seu povo.
Foram muitos felizes, tiveram muitos filhos e morreram velhinhos e cheios de bênçãos.
[[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|O corvo]]
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Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O Príncipe Bezerro
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| autor = Ana de Castro Osório
| tradutor =
| seção = O Príncipe Bezerro
| anterior = [[../O corvo/]]
| posterior = [[../A Princesa da Áustria/]]
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'''<big>O PRÍNCIPE BEZERRO</big>'''
HAVIA, em tempos muito remotos, um Rei e uma Rainha senhores dum grande reino, mas que viviam muito tristes, muito tristes, por não terem filhos. Principalmente a Rainha chorava muito a sua desgraça e não se cansava de os pedir a Deus e a todos os Santos. Um dia, já muito desesperada, exclamou:
— Quem me dera um filho, ainda que fosse um bezerro!
Passado tempo, deram parte à corte que a Rainha estava para dar um herdeiro à coroa. Fizeram-se muitas festas; houve alegria geral desde o palácio dos reis até à mais humilde choupana. Mas qual não foi o espanto de todos quando viram que, em lugar do menino tão ansiosamente esperado, nascia um bezerrinho!
Os pais ficaram muito aflitos, mas eram pais e resignaram-se. O Príncipe foi crescendo e mostrava muita inteligência e bondade. Os pais — coitados! — apesar da forma extravagante do filho, gostavam dele como se fosse um homem perfeito, achavam-no até muito lindo e não podiam tolerar que as raparigas fugissem dele e não o quisessem para marido.
Ora o Príncipe Bezerro queria por força casar e então os reis deram reuniões sobre reuniões, a ver se alguma mulher se agradava dele. Mas era trabalho baldado, porque as raparigas de quem gostava faziam troça dele e não o queriam nem por quanto havia.
Aconteceu vir aos bailes da corte uma menina muito linda e sobretudo muito boa. Viu o Príncipe Bezerro e teve muita pena dele. Enquanto as outras se riam de o verem fazer-se amável com as damas, lambendo-lhes as mãos com toda a delicadeza, ela pegou no seu fino lenço de rendas e limpou-lhe a baba.
Ficou o Príncipe Bezerro tão encantado com aquela prova de bondade da menina, que se dirigiu logo aos pais para a pedirem em casamento.
Assim fizeram, e a menina, como era muito boa, teve dó do pobre rapaz que todos desprezavam e disse que sim, que aceitava ser sua mulher para que ele fosse menos infeliz.
Fez-se o casamento com grande pompa, e, quando à noite se recolheram ao quarto, viu a menina, com grande admiração, que o Príncipe despia a pele de bezerro como se fosse uma camisa e ficava um belo rapaz — o mais belo que jamais tinha visto.
Abraçaram-se cheios de contentamento, e ele disse-lhe então:
— Não vás dar parte a ninguém disto que vês, porque é um encanto que não acabará se tu o fores dizer, ainda que seja a uma só pessoa!
Ao outro dia foi a menina visitar a mãe e, doida de alegria, não teve mão em si que lhe não contasse, debaixo de grande segredo, o que lhe tinha acontecido. E a mãe aconselhou-a a queimar a pele de bezerro que à noite o Príncipe despia, quando ele estivesse a dormir.
Assim foi. À noite aconteceu o mesmo da véspera, e a menina, quando o marido adormeceu, foi queimar-lhe a pele, imaginando que assim acabaria o encanto.
Mal a pele começou a arder, acordou o Príncipe em sobressalto, exclamando:
— Ai, desgraçada mulher, que dobraste o meu fadário! Agora não me tornarás a ver sem romperes sete pares de sapatos de ferro, e ninguém encontrarás que te dê notícias de mim!
E, dizendo isto, desapareceu o Príncipe, o palácio, e tudo que a rodeava, e ela viu-se abandonada numa terra desconhecida.
Cheia de desgosto e de remorso, não se entregou, porém, ao desespero. Resolveu fazer tudo para desencantar o Príncipe. Comprou sete pares de sapatos de ferro e pôs-se a caminho. Andou, andou, e por toda a parte perguntava pela morada do Príncipe Bezerro, mas ninguém lhe dava notícias dele nem do seu reino.
Assim foi andando até que o último par de sapatos de ferro estava quase a findar. Uma noite viu uma luzinha muito ao longe, muito ao longe, e dirigiu-se para lá. Chegou a uma grande casa e bateu à porta. Veio uma velha abrir e perguntou:
— Que vem aqui fazer a minha menina? Não sabe que esta é a casa do meu filho Sol? Se ele aqui a vê, é capaz de a matar.
Tão aflita estava a infeliz, que lhe respondeu:
— Olhe, tiazinha, eu estou tão cansada que só desejo um canto onde me deite, e, se vier o seu filho e me quiser matar, deixá-lo! E talvez ele me saiba dizer onde mora o Príncipe Bezerro.
A velha teve muito dó da pobre menina, deixou-a entrar, deu-lhe ceia e cama, dizendo-lhe que descansasse até vir o filho. Daí a pouco chegou o Sol, iluminando a casa — que toda ela parecia um brazeiro de luz — e, dirigindo-se à velha, gritou:
— Minha mãe, cheira-me aqui a carne humana!
Respondeu ela:
— Olha, filho, é uma menina muito bonita que está ali a dormir. Vem perguntar se tu sabes onde é o reino do Príncipe Bezerro.
— Eu não sei (disse o Sol) mas a Lua, como anda de noite, talvez saiba.
Depois chamou a menina, e, dando-lhe uma noz, recomendou-lhe que a não abrisse senão quando de todo em todo não pudesse suportar a fome.
Foi ela dali até a casa da Lua, bateu à porta, e veio também uma velhita, que era a mãe. Deixou-a entrar e descansar, até que chegasse a filha. Então a menina perguntou à Lua: se sabia onde era o reino do Príncipe Bezerro.
— Não, eu não sei (respondeu a Lua), nunca o vi nem ouvi falar nele. Melhor é ires perguntar ao Vento, que esse, como anda de noite e de dia, talvez te dê melhores notícias. Mas toma cautela com ele, porque é uma pessoa de muito mau génio, anda sempre arrenegado.
Depois deu-lhe também uma noz, fazendo a mesma recomendação que lhe tinha feito o Sol — de só a abrir quando a fome fosse de todo insuportável.
Foi dali a menina a casa do Vento, e bateu à porta. Veio abrir-lha uma mulher ainda nova, que lhe perguntou a que vinha. Ela respondeu o mesmo que já tinha dito à mãe do Sol e à da Lua, e a mulher respondeu:
— O meu marido só chega à tardinha — hora em que abranda o vento — vem cear, e depois volta logo à sua obrigação. Se a menina lhe quer falar há-de ser à hora da ceia, mas tenho que a esconder quando ele chegar, porque entra sempre com tal espalhafato que despedaça tudo quanto encontra diante de si.
A menina agradeceu à mulher do Vento, entrou, e esperou até ao lusco-fusco. Então meteu-se atrás da porta, e viu chegar o Vento, derribando tudo e gritando arrogante que lhe dessem a ceia depressa.
Quando ela o viu sossegado, saiu do esconderijo e disse-lhe a que vinha, contando-lhe toda a sua história.
O Vento respondeu que sim, que sabia muito bem onde era o reino do Príncipe Bezerro, mas que ele ia casar-se daí a três dias, e então que fosse depressa — a não chegar lá essa manhã já não iria a tempo.
Ensinou-lhe o caminho e deu-lhe outra noz, recomendando o mesmo que a Lua e o Sol, isto é: que só a partisse quando de todo não pudesse tolerar a fome.
Foi a menina andando pelo caminho por ele indicado, mas em certa altura sentiu uma tal fome que se tentou a partir uma das nozes. Qual não foi, porém, o seu espanto encontrando dentro, em vez da amêndoa que desejava comer, uma dobadoura muito linda toda de ouro e brilhantes.
Mais adiante, deu-lhe outra vez uma tão grande fome que se resolveu a partir a segunda noz, e dentro, em lugar de fruto que comesse, encontrou um sarilho de ouro e pedras preciosas tão bonito que ficou deslumbrada.
Ainda foi suportando a fome até mais adiante, e, quando inteiramente já não podia, partiu a terceira noz, e então mais admirada ficou quando de dentro lhe saiu uma galinha com sua ninhada de pintos, tudo de ouro, com as penas de brilhantes, rubis, esmeraldas e safiras. Mexiam-se, piavam, corriam — que era mesmo um encanto.
A menina foi andando, até que de manhã chegou a uma grande cidade. Entrou e perguntou se vivia ali o Príncipe Bezerro. Disseram-lhe que sim, que era ele o rei daquele País e que daí a três dias viria a noiva para se casar.
A menina foi sentar-se defronte do palácio real com a dobadoura. Viu-a uma criada da Rainha mãe, que lhe perguntou se queria vender aquela tão linda prenda.
— Não, — respondeu ela — não a vendo, mas dá-la-ei à Senhora Rainha, se ela me deixar ficar esta noite no quarto do Príncipe Bezerro.
A criada foi dizer aquilo à Rainha. Combinaram deitar dormideiras na água que, ao deitar, o Príncipe bebia. Assim a mulher ficaria no quarto sem ele dar por isso.
A menina deu a dobadoura e à noite ficou no quarto do Príncipe. Mas, por mais que ela o chamasse e abanasse, ele não deu por coisa alguma. Chorou muito, disse mal da sua triste vida e do mau costume de falar demais, pois se não tivesse contado à mãe o segredo do Príncipe nenhuns trabalhos daqueles lhe teriam sucedido! De manhã teve de sair, sem ter podido acordar o marido.
Por toda a parte ouvia falar no próximo casamento do Príncipe, e na formosura da noiva, que ninguém tinha visto, mas todos afirmavam ser a mais formosa do Mundo.
Muito desanimada, foi sentar-se defronte do palácio real com o sarilho de ouro. Viu-a a mesma criada e foi a correr dizer à Rainha que a mulher trazia ali um sarilho, mil vezes mais belo do que a dobadoura. A Rainha, como na véspera, mandou perguntar se o vendia e ela respondeu a mesma coisa: — que não o vendia, mas o daria à senhora Rainha se a deixasse ficar essa noite no quarto do Príncipe Bezerro. A Rainha não queria, mas a criada convenceu-a a fazer o mesmo que tinha feito na véspera, porque ele nunca o saberia. Assim aconteceu: deram as dormideiras ao Príncipe, e à noite, quando a mulher veio, por mais que chamasse e chorasse, nada! — não acordou com coisa nenhuma.
De manhã saiu do palácio, mais triste do que a noite, e foi sentar-se defronte das janelas com a galinha de ouro e os pintainhos. Tocava-os com uma vara de ouro e começavam todos a correr, a piar, a abrir as asas, que era mesmo uma coisa nunca vista de linda e engraçada.
Foi a mesma criada, a correr, dizer à Rainha o que a mulher trazia e voltou logo a perguntar: — se vendia aquela tão linda prenda, que a Rainha daria tudo quanto lhe pedisse.
Ela respondeu o mesmo das outras vezes: — que não vendia, mas que daria à senhora Rainha a galinha e os pintos, se a deixasse ficar essa noite no quarto do Príncipe Bezerro.
Disseram-lhe que sim, e ela ficou esperando a noite, que era a sua única esperança de salvação.
Ora o criado particular do Príncipe fora dizer-lhe que havia duas noites que ficava no quarto dele uma mulher que chorava e se lamentava tanto que cortava o coração ouvi-la.
O Príncipe, que nada tinha ouvido, ficou a desconfiar que lhe tivessem dado alguma coisa para dormir, e, à noite, em lugar de beber o copo com a água do costume, foi disfarçadamente deitá-la fora. Depois meteu-se na cama, e, fingindo que dormia, esperou que entrasse a mulher.
Veio ela a chorar, chamou-o por marido, e, por entre soluços e lamentos, contou-lhe todas as suas desgraças.
O Príncipe ouviu, ouviu, fingindo sempre que dormia, até que por fim teve dó dela e abraçou-a, dizendo que pela sua constância e arrependimento, o encanto mau acabara; e que ficavam casados como dantes, porque não queria outra esposa senão a ela.
No outro dia apresentou-a à mãe e a todo o povo, que a recebeu como Rainha, ficando todos muito satisfeitos por ser tão boa e tão amiga do seu Príncipe.
[[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|O Príncipe Bezerro]]
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Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/A Princesa da Áustria
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{{navegar
| título = [[../]]
| autor = Ana de Castro Osório
| tradutor =
| seção = A Princesa da Áustria
| anterior = [[../O Príncipe Bezerro/]]
| posterior = [[../História do Príncipe Luís/]]
| notas =
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'''<big>A PRINCESA DA ÁUSTRIA</big>'''
HAVIA em tempos que já lá vão, no grande Reino da Áustria, um Rei e uma Rainha que tinham muita pena de não terem filho ou filha, que lhes herdasse honras fortuna. Passavam os dias tristemente no meio dos seus tesouros, pois é das coisas do Mundo, a riqueza, o que nos traz menos felicidade.
Quantas vezes a Rainha não chorava de mágoa, vendo o seu palácio tão cheio de preciosidades e tão vazio de alegria, ao passo que em muitas casas modestas dos seus súbditos havia risos e contentamento?!
Lamentava-se a triste Rainha e lamentava-se o bom Rei da miséria do seu esplêndido viver. Médicos de todo o Mundo eram chamados, promessas a todos os santos eram feitas com fervor; mas nada perecia remediar tão grande mal.
Um dia, em que a Rainha foi passear para distrair suas penas, encontrou uma igreja aberta e lembrou-se de ir, mais uma vez, implorar o milagre. Mandou parar a carruagem, pôs o pé no banquinho que um pagem lhe apresentou de joelhos, e, seguida a distância pelas damas da sua comitiva, entrou no sombrio templo.
Por acaso dirigiu-se ao altar de S. Miguel e, reparando nele e na figura do Diabo que o acompanha, exclamou, cheia de desespero:
— Ó Anjo! Por vós ou por quem tendes aos pés, dai-nos um filho ou filha a quem deixemos as nossas riquezas e Reino!
Passados dias, participou ao Rei que podia anunciar à corte que iam ter um herdeiro.
Foi a notícia recebida com grandes festas e regozijo de todo o povo.
Chegado que foi o grande dia apareceu uma menina muito linda, tudo quanto de mais formoso há sobre a Terra.
A Princesinha logo que nasceu começou a falar, coisa que muito, e justamente, admirou a todos. Voltou-se para as aias e disse:
— Dai-me pão e carne, que eu tenho muita fome!
O Rei, a Rainha e a corte não vinham a si do espanto que lhes causava um caso tão fora do natural.
Cresceu a menina cada vez mais bela, mas também comendo cada vez maior quantidade de pão e carne. Era coisa tanto mais extraordinária quanto era certo que a nobre Princesa nada tinha de disforme. Bonita e elegante como era, muito admirava que pudesse comer tanto. E depois ainda tinha outra excentricidade, que a todos confundia — era certo romper todas as noites sete pares de sapatos de ferro.
Como os rompia, ninguém podia adivinhar. De dia andava, tal qual as outras damas, com sapatinhos leves e finas meias de seda. Passeava pelas sumptuosas salas e galerias do seu palácio; descia, quando muito, aos admiráveis jardins que o rodeavam e quando saía a passeio era sempre em carruagens douradas, puxadas por cavalos brancos da mais fina raça. Onde poderia então gastar os sapatos de ferro a nobre herdeira do trono?!
Afirmavam as aias que a Princesa todas as noites ficava dormindo, quando elas a deixavam na sua câmara e lhe corriam cautelosamente as cortinas de renda.
Dormisse ou não dormisse, o caso era quê os sapatos, que à noite colocavam novos junto do leito, apareciam de manhã despedaçados. Cismavam os reis e cismava toda a corte e nenhum meio achavam para resolver o caso.
Quando a Princesa da Áustria chegou à idade de procurar noivo fez o Rei um decreto dizendo: — «A Princesa, minha filha, herdeira única de todas as riquezas e honras que me pertencem, casará com o homem que no espaço de três noites descobrir onde ela gasta sete pares de sapatos de ferro. Seja Príncipe ou Cavaleiro, nobre ou plebeu, por minha coroa eu juro que será o seu esposo. Mas, igualmente jurado fica, que irá a enforcar se não poder descobrir nada durante as três noites em que ordeno seja feita a experiência».
Como a Princesa era formosíssima e o reino era de tentar, apresentaram-se príncipes de todos os países, fidalgos, cavaleiros andantes, simples pagens e até homens do povo, gente enfim de todas as classes, porque é da condição humana todos desejarem ser grandes.
Vinham, cada um por sua vez, passar as três noites no quarto da Princesa e, no fim, nada podiam dizer, porque nada tinham visto, pois o sono os atacava de tal modo que não lhe resistiam.
Iam então a enforcar com grande mágoa de toda a gente e até mesmo do próprio Rei, que não podia revogar a sentença.
Crescia o luto e o espanto por toda a parte porque assim iam perecendo miseràvelmente, em busca dum vão desejo de glória, todos os moços daquele tempo.
Por fim já ninguém se arriscava a fazer a experiência e cada vez mais desanimado se mostrava o velho Rei, empenhado como estava no esclarecimento do estranho caso.
Contava-se isto pelas cidades e pelos campos, em toda a parte se falava da Princesa e dos infelizes namorados que tinham ido a enforcar. Depois de sabido e ressabido por todos e de não haver já quem se apresentasse para casar com a menina, chegou a história aos ouvidos dum pastorzinho chamado José Pequeno, que vivia com seus pais numa choça nó meio de serras bravas. Ouviu contar o facto a um viandante que por acaso ali se perdeu e disse para os pais que ia ele saber onde a Princesa gastava os sete pares de sapatos de ferro.
Os pais bem choraram e pediram que não fosse, mas o rapaz era teimoso. Pegou no ''surrão'', deitou-o às costas e partiu para a cidade em demanda do palácio real.
Chegou à porta e disse à sentinela que queria falar ao Rei, por que estava resolvido a procurar saber como a Princesa gastava os sapatos de ferro.
A sentinela teve dó dele e disse-lhe que se fosse embora, que não quisesse arriscar a sua vida, porque era certo ir a morrer.
— Não importa — disse o José Pequeno — assim como assim, rapazes como eu há muitos e então se eu morrer não se perde grande coisa e, se eu viver, acaba-se com este horror.
Não houve remédio se não levarem-no à presença do Rei. Este recebeu-o muito bem e disse-lhe que sim, que fizesse o que pudesse, mas que era certo ser enforcado se não descobrisse o mistério. À noite ficou no quarto da Princesa, mas, logo que deitou a cabeça no travesseiro, adormeceu tão profundamente que não pôde saber nada.
De manhã perguntou-lhe o Rei:
— Então que tal, José Pequeno?
— Assim como adormeci assim acordei, Real Senhor!
— Bem! Ainda te faltam duas noites.
Chegou a hora de se irem deitar e o José Pequeno fez tudo quanto pôde para se conservar acordado, mas o sono veio com tal força que não resistiu e ficou a dormir. E esse sono foi tão pegado que nada viu nem ouviu até que de manhã o vieram chamar. Perguntou-lhe o Rei logo que ele se apresentou:
— Então José Pequeno, o que sabes?
— Nada, Senhor! Assim como adormeci assim acordei.
— Já não tens senão uma noite!
Estava o rapaz muito triste e já resignado a morrer. Saíu do palácio e foi pelos campos despedir-se do Sol, das árvores e dos passarinhos alegres. Sentou-se junto duma fonte a pensar na sua desgraça, que era a desgraça de todos, quando viu diante de si um cavaleiro de tal formosura e brilhantismo que outro igual jamais olhos humanos tinham podido contemplar. Caiu de joelhos, fascinado pelo esplendor da estranha aparição, e ouviu uma voz suavíssima que lhe disse:
— Não desanimes, José Pequeno! És o primeiro que não vem por ambição mas por dever. Volta descansado ao palácio, que eu serei contigo. Eu sou o Arcanjo Miguel, que uma vez mais vai lutar com o inimigo da pureza e da bondade. Tem coragem e fé.
Foi o rapaz para o palácio e deitou-se como nas noites anteriores. Fingiu-se logo adormecido, mas não estava, que o Anjo velava por ele.
Levantou-se a Princesa, quando o julgou bem pegado no sono, e para o experimentar beliscou-o, picou-o, fez-lhe mil judiarias, e o rapaz, calado, a tudo resistiu. Convencida de que ele estava a dormir foi à janela e abriu-a; logo apareceu uma fantástica carruagem puxada por um cavalo-diabo, para a qual a Princesa subiu toda satisfeita.
O José Pequeno, mal que a viu voltar costas, ergueu-se subtilmente, deitou o ''surrão'' para os ombros e subiu para a trazeira do carro.
Voava a equipagem por cima de toda a folha, galgava precipícios, atravessava rios, pairava por sobre as mais altas montanhas, como leve pluma de ave levada pelo vento.
Assim foram até chegar ao mar. Aí afogar-se-ia o José Pequeno — porque a trazeira do carro mergulhava e cortava as águas como a quilha dum vapor — se o bom Anjo lhe não tivesse dado um lenço maravilhoso que ele estendeu sobre o mar e no qual se colocou navegando por sobre as ondas como se fosse num barco. Depois agarrou-se outra vez ao carro e lá foram seguindo até chegarem à porta do Jardim de Cobre.
Bateu a Princesa e perguntaram de dentro:
— Quem vem lá?
— É a Princesa da Áustria.
— Passe a Princesa da Áustria mais a sua companhia.
A Princesa não sabia que levava companhia e ficou admirada de lhe dizerem isto. Atravessaram o Jardim de Cobre, que era tudo quanto se pode imaginar de mais extraordinário! Árvores, flores, ramos, folhas, tudo era feito de cobre.
O José Pequeno cortou um galhito duma árvore e meteu-o para o ''surrão''.
Continuaram a andar e mais adiante bateram à porta do Jardim de Prata.
— Quem vem lá? — disseram de dentro.
— É a Princesa da Áustria.
— Passe a Princesa da Áustria mais a sua companhia.
— Ora esta — dizia a Princesa consigo — todas as noites aqui passo e nunca me falaram na companhia senão hoje. O que será isto?...
Se admirado ficara o José Pequeno com o Jardim de Cobre, com o de Prata, então, nem sabia que pensar! Como passavam debaixo duma árvore cortou uma esgalhinha e meteu-a para o ''surrão''.
Continuaram a jornada até chegarem à porta do Jardim de Ouro, à qual a Princesa bateu.
— Quem vem lá ?
— É a Princesa da Áustria.
— Passe a Princesa da Áustria mais a sua companhia.
O Jardim de Ouro era prodigioso! Desde o maior e mais frondoso cedro à mais humilde ervazinha, todas as plantas ali estavam representadas por um exemplar feito do mais fino ouro. A folhagem tremia ao menor sopro, qual as folhas verdes das árvores verdadeiras. A Princesa já estava habituada a ver estas maravilhas e por isso não lhes dava atenção. O carro não afrouxava a carreira e o José Pequeno tinha que se contentar com o pouco que via.
De passagem pôde ainda cortar um ramo de ouro que meteu no ''surrão''.
Assim foram correndo até chegarem ao inferno. Mal o carro chegou à porta, abriu-se esta de par em par, mostrando as mais negras trevas.
Entraram e enquanto arrumavam o carro o José Pequeno escondeu-se atrás da porta. Vinham os ''facanitos'', ajoujados com os pratos e manjares para a ceia, e o José Pequeno empurrava-os, quebrava tudo e dava-lhes muitos sopapos, na escuridão. Eles iam a gritar para dentro:
— Hi! Sempre hoje trouxeram um vento lá da Terra que dá cabo da gente!
Depois da ceia veio o ''Diabo Maior'', para dançar com a Princesa. O José Pequeno deu-lhe um soco na cara.
— Irra, que o vento está bravo! — dizia o Diabo esfregando a cara dorida.
Começou então a bailar com a Princesa e de cada volta que davam atirava com um par dos sapatos de ferro, já rotos, para debaixo dum banco; ia o José Pequeno por trás e metia-os no ''surrão''. Quando se apanhou com os sete pares de sapatos em seu poder, pegou no banco e deu com ele nas costas do Diabo que começou a gritar para a Princesa:
— Vai-te embora, vai-te embora, que hoje ninguém te pode aturar.
Tornou a Princesa a meter-se no carro e o José Pequeno a esconder-se na trazeira, acontecendo na volta as mesmas coisas que na ida tinham acontecido. Quando José Pequeno se viu perto do palácio, saltou do carro e pôs-se a correr com quanta força tinha, de maneira que já estava na cama, a fingir que dormia, quando a Princesa chegou. Desconfiada, começou de o picar e beliscar, dizendo:
— Dar-se-á o caso que tu me tenhas enganado?!...
Mas o rapaz, nem ''chus'' nem ''bus'', tudo padeceu sem se mexer.
De manhã mandou o Rei chamá-lo à sua presença e perguntou:
— Então o que sabes?
— Assim como me deitei, assim acordei, Senhor.
— Bom, vais a enforcar.
— Irei. Mas na praça mais pública e com bastante gente a assistir, é o meu último desejo.
O Rei fez-lhe a vontade. Mandou armar a forca na praça mais concorrida e mandou anunciar o caso por todo o Reino.
Junto da forca estavam a chorar os dois velhos, pai e mãe de José Pequeno, e a todos fazia pena a aflição dos pobres.
Quando ele apareceu com o ''surrão'' às costas começou o povo a agitar-se e com mais desejo de enforcar a Princesa, causadora de tantas desgraças, do que deixar matar mais um inocente. O borborinho era muito e só se acalmou quando o José Pequeno subiu os degraus da forca e fez sinal de querer falar.
Assistiam os reis, a Princesa e toda a corte numa tribuna especialmente feita. Voltou-se para lá o José Pequeno e, fazendo uma vénia, tirou do ''surrão'' o primeiro par de sapatos rotos. Mal isto viu, gritou a Princesa:
— Não fales, não fales, que já me ganhaste!
— Se sabes onde são gastos os sapatos, podes descer e casar já com ela — disse o Rei.
— Senhor, não caso. Que ela tem contas com o Demónio. Tudo quero contar a este bom povo.
Começou ele então a contar o que vira e para prova mostrou os sete pares de sapatos e os raminhos de cobre, de prata e de ouro.
Quando acabou, o povo todo encheu-o de aclamações e festas e levaram-no em triunfo pela cidade, dizendo que só ele salvara o Reino de vir a ser da Princesa endemoninhada.
A Princesa então disse aos pais que ia morrer. Que lhe haviam de jurar mandá-la enterrar na igreja de São Miguel e que todas as noites iria para lá uma sentinela.
Os pais juraram e ela morreu. Fizeram-lhe grandes pompas no enterro mas só os pais a choraram.
Desde o dia em que a Princesa foi enterrada, uma sentinela ficava à porta da igreja, mas de manhã quando iam para a render apenas lá encontravam os ossos!
A gente que vivia perto dali dizia que à meia noite se ouvia um barulho infernal, as portas e janelas abriam-se e fechavam-se como se um furacão as empurrasse. Depois uma voz gritava:
— Sentinela alerta!
— Alerta está — respondia o pobre soldado.
E logo ouviam o ruído de alguém que estivesse a comer.
O terror chegou a tal ponto que não havia soldado que quisesse ir fazer guarda, senão levado à força. O povo começou a gritar e já ameaçavam de morte o Rei e a Rainha se aquilo continuasse.
Deitavam-se as sortes todas as noites e a quem calhasse, fosse ele quem fosse, não tinha remédio senão ir! Assim, pois, caiu a sorte ao José Pequeno, que já então era um conde, o maior da corte.
Tiveram todos um grande desgosto; o rapaz foi despedir-se dos pais, com grande mágoa, e à noite dirigiu-se para a igreja.
A meio do caminho encontrou uma velhinha, que lhe disse:
— Que triste vais, José Pequeno!
— Pois não terei eu razão?! Vou hoje ficar de sentinela à Princesa. Portanto, morrer como os outros. Até já me lembrou de fugir!
— Ah, isso é que não! Um homem nunca foge ao seu dever. Vai para a igreja e, ao dar a primeira badalada da meia noite, põe-te por detrás do altar-mor e, ouças o que ouvires, não saias de lá senão de manhã.
Em vista deste conselho, foi. Quando o sino deu a primeira badalada das doze horas, aquilo não foi correr, foi voar! Num instante se meteu atrás do altar-mor. Mal a última hora tinha soado levantou-se um vento terrível na igreja, as portas bateram violentamente, as lâmpadas apagaram-se, parecia que tudo se fazia em fanicos. O José Pequeno, encolhido atrás do altar, ia sempre olhando.
O que há-de ele ver no meio da igreja?! Uma nuvem branca que subia para o tecto e uma voz gritar:
— Sentinela alerta!... Sentinela alerta!...
Como o José Pequeno não respondeu, a voz, que metia horror, disse:
— Ah, maldição, que faltaram ao juramento!
O rapaz deitou a cabeça de fora e respondeu:
— Não faltaram, não, que eu aqui estou!
Depois sentiu correr na igreja, ouviu uivos e gritos; mas não iam onde ele estava, protegido pelo altar.
Quando de manhã vieram render a guarda, esperando só encontrar os ossos da sentinela, apareceu José Pequeno todo satisfeito, causando a admiração de toda a gente.
Nesse dia tornou a cair-lhe a sorte para ir fazer a guarda à Princesa.
Ficou desconsoladíssimo! Quando se dirigia para a igreja de novo encontrou a velhinha:
— Então, José Pequeno, vais hoje tão triste! Parece que ainda estás mais desanimado do que ontem!
— Desanimado vou, senhora. O caso não é para menos! Se visse a Princesa a bater os dentes com fúria, para me comer! Até me lembrei de fugir.
— Não fujas. Vai ao teu destino, que não é bom fugir-lhe. Olha, esta noite esconde-te por detrás do painel das almas e tem coragem!
José Pequeno foi e, ao dar a primeira badalada da meia noite, correu a esconder-se onde a velha tinha dito. Quando as doze horas cairam, o barulho foi tal que tudo parecia vir abaixo; depois a mesma voz gritou:
— Sentinela alerta!... Sentinela alerta!... Ah, maldição, que faltaram ao prometido!
Respondeu José Pequeno:
— Não faltaram, não, que eu aqui estou!
Mas a Princesa por mais que fizesse não lhe podia tocar, porque estava protegido por maior poder. E no fim de muito gritar e barafustar, começou a subir numa nuvem branca e desapareceu.
De manhã todos ficaram admirados vendo o José Pequeno cheio de vida, como na véspera o tinham deixado. Levaram-no em triunfo por toda a parte, fizeram-lhe grandes festas e os reis abraçaram-no cheios de alegria.
Tornaram a deitar sortes para ver quem ficaria de sentinela à Princesa e a sorte de novo caiu no rapaz.
À noite, lá foi ele muito desesperado para a igreja e, no meio do caminho, encontrou a mesma velhinha.
— Então, José Pequeno, tornas a ir para a igreja?
— Que remédio tenho eu! Hoje é que lá fico com certeza!
— Não ficarás se fizeres o que eu te disser.
— Então o que é? A senhora é que me tem valido, mas hoje não sei como será!
— Hás-de sair-te bem, não desanimes. Olha, vai buscar um jarro com água e uma toalha e esconde-te no altar de Nossa Senhora. Ainda que chamem por ti não apareças; mas, quando te pedirem água, estende o braço e deita a do jarro e, quando pedirem uma toalha, atira a que levares. Depois podes aparecer e farás o que quiseres.
O rapaz voltou ao palácio, para levar o que a velhinha tinha dito, e depois dirigiu-se à igreja.
Ao dar da meia noite foi-se pôr no sitio indicado e ouviu tal barulho que ia ficando doido de susto. Depois a voz gritou:
— Sentinela alerta!... Sentinela alerta!... Ah, maldição, que faltaram ao juramento!
Depois de muito gritar e chorar, disse a Princesa:
— Ai que sede que eu tenho!
Quando o José ouviu isto, deitou o braço de fora e entornou a água do jarro. Ouviu em baixo uma pessoa a beber e depois a lavar-se.
— Agora só queria uma toalha!
O rapaz atirou a toalha e ouviu que tremiam de frio; olhou para baixo e viu a Princesa mais bonita do que nunca e viva como a tinha conhecido.
Desceu então do esconderijo, embrulhou-a no seu próprio capote e foi sentar-se com ela nos degraus do altar-mor. Ali ficaram à espera que amanhecesse e ela daí a pouco adormeceu. Quando de manhã vieram saber do José Pequeno e o encontraram na companhia da Princesa, viva e formosa como era, foi um alarido por toda a cidade! Correram a chamar os reis — que não podiam crer em tanta felicidade!
Soube-se então que a Princesa da Áustria, nascida por parte do Diabo, nunca estivera morta e sim encantada e só por encanto ela podia fazer tanta maldade. Vencido o inimigo, ficou a menina livre e feliz.
O José Pequeno casou com ela. Foram reis daquele grande país e sempre muito bons e amados pelo povo.
[[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|A Princesa da Áustria]]
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Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O soldado
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| autor = Ana de Castro Osório
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| seção = O soldado
| anterior = [[../A Princesa Macaca/]]
| posterior = [[../Os meninos da estrela de ouro na testa/]]
| notas =
}}
'''<big>O SOLDADO</big>'''
ERA uma vez um soldado, que, tendo acabado o seu tempo de serviço, recebeu a baixa e meteu-se a caminho de volta à sua terra.
Ora o bom do soldado não tinha uma riqueza por aí além; levava apenas no bornal um pão de munição e quatro vinténs. Mas o principal bem que tinha era a alegria que não lhe faltava nunca.
Ia no seu caminho, muito contente da sua vida, quando encontrou um pobre que lhe pediu esmola.
— Eu não sou muito rico, homenzinho — disse-lhe ele — mas enfim, metade do meu pão e um vintém sempre lhe servirão de alguma coisa.
O pobre agradeceu muito e o soldado continuou o seu caminho.
Mais adiante encontrou outro pobre, ainda mais doente e velho que o primeiro. O soldado teve muita pena e deu-lhe outra metade do pão e um vintém.
Mais adiante, terceiro pobre:
— Mau! Isto já me parece história!... — resmungava ele.
Mas, como era muito bom rapaz, logo que o pobre lhe pediu, deu-lhe os dois vinténs que ainda tinha.
Agradeceu muito o pobrezinho e disse-lhe:
— Em recompensa das esmolas que me tens dado, fica sabendo que para o teu bornal irá tudo que desejares.
O soldado desatou a rir, perguntando:
— Pois quem és tu que te mostras tão generoso para os outros tendo tão pouco para ti?
— Eu sou S. Pedro, que me disfarcei nos três pobres que encontraste.
— Mas, para quê?
— Lá no Céu corre como certo que os soldados são muito maus e então vim à Terra para experimentar o primeiro.
— Vá lá que me encontraste a mim, bom S. Pedro — retorquiu a rir o soldado. — Generosos somos todos, mas eu sou um pródigo. Por isso fiquei sem nada.
— Como foste caridoso, deixa estar que nada te há-de faltar no bornal.
Mal acabou de dizer isto desapareceu o Santo, e o soldado ficou a rir imaginando que este último pobre tinha estado a fazer troça dele.
Continuou o seu caminho até que chegou a uma terra onde havia uma grande festa.
Todas as casas estavam cheias de forasteiros. Não havia um canto onde um pobre se estendesse nem um caldo que não fosse pago por bom dinheiro. Ora o soldado tinha muita fome e um tal sono que nem se podia ter em pé. Chegou à hospedaria e pediu que ao menos o deixassem estar na cozinha sentado num banco da lareira. Tiveram dó dele e deixaram-no entrar. Ele descansava as pernas, mas a fome é que não descansava.
Com o cheiro dos bons petiscos que se cozinhavam, ainda mais a fome aumentava. Mas, como não tinha dinheiro, não se atrevia a pedir nada. Lembrou-se do pobre e disse com os seus botões:
— Deixa cá ver se ele mentiu!...
Estavam umas perdizes no espeto a assar, muito louras, muito apetitosas, já prontas para serem servidas aos hóspedes ricos, e vai ele:
— Perdizes para o meu bornal!
Imediatamente, com grande espanto da cozinheira, desapareceram as perdizes. Em vista disto, ficou o soldado acreditando que na verdade estivera com S. Pedro, e já para a ceia não se contentou só com as perdizes. Viu um tabuleiro de pães e desejou um dentro do bornal. Depois uma garrafa de vinho do melhor que houvesse na adega.
Começou então a lamentar-se que tinha muito sono, que pelo amor de Deus lhe dessem um quarto, que já não podia consigo.
Tanta lamúria fez, que aborrecido de o ouvir o hospedeiro acabou por lhe dizer:
— Olhe, eu tenho aí um quarto, mas não lhe levo dinheiro por ele se você lá ficar.
— Oh, senhor!, isso é uma grande fortuna e uma grande esmola que me faz.
— Pois escusa de agradecer porque não lhe faço favor nenhum. Anda o medo no tal quarto, e alguns hóspedes que lá têm ficado aparecem mortos de manhã.
— Um soldado nunca tem medo; dê-me o senhor o quarto e o resto fica por minha conta.
Ensinaram-lhe para onde havia de ir e deram-lhe uma luz.
Fechou a porta à chave, comeu as perdizes, o pão e o vinho que encontrou dentro do bornal, deitou-se e adormeceu logo, mais feliz do que um rei.
Mas, daí a pouco, qual dormir nem qual história. Eram picadas, bofetadas, pancadaria, um tal barulho no quarto que não podia pregar olho.
Acendia a luz e nada via; logo que a apagava sentia a mesma coisa!
Por fim aborreceu-se e gritou:
— Tudo para dentro do meu bornal!
O barulho acabou, como por encanto, e ele dormiu dum sono até de manhã.
Quando saiu do quarto todos ficaram admirados e o dono da hospedaria foi-lhe perguntar se não tinha visto nada.
— Ver, não, mas ouvi um barulho infernal e senti beliscões, bofetadas e picadelas. Mas daqui em diante escusam de ter medo, porque todo o mal vai dentro do meu bornal.
Ficou o hospedeiro todo contente, abraçou o soldado, deu-lhe de almoçar e ofereceu-lhe o dinheiro que quisesse.
Dali foi o soldado a uma forja e disse ao ferreiro:
— Ponha este bornal na bigorna e dê-lhe com o malho com quanta força tiver.
O homem assim fez, descarregou o martelo umas poucas de vezes, e depois abriram o bornal e saiu de lá uma nuvem de diabos, uns com as pernas partidas, outros os braços, outros a cabeça, todos a gritar contra o soldado, que ria como um perdido.
Dali foi andando, andando, até que chegou à sua terra, e lá viveu muitos anos feliz como ninguém.
Nada lhe faltava porque tudo quanto desejava ia encontrar dentro do bornal. Mas, passado muito tempo, aborreceu-se de viver cá no Mundo e resolveu ir para o Céu.
Pegou no bornal e foi andando até que encontrou dois caminhos. Um era muito custoso de subir, cheio de pedras e espinhos. As silvas tomavam-no todo. Os que conseguiam passar ficavam com as carnes ensanguentadas, cansados e miseráveis. Era o caminho do Céu.
O outro caminho era todo florido e a descer, uma bela estrada sem pedras nem espinhos até chegar ao Inferno...
O soldado não quis saber de mais nada, andou por ali abaixo e foi bater à porta da casa do Diabo.
Abriram-lhe logo, pois há sempre lugar para os que querem entrar.
Mas o guarda-portão mal o viu gritou para dentro:
— É o soldado com o seu bornal.
Os diabos fizeram um alarido medonho e fecharam-lhe a porta na cara.
— O maroto que lhes tinha batido — gritaram — que fosse para onde quisesse, que lá no Inferno é que não entrava!
De mau humor ficou o soldado, mas enfim, não teve outro remédio senão pegar no bornal e com todo o custo subir o caminho do Céu.
Chegou à porta e bateu; abriu S. Pedro o postigo a ver quem era, e disse logo:
— Ah! tu por cá? Pois vai por onde vieste, que no Paraíso é que não entras.
O soldado, que ouvia já os cantos dos anjos e via o esplendor de mil sóis e perfumes deliciosos lhe vinham como princípio de felicidade eterna, respondeu:
— Ora essa, Senhor S. Pedro! Então eu não hei-de entrar no Céu? Que mal vos fiz eu?
— Que fizeste?! Foste primeiro ao Inferno antes de vir aqui!
— Lá isso é verdade, Senhor S. Pedro, mas para que arranjaram para cá um caminho tão mau? Foi por ver o caminho muito difícil de subir que procurei outro mais suave.
— Foste pecador e preguiçoso mesmo depois de deixar o Mundo. Não te arrependeste.
— Arrependi-me, depois. Não estou eu aqui?
— Pois sim, sim! Mas cá é que não entras!
— Então sento-me aqui fora, porque estou muito cansado.
Daí a pouco tornou a bater. S. Pedro abriu o postigo e perguntou:
— O que queres? Já te disse que te não deixo entrar cá dentro.
— Não é isso, Senhor S. Pedro. É que não tenho onde pôr o meu bornal e quero pedir-lhe o favor de mo guardar aí.
S. Pedro consentiu e recebeu o bornal pelo postigo. Mal o soldado apanhou lá dentro o bornal, disse:
— Desejo-me dentro do meu bornal!
Transpôs imediatamente a porta fechada a sete chaves e encontrou-se no Céu. S. Pedro achou-lhe muita graça, abraçou o soldado, que lá ficou para sempre na bem-aventurança.
Quando a nossa alma é boa, ainda quando os procuremos, fogem de nós os maus.
Quando praticamos o bem, ainda que um momento abandonemos o seu caminho, é possível reencontrá-lo.
O bem não morre e transforma-se em alegrias eternas para o nosso coração.
[[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|O soldado]]
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Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/O bom serviço recompensado
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{{navegar
| título = [[../]]
| autor = Ana de Castro Osório
| tradutor =
| seção = O bom serviço recompensado
| anterior = [[../O gosto dos gostos/]]
| posterior = [[../História da Princesa adormecida ou das treze fadas/]]
| notas =
}}
'''<big>O BOM SERVIÇO RECOMPENSADO</big>'''
NUMA aldeia muito pobre, lá das montanhas, havia uma viúva que tinha um filho. Viviam miseràvelmente, apenas do que a terra produzia, e o rapaz aborreceu-se de ter fome e disse para a mãe:
— Eu vou correr mundo e vossemecê espera-me com paciência, que eu, se fizer fortuna, cá a venho buscar. Se morrer, a minha mãe se resignará porque não tem outro remédio.
A viúva chorou muito e lembrou-lhe o desamparo em que ficava, mas o rapaz tinha aquela ideia tão metida na cabeça que não houve meio de o dissuadir.
Pegou no seu bordão de viagem e pôs-se a caminho. Depois de muito andar, passou por um sítio ermo e triste e viu um burro morto e de roda do cadáver um leão, uma águia, um galgo e uma formiga.
Os bichos, mal o viram, chamaram-no para lhes fazer a partilha da presa. O homem, que apesar de se inculcar rei da criação tem de alguns súbditos um medo atroz, ainda quis fugir. Mas depois pensou — também o que lhe vale é saber pensar! — que o galgo tinha boas pernas para o agarrar e o leão e a águia não são inimigos de que se possa rir. A formiga é que lhe não metia medo, apesar de também saber dar a sua mordidela bem boa.
Em vista de tais raciocínios fez das tripas coração e lá foi ter com os quatro companheiros para lhes fazer as partilhas que desejavam.
Com tal acerto se houve que os animais ficaram satisfeitíssimos — o que é raro acontecer entre os homens quando há negócios semelhantes — e todos o quiseram presentear.
O leão deu-lhe um cabelo da sua juba e disse-lhe:
— Quando te vires aflito, pega neste cabelo e dize: ''ai de mim, leão!''
A águia deu-lhe uma pena e disse também:
— Pois quando o leão te não possa valer, grita: ''ai de mim, águia!''
O galgo, dando-lhe um bocadinho do seu pêlo, disse-lhe:
— Pois quando o leão e a águia nada possam, chama por mim dizendo: ''ai de mim, galgo!'' — que eu talvez te possa servir.
E a formiga, não lhes ficando atrás em generosidade, deu uma das suas perninhas ao rapaz e disse:
— Pois quando nenhum deles te possa valer, chama: ''ai de mim, formiga!'' — e verás que eu te salvarei.
Partiu o rapaz, depois de ter agradecido aos animais, e foi andando, andando, por caminhos cada vez mais tristes e solitários, até que chegou a um palácio riquíssimo, rodeado de jardins, os mais belos, mas tão cerrados e gradeados que não era possível lá entrar. Olhou de longe para o palácio e viu assomada a uma das suas janelas uma menina, linda como os amores. Querendo vê-la de perto e mesmo chegar junto dela, se possível fosse, murmurou: ''ai de mim, águia!''
Imediatamente lhe apareceu a rainha das aves, que lhe perguntou o que queria.
— Transformar-me num pássaro e chegar junto daquela menina — respondeu ele.
— Faço-te o que pedes, porque nada há mais fácil, mas, toma bem sentido, olha que a menina é uma Princesa guardada por um Gigante, que ao nascer a roubou do palácio dum poderoso Rei, que é o seu pai. Depois de estares lá dentro, não terei poder para te livrar de qualquer perigo.
— Embora! Eu quero ver a Princesa ou morrer, pois a sua formosura me encanta.
A águia transformou-o num bonito pássaro e fugiu. Mal o rapaz se viu feito ave e com asas para voar, como se o espaço fosse todo seu, ficou muito satisfeito e num momento se pôs junto da menina, que era tão linda como as estrelas.
— Que gentil passarinho ! — disse ela para o Gigante. — Quem mo dera ter para o meter numa gaiola.
O Gigante deitou-lhe a mão e agarrou-o logo. Foi posto numa gaiola de ouro, que colocaram no quarto da Princesa.
O rapaz não se apoquentou. Quando chegou a noite disse muito baixinho: ''ai de mim, formiga!''
Apareceu-lhe logo a rainha das formigas que perguntou o que desejava.
— Sair desta prisão.
— Nada mais fácil.
E num momento o transformou em formiga, como era preciso para poder sair das apertadas grades da gaiola. Mal pôs o pé no chão, fez-se logo outra vez homem.
A Princesa, que nunca tinha visto um ser humano, começou a gritar com medo e o Gigante veio saber o que lhe acontecera. Mas o rapaz tinha-se feito formiga, e, por mais que o procurassem, não davam com ele. O Gigante foi-se embora e ele voltou à sua forma humana, dando um grande susto à Princesinha, que de novo gritou pelo Gigante.
Este veio muito aborrecido, por lhe terem quebrado o melhor do seu sono, e, tornando a correr todos os cantos, nada encontrou, porque o esperto moço voltara a ser formiga.
Terceira vez aconteceu o mesmo e o bruto do Gigante disse para a menina que a mataria se o tornasse a chamar, porque já por três vezes o tinha incomodado inùtilmente.
Foi o melhor que podia ter dito, pois o rapaz tornou à sua forma natural e pôde contar à jovem Princesa tudo o que se tinha passado.
— Eu tive medo — respondeu ela — porque era a primeira vez que via um homem. Logo que nasci, fui roubada por este Gigante que aqui me tem presa. A minha ama foi uma raposa e o meu mestre tem sido ele. Mas eu estou aqui muito aborrecida e só queria que me livrassem e me entregassem a meus pais.
— Pois se a Princesa quiser, eu matarei o Gigante — respondeu o rapaz.
— Isso não pode ser, porque ele é eterno. Só se lhe pudéssemos tirar o encanto, que anda na serra, dentro dum porco-espinho.
— Isso faço eu! — disse logo o rapaz.
— E depois de se matar o porco — continuou a Princesa — ainda sairá de dentro uma lebre, que se há-de agarrar e matar também, para de dentro dela sair uma pomba. Essa pomba porá um ovo e só com ele se poderá acabar com o terrível Gigante meu guardador.
— Bem, tudo isso é fácil.
A menina ficou animada com a coragem do rapaz e despediu-se. Este, chegando à janela, chamou a águia, transformou-se em pássaro e voou para a serra, onde o porco-espinho habitava no mais cerrado dos matos. Chegado que foi ali, clamou: ''ai de mim, leão!''
O leão veio logo e perguntou o que queria. O rapaz explicou o que desejava, e o animal, rugindo furioso, deitou-se sobre o porco-espinho, trazendo-o morto para junto do homem. Ele então abriu-o e encontrou dentro uma lebre viva que se pôs aos saltos e a correr sem destino pela serra fora. Muito apoquentado por a não poder segurar, gritou: ''ai de mim, galgo!''
O galgo apareceu como por encanto, e, num abrir e fechar de olhos, apanhou a lebre, que lhe entregou. Abriu a lebre e de dentro saiu uma pombinha, que se lhe escapou das mãos e voou pelos ares além. Clamou logo: ''ai de mim, águia!''
A águia veio, e, ouvindo o que ele desejava, transformou-o em milhafre, para ir em busca da pomba. Mas a pomba tinha voado tão longe, que a não pôde logo encontrar, e só passados três dias a viu escondida no ninho da sua companheira, que há muito a esperava em vão. Como a pomba não tivesse posto o ovo, teve que se transformar em homem e ficou por ali à espera. Ajustou-se como guardador de gado na casa dum homem que tinha três filhas. Como era muito bom e fazia óptimo serviço, o patrão queria-o casar com uma delas, para que não mais saísse de sua casa, mas o rapaz escusava-se sempre e não pensava senão na Princesa, que o esperava no palácio do Gigante.
Um dia que viu as duas pombas muito contentes, foi ao ninho e encontrou o ovo; ficou, é claro, cheio de alegria e logo chamou a águia, que o transformou em pássaro.
Chegou ao palácio, onde a menina contava as horas e os minutos na maior ansiedade, e entregou o ovo, que ela guardou com todos os cuidados. Daí, ele voltou à sua forma humana, conversaram e riram todo o dia na maior satisfação, comendo e bebendo dos melhores manjares e licores.
À noite veio o Gigante, e o rapaz, mal o sentiu, fez-se em formiga. A menina tratou muito bem o terrível carcereiro, e, quando o viu a dormir, deu-lhe com o ovo na testa — zás! Ele soltou um berro que tudo atormentou e fez tremer o palácio, e morreu.
Os dois ficaram muito contentes, e, dirigindo-se às cavalariças, escolheram dois cavalos dos melhores e partiram em direcção do País dos pais da Princesa.
Nem quiseram esperar que rompesse a manhã, tal era o temor de que o monstro ainda ressuscitasse. Sem saudade nenhuma, deixou a Princesinha o palácio maravilhoso onde fora criada, e que, apesar de todas as suas belezas e inumeráveis riquezas, nunca para ela podia ter encantos, porque era uma prisão.
Quando os pais viram chegar à corte aquela formosíssima dama, só acompanhada pelo valente moço, ficaram muito admirados, e quando se deu a conhecer e contou o que lhe tinha sucedido, além de surpresos, ficaram alegríssimos, pois não mais houvera alegria na corte desde que faltara a herdeira ao seu nome e reino.
Ela declarou quanto devia ao moço e que desejava ter por esposo o seu salvador, o que todos acharam muito louvável e natural.
O rapaz, porém, não aceitou tal honra sem que primeiro o deixassem ir buscar a mãe que miseràvelmente vivia na tal aldeiazinha das montanhas. A pobre criatura quando viu o filho cuidou morrer de alegria, e quando se viu na corte, vestida de grande dama e tratada como rainha, já lhe parecia que na vida fora habitar o céu.
A Princesa e o marido foram sempre muito felizes e ainda hoje são lembradas as suas virtudes e a sua memória venerada pelos descendentes dos seus súbditos.
[[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|O bom serviço recompensado]]
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Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/História do Príncipe Luís
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{{navegar
| título = [[../]]
| autor = Ana de Castro Osório
| tradutor =
| seção = História do Príncipe Luís
| anterior = [[../A Princesa da Áustria/]]
| posterior = [[../O Bicho-de-sete-cabeças/]]
| notas =
}}
'''<big>HISTÓRIA DO PRÍNCIPE LUÍS</big>'''
HAVIA, um Rei e uma Rainha que não tinham filhos. Sentia o Rei grande desgosto com isso, e tanto que queria desmanchar o casamento por esse motivo. A Rainha, quando o soube foi ter com a mulher dum catraeiro que morava defronte do palácio e disse-lhe que lhe entregasse o filho que esperava, pois o queria fazer passar por seu levando-o para o palácio.
E, dando muito dinheiro à mulher, tudo se combinou no mais absoluto segredo.
Passado tempo, disse a Rainha ao marido que iam ter um herdeiro. O Rei, de contente que ficou, não houve a quem não participasse a sua felicidade.
Veio o menino de casa do catraeiro e escondidamente o levaram para o quarto da Rainha, a qual, combinada com uma velha aia confidente, conseguiu enganar a todos. E — como quem mal não usa mal não cuida — o Rei amou a criança como se realmente fosse seu filho.
Fizeram grandes festas por ocasião do baptizado do herdeiro do trono, que se ficou chamando Pedro.
Pouco tempo antes tinha este Rei ido a uma caçada, perdendo-se no caminho. Andou para trás e para diante até que chegou à porta duma quinta. Como a visse aberta, entrou para descansar e ao mesmo tempo inquirir onde estava e a quem pertencia aquela propriedade tão linda.
Qual não foi a sua surpresa vendo junto duma fonte, debaixo dum chorão, uma formosa menina. Dirigiu-se-lhe com toda a delicadeza, perguntando a razão de estar ali só. Ela respondeu, contando-lhe a sua história.
Era filha dum poderoso Rei, que a mandou com uma aia para aquela quinta, longe de tudo, com proibição expressa de que a fossem ver, porque a sua sina dizia que havia de dar aos pais um grande desgosto.
Imaginava o pobre Rei furtar-se à desgraça e à dor.
Queixava-se a Princesinha de que vivia muito aborrecida, que lhe pareciam séculos os dias. Imagine-se pois como ela não estimaria a inesperada visita do amável Rei.
Contou-lhe ele também que era senhor dum grande Reino, que era poderoso e rico mas que também vivia triste. Que de nome conhecia o pai dela, e que dali ia pedi-la em casamento.
Passaram-se quatro dias na mais completa alegria e, no fim deles, despediu-se o Rei da Princesa, deixando-lhe uma caixa com o seu retrato e dentro o colar que os Reis do seu país costumavam usar nos dias de grande gala, dizendo-lhe que guardasse aquela prenda até que ele a fosse buscar, para a apresentar na corte como sua mulher.
A Princesa ficou muito triste, esperando o Rei que nunca mais voltou!
É que nesse tempo tinha a mulher feito o que dissemos, e ele, entretido com a criança que julgara seu filho, nunca mais se lembrou da pobre menina. Esta, muito desconsolada e saudosa, não fazia senão chorar a desgraça da sua triste vida. Por, mais que a aia a quisesse consolar dizendo-lhe que o Rei havia de voltar, ela já não podia ter esperança.
Passado tempo, nasceu um menino, que era a criança mais linda que se tinha visto. A aia pegou nele, vestiu-o com a maior riqueza, e, metendo-o dentro dum cestinho, foi pô-lo à porta do palácio, onde viviam os pais da Princesa.
Quando de manhã os guardas viram aquele cesto contendo uma criança, linda como os amores, foram logo a correr dar parte a Suas Majestades. O Rei, que primeiro o viu, mandou-o levar à Rainha e disse-lhe:
— Ora aqui está uma coisa que eu estimava muito ver no palácio! Se a nossa filha se não escandalizasse, ficávamos com esta criança como se fosse nossa.
Respondeu-lhe logo a Rainha: — Pois eu também o estimava e então vai tu perguntar à nossa filha a sua opinião e se ela consentir ficaremos todos bem.
Montou o Rei a cavalo e foi à quinta onde a Princesa estava escondida; depois de o cumprimentar com muito afecto, perguntou ela:
— Real Senhor, que prazer é o meu em o ver nesta casa! A que devo tal honra?
— Minha filha — respondeu o Rei — vim visitar-te, porque já tinha saudades. Esta foi a primeira razão; mas também te queria dizer, em meu nome e da Rainha tua mãe, que apareceu um menino à porta do palácio, a coisa mais bonita que se tem visto e nós desejamos adoptá-lo, se tu consentires.
A Princesa ficou muito contente por saber a criança tão bem entregue, e disse-lhe:
— Tudo o que for da vossa vontade é também da minha.
Despediu-se o velho rei deixando a filha consumida de saudades, mas descansada sobre a sorte do filho e voltou alegre ao palácio.
Imediatamente procuraram ama, fizeram um rico enxoval ao menino, e com grande festa o baptizaram, dando-lhe o nome de Luís.
Era uma criança muito bonita, muito inteligente e estudiosa de maneira que todos no palácio o adoravam e os professores não tinham nunca motivo de o castigar. Assim, quando ele chegou à idade de doze anos, o Rei, que o estremecia resolveu ir fazer uma viagem aos reinos vizinhos e levá-lo na sua companhia.
Chegaram ao palácio do Rei, que era nem mais nem menos do que o pai do príncipe Luís — segredo que ninguém no mundo sabia. E vai, perguntou ele ao velho:
— É seu filho?
— Vive comigo como tal — respondeu o Rei.
Mandou chamar o Pedro, para lhe apresentar também o seu herdeiro.
Os pequenos, que eram da mesma idade, começaram a brincar. Mas não se podia comparar a graça do pequeno Luís com a rudeza do filho do catraeiro. O Rei ficou muito agradado dele e pediu ao avô que lho deixasse ali ficar uns dias, a ver se o seu filho aprendia as maneiras dum verdadeiro Príncipe, pois tinha uma grande desconsolação de o ver tão grosseiro e ignorante, por mais mestres que lhe desse.
O velho Rei consentiu em deixar o Luís, mas sòmente quatro dias, porque tanto ele como a Rainha não podiam viver longe do seu filho adoptivo.
Ficou pois o menino que em breve era estimado por todos. Ora, andando uma vez a brincar com Pedro propôs-lhe irem simular um duelo. Dirigiram-se à sala de armas, escolheram duas espadas próprias e começaram a esgrimir.
O Pedro não sabia nada daquele exercício, apesar de ter tido os melhores professores, enquanto o Luís jogava como um mestre. Assim foi que levou de vencida o amigo e, sem querer, lhe deu uma forte pancada nas costas quando ele fugia. Desesperado voltou-se o Pedro e gritou:
— Tu não és Príncipe como eu, és um enjeitado que apareceu à porta do palácio do teu benfeitor.
Luís, que se imaginava filho dos Reis que o tinham criado, não pôde sofrer que assim o insultassem e deu-lhe uma tremenda bofetada. Ele começou a gritar de tal maneira que toda a gente do palácio correu para ali, a saber o que tinha havido. Contou o Pedro que o menino Luís lhe tinha batido. Disse este que o outro o tinha insultado e por isso lhe batera, que era um cobarde e que, se não sabia jogar a espada, se não metesse nisso.
Ficou o Rei muito desgostoso, mas, por conselho de toda a corte, disse para o menino Luís que ele o tinha desacatado na pessoa de seu filho e então que tinha de o mandar matar se, no fim de quatro dias, lhe não viesse dizer quem eram seus pais.
Em vista do que montou o menino a cavalo e foi ter com os velhos Reis contando o que lhe tinha sucedido e pedindo-lhes que lhe dissessem se eram ou não seus pais.
Os pobres velhos começaram a chorar e responderam, na maior aflição, que não só eles não eram seus pais como nem mesmo sabiam quem eles fossem.
— Então — disse o menino cheio de coragem — dê-me Vossa Majestade um cavalo e um criado, que eu vou em busca de meus pais.
Deram-lhe o que pediu, abraçaram-no cheios de desgosto, e ele pôs-se a caminho. Ia pela estrada fora, ao acaso, sem bem saber o que fizesse, quando deu de cara com uma velha muito velha, muito encarquilhada, com o cabelo branco de neve, mas airosa e elegante como uma jovem. Vestida do mais precioso brocado, levava riquíssimas joias e montava um branco palafrém, vistosamente ajaezado. Quando o Príncipe passou, disse-lhe ela:
— Onde vai o menino, tão triste?
Aborrecido, vendo-a assim tão velha de cara e tão tola com seus fatos de menina, respondeu-lhe:
— Deixe-me, que eu não estou para conversas.
— Eu bem sei onde o menino vai! — tornou a velha — vai perguntar por seus pais. Mas não saberá se eu lho não disser.
— Então diga lá!
— Se casar comigo logo lho digo.
O Príncipe deu uma gargalhada, dizendo em tom de mofa:
— Eu casava lá com uma velha tão encarquilhada, que até parece a avó da minha avó!
E, dando de esporas ao cavalo, deixou-a para trás. O criado, um bom e fiel servo que de pequenino o servia e estimava como filho, dizia-lhe:
— Menino, olhe que a vida vale muito... Case com a velha.
— Isso é que nunca! Antes morrer.
Mais adiante, ele a imaginar que a velha ficava para trás sai-lhe ela ao caminho:
— Então, menino, não quer casar comigo? Pois irá a morrer, porque só eu lhe posso descobrir este segredo.
— Ora deixe-me em paz! — respondeu muito aborrecido.
— Ai menino! Já só faltam três dias e vai a morrer!
Ele não fez caso, continuou a andar. O criado quase a chorar, suplicava:
— Menino, case com a velha, que a vida vale muito!... Lembre-se dos Reis que tão desgostosos ficaram de o ver partir! Diga que sim, menino Luís!
Mais adiante aparece de novo a velha, cada vez mais direita sobre a sela.
— Menino, olhe que todo o tempo próprio uma hora passa. Vai a morrer senão casa comigo!
Para se ver livre da perseguição, respondeu enfastiado:
— Pois sim, eu caso consigo; diga lá quem são os meus pais.
— Olhe o menino não diga que casa para depois não querer, porque onde estiver lá lhe hei-de aparecer.
E ele, consigo: — Sim, eu digo que caso e não casarei.
Mas a velha não era pessoa a quem se enganasse, e disse logo:
— Então há-de jurar, com palavra de Príncipe, cumprir o que disser.
— Príncipe? Pois eu sou Príncipe?!
— Sim, é Príncipe, e dos de melhor sangue de quantos reinam agora no Mundo. Jura casar?
— Juro!
— Então volte para trás e vá ao palácio dos Reis que o criaram. Eles são os seus avós, mas não lho diga, porque eles próprios o ignoram. Pergunte-lhes onde está a filha e vá lá ter com ela, que é essa a sua mãe.
E, chamando-o de parte, ensinou-lhe o que devia fazer e desapareceu.
Voltou o Príncipe Luís ao palácio e perguntou aos velhos Reis onde era a quinta em que morava a filha, pois queria ir despedir-se e agradecer o consentimento que ela tinha dado para o educarem no palácio. Lá lhe indicaram o caminho e partiu a todo o galope.
Chegou ao portão, que encontrou aberto, desmontou-se e foi andando até dar com uma senhora muito triste, sentada debaixo dum chorão, junto duma fonte.
Ele foi muito de manso, ajoelhou e beijou-lhe a mão, dizendo:
— Minha mãe, dê-me a sua benção.
A Princesa, sobressaltada, levantou-se.
— Sua mãe?!
— Sim! E se não me valer serei morto.
Então contou à Princesa tudo o que sabia, e ela, reconhecendo que era o filho por quem tanto tinha chorado, imediatamente lhe entregou a caixa com o retrato do Rei e o colar que lhe tinha deixado. Despediu-se o Príncipe Luís, prometendo voltar um dia cedo.
Foi dali ao palácio do velho Rei, que o tinha criado, e sabia agora ser o seu próprio avô, e disse-lhe:
— Real Senhor, já sei quem são os meus pais; e posso dizer que sou filho de um grande Rei; peço-lhe, e à Rainha, minha senhora, que venham assistir à minha defesa.
Ficaram os Reis muito contentes e, mandando logo aprontar os coches, partiram, seguidos de numerosa e brilhante comitiva, em direcção ao palácio do vizinho. Mal este os viu chegar, perguntou ao Príncipe Luís:
— Espero que venhas dizer-me quem são os teus pais, pois teria grande desgosto se fosse obrigado a mandar-te matar.
— Saiba Vossa Majestade que não posso dizer nada senão diante do Príncipe Pedro, a quem ofendi, da Rainha e da corte. Chamem o algoz, que eu estou pronto.
O Rei ficou muito triste, pois tinha simpatizado muito com o Príncipe Luís, mas não havia remédio.
O Pedro, a Rainha e toda a corte, que tinham notado esta preferência e por isso invejavam o Príncipe Luís, ficaram regozijados.
Estava o quarto, onde a execução devia ser feita, forrado de preto, o algoz de cutelo na mão, tudo a postos, quando o menino entrou e, dirigindo-se ao Rei, pediu que mandasse chamar a mulherzinha do catraeiro que vivia defronte do palácio. Ficaram muito admirados, mas foram chamar a mulherzinha porque a vontade dum condenado é sagrada. Depois voltou-se para o Rei, que devia julgá-lo e disse:
— Senhor, há treze anos existia um Rei de nobre carácter e leal coração, que foi a uma caçada e se perdeu dos companheiros. Era novo e aventuroso. Por isso, em lugar de se apoquentar com a contrariedade, foi andando alegremente até chegar a uma quinta muito afastada, onde encontrou uma jovem senhora, formosa como poucas, e Princesa também, herdeira dum grande reino. Por ordem do pai ali estava escondida, porque uma fada lhe tinha predito que daria grande desgosto aos pais.
O nobre e valoroso Rei foi recebido pela Princesa e quatro dias ali esteve com ela. Depois partiu e os juramentos e promessas que à triste e bela senhora tinha feito não lhe tornaram a lembrar. Nunca mais procurou saber o que tinha sido feito da gentil menina, tendo jurado, à fé de cavaleiro, que a viria buscar em poucos dias, apenas os precisos para ir ao seu reino buscar carruagens e comitiva. Para prova da verdade lhe deixou o seu retrato e o colar que nos dias de gala era posto sobre a púrpura do seu manto real.
Calou-se o Príncipe, e o Rei, muito ansiado, perguntou:
— Mas que tens tu com esse deslembrado Príncipe?
— Senhor, esse foi o meu pai. A desgraçada que, há treze anos, chora todas lágrimas da sua alma, essa é a minha mãe.
O Rei correu para ele e abraçou-o a chorar, chamando-o filho. Todos estavam admiradíssimos com aquela cena, porque eram coisas que ninguém sabia senão os dois. Chamou o Príncipe Pedro para abraçar o irmão, mas o Príncipe Luís disse:
— Abraçar o abraço eu, porque lhe não tenho raiva, mas não o chamarei irmão, porque não o é!
— Não é, ora essa!
— Não é. Pergunte ali à mulher do catraeiro de quem ele é filho.
A mulher não queria dizer nada, mas com a ameaça que o Rei fez de a mandar pôr a ferros contou tudo o que nós sabemos. A Rainha, presa do mais violento ataque de fúria, fugiu e o Rei, tão escandalizado ficou de ter sido enganado, que imediatamente a mandou sair do seu reino para nunca mais lá entrar.
Depois foi com o Príncipe Luís beijar a mão aos velhos Reis, pais da Princesa, e, pedindo-lhes perdão das suas culpas, logo combinaram ir à quinta buscá-la para ela ficar Rainha.
Pedro, o filho do catraeiro, vendo que não era Príncipe como imaginava, não quis continuar no palácio; foi para casa de seus pais que muito o amaram, e na sua humilde e honesta posição foi sempre muito ditoso, tornando-se o maior amigo do Príncipe Luís.
<div style="text-align: center; line-height: 1.1; margin: 1.5em 0;">
*<br>
* *
</div>
Quando a Princesa viu chegar à quinta os coches onde iam os pais, o filho e o Rei, sentiu uma alegria tão grande que a tiveram muito tempo por morta. Depois veio a si, e na maior satisfação se dirigiram todos à capital.
Estavam na capela, e o patriarca pronto a deitar a bênção a toda a corte presente, quando sentiram um grande barulho de carruagens e viram entrar uma senhora riquìssimamente vestida e muito elegante de corpo, mas tão rugosa e encarquilhada na cara que a todos causava riso.
Dirigiu-se ao Príncipe Luís e disse-lhe:
— Aqui me tens para cumprires a tua palavra.
Perguntaram todos o que queria aquilo dizer, e ele contou como tinha sido e disse a promessa que fizera de casar com aquela dama, que o tinha livrado da morte e ensinado a conhecer os seus pais. Todos disseram que a palavra dum homem honrado não volta atrás e então que devia casar. O Príncipe não estava lá muito contente, mas, não havendo outro remédio, ali mesmo se fez o casamento.
Passaram-se oito dias e o Príncipe Luís muito desconsolado com a noiva, nem para ela olhava nem lhe falava. Uma noite estava a dormir e ouve um ruído tão grande que todo o palácio estremeceu. Acordou sobressaltado e ouviu a voz da esposa que lhe dizia:
— Não te assustes! Dize qual queres: mulher bonita para a toda a gente ver, ou feia para os outros e bonita só para ti?
— Quero bonita só para mim.
— Então acende a luz.
O Príncipe fez o que ela disse e ficou maravilhado com a sua beleza.
— Aqui me tens — disse ela — tal qual eu sou, pois um encanto mau, e só ele, me tornou feia e velha.
O Príncipe ficou contentíssimo e loucamente apaixonado pela formosa esposa.
De dia ficava ela outra vez com a cara encarquilhada, mas disso já o Príncipe se não importava, pois sabia que era assim só para os outros.
Quando os viam, muito alegres, andarem sempre juntos, todos se admiravam do mau gosto do Príncipe, e ele ria-se com os seus botões. Assim se passaram oito dias.
Uma noite, tinha o Príncipe Luís adormecido, ouviu outra vez um grande barulho e disse-lhe a Princesa:
— Não te assustes! Dize qual queres: mulher bonita para toda a gente ver, ou feia para os outros e bonita só para ti?
— Já disse que te prefiro bonita só para mim!
— Agradeço-te, que por tua palavra me quebraste o mau encanto. Aqui tens mulher bonita para os outros e bonita para ti. Menina de quinze anos, filha do mais poderoso monarca do Mundo, senhora de sete Impérios, só tu me soubeste desencantar. Sete fadas me fadaram ao nascer para ter a cara de velha que tu viste, enquanto um nobre Príncipe me não quisesse desposar. Ora isso bem vês que seria impossível se não fosse a minha madrinha, a fada de melhor coração que existe, que me disse os segredos da tua vida. Assim, posso agora ser a mulher mais feliz que há na terra.
— E eu também — disse o Príncipe — me considero o mais feliz dos homens.
Ao outro dia, quando o Príncipe apareceu com a jovem e lindíssima esposa pela mão, todos ficaram extasiados, porque real mente nunca tinham visto uma tão linda cara.
Mandaram logo portadores para prevenir o pai da Princesa, fizeram-se grandes festejos em acção de graças e foram estes os Príncipes mais felizes do Mundo inteiro.
Seja Deus louvado, está o conto acabado.
[[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|História do Príncipe Luís]]
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Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/A menina curiosa ou a luta do bem e do mal
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{{navegar
| título = [[../]]
| autor = Ana de Castro Osório
| tradutor =
| seção = A menina curiosa ou a luta do bem e do mal
| anterior = [[../História da Princesa adormecida ou das treze fadas/]]
| posterior =
| notas =
}}
'''<big>A MENINA CURIOSA OU A LUTA DO BEM E DO MAL</big>'''
UM bom homem, que era casado e vivia muito satisfeito com a mulher, foi um dia para o seu campo trabalhar.
No meio da estrada encontrou uma galinha a lutar com uma enorme cobra, que se enroscava e sibilava cercando a adversária, de modo que difícil lhe seria escapar.
O homem, que isto viu, deu com o cajado uma formidável pancada na cobra. Instantâneamente ela se transformou numa rata pelada.
A galinha transformou-se numa senhora ricamente vestida, coroada de rosas e com uma pequenina vara na mão direita, e agradecendo ao homem o auxílio que lhe dera, disse:
— Eu sou o Génio do Bem, e aquela que a tua pancada transformou em rata pelada é o Génio do Mal. Porque me auxiliaste nesta luta, a que me provocou, pede o que quiseres, que tudo te farei.
— Só desejo que meu filho, ou filha, que está para nascer fique sob a vossa protecção, Senhora e Génio do Bem.
— Há-de ser uma menina formosa como a luz do dia, prendada e...
— Muito curiosa... — atalhou a rata pelada, ansiando por fazer mal e vingar-se do homem.
A boa fada tocou-lhe com a varinha, impossibilitando-a de falar para não fazer maior mal.
Depois continuou para o homem:
— Tem de ser curiosa a tua pobre filha, porque não tenho poder para anular completamente o mal feito pela minha mortal inimiga. Sei que ficas desgostoso, apesar da tua filha vir a ser bela entre as mais belas, alegre, elegante, muito esperta e sabedora. Porque não há mais danoso vício que esse da curiosidade. Mas a sentença está dada e só me é permitido modificá-la favoràvelmente. Agarra nessa maldita rata pelada e mete-a em lugar seguro de que tenhas a chave. Tem toda a cautela para que tua filha nunca a veja. Porque a menina terá três épocas perigosas na sua vida: aos doze, aos quinze e aos dezoito anos. Passada que seja essa idade estará livre, se ao menos uma vez se puder vencer. E tem esperança, que eu nunca abandono os que se entregam à minha protecção.
Desapareceu a fada e o homem agarrou na rata, levou-a para casa e mandou fazer um cofre de ferro onde a fechou, trazendo a chave sempre consigo.
Poucos dias depois nasceu uma menina linda como tudo que há de mais lindo. Cresceu, e com ela a formosura, a graça e a inteligência. Mas também o seu defeito crescia. Cada vez se tornava mais curiosa a ponto de toda a gente embirrar com ela. Não podia ver nada fechado que não fosse abrir; não se podia falar que não quisesse saber o que se dizia; não havia coisa que não espreitasse.
Os pais tinham um desgosto enorme com isso e muitas vezes dizia o homem para a mulher:
— Prouvera a Deus que eu não tivesse encontrado nunca os dois Génios, pois antes queria a nossa filha menos bonita e esperta, mas sem o defeito horrendo que tem!
Quando a pequena chegou à idade de compreender, proibiu-a de jamais tocar na caixa de ferro que tinha no seu quarto. Tanto bastou para ela andar nos ares e não dormir nem descansar, sempre com a maldita caixa no pensamento. Mas porque seu pai não largava nunca a chave, nada podia fazer.
No dia em que a menina fazia doze anos, o homenzinho esqueceu-se da chave sobre a mesa do quarto. Ela, que por ali andava sempre a rondar, descobriu-a logo.
Doida de contente por poder satisfazer a sua curiosidade, correu para a caixa e abriu-a. Salta de lá a rata pelada que avançou para a morder. A menina pegou numa vassoura para lhe bater, mas a vassoura transformou-se em pão e leite e a rata fugiu pela porta fora.
Cheia de remorso pelo que tinha feito, a pobre criança correu atrás da rata para ver se a apanhava. Seguiu por caminhos que nunca tinha visto, cheios de pedras e de mato bravo. Tanto andou, tanto andou, que caiu quase morta de cansaço no meio dum descampado.
Vendo-se naquele abandono e sem saber para onde ir nem que fazer, pôs-se a chorar a sua triste sorte. Tanto chorou que adormeceu. E tão profundamente foi que não deu por uma grande tropeada que faziam os cavalos dum Príncipe e sua comitiva, que de volta de caçar ali passavam.
O Príncipe, vendo uma criança tão bela adormecida naquele descampado, ficou admiradíssimo. Apeou-se e com ele todos os cavaleiros, e, acordando a menina, perguntou-lhe o que estava fazendo ali.
Respondeu-lhe a criança que se tinha perdido e que não sabia voltar para casa.
— Bem, irá para o nosso palácio — disse o Príncipe, ordenando a um dos criados que escolhesse o cavalo mais manso e dele seguisse ao lado, não fosse a menina cair.
Quando chegaram ao palácio entregou-a à Rainha, que ficou contente, pois tanto ela como o Rei tinham tido sempre desgosto de não terem uma menina.
Vestiram-na como Princesa, e em todas as festas a apresentavam como filha. Disseram-lhe que andasse por todo o palácio e fizesse de conta que tudo era seu. Só não fosse nunca a uma sala do rés-do-chão que tinham sempre fechada.
Não foi preciso mais nada para a menina ficar morta de curiosidade e andar sempre a espreitar a ocasião de ver o que lhe escondiam.
No dia em que fazia quinze anos, e por esse motivo havia grande festa no palácio, esqueceram-se de fechar a janela. A curiosa logo se chegou para espreitar. A primeira coisa que viu foi uma romã muito bonita. Ao deitar-lhe a mão a romã caiu e na queda arrastou muitos vidros que se partiram e fizeram uma grande traquinada.
Cheia de vergonha fugiu pelos jardins, saiu da cerca e andou, andou, até que já quase noite deparou com uma casita de campo onde vivia uma boa velhinha.
Bateu e pediu agasalho. A velha, que a viu vestida como uma Princesa, perguntou-lhe quem era, porque decerto era de grande família e fácil lhe seria encontrar os pais.
— Ai não, minha amiga! — respondeu a menina entre soluços. — Eu não quero voltar para onde estava e onde tão bem me tratavam. Pelo contrário, o que desejo é vestir-me com um fato de camponesa e esconder-me aqui. Não me ponha fora, minha senhora, que eu farei de sua criada.
— Não aporei fora, querida filha, há-de ficar aqui como em sua casa.
Daí começaram a viver em grande sossego e alegria, ajudando-se uma à outra nos arranjos caseiros, passeando a menina pelos campos nas horas vagas, pensando e estudando muito.
Todos os dias se ia sentar defronte da porta debaixo duma grande árvore, e ali estava a costurar e a ler.
Nunca houve mãe e filha que tão felizes fossem e que mais tranquilas vivessem.
Passou-se tempo, e no dia em que a menina fazia dezoito anos a velhinha levantou-se muito cedo, varreu, limpou e arrumou tudo, como se esperasse visitas, e deu à menina um bonito cofre de vidro, mas com a recomendação de só o abrir depois do meio-dia.
A menina agradeceu muito e pegando no cofrezinho foi para debaixo da sua árvore predilecta esperar que desse a hora marcada para o abrir.
Cheia de curiosidade, a sua vontade era ver o que continha. Mas já por duas vezes tinha sofrido tanto por seguir os conselhos da sua triste paixão, que se coibia.
Olhava para o pequenino cofre e pensava:
— Talvez que ninguém me visse nem acontecesse mal nenhum... E se eu levantasse um bocadinho só da tampa!?... Oh, mas também eu pensava que não fazia mal ver a caixa de ferro que meu pai lá tinha, e dela é que saiu a rata pelada, origem das minhas desventuras. Também eu imaginava que não fazia mal ver o que estava na sala do palácio, e por não me saber vencer é que tive de fugir de quem me tratava tão bem. Não e não, desta vez não hás-de vencer, curiosidade maldita!
Neste propósito desviava os olhos do cofre e contava as horas com ansiedade.
Quase ao meio-dia apareceu um bezouro a zumbir em volta dela e só lhe parecia ouvi-lo dizer que abrisse o cofre!
— Não tenhas medo da velha, que nada pode! Abre o cofre e verás jóias preciosas, riquezas sem par, coisas mais lindas do que viste no palácio do Rei!...
A menina, apesar de todo o desejo de satisfazer a curiosidade que a atormentava, resistiu sempre. Então o bezouro foi com toda a força cair sobre o cofre, que se fez em pedaços; ela soltou um grito de angústia, mas ao mesmo tempo dava o relógio meio-dia.
Com grande espanto seu começaram a sair do cofrezinho despedaçado muitas damas e cavaleiros, carruagens, coches, criados, enfim, toda a comitiva do Rei, da Rainha e do Príncipe, que andavam à sua procura. Juntamente veio o pai e a mãe, que se tinham reunido aos reis, pois havia seis anos que dia e noite a procuravam sem descanso.
Apareceu a velhinha transformada numa bela senhora, que lhes disse:
— Aqui está a vossa filha, livre enfim do poder do Génio do Mal! Venceu o vício que a tornava desgraçada e agora a podeis levar com toda a confiança.
O Príncipe pediu logo aos pais que os deixassem casar, o que eles consentiram com alegria.
Casaram, e porque se venceu, protegida pela Fada e Génio do Bem, a menina foi sempre feliz e espalhou a felicidade em seu redor.
[[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|A menina curiosa ou a luta do bem e do mal]]
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Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/História maravilhosa do Príncipe Urso Doce de Laranja
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{{navegar
| título = [[../]]
| autor = Ana de Castro Osório
| tradutor =
| seção = História maravilhosa do Príncipe Urso Doce de Laranja
| anterior = [[../O Bicho-de-sete-cabeças/]]
| posterior = [[../O homem de pedra/]]
| notas =
}}
'''<big>HISTÓRIA MARAVILHOSA DO PRÍNCIPE URSO DOCE DE LARANJA</big>'''
HAVIA uma vez um Rei e uma Rainha, que tinham três filhas. O Rei todos os anos costumava fazer uma viagem e, quando saía, perguntava sempre às duas filhas mais velhas que prenda queriam que lhes trouxesse, mas sempre se esquecia de perguntar à Princesinha mais nova.
Ora a mãe tinha com isto grande desgosto. Uma vez que ele estava para seguir viagem, a Rainha queixou-se amargamente de tal proceder.
Respondeu-lhe o Rei: — Tem-me esquecido, mas vou agora perguntar-lhe o que quer, pois não tem sido propósito.
Chamaram a Infanta e o Rei interrogou-a sobre o que desejava que lhe trouxesse.
— Real Senhor, estou admirada por me perguntar uma coisa que nunca me perguntou! Eu não desejo prenda nenhuma.
— Não; hás-de querer forçosamente alguma coisa, ainda que seja pouco.
— Pois então, se Vossa Majestade ordena, eu só desejo um ''ramo de flores sem flores''.
O Rei despediu-se de todos e partiu para a sua viagem, mas, por mais que procurasse, ninguém lhe sabia dizer onde encontrar a prenda que a filha mais nova pedira.
De volta para o seu Reino ia por uma estrada fora, seguido do seu pagem, e já sem esperança de encontrar o que buscava, quando viu uma coisa que em extremo o admirou. Era uma carruagem de ouro, puxada por dois bois também de ouro e dentro um homem com pele e cabeça de urso.
— Que tens, bom Rei, que vais tão agoniado? — perguntou.
— O que hei-de ter?! A primeira coisa que a minha filha mais nova me pediu não lha posso levar.
— Então o que é?
— É ''um ramo de flores sem flores''.
— Isso sei eu onde existe. Olha, vai andando até encontrar um muro; salta para dentro, que é um jardim; lá encontrarás o que procuras.
O Rei assim fez. Foi andando até se lhe deparar o muro e ordenou ao pagem que lhe segurasse o cavalo, enquanto ele saltava dentro. Qual não foi a sua admiração, vendo a mais completa e formosa colecção de flores de todos os países e climas, e, no meio, uma grande e frondosa árvore com o ''ramo de flores sem flores'' — a coisa mais delicada e linda que jamais tinha aparecido aos seus olhos.
Deitou-lhe a mão e já lhe chamava sua, quando surgiu debaixo da terra um Gigante, um monstro muito feio, dizendo em voz irada que céus e terra fez tremer:
— Há! ladrão! quem te deu ordem para vires tirar a flor mais preciosa do meu jardim?!
O rei, mais pequeno que um feijão frade, respondeu cheio de medo:
— Sr. Gigante, perdoe o meu atrevimento. Se entrei neste jardim foi porque encontrei um urso dentro dum carro de ouro e ele me disse que só aqui podia encontrar o que a minha filha me pediu. Mas, visto que faz falta, aqui tem o seu ramo.
— Não! Já agora que está cortado, podes levá-lo, mas com a condição de me trazeres a dona, no prazo de oito dias. Se isto não fizeres tudo será arrazado no teu reino.
O Rei não teve remédio senão prometer que trazia a filha. Foi dali muito triste, tão triste que a Rainha o notou logo e disse:
— Real Senhor, qual a causa da vossa tristeza? Dir-se-á que é desgosto por trazerdes a prenda à nossa filha mais nova.
— Por causa dela é o meu desgosto, mas não por lhe trazer a prenda — e contou-lhe o acontecido.
Depois chamaram as Princesas, deram-lhes os presentes e, quando elas se retiraram, disse a Rainha para o marido:
— Não se rale Vossa Majestade com isso. Temos ali a rapariga que guarda os patos, que é muito bonita; manda-se lavar, vestir e preparar e V. Majestade leva-a ao Gigante, como se fosse a nossa filha.
— E se ele conhece?
— Não conhece, que eu ensino-lhe bem o recado.
Combinado isto, mandaram vestir a rapariga com as ricas vestes da Infanta, cobriram-na de jóias, e a Rainha recomendou-lhe:
— Olha que tu vais casar com um rei e então não digas que andavas a guardar patos. Hás-de dizer que eras Princesa e passavas o tempo a bordar a sedas.
A rapariga, estava por tudo quanto quisessem, contanto que a não tornassem a mandar para os patos.
A Princesa mais nova tudo via, mas nada dizia, nem parecia notar.
Passados os oito dias, meteu-se o Rei com a rapariga numa carruagem e dirigiram-se para o jardim do Gigante.
— Bom — disse este — o que te valeu foi não faltares; deixa a Princesa e podes ir.
Foi o que o Rei quis ouvir. Meteu-se na carruagem e tratou de se ir embora, antes que o Gigante desse pelo engano. Pegou o Gigante na mão da falsa Princesa e levou-a ao palácio onde habitava, que era o mais rico e bonito que se pode imaginar.
Numa sala luxuosamente mobilada estavam três Princesas a trabalhar. Uma costurava com dedal de ouro e agulha de prata, numa túnica de seda leve. Outra bordava ao bastidor uma tapeçaria onde figuravam cavaleiros e fadas. A terceira fiava numa roca de ouro a lã branca como a neve.
Mal o Gigante entrou com a rapariga pela mão, levantaram-se as três damas e delicadamente a cumprimentaram, mas a pobre e ignorante guardadora de patos nem corresponder sabia ao amável acolhimento. Disse-lhes o Gigante:
— Manas, aqui vos trago a Princesa; comei, bebei e conversai com ela; levai-a ao jardim e perguntai-lhe se está melhor aqui, se em casa do Rei seu pai.
Responderam as três senhoras:
— Ai! mano, que ela não é Princesa. Nem sabe cumprimentar.
— Vamos a ver!
Levaram-na para a sala de jantar, deram-lhe os mais saborosos manjares e os mais delicados vinhos e licores e depois foram para outra sala onde as três tocaram no cravo e cantaram as modas do tempo, pedindo à rapariga que fizesse o mesmo.
Ela, que nunca vira coisa semelhante, disse-lhes que não sabia. Foram para o jardim e perguntaram-lhe:
— Princesa, onde melhor: aqui ou em casa do Rei seu pai?
— Aqui; porque vejo coisas bonitas, que nunca tinha visto, e as Senhoras são muito boas para mim. Lá só via os patos que andava a guardar.
As três olharam umas para as outras e, quando à noite veio o Urso — pois ele e o Gigante eram a mesma pessoa — logo lhe disseram:
— Então, mano, que lhe dizíamos nós? O Rei esteve a mangar consigo, porque ela é guardadora de patos e não uma Princesa.
— Amanhã o ensinarei. Tratem bem a rapariga, deem-lhe as joias e dinheiro que ela quiser, que amanhã voltará para a sua terra.
No outro dia apareceu logo de manhã feito urso, meteu-se com a fingida princesa no carro de ouro e dirigiu-se para o palácio do Rei.
O pagem, que já o conhecia, mal o avistou, foi a correr ao palácio.
— Real Senhor, lá vem o Urso no carro de ouro e traz a guardadora de patos consigo.
— Ai que estamos perdidos! — gritaram todos no palácio.
Mas o Urso ainda daquela vez não resolvera fazer mal. Entregou a rapariga ao Rei, dizendo:
— Como as Princesas não costumam guardar patos não me serve esta que me levaste. Aqui a tens e, daqui a oito dias, ou me levas a tua filha mais nova ou tudo será arrazado neste Reino.
Foi-se embora, deixando o Rei muito contrariado.
A rapariga é que logo tratou de comprar um palácio e, com o dinheiro que trouxera de casa do Urso, em breve se tornou uma grande dama.
Foi a Rainha ter com o Rei e disse-lhe:
— Real Senhor, não se amofine! A pequena que anda a guardar perus é mais bonita e mais esperta que a dos patos. Bem vestida e arranjada, pode passar por nossa filha.
Combinado isto, trataram de a preparar e de lhe ensinar o recado, para melhor fingir de Princesa.
Como da primeira vez, foi o Rei com ela a casa do Urso, que lhe apareceu feito Gigante, numa carruagem de gala.
— Aqui está a minha filha!
— Vê lá se me enganas!
— Não engano! Esta é a verdadeira.
— Então podes ir-te embora.
E, pegando na mão da rapariga, levou-a aonde as irmãs se encontravam, dizendo:
— Manas, esta é que é a Princesa.
Mas, como a guardadora de perus não fosse mais civilizada do que a dos patos, logo as três Senhoras se olharam e disseram baixo: — É tão Princesa como a primeira.
Levaram-na para a mesa e ela nem sabia pegar no talher, nem comer como senhora. Pediram-lhe que tocasse no cravo e respondeu que não tinha nunca visto tal coisa. Foram para o jardim, andaram passeando e no fim perguntaram-lhe se gostava mais de ali estar, se em casa do Rei seu pai.
— Aqui é que eu estou bem, porque só vejo coisas lindas e as Senhoras são muito boas para mim; lá a minha vida era cozer ortigas para os perus.
À noite veio o Gigante saber o que se tinha passado e as irmãs disseram-lhe:
— Ai! mano, que o Rei anda a enganá-lo! A outra era guardadora de patos, esta guardava perus.
— Não importa! Deem à rapariga o que ela quiser, que amanhã lá vou arrazar-lhe o palácio e tudo que pertença a esse homem sem palavra.
Mal alvoreceu, transformou-se em Urso, e, mandando vestir a guardadora de perus, meteu-se com ela no carro de ouro e dirigiu-se para o palácio do Rei.
Os criados, que já estavam de vigia, quando o avistaram, correram à sala do trono onde o Rei presidia ao conselho e gritaram:
— Senhor, Senhor, estamos perdidos, que lá vem o Urso no carro de ouro!
Ainda o Rei apertava as mãos à cabeça, a Rainha chorava e os cortesãos procuravam meio de fugir e já o Urso surgia à porta, gritando:
— Homem sem palavra, venho arrazar o teu palácio, e tudo que te pertence será destruído, porque me tens enganado!
Mas não acabou, que a Princesa mais nova, inocente causa de tudo, apareceu ao cimo da escadaria de mármore, já vestida e preparada para partir. Arrastando nobremente a cauda dos seus vestidos de brocado e segurando nas brancas mãos, cheias de anéis, o ramo de ''flores sem flores'', disse para o Urso, com o melhor dos seus sorrisos:
— Senhor, não fareis tal, que eu sou a Princesa que desejais e convosco vou de boa vontade.
Despediu-se da mãe, que muito e muito a estimava, do pai, das irmãs e de toda a gente da sua casa — que de todos era querida pela sua muita bondade e delicadeza.
O Urso apeou-se e, depois de cavalheirosamente ajudar a jovem senhora a subir para o carro de ouro, voltou-se para o Rei e disse-lhe:
— Não o merecias, mas por causa dela serás feliz na guerra e na paz.
Depois subiu também e partiram.
Quando chegaram ao seu palácio, pegou na mão da Princesa e levou-a até junto das irmãs:
— Manas, esta é que é a verdadeira noiva que eu esperava. Comei e bebei com ela e perguntai-lhe onde gosta mais de viver se aqui, se no palácio do seu pai.
O Urso foi-se embora e as três damas logo se levantaram e receberam a Princesa com toda a cortezia, a que ela correspondeu devidamente. Sentaram-se à mesa e tão encantadas ficaram com as suas maneiras distintas e conversa interessante, que nenhuma dúvida lhes restava de que fosse uma verdadeira senhora.
Sentaram-se ao cravo, cada uma por sua vez; tocaram e cantaram pedindo à menina que fizesse outro tanto, ao que ela acedeu graciosamente, sem se fazer rogada.
Tocou e cantou de tal maneira que as três Senhoras não se cansavam de a elogiar.
Foram passear ao jardim e perguntaram-lhe então se gostava mais de estar ali, se em casa do Rei seu pai.
— Princesas, aqui estou muito bem e esplêndidamente acompanhada. O vosso palácio é muito rico e bonito, sei que me não faltará nada, mas lá sempre estava no que é meu.
— Oh! não se apoquente, Princesa! Que mais lhe pertencerá esta do que a casa da sua família.
À noite levaram-na para uma câmara elegantíssima, onde nada faltava do que uma senhora precisa e deseja nos seus aposentos. Ajudaram-na a despir e a meter na cama e retiraram-se.
Fora, estava o Príncipe Urso Doce de Laranja — que este era o seu nome, mas que de urso nada tinha agora, antes se apresentava como formoso cavaleiro.
Perguntou logo: — Então, manas, que dizeis?
— Esta sim, esta é uma verdadeira Princesa!
E logo lhe contaram o que se tinha passado, com o que ficou muito contente.
Ao outro dia disseram elas à menina que tinha de casar com o Príncipe Urso, para que tudo ali lhe pertencesse.
Vestiram-na e levaram-na à capela do palácio, mas taparam-lhe os olhos, porque o Príncipe não podia ser visto pela noiva. Assim, casou como o mais lindo homem do seu tempo, imaginando que casava com um feio urso. Depois, só lhe aparecia, quando as luzes já estavam apagadas, de maneira que já tinha três meninas e ainda não conhecia o marido.
Um dia, andando a passear com as cunhadas pelo jardim, disse:
— Ora também nunca vejo o meu Urso! Eu gostava tanto de o ver!
Imediatamente lhe apareceu o Urso e tão feio era que ficou sobressaltada. Mas fingiu que não e fez-lhe muitas festas, com o que ele ficou todo satisfeito.
— Agora hás-de dizer-me como te chamas, porque ainda não sei o teu nome — dizia a Princesa.
— Chamo-me Príncipe Urso Doce de Laranja, senhor dum grande reino, que tu um dia hás-de ver.
— E como se hão-de chamar as nossas três filhas, que ainda não têm nome?
— Hão-de chamar-se Fé, Esperança e Caridade.
Daí em diante todos os dias se reuniam ali. A Princesa cada vez tratava melhor o marido e eram muito amigos. Uma vez disse-lhe ela:
— Deita a cabeça aqui no meu regaço e descansa.
Enquanto dormia, passava-lhe as mãos pelas costas, a fazer-lhe festas, e sentiu debaixo dos dedos como que uma abotoadura. Desabotoou quatro botões e viu o corpo branco do Príncipe. Ficou muito contente com a descoberta e daí para diante julgou-se a mais feliz das mulheres.
Um dia, estando ambos no jardim, principiou o Urso a abrir a boca como se estivesse a rir com muita vontade, e ela, intrigada, perguntou-lhe:
— O que tens, meu Príncipe que tanto riso te causa?
— Mal sabes tu porque me rio.
— Dize o que é, para também eu me rir.
— Não digo, que tu podes fugir-me.
— Não fujo, não, que eu gosto muito de ti.
— Pois então fica sabendo que é a tua irmã mais velha que se casa.
— Não me deixas ir à festa?
— Não, porque vais contar o que por cá vês.
— Ah! isso não faria eu! Juro que não farei tal.
— Vê lá o que dizes! Levo-te lá com as nossas filhas, mas com a condição de te levantares ao primeiro assobio que ouvires, estejas onde estiveres. Ao segundo despedes-te da tua família e ao terceiro hás-de já estar dentro do nosso coche.
A Princesa prometeu fazer o que ele mandasse e logo se foi preparar e às três filhas, a mais velha das quais tinha sete anos, a segunda seis e a terceira cinco.
Quando os criados do palácio viram chegar o carro de ouro, foram a correr dizer ao Rei e à Rainha que ali vinha o Urso e com ele a Princesa e as três filhas, lindas como três estrelas.
Parou o carro, a Princesa apeou-se com as filhas e mandou-as cumprimentar os avós e as tias.
A Rainha, que estimava muito aquela filha, recebeu as meninas com grande afecto; agora o Rei, todo zangado, disse:
— Minhas netas as filhas dum bicho, isso nunca!
— Sim, meu pai! Minhas filhas e do Urso que me faz a mais feliz das mulheres, porque me adora como eu não mereço!
O Rei não teve remédio senão calar-se e a filha assistiu ao casamento da irmã, a quem deu muitos e valiosos presentes.
Passadas as festas ouviu um grande assobio e imediatamente se pôs em pé, ao segundo despediu-se e ao terceiro estava com as três filhas dentro do carro de ouro onde o Urso as esperava.
Partiram para o palácio e continuaram a viver muito contentes como até aí.
Passado tempo, tornavam a estar no jardim e viu ela o Urso a rir. Perguntou-lhe logo:
— Que tens, meu Príncipe, que te faz rir?
— Não digo, por me podes fugir.
— Dize, que eu gosto muito de ti; não fujo.
— É a tua segunda irmã que se vai casar.
— Deixas-me lá ir?
— Não deixo, porque vais contar o que por cá se passa.
— Não conto nada, juro!
— Então vamos.
Meteram-se no carro de ouro puxado pelos bois de ouro e dirigiram-se para o palácio do Rei.
Mal os avistaram ao longe, correu toda a família a recebê-los e a Rainha disse para a filha que estimava que também o marido entrasse. Ele aceitou o convite e, descendo da carruagem, apresentou-se com toda a nobreza entre os mais cavaleiros da corte.
Quando veio a noite, disse a Rainha à filha que pedisse ao marido para ali passarem três dias. Foi-lhe pedir ele disse que sim;
ficaram. Depois, foi ainda a Rainha ter com ela e disse-lhe:
— Tu hás-de dizer-me uma coisa, dizes?
— Se puder, direi, porque muito lhe devo e a estimo, minha senhora mãe.
— Pois se tu és minha amiga, hás-de dizer-me se teu marido é um bicho ou se é um homem que anda encantado.
A Princesa não queria dizer, mas a mãe tanto pediu, tanto pediu, que ela sempre caíu na tolice de contar que era um homem e a criatura mais perfeita do Mundo.
— Pois então, quando ele estiver a dormir, tu hás-de abrir-me a porta do quarto para eu o ver.
À noite, quando o Príncipe Urso Doce de Laranja estava dormindo, chamou ela a mãe, que entrou com uma luz e viu que ele era na verdade o homem mais perfeito de quantos conhecia.
E depois, vendo aos pés da cama a pele que ele tinha despido, deitou-lhe fogo. Imediatamente se sentiu um grande tremor em todo o palácio e o Príncipe, acordando sobressaltado, viu a sogra e a mulher e disse-lhes:
— Ai! desgraçadas que me dobraram o encanto por mais sete anos!
E, voltando-se para a esposa, acrescentou:
— Agora, se me quiseres ver, hás-de ir procurar-me ao palácio das Janelas Verdes, e só voltas a ser minha mulher, quando tirares da manga desta camisa estes três pingos de sangue.
Dizendo isto, desapareceu, deixando a Rainha arrependida do que fizera.
Chorou muito a boa Princesa, mas convenceu-se por fim de que as lágrimas só lhe acarretavam lágrimas e mais nenhum remédio traziam à tristeza do seu abandono.
Então, despediu-se dos pais e irmãs e acompanhada pela filhas, seguida pela saudade dos que ficavam, partiu em busca do seu Príncipe encantado.
Andaram por muitos países, percorreram muitas cidades e em toda a parte lhe diziam não terem nunca ouvido falar no Príncipe Urso Doce de Laranja nem no seu palácio das Janelas Verdes.
Até que um dia se meteram por uma estrada deserta e andaram, andaram, por charneca raza, sem sombra de árvore nem frescura de fonte que as confortasse.
Só lá para o fim da tarde viram ao longe uma choupana pobre e para lá se dirigiram. À porta estava uma velhinha a quem a Princesa disse:
— Minha Senhora, por quem é dê-nos abrigo por esta noite! Pela estrada deserta é hoje a primeira pessoa que encontramos e não podemos ir mais longe, que nos falecem as forças e temos medo de que algum animal bravio nos devore.
— Entrai, entrai, que a porta do pobre é sempre aberta ao pobre; assim o fosse às vezes a do rico!...
Fê-las entrar, acendeu lume, deu-lhes água para se lavarem e cozinhou a ceia do melhor que tinha. Depois fez duas camas, ficando a menina mais velha com ela e as duas com a mãe.
De manhã almoçaram e depois do almoço começou a velha a amolar uma grande faca, dizendo para a pobre mãe:
— Qual queres tu, que eu te mate, ou dares-mes a tua Fé?
— Isso nem se pergunta, antes quero morrer.
Mas as meninas começaram a chorar que não queriam que a sua mãe morresse, e, como a velha parecia incapaz de tratar mal a criança, ela disse:
— Pois já que assim o quereis, que fique a minha Fé. Paciência! Por minha culpa perdi o pai e por castigo perco agora a minha rica filha!
Chorava que cortava o coração.
— Não! Tem fé que a não perdes — disse a velha — Ainda hás-de ser feliz. Atrás de tempo, tempo vem. Toma esta castanha, mas não a abras senão quando te vires em aflição.
Despediu-se da filha, cheia de mágoa, e, com a merenda que a velha lhe forneceu para todo o dia, pôs-se a caminho com as outras duas meninas mais novas.
Depois de muito andar, e quando já quase não podiam mais, vendo que a noite se avizinhava, dirigiram-se para uma choupana exactamente igual à que primeiro encontraram. Lá lhes apareceu uma velha em tudo semelhante à outra e que as recebeu com o mesmo agrado.
Mas de manhã também, depois de ter dormido com a menina Esperança, disse para a Princesa que a ia matar, se lhe não deixasse aquela filha.
E, como da primeira vez, a mãe queria morrer, mas as filhas não o consentiram e teve que deixar a segunda menina entregue à segunda velha. Chorando muito, dizia:
— Ai! triste de mim, que tão miserável me vejo! Já tive pais e irmãs, boas cunhadas que me queriam como do seu sangue, um esposo que me adorava e filhas que eram a inveja de todos! Agora, que só elas me restavam, também mas vêm roubar e deixam-me mais só e triste, que uma casa em ruinas.
E a velha, chorando de pena, deu-lhe uma bolota, consolando-a:
— Tem esperança, que sempre o sol vem depois da tempestade! Aqui tens este presente, mas só o hás-de abrir quando te vires na maior aflição.
Depois de receber farnel para a viagem, partiu com a filha mais nova.
Andaram sem descanço todo o dia e, quando o sol ia já a declinar e elas quase se não podiam mexer, viram ao longe uma cabana em tudo igual às duas primeiras e uma velha também como as outras.
Disse a Princesa para a menina:
— Minha filha, não vejo neste campo deserto senão aquela choupana igual às duas onde as tuas irmãs ficaram. Se lá vamos pedir agasalho, roubam-te; se aqui ficamos, seremos devoradas pelas feras!
— Minha senhora mãe — respondeu a Caridade, que era de todas a mais esperta e também aquela que a mãe mais estimava — cada qual deve ir ao seu destino. Se o meu é de ficar com outra velha, como as minhas irmãs, a ele me hei-de sujeitar. E o seu, minha mãe, é de procurar desencantar meu pai no palácio das Janelas Verdes.
Levada por tão boas razões, foi a Princesa pedir abrigo para essa noite e tudo se passou como das outras vezes. De manhã, quando a velha estava afiando a faca, disse-lhe a menina:
— Não se canse, minha Senhora, que eu não quero que a minha mãesinha morra e então de boa vontade fico na sua companhia.
Despediu-se a Princesa, mas eram tantas as lágrimas e lamentações que mais parecia que a filha morrera.
A velha consolou-a e deu-lhe uma laranja, dizendo:
— Descança, que o bom tempo há-de voltar e então darás por bem empregadas as lágrimas que tens chorado para alcançar a felicidade. Aqui tens esta laranja, mas só a podes abrir, quando te vires na maior aflição.
Sozinha e triste foi andando até chegar a uma grande cidade entre laranjais, e vendo um palácio com janelas verdes para lá se dirigiu. Logo à entrada estava um grande tanque onde muitas lavadeiras lavavam e palravam como é seu costume. E disse uma:
— Parece incrível! Há sete anos a lavar esta camisa do Príncipe e ainda não fui capaz de lhe tirar os três pingos de sangue que tem nesta manga!
Respondeu a Princesa, que vinha vestida de peregrina:
— Deixe-me lavar a mim, a ver se eu sou mais feliz!
— Como é esperta! Eu há sete anos ainda não consegui e ela ainda agora chega e já quer fazer tudo.
— Dá-lha lá — disseram as outras lavadeiras — vamos a ver o que faz.
Mal que a Princesa meteu a camisa na água, logo desapareceram os três pingos de sangue. A lavadeira quando viu isto, começou a chamá-la feiticeira e deu-lhe tantas pancadas que a Princesa já estava toda coberta de sangue.
Como as outras lavadeiras fizeram grande motim a ralhar àquela atrevida que em cima de receber um favor ainda tratava mal quem a servia, chegaram à janela três aias e chamaram a peregrina. Trataram-na muito bem, deram-lhe água para se lavar e fato para se vestir e ela no fim perguntou a quem pertencia aquele palácio.
— A senhora vem então de muito longe, para não saber que este é o palácio das Janelas Verdes, residência do mais formoso, rico e sábio soberano do mundo, o Príncipe Urso Doce de Laranja. Hoje acaba o seu encanto e amanhã é o casamento com a Princesa nossa ama. Para isso viemos com o maior séquito que tem atravessado as estradas deste reino.
— Ai de mim! — disse a peregrina — que em grande aflição me vejo!
Abriu a castanha e saíu de dentro um cãosinho de ouro com os olhos feitos de carbúnculos e a língua dum rubi e todo o pelo de brilhantes e topázios. Saltando para o chão começou a correr e a ladrar atrás das aias, coisa que muito as divertiu. Disse a mais velha:
— Ó peregrina não me vende essa prenda?
— Não vendo, não, minha senhora; dou-lha se arranjar meio de eu estar a sós com o seu senhor.
Combinaram as aias deitar dormideiras no vinho que ele bebia e meter a peregrina no quarto do Príncipe.
À noite, quando ele dormia a bom dormir, chamaram-na e fizeram-na entrar para a câmara. Ela, chorando, dizia:
— Príncipe Urso Doce de Laranja, tu não me queres ouvir? Olha que por tua causa ando há sete anos a peregrinar; por tua causa perdi as nossas filhas e levei pancadas da lavadeira, quando tirei da manga da tua camisa os três pingos de sangue!...
Chorou e gritou toda a noite, mas o Príncipe não se mexeu. Quando as aias a vieram buscar, estava ela ainda mais triste.
Abrindo a bolota, saíu de dentro um cavalinho branco feito dum só brilhante, a coisa mais perfeita e graciosa que se tinha visto. Relinchava, corria, andava a passo, tal qual um animal verdadeiro.
A segunda aia consentiu em meter a peregrina no quarto do Príncipe para ela lhe dar tão preciosa prenda. Mas também, como a outra, deitou dormideiras no vinho, de maneira que a Princesa chorou e gritou toda a noite sem conseguir acordar o marido.
No dia seguinte, vendo que não conseguira nada, abriu a laranja e saiu de dentro um papagaio feito de esmeraldas, a coisa mais formosa que jamais se imaginara. Começou a gritar e a dizer: Papagaio real, papagaio real, o Rei vai casar!
A aia ficou louca ao ver coisa tão bela e, para a obter, prometeu meter a peregrina essa noite no quarto do Príncipe.
Ora no palácio estavam três alfaiates fazendo três maravilhosas capas, para o Príncipe vestir no dia do casamento. Os artistas trabalhavam de dia e de noite sem descansar e, como ouviram as lamentações daquelas duas noites contaram tudo ao Príncipe.
— É ela — pensou — É ela que enfim chegou para acabar com o meu encantamento!
E, dizendo aos alfaiates, que se não apoquentassem, mas que não repetissem a ninguém o que tinham ouvido, fingiu nada saber. À noite, em lugar de beber o vinho, deitou-o fora, disfarçadamente. Depois meteu-se na cama e pôs-se a ressonar para imaginarem que dormia a sono solto.
Vieram as aias abrir a porta à Princesa e foram-se embora. Começou ela a chamá-lo e a contar as suas tristezas e desgraças e,
no fim de tudo ouvir, ele abriu os olhos e abraçaram-se cheios de alegria.
Então também ele lhe contou que era ali o seu reino, que no dia seguinte acabava o encanto de que o tinham salvo as irmãs, por terem aprendido para fadas, mas que havia de casar forçosamente, senão ficava outra vez encantado. Por isso, na incerteza se ela chegaria ou não, viera aquela Princesa que era muito boa e não ficaria zangada, quando tudo soubesse; pois ele só queria agora a sua mulher, a mãe das suas filhas, que chegariam também.
Saíu do quarto e fechou-o à chave.
Quando as aias vieram, deram com o nariz na porta e disseram umas para as outras:
— Olhai, já cá não está! Bem dizia a lavadeira que ela era uma bruxa!
O Príncipe mandou dizer à noiva que se não podia realizar nesse dia o casamento, por as capas não estarem prontas, mas que dava um grande jantar.
No fim do banquete disse ele:
— Senhores, quero fazer-lhes uma pergunta. Na minha mocidade fiz uma chave de ouro. Nela trabalhei com amor durante sete anos. Um dia, por fatalidade, perdi-a e depois, desconsolado, mandei fazer uma de prata: Hoje apareceu-me a de ouro. Qual hei-de preferir?
Respondeu-lhe a Princesa:
— Real Senhor, a chave de ouro é que é a verdadeira.
— Obrigado, Senhora, farei como dizeis!
Levantando-se, foi buscar a mulher e, trazendo-a pela mão, apresentou-a a toda a corte, ficando todos muito agradados dela, porque na verdade não havia quem lhe ganhasse em simpatia e bondade.
Nisto apareceram as três velhas e disse ela para o marido: — As nossas meninas não vêm com quem as deixei! Então é que morreram!...
— Nenhum mal lhes aconteceu — responderam as velhas. Batendo com as varinhas de condão, logo surgiram da terra as três meninas, Fé, Esperança e Caridade, feitas em pedra.
— Manas — disse para as velhas o Príncipe Urso Doce de Laranja — entreguei-lhes as nossas filhas com vida e com vida as quero, outra vez.
— Sim — respondeu a mais velha — em carne nos foram entregues e em pedra as transformámos para melhor as guardar.
Endireitaram-se e, de velhas que pareciam ser, ficaram outra vez as belas damas que a Princesa conhecera e estimava como irmãs. Depois tocaram com as varinhas nas estátuas e logo as meninas ficaram vivas e saltaram ao pescoço do pai e da mãe cheias de alvoroço.
Mandaram então emissários ao reino da Princesa contar o que se tinha passado e todos, mas principalmente a Rainha, ficaram contentíssimos, por poderem tornar a abraçar aqueles que julgavam perdidos.
A lavadeira, arrependida, fugiu e ninguém mais a viu.
Acabados todos os maus encantos foi o Príncipe Urso Doce de Laranja o mais feliz dos Príncipes — que nem sempre é a gente mais feliz — e assim terminou a sua história maravilhosa.
[[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|História maravilhosa do Príncipe Urso Doce de Laranja]]
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Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa/A Princesa Macaca
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'''<big>A PRINCESA MACACA</big>'''
HAVIA num opulento país, lá para as bandas do Oriente, um Rei e uma Rainha, já velhos, que tinham três filhos.
O mais velho chamava-se Rubi, porque seus olhos se incendiavam de cólera à menor contrariedade. O segundo era Esmeraldino, porque verdes como a inveja eram os seus olhos falsos. O terceiro chamava-se Diamante, porque a sua alma era pura como o brilhar dessa pedra preciosa.
Eram os três moços príncipes guapos cavaleiros, instruídos e corajosos, mas o mais novo sobrelevava aos irmãos em tudo e por isso merecia o afecto da corte e do povo, que já por vezes tinham reclamado ao Rei o declarasse herdeiro do trono.
Também os velhos monarcas estimavam muito esse filho, que, ao contrário dos outros príncipes e cavaleiros da sua idade, passava o tempo a estudar os velhos livros da biblioteca e a conversar com sábios e artistas que de todo o mundo corriam a honrá-lo pela fama de sabedoria que universalmente gozava. E não o impediam os estudos sérios de ser um galante cavaleiro e trovador e de nos serões do paço encantar as damas com a graça do seu espírito, nem também de ser a sua espada das mais gloriosas entre as dos mais valentes do seu tempo.
Os pais, que o amavam sobre todas as coisas, a ninguém queriam mostrar tal preferência para que os príncipes Rubi e Esmeraldino, que já se enraiveciam com a maior simpatia que o irmão gozava entre os súbditos dos pais, não se despeitassem a ponto de causarem alguma desgraça.
Temendo levantamentos e revoltas, que depois da sua morte devastassem aquele país tão rico e florescente, o velho Rei mandou um dia reunir na sua corte os mais nobres e ricos homens do reino, os sapientes prelados e os mais conscienciosos representantes do povo, para que todos dissessem qual devia ser o herdeiro do trono. A uma só voz todos gritaram que o Príncipe Diamante é que devia ser o futuro Rei.
— Não façamos barulho — disse o soberano — nem aos príncipes meus filhos se dará parte do resultado deste Conselho, que eu vou mandá-los viajar por um ano, e aquele que me trouxer o cão mais bonito esse é que herderá a coroa.
Todos aprovaram a ideia do Rei e ele chamou os três príncipes e deu-lhes parte do que se tinha resolvido. Os dois mais velhos ficaram satisfeitos por irem correr mundo e assim poderem satisfazer os seus génios aventureiros. O mais novo ficou triste porque levaria muitas saudades dos pais e dos seus amigos e pouca consolação teria com a vista de novas regiões e costumes, que tudo ele já conhecia dos livros.
Chegou o dia marcado para a partida, e os três irmãos, despedindo-se dos pais e da corte que das janelas do paço assistiam à despedida, montaram os seus vigorosos e bonitos cavalos de viagem e partiram a galope. Assim foram seguindo juntos, até que ao cair da tarde depararam com três caminhos que se cruzavam. Disse então o Príncipe Rubi:
— Irmãos, cada um de nós seguirá por caminho diferente, e de hoje a um ano aqui estaremos para entrarmos juntos na capital.
Despediram-se e cada qual seguiu o seu destino. Rubi, que foi pela direita, encontrou-se, já alta noite, à porta da casa dum pobre pescador. Bateu e pediu agasalho, e, como visse que a filha do dono da casa era muito bonita, tratou logo de encetar conversa e contar ao que vinha, já com pouca vontade de sair dali. A filha do pescador, que não tinha nada de estúpida, disse-lhe:
— Meu Príncipe, triste coisa é andar a correr mundo sem ter ao menos a companhia de um pagem para o tratar! O melhor é Vossa Alteza ficar connosco.
— De vontade ficaria eu, se não fosse ter de procurar um bom cão de raça para levar ao Rei meu pai.
— Nós temos uma cadela de água muito bonita; em tendo um filho cria-se com todo o cuidado e Vossa Alteza o levará ao Rei.
O Príncipe achou boa a ideia e por ali ficou.
Esmeraldino, que fora pela estrada do centro, foi andando, andando, até que chegou a casa dum moleiro. Bateu à porta, disse quem era e pediu agasalho por essa noite. Também o moleiro tinha uma única filha, que era bonita deveras. A farinha que a empoava ainda mais formosa a fazia e não a deixava queimar do sol nem crestar com as ventanias do norte. Ficou o Príncipe ali todo encantado, e, para passar o tempo, contou ao que vinha. Disse-lhe a moleirita:
— Então Vossa Alteza há-de ir assim por esse mundo de Cristo, exposto a mil perigos? Melhor seria aqui ficar connosco.
— Bem ficaria, se não fosse ter de procurar a prenda que meu pai deseja.
— Ora! Isso não o deve apoquentar, porque a nossa cadela de caça vai ter um cachorrinho que vamos criar com todo o cuidado e Vossa Alteza o levará a seu pai.
O Príncipe deu razão à rapariga e por ali ficou também.
Diamante, o mais novo dos irmãos, que tinha ido pela esquerda, andou por um caminho muito pedregoso e triste onde não via sombra de coisa viva. Assim passou a noite e o dia seguinte e ainda outra noite, até que ao fim do terceiro dia em que já estava desanimado e dizia para consigo: — Senhor, que caminho será este e para onde me levará, tão cheio de pedras, tão esquecido de Deus e dos homens? — avistou ao longe uma luzinha a brilhar.
Mais animado, para ali dirigiu os passos do pobre cavalo, que mal podia andar. Ao cabo de algum tempo deparou com as portas duma grande quinta, abertas de par em par. Como não tinha onde se metesse, não esteve com cerimónias, entrou e viu uma lindíssima rua de árvores seculares iguais a outras que formavam uma bela mata. Depois deu com jardins esplêndidos, e no fim, todo iluminado como para sumptuosa festa, um enorme palácio, melhor que todos os que ele até aí tinha habitado e até visto nos livros.
Muito intrigado perguntava a si mesmo que região, que país seria aquele que tinha atravessado e onde se encontrava, e de que os seus mapas não davam conta?!
Resolveu-se a entrar e a pedir pousada, visto que ninguém aparecia por ali que o atendesse. Apeou-se, amarrou o seu cavalo a uma coluna de mármore do pátio e subiu as largas escadarias que eram uma verdadeira maravilha.
Não fazia senão admirar os quadros, as estátuas, as tapeçarias riquíssimas que ornavam aquela habitação, e, percorrendo muitas salas, cada qual mais bela, chegou à casa de jantar. Muito surpreendido ficou quando abriu o reposteiro e viu a mesa posta com todo o luxo mas só com um talher. Porque estava cheio de fome e o apetitoso cheiro dos manjares ainda mais lha aumentava, sentou-se e começou a servir-se, dizendo:
— Se vier alguém contarei o que me sucedeu e não terão coragem para se zangar comigo.
Ele que pensava isto, quando uma porta do fundo se abriu, e viu com a maior surpresa uma dama ricamente vestida, com uma coroa de pérolas e brilhantes na cabeça, mas com um horrendo focinho de macaca. Atrás seguiam dois pagens a segurar-lhe na cauda do manto, e muitas damas e cavaleiros, mas todos com a mesma cara de macacos.
Diamante estava profundamente surpreendido, mas não o deu a perceber, como é de boa educação. Levantou-se logo, fez à Princesa Macaca a mais respeitosa reverência, e pediu desculpa do seu atrevimento.
— Não tem que pedir desculpa, meu Príncipe — respondeu-lhe com a mais suave das falas. — Já era esperado neste palácio e por isso todos nós estamos em festa. Queira desculpar de o não ter mandado receber pelos meus homens de armas, pagens, músicos, cavaleiros e nobres senhores que me servem, mas tive receio de o assustar, visto que todos são semelhantes a mim.
O Príncipe Diamante ainda uma vez se conservou agradecido a tanta gentileza e deu a mão à Princesa Macaca para a conduzir à mesa.
Logo uma nuvem de criados fardados veio servir o hóspede. Quando acabou a refeição, a que a dona da casa assistia sem comer nada, levantou-se e disse para o Príncipe, que a imitara:
— Agora vou mostrar-lhe os seus aposentos e amanhã conversaremos, porque hoje o que precisa é descansar.
O moço cavaleiro estava cada vez mais admirado pela ordem, riqueza e beleza de tudo quanto via. Ao lado da câmara, que lhe era destinada, e estava preparada como se ali o esperassem, mostrou-lhe a Princesa Macaca a livraria mais rica que jamais tinha visto.
— Como Vossa Alteza estima muito estes fiéis companheiros, escolhi o seu quarto próximo deles. Também aqui tenho alguns sábios que muito honrados ficarão se os chamar para continuarem os seus estudos.
Diamante agradecia tudo e quando se viu só não fazia senão dizer consigo:
— Mas aonde estarei eu, que país de macacos será este que não conhecia?
Como não podia resolver tal problema, adormeceu, e já a manhã ia alta quando acordou. Mal tocou na campainha apareceram-lhe três criados macacos carregados com água, perfumes e riquíssimos trajes de corte para o vestirem.
Foi almoçar e a Princesa Macaca apareceu, com o cortejo do costume, pagens a segurarem-lhe a cauda, damas e cavaleiros vestidos com a maior novidade e luxo. Ela sentou-se à mesa a fazer companhia ao hóspede, conversando com inteligência e espírito e mostrando possuir a mais fina educação e ser instruída como raramente se encontra entre mulheres. O Príncipe caminhava de surpresa em surpresa e dizia consigo: — Senhor, a Macaca é muito feia, mas eu estou aqui tão bem que nada me lembra.
Os divertimentos que a Princesa Macaca imaginava para distrair o seu hóspede eram tantos que ele nem tinha tempo de pensar que decorria o tempo. Teatros, corridas, caçadas, saraus, concertos, nada ali faltava.
Uma noite, quando o Príncipe Diamante ceava, entrou a Princesa Macaca muito triste, levando o lenço aos olhos a cada momento.
— O que tem, minha senhora — perguntou ele aflito — que assim a apoquenta? Tem razão de estar aborrecida porque eu vim para passar uma noite e já cá estou há uns poucos de dias!
— Oh, Príncipe, não diga tal! Eu estou pesarosa porque amanhã faz um ano que chegou aqui e eu terei que o ver partir!
— O que há-de ser de mim, senhora? Pois se é certo que estou aqui há um ano, onde poderei agora ir procurar a prenda para meu pai?! E o meu pobre cavalo, que será feito dele, que nunca mais me lembrou?!
— Descanse, que ele foi bem tratado e amanhã o verá. Enquanto à prenda, não pense nisso, que eu já pensei. O que lhe peço é que não se esqueça de mim.
— Como havia de esquecer-me de quem me tratou tão bem, que até me pareceram alguns dias o ano que passei neste palácio!
— Pois aqui voltará, meu Príncipe, e não será tarde. Amanhã meta a mão debaixo do travesseiro que lá encontrará a prenda para seu pai, mas não a veja senão depois de a entregar.
Ao outro dia, ao acordar, meteu o Príncipe a mão debaixo do travesseiro e encontrou uma condessinha muito pequenina. Sem saber o que continha, a guardou na bolsa.
A Princesa Macaca já o esperava na sala. Depois do almoço, o Príncipe, acompanhado de toda a macacada, seguiu até ao fim da quinta, e, despedindo-se de todos com grande mágoa, partiu.
Quando chegou à encruzilhada viu que seus irmãos traziam dois enormes cães presos por correntes e pensou: — Meus irmãos trazem dois belos cães e eu que levarei aqui?! Seja o que Deus quiser, que eu nenhum empenho faço em herdar o cetro.
Os outros dois olharam um para o outro e disseram com muita satisfação: — Olha o nosso irmão não traz nada! É tão esperto e não soube procurar nada para nosso pai!
Mal chegaram defronte do palácio, onde tudo já estava a postos para os receber, começaram todos a dar vivas ao Príncipe mais novo, mas o Rei mandou calar tudo, porque só no dia seguinte as prendas seriam apresentadas.
Os três irmãos apearam-se no pátio e correram a abraçar os pais, passando aquela noite na maior alegria para todos.
Ao outro dia já o Conselho estava reunido quando os príncipes foram chamados e com eles entrou toda a corte e abriram as janelas para o povo saber do que se tratava.
— Meus filhos, entregai as vossas prendas — disse o Rei, com solenidade — e por elas se julgará qual virá a ser o Rei.
Adiantou-se o Príncipe Rubi e entregou um bonito cão de água, dizendo com soberba:
— Esta, senhor, é a prenda que vos trago.
— É bom para guardar o jardim — respondeu o Rei.
Veio Esmeraldino e entregou com orgulho o formoso cão de caça que a filha do moleiro tinha criado com todos os cuidados.
— É muito bom para quando formos montear — respondeu o Rei.
Por fim adiantou-se o terceiro, e, com um ar de modéstia que lhe ficava muito bem, disse:
— Entrego-vos esta condessinha para Vossa Majestade mandar abrir.
O Rei levantou a tampa e disse:
— Filho, dentro só está uma noz.
— Meu pai, faça Vossa Majestade o favor de a mandar partir.
Partiram a noz e saltou de dentro una cãozinho de ouro, a coisa mais graciosa e linda que se tinha visto.
Tinha um cadeado ao pescoço que dizia: — Para a Rainha — ladrava como se fosse de carne e a correr se foi meter na manga do vestido da sua dona.
Quando a corte viu esta preciosidade começaram todos a gritar:
— Viva o Príncipe Diamante, que há-de ser o nosso Rei! Viva, que ele é quem ganhou!
O Rei, vendo que Rubi já espumava de cólera e Esmeraldino parecia meditar alguma traição, disse em alta voz:
— Calai-vos, senhores, que meus filhos ainda têm que ir fazer outra jornada de um ano. Não se ganha o trono assim com essa facilidade.
Quando tinham passado alguns dias e os julgou descansados, chamou-os e deu-lhes parte que os mandava viajar por outro ano e daria o trono depois àquele que lhe trouxesse uma peça de linho mais fino.
Os dois príncipes mais velhos ficaram satisfeitos por verem adiada a eleição e também por poderem ir ter com as raparigas de quem gostavam, mas Diamante, apesar de muito estimar a Princesa Macaca, ia triste por deixar os pais.
Mal chegaram à encruzilhada despediram-se e o mais velho partiu como um raio em direcção à casa do pescador. Abriram-lhe logo a porta com toda a alegria, e, quando ele contou ao que vinha, respondeu a rapariga:
— Ora! Não vá correr mundo por tão pouco. Eu tenho ali uma porção de linho. Vou já principiar a fiá-lo e depois de tecido se fará a peça que Sua Majestade deseja.
Aquele por ali ficou.
O segundo chegou a casa do moleiro, foi recebido com a mesma alegria, e, quando disse o que pretendia, logo a rapariga lhe respondeu:
— Não vale a pena Vossa Alteza correr riscos e perigos por uma coisa que eu poderia fazer. Tenho ali estopa para fiar. Vou amanhã pô-la na roca e depois de tecida ninguém dirá senão que é fina bretanha.
Esmeraldino, que nada entendia dessas coisas e o que desejava era ali ficar, aceitou logo a proposta.
Diamante seguiu o caminho já conhecido até chegar junto da sua querida Princesa Macaca.
Se no primeiro ano as festas e os divertimentos eram muitos, no segundo então não se fala! E assim passou o tempo sem o jovem Príncipe se lembrar sequer de deixar aquele palácio. Quando ao fim do ano lhe apareceu a Princesa Macaca toda chorosa e repetiu o que no ano precedente tinha dito, ele todo aflito, por ver que tinha terminado o prazo, disse:
— O que há-de dizer meu pai quando lá lhe aparecer sem prenda alguma?!
— Enquanto a isso não se apoquente, que onde achou a primeira achará a segunda.
De manhã, quando acordou, meteu a mão debaixo do travesseiro e apenas encontrou uma avelã. Pegou naquilo e guardou muito guardado, apesar de lhe parecer uma coisa muito insignificante. Depois foi a despedida, que ainda foi mais cordeal e saudosa que no ano precedente. Quando deu o último adeus à Princesa Macaca, ela disse-lhe com tristeza:
— Espero que não se esqueça de mim e tenho fé que voltará breve.
Quando os três irmãos se avistaram, disse o mais novo consigo: — Que grandes peças de panos que meus irmãos levam. E eu, quem sabe o que levarei aqui?!...
E os mais velhos, todos satisfeitos, disseram um para o outro: — Então o nosso irmão não trará nada? Pois nós levamos boas peças de pano.
Mal chegaram em frente do palácio, onde toda a gente os esperava, levantou-se grande brado a vitoriar o Príncipe Diamante, mas o Rei mandou calar tudo e só no dia seguinte foram apresentadas as prendas.
Rubi entregou a sua peça de pano de linho, e o pai disse-lhe:
— É boa para panos da dispensa.
Esmeraldino entregou a peça de estopa, e o Rei disse:
— Sim, é boa para panos de cozinha.
E voltando-se para Diamante:
— Meu filho, a prenda que te pedi?
— Aqui vos entrego, real senhor, esta avelã. Peço o favor de a mandar partir.
— Filho, dentro da avelã está um agulheiro!
Abriu o agulheiro e saiu de dentro uma agulha com uma peça de linho enrolada enfiada pelo fundo. Começou a desenrolar-se e um metro a medir pano sem conto, a coisa mais fina e delicada que até aí se tinha visto no Mundo. Só mãos de fadas em seus países sobrenaturais poderiam ter fiado e tecido esse pano mais fino que teia de aranha e consistente bastante para se poder fazer toda a obra.
Ora!, toda a gente se entusiasmou com tal beleza e levantou-se logo um grande alarido a vitoriar o moço Príncipe.
Então falou a Rainha assim, vendo a raiva dos dois irmãos Rubi e Esmeraldino:
— As prendas mais bonitas têm sido as do nosso filho Diamante, mas isso não basta para que se lhe deixe o trono. É preciso que voltem todos três a viajar e que no fim de um ano tragam cada um a sua noiva. Aquele que escolher mulher mais formosa e instruída, esse será o nosso herdeiro.
Daí a dias tornaram os príncipes a aprontar-se para a viagem. Os dois mais velhos iam muito contentes por terem ainda mais alguma esperança e também por tornarem o poder passar um ano com as filhas do moleiro e do pescador, e elas mais contentes ainda ficaram quando souberam que ao fim desse ano seriam feitas princesas.
Diamante ia muito triste a pensar: — Que vou eu fazer à minha vida? Os meus irmãos têm noivas pobres, mas são boas raparigas e bonitas, eu nada tenho que possa apresentar a minha mãe! Só conheço a Princesa Macaca e é dela que gosto, porque só na sua companhia o tempo me corre agora ditoso, mas como hei-de eu levar para a corte uma macaca? Toda a gente se riria dela e isso é que eu não quero. O que tenho a fazer é ir cumprimentar a minha querida Macaca e partir em busca de esposa.
Neste propósito se dirigiu ao palácio, onde tudo o esperava em festa, e breve se esqueceu da sua preocupação, porque as festas, as leituras e as conversas com a dona da casa, tudo parecia melhor e mais interessante do que nos outros anos. O Príncipe dava-se perfeitamente com aquele povo de macacos, que só na sua cara o eram, pois em tudo mais eram homens e senhoras com a mais perfeita educação e inteligência.
Assim se passou um ano sem ele dar por isso. Quando chegou a véspera da partida veio a Princesa Macaca carregada de luto, chorando, e igualmente toda a sua corte. Perguntou o hóspede qual a causa de tanta aflição.
— É que faz amanhã um ano após a vossa volta aqui e tendes que vos ir embora.
— Ai, o que há-de ser de mim que não procurei noiva para levar a minha mãe! O que há-de ela dizer?
— Se não levardes noiva é porque não quereis. Levai-me a mim.
— Então eu hei-de aparecer lá com a senhora?!
— Os seus irmãos levam as suas namoradas e Vossa Alteza por que não me levará a mim?!
— Não, não, isso não farei! Sou muito seu amigo, e então fico na sua companhia, mas levá-la não levo.
— Muito obrigada, mas não posso aqui tê-lo mais. Ou me há-de levar ou então tem que partir e nunca mais nos veremos.
E nisto se pôs a Princesa Macaca a chorar tão aflitivamente que mais não pôde resistir o Príncipe e disse-lhe:
— Pois então levá-la-ei! Tudo, menos perder uma tão boa e querida companhia.
Ficaram cheios de contentamento a Princesa Macaca e toda a sua corte! Foi a noite de maior alegria de todas quantas o Príncipe Diamante ali tinha passado. De ver a Princesa Macaca tão feliz estava ele também tão satisfeito que dava por bem empregado tudo quanto depois sofresse.
Ao outro dia de manhã quando acordou já viu toda a macacaria a postos, e notou com mágoa que a dona da casa, que costumava sempre andar riquìssimamente vestida, tinha escolhido um trajo o mais ridículo e feio que se pode imaginar. A carruagem que os esperava não parecia senão que na sua vida nunca tinha visto água e dum feitio tão antigo e feio que o rapaz ficou desanimado. A comitiva era enorme, mas tudo tão grotesco que ele não sabia que pensar. Mas, como era cavaleiro e tinha dado a sua palavra, não fez nenhuma observação à noiva que tão alegre parecia.
Quando chegaram à encruzilhada e foram avistados pelos irmãos, começaram eles a gritar em ar de mofa:
— Olha o Príncipe Diamante que traz uma macaca para casar! Descobriu o reino dos macacos e quer ser o Rei deles.
As raparigas riam também e apontavam para o carro com trejeitos de trocistas.
O Príncipe curtia consigo a mágoa e fingia nada ouvir, conversando com a noiva. Ela, por mais que ouvisse, não deixava de rir, e dizia para o noivo:
— Então não me acha muito bonita e bem vestida? O nosso carro é o mais rico que há no Mundo, os nossos cavalos são da mais pura raça, os criados têm uma farda brilhante, e as minhas damas vão dar brado na sua corte pela formosura, assim como os cavaleiros pela sua opulência, graça e alta educação.
E o Príncipe Diamante cada vez se entristecia mais julgando que a noiva estava maluca, pois nunca a vira tão mal vestida e feia. O carro parecia desconjuntar-se de velhice e estava todo cheio de lama e rasgões no estofo. Os cavalos só pareciam servir para pôr aos varais de alguma carroça. Os cocheiros sujos e rotos, as damas e os cavaleiros não passavam de ridículas caricaturas.
Assim foram andando até chegar em frente do palácio onde os irmãos mais velhos tinham chegado já e contavam com grande troça como vinha o irmão. Mal o avistaram ao longe chamaram os pais e todos da corte correram à janela.
Nisto, os cavalos dão uma galopada, e num abrir e fechar de olhos tudo se transformou! A Princesa Macaca apareceu a mais linda mulher do Mundo e tão ricamente vestida que o resplendor das jóias quase cegava. Uma varinha que trazia na mão transformou-se num cetro feito dum rubi e na cabeça uma coroa imperial brilhava como um sol. Os criados, pagens, cavaleiros e damas, a carruagem e os próprios cavalos, tudo se tinha mudado. O que havia pouco parecia velho, feio e ridículo, só mostrava beleza, riqueza e bom gosto. Os damascos mais ricos, os veludos, o ouro e as pedrarias sem preço, eis no que se tinham tornado os rasgões, a lama e as velhas coisas que faziam rir. As damas eram realmente tão formosas e os cavaleiros tão guapos e desempenados mancebos que uns e outros fizeram empalidecer de inveja tudo quanto andava na corte com fama de belo.
Foram então apresentadas as noivas pelos seus respectivos noivos e tanto no povo como na corte houve uma só voz para aclamar o mais novo como Rei, visto que não havia comparação entre a beleza da mulher que ele tinha escolhido e as dos outros.
Os mais velhos estavam desesperados, mas, tanto eles como as próprias raparigas, confessavam que era justiça, pois não havia formosura que igualasse a da noiva do irmão mais novo. Foi então que ela se adiantou e, fazendo um gracioso cumprimento, pediu vénia aos Reis para falar. Em silêncio escutaram todos a história que contou assim:
— Senhor Rei e Rainha minha Senhora, Príncipe meu futuro esposo, meus cunhados, e todos vós, senhoras e senhores, ouvi a história, bem triste, da minha vida:
O Imperador mais poderoso do Mundo, aquele que todos vós acatais e respeitais como principal entre os soberanos da Terra, era casado havia muitos anos e vivia desgostoso até mais não, por lhe faltar um herdeiro do seu sangue que à sua morte herdasse tão grande poderio.
Tratava tão mal a Imperatriz sua esposa, e tinha-a em tão grande desprezo, que nunca os tinham visto juntos em passeio ou recepção. Nunca o seu palácio se abriu a festas para as quais fossem convidadas senhoras, o que obrigaria a aparecer a Imperatriz. Enfim, era uma vida tão triste a desta soberana, que ela invejava mil vezes as camponesas pobres; mas alegres e livres, que via passar da varanda dos seus reais aposentos, mais solitários do que uma prisão.
Chegou a ponto que as criadas que a serviam foram um dia ter com o imperial esposo e pediram-lhe que ao menos mudasse a sua senhora para um palácio do campo, porque assim teriam mais sossego e liberdade, sem ninguém incomodarem com a sua presença. O imperador consentiu e fez-se logo a mudança para um palácio escondido entre árvores e flores que lhe pertenciam.
A pobre senhora, mais aliviada na sua desgraça, sentou-se à janela do seu quarto e viu um jardim lindíssimo onde uma macieira vergava ao peso dos frutos mais lindos que se possam imaginar. Desceu, saltou um muro que era baixo, e comeu a melhor maçã que encontrou, tão dourada e macia como nunca tinha visto. Depois apanhou algumas para o regaço e ia voltar para casa quando lhe apareceu o mais feio e monstruoso dos gigantes que lhe gritou:
— Quem te mandou vir aqui roubar os melhores frutos da minha árvore?!
— O quê? Pois estas maçãs não pertencem ao Imperador, meu esposo?
— Não; este jardim é meu e só eu aqui governo.
— Pois então desculpai, que eu vos pago a maçã que comi e estas que levo.
— Não quero que mas pagues, mas exijo que me tragas o seu fruto daqui a sete anos, senão tudo quanto pertence a teu marido será arrazado.
Desapareceu o monstro e ela foi para casa muito pensativa, nada dizendo do que lhe tinha acontecido.
Passou-se tempo e um dia mandou a Imperatriz chamar o marido, disse-lhe o que tinha acontecido, e mostrou-lhe uma menina que tinha nascido por milagre das maçãs mágicas.
Ele ficou doido de contente por já ter uma filha e daí para diante levava a esposa a toda aparte, apresentava-a como tal, e fazia-lhe todas as vontades e gostos. Toda agente admirava, e não sabia a causa, pois que a Princesa ficara na quinta e era educada com o maior segredo, visto que a tinham de entregar daí a sete anos.
Iam vê-la muitas vezes; a menina de dia para dia se tornava mais bonita e engraçada, de maneira que era uma adoração o que por ela sentiam os pais.
Chegado que foi o dia de fazer sete anos foram ambos à quinta e depois de muitos choros e lamentos entraram no jardim do gigante que logo lhes apareceu, dizendo:
— Se hoje aqui não aparecessem com a menina, tudo vos seria arrazado. Agora podeis ir e os vossos exércitos serão sempre vitoriosos e tanto na paz como na guerra não haverá povo mais feliz.
Os Imperadores foram-se embora e o gigante foi para sua casa levando a menina nos braços. Entrou numa torre muito alta onde viviam três velhas bruxas e entregou-lhes a menina para a educarem. Elas criaram-na e ensinaram-lhe tudo quanto uma senhora precisa saber para se apresentar em toda a parte sem vergonha.
Morreram duas das velhas e a menina ficou só com uma, que era de todas a pior. Passava uma vida muito solitária e desconsolada, até que um dia, que a velha tinha saído, chegou à janela e viu passar um moço cavaleiro que andava à caça. Ele também a viu e gostou tanto da menina que lhe pediu licença para lhe falar, mas a janela era tão alta que não podia dizer nada que se ouvisse.
Estava a menina muito triste, quando lhe diz dali um carneirinho que havia na torre e era o companheiro mais fiel que tinha:
— Se a menina não fala ao cavaleiro é porque não quer.
— Então que hei-de fazer, meu carneirinho?
— Olhe, vá buscar a meada de linho que a velha ali tem, faça uma escada nos meus chavelhinhos, e deite-a da janela, que já o cavaleiro sobe.
A menina assim fez e o rapaz subiu, sentando-se ambos a conversar. Nisto apareceu a bruxa desesperada como uma fúria. Dirigiu-se ao cavaleiro e disse-lhe:
— Viva, meu senhor! Por onde subiu há-de descer. Tu, meu carneiro, já que foste o alcoviteiro, hei-de te matar e comer. E a menina, já que seguiu os conselhos do carneiro, há-de ficar com cara de macaca até que um Príncipe queira casar consigo.
Eis a razão porque eu estava encantada e comigo todos estes cavaleiros e damas que eram senhores na corte de meus pais e o gigante mandou reunir para me servirem no lindo palácio que me deu. O Príncipe Diamante, além de preferir a minha alma à formosura, desencantou-me. Por isso comigo reinará sobre a Terra. Vossa Majestade dê o seu reino aos Príncipes Rubi e Esmeraldino, porque Diamante será o Imperador dos Imperadores.
Quando a bela senhora acabou de dizer isto, todos a vitoriaram muito e ao Príncipe seu noivo, mas o povo sempre ficou triste por ele não poder ser o seu Rei. No entanto os outros dois aprenderam com ele a ser bons, assim como as mulheres aprenderam a ser grandes senhoras como a antiga Princesa Macaca, e todos ficaram muito satisfeitos.
Quando chegaram os Imperadores acompanhados da maior comitiva que se tem podido reunir no Mundo, ficaram doidos de alegria por verem a filha, assistiram aos três casamentos, nos quais se fizeram as maiores e mais brilhantes festa que até aí se tinham visto, e depois foram então para o seu império, levando a filha e o genro que logo foram jurados herdeiros.
[[Categoria:Histórias maravilhosas da tradição popular portuguesa|A Princesa Macaca]]
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Plan 9 from Bell Labs: uma visão geral
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= Introdução =
O [[w:Plan 9 from Bell Labs|Plan 9 from Bell Labs]] é um [[w:Sistema operativo|sistema]] de pesquisa desenvolvido no [[w:Bell Labs|Bell Labs]] a partir do final da década de 1980. Seus projetistas e autores originais eram [[w:Ken Thompson|Ken Thompson]], [[w:Rob Pike|Rob Pike]], Dave Presotto e Phil Winterbottom. A eles se juntaram diversos outros que, como desenvolvedores, continuaram o trabalho de 1990 até os dias atuais.
O Plan 9 propõe uma maneira nova e frequentemente mais limpa de resolver a maioria dos problemas encontrados em sistemas. O sistema, no seu todo, há de soar muito semelhante e familiar aos usuários do [[w:Unix|Unix]], parecendo ao mesmo tempo, contudo, um pouco estranho.
No Plan 9 cada [[w:Processo (informática)|processo]] possui o seu próprio [[w:Espaço de nomes|espaço de nomes]] modificável. Um processo pode ser rearranjado, pode sofrer acréscimos ou remoções no seu espaço de nomes, sem com isso afetar os espaços de nomes de processos não relacionados. Incluída nas modificações do espaço de nomes está a possibilidade de se [[w:en:Mount (computing)|“montar” (''mount'')]] uma conexão a um [[w:Servidor de arquivos|servidor de arquivos]] que se comunique via [[w:9P|9P]], um simplório [[w:Protocolo (ciência da computação)|protocolo]] baseado em arquivo. A conexão pode ser uma conexão de rede, um [[w:Canalização (software)|pipe]] ou qualquer [[w:Descritor de arquivo|descritor de arquivo]] aberto para a leitura e escrita tendo na outra ponta um servidor do protocolo 9P. Espaços de nomes personalizáveis são largamente usados em todo o sistema, na apresentação de novos recursos (por exemplo, o [[w:Sistema de janelas|sistema de janelas]]), para importar recursos de uma outra máquina (por exemplo, a pilha de rede) ou para navegar pelo histórico no tempo (por exemplo, o sistema de arquivos de dump).
O Plan 9 é um [[w:Núcleo (sistema operacional)|núcleo de sistema operacional]] bem como uma coleção de softwares disponibilizada em conjunto. O grosso do software é majoritariamente novo, escrito especificamente para o Plan 9, e não software transportado do Unix ou de outros sistemas. O sistema de janelas, [[w:Compilador|compiladores]], servidores de arquivo e serviços de rede foram escritos especificamente para o Plan 9. Todavia, programas clássicos do Unix como [[w:en:dc (computer program)|''dc''(1)]], [[w:en:ed (text editor)|''ed''(1)]] e mesmo o [[w:en:troff|''troff''(1)]] estão disponibilizados, frequentemente numa forma adaptada. Por exemplo, o ''troff'' aceita documentos [[w:Unicode|Unicode]] codificados com [[w:UTF-8|UTF-8]], assim como ocorre em todo o sistema.
O artigo [[Plan 9 from Bell Labs]] fornece uma introdução ao sistema mais aprofundada.
= Lançamentos =
O Plan 9 teve quatro grandes lançamentos ao longo de sua história.
A '''primeira edição''', lançada em 1992, foi disponibilizada apenas para universidades. A primeira edição tinha a maioria das partes identificáveis no Plan 9, incluindo o núcleo, ndb, [[w:en:Sam (text editor)|sam]], upas, [[w:Alef (linguagem de programação)|alef]] e o suporte completo ao UTF-8. O [[w:en:Acme (text editor)|acme]] foi apresentado numa forma anterior como auxiliar. Os servidores de CPU eram estações [[w:SPARC|SPARC]] da [[w:Sun Microsystems|Sun]], SGI Power e SGI Magnum, com estações [[w:NeXT|NeXT]] e [[w:Computador pessoal|PCs]] como terminais. As estações Gnot e Hobbit, construídas localmente, eram também utilizadas como terminais.
A '''segunda edição''', lançada em 1995 na forma de livro e CD, adicionava o acme e uns poucos outros utilitários. Na época do lançamento da segunda edição, a equipe do Plan 9 trabalhava numa reimplementação do sistema chamada Brazil. Em 1999, na preparação para o lançamento da terceira edição, o nome Brazil foi abandonado e o sistema voltou a se chamar Plan 9.
A '''terceira edição''' antecipada foi lançada em junho de 2000 e disponibilizada livremente na Internet. Introduzia um novo operador gráfico de cores chamado draw e um novo mecanismo de comunicação entre processos chamado plumbing. A distribuição introduzia também um simplório gerenciador de atualizações chamado wrap para instalar atualizações de sistema empacotadas.
Logo após o lançamento da terceira edição, a equipe do Bell Labs começou uma revisão do protocolo 9P dando-lhe o nome de 9P2000. Comparado ao 9P usado nos lançamentos anteriores, o 9P2000 remove algumas restrições, consideradas inadequadas nesta altura, com relação a comprimentos de nomes, acrescenta um campo “último modificador” aos metadados de diretório, permite o encaminhamento de mensagens em lotes, e introduz arquivos de autenticação como mecanismo para mover os detalhes dos protocolos de autenticação para fora do protocolo 9P propriamente.
O lançamento da '''quarta edição''', em 2002, introduzia o 9P2000 juntamente com o agente de segurança associado [[w:en:Factotum (software)|''factotum''(4)]] e o repositório de chaves ''secstore''(8). Introduzia também o servidor de armazenamento em blocos [[w:en:Venti (software)|''venti''(8)]]. O servidor de arquivos baseado no ''venti'', [[w:en:Fossil (file system)|''fossil''(4)]], veio a baila no início de 2003.
Adicionalmente a esses programas, a quarta edição introduzia um novo mecanismo para distribuir as atualizações do sistema. Um servidor de arquivos ''fossil'' público, ''sources.cs.bell-labs.com'', que contém uma árvore de arquivos atualizada que acessível por qualquer sistema Plan 9 conectado a Internet. Alterações na árvore dessa quarta edição são feitas com frequência, geralmente todos os dias. Os clientes rodam as ferramentas do ''replica''(1) para manter os seus sistemas sincronizados com os ''fontes''. Snapshots dos ''fontes'' contendo as últimas mudanças, acessados por meio do sistema de arquivos de dump, fornecem um conveniente histórico dos lançamentos.
= Licenciamento =
A primeira edição foi disponibilizada apenas para uso nas universidades.
A segunda edição foi disponibilizada para o público geral a um custo de $350 por distribuição, o que incluía uma licença para usar o software em toda a organização.
Na terceira edição, a [[w:Lucent Technologies|Lucent]] concordou em lançar o Plan 9 de graça pela Internet, sob uma nova licença, a [[Licença do Plan 9]].
A quarta edição foi disponibilizada sob a [[Licença Pública da Lucent versão 1.02]]. Adotada para corrigir lacunas que existiam na Licença do Plan 9, a Licença Pública da Lucent 1.02 é idêntica a [[Licença Pública da IBM 1.0]] exceto que não requer que o código-fonte seja distribuído com trabalhos derivados; é não-viral.
Desde 23 de março de 2021 todas as quatro edições estão disponíveis sob a [[Licença do MIT]].
= Estado atual =
O Plan 9 continua mudando diariamente. Essas alterações são distribuídas pelos muitos usuários do Plan 9 via ''sources.cs.bell-labs.com'' como descrito acima. Ainda assim, o Plan 9 tem-se mantido fiel a sua concepção original, e um usuário da primeira versão do sistema, de 1992, não precisaria de muita ajuda para se adaptar ao sistema atual.
Devagar, as ideias do Plan 9 tem sido adotadas por outros sistemas. O Plan 9 foi o primeiro sistema com suporte completo a codificação de conjunto de caracteres Unicode UTF-8. O sistema de arquivos de dump tem sido imitado nos diretórios Athena’s <tt>OldFiles</tt> ou nos diretórios .snapshot da Network Appliance. A flexível chamada de sistema [[w:en:Fork_(system_call)#Rfork|''rfork''(2)]], base de [[w:Thread (computação)|threads]] leves, foi adotada por vários derivados do [[w:Berkeley Software Distribution|BSD]], tal como é, e reencarnada no [[w:Linux|Linux]] como [[w:en:Fork_(system_call)#Clone|''clone''(2)]]. O simplório protocolo baseado em arquivo 9P tem sido implementado, desde muito, em versões do [[w:FreeBSD|FreeBSD]] e em versões recentes do Linux.
Uma porção de companhias tem tido sucesso na comercialização de produtos baseados no Plan 9. A mais notável é a Vita Nuova que continua a manter e comercializar o Inferno, um derivado do Plan 9 concebido para set-top boxes e outros dispositivos embarcados.
Uma vez que o Plan 9 possui um modelo de sistema bastante diferente dos demais sistemas operacionais modernos, é por vezes complicado transportar softwares externos para o Plan 9. Em particular, não há ainda para o Plan 9 um [[w:Navegador web|navegador web]] repleto de recursos; ''webfs''(4) e ''html''(2) foram pensados justamente como passos na direção de uma solução.
A página principal contém ligâmes para documentação adicional e informações de download.
Aproveite!
[[Categoria:Plan 9 from Bell Labs]]
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Autor:A. M. da Cunha e Sá
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| MiscBio ='''António Manuel da Cunha e Sá''', foi um tradutor português.
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==Traduções==
;Grande Edição Popular das Viagens Maravilhosas aos Mundos Conhecidos e Desconhecidos
* {{livro digitalizado|A Volta do Mundo em Oitenta Dias (3ª edição)|Júlio Verne - A Volta do Mundo em Oitenta Dias (1886).pdf|A Volta do Mundo em Oitenta Dias}}, (1886)
* [[Os Filhos do Capitão Grant]], (1886)
* [[A Casa a Vapor]], (1888)
* {{livro digitalizado|O Doutor Ox (2ª edição)|Júlio Verne - O Doutor Ox (1888).pdf|O Doutor Ox}}, (1888)
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Trooper57
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|180|{{sc|á roda da lua}}|{{sc|viagens maravilhosas}}}}{{rule}}</noinclude>para modificar os movimentos da Lua, na época em que a
Terra estava ainda fluida?
— E é verdade, replicon Nicholl, e quem nos diz que a Lua
foi sempre satellite da Terra?
— E quem nos diz, exclamou Miguel Ardan, que a Lua não
existiu muito antes da Terra?
As imaginações iam-se desvairando pelo campo infinito das
hypotheses. Barbicane quiz refreal-as, e disse:
— Isso são especulações elevadas de mais, problemas verdadeiramente insoluveis. Não nos mettamos nʼelles. Basta que
admittamos a insufficiencia da attracção primordial, e então,
pela desigualdade dos dois movimentos de rotação e de revolução, é possivel que os dias e as noites se succedessem na
Lua como se succedem no Terra. E demais, a vida era possivel, mesmo sem essas condições.
— Crês então, respondeu Miguel Ardan, que a humanidade
desappareceu da Lua?
— Sim, respondeu Barbicane, sem duvida, depois de lá ter
persistido por milhares de seculos. Depois, pouco a pouco, o
disco ter-se-ha tornado inhabitavel pela gradual rarefacção da
atmosphera, como o globo terrestre se ha de tornar um dia
pelo resfriamento.
— Pelo resfriamento?
— De certo, respondeu Barbicane. Ao passo que se apagaram os fogos interiores, que se concentrou a materia incandescente, arrefeceu a crusta lunar. Pouco a pouco foram-se fazendo sentir as consequencias dʼesse phenomeno; desapparecimento dos seres organisados, desapparecimento da vegetação. Dentro em pouco rarefez-se a atmosphera subtraida muito provavelmente pela attracção terrestre; desapparcimento do ar respiravel, desapparecimento da agua por evaporação. Nʼessa época a Lua, que se tornára inhabitavel, já não era habitada.
— Mas quando?
— E dizes tu que a mesma sorte espera a Terra?
— É muito provavel.
— Quando o resfriamento da sua crusta a tornar inhabitavel.
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Terra estava ainda fluida?
— E é verdade, replicon Nicholl, e quem nos diz que a Lua
foi sempre satellite da Terra?
— E quem nos diz, exclamou Miguel Ardan, que a Lua nāo
existiu muito antes da Terra?
As imaginaçōes iam-se desvairando pelo campo infinito das
hypotheses. Barbicane quiz refreal-as, e disse:
— Isso sāo especulaçōes elevadas de mais, problemas verdadeiramente insoluveis. Nāo nos mettamos nʼelles. Basta que
admittamos a insufficiencia da attracçāo primordial, e entāo,
pela desigualdade dos dois movimentos de rotaçāo e de revoluçāo, é possivel que os dias e as noites se succedessem na
Lua como se succedem no Terra. E demais, a vida era possivel, mesmo sem essas condiçōes.
— Crês entāo, respondeu Miguel Ardan, que a humanidade
desappareceu da Lua?
— Sim, respondeu Barbicane, sem duvida, depois de lá ter
persistido por milhares de seculos. Depois, pouco a pouco, o
disco ter-se-ha tornado inhabitavel pela gradual rarefacçāo da
atmosphera, como o globo terrestre se ha de tornar um dia
pelo resfriamento.
— Pelo resfriamento?
— De certo, respondeu Barbicane. Ao passo que se apagaram os fogos interiores, que se concentrou a materia incandescente, arrefeceu a crusta lunar. Pouco a pouco foram-se fazendo sentir as consequencias dʼesse phenomeno; desapparecimento dos seres organisados, desapparecimento da vegetaçāo. Dentro em pouco rarefez-se a atmosphera subtraida muito provavelmente pela attracçāo terrestre; desapparcimento do ar respiravel, desapparecimento da agua por evaporaçāo. Nʼessa época a Lua, que se tornára inhabitavel, já nāo era habitada.
— Mas quando?
— E dizes tu que a mesma sorte espera a Terra?
— É muito provavel.
— Quando o resfriamento da sua crusta a tornar inhabitavel.
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|181|{{sc|á roda da lua}}|{{sc|viagens maravilhosas}}}}{{rule}}</noinclude>— E já alguem calculou o tempo que o nosso desgraçado espheroide ha de levar a arrefecer?
— De certo.
— E tu conheces esses calculos?
— Perfeitamente.
— Mas então falla, sabio massador! exclamou Miguel Ardan,
que me fazes ferver de impaciencia.
— Pois ouve, meu estimavel Miguel, respondeu pacificamente
Barbicane; sabe-se qual é a diminuição de temperatura que a
Terra experimenta no decorrer de um seculo. E, em virtude
de certos calculos, prova-se que essa temperatura média chegará a zero, passado um periodo de quatrocentos mil annos!
— Quatrocentos mil annos! exclamou Miguel. Ai! Já respiro! Na verdade, estava assustado! Antes de te explicares, imaginava que já não teriamos mais que uns cincoenta mil annos
de vida!
Barbicane e Nicholl não poderam suster-se que se não rissem dos cuidados do companheiro. Nicholl, que queria concluir, formulou de novo a interrogação correspondente ao segundo problema, que acabavam de discutir, perguntando:
— Foi porventura a Lua outrʼora habitada?
A resposta foi affirmativa, por unanimidade.
Mas durante aquella discussão, aliás fecunda em theorias um
tanto arriscadas, apesar de não ser mais que o resumo das
idéas geraes que constituem o peculio actual da sciencia nʼeste
ponto, o projectil corréra rapidamente para o equador lunar,
afastando-se ao mesmo tempo, e com regularidade, do disco.
Transpozera o circo de Wilhem e o parallelo quadragesimo a
oitocentos kilometros de distancia. Em seguida, deixando á direita Pilatus, situado a trinta e tres graus de latitude, costeou
o sul do mesmo Mar das Nuvens, de cuja parte norte já se tinha aproximado. Appareceram depois confusos na fulgurante
brancura do pleni-lunio diversos circos: Bouillaud, Purbach, de
fórma quasi quadrada, com uma cratéra central; e mais adiante Arzachel, cuja montanha interior brilha com indefinivel fulgor.
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— De certo.
— E tu conheces esses calculos?
— Perfeitamente.
— Mas entāo falla, sabio massador! exclamou Miguel Ardan,
que me fazes ferver de impaciencia.
— Pois ouve, meu estimavel Miguel, respondeu pacificamente
Barbicane; sabe-se qual é a diminuiçāo de temperatura que a
Terra experimenta no decorrer de um seculo. E, em virtude
de certos calculos, prova-se que essa temperatura média chegará a zero, passado um periodo de quatrocentos mil annos!
— Quatrocentos mil annos! exclamou Miguel. Ai! Já respiro! Na verdade, estava assustado! Antes de te explicares, imaginava que já nāo teriamos mais que uns cincoenta mil annos
de vida!
Barbicane e Nicholl nāo poderam suster-se que se nāo rissem dos cuidados do companheiro. Nicholl, que queria concluir, formulou de novo a interrogaçāo correspondente ao segundo problema, que acabavam de discutir, perguntando:
— Foi porventura a Lua outrʼora habitada?
A resposta foi affirmativa, por unanimidade.
Mas durante aquella discussāo, aliás fecunda em theorias um
tanto arriscadas, apesar de nāo ser mais que o resumo das
idéas geraes que constituem o peculio actual da sciencia nʼeste
ponto, o projectil corréra rapidamente para o equador lunar,
afastando-se ao mesmo tempo, e com regularidade, do disco.
Transpozera o circo de Wilhem e o parallelo quadragesimo a
oitocentos kilometros de distancia. Em seguida, deixando á direita Pilatus, situado a trinta e tres graus de latitude, costeou
o sul do mesmo Mar das Nuvens, de cuja parte norte já se tinha aproximado. Appareceram depois confusos na fulgurante
brancura do pleni-lunio diversos circos: Bouillaud, Purbach, de
fórma quasi quadrada, com uma cratéra central; e mais adiante Arzachel, cuja montanha interior brilha com indefinivel fulgor.
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{rvh|182|{{sc|á roda da lua}}|{{sc|viagens maravilhosas}}}}{{rule}}</noinclude>Finalmente, continuou o projectil a distanciar-se, apagaram-se os lineamentos aos olhos dos viajantes, as montanhas confundiram-se na distancia, e de todo aquelle conjuncto maravilhoso, bizarro, estranho, do satellite da Terra, nāo lhes restou
em breve senāo a immorredoura recordaçāo.
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Á Roda da Lua (5ª edição)/XVIII
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<pages index="Júlio Verne - À Roda da Lua (1886).pdf" from=182 to=190 header=1/>
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[[en:Around the Moon/Chapter XVIII]]
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{c|163}}</noinclude>{{t2|{{sc|Quatro a quatro.}}|'''III'''}}
{{dhr|5}}
Fôra difeil formar hoje idéa do que era, ha quarenta e
cinco annos, um passeio de estudantes e ''grisettes'' ao campo. Pariz já nāo tem os mesmos arrabaldes; o aspecto do
que poderia chamar-se a vida circumpariziense mudou
completamente dentro de meio seculo; por onde rodavao
''sociavel'', voa agora o ''wagon''; onde havia a falúa, estāo as
barcas de vapor; diz-se boje Fécamp como outrʼora se dizia Saint-Cloud. O Pariz de 1862 é uma cidade que tem
a França por suburbio.
Os quatro pares fizeram conscienciosamente todas as
loucuras campestres que eram entāo possiveis. As férias
começavam e o dia era quente e claro como sóem ser os
de verāo. Na vespera, Favorita, a unica dʼentre as quatro que sabia escrever, mandára em nome de todas, o
seguinte bilhete a Tholomyès: « Eʼ um praser a gente
sahir cedo. Motivo porque levantaram-se ás cinco horas da manhan. Depois forani a Saint-Cloud de ''carro'',
contemplaran a cascata que estava secca e esclamaram:
isto deve ser bens bonito quando estiver com agua! almogaram na ''Cabeça-Negra'', onde Castaing nāo tinha a-<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
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{{dhr|5}}
Fôra difficil formar hoje idéa do que era, ha quarenta e
cinco annos, um passeio de estudantes e ''grisettes'' ao campo. Pariz já nāo tem os mesmos arrabaldes; o aspecto do
que poderia chamar-se a vida circumpariziense mudou
completamente dentro de meio seculo; por onde rodavao
''sociavel'', voa agora o ''wagon''; onde havia a falúa, estāo as
barcas de vapor; diz-se boje Fécamp como outrʼora se dizia Saint-Cloud. O Pariz de 1862 é uma cidade que tem
a França por suburbio.
Os quatro pares fizeram conscienciosamente todas as
loucuras campestres que eram entāo possiveis. As férias
começavam e o dia era quente e claro como sóem ser os
de verāo. Na vespera, Favorita, a unica dʼentre as quatro que sabia escrever, mandára em nome de todas, o
seguinte bilhete a Tholomyès: « Eʼ um praser a gente
sahir cedo. Motivo porque levantaram-se ás cinco horas da manhan. Depois forani a Saint-Cloud de ''carro'',
contemplaran a cascata que estava secca e esclamaram:
isto deve ser bens bonito quando estiver com agua! almogaram na ''Cabeça-Negra'', onde Castaing nāo tinha a-<noinclude></noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{c|164}}</noinclude>inda estado, tiraram á argolinha no quincuncio do tanque
grande, subiram ''á lanterna de Diogenes'' , jogaram a
massapāes na roleta da ponte de Sévres, colheram flores em Puteaux, compraram gaitas em Neuilly, comeram
por toda a parte tortas de maçans, foram perfeitamente
felizes.
As moças rumorejavam e chilravam como toutinegras
a esvoaçarem. Era um delirio. De espaço a espaço davam bofetōesinhos nos moços. Enlevo matutino da vida!
Adoravel edade ! A aza das libellinhas estremece. Oh !
vós quem quer que sejaes, lembraes-vos ? Já caminhastes dentro de uma mata, afastando os galhos para que
nāo tocassem o formoso rosto que vinha atrás de vós ?
Já escorregastes rindo em algum talude molhado pela
chuva com uma mulher amada que vos travasse da māo
e exclamasse: Ah! meus borseguins novos ! em que estado se acham !
Desde já digamos que a folgasona companha nāo teve
a divertida contrariedade que causa um aguaceiro, nāo
obstante ter Favorita dito ao partirem, em tom autorisado e maternal: ''Os coraçōes passeiam pelos caminhos''.
''Teremos chuva, minhas filhas''.
Todas quatro eram doudamente lindas. Um bom velho poeta classico, entāo em voga, um bom homem que
tinha a sua Leonor, o cavalleiro de Labouisse, vagueando
nesse dia á sombra dos castanheiros de Saint-Cloud, viu-as passar pelas dez horas da manhan, e exclamou: ''Ha''
''uma de mais'', referindo-se ás Graças. Favorita, a amante de Blachevelle, a que tinha vinte e tres annos, a velha,
corria adeante por baixo da espessa folhagem, saltava fossos, pulava cercas sem o menor recato, e presidia á geral alegria com a petulancia de uma joven fauna. Zephina e Dahlia, que o acaso dotára de uma bellesa que se
realçava e completava-se quando ellas estavam juntas,
nāo se separavam, por instincto de faceirice muito mais
do que por amisade, e, encostadas uma á outra, tomavam attitudes inglezas ; os primeiros ''Keapsakes'' tinham
apparecido ha pouco , a melancolia despontava para as
mulheres, como, mais tarde, o byronismo para os homens, e os cabellos do sexo gentil começavam a ondear em cachos a modo de chorōes. Zephina e Dahlia tinham os seus assim penteados. Listolier e Fameuil, empenhados em uma discussāo a respeito de seus profes-<noinclude></noinclude>
h7r2qxopw3zsw7q0rktn6720blgccze
Página:Victor Hugo - Os Miseráveis, trad. Justiniano José da Rocha, Vol. 1 (1862).pdf/169
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{c|165}}</noinclude>sores, explicavam a Fantina a differença que havia entre Delvincourt e Blondeau.
Blachevelle parecia ter sido expressamente creado para trazer no braço, aos domingos, o chale listrado de Favorita.
Tholomyès ia atrás dominando o grupo. Estava alegrissimo, mas sentia-se nelle a supremacia do governo;
havia o que quer que fosse dictatorial na sua jovialidade ; o seu ornamento principal eram umas calças ''pernas''
''de elephante'', de ganga, com presilbas de trança de cobre ; levava na māo uma formidavel bengala de duzentos francos, e, como estava affeito a proceder sempre
em tudo a seu talante, tinha na boca uma cousa estranha chamada charuto. Nāo havendo nada sagrado para
elle, fumava !
—Este Tholomyès é admiravel, diziam os outros com
veneraçāo. Que calças ! que energia !
Quanto a Fantina, essa era a alegria personnificada.
Seus dentes esplendidos tinham evidentemente recebido
de Deus uma funcçāo, o riso. Trazia na māo de melhor
grado do que na cabeça o sea chapellinho de palha, com
compridas fitas brancas que serviam para ata-lo. Os bastos cabellos louros, que dissereis se compraziam em ondear e facilmente se desprendiam, sendo necessario compô-los a cada instante, pareciam feitos para a carreira
de Galatéa fugindo ao longo dos salgueiros. Seus roseos labios chilravam com encantadora graça. Os cantos
da boca, voluptuosamente levantados como os das caras
antigas de Erigone, pareciam provocar os audazes; mas
os compridos cilios cheios de sombra abaixavam-se discretamente sobre o que havia de travesso na parte inferior do rosto como para aquieta-lo. Todo o seu facto
ostentava uma garridice que deslumbrava. Trajava vestido de barège côr de malva, sapatinhos abotinados de
couro bronzeado, cujas fitas traçavam X sobre as finas
meias abertas, e essa especie de ''spencer'' de musselina.
invençāo marselheza, cujo nome, ''canezou'', corrupçāo das
palavras ''quinze aóut'' (quinze de agosto), pronunciadas á
moda da Cannebière, significa bom tempo, calor e meio-dia. As outras tres, que, como já dissemos, eram menos
timidas, traziam os hombros inteiramente nus, o que,
no verāo, por baixo de chapéos cobertos de flôres, tem
muita graça e é sobremodo provocador : mas, comparado<noinclude></noinclude>
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Página:Victor Hugo - Os Miseráveis, trad. Justiniano José da Rocha, Vol. 1 (1862).pdf/170
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reticencias, escondendo e mostrando ao mesmo tempo.
parecia um invento provocador da decencia, e o ''famoso''
''tribunal de amor'', presidido pela viscondessa de Cette,
cujos olhos eram de verde mar, talvez houvesse dado o
premio da casquilharia a esse ''canezou'', que concorria
para a castidade. O mais simples é ás vezes o mais estudado. Isto acontece.
Deslumbrante vista de frente, delicada vista de perfil,
com olhos de um azul escuro, palpebras carnudas, pės
pequenos e arqueados, punhos e artelhos admiravelmente delgados ; com uma pelle alva, que deixava ver aqui e
alli as arborecencias azuladas das veias, faces infantis e
frescas, pescoço robusto qual o das Junos egineticas, nuca forte e flexivel, hombros que dissereis modelados por
Coustou, tendo no centro uma voluptuosa covinha visivel através da musselina : com uma ledice entibiada por
uma vaga meditaçao; sculptural e delicada ; tal era Fantina ; e adivinhava-se que por baixo daquelles enfeites
e daquellas filas havia uma estatua, e nessa estatua
uma alma.
Fantina era formosa, mas quasi que sem o saber. Os
raros pensadores, sacerdotes mysteriosos do bello, que
comparam silenciosamente a menor cousa com a perfeiçao, teriam lobrigado nessa joven costureira, por sob
a transparencia da graça pariziense, a antiga euphonia
sagrada. Essa rapariga obscura era de uma raça distincta. Concorriam nella duas qualidades de belleza, o estylo e o rhythmo. O estylo è a forma do idéal ; o rhythmo é o seu movimento.
Já dissemos que Fantina era a alegria personificada ;
Fantina era tambem naturalmente pudica.
O observador que a houvesse estudado attentamente
teria notado que o que predominava nella no meio dos
transportes da mocidade, da estaçao e do amor, era uma invencivel expressao de recato e de modestia. Mostrava-se ella um tanto espantada. Esse casto espanto é
a gradaçao que separa Psychis de Venus. Fantina tinha
os compridos dedos alvos e delgados da vestal que remexeas cinzas do fogo sagrado com um alfinete de ouro.
Fosto que nada houvesse recusado a Tholomyès, por
de mais o veremos, no seu semblante, estado de qui-<noinclude></noinclude>
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<noinclude><pagequality level="3" user="Erick Soares3" />{{c|167}}</noinclude>etação, era soberanamente virginal: uma especie de dignidade seria e quasi austera invadia-o de repente em certas horas, e nada era tam singular e surprendente como
ver a alegria fugir-lhe com tamanha presteza e o recolhimento succeder sem transição á ledice. Essa subita gravidade, ás vezes severamente expressada, assemelhava-se
ao desdem de uma deosa. Na fronte, no nariz e no queixo
notava-se-lhe esse equilibrio de linhas, mui distincto do
equilibrio de proporção, e de que resulta a harmonia do
semblante ; no intervallo tara caracteristico que separa
a base do nariz do labio superior, tinha ella essa dobra
imperceptivel e attractiva, signal mysterioso da castidade
que fez que Barba-Roxa se apaixonasse por uma Diana
achada nas excavações dʼIconia.
O amor é uma culpa ; concordamos. Fantina era a
innocencia a sobrepujar a culpa.
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Os Miseraveis (trad. Justiniano José da Rocha)/Tomo primeiro/Livro terceiro/III
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A Descoberta da Terra
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[[Ajuda:SEA|←]] nova página: {{cabeçalho para portais | notas = '''A Descoberta da Terra''', ou ''As Grandes Viagens e os Grandes Viajantes'', é uma série de divulgação científica escrita por Júlio Verne. }}{{lista de versões}} ;Tradução de Manuel Pinheiro Chagas *{{Livro digitalizado|A Descoberta da Terra (2ª edição)/Volume I|Júlio Verne - As Grandes Viagens e os Grandes Viajantes, Parte 1 - A Descoberta da Terra, Volume 1 (1889).pdf|A Descoberta da Terra (Vol. I)}} *{{Li...
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[[Categoria:Júlio Verne]]
[[Categoria:Trabalhos originalmente em francês]]
[[Categoria:Obras publicadas em 1870]]
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<noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" />{{rh||''Obras de Luis de Camões.''}}</noinclude><section begin="XII"/><poem>{{c|SONETO {{sic|XXII|XII}}.}}
{{gcapitular|D}}Oces lembranças da pa{{s}}{{s}}ada gloria,
::Que me tirou fortuna roubadora, no.
::Deixaime repoufar em paz húa ora, 2
Que comigo ganhais pouca vittoria
Impre{{s}}{{s}}a tenho n’alma larga hi{{s}}toria qomah
De{{s}}te pa{{s}}{{s}}ado bem que nunca fora, M
Ou fora, & não pa{{s}}{{s}}ara, mas ja agora
Em mí não pòde auer mais que a memoria.
Viuo em lembranças, mouro d’efquecido A
De quem fempre deuera fer lembrado,
Se lhe lembrara e{{s}}tado tão contente:
ô quem tornar podèra a fer na{{s}}cido,
Souberame lograr do bem pa{{s}}{{s}}ado, co
Lo Se conhecer foubera o malprefente...</poem>
<section end="XII"/>
<section begin="XIII"/><poem>{{c|SONETO. XIII.}}
{{gcapitular|A}}Lma minha gentil, que te parti{{s}}te
::Tão cedo de{{s}}ta vida de{{s}}contente,
::Repou{{s}}a la no ceo eternamente,
::E viua eu ca na terra {{s}}empre tri{{s}}te;
Se la no a{{s}}{{s}}ento Ethereo, onde {{s}}ubi{{s}}te
::Memoria de{{s}}ta vida {{s}}e con{{s}}ente,
::Não te e{{s}}queça daquelle amor ardente
::Que ja nos olhos meus tão puro vi{{s}}te.
E {{s}}e vires que pode mere{{s}}certe
::Algũa cou{{s}}a a dor que me ficou
::Da magoa {{s}}em remedio de perderte,
Roga a Deos que teus annos encurtou,
::Que tão cedo de cá me leue a verte,
::Quam cedo de meus olhos te leuou.</poem>
<section end="XIII"/><noinclude>{{d|Soneto.}}</noinclude>
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Rhythmas de Luis de Camões/Alma minha gentil, que te partiste
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<pages index="Rhythmas de Luis de Camões.djvu" include=32 onlysection=XIII header=1 notas="{{Versões|Alma minha gentil, que te partiste}}" />
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Alma minha gentil, que te partiste
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Trooper57 moveu [[Alma minha gentil, que te partiste]] para [[Obras completas de Luis de Camões/Alma minha gentil, que te partiste]]
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text/x-wiki
#REDIRECIONAMENTO [[Obras completas de Luis de Camões/Alma minha gentil, que te partiste]]
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Trooper57
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Remoção do redirecionamento para [[Obras completas de Luis de Camões/Alma minha gentil, que te partiste]]
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text/x-wiki
{{cabeçalho para portais
|notas=Soneto escrito por {{a|Luís Vaz de Camões}}.
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{{Lista de documentos início|notas=Obra}}
{{documento|título=[[Rhythmas de Luis de Camões/Alma minha gentil, que te partiste|Alma minha gentil, que te partiste]]|galeria=Rhythmas de Luis de Camões.djvu|data=1595|notas=Rhythmas de Luis de Camões}}
{{documento|título=[[Obras completas de Luis de Camões/Alma minha gentil, que te partiste|Alma minha gentil, que te partiste]]|galeria=Obras completas de Luis de Camões II (1843).djvu|data=1843|notas=Obras completas de Luis de Camões}}
{{Lista de documentos final}}
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Página:Dialogos das grandezas do Brasil.pdf/165
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/* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: DIALOGO TERCEIRO que é um páo amarello, que lança de si a mesma tinta, muito rijo ; jataúba vermelho, de formosa côr ; piqueá, muito rijo e de côr amarella; outro páo, que chamam amarello, excellente pera taboado ; jataúba, de côr dourada ; massaranduba e cabaraiba, ambos de côr roxa, maravilhosos pera obra prima, principalmente pera cadeiras ; jacarandá, tão estimado em nossa Espanha pera leitos e outras obras ; condurú, páo de gran...
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que é um páo amarello, que lança de si a mesma tinta, muito rijo ;
jataúba vermelho, de formosa côr ; piqueá, muito rijo e de côr amarella; outro páo, que chamam amarello, excellente pera taboado ;
jataúba, de côr dourada ; massaranduba e cabaraiba, ambos de côr
roxa, maravilhosos pera obra prima, principalmente pera cadeiras ;
jacarandá, tão estimado em nossa Espanha pera leitos e outras
obras ; condurú, páo de grande fortaleza, do qual se fazem bons
chaprões ; sapopira, de que se faz tambem o mesmo, e muitos car-
ros, e tambem liames pera navios ; camaçarim, apropriado pera taboado; outro páo chamado d'arco, porque se fazem delle de muita
fortaleza e rigidão ; zabucai, tambem muito estimado pera eixos de
engenhos e estearia; canafistula de côr parda; camará, rigidissimo,
e por esse respeito assás estimado ; páo-ferro, que lhe deram este
nome ser por igual a elle na fortaleza; outro páo chamado santo,
tão estimado e conhecido por toda a parte ; buraquihi, assás proveitoso ; angelim, de que se faz tanto cabedal nas Indias Orientaes,
e o incorrupto cedro, louvado na Escriptura ; e assim burapiroca,
louro, dos quaes se aproveitam pera armações de casas ; buraem ,
de que se faz taboado pera navios, quasi incorrupto ; corpaúba, de
uma côr preta excellente ; orendeuba, de uma galharda côr verme-
lha; e assim guoanadim, que se produzem por alagadiços e mangues, que se não dão senão pelo salgado . Outro páo, chamado quiri ,
que corta pelo ferro por ser mais duro que elle, cujo branco de
fóra póde supprir a falta do marfim em qualquer obra, e o amago
de dentro demonstra as aguas e côres de um jaspe muito formoso ;
e da mesma maneira é outro páo, que vem de Jaguaribe . Estes poucos me occorreram á memoria entre os muitos de que podera fazer
menção, os quaes são todos das capitanias da parte do Norte do
cabo de Santo Agostinho; porque das do Sul tenho pouca noticia,
por não haver andado por aquellas partes .
ALVIANO
Os dias passados vi nas mãos de um homem ancião um páo da
grossura de uma manilha, que lhe servia de bordão ; parecendo-me
que era grande, e, como tal, devia de ser pesado pera o effeito, ο
159<noinclude>{{c|}}</noinclude>
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text/x-wiki
<noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" />{{c|DIALOGO TERCEIRO}}</noinclude>que é um pão amarello, que lança de si a mesma tinta, muito rijo;
jataúba vermelho, de formosa côr; piqueú, muito rijo e de eôr amarella;
outro páo, que chamam amarello, excellente pera taboado;
jataúba, de côr dourada; ''massaranduba'' e ''cabaraiba'', ambos de côr
roxa, maravilhosos pera obra prima, principalmente pera cadeiras;
jacarandá, tão estimado em nossa Espanha pera leitos e outras
obras; condurú, pão de grande fortaleza, do qual se fazem bons
ebaprões; sapopira, de que se faz tambem o mesmo, e muitos carros,
e tambem liames pera navios; camaçarim, apropriado pera taboado;
outro pão chamado d’arco, porque se fazem delle de muita
fortaleza e rigidão; zabucai, tambem muito estimado pera eixos de
engenhos e estearia; canafistula de côr parda; camará, rigidissimo.
e por esse respeito assás estimado; páo-ferro, que lhe deram este
nome ser por igual a elle na fortaleza; outro páo chamado santo,
tão estimado e conhecido por toda a parte; buraquihi, assás proveitoso;
angelim, de que se faz tanto cabedal nas Indias Orientaes,
e o incorrupto cedro, louvado na Escriptura; e assim burapiroca.
louro, dos quaes se aproveitam pera armações de casas; buraem,
de que se faz taboado pera navios, quasi incorrupto; corpaúba, de
uma côr preta excellente; orendeuba, de uma galharda côr vermelha;
e assim guoanadim, que se produzem por alagadiços e mangues,
que se não dão senão pelo salgado. Outro páo, chamado quiri,
que corta pelo ferro por ser mais duro que elle, cujo branco de
fóra póde supprir a falta do marfim em qualquer obra, e o amago
de dentro demonstra as aguas e côres de um jaspe muito formoso;
e da mesma maneira é outro pão, que vem de Jaguaribe. Estes poucos
me occorreram á memoria entre os muitos de que podera fazer
menção, os quaes são todos das capitanias da parte do Norte do
cabo de Santo Agostinho; porque das do Sul tenho pouca noticia,
por não haver andado por aquellas partes.
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Os dias passados vi nas mãos de um homem ancião um pão da
grossura de uma manilha, que lhe servia de bordão; parecendo-me
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/* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: DIALOGO TERCEIRO Gabriel Soares, Tratado descriptivo, 201-201 descreve a planta e sua cul-tratarei pritura. Esta, ao tempo de Brandonio, já estava diminuida : " meiro dos algodões, que já foram tidos em mais reputação, e deram mais proveito aos que nelle tratavam do que de presente dão .” Antonil, escrevendo em 1711 a Cultura e Opulencia do Brasil, por suas drogas e minas, não levou em conta o algodão . NOTA (19) Coculo, no texto,...
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Gabriel Soares, Tratado descriptivo, 201-201 descreve a planta e sua cul-tratarei pritura. Esta, ao tempo de Brandonio, já estava diminuida :
"
meiro dos algodões, que já foram tidos em mais reputação, e deram mais proveito aos que nelle tratavam do que de presente dão .”
Antonil, escrevendo em 1711 a Cultura e Opulencia do Brasil, por suas
drogas e minas, não levou em conta o algodão .
NOTA (19)
Coculo, no texto, é o mesmo que capulho, isto é, a capsula esverdeada em
que o algodão se contém, dividida em tres ou quatro repartimentos . A palavra não figura em nenhum dos diccionarios da lingua, antigos ou modernos, com essa accepção . Entretanto, tem bôa origem, do latim cucullus, que
mais directamente dá cogulo e logo coculo .
Capulho, do mesmo etymo, soffre a influencia do castelhano cogullo (pronuncia: cogulho) na syllaba final, e provavelmente do synonymo capa, na
inicial .
NOTA (20 )
Neste passo Brandonio arruma as essencias vegetaes que fornecem madeira, e vai de memoria citando apenas aquellas de que tem noticia, abundantes nas Capitanias ao Norte do cabo de Santo Agostinho .
São ellas : assabengita, que não póde ser identificada ; jataúba vermelha
e jataúba de côr dourada, da familia das Urticaceas, Maclura affinis, Miq . , e
M. brasiliensis, Endl.; piqueá, ou piquiá, da familia das Caryocaraceas, Caryocar
brasiliensis, Camb.; amarello, quiçá louro- amarello, da familia das Cordiaceas,
Cordia alliodora, Cham .; massaranduba, da familia das Sapotaceas, Mimusops elata, Fr. All .; cabaraiba ou cabreúva, Leguminosa-Papilionacea, Myrocarpus fastigiatus, Fr. All .; jacarandá, Leguminosa-Papilionacea, Macharium villosum, Vog .; condurú, da familia das Moraceas, Brosimum conduru,
Fr. All .; sapopira ou sucupira , Leguminosa-Papilionacea, Bowdichia virgilioides , HBK .; camaçarim ou camaçari, da familia das Combretaceas, Ter-
minalia fagifolia, Mart . et Zucc .; páo d'arco, da familia das Bignoniaceas,
Tecoma conspicua, P. DC .; Zabucai ou sapucaia, da familia das Lecythidaceas, Lecythis lanceolata, Poir .; cannafistula, Leguminosa-Cæsalpinacea, Cas-sia ferruginea, Schrad .; camará, não identificavel como arvore ; páo-ferro,
Leguminosa-Cæsalpinacea, Apuleia ferrea, Mart .; páo -santo, LeguminosaCæsalpinacea, Zollernia paraensis, Hub .; buraquihi ou bracuhi, arvore indeterminada; angelim, Leguminosa-Papilionacea do genero Andira, de que
ha diversas especies com o mesmo nome vulgar ; cedro, da familia das Meliaceas, Cedrella fissilis, Vell .; buripiroca, talvez arapiraca, Leguminosa-Mimosacea, Piptadenia macrocarpa, Benth .; buraem ou buranhem, da familia das
Sapotaceas, Chrysophyllum glyciphœum, Casar .; corpauba, não identificavel ;
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/* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: DIALOGOS DAS GRANDEZAS DO BRASIL ro, com deixar um azedo gostoso e muito cheiro nas mãos: outra fruta chamada uticroy do tamanho de uma grande pinha, de tanto gosto que tenho por sem duvida ser melhor que a perada e marmelada tão estimada do mundo, o qual se dá em uma arvore muito grande ; araticú, de feição das jacas da India, não má fruta; outra sorte do mesmo araticú, chamado apê, mais pequeno, e grande no gosto, de modo que não ha...
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ro, com deixar um azedo gostoso e muito cheiro nas mãos: outra
fruta chamada uticroy do tamanho de uma grande pinha, de tanto
gosto que tenho por sem duvida ser melhor que a perada e marmelada tão estimada do mundo, o qual se dá em uma arvore muito
grande ; araticú, de feição das jacas da India, não má fruta; outra sorte do mesmo araticú, chamado apê, mais pequeno, e grande
no gosto, de modo que não ha quem se acabe de fartar dellas ( e
um amigo meu fazia delles filhós com ficarem maravilhosos) ; mangava, fruta que pode ser estimada entre as boas que ha no mundo,
a qual semelha ás sorvas de Portugal; o abundante cajueiro, o qual
demonstra que, de soberbo por se desviar das demais arvores, leva
o fruto ao revéz de todas, porque as castanhas, que nas demais se
escondem no amago dellas, nestes cajús campêam por fóra, em fórma que na cabeça do fruto se arrematam de feição que mostra a
quem o não conhece, que por alli teve principio; é formoso e gostoso pomo, do qual se sustenta muita gente em todo o tempo que
duram. A bondade de suas castanhas passo em silencio, porque já
tenho tratado dellas . Janamacaras ( * ) , cuja planta é á feição de
cardos, e dão uma fruta vermelha gostosissima no comer ; pitombas,
que são semelhantes a ameixas ; massarandubas, que se parecem
com as cerejas ; gabiraba, do modo de azeitonas, e são doces ; gotis,
que são do tamanho de ovos ; garuatás, fruta branca e comprida,
que se come chupada, com deixar muito gosto ; zabucai é uma arvore grande, que dá umas pinhas, dentro nas quaes se acham castanhas gostosas pera comer ; abaiba, semelhante aos dedos da mão,
tem o sabor de figos; enguas, que são semelhantes a alfarrobas, e
doces no gosto ; macujé, fruta excellentissima, da feição de peras ;
joambos, como ameixas brancas ; peiti, que semelham a datiles mui
gostosos ; canafistula, que se cria nos mattos em grandes canudos
bastecidos de sua medula.
ALVIANO
Pois, valha-me Deus, como se não leva pera Portugal, pera se
usar lá della ?!
(*)
Por cima se lê, escripto por letra differente : " jamandacaras nasce
na praia".
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<noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" />{{c|DIALOGOS DAS GRANDEZAS DO BRASIL}}</noinclude><noinclude>ro,</noinclude> com deixar um azedo gostoso e muito cheiro nas mãos: outra
fruta chamada utieroy do tamanho de uma grande pinha, de tanto
gosto que tenho por sem duvida ser melhor que a perada e marmelada
tão estimada do mundo, o qual se dá em uma arvore muito
grande; aratici, de feição das jacas da India, não má fruta; outra
sorte do mesmo araticú, chamado apê, mais pequeno, e grande
no gosto, de modo que não ha quem se acabe de fartar dellas (e
um amigo meu fazia delles filhós com ficarem maravilhosos); mangava,
fruta que pode ser estimada entre as boas que ha no mundo,
a qual semelha ás sorvas de Portugal; o abundante cajueiro, o qual
demonstra que, de soberbo por se desviar das demais arvores, leva
o fruto ao revéz de todas, porque as castanhas, que nas demais se
escondem no amago dellas, nestes cajús campêam por fóra, em fór.
ma que na cabeça do fruto se arrematam de feição que mostra a
quem o não conhece, que por alli teve principio; é formoso e gostoso
pomo, do qual se sustenta muita gente em todo o tempo que
duram. A bondade de suas castanhas passo em silencio, porque já
tenho tratado dellas. Janamacaras<ref>Por cima se lê, escripto por letra differente: “jamandacaras nasce na praia”.</ref>, cuja planta é á feição de
cardos, e dão uma fruta vermelha gostosissima no comer; pitombas,
que são semelhantes a ameixas; massarandubas, que se parecem.
com as cerejas; gabiraba, do modo de azeitonas, e são doces; gotis,
que são do tamanho de ovos; garuatás, fruta branca e comprida,
que se come chupada, com deixar muito gosto; zabucai é uma arvore
grande, que dá umas pinhas, dentro nas quaes se acham castanhas
gostosas pera comer; abaiba, semelhante aos dedos da mão,
tem o sabor de figos; enguas, que são semelhantes a alfarrobas, e
doces no gosto; macujé, fruta excellentissima, da feição de peras;
joambos, como ameixas brancas; peiti, que semelham a datiles mui
gostosos; canafistula, se cria nos mattos em grandes canudos
bastecidos de sua medula.
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/* !Páginas não revisadas */ [[Ajuda:SEA|←]] nova página: DIALOGO QUARTO NOTA (14) Depois da horta, Brandonio passa a ordenar um jardim . A maior parte das especies que ahi figuram, pertence a Flora de Portugal, para aqui transplantadas; da Flora brasileira vêm apenas o camará-açú, da familia das Aris- tolochiaceas, Aristolochia brasiliensis, Mart . et Zucc .; curuá, uma Cucurbitacea trepadeira, de que se podia fazer latada ; maracujá, da familia das Passifloraceas, de que vêm citadas as e...
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<noinclude><pagequality level="1" user="Trooper57" />{{c|DIALOGOS DAS GRANDEZAS DO BRASIL}}</noinclude>DIALOGO QUARTO
NOTA (14)
Depois da horta, Brandonio passa a ordenar um jardim . A maior parte
das especies que ahi figuram, pertence a Flora de Portugal, para aqui transplantadas; da Flora brasileira vêm apenas o camará-açú, da familia das Aris-
tolochiaceas, Aristolochia brasiliensis, Mart . et Zucc .; curuá, uma Cucurbitacea trepadeira, de que se podia fazer latada ; maracujá, da familia das Passifloraceas, de que vêm citadas as especies açú, peróba, mexiras e mirim, todas
ornadas de lindas flores e boas para caramanchéis .
ΝΟΤΑ (15)
Para seu pomar, Brandonio arranja ainda especies exoticas, ao lado das
brasileiras; daquellas basta citar a zambôa ou azamboa, que Gabriel Soares já
encontrou aclimatada na Bahia, e o tamarinho ou tamarindo, Leguminosa-Cœsalpinacea, Tamarindus indica, Linn .; das outras mencionem-se a goiaba, da
familia das Myrtaceas, Psidium pomiferum, Linn . , e P. guayava, Raddi, parecendo tratar-se antes da jaboticába, da mesma familia, Myrciaria cauliflora,
Berg ., que dá fruto pegado ao tronco, como se diz no texto e como indica o
nome especifico ; o cajá, da familia das Anacardiaceas, genero Spondias, tão
espalhado que o autor confunde a especie de que trata com o ambare da India,
Spondias mangifera, Willd .; o uticroy, ou oiti-corói, da familia das Rosaceas,
Moquilea rufa, Barb . Rodr .; araticú, da familia das Anonaceas, de que ha diversas especiaes ; mangava, ou mangába, da familia das Apocynaceas, Hancornia speciosa, Gomez ; cajueiro, da familia das Anacardiaceas, Anacardium oс-
cidentale, Linn .; janamacaras, ou mandacarú, da familia das Cactaceas, Cereus hildemannianus, K. Sch .; pitomba, da familia das Sapindaceas, Sapindus esculentus, St. - Hil .; massaranduba, da familia das Sapotaceas, Mimusops
elata, Fr. All .; gabiraba, ou guabiróba, da familia das Myrtaceas, Campomanesia cærulea, Berg .; gotis, ou oiti, da familia das Rosaceas, Mosquilea to-
mentosa, Benth .; garuatás, ou gravatá, já referido ; zabucai, ou sapucaia, idem ;
abaiba, talvez ubaia ou uváia, da familia das Myrtaceas, Eugenia arrabidea,
Berg .; enguas, ou ingá, Leguminosa-Mimosacea, de que ha cerca de vinte
especies no genero Inga; macujé, da familia das Apocynaceas, Couma rigida,
Müll-Arg.; joambus, ou jambo, da familia das Myrtaceas, Jambosa aquea,
DC.; peiti, desconhecido ; canafistula, já referida ; piqueá, da familia das
Rosaceas, Couepia sp .; quamocá, ou cambucá, da familia das Myrtaceas, Myrciaria plicato-costata, Berg .; iba-mirim e uti, desconhecidas ; ubacropari, ou
bacuparí, da familia das Guttiferas, Rheedia macrophyla, Mart .; comixá, ou
grumizama, da familia das Myrtaceas, Eugenia brasiliensis, Camb .; grexiuruba, desconhecida ; eycajerús, ou guajerú, da familia das Rosaceas, Chrysobalanus icaco, Linn .; não-taia-ambus, impossivel de identificar por mal graphado; ubaperunga, ou guapuronga, da familia das Myrtaceas, Marliera to
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